O palco e o mundo
Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.
sexta-feira, 5 de junho de 2015
Algo como um poema, a política do possível
discriminado no movimento LGBT
por viver na rua
discriminado no movimento sem-teto
por ser gay
discriminada no movimento indígena
por ser mulher
discriminada no movimento feminista
por ser índia
discriminado entre os escritores
por ser poeta
discriminado entre os poetas
por não ter bolsa
por ler poesia
onde nada se lia
(– venha para as faculdades Uniuni
onde você aprenderá que é único
onde só tem gente selecionada
onde todo mundo pensa como você)
discriminado por não ter empatia
com a discriminação
dos que discriminam peças que nunca viram
poemas que nunca lerão
discriminado por ter empatia com a leitura
enquanto a pureza do movimento
vem de nunca ler o diferente
os discriminadores querem a pureza
enquanto negros coletam o lixo
em troca de pão e desabrigo
religiosos de todas as cores
pedem faxina étnica nas ruas
(– o café azedou
não podemos nos sentar juntos
porque somos de linhas teóricas diferentes;
com licença que vou dar minha palestra sobre estado de direito)
por ser mulher
discriminada no movimento judaico
discriminada no movimento pró-palestina
discriminada no movimento socialista
por dividir a luta
discriminada à direita
porque combate o assassinato em massa
discriminada à esquerda
porque combate o assassinato em massa
e no centro não há lugar
exceto para cadáveres
(– nesta rede social você poderá criar grupos fechados
eliminar gente por palavras-chave
bloquear preventivamente pela cor de olho dos avatares
venha sem medo viver sem fronteiras!)
discriminado na agência governamental de direitos humanos
porque contrário à execução sumária
discriminado na reunião da associação de moradores
porque contrário à tortura de mendigos
discriminado na assembleia de condomínio
porque favorável às leis trabalhistas
e discriminado fora das reuniões
pois sua cadeira de rodas
não cabe nos buracos das ruas
o partido revolucionário
cindiu-se na vanguarda pós-revolucionária neorradical
e na fração neorrevolucionária pós-radical
acusam-se mutuamente de diversionismo
na luta por cargos públicos
pelo posto de poodle da direita
não trocam mais entre si
figurinhas coloridas de lênin
(– seu currículo é bom,
não a contratamos por causa de preconceito
mas por simples
aplicação das estatísticas correntes
sobre a sua empregabilidade)
nada mais no horizonte público?
esta é a política do possível:
fazer com que as outras políticas
sejam impossíveis
discriminada no movimento LGBTTT
por ser negra
discriminada no movimento negro
por ser mulher
discriminada no movimento feminista
por ser trans
discriminada no movimento trans
por ser negra
da capo
(– torturada. mas lia os autores errados.
– estuprada. mas nunca foi às nossas reuniões.
– mutilada. mas não tinha empatia com a causa,
e a empatia,
filha única do ressentimento,
é a nossa fonte de justiça.
– seus pedaços, no esgoto.
mas pensamos que nela só a morte
foi um traço comum com a humanidade.
– no esgoto, seus pedaços.
repetimos:
nunca houve discriminação
mas simples
aplicação das estatísticas correntes
sobre sua expectativa de vida)
quarta-feira, 3 de junho de 2015
A livraria Leonardo da Vinci, as cores do analfabetismo e as bolhas sectárias de opinião
Eu nunca deixei de comprar livros na Leonardo da Vinci, conhecida livraria que fica no subsolo do prédio Marquês do Herval, no centro do Rio de Janeiro. Deixei de morar no Rio de Janeiro, o que tornou minhas idas a essa livraria bem esporádicas, mas como ela é, de longe, a melhor dessa cidade (e não há nada de parecido em São Paulo, onde moro), tentava passar por ela, se houvesse tempo. Na última vez que fui ao MAM, no fim de 2014, ainda comprei na Piccola Da Vinci que lá existia e já fechou.
Terei que deixar de frequentá-la, porém, pois ela está a fechar, depois de 63 anos de atividade. No fim do ano passado, tive uma rara conversa com Milena Duchiade, e ela afirmou que estava difícil mantê-la. Não me surpreendi, por isso e pela decadência geral daquela cidade e das mudanças nos mercados de bens culturais, que já tinham vitimado a loja de discos Modern Sound.
Eu estava procurando, naquele dia, um título da Cultura e Barbárie. A livreira falou que era a Da Vinci a única a ter os livros dessa editora no Rio de Janeiro - são conhecidas as tremendas dificuldades de distribuição que impedem as pequenas editoras de distribuir seus títulos nas grandes redes.
Na matéria que indiquei acima, vemos a inteligência e a lucidez da livreira que identifica sem ilusões as razões que levaram ao fim da Leonardo da Vinci: não ter café (o Diagnóstico do Setor Livreiro de 2009 apontou a tendência de as livrarias se tornarem prestadoras de outros serviços, que não as vendas de livros), não vender informática, ter pouquíssima autoajuda e, finalmente, o estado lastimável em que está o centro do Rio de Janeiro, sob pó e pedra, que acabou de soterrar os negócios.
Li recentemente que as livrarias independentes voltaram a crescer... em Nova Iorque. Mas o Brasil é outra coisa.
A livraria continuaria se tivesse criado uma seção de livros de colorir? Haveria mais chance, e ainda mais se vendesse também lápis de colorir. Vejam esta lista de mais vendidos ("Publishnews"), de 11 a 17 de maio deste ano: http://www.publishnews.com.br/telas/mais-vendidos/Default.aspx?data=22/05/2015&tipo=semanal
Entre os vinte mais vendidos, 118825 livros de colorir. Do resto, todos os gêneros confundidos, 51637. Quase setenta por cento da quantidade de exemplares vendidos, que vieram de oito títulos, isto é, quarenta por cento da lista.
Uma perda de fôlego dos lápis de cor, deve-se ressaltar. Na semana anterior, os mesmo oito títulos haviam atingido setenta e oito por cento das vendas dos "vinte mais"...
Esses livros, além de ostentarem a virtude altamente inclusiva de não exigir muitas capacidades de leitura, sempre raras no país, possuem um caráter antiestressante certamente bem recebido pelo público. Faço notar que, nesses dois aspectos, tais obras são o oposto do que grande parte da literatura exige, que demanda letramento e não promete, em troca, uma terapia.
No entanto, em defesa dessa literatura, provavelmente a mais condizente com o momento, lembro que ela apresenta certas virtudes de algumas vanguardas, como o apelo sensorial e a interatividade com o público, que não pode ficar passivo diante da obra... Ademais, para os críticos dos livros eletrônicos, que vivem uma fase de declínio, os livros de colorir representam uma espécie de triunfo, talvez o triunfo possível neste país, dos livros impressos.
Talvez eles tenham sobretudo o apelo da nostalgia: eles remontam a época escolar, única, para a maior parte das pessoas, em que há um contato com o livro. Vejam, na pesquisa do Instituto Pró-Leitura, a queda no índice de leitura de 36 a 28% entre 2009 e 2011 (reiterada em pesquisa da Fecomércio-RJ divulgada em abril de 2015); a diminuição, tanto em números percentuais quanto em absolutos, do número de leitores entre 2007 e 2011 (de 95,6 para 88,2 milhões) - sendo leitor aquele que leu pelo menos parte de um livro nos últimos três meses antes da pesquisa. Dezesseis por cento dos não leitores são estudantes, naturalmente, em um país em que analfabetos logram obter diplomas de curso superior em instituições privadas.
O gráfico que mais me doeu foi este:
Além da queda da média, que foi de estonteantes 2,4 livros em 2007, verifica-se o papel da escola, e é provavelmente o que assegura o primeiro lugar de Monteiro Lobato entre os escritores mais admirados em 2007 e 2011. Quando se vê a "leitura por gêneros", até a Bíblia caiu. Subiram, no entanto, contos (eu não sabia disso antes de publicar Cidadania da bomba...) e livros religiosos. Relembro o Diagnóstico do Setor Livreiro de 2009, que apontou os gêneros de literatura infantil e juvenil como os mais vendidos pelas livrarias brasileiras.
O projeto de lei sobre preço fixo do livro, portanto, embora possa ter um impacto positivo sobre as livrarias independentes, não ataca as raízes do problema, que é o do desaparecimento gradual de algo que mal chegou a aparecer no país, que é a leitura.
Por sinal, a própria livreira, na condição de representante das Associações Estadual de Livrarias do Rio de Janeiro e da Nacional no II Seminário do Livro e da Leitura, creio que em 20 de maio de 2010, disse algo parecido na Câmara dos Deputados:
Quase nada, ressalta-se. Imagino (mas sem dados empíricos) que, como a educação é cotidianamente sabotada no Brasil (o espancamento de professores por governos reeleitos é, na verdade, uma realidade que todo dia ocorre em nível micropolítico), seja pelos governos, seja pelos empresários da área, o contato com o livro que ocorre na infância não consiga formar leitores, apesar das compras governamentais. Outra questão, que nem sonho enfrentar agora, está nos impactos dessas compras na pauta editorial e na literatura.
Milena Duchiade, na mesma ocasião, falou de pesquisa financiada pela Câmara Brasileira do Livro, o Sindicato Nacional dos Editores, a ANL e a AEL, a partir dos dados da Pesquisa de Orçamento Familiar - POF, do IBGE. Os dados eram do início do século. É interessante ver que, se os mais pobres de fato não têm como comprar o livro, os mais ricos não o querem, simplesmente:
Voltando à Leonardo da Vinci: li muitas pessoas contando suas histórias da livraria; algumas delas mostram a generosidade de Dona Vanna, que é mesmo uma figura ímpar. Minha memória vai em outra direção: o tempo que o centro do Rio de Janeiro tinha livrarias (continuam existindo, mas em número menor: Berinjela, Folha Seca, o Paço Imperial e outras), muitas delas dedicadas aos livros usados: a Praça Tiradentes era cercada de sebos, e isso acabou (segundo Thiago da Silva Santos, o impacto da Estante Virtual contou para essa extinção). A Livraria Brasileira, tão próxima da Leonardo da Vinci, do outro lado da avenida Rio Branco (no edifício Avenida Central), era a minha preferida e fechou em 2005; a Livraria São José (já bem decadente), também com uma história de uma clientela de intelectuais, em 2014.
Creio que deva ser lamentado o fim de mais uma livraria com livreiros, isto é, pessoas que conhecem os livros, o que as grandes redes (onde a precarização das condições de trabalho é a regra) não têm nem desejam; o fechamento de um lugar onde livros menos óbvios, ou de pequenas editoras e autores independentes, que não lograr chegar às grandes redes, são encontráveis ou encomendáveis (redes como a Livraria Cultura, por exemplo, não encomendam certas editoras); e, finalmente, um lugar de sociabilidade que as lojas virtuais não podem proporcionar. Livrarias como a Leonardo da Vinci são espaços para encontro, o que é tão necessário, especialmente neste momento em que o espaço virtual parece estimular acirramentos vazios de fanatismos satisfeitos de si mesmos e bolhas sectárias de opinião.
P.S.: Na foto, meu gato (um animal que gosta de livrarias), mostrando que a Leonardo da Vinci fez a cabeça dele.
P.S.2: Um terço das vendas mundiais dos livros de colorir Jardim Secreto e Floresta Encantada ocorreu no Brasil, segundo a notícia do Publish News.
Terei que deixar de frequentá-la, porém, pois ela está a fechar, depois de 63 anos de atividade. No fim do ano passado, tive uma rara conversa com Milena Duchiade, e ela afirmou que estava difícil mantê-la. Não me surpreendi, por isso e pela decadência geral daquela cidade e das mudanças nos mercados de bens culturais, que já tinham vitimado a loja de discos Modern Sound.
Eu estava procurando, naquele dia, um título da Cultura e Barbárie. A livreira falou que era a Da Vinci a única a ter os livros dessa editora no Rio de Janeiro - são conhecidas as tremendas dificuldades de distribuição que impedem as pequenas editoras de distribuir seus títulos nas grandes redes.
Na matéria que indiquei acima, vemos a inteligência e a lucidez da livreira que identifica sem ilusões as razões que levaram ao fim da Leonardo da Vinci: não ter café (o Diagnóstico do Setor Livreiro de 2009 apontou a tendência de as livrarias se tornarem prestadoras de outros serviços, que não as vendas de livros), não vender informática, ter pouquíssima autoajuda e, finalmente, o estado lastimável em que está o centro do Rio de Janeiro, sob pó e pedra, que acabou de soterrar os negócios.
Li recentemente que as livrarias independentes voltaram a crescer... em Nova Iorque. Mas o Brasil é outra coisa.
A livraria continuaria se tivesse criado uma seção de livros de colorir? Haveria mais chance, e ainda mais se vendesse também lápis de colorir. Vejam esta lista de mais vendidos ("Publishnews"), de 11 a 17 de maio deste ano: http://www.publishnews.com.br/telas/mais-vendidos/Default.aspx?data=22/05/2015&tipo=semanal
Entre os vinte mais vendidos, 118825 livros de colorir. Do resto, todos os gêneros confundidos, 51637. Quase setenta por cento da quantidade de exemplares vendidos, que vieram de oito títulos, isto é, quarenta por cento da lista.
Uma perda de fôlego dos lápis de cor, deve-se ressaltar. Na semana anterior, os mesmo oito títulos haviam atingido setenta e oito por cento das vendas dos "vinte mais"...
Esses livros, além de ostentarem a virtude altamente inclusiva de não exigir muitas capacidades de leitura, sempre raras no país, possuem um caráter antiestressante certamente bem recebido pelo público. Faço notar que, nesses dois aspectos, tais obras são o oposto do que grande parte da literatura exige, que demanda letramento e não promete, em troca, uma terapia.
No entanto, em defesa dessa literatura, provavelmente a mais condizente com o momento, lembro que ela apresenta certas virtudes de algumas vanguardas, como o apelo sensorial e a interatividade com o público, que não pode ficar passivo diante da obra... Ademais, para os críticos dos livros eletrônicos, que vivem uma fase de declínio, os livros de colorir representam uma espécie de triunfo, talvez o triunfo possível neste país, dos livros impressos.
Talvez eles tenham sobretudo o apelo da nostalgia: eles remontam a época escolar, única, para a maior parte das pessoas, em que há um contato com o livro. Vejam, na pesquisa do Instituto Pró-Leitura, a queda no índice de leitura de 36 a 28% entre 2009 e 2011 (reiterada em pesquisa da Fecomércio-RJ divulgada em abril de 2015); a diminuição, tanto em números percentuais quanto em absolutos, do número de leitores entre 2007 e 2011 (de 95,6 para 88,2 milhões) - sendo leitor aquele que leu pelo menos parte de um livro nos últimos três meses antes da pesquisa. Dezesseis por cento dos não leitores são estudantes, naturalmente, em um país em que analfabetos logram obter diplomas de curso superior em instituições privadas.
O gráfico que mais me doeu foi este:
Além da queda da média, que foi de estonteantes 2,4 livros em 2007, verifica-se o papel da escola, e é provavelmente o que assegura o primeiro lugar de Monteiro Lobato entre os escritores mais admirados em 2007 e 2011. Quando se vê a "leitura por gêneros", até a Bíblia caiu. Subiram, no entanto, contos (eu não sabia disso antes de publicar Cidadania da bomba...) e livros religiosos. Relembro o Diagnóstico do Setor Livreiro de 2009, que apontou os gêneros de literatura infantil e juvenil como os mais vendidos pelas livrarias brasileiras.
O projeto de lei sobre preço fixo do livro, portanto, embora possa ter um impacto positivo sobre as livrarias independentes, não ataca as raízes do problema, que é o do desaparecimento gradual de algo que mal chegou a aparecer no país, que é a leitura.
Por sinal, a própria livreira, na condição de representante das Associações Estadual de Livrarias do Rio de Janeiro e da Nacional no II Seminário do Livro e da Leitura, creio que em 20 de maio de 2010, disse algo parecido na Câmara dos Deputados:
O último ENAF - Estudo Nacional sobre Alfabetização Funcional, diz que apenas 25% dos alfabetizados - assim considerados como tal - têm capacidade plena de leitura. Ou seja, apenas 25% daqueles que, teoricamente, saberiam ler, e dessa base estamos excluindo os realmente analfabetos.
A produção editorial, dados da CBL de 2008, foi de 211 milhões de livros para uma população de 190 milhões de habitantes, o que dá 1,1 livro produzido por ano por habitante. Desse total, a maior parte foi comprada pelo Governo, como já foi dito aqui pelo representante da Belelivros. O Governo brasileiro é um dos maiores compradores de livros do mundo; o livro didático é a grande válvula de escape das editoras, e as compras governamentais sustentam a indústria editorial. Não houvesse isso, se retirarmos dos 211 milhões de livros os 120 milhões ou 130 milhões comprados pelo Governo, sobrará quase nada.
Quase nada, ressalta-se. Imagino (mas sem dados empíricos) que, como a educação é cotidianamente sabotada no Brasil (o espancamento de professores por governos reeleitos é, na verdade, uma realidade que todo dia ocorre em nível micropolítico), seja pelos governos, seja pelos empresários da área, o contato com o livro que ocorre na infância não consiga formar leitores, apesar das compras governamentais. Outra questão, que nem sonho enfrentar agora, está nos impactos dessas compras na pauta editorial e na literatura.
Milena Duchiade, na mesma ocasião, falou de pesquisa financiada pela Câmara Brasileira do Livro, o Sindicato Nacional dos Editores, a ANL e a AEL, a partir dos dados da Pesquisa de Orçamento Familiar - POF, do IBGE. Os dados eram do início do século. É interessante ver que, se os mais pobres de fato não têm como comprar o livro, os mais ricos não o querem, simplesmente:
São esses os que poderiam ter comprado os livros da Leonardo da Vinci, e não o fizeram, bem como de outras livrarias. O número delas vem diminuindo no Brasil, como havia ressaltado a livreira na Câmara dos Deputados:
As despesas das famílias se distribuem nessa ordem; primeiro, os aparelhos eletroeletrônicos e seus conteúdos; depois, a telefonia celular - as famílias despendiam já em 2002 e 2003 mais dinheiro com telefonia celular, assinatura e aparelhos, do que com todo o lazer fora de casa (parque de diversões, discoteca, forró, motel, cinema, teatro, tudo, enfim). Só depois vem a leitura. Nessa área, mais da metade, 53%, entre jornais e revistas, mais leitores de revistas do que de jornais. Depois, vem o livro didático pago, porque o livro didático não pago entra como doação, embora apareça na pesquisa. As pessoas informam se receberam o livro em doação.
Então, primeiro, jornais e revistas: 53%; depois, livros didáticos: 20%; livros em geral: 10%, sem ser didático. Quase o mesmo gasto em fotocópias. Em relação ao livro técnico, gastava-se, em 2002-2003, mais dinheiro com fotocópia do que com livros técnicos.
Os senhores poderão afirmar: "É porque o livro é caro. É porque não tem". Não. Foi estratificado esse gasto por renda familiar e por nível de instrução do chefe da família, da pessoa de referência da família, para não chamar de chefe e ser politicamente correta. Apenas um quarto, 25% das famílias cuja renda familiar está acima de 15 salários mínimos gasta algum dinheiro com livro não didático. Portanto, não é uma questão de renda, porque elas gastaram com televisão, com telefone celular, com outros itens.
O livro não tem valor. Como disse a professora, o livro, na esfera simbólica, não é considerado um prêmio, não é considerado um valor, mas um castigo. Essa é uma questão extremamente grave.
Então, os senhores poderiam ainda afirmar: "Mas existem as pessoas com instrução. Elas são a nossa salvação". Engano. Menos de 30% das famílias cujos chefe têm nível superior - vejam: não é que tenha largado a faculdade; ele completou - continuam comprando livro. Compram outras coisas, mas não compram livros. Temos de enfrentar essa situação real.
Trouxe dados que o IBGE publicou, semana passada, em cima da pesquisa Perfil dos Municípios Brasileiros - 2009, baixados download grátis no site do IBGE.Talvez este último problema esteja relacionado com certas instituições de ensino superior, que aumentaram em número com os governos de Fernando Henrique Cardoso e, com a política para o ensino superior das administrações do PT de jogar milhões de recursos públicos em sofríveis instituições privadas, agravaram um curioso tipo de analfabetismo: o diplomado. Creio que, nesse sentido, a universidade, no Brasil, vem agravando o problema do analfabetismo.
Essa pesquisa foi feita com base em informações que as 5.565 Prefeituras Municipais de todo o Brasil fornecem. Foram comparados os dados de 2009 com os de 1999. O número de municípios que possui livraria baixou de 35% para 28%. Significa dizer que entre 1999 e 2009 um grande número de municípios deixou de ter, pelo menos, uma livraria.
Entretanto, vamos analisar o que sucedeu no tocante às unidade de ensino superior. Aumentou 95%, no período, o número de municípios que possuem instituições de ensino superior. Para se ter ideia, no Brasil há mais municípios com unidades de ensino superior - 2.132 - do que municípios que possuem livrarias, 1.557, segundo esses dados. [...]
Temos, então, esse paradoxo: quase 600 municípios onde existe uma instituição de ensino superior - que instituição de ensino superior será essa, não me perguntem, não me comprometam - não possuem livraria alguma!
Voltando à Leonardo da Vinci: li muitas pessoas contando suas histórias da livraria; algumas delas mostram a generosidade de Dona Vanna, que é mesmo uma figura ímpar. Minha memória vai em outra direção: o tempo que o centro do Rio de Janeiro tinha livrarias (continuam existindo, mas em número menor: Berinjela, Folha Seca, o Paço Imperial e outras), muitas delas dedicadas aos livros usados: a Praça Tiradentes era cercada de sebos, e isso acabou (segundo Thiago da Silva Santos, o impacto da Estante Virtual contou para essa extinção). A Livraria Brasileira, tão próxima da Leonardo da Vinci, do outro lado da avenida Rio Branco (no edifício Avenida Central), era a minha preferida e fechou em 2005; a Livraria São José (já bem decadente), também com uma história de uma clientela de intelectuais, em 2014.
Creio que deva ser lamentado o fim de mais uma livraria com livreiros, isto é, pessoas que conhecem os livros, o que as grandes redes (onde a precarização das condições de trabalho é a regra) não têm nem desejam; o fechamento de um lugar onde livros menos óbvios, ou de pequenas editoras e autores independentes, que não lograr chegar às grandes redes, são encontráveis ou encomendáveis (redes como a Livraria Cultura, por exemplo, não encomendam certas editoras); e, finalmente, um lugar de sociabilidade que as lojas virtuais não podem proporcionar. Livrarias como a Leonardo da Vinci são espaços para encontro, o que é tão necessário, especialmente neste momento em que o espaço virtual parece estimular acirramentos vazios de fanatismos satisfeitos de si mesmos e bolhas sectárias de opinião.
P.S.: Na foto, meu gato (um animal que gosta de livrarias), mostrando que a Leonardo da Vinci fez a cabeça dele.
P.S.2: Um terço das vendas mundiais dos livros de colorir Jardim Secreto e Floresta Encantada ocorreu no Brasil, segundo a notícia do Publish News.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Caravana Sudamérica 43 e as Mães de Maio: massacres no México e no Brasil
Familiares dos 43 estudantes assassinados em Ayotzinapa chegarão em São Paulo no dia 2 de junho. Divulgo abaixo o texto da Caravana Sudamérica 43 e sua lista de apoiadores.
A terrível história é mais um dos crimes do Estado mexicano: estudantes da Normal Rural de Ayotzinapa foram executados pela polícia municipal em setembro de 2014: leiam a história, que teve repercussão mundial. Os estudantes estavam "fazendo uma coleta de recursos entre a população local para a manutenção da sua escola e para assistir a marcha nacional contra o esquecimento da matança dos estudantes de 1968". Acabaram sendo alvo de outro massacre.
Eu sabia dessa chegada porque ela foi um dos assuntos do último encontro do seminário das quartas-feiras da Faculdade de Filosofia da USP, dia 27 de maio, em que estiveram representantes das Mães de Maio. As Mães receberão os familiares mexicanos. Como se sabe, elas também representam famílias que sofreram um massacre: o assassinato de centenas de jovens na periferia de São Paulo em maio de 2006.
O crime foi impressionante: o número de vítimas foi maior do que o de militantes políticos durante os anos da ditadura militar (menor, claro, do que o de índios e camponeses mortos pela ditadura, que são mais de dez mil). E gerou resposta imediata do Ministério Público do Estado de São Paulo, em 25 de maio: um elogio público à Polícia Militar... O que é uma das razões pelas quais as Mães de Maio pedem a federalização desses crimes.
Foram três membros do movimento ao seminário. Débora Maria da Silva explicou que os mortos das Mães de Maio "têm nome e sobrenome", exigindo memória e justiça, e que elas não querem "poder de gabinete", mas "poder de transformação": sabiamente, não querem se institucionalizar, mesmo na Comissão da Verdade da Democracia, que segue trabalhando: "Este movimento tem cérebro. Nós não somos coitadas. Somos guerreiras, nós não nos curvamos pro Estado."
A uma indagação sobre o deputado estadual Telhada, do PSDB, que é contrário ao movimento, Débora respondeu que ele é um "produto da sociedade paulistana", "que não vê o outro da periferia". Sobre o Ministério Público estadual, ela reiterou que os procuradores não fazem a fiscalização externa da polícia e que pedem o arquivamento dos inquéritos, apesar dos laudos apontarem para execuções.
Danilo Dara informou que estão produzindo novo livro para os 10 anos dos crimes e criticou o "mercado de direitos humanos": acadêmicos e organizações não governamentais que usaram as Mães para promoção própria. Ouçam-no falar sobre a desmilitarização da polícia (outro dos temas do seminário) nesta entrevista à Central Autônoma.
Francilene Gomes Fernandes falou da dissertação de mestrado em Assistência Social, pela PUC-SP, que elaborou sobre os crimes de maio, "Barbárie e direitos humanos: as execuções sumárias e os desaparecimentos forçados de maio (2006) em São Paulo", e a dificuldade ética e metodológica de estudar o objeto em que ela diretamente implicada, que acabou se tornando uma vantagem. E ela explicou que as Mães não tiveram "nenhum apoio da Defensoria Pública em nenhum momento".
Entre outras perguntas, o professor Paulo Arantes quis saber da relação do movimento com os familiares de mortos e desaparecidos políticos. Francilene afirmou que "não existe hierarquização de nossas lutas", "é um crime de lesa-humanidade". Alguns dão apoio, como Ângela Mendes de Almeida e Alípio Freire, mas Danilo denunciou que "a maioria ou silencia ou está se lambuzando em cargos". Eles mencionaram a atuação de Adriano Diogo, que foi preso político da ALN (Ação Libertadora Nacional), presidiu a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva" e apoiou a fundação da Comissão das Mães de Maio.
Foi uma ocasião importante para a discussão da possibilidade de construir a democracia e a justiça no Brasil. E a vinda do Movimento do México será importante para ampliar o debate a articular ações, imagino.
No contato com as famílias mexicanas, vemos a ampliação da rede desses movimentos de direitos humanos, que não devem se circunscrever aos limites nacionais, sendo as execuções sumárias e os desaparecimentos forçados os instrumentos criminosos de "gestão" das populações que os Estados da América Latina (e, sim, o Brasil pertence à América Latina) tantas vezes empregam com moradores das periferias, bem como com os negros e as populações indígenas.
Sugiro o acompanhamento das notícias da Caravana no portal do Coletivo Antiproibicionista DAR.
Depois de passarem por Argentina e Uruguai, familiares dos 43 estudantes desaparecidos pelo Estado mexicano em setembro do ano passado desembarcam em São Paulo na noite desta segunda-feira para a primeira das três etapas brasileiras da Caravana 43 Sudamérica. A iniciativa, organizada por coletivos e movimentos sociais autônomos, busca demonstrar solidariedade com a luta dos familiares e fazer ecoar suas demandas por justiça e apresentação com vida dos desaparecidos.Inaugurando os eventos no dia 2, a partir das 14h, haverá uma coletiva de imprensa na qual os familiares explicarão melhor a Caravana Sul-americana e suas demandas. Ela acontecerá na sede da Kiwi Cia. de Teatro, no centro da cidade. Os familiares não estarão disponíveis para entrevistas no restante dos dias.Haverá ainda um debate público, a ser realizado às 19h do dia 2 de junho e do qual participarão as Mães de Maio, também no centro, e um sarau na noite do dia 3 de junho, no Taboão da Serra, organizado pelo Sarau do Binho em conjunto com outros saraus da periferia paulista, no qual será prestada solidariedade e homenagem aos familiares de Ayoztinapa e sua luta.O debate do dia 2 de junho será precedido de uma intervenção teatral pública na Praça da Sé, às 18h, organizada pelo grupo de teatro Coletivo de Galochas, e a agenda dos familiares contará ainda com uma visita a uma aldeia indígena na zona sul da cidade.A Caravana 43 Sudamérica começou no dia 16 de maio e no total passará por sete cidades: no Brasil incluirá também Rio de Janeiro e Porto Alegre. O recorrido acontece nos mesmos moldes de movimentações recentemente organizadas nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa, onde familiares dos desaparecidos passaram por doze países.Mais informações:Programação pública completa2 de junho (terça), às 14h – Coletiva de imprensa com os familiaresKiwi Cia de Teatro: Rua Frederico Abranches, 1892 de junho (terça),às 18h, intervenção teatral na Praça da Sé. Coletivo de Galochas.às 19h – Debate público – Caravana 43: familiares de Ayotzinapa, Mães de Maio e suas resistênciasQuadra dos bancários: rua Tabatinguera, 1923 de junho (quarta), às 20h – Ayotzinapa somos todxs – Sarau do Binho com outros sarausEspaço Clariô: Rua Santa Luzia, 96 – Taboão da SerraColetivos que compõem a Caravana em São Paulo:Mães de MaioMovimento Passe Livre – SPCasa Mafalda Espaço AutônomoColetivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais CATSORede 2 de OutubroEspacio de Lucha Contra el Olvido y la Represión (ELCOR) – Red Contra la Repression (México)Margens ClínicasComboio Moinho VivoRizoma Tendência Estudantil LibertáriaColetivo DAR (Desentorpecendo a Razão)Rede Extremo SulComissão Yvyrupá
P.S.: As Mães de Maio deram um lindíssimo fora na editora Boitempo nesta nota: http://passapalavra.info/2015/06/104815
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Uma casa comum para o Estado, os Índios, os Extrativistas e os Sem-Terra? O III Colóquio Habitat e Cidadania
Fui convidado a participar de grupo de trabalho sobre direito ao território e legislação fundiária no III Colóquio Habitat e Cidadania: Habitação no campo, nas águas e nas florestas, que ocorreu entre 12 e 15 de maio deste ano, na Universidade de Brasília. Esse GT contou com os professores Karla Hora (que o presidiu) e Ariovaldo Umbelino de Oliveira.
A comissão organizadora do evento era formada por integrantes do Grupo de Pesquisa em Habitação e Sustentabilidade do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP (HABIS/IAU/USP), do Centro de Ação Social em Arquitetura Sustentável da Faculdade de arquitetura e Urbanismo da UnB (CASAS/FAU/UnB) e do Grupo de Estudos em Reforma Agrária e Habitat do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFRN (GERAH/PPGAU/UFRN).
O colóquio anterior havia ocorrido na USP São Carlos em maio de 2011 e produziu um interessante documento com o resumo das discussões e uma série de propostas para o Estado, atacando a falta de isonomia entre os programas para a cidade e para o campo:
O programa federal Minha Casa, Minha Vida, acabou sendo estendido para o meio rural entre o II e o III Colóquios, como era a demanda dos movimentos no campo. No entanto, com que limites isso se deu? No evento, os problemas se mostraram bem claramente.
A organização do colóquio, além de trazer pessoas da academia, chamou representantes dos movimentos sociais, das populações indígenas e do governo. Ademais, pensou na habitação não apenas nos campos, mas incluiu a perspectiva dos moradores das florestas e das águas, incluindo os pescadores.
As divergências entre os grupos presentes foram muito significativas: a Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar (FETRAF) e o Movimento dos Sem-Terra (MST), apesar de relatarem experiências que demonstram que o programa mal funciona e, de fato, não é adequado para a diversidade de culturas e de climas no Brasil, muito menos para as dificuldades de logística fora do ambiente urbano, defenderam o Minha Casa, Minha Vida e o governo federal. Não foi à toa que Kátia Abreu pode ser ministra... Os índios e os extrativistas, pelo contrário, foram bastante críticos, bem como a maior parte dos representantes da academia.
Era uma boa ideia, ou estratégia consequente, defender o programa? Interessante análise de Mariana Fix e Pedro Arantes, "Minha casa, Minha Vida, o pacote habitacional de Lula", de 2009 (quando o programa ainda se circunscrevia à moradia urbana), argumenta que ele ressuscitava a ideologia da casa própria da ditadura militar "num contexto de apaziguamento das lutas sociais e de conformismo em relação às estruturas do sistema". Ademais,
A maior parte do evento foi transmitida ao vivo e gravada pela PósTV. Indico abaixo os vídeos, sem me preocupar em resumi-los, pois ainda não vi todos.
1. Conferência de abertura, do geógrafo, professor da USP, Ariovaldo Umbelino de Oliveira. É impressionante vê-lo falando da reforma agrária no Brasil, atualizando os dados de seu livro Modo de produção capitalista, agricultura e reforma agrária, explicando a não-reforma agrária do governo Lula até a reforma mínima do governo Rousseff. Antes de chegar à atualidade, ele dá uma grande aula sobre a história da legislação fundiária no Brasil desde os tempos coloniais.
É impressionante o que ele diz, a partir dos dados oficiais, sobre a grilagem que ocorreu no Brasil entre 2003 e 2014 - sem paralelo até mesmo durante a ditadura militar, segundo o geógrafo.
A maior parte das terras improdutivas está no "paraíso do agronegócio".
Ele trata dos diversos episódios de corrupção no INCRA e das operações da Polícia Federal. E destacou que o "calcanhar de aquiles do agronegócio" é a propriedade fundiária: os ruralistas "sabem que suas terras estão sobre ilícito".
2. Mesa de 13 de maio, manhã: Representantes do governo se apresentaram, do Ministério das Cidades e da Caixa Econômica, bem como militantes camponeses e quilombolas.
Fátima Vieira, do MST/MS, mostrou quadros que pareciam vir de um representante da Caixa Econômica, de tão governistas que eram. Uma doutoranda da USP questionou a falta de problematização do programa, o que gerou discussão.
Girlene dos Santos falou do Projeto Brasil Quilombola, que seria bonito, porém, "para chegar à política, é preciso passar por uma série de entraves": problemas com o INCRA, o financiamento, e a logística. E revelou que já havia recebido dez ligações de pedreiros que queriam deixar as obras porque não haviam recebido pagamento.
Agmar Lima, que, além de representante quilombola em Minas Gerais, é vereador pelo PT, também falou dos problemas de execução na ponta: não haver estradas, fornecedores não quererem atender... Porém, no debate, afirmou que "era fácil problematizar" e que "nós aceitamos o que o governo brasileiro e suas instituições nos dá". E reclamou que a academia não ia para as comunidades quilombolas: "nós não temos ninguém nosso na academia".
Muito interessante foi a fala de Célia das Neves, da Reserva extrativista Marinha Mãe Grande (PA), sobre a inadequação do programa e da legislação existente para as comunidades de pescadores. Ela denunciou que o maior estuário do mundo, do Amapá ao Maranhão, estava ameaçado pela construção de um porto para a Vale (eleita, como sempre deve-se lembrar, a pior empresa do mundo em 2012). Vejam-na empregar o neologismo "maritório", junção de mar e território, que, em sua imaginação conceitual, surpreendeu o professor Ariovaldo.
3. Mesas de 13 de maio, tarde: Falas de representantes do Ministério das Cidades, do MST, da FETRAF e da ONG Núcleo de Cultura Indígena.
Cedenir Oliveira, do MST/RS, em alusão ao debate anterior, defendeu o modelo do Minha Casa, Minha Vida: "nós temos que olhar os interesses coletivos dos sujeitos, senão você pode cair no individualismo"; "você pode fazer quatro ou cinco projetos e a família se adapta".
Ailton Krenak (vejam-no em 1988, defendendo o capítulo dos povos indígenas na Constituinte, em trecho do filme "Índio Cidadão?" de Rodrigo Arajeju) se apresentou, fez uma homenagem a Osmarino Amâncio (a partir de 1 hora e 37 minutos do vídeo), com quem criou a União dos Povos da Floresta em 1987, e criticou severamente o Minha Casa, Minha Vida: "estamos cada vez mais introjetando em nossas políticas públicas os modelos de urbanização"; "meu povo teve que lutar por muito tempo para continuar a viver em beira de rio".
Elvio Motta, coordenador nacional da FETRAF, falou dos problemas com os fornecedores, com a mão de obra, mas elogiou o governo, e afirmou que "as melhores casas são dos movimentos sociais organizados". Ressaltou, porém, a existência de máfias no programa, com entidades organizadoras falsas: o Ministério precisaria "separar o joio do trigo".
Em resposta a pergunta, Cedenir Oliveira defendeu a autoconstrução assistida, que seria uma forma de evitar o assistencialismo. Ailton Krenak fez uma declaração veemente e elegante, explicando que estava no encontro errado, não com os movimentos sociais que queriam mudar o país, mas com aqueles que simplesmente aceitavam "bugigangas" do governo. Ele não teria vindo para "homologar políticas" que a longo prazo seriam danosas e cujos efeitos teriam que ser desfeitos depois. E deixou a mesa!
Foi o momento mais dramático do Colóquio, em que a oposição entre estes movimentos de sem-terra e as populações tradicionais, fortemente discriminadas pelo governo federal, apareceu de forma inegavelmente flagrante.
Não pude ver a mesa seguinte, com representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (vejam, a partir de 3'30'', a explicação de como o direito à moradia está sendo "sistematicamente violado" na construção de barragens) e do Movimento Camponês Popular, pois aproveitei para assistir a algumas aulas no Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais, em que falaram Ailton Krenak e Manuela Carneiro da Cunha.
4. Mesa de 14 de maio, manhã: Osmarino Amâncio, previsto para o dia anterior, acabou falando nesse dia, e denunciou que estava sendo alvo de criminalização pelo ICMBio (vejam a história no Índio é Nós: http://www.indio-eh-nos.eco.br/2015/05/26/carta-dos-servidores-do-icmbio-e-a-criminalizacao-dos-povos-da-floresta/). O governo federal está criminalizando as práticas tradicionais das comunidades extrativistas; para a atual administração, o seringueiro construir uma casa com a madeira caída na floresta é um crime ambiental, mas a construção da Usina de Belo Monte é perfeitamente lícita!
Vejam o que Osmarino espirituosamente diz dos três candidatos mais votados na última eleição presidencial.
Foi muito impressionante a fala de Smri'a'u Xavante, José Tserenhomo Xavante e Tseredzu Xavante, da Comunidade Xavante de Ripá (MT) falaram com Alexandre Lemos (que fez a tradução; dos Xavantes, somente o cacique, José, falava em português). Eles rejeitaram as casas do govenrno e preferiram ficar com suas tradições - como mostra este filme, "Uma casa, uma vida", um dos curtas exibidos no Colóquio à noite.
Houve também falas dos representantes da COOPERHAF (SC) e do CREHNOR (RS), que evidenciaram as dificuldades de financiamento e de construção para a habitação no campo. A professora Amadja Borges, da UFRN, fez uma interessante fala crítica, nos comentários, às políticas do governo federal.
5. Mesa de 14 de maio, tarde: Perdi a maior parte desta mesa, que tratou das experiências do Peru e do Uruguai, com falas de Miguel Angel Hadzich, Sandra Graciela Vegara Davila, Martin Batalla e Gonzalo Balarini.
6. Plenária final: As discussões dos grupos de trabalho foram expostas. O professor João Marcos Lopes fez um histórico dos colóquios e dos programas governamentais. Nos debates, pode-se ver a representante do Ministério das Cidades afirmar que não haverá mais recursos neste ano nem no ano que vem.
Por causa da viagem de volta, não fiquei até o final. Eu não tinha visto Rodolfo Sertori, a partir de 2 horas e 11 minutos, criticar com toda razão que "a gente deixa de lutar por terra por lutar por verba do Minha Casa Minha Vida [...] um programa que só surgiu por demanda de construtora. Todo mundo sabe disso. Isso não é segredo."; "O Ministério das Cidades não é nosso parceiro. Ministério das Cidades é parceiro de construtora". Deve-se lembrar que ele administra o programa também para a área rural...
Sertori conta as dificuldades do próprio Colóquio: tiraram "dinheiro do bolso". O INCRA nunca respondeu aos telefonemas da organização, e a Funai teria apenas perguntado quando foi contactada por causa deste evento, "o que a gente tem a ver com isso?". Os índios presentes compreenderam a questão muito melhor do que a Funai...
A partir de 2 horas e 26 minutos, Célia das Neves retoma a palavra e critica a medida provisória 665, que prejudicou, entre tantas outras categorias, os pescadores, por conta do seguro defeso, e o decreto 8425, de 31 de março de 2015, que "não reconhece a cadeia produtiva familiar dos pescadores", com discriminação de gênero (o que é impressionante, lembrando que foi uma mulher, presidenta da república, que assinou esta norma): as mulheres deixariam de ser consideradas pescadoras, ela explica.
Ainda será elaborado o documento final do III Colóquio. Achará uma casa comum para todas essas posições divergentes, que revelam os limites e as concessões da esquerda que está agora no poder?
P.S.: Em agosto de 2015, tive conhecimento da tese de doutorado de Alexander Hilsenbeck, "O MST no fio da navalha: dilemas, desafios e potencialidades da luta de classes", defendida em 2013 no programa de pós-graduação em ciência política da Unicamp. Faço notar que banca era composta por intelectuais simpáticos ao Movimento, incluindo Bernardo Mançano Fernandes, que publicou com Stedile.
No trabalho, que levanta parcerias de empresas transnacionais com o MST, ainda anterior ao impacto do "Minha casa, minha vida" nesse movimento, a guinada à direita é explicada desta forma:
A comissão organizadora do evento era formada por integrantes do Grupo de Pesquisa em Habitação e Sustentabilidade do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP (HABIS/IAU/USP), do Centro de Ação Social em Arquitetura Sustentável da Faculdade de arquitetura e Urbanismo da UnB (CASAS/FAU/UnB) e do Grupo de Estudos em Reforma Agrária e Habitat do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFRN (GERAH/PPGAU/UFRN).
O colóquio anterior havia ocorrido na USP São Carlos em maio de 2011 e produziu um interessante documento com o resumo das discussões e uma série de propostas para o Estado, atacando a falta de isonomia entre os programas para a cidade e para o campo:
O direito à moradia foi constitucionalizado por meio da emenda n. 26, de 14 de fevereiro de 2000. Se a sua efetividade nas cidades é problemática, no campo, onde historicamente o acesso aos direitos e à justiça é menor, o quadro se mostra mais difícil.A discriminação da população rural dentro das políticas públicas habitacionais do governo federal acentua-se na medida em que não há recursos previstos, dentro do Minha Casa, Minha Vida, para a provisão habitacional em assentamentos de reforma agrária. Para solucionar a falta de habitação, a população assentada passou a contar exclusivamente com recursos do INCRA, por meio do programa Crédito Instalação, que prevê 15 mil reais para a construção de novas moradias e 8 mil reais para reforma. No entanto, este órgão do governo federal não possui técnicos em número e qualificação adequada suficiente para implementar uma política habitacional justa e eficiente para os assentamentos rurais. Também não disponibiliza assessoria técnica especializada e gratuita para um acompanhamento satisfatório dos empreendimentos.Diante deste cenário, o II Colóquio Habitat e Cidadania: Habitação Social no Campo configurou-se como uma iniciativa que pretende retomar e qualificar este debate em âmbito nacional, propondo a articulação e a formulação de estratégias e ações que possam orientar mudanças significativas na política de habitação social no Brasil, cujo horizonte seria a isonomia de recursos, de atendimento, de tratamento, de consideração, enfim,de direitos entre o urbano e o rural.
O programa federal Minha Casa, Minha Vida, acabou sendo estendido para o meio rural entre o II e o III Colóquios, como era a demanda dos movimentos no campo. No entanto, com que limites isso se deu? No evento, os problemas se mostraram bem claramente.
A organização do colóquio, além de trazer pessoas da academia, chamou representantes dos movimentos sociais, das populações indígenas e do governo. Ademais, pensou na habitação não apenas nos campos, mas incluiu a perspectiva dos moradores das florestas e das águas, incluindo os pescadores.
As divergências entre os grupos presentes foram muito significativas: a Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar (FETRAF) e o Movimento dos Sem-Terra (MST), apesar de relatarem experiências que demonstram que o programa mal funciona e, de fato, não é adequado para a diversidade de culturas e de climas no Brasil, muito menos para as dificuldades de logística fora do ambiente urbano, defenderam o Minha Casa, Minha Vida e o governo federal. Não foi à toa que Kátia Abreu pode ser ministra... Os índios e os extrativistas, pelo contrário, foram bastante críticos, bem como a maior parte dos representantes da academia.
Era uma boa ideia, ou estratégia consequente, defender o programa? Interessante análise de Mariana Fix e Pedro Arantes, "Minha casa, Minha Vida, o pacote habitacional de Lula", de 2009 (quando o programa ainda se circunscrevia à moradia urbana), argumenta que ele ressuscitava a ideologia da casa própria da ditadura militar "num contexto de apaziguamento das lutas sociais e de conformismo em relação às estruturas do sistema". Ademais,
[...] não se encontra no pacote qualquer preocupação com a qualidade do produto e seu impacto ambiental, a não ser a que é posta pelo próprio capital da construção e suas pífias certificações de qualidade, que garantem na verdade sua viabilidade como mercadoria, ou seja, a ratificação da prevalência do valor de troca sobre o valor de uso.
O amplo repertório nacional e internacional de soluções para a habitação social é sumariamente ignorado na formulação do pacote e nas moradias padrão apresentadas pela Caixa Econômica. As duas tipologias propostas pela Caixa foram divulgadas pela instituição como solução padrão para todo o território nacional, desconsiderando condições climáticas, culturais, geográficas diferenciadas do Brasil. Elas já estão pré-aprovadas (o que agiliza prazos e diminui o tempo de análise de projetos) e se tornaram referência para incorporadores imobiliários como parâmetro para os estudos de viabilidade e rentabilidade dos empreendimentos – evidentemente que os empresários não pretendem fazer nada melhor ou maior para a faixa de 0 a 3 salários, sob pena de reduzirem seus lucros, e até já estudam a supressão de paredes internas das unidades habitacionais.Os defeitos estruturais desse Programa, concebido para as construtoras e não para a população, em sua financeirização e sua recusa à diversidade cultural e ambiental, confirmaram-se no meio rural. Mesmo adotando um discurso de defesa do governo, o MST e a FETRAF não puderam negar os problemas, embora acreditem que eles possam ser solucionados simplesmente com maiores investimentos. Tendo a pensar que se trata de um engano, como Ailton Krenak denunciou no Colóquio: a política está errada desde sua concepção.
A maior parte do evento foi transmitida ao vivo e gravada pela PósTV. Indico abaixo os vídeos, sem me preocupar em resumi-los, pois ainda não vi todos.
1. Conferência de abertura, do geógrafo, professor da USP, Ariovaldo Umbelino de Oliveira. É impressionante vê-lo falando da reforma agrária no Brasil, atualizando os dados de seu livro Modo de produção capitalista, agricultura e reforma agrária, explicando a não-reforma agrária do governo Lula até a reforma mínima do governo Rousseff. Antes de chegar à atualidade, ele dá uma grande aula sobre a história da legislação fundiária no Brasil desde os tempos coloniais.
É impressionante o que ele diz, a partir dos dados oficiais, sobre a grilagem que ocorreu no Brasil entre 2003 e 2014 - sem paralelo até mesmo durante a ditadura militar, segundo o geógrafo.
A maior parte das terras improdutivas está no "paraíso do agronegócio".
Ele trata dos diversos episódios de corrupção no INCRA e das operações da Polícia Federal. E destacou que o "calcanhar de aquiles do agronegócio" é a propriedade fundiária: os ruralistas "sabem que suas terras estão sobre ilícito".
2. Mesa de 13 de maio, manhã: Representantes do governo se apresentaram, do Ministério das Cidades e da Caixa Econômica, bem como militantes camponeses e quilombolas.
Fátima Vieira, do MST/MS, mostrou quadros que pareciam vir de um representante da Caixa Econômica, de tão governistas que eram. Uma doutoranda da USP questionou a falta de problematização do programa, o que gerou discussão.
Girlene dos Santos falou do Projeto Brasil Quilombola, que seria bonito, porém, "para chegar à política, é preciso passar por uma série de entraves": problemas com o INCRA, o financiamento, e a logística. E revelou que já havia recebido dez ligações de pedreiros que queriam deixar as obras porque não haviam recebido pagamento.
Agmar Lima, que, além de representante quilombola em Minas Gerais, é vereador pelo PT, também falou dos problemas de execução na ponta: não haver estradas, fornecedores não quererem atender... Porém, no debate, afirmou que "era fácil problematizar" e que "nós aceitamos o que o governo brasileiro e suas instituições nos dá". E reclamou que a academia não ia para as comunidades quilombolas: "nós não temos ninguém nosso na academia".
Muito interessante foi a fala de Célia das Neves, da Reserva extrativista Marinha Mãe Grande (PA), sobre a inadequação do programa e da legislação existente para as comunidades de pescadores. Ela denunciou que o maior estuário do mundo, do Amapá ao Maranhão, estava ameaçado pela construção de um porto para a Vale (eleita, como sempre deve-se lembrar, a pior empresa do mundo em 2012). Vejam-na empregar o neologismo "maritório", junção de mar e território, que, em sua imaginação conceitual, surpreendeu o professor Ariovaldo.
3. Mesas de 13 de maio, tarde: Falas de representantes do Ministério das Cidades, do MST, da FETRAF e da ONG Núcleo de Cultura Indígena.
Cedenir Oliveira, do MST/RS, em alusão ao debate anterior, defendeu o modelo do Minha Casa, Minha Vida: "nós temos que olhar os interesses coletivos dos sujeitos, senão você pode cair no individualismo"; "você pode fazer quatro ou cinco projetos e a família se adapta".
Ailton Krenak (vejam-no em 1988, defendendo o capítulo dos povos indígenas na Constituinte, em trecho do filme "Índio Cidadão?" de Rodrigo Arajeju) se apresentou, fez uma homenagem a Osmarino Amâncio (a partir de 1 hora e 37 minutos do vídeo), com quem criou a União dos Povos da Floresta em 1987, e criticou severamente o Minha Casa, Minha Vida: "estamos cada vez mais introjetando em nossas políticas públicas os modelos de urbanização"; "meu povo teve que lutar por muito tempo para continuar a viver em beira de rio".
Elvio Motta, coordenador nacional da FETRAF, falou dos problemas com os fornecedores, com a mão de obra, mas elogiou o governo, e afirmou que "as melhores casas são dos movimentos sociais organizados". Ressaltou, porém, a existência de máfias no programa, com entidades organizadoras falsas: o Ministério precisaria "separar o joio do trigo".
Em resposta a pergunta, Cedenir Oliveira defendeu a autoconstrução assistida, que seria uma forma de evitar o assistencialismo. Ailton Krenak fez uma declaração veemente e elegante, explicando que estava no encontro errado, não com os movimentos sociais que queriam mudar o país, mas com aqueles que simplesmente aceitavam "bugigangas" do governo. Ele não teria vindo para "homologar políticas" que a longo prazo seriam danosas e cujos efeitos teriam que ser desfeitos depois. E deixou a mesa!
Foi o momento mais dramático do Colóquio, em que a oposição entre estes movimentos de sem-terra e as populações tradicionais, fortemente discriminadas pelo governo federal, apareceu de forma inegavelmente flagrante.
Não pude ver a mesa seguinte, com representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (vejam, a partir de 3'30'', a explicação de como o direito à moradia está sendo "sistematicamente violado" na construção de barragens) e do Movimento Camponês Popular, pois aproveitei para assistir a algumas aulas no Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais, em que falaram Ailton Krenak e Manuela Carneiro da Cunha.
4. Mesa de 14 de maio, manhã: Osmarino Amâncio, previsto para o dia anterior, acabou falando nesse dia, e denunciou que estava sendo alvo de criminalização pelo ICMBio (vejam a história no Índio é Nós: http://www.indio-eh-nos.eco.br/2015/05/26/carta-dos-servidores-do-icmbio-e-a-criminalizacao-dos-povos-da-floresta/). O governo federal está criminalizando as práticas tradicionais das comunidades extrativistas; para a atual administração, o seringueiro construir uma casa com a madeira caída na floresta é um crime ambiental, mas a construção da Usina de Belo Monte é perfeitamente lícita!
Vejam o que Osmarino espirituosamente diz dos três candidatos mais votados na última eleição presidencial.
Foi muito impressionante a fala de Smri'a'u Xavante, José Tserenhomo Xavante e Tseredzu Xavante, da Comunidade Xavante de Ripá (MT) falaram com Alexandre Lemos (que fez a tradução; dos Xavantes, somente o cacique, José, falava em português). Eles rejeitaram as casas do govenrno e preferiram ficar com suas tradições - como mostra este filme, "Uma casa, uma vida", um dos curtas exibidos no Colóquio à noite.
Houve também falas dos representantes da COOPERHAF (SC) e do CREHNOR (RS), que evidenciaram as dificuldades de financiamento e de construção para a habitação no campo. A professora Amadja Borges, da UFRN, fez uma interessante fala crítica, nos comentários, às políticas do governo federal.
5. Mesa de 14 de maio, tarde: Perdi a maior parte desta mesa, que tratou das experiências do Peru e do Uruguai, com falas de Miguel Angel Hadzich, Sandra Graciela Vegara Davila, Martin Batalla e Gonzalo Balarini.
6. Plenária final: As discussões dos grupos de trabalho foram expostas. O professor João Marcos Lopes fez um histórico dos colóquios e dos programas governamentais. Nos debates, pode-se ver a representante do Ministério das Cidades afirmar que não haverá mais recursos neste ano nem no ano que vem.
Por causa da viagem de volta, não fiquei até o final. Eu não tinha visto Rodolfo Sertori, a partir de 2 horas e 11 minutos, criticar com toda razão que "a gente deixa de lutar por terra por lutar por verba do Minha Casa Minha Vida [...] um programa que só surgiu por demanda de construtora. Todo mundo sabe disso. Isso não é segredo."; "O Ministério das Cidades não é nosso parceiro. Ministério das Cidades é parceiro de construtora". Deve-se lembrar que ele administra o programa também para a área rural...
Sertori conta as dificuldades do próprio Colóquio: tiraram "dinheiro do bolso". O INCRA nunca respondeu aos telefonemas da organização, e a Funai teria apenas perguntado quando foi contactada por causa deste evento, "o que a gente tem a ver com isso?". Os índios presentes compreenderam a questão muito melhor do que a Funai...
A partir de 2 horas e 26 minutos, Célia das Neves retoma a palavra e critica a medida provisória 665, que prejudicou, entre tantas outras categorias, os pescadores, por conta do seguro defeso, e o decreto 8425, de 31 de março de 2015, que "não reconhece a cadeia produtiva familiar dos pescadores", com discriminação de gênero (o que é impressionante, lembrando que foi uma mulher, presidenta da república, que assinou esta norma): as mulheres deixariam de ser consideradas pescadoras, ela explica.
Ainda será elaborado o documento final do III Colóquio. Achará uma casa comum para todas essas posições divergentes, que revelam os limites e as concessões da esquerda que está agora no poder?
P.S.: Em agosto de 2015, tive conhecimento da tese de doutorado de Alexander Hilsenbeck, "O MST no fio da navalha: dilemas, desafios e potencialidades da luta de classes", defendida em 2013 no programa de pós-graduação em ciência política da Unicamp. Faço notar que banca era composta por intelectuais simpáticos ao Movimento, incluindo Bernardo Mançano Fernandes, que publicou com Stedile.
No trabalho, que levanta parcerias de empresas transnacionais com o MST, ainda anterior ao impacto do "Minha casa, minha vida" nesse movimento, a guinada à direita é explicada desta forma:
Vemos, assim, um reordenamento da lógica de gestão do Estado e a integração da ação política dos movimentos sociais à nova lógica gerencial de governo. Numa manifestação de perda de referência social, busca-se fantasiosamente superar as barreiras de classe em favor de uma cidadania limitada, que se atrela e se fundamenta no mercado.Na conclusão, temos perguntas incômodas como estas:
Ao trilhar o caminho da prioridade às questões relativas às técnicas, financiamentos e ao mercado, com parcerias com empresas capitalistas transnacionais por políticas governistas, não estaria o MST convertendo-se, também ele, numa unidade (ainda que marginal) do sistema?
Seria este o caminho a ser seguido pelo MST? De permitir que sua agenda de lutas seja preenchida exogenamente pelos temas impostos pelo governo? Em mais de uma década de governos do PT qual foi o balanço do acúmulo de forças e qual foi o ascenso dos movimentos de massas? Não teria essa falta de acúmulo contribuído para uma guinada à direita nas recentes mobilizações de massa de junho de 2013?
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sábado, 9 de maio de 2015
"A coragem do primeiro pássaro", um outro voo de André Dahmer
Não é incomum que pessoas que fazem carreira em outras áreas artísticas tragam olhares novos quando resolvem publicar poesia. Foi o caso de Nuno Ramos, que carregou, nos primeiros livros, a original estranheza de sua obra em artes plásticas para, especialmente, Cujo e Ó (ainda não li Sermões).
Diversos poetas contemporâneos parecem estrear ou escrever atendendo a alguma das agendas presentes; parece não haver movimentos, mas há agendas. No entanto, prefiro a liberdade de encontros não previstos.
André Dahmer, que vem dos quadrinhos e das artes plásticas, tem uma personalidade inconfundível, e é um dos poucos autores de quadrinhos que eu leio, e o faço justamente porque encontro nele algo do que reconheço como poético: uma forma oblíqua de ver e estar no mundo. Ocasionalmente, a poesia serve-lhe de tema, mas não como Laerte dela se serve, citando poetas como Florbela Espanca para despertar alguma situação ou desenho, ou tornando Pessoa um personagem seu.
Dahmer, às vezes, ilustra poesia própria - vejam estes quadrinhos. Ademais, o tema da poesia nos quadrinhos de Dahmer aparece muitas vezes como um refúgio, uma guarida contra o mundo, o que poderia ser um mau presságio para um primeiro livro de poesia, em que é preciso fazer dela um mundo, e não um simples refúgio. Afinal, ela trará bastante de desamparo.
A coragem do primeiro pássaro (São Paulo: Lote 42, 2015), no entanto, é bem sucedido e apresenta essa personalidade sem pedir licença às agendas da poesia contemporânea - o que talvez lhe tenha inspirado a referência à "coragem". O livro divide-se em três partes, "Vocês não me conhecem", "Agora é guerra" e "Era ela era pra ser". O título da primeira parte possui algo de ironia, pois quem já leu o Livro negro de André Dahmer terá nela algo a reconhecer; e o fato de as páginas serem negras, com letras em branco, talvez faça com que muitos cheguem a tal associação (o projeto gráfico e a capa, no entanto, não são dele, mas de Luciana Martins).
Como é a primeira vez que ele adota a forma do verso, o título pode significar algo como um desafio para seu público habitual: quem só teve contato com os quadrinhos a a obra plástica não o conheceria realmente, é necessário ler sua poesia.
O primeiro poema, que começa justamente com o verso "vocês não me conhecem", dá o tom do eu avariado, que no livro oscila entre uma dimensão social ("limpava minha casa/ porque tinha uma casa/ e vestia roupa de dormir/ porque dormia" [p. 11]) e uma lírica, amorosa (em outro poema: "ela ainda mora no meu coração/ apenas mudou-se de quarto" [p. 13]), que é o tom que prevalece na primeira e na terceira seções, com o toque de desvario que é marca, na poesia como alhures, de André Dahmer: "também foi divertido rasgar suas fotos/ também a lua ainda goza/ dentro da nossa gaveta vazia" [p. 15].
Talvez seja o eu avariado e em desvario que dê a dimensão social desta poesia, já que o mundo parece estar em condições análogas. A segunda seção, que usa um pouco o mote da guerra (e ao mesmo desde a Renascença as imagens da guerra foram usadas pelo poetas para as situações amorosas), inicia com este poema:
Essa visão do mundo, de um horror congênito, nos quadrinhos é expressa às vezes de forma cínica, por meio dos personagens que alguns compararam a girassóis. Na poesia deste livro, é sempre constituída pelo prisma das avarias desse eu lírico. Neste começo do poema, pode-se ver alguém em situação de rua:
E a poesia convoca e transforma o corpo:
Em termos formais, este breve livro não traz novidade: é composto de versos livres e brancos que evitam quase totalmente a pontuação (exceto os travessões). O que ele traz de novo, para mim, é esta sensibilidade atenta para o horror e para o corpo, para a miséria e para a delicadeza, ou seja, para boa parte do que importa no mundo. E os pássaros.
Diversos poetas contemporâneos parecem estrear ou escrever atendendo a alguma das agendas presentes; parece não haver movimentos, mas há agendas. No entanto, prefiro a liberdade de encontros não previstos.
André Dahmer, que vem dos quadrinhos e das artes plásticas, tem uma personalidade inconfundível, e é um dos poucos autores de quadrinhos que eu leio, e o faço justamente porque encontro nele algo do que reconheço como poético: uma forma oblíqua de ver e estar no mundo. Ocasionalmente, a poesia serve-lhe de tema, mas não como Laerte dela se serve, citando poetas como Florbela Espanca para despertar alguma situação ou desenho, ou tornando Pessoa um personagem seu.
Dahmer, às vezes, ilustra poesia própria - vejam estes quadrinhos. Ademais, o tema da poesia nos quadrinhos de Dahmer aparece muitas vezes como um refúgio, uma guarida contra o mundo, o que poderia ser um mau presságio para um primeiro livro de poesia, em que é preciso fazer dela um mundo, e não um simples refúgio. Afinal, ela trará bastante de desamparo.
A coragem do primeiro pássaro (São Paulo: Lote 42, 2015), no entanto, é bem sucedido e apresenta essa personalidade sem pedir licença às agendas da poesia contemporânea - o que talvez lhe tenha inspirado a referência à "coragem". O livro divide-se em três partes, "Vocês não me conhecem", "Agora é guerra" e "Era ela era pra ser". O título da primeira parte possui algo de ironia, pois quem já leu o Livro negro de André Dahmer terá nela algo a reconhecer; e o fato de as páginas serem negras, com letras em branco, talvez faça com que muitos cheguem a tal associação (o projeto gráfico e a capa, no entanto, não são dele, mas de Luciana Martins).
Como é a primeira vez que ele adota a forma do verso, o título pode significar algo como um desafio para seu público habitual: quem só teve contato com os quadrinhos a a obra plástica não o conheceria realmente, é necessário ler sua poesia.
O primeiro poema, que começa justamente com o verso "vocês não me conhecem", dá o tom do eu avariado, que no livro oscila entre uma dimensão social ("limpava minha casa/ porque tinha uma casa/ e vestia roupa de dormir/ porque dormia" [p. 11]) e uma lírica, amorosa (em outro poema: "ela ainda mora no meu coração/ apenas mudou-se de quarto" [p. 13]), que é o tom que prevalece na primeira e na terceira seções, com o toque de desvario que é marca, na poesia como alhures, de André Dahmer: "também foi divertido rasgar suas fotos/ também a lua ainda goza/ dentro da nossa gaveta vazia" [p. 15].
Talvez seja o eu avariado e em desvario que dê a dimensão social desta poesia, já que o mundo parece estar em condições análogas. A segunda seção, que usa um pouco o mote da guerra (e ao mesmo desde a Renascença as imagens da guerra foram usadas pelo poetas para as situações amorosas), inicia com este poema:
um generalAntes do verso final, há dois espaços vazios. Esta pausa é a fala do horror.
com chumbo na nuca
me disse
fofinho
a vida é assim
a maioria nasce e morre
gritando [p. 25]
Essa visão do mundo, de um horror congênito, nos quadrinhos é expressa às vezes de forma cínica, por meio dos personagens que alguns compararam a girassóis. Na poesia deste livro, é sempre constituída pelo prisma das avarias desse eu lírico. Neste começo do poema, pode-se ver alguém em situação de rua:
meu ofício eraTrata-se de um mundo "onde a alma só aprende a fé dentro de UTIs/ e os jovens se penhoram dentro de escritórios" [p. 48]. Esse mundo deixa marcas, e a sensibilidade de Dahmer (talvez oriunda do desenho) pelos detalhes visuais do que cobre o corpo, e também do que ele excreta (as lágrimas são importantes neste livro), pode chegar a estas delicadezas:
sacrificar cachorros doentes
hoje
minha casa é uma mochila [p. 28]
agora
estudo como a luz
consegue vencer a escuridão do quarto
sem tocar as maçãs do seu rosto [p. 18]
aos pés de seu pescoço
avisto um lóbulo que suporta o fardo
do ouro e da prata [p. 39]
E a poesia convoca e transforma o corpo:
tentei construir um dique
quando a poesia se tornou sagrada
poesia de acidente
uma moça toda molhada [p. 34]
na parede que você éEsta última citação, todo um poema, inicia a terceira parte, que é menos interessante, com alguns poemas que sucumbem ao sentimentalismo (os dois últimos, em especial).
ainda silva meu vento
nas suas frestas [p. 45]
Em termos formais, este breve livro não traz novidade: é composto de versos livres e brancos que evitam quase totalmente a pontuação (exceto os travessões). O que ele traz de novo, para mim, é esta sensibilidade atenta para o horror e para o corpo, para a miséria e para a delicadeza, ou seja, para boa parte do que importa no mundo. E os pássaros.
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Desarquivando o Brasil CIV: Sarney: ditadura e democracia, ontem e hoje
Desde há muito, o Senado Federal contava com a presença de José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, vulgo José Sarney, e até José Sarney Costa. Como não tentou reeleger-se nas eleições de 2014, este é o primeiro ano em que ele não exerce nenhum mandato político. Está a terminar sua autobiografia, avisou-nos recentemente um jornal de São Paulo de que foi colunista, em matéria em que foram coletadas opiniões de que a obra literária desse senhor é injustiçada em razão de sua atividade política. Sarney chegou a dizer que nenhum crítico literário avaliou negativamente sua obra, afirmando que Millôr Fernandes era apenas um "humorista".
Não acho de forma alguma o humorismo um gênero menor, e a polifacetada obra de Millôr não pode ser reduzida a esse prisma. Creio ver na declaração de Sarney um indício de ressentimento contra o crítico de Brejal dos Guajas, que afirmou, certa vez, que "O Sarney só tem uma grande qualidade; é biodegradável." (Millôr Fernandes, talvez em 1986, Millôr definitivo: a Bíblia do Caos, p. 514).
Se Millôr não conta, imaginem eu: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2011/06/jose-sarney-ou-o-esquecimento-como.html
Sarney não está afastado da política, no entanto; vejam como sua verve de imortal da Academia Brasileira de Letras ferve na defesa de sua filha, Roseana Sarney, incluída na "lista Janot" de políticos a serem investigados (deveria, talvez, orgulhar-se de ela estar em lista que inclui nada menos do que os presidentes da Câmara, Cunha, e do Senado, Renan Calheiros), em artigo publicado em O Estado do Maranhão: "Derrubam-se em Mossul as estátuas do passado sem adotar nenhuma proporção, mas aqui destrói-se a Fundação da Memória Republicana Brasileira. Agora, na pior de todas, inclui-se Roseana na investigação de um escândalo que envergonha o Brasil."
Creio que a destruição de sítios e obras milenares pelo Estado Islâmico é, de fato, apesar de algum exagero retórico, a melhor medida de comparação que Sarney poderia encontrar para os alegados ataques que sua família estaria a sofrer no Maranhão. Afinal, também na antiga Assíria o poder era hereditário. Pode-se lembrar que, entre os 544 atos secretos daquela Casa antirrepublicana, o Senado Federal, anulados em 13 de julho de 2009, estavam alguns de nomeação de membros da família Sarney, inclusive (vasto coração) do namorado de uma neta, como lembrou este telegrama da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil ao tratar de outros escândalos, como a investigação de lavagem de dinheiro por Fernando Sarney (investigação sobre este senhor, por sinal, levou a um caso de censura judicial sobre o jornal Estado de S. Paulo):
O documento, mais um sobre o Congresso Nacional brasileiro em que aparecem as palavras lavagem de dinheiro, ato secreto e escândalo de corrupção, está no Wikileaks.
Tocou-me profundamente o discurso de despedida em 18 de dezembro de 2014. Sarney foi, provavelmente, o parlamentar mais longevo da história da vida política (afirma-o a partir de 9'50'': https://www.youtube.com/watch?v=VXyMrDQlhSw), o que revela muito sobre a peculiar qualidade do Poder Legislativo no Brasil. Sua migração para fins eleitorais ao Amapá (onde conquistou três mandatos de senador) foi um tanto desconcertante; vejam que, nesta planilha da empreiteira Camargo Corrêa de doação a políticos, os generosos financiadores do sistema político brasileiro lhe atribuíram o Estado de Pernambuco e, depois, riscaram a sigla PE e escreveram à mão AP.
Sarney foi presidente da Arena, partido de sustentação parlamentar da ditadura militar. apesar do arranjo eleitoreiro que o fez ingressar no PMDB na época do colégio eleitoral (ou seja, das eleições indiretas) que elegeram Tancredo neves, que jamais tomaria posse, ele, na verdade, nunca negou suas origens. Vejam que, a partir de 22'50'', ao falar a uma sessão plenária vazia em sua despedida do Senado, Sarney chama a ditadura militar de "revolução": https://www.youtube.com/watch?v=VXyMrDQlhSw
A, no mínimo, falsificação política de chamar o golpe de 1964 de revolução é acompanhada, nesse discurso, de outras impropriedades jurídicas e históricas. Enquanto pede mais penas, Sarney revela que acha que se pode votar aos 15 anos (29'40''). A partir de 39'30'', Sarney passa uma borracha nas lutas dos movimentos negros (e em Abdias do Nascimento) e diz que foi ele quem iniciou o debate público das cotas para negros.
O mais interessante vem o final: na estranha oposição entre Max Weber ("a política é inimiga da felicidade") e Deus, cita um folguedo o Bumba-meu-Boi: "Assim como o dia se despede da noite, eu me despeço de ti. Deixo no Senado uma palavra: gratidão. Saio feliz, sem nenhum ressentimento. Ai, meu Senado, tenho saudades do futuro".
Alcione cantou muito bem esta música: https://www.youtube.com/watch?v=YyuPQzo_g7k. No entanto, na voz de Sarney, tais palavras ganham uma outra dimensão, que a bela voz da cantora nunca poderia sugerir: o Senado é a noite, Sarney é o dia. Nada mais ancien régime do que isto: Sarney despede-se na posição do Rei-Sol. Nessa posição, entendo que ele não possa se misturar com o "Terceiro Estado", ao contrário do que está a fazer o atual governador do Maranhão, Flavio Dino, postura criticada por nosso (São) Luís XIV.
Significativamente, é um senador do PT, muito grato ao apoio à presidência de Lula, Anibal Diniz, o primeiro a falar depois de Sarney "pra mim [sic] poder manifestar a gratidão", "Vossa Excelência conduziu o país para a democracia", fulanizando anistoricamente o processo de transição, o que, se é falso em termos políticos, é vergonhoso no campo da história.
Sarney, antes dos 55 minutos de seu discurso de despedida, revela que publicou 142 títulos, contando as publicações em línguas estrangeiras.
De fato, não se pode desprezar este lado do Sarney: o beletrismo da elite brasileira era realmente um dos seus traços característicos (hoje, não mais; tais pessoas não reconhecem a literatura nem mesmo por essa via espúria que é a dos quadros de prestígio). Para entendê-lo politicamente, é necessário também perceber como lhe foi importante buscar o reconhecimento literário, e levar a sério essa aspiração, sociologicamente tão reveladora.
A partir dos 9 minutos do discurso de adeus, ele afirma, como já o fez outras vezes, que "Deus me poupou do sentimento do ódio e do ressentimento, da inveja e do desejo de vingança. Nunca tive inimigos."
Por isso, gostaria de lembrar aqui de uma de suas obras, que não só abordou temas políticos, mas como foi fruto de um tipo de intervenção na arena pública: a longa coletânea, dividida em volumes, de suas crônicas semanais publicadas no jornal Folha de S. Paulo: Crônicas do Brasil contemporâneo, VII: sobre isso e aquilo, pela Ediouro.
Escolho o volume VII, que vai do fim de 2005 ao de 2007, época em que o escândalo do mensalão acaba chegando ao processo criminal (o que é nele mencionado). Nesse livro cita, muito inesperadamente, Veronica Stigger, que poderia ser considerada uma antítese de Sarney.
O autor faz um uso em geral ornamental das notícias do dia: cada crônica começa três chamadas de notícias do momento. Em seguida, vem o texto de Sarney, que, muitas vezes, não tem relação com as notícias (é o caso da referência a Veronica Stigger, que só está na chamada). Mais uma vez temos aí a identidade entre o Sarney escritor e o político: em ambos, a incoerência e a falta de conexão de gestos e argumentos.
Mais de uma vez, as notícias são de escândalos de políticos de outras famílias, que Sarney indica mas, em geral, não comenta (ele defende, porém, Palocci, que chama de "uma das maiores revelações políticas do Brasil" [p. 49]). Ademais, algumas vezes suas crônicas apresentam relações inquietantes, conflituosas, com o passado político desse autor durante a ditadura militar ou sob o governo de tutela militar que foi a sua presidência da república.
a) A crônica de 17 de novembro de 2006 aborda a questão da anistia: ele diz que foi no governo Figueiredo que "o assunto amadureceu", mas a anistia dele não era completa, pois excluía os condenados pelo que se chamava de "crimes de sangue"; no governo dele é que a anistia teria se tornado completa, "atingindo os dois lados da luta" [p. 123].
Esta crônica é praticamente uma negação da história: fiel, também aí, à dominação das elites, ele omite os movimentos sociais pela anistia, apresenta-a como uma dádiva dos presidentes, adota a equivocada teoria dos dois demônios (sem a nomear) e esquece de si mesmo:Sarney, pouco mais de um ano antes da lei brasileira de anistia, e logo depois da anistia no Chile, afirmou que "a anistia ampla, irrestrita e recíproca é realmente uma posição radical, inaceitável, porque não é do interesse da nação." (Jornal da Tarde, 21 de abril de 1978, "A Anistia: Passarinho: Aqui, ainda não dá").
b) Na crônica de 10 de fevereiro de 2006 , temos outro dos diversos textos em que Sarney ataca a Constituição de 1988, sempre em termos simplistas: "longa, detalhista, imprecisa, híbrida (presidencialista e parlamentarista); "A Constituinte foi pressionada e populista" [p. 27].
Quem, porém, pressionou os constituintes? Os militares.
"Nunca um vice foi tão versa", escreveu Millôr Fernandes (em 10/04/1988), após os militares sitiarem o Congresso Nacional e imporem o mandato de 5 anos para Sarney (vejam no Diário da Nova República, vol. 3, p. 159).
Em 1989, a embaixada dos Estados Unidos no Brasil enviou um telegrama de análise da recém terminada Constituição de 1988, afirmando, no ponto 2, que "muitos, talvez a maioria dos brasileiros não esperavam que ela tivesse uma longa duração, ao menos não sem significativas emendas". A análise estava correta.
"O conceito de 'segurança nacional' foi retirado da constituição. Contudo, o governo Sarney - como foi notado anteriormente - já colocou o secretariado do Conselho de Defesa Nacional nas mãos do chefe da Casa Militar, levando assim alguns observadores a especular que o secretariado tentará manter algumas das operações funcionais e da política do velho CSN [Conselho de Segurança Nacional]."
Em seguida, comenta como os militares continuavam na política e lançavam mão de medidas agressivas na presidência de Sarney.
c) Na crônica de 1º de junho de 2007, ele abordou uma das notícias destacadas, a não renovação (que é chamada de "cassação") da concessão da emissora de tevê RCTV, na Venezuela, que havia conspirado para o golpe que retirou temporariamente o presidente Hugo Chávez do poder. Sarney, que tanto contou com a Globo, achou o fato "inconcebível" e resolveu vestir a túnica de um defensor da democracia: "a democracia tem como essência a liberdade sem medo. Sem polícia política, sem o arbítrio, sem ninguém sentir-se obrigado à pior das censuras, que é a autocensura" [p. 178-179].
A túnica não ficou bem, no entanto, e deixou que partes indesejadas do corpo político aparecessem. Sarney não foi um adversário da censura, muito pelo contrário. Lembremos desta mensagem de um dos artistas apreciados pela ditadura militar:
Trata-se de telegrama do músico Roberto Carlos ao então presidente da república José Sarney, cumprimentando-o por ter censurado o filme Je vous salue, Marie, de Godard, em 1986.
Deve-se lembrar que esse profissional da música que, nos tempos da ditadura militar, acumulava as funções de colaborador com o autoritarismo (vejam seu histórico elogio a Pinochet e este documento sigiloso do Exército, disponível no portal de Aluízio Palmar, Documentos Revelados), continua sendo um entusiasta da censura, tendo impedido uma biografia a seu respeito sair, com apoio de outros nomes da música popular, entre eles (negando sua própria história) Chico Buarque.
A justificativa de Roberto Carlos no telegrama é intelectualmente pueril, mas não se esperaria mais dele. De alguém que se considera intelectual, sim, esperamos bem mais, porém Sarney, muitos anos depois, não foi capaz de achar uma justificativa mais consistente, e insistiu, em 2013, que continuaria fazendo o mesmo: "Eu acho que naquele momento, hoje, eu faria a mesma coisa. Porque pelo seguinte, a nossa constituição ela diz que nós não podemos fazer de nenhuma maneira crítica nem fazer um julgamento sobre a questão da religião de ninguém nem denegrir ninguém nem ridicularizar ninguém." (vídeo disponível em https://www.youtube.com/watch?v=PXyVr5JFyZ4).
d) Com isso, podemos compreender outra das estranhas afirmações que Sarney fez em seu discurso de despedida: "Minha causa que sempre busquei aqui foi a cultura" (aos 10'50'' de https://www.youtube.com/watch?v=VXyMrDQlhSw), pensando como ele serviu a uma cultura autoritária. Alguém, desavisadamente, poderia entender que ele é um homem "culto", no sentido de ter muito lido, ou quem sabe, de conhecer a literatura, o que manifestamente não é o caso. O livro de crônicas mostra-o. Naquela rede social de veiculação de citações literárias falsas, ainda pode-se ver um textinho insignificante de autoajuda, "Instantes", como se Jorge Luis Borges o tivesse escrito. Na verdade, trata-se de um texto em prosa de uma autora dos EUA: http://elpais.com/diario/1999/05/09/ultima/926200813_850215.html
Acreditar nessa falsa autoria exige desconhecer completamente a obra de Borges, o que seria imperdoável para um imortal da ABL, ou não ter sensibilidade nenhuma para a literatura, achando-a sinônima de autoajuda, além de sinal de desinformação, pois o problema está esclarecido desde o fim do milênio passado. Sarney, naturalmente, incorre nesse erro na página 165.
Há muito mais a dizer - Sarney e as terras indígenas, o patrimônio público etc., em razão da diversidade de questões pinceladas no livro e da larga trajetória do político. Paro aqui, no entanto, pois a nota se estendeu, e os outros temas podem ser objeto de outros textos.
Não acho de forma alguma o humorismo um gênero menor, e a polifacetada obra de Millôr não pode ser reduzida a esse prisma. Creio ver na declaração de Sarney um indício de ressentimento contra o crítico de Brejal dos Guajas, que afirmou, certa vez, que "O Sarney só tem uma grande qualidade; é biodegradável." (Millôr Fernandes, talvez em 1986, Millôr definitivo: a Bíblia do Caos, p. 514).
Se Millôr não conta, imaginem eu: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2011/06/jose-sarney-ou-o-esquecimento-como.html
Sarney não está afastado da política, no entanto; vejam como sua verve de imortal da Academia Brasileira de Letras ferve na defesa de sua filha, Roseana Sarney, incluída na "lista Janot" de políticos a serem investigados (deveria, talvez, orgulhar-se de ela estar em lista que inclui nada menos do que os presidentes da Câmara, Cunha, e do Senado, Renan Calheiros), em artigo publicado em O Estado do Maranhão: "Derrubam-se em Mossul as estátuas do passado sem adotar nenhuma proporção, mas aqui destrói-se a Fundação da Memória Republicana Brasileira. Agora, na pior de todas, inclui-se Roseana na investigação de um escândalo que envergonha o Brasil."
Creio que a destruição de sítios e obras milenares pelo Estado Islâmico é, de fato, apesar de algum exagero retórico, a melhor medida de comparação que Sarney poderia encontrar para os alegados ataques que sua família estaria a sofrer no Maranhão. Afinal, também na antiga Assíria o poder era hereditário. Pode-se lembrar que, entre os 544 atos secretos daquela Casa antirrepublicana, o Senado Federal, anulados em 13 de julho de 2009, estavam alguns de nomeação de membros da família Sarney, inclusive (vasto coração) do namorado de uma neta, como lembrou este telegrama da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil ao tratar de outros escândalos, como a investigação de lavagem de dinheiro por Fernando Sarney (investigação sobre este senhor, por sinal, levou a um caso de censura judicial sobre o jornal Estado de S. Paulo):
A Federal Police (DPF) investigation into his son, Fernando, for money laundering has also embarrassed the Senate President, as photos of his son's and daughter-in-law's arrests made front-page news. To make matters worse, in the course of the investigation the DPF intercepted communications that revealed the Senate President's efforts to place the boyfriend of one of his granddaughters into a Senate staff slot that had previous been occupied by another Sarney family member through a secret act approved, Senate director Agaciel Maia, appointed by Sarney in a previous term as Senate President and recently forced to resign as a result of the broader corruption scandal.
O documento, mais um sobre o Congresso Nacional brasileiro em que aparecem as palavras lavagem de dinheiro, ato secreto e escândalo de corrupção, está no Wikileaks.
Tocou-me profundamente o discurso de despedida em 18 de dezembro de 2014. Sarney foi, provavelmente, o parlamentar mais longevo da história da vida política (afirma-o a partir de 9'50'': https://www.youtube.com/watch?v=VXyMrDQlhSw), o que revela muito sobre a peculiar qualidade do Poder Legislativo no Brasil. Sua migração para fins eleitorais ao Amapá (onde conquistou três mandatos de senador) foi um tanto desconcertante; vejam que, nesta planilha da empreiteira Camargo Corrêa de doação a políticos, os generosos financiadores do sistema político brasileiro lhe atribuíram o Estado de Pernambuco e, depois, riscaram a sigla PE e escreveram à mão AP.
Sarney foi presidente da Arena, partido de sustentação parlamentar da ditadura militar. apesar do arranjo eleitoreiro que o fez ingressar no PMDB na época do colégio eleitoral (ou seja, das eleições indiretas) que elegeram Tancredo neves, que jamais tomaria posse, ele, na verdade, nunca negou suas origens. Vejam que, a partir de 22'50'', ao falar a uma sessão plenária vazia em sua despedida do Senado, Sarney chama a ditadura militar de "revolução": https://www.youtube.com/watch?v=VXyMrDQlhSw
A, no mínimo, falsificação política de chamar o golpe de 1964 de revolução é acompanhada, nesse discurso, de outras impropriedades jurídicas e históricas. Enquanto pede mais penas, Sarney revela que acha que se pode votar aos 15 anos (29'40''). A partir de 39'30'', Sarney passa uma borracha nas lutas dos movimentos negros (e em Abdias do Nascimento) e diz que foi ele quem iniciou o debate público das cotas para negros.
O mais interessante vem o final: na estranha oposição entre Max Weber ("a política é inimiga da felicidade") e Deus, cita um folguedo o Bumba-meu-Boi: "Assim como o dia se despede da noite, eu me despeço de ti. Deixo no Senado uma palavra: gratidão. Saio feliz, sem nenhum ressentimento. Ai, meu Senado, tenho saudades do futuro".
Alcione cantou muito bem esta música: https://www.youtube.com/watch?v=YyuPQzo_g7k. No entanto, na voz de Sarney, tais palavras ganham uma outra dimensão, que a bela voz da cantora nunca poderia sugerir: o Senado é a noite, Sarney é o dia. Nada mais ancien régime do que isto: Sarney despede-se na posição do Rei-Sol. Nessa posição, entendo que ele não possa se misturar com o "Terceiro Estado", ao contrário do que está a fazer o atual governador do Maranhão, Flavio Dino, postura criticada por nosso (São) Luís XIV.
Significativamente, é um senador do PT, muito grato ao apoio à presidência de Lula, Anibal Diniz, o primeiro a falar depois de Sarney "pra mim [sic] poder manifestar a gratidão", "Vossa Excelência conduziu o país para a democracia", fulanizando anistoricamente o processo de transição, o que, se é falso em termos políticos, é vergonhoso no campo da história.
Sarney, antes dos 55 minutos de seu discurso de despedida, revela que publicou 142 títulos, contando as publicações em línguas estrangeiras.
De fato, não se pode desprezar este lado do Sarney: o beletrismo da elite brasileira era realmente um dos seus traços característicos (hoje, não mais; tais pessoas não reconhecem a literatura nem mesmo por essa via espúria que é a dos quadros de prestígio). Para entendê-lo politicamente, é necessário também perceber como lhe foi importante buscar o reconhecimento literário, e levar a sério essa aspiração, sociologicamente tão reveladora.
A partir dos 9 minutos do discurso de adeus, ele afirma, como já o fez outras vezes, que "Deus me poupou do sentimento do ódio e do ressentimento, da inveja e do desejo de vingança. Nunca tive inimigos."
Por isso, gostaria de lembrar aqui de uma de suas obras, que não só abordou temas políticos, mas como foi fruto de um tipo de intervenção na arena pública: a longa coletânea, dividida em volumes, de suas crônicas semanais publicadas no jornal Folha de S. Paulo: Crônicas do Brasil contemporâneo, VII: sobre isso e aquilo, pela Ediouro.
Escolho o volume VII, que vai do fim de 2005 ao de 2007, época em que o escândalo do mensalão acaba chegando ao processo criminal (o que é nele mencionado). Nesse livro cita, muito inesperadamente, Veronica Stigger, que poderia ser considerada uma antítese de Sarney.
O autor faz um uso em geral ornamental das notícias do dia: cada crônica começa três chamadas de notícias do momento. Em seguida, vem o texto de Sarney, que, muitas vezes, não tem relação com as notícias (é o caso da referência a Veronica Stigger, que só está na chamada). Mais uma vez temos aí a identidade entre o Sarney escritor e o político: em ambos, a incoerência e a falta de conexão de gestos e argumentos.
Mais de uma vez, as notícias são de escândalos de políticos de outras famílias, que Sarney indica mas, em geral, não comenta (ele defende, porém, Palocci, que chama de "uma das maiores revelações políticas do Brasil" [p. 49]). Ademais, algumas vezes suas crônicas apresentam relações inquietantes, conflituosas, com o passado político desse autor durante a ditadura militar ou sob o governo de tutela militar que foi a sua presidência da república.
a) A crônica de 17 de novembro de 2006 aborda a questão da anistia: ele diz que foi no governo Figueiredo que "o assunto amadureceu", mas a anistia dele não era completa, pois excluía os condenados pelo que se chamava de "crimes de sangue"; no governo dele é que a anistia teria se tornado completa, "atingindo os dois lados da luta" [p. 123].
Esta crônica é praticamente uma negação da história: fiel, também aí, à dominação das elites, ele omite os movimentos sociais pela anistia, apresenta-a como uma dádiva dos presidentes, adota a equivocada teoria dos dois demônios (sem a nomear) e esquece de si mesmo:Sarney, pouco mais de um ano antes da lei brasileira de anistia, e logo depois da anistia no Chile, afirmou que "a anistia ampla, irrestrita e recíproca é realmente uma posição radical, inaceitável, porque não é do interesse da nação." (Jornal da Tarde, 21 de abril de 1978, "A Anistia: Passarinho: Aqui, ainda não dá").
b) Na crônica de 10 de fevereiro de 2006 , temos outro dos diversos textos em que Sarney ataca a Constituição de 1988, sempre em termos simplistas: "longa, detalhista, imprecisa, híbrida (presidencialista e parlamentarista); "A Constituinte foi pressionada e populista" [p. 27].
Quem, porém, pressionou os constituintes? Os militares.
"Nunca um vice foi tão versa", escreveu Millôr Fernandes (em 10/04/1988), após os militares sitiarem o Congresso Nacional e imporem o mandato de 5 anos para Sarney (vejam no Diário da Nova República, vol. 3, p. 159).
Em 1989, a embaixada dos Estados Unidos no Brasil enviou um telegrama de análise da recém terminada Constituição de 1988, afirmando, no ponto 2, que "muitos, talvez a maioria dos brasileiros não esperavam que ela tivesse uma longa duração, ao menos não sem significativas emendas". A análise estava correta.
"O conceito de 'segurança nacional' foi retirado da constituição. Contudo, o governo Sarney - como foi notado anteriormente - já colocou o secretariado do Conselho de Defesa Nacional nas mãos do chefe da Casa Militar, levando assim alguns observadores a especular que o secretariado tentará manter algumas das operações funcionais e da política do velho CSN [Conselho de Segurança Nacional]."
Em seguida, comenta como os militares continuavam na política e lançavam mão de medidas agressivas na presidência de Sarney.
c) Na crônica de 1º de junho de 2007, ele abordou uma das notícias destacadas, a não renovação (que é chamada de "cassação") da concessão da emissora de tevê RCTV, na Venezuela, que havia conspirado para o golpe que retirou temporariamente o presidente Hugo Chávez do poder. Sarney, que tanto contou com a Globo, achou o fato "inconcebível" e resolveu vestir a túnica de um defensor da democracia: "a democracia tem como essência a liberdade sem medo. Sem polícia política, sem o arbítrio, sem ninguém sentir-se obrigado à pior das censuras, que é a autocensura" [p. 178-179].
A túnica não ficou bem, no entanto, e deixou que partes indesejadas do corpo político aparecessem. Sarney não foi um adversário da censura, muito pelo contrário. Lembremos desta mensagem de um dos artistas apreciados pela ditadura militar:
Cumprimento Vossa Excelência por impedir a exibição do filme Je Vous Salue Marie, que não é obra de arte ou expressão cultural que mereça a liberdade de atingir a tradição religiosa de nosso povo e o sentimento cristão da humanidade.
Trata-se de telegrama do músico Roberto Carlos ao então presidente da república José Sarney, cumprimentando-o por ter censurado o filme Je vous salue, Marie, de Godard, em 1986.
Deve-se lembrar que esse profissional da música que, nos tempos da ditadura militar, acumulava as funções de colaborador com o autoritarismo (vejam seu histórico elogio a Pinochet e este documento sigiloso do Exército, disponível no portal de Aluízio Palmar, Documentos Revelados), continua sendo um entusiasta da censura, tendo impedido uma biografia a seu respeito sair, com apoio de outros nomes da música popular, entre eles (negando sua própria história) Chico Buarque.
A justificativa de Roberto Carlos no telegrama é intelectualmente pueril, mas não se esperaria mais dele. De alguém que se considera intelectual, sim, esperamos bem mais, porém Sarney, muitos anos depois, não foi capaz de achar uma justificativa mais consistente, e insistiu, em 2013, que continuaria fazendo o mesmo: "Eu acho que naquele momento, hoje, eu faria a mesma coisa. Porque pelo seguinte, a nossa constituição ela diz que nós não podemos fazer de nenhuma maneira crítica nem fazer um julgamento sobre a questão da religião de ninguém nem denegrir ninguém nem ridicularizar ninguém." (vídeo disponível em https://www.youtube.com/watch?v=PXyVr5JFyZ4).
d) Com isso, podemos compreender outra das estranhas afirmações que Sarney fez em seu discurso de despedida: "Minha causa que sempre busquei aqui foi a cultura" (aos 10'50'' de https://www.youtube.com/watch?v=VXyMrDQlhSw), pensando como ele serviu a uma cultura autoritária. Alguém, desavisadamente, poderia entender que ele é um homem "culto", no sentido de ter muito lido, ou quem sabe, de conhecer a literatura, o que manifestamente não é o caso. O livro de crônicas mostra-o. Naquela rede social de veiculação de citações literárias falsas, ainda pode-se ver um textinho insignificante de autoajuda, "Instantes", como se Jorge Luis Borges o tivesse escrito. Na verdade, trata-se de um texto em prosa de uma autora dos EUA: http://elpais.com/diario/1999/05/09/ultima/926200813_850215.html
Acreditar nessa falsa autoria exige desconhecer completamente a obra de Borges, o que seria imperdoável para um imortal da ABL, ou não ter sensibilidade nenhuma para a literatura, achando-a sinônima de autoajuda, além de sinal de desinformação, pois o problema está esclarecido desde o fim do milênio passado. Sarney, naturalmente, incorre nesse erro na página 165.
Há muito mais a dizer - Sarney e as terras indígenas, o patrimônio público etc., em razão da diversidade de questões pinceladas no livro e da larga trajetória do político. Paro aqui, no entanto, pois a nota se estendeu, e os outros temas podem ser objeto de outros textos.
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