O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

Mostrando postagens com marcador Carlos Nelson Coutinho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Carlos Nelson Coutinho. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Desarquivando o Brasil XL e Terra sem Lei VII: Genocídio de índios no Brasil e certa esquerda de hoje

Descobri que está havendo um twittaço em razão do que está ocorrendo no Mato Grosso do Sul. No ano passado, Juliana del Piva havia escrito para a Isto É sobre o genocídio desse povo: http://www.istoe.com.br/reportagens/179594_GENOCIDIO+EM+MARCHA
Naquela ocasião, o cacique Nísio Gomes havia sido assassinado.
Há poucos dias, Eliana Brum, para a Época, escreveu longa e essencial matéria sobre a questão, ainda mais premente com a decisão de os índios Guarani Kaiowá em Iguatemi (MS) morrerem em suas terras, caso a ordem da Justiça Federal de expulsá-los seja cumprida: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/10/decretem-nossa-extincao-e-nos-enterrem-aqui.html
Já assinei uma petição contra o genocídio dirigida para a presidência da república; sugiro que se faça o mesmo: http://www.avaaz.org/po/petition/Salvemos_os_indios_GuaraniKaiowa_URGENTE/ Há uma iniciativa semelhante no Facebook: http://www.facebook.com/pages/Vamos-impedir-o-suic%C3%ADdio-coletivo-dos-%C3%ADndios-Guarani-kaiowa/429391533790139 Ademais, estão sendo marcados protestos, como no Rio de Janeiro (https://www.facebook.com/events/471207732901865/), Brasília (https://www.facebook.com/events/124459604371995/) e em Porto Alegre (https://twitter.com/dansesurlamerde/status/260920085110214657/photo/1).
Aconselho também que se vejam os vídeos desse povo, inclusive o emocionante "Salve Dilma! Aqueles que irão morrer te saúdam":
http://pib.socioambiental.org/pt/povo/guarani-kaiowa/2300
E, mencionando a presidenta, lembro que já escrevi sobre a VAR-Palmares, a Vanguarda Armada Revolucionária Zumbi dos Palmares, de que ela participou. Como se sabe, foi um dos grupos da esquerda clandestina armada que surgiu durante a ditadura militar no fim dos anos 1960, e foi destruído no início da década seguinte.
Além das ações armadas (entre elas, o roubo - chamava-se desapropriação - do cofre da amante de Ademar de Barros, em que o honesto político depositou o fruto de anos dedicados ao interesse público), o grupo elaborou textos em que tentava interpretar o Brasil e propor saídas para o país por  meio de via revolucionária.
A vocação da esquerda da época para o fracionamento revelava-se nesses momentos: havia ou houve feudalismo no país? A guerrilha deveria ser urbana ou rural? Guevara ou Mao? Questões como essas a dividiam. Algo, no entanto, havia de comum a pelos menos grande parte desses grupos, e também à direita no poder. Era o que é chamado por Carlos Alberto Ricardo de "amnésia periódica sobre a presença dos índios no Brasil": http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/04/desarquivando-o-brasil-xxxv-emancipacao.html#more
Essa amnésia estava presente também naquele grupo de esquerda, bem como nos outros cujos textos conheço. Neste "Informe da reunião da direção", apreendido em 1972 no Rio de Janeiro (encontrei o documento, porém, no Arquivo Público do Estado de São Paulo), pode-se ler esta passagem típica:


Existe o campo, mas não a floresta. "A relação cidade-campo dentro da estratégia de guerra revolucionária ainda não foi bem definida, volta e meia se torna a esse ponto, e as discussões se embananam."
Segundo documentos congêneres, considerava-se que o outro, em relação à cidade, era apenas o campo. No entanto, havia outros, que não eram percebidos, em relação a esse binômio cidade-campo, como a floresta. No fundo, cidade e campo eram apenas diferentes espaços, economicamente especializados, da mesma cadeia produtiva. O que não podia ser visto nessa cadeia, e era um outro mais radical, simplesmente era ignorado, mesmo pelos revolucionários. Tal era o défice antropológico do entendimento que essa esquerda tinha do Brasil.

Ainda hoje podem-se verificar fenômenos semelhantes? Sydney Possuelo, sertanista demitido pela FUNAI durante o governo Lula, pôde afirmar recentemente sobre a ignorância destas pessoas sobre os índios: "conheci todos os líderes da esquerda brasileira. Só entendem de operário e camponês.":
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/514515-conheci-todos-os-lideres-da-esquerda-brasileira-so-entendem-de-operario-e-campones-nao-sabem-nada-de-indio
O problema, de fato, verifica-se também no Partido dos Trabalhadores, que teve, muito claramente, origem na esquerda. Sua política para a Amazônia merece diversas críticas dos ambientalistas e dos antropólogos - e também dos juristas. Cito aqui recente entrevista que Eduardo Viveiros de Castro concedeu a Júlia Magalhães em Outras palavras:
http://www.outraspalavras.net/2012/09/20/outros-valores-alem-do-frenesi-de-consumo/

O PT vê a Amazônia brasileira como um lugar a se civilizar, a se domesticar, a se rentabilizar, a se capitalizar. Esse é o velho bandeirantismo que tomou conta de vez do projeto nacional, em uma continuidade lamentável entre as geopolítica da ditadura e a do governo atual. Mudaram as condições políticas formais, mas a imagem do que é uma civilização brasileira, do que é uma vida que valha a pena ser vivida, do que é uma sociedade que esteja em sintonia consigo mesma, é muito, muito parecida. Estamos vendo hoje, numa ironia bem dialética, o governo comandado por uma pessoa perseguida e torturada pela ditadura realizando um projeto de sociedade encampado e implementado por essa mesma ditadura: destruição da Amazônia, mecanização, transgenização e agrotoxificação da “lavoura”, migração induzida para as cidades.

E ele chamou atenção para uma entrevista de Carlos Nelson Coutinho, que é um dos marxistas que sabia da importância da questão ecológica para o socialismo, não pensada por Marx, que acreditava "num crescimento permanente das forças produtivas"; e que se deve hoje "rediscutir a questão do consumo":

http://globotv.globo.com/globo-news/milenio/v/entrevista-com-o-filosofo-e-cientista-politico-carlos-nelson-coutinho/996706/
Como exemplo da esquerda na academia (e na imprensa, pois o professor em questão é colunista da Folha de S.Paulo), pode-se mencionar Vladimir Safatle, autor de A esquerda que não teme dizer o seu nome, que recebeu resenhas pouco éticas no próprio jornal em que escreve, segundo a ombudsman.
De outro nível foi a resenha de Idelber Avelar: elogiosa e perspicaz para o problema de que "a esquerda paulista precisa visitar o Xingu":

Na verdade, Safatle só explicita o que vários pensadores de esquerda não têm tido como assumir nas últimas décadas: a recusa (ou incapacidade, formule-se como se queira) a pensar as diferenças étnicas, sexuais, de gênero e de orientação sexual como parte constitutiva de uma política de esquerda.
 Aqui: http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2012/10/09/resenha-de-a-esquerda-que-nao-teme-dizer-seu-nome-de-vladimir-safatle/

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Carlos Nelson Coutinho e a democratização como valor universal

Gosto muito de Carlos Nelson Coutinho (1943-2012). Para mim, foi uma surpresa sua morte aos 69 anos ontem, dia 20 de setembro. Eu demorei para lê-lo. Ainda me lembro quando, no mestrado, falei de Carlos Nelson e meu orientador, Ronaldo do Livramento Coutinho, perguntou qual; eu pensava no urbanista Ferreira dos Santos; ele, no marxista Coutinho, que eu não conhecia. A partir de então é que fui me informar.
Gostei deste obituário escrito por Luiz Sérgio Henriques: http://correiodobrasil.com.br/carlos-nelson-coutinho-1943-2012/518354/#.UFv2m1HpiSo Ele conta da militância do autor no PCB, do exílio, dos livros, até aderir ao PSOL, depois de ter criticado o PT. Já Maurício Caleiro destacou uma conferência e uma entrevista do autor, que também indico: http://cinemaeoutrasartes.blogspot.com.br/2009/04/carlos-nelson-coutinho-na-globo-news.html
Porém, para quem ainda não o leu, talvez seja mais interessante começar pela entrevista que concedeu, em 2009, à revista Caros Amigos, que está disponível na internet:
http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/politica/2513-carlos-nelson-coutinho-leia-entrevista-na-integra
Chamo a atenção para a resposta sobre famoso trabalho de 1979, "A democracia como valor universal". Ele diz que deveria alterar para "democratização como valor universal", pois a democracia seria, antes de tudo, um processo de "plena socialização do poder político", sem se identificar com as instituições que historicamente assume. Essa plena socialização só poderia ocorrer no socialismo, pois, na sociedade de classes, a igualdade formal é sempre limitada pelas desigualdades materiais. Conclui Coutinho: "Então, eu diria que sem democracia não há socialismo, e sem socialismo não há democracia."
Aquele artigo causou grande impacto quando surgiu, pois boa parte da esquerda não era democrática (ou pregava o "centralismo democrático"...) e espantou-se com o elogio a certas liberdades que muitos viam como meramente "burguesas".
Esse artigo também está disponível na internet:
http://www.danielherz.com.br/system/files/acervo/ADELMO/Artigos/A%2BDemocracia%2Bcomo%2BValor%2BUniversal.pdf
Eu o citei em um trabalho que ainda tenho que rescrever, tendo em vista os documentos que encontrei depois, sobre o pensamento político da VAR-Palmares - grupo clandestino de esquerda responsável, entre outros feitos, pelo roubo do cofre de Ademar de Barros, e que se fracionou (destino de todos esses grupos) e acabou sendo destruído pela repressão política no início dos anos 1970. Dele fizeram parte Iara Iavelberg (http://www.torturanuncamais-rj.org.br/MDDetalhes.asp?CodMortosDesaparecidos=80), Lamarca (estes dois, por um breve período) e também Dilma Rousseff.
Nos interessantes documentos da Vanguarda Armada Revolucionária, não havia essa perspectiva da democratização como valor universal - mas tampouco nos de outros grupos, pelo que estudei até agora. Tratava-se de um problema teórico e político da época, como explicou Carlos Nelson Coutinho. Gramsci poderia ter ajudado a pensar na relação entre socialismo e democracia, porém ainda era pouquíssimo conhecido no Brasil. No meu esboço de artigo, ainda inédito, há esta passagem que cito agora:

No âmbito do pensamento marxista brasileiro, já no governo do General Figueiredo, Carlos Nelson Coutinho o fez, ao apontar em 1979 a necessidade de organização dos sujeitos coletivos de base, com respeito a sua autonomia e diversidade e a incorporação das massas ao sistema político, repensando o legado teórico de Marx e Engels.[i]
Coutinho defendeu que o pensamento de Gramsci poderia ser utilizado para a reavaliação da democracia e do socialismo no Brasil; porém, o grande pensador italiano não era realmente conhecido no Brasil antes da década de sessenta, e a fraqueza teórica do marxismo brasileiro fazia com que os manuais stalinistas, até aquela década, fossem a principal fonte teórica.[ii]


[i] COUTINHO, Carlos Nelson. “A democracia como valor universal”, In: LÖWY, Michael (org.), O marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais, 2ª. ed., São Paulo: Fundação Perseu Abramo, p. 447-454, 2006.
[ii] COUTINHO, Carlos Nelson. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político, 3ª. ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 281-282.
Como ele escreveu já em 1979, a democracia não deve ser vista como algo com valor meramente tático, instrumental, pelos socialistas: "Essa visão estreita se baseia, antes de mais nada, numa errada concepção da teoria marxista do Estado, numa falsa e mecânica identificação entre democracia política e dominação burguesa." (p. 34) No artigo, Carlos Nelson Coutinho defende a necessidade de articulação entre a democracia representativa e a democracia direita, afirmando que essa ideia "já faz parte do patrimônio teórico do marxismo" (p. 38).
Ele foi, devemos reconhecer, um dos autores que enriqueceu esse patrimônio.