
Em 26 de janeiro deste ano, a presidenta Dilma Rousseff, no Fórum Social Mundial 2012, a que foi depois de se encontrar amigavelmente com Kassab e Alckmin após o massacre de Pinheirinho (sem dizer uma palavrinha sobre a barbárie ocorrida em São José dos Campos), afirmou que desenvolvimento sustentável é crescimento acelerado!
Até o início da década de 1970, fazia mais ou menos sentido defender que desenvolvimento econômico é simplesmente igual a crescimento. Em 1972, a Conferência de Estocolmo, organizada pela ONU e origem de diversos compromissos internacionais em matéria ambiental, levou à paulatina mudança dessa noção. Um desenvolvimento que não se traduza em um compromisso com as gerações futuras não pode ser considerado sustentável. Mais do que isso: um compromisso com o planeta.
Permanecem, porém, as mentalidades retrógradas, interessadas apenas no lucro a curto prazo, deixando a desertificação, a poluição e a extinção de espécies como legado que esperam não chegar a ver, conquanto tudo isso já ocorra. Ouçam a volta do desenvolvimentismo versão Médici no governo retrô que temos hoje no Brasil: http://t.co/8DiZxKzI.
A partir dos sete minutos, ela enuncia que estará no centro dos debates algo mais amplo do que o meio ambiente e o clima: "um novo modelo de desenvolvimento". Novo, de fato? Após 10 minutos e 37 segundos, ouvimos:
No meu governo, quando falamos de desenvolvimento sustentável, eu quero dizer aqui de forma clara no que estamos falando. Para nós desenvolvimento sustentável significa crescimento acelerado de nossa economia para poder distribuir riqueza. Significa criação de empregos formais e expansão da renda dos trabalhadores. Significa distribuição de renda [...]
Depois de transcrever o áudio, descobri que o texto já está disponível no portal da Presidência da República. No entanto, ouvi-la pode ser bem mais inspirador e revelador do que a simples leitura, em razão da entonação dura, monótona e levemente ameaçadora que a presidente empresta àquelas palavras. Ouçam que fala de amplo mercado de consumo (mais um caso de ameaça ao meio ambiente, embora ela não o perceba) etc. Aos 12 minutos e 48 minutos, recorda da sustentabilidade ambiental como "condição imprescindível", mas ela já a reduziu ao mero crescimento econômico (com distribuição de renda).
O gosto nulo e o talento zero da presidenta para o ambientalismo, sempre reiterados, fazem-nos relembrar que, quando na Casa Civil do governo Lula, ela já tinha exposto o Brasil ao ridículo ao dizer, em Copenhague, 2009, que o "meio ambiente é uma ameaça ao desenvolvimento sustentável". Marina da Silva, que não pôde continuar naquele governo, jamais teria dito tal enormidade (que bem representa, note-se, como se sustenta cientificamente o pensamento de Rousseff).
Talvez os seus idos, velhos, distantes dias de militante marxista estejam ligados ao fato de que hoje a presidenta reviva o discurso de seus antigos algozes, apenas enfiando um "sustentável" aqui e acolá para adornar o discurso.
Quem aponta esse problema é o geógrafo marxista David Harvey, ao escrever sobre ecossocialismo em Justice, Nature, and the Geography of Difference. Ele explicou que se provou ser difícil tirar do marxismo a "visão marcada pela húbris" da "tese da dominação da natureza": "O marxismo compartilhou, com boa parte da ciência burguesa, uma repugnância geral à ideia de que a 'natureza' pode controlar, determinar ou até limitar qualquer tipo de comportamento humano."(p. 193).
Um ponto de contato com o capital predador...
Voltando ao discurso em Porto Alegre: é claro que a plateia governista aplaudiu o absurdo científico proferido pela presidenta. Rousseff concluiu sua fala de maneira triunfal e afirmou: "Tenho certeza: um outro mundo é possível."
Pois eu tenho certeza de que, dependendo do Médici reloaded (Belo Monte é só um dos exemplos da ressurgência dos projetos desenvolvimentistas da ditadura militar) precisaríamos de outro mundo, eis que para o atual só restará a destruição.
Mas não o teremos.