Ontem, dia doze de janeiro de 2012, em reunião de preparação do "churrascão diferenciado versão Cracolândia", foi combinado um "twittaço" para hoje, das 15 às 17 horas, com as etiquetas #LuznaCracolandia e #ChurrascaonaLuz.
Na reunião, falaram representantes de sindicatos, da universidade, pessoas em situação de rua... Diversas entidades e organizações estão a trabalhar em prol desse evento, entre elas o Coletivo DAR-Desentorpecendo a Razão.
Não é de estranhar que na capital do Estado de São Paulo, que foi governado pelo autointitulado melhor ministro da saúde que o país já teve, e está sendo novamente governado por certo médico, nesta capital mais um vez governada pelo ex-vice do soi disant melhor ministro da saúde, tenhamos este desastre que é a Cracolândia.
O uso de balas de borracha e bombas de efeito moral é o que se espera dessa conjugação de poderes que levou à entrega da cidade de São Paulo à polícia militar. Com Kassab, galhardamente reeleito, todas as subprefeituras, com exceção de uma, caíram nas mãos de coronéis da PM, o que logo faz ver uma opção pela criminalização da população e uma concepção do cidadão como inimigo.
Nesse escândalo, não há nada de muito novo. Voltamos às condições do higienismo que marcou os começos do urbanismo no Brasil e alhures.
Um dos marcos dessa concepção elitista da cidade como um organismo, que os pobres viriam sujar e contaminar, foi a grande reforma urbana no Rio de Janeiro, quando o Pereira Passos recebeu poderes ditatoriais do governo federal, governando com um Conselho Municipal sem atribuições e enriquecendo rapidamente.
Em crônica publicada em outubro de 1907, publicada em Kosmos (aconselho a edição das crônicas organizada por Alberto Dimas: Bilac, o jornalista), Olavo Bilac comentou a crise habitacional criada pelo urbanismo brasileiro:
Não há quem ignore que, com as demolições e reconstruções que o aformoseamento da cidade exigiu, houve no Rio uma verdadeira “crise de habitação”. O número de casas habitáveis diminuiu em geral, porque a reconstrução é morosa. Além disso, diminuiu especialmente, e de modo notável, o número de casas modestas, destinadas à moradia de gente pobre - porque, substituindo as ruas estreitas e humildes em que havia prédios pequenos e baratos, rasgaram-se as ruas largas e suntuosas, em que se edificaram palacetes elegantes e caros. E que fizeram os proprietários dos casebres e dos cochicholos que as picaretas demolidoras pouparam? Viram na agonia da gente pobre uma boa fonte de renda, e aumentaram o preço dos seus prédios. É uma crise completa e terrível [..]
Que há de fazer a gente pobre?
Se ao menos essa gente pudesse morar ao ar livre, sob o teto piedoso do céu, sob o pátio misericordioso das estrelas!.... [...]
Mas a polícia é feroz: a Lei manda considerar vagabundo todo o indivíduo que não tem domicílio certo, - e não quer saber se esse indivíduo tem ou não a probabilidade de arranjar qualquer domicílio.
Descontando o arroubo lírico de Bilac, que é o de alguém que não viveu nas ruas sob o teto das intempéries, a descrição é eloquente.
Esse urbanismo divorciado da noção de direitos sociais (como o direito à moradia) gerou crise de moradia. O urbanismo hoje, em São Paulo, continua com a mesma marca (ignorando também o direito à saúde, o que é escandaloso na Cracolândia) e o mesmo caráter lucrativo para os grupos que se apoderam das obras urbanas.
É auspicioso que a resposta seja tão bem humorada como um churrasco, que ocorrerá no dia 14 a partir das 16 horas. Sugiro que as notícias concernentes sejam acompanhadas por meio deste blogue, Luz Livre.
P.S.: O churrasco ocorrerá na esquina de Rua Helvetia com Dino Bueno.