O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Desarquivando o Brasil CLIX: Literatura, ato de memória e comissões da verdade: obras de Verunschk, Ferraz (com Paulo Torres) e Kucinski

Ontem, no I Seminário dos Pesquisadores de Pós-Doutorado em Teoria e História Literária do IEL-Unicamp, Mariana Ruggieri me perguntou da ficionalização da Comissão Nacional da Verdade. Não tive tempo de responder. É claro que o que já fiz (no meu livro de contos, no penúltimo de poesia, ou no romance que sairá mês que vem) não conta. Eu teria respondido lembrando da Trilogia Infernal (São Paulo, Patuá, 2016-2018) de Micheliny Verunschk e de Vícios de imanência ( São Paulo: Dobradura Editorial/Selo Sebastião Grifo, 2018), Paulo Ferraz.
No caso dos livros de Verunschk (composta de Aqui, no coração do inferno, O peso do coração de um homem e O amor, esse obstáculo), a filha do delegado viaja para o Rio de Janeiro entregar documentos do seu pai, referente a mortos e desaparecidos da ditadura. Com isso, ela comprova que ele pertencia à cadeia de comando de crimes contra a humanidade que fundamentava aquele regime.
O delegado é encontrado morto pouco depois, sem que realmente se esclareça o que ocorreu, o que nos faz lembrar do que ocorreu com o tenente coronel reformado Paulo Malhães, que deu um importante depoimento à Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro, depois à Comissão Nacional. A polícia do Rio concluiu que teria ocorrido latrocínio.
A Trilogia não termina com o episódio da Comissão Nacional da Verdade, pois é necessário investigar uma morte que não entraria no relatório da CNV: a da mãe da protagonista; ela teria sido vítima de feminicídio avant la lettre? Esse possível assassinato, apesar das condições políticas da sociedade patriarcal da época, não seria jamais elencado no relatório final daquela Comissão. No entanto, é para esse possível crime aparentemente desprezível para relatórios oficiais que o livro se encaminha, e ele somente poderá ser elucidado com a ajuda de uma senhora com Alzheimer, sua madrasta - uma alegoria da memória social brasileira.
Verunschk concentra-se, pois, no que não poderia ser admitido como grave violação de direitos humanos segundo os critérios da CNV. A personagem Laura, filha de um assassino e torturador, queria ser redimida de seu parentesco por meio de uma eventual atuação política da mãe. Cito o último volume, O amor, esse obstáculo:
A inclusão do registro de minha mãe entre os documentos dos desaparecidos que papai tinha em seu poder abria para mim a possibilidade de que a morte dela também fosse uma morte política, que de alguma forma o xerife tenha decidido se livrar dela porque ela se tornara subversiva, uma inimiga do regime ao qual ele vendera sua alma. Filha de um covarde, eu alimentei a esperança de que a morte de minha mãe, o assassinato de que eu suspeitava, a revestisse de heroicidade e assim eu mesma pudesse ser resgatada.
Não havia essa heroicidade inutilmente buscada nas conversas com as amigas da mãe, ou na evocação de personagens históricas como Zuzu Angel, assassinada pelo governo brasileiro por denunciar o desaparecimento de seu filho pela ditadura; para sair desse jogo, Laura resolve colocar "a mulher no centro do labirinto":
Este não é o labirinto de Creta, cujo centro foi o Minotauro, digo em voz alta, contestando o poema de Borges. Aliás, não fui eu a colocar a mulher no centro do labirinto. Devo confessar que não sei como ela apareceu lá, e isso, eu sei, é um fiasco. Talvez o labirinto tenha sido erguido em torno dela, pedra por pedra, percurso por percurso em todas as suas cavidades e enganos, suas estruturas discrepantes.
Ela assume esta política de gênero feminista, e é feliz a escolha da imagem do labirinto: sua mãe chamava-se Ariadne. Com isso, podemos finalmente ter a revelação do que ocorreu com ela neste país canibal. Minotauro alimentava-se de humanos.
Dessa forma, com Micheliny Verunschk a CNV aparece, mas a protagonista vê-se obrigada a superar os critérios políticos e de gênero oficialmente adotados pela Comissão, e de que ela compartilhava, para poder superar o impasse em que se encontra e resolver sua identidade.
O livro de Paulo Ferraz apresenta uma primeira parte que se dedica às graves violações de direitos humanos que constituíram o Estado brasileiro, com ênfase na ditadura militar, embora crimes do Estado brasileiro de outras épocas e do Império Português também se façam presentes. Há "poemas contra" Médici, Cabo Anselmo, Filinto Müller e Erasmo Dias, por exemplo. Há "poemas para", entre outros, Maria Bonita e o povo Panará. Ele não tematiza diretamente a CNV, embora se possa imaginar que os poemas da primeira seção tenham sido escritos, com maior probabilidade, depois da Comissão, e se possa imaginar que eles possam ter alguma inspiração no Relatório de 2014.
O poema contra o DOPS, "PARA NÃO ESQUECER N. 11", parte do procedimento do ready-made e de pesquisa documental. O poema se baseia no prontuário do advogado e intelectual comunista Paulo Torres (encontrei-o, inesperadamente, nesta ligação). Um dos documentos de que o autor se apropria é esta relação de bens apreendidos, procedimento comum nas prisões do DEOPS-SP:


Paulo Ferraz escreve a informação policial incluindo a lista dos bens apreendidos e incluiu a peça Andaime e o livro Poemas proletários, classificados como propaganda subversiva; "jornais velhos que dão pistas de que o Dr. Paulo Torres esteve com bolcheviques em Moscou, caiu cativos de revoltosos na síria e foi dado como morto em Marrocos." Sem mais informações, e com possibilidade de que "tenha mesmo morrido no Marrocos", a autoridade policial conclui a informação com "repressão à vadiagem!"
De fato, a edição de Poemas proletários, publicado pela Unitas, como versos como "nós somos a força,/ nós produzimos tudo/ não temos nada./ somos as abelhas/ que produzem mel/ e morrem de fome.", foi apreendida pela polícia. Andaime, apesar de ter sido suavizada por Jaime Costa, que a encenou (o que gerou conflito com o autor), também foi proibida. Nos dois casos, trata-se de obras recebidas como pioneiras. Esta notícia de 1931, do Diário da Noite, afirma que a peça inauguraria o teatro social no Brasil:


Esta notícia também consta do prontuário. No Arquivo Nacional, no Fundo do DOPS de Pernambuco, achei esta resenha ao livro de poemas, de Ernani Vieira, no jornal Guajarina, de 1931, que exalta o livro como um "álbum de fotografias", com que ficou "muito bem impressionado", embora confesse que os poemas "não têm forma; têm fundo":


Sua produção artística levou-o a ser perseguido e vigiado durante a ditadura de Vargas. Vejam este outro documento do prontuário, datado de 1939, que considera que o "grau de periculosidade" do "autor de trabalhos vários, todos eles de tendências absolutamente comunistas, deve estar em constante observação Policial":


Com alguns réus processados pelo Tribunal de Segurança Nacional da Era Vargas, foram encontrados exemplares de Poemas proletários, que era uma literatura que servia de prova de subversão contra o leitor nesses tempos de criminalização da arte e do pensamento. No Arquivo Nacional encontram-se alguns desses processos. Nesta Apelação 752 de Davino Francisco dos Santos e outro, autuada em 1940, há cópia do inquérito, que envolveu Torres; ele foi absolvido, apesar da apreensão dos seus dois exemplares do livro, pois as autoridades concluíram que ele estava afastado do Partido Comunista e da militância:


Apesar da singeleza dos versos, eles influenciaram alguém como o jovem José Paulo Paes, leio neste artigo de Maurício Guilherme Silva Júnior, "José Paulo Paes e a inversão do hipertexo".
Não há nada, porém, singelo nos procedimentos de Paulo Ferraz, especialmente na ironia de terminar o poema com a referência policial à vadiagem, embora essas obras tratem do mundo dos trabalhadores. O trabalhador que se organiza e age politicamente é o "vadio" para as instituições. A questão social é uma questão para a polícia. O poeta, ao se debruçar criticamente sobre os documentos policiais do passado e apresentá-los a contrapelo, emula procedimentos de uma comissão da verdade, que também deve ler criticamente documentos. Como a literatura é muito mais livre do que o relatório burocrático, Paulo Ferraz logra fazê-lo assumindo sarcasticamente a voz do repressor, o que não seria cabível, tampouco inteligível, para uma Comissão oficial: pensar-se-ia que aquela voz teria sido adotada, e não satirizada.
Mariana Ruggieri fez aquela indagação porque lembrei que o primeiro romance de Bernardo Kucinski, K., é anterior à instituição da CNV. A Expressão Popular publicou-o em 2011. Em 2013, ele singrou para a extinta Cosac Naify (a Comissão Nacional da Verdade estava em funcionamento) e, em 2016, quase dois anos após o relatório final da CNV, a Companhia das Letras passou a editá-lo no Brasil. O livro foi traduzido para o alemão, o catalão e o espanhol (em 2013), o inglês (2015), o francês e o italiano (2016).
Trata-se de um exemplo em que a obra literária serviu para a construção do processo de justiça de transição. Seu impacto como ato de memória serviu para a retomada do caso. A Universidade de São Paulo, em colaboração com a repressão política, havia demitido Ana Rosa Kucinski por abandono de emprego depois de o Estado brasileiro tê-la desaparecido, e nunca havia revisto essa medida. A lei federal n. 9140 de 1995, a Lei dos Desaparecidos, havia reconhecido essa condição dela e de seu marido, Wilson Silva, igualmente desaparecido. Na Universidade, no entanto, a cumplicidade com a ditadura permanecia.
Na audiência pública de 17 de outubro de 2012 da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva", ocorreu a assinatura do termo de cooperação entre essa Comissão e a Nacional, e o caso de Ana Rosa Kucinski e de Wilson Silva foi tratado. Ambos eram militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN). No perfil da antiga professora da Faculdade de Química elaborado pela Comissão estadual, pode-se tanto ler a transcrição da audiência:
No entanto na USP a versão oficial ainda não é a do desaparecimento forçado de Ana Rosa. Um processo instaurado pela Reitoria em 1974 sob número 174899 pleiteava a recisão do vínculo funcional de Ana Rosa por abandono de função, hipótese prevista no Inciso 4º do Artigo 254 do regime da USP. Recorda-se que 19 meses do desaparecimento de Ana Rosa a Congregação do Instituto de Química reuniu-se em sua 46ª reunião mensal no dia 23 de outubro de 1995. Na pauta encontrava-se o pedido da Reitoria de análise da situação de Ana Rosa, tendo sido aprovada a demissão da Professora decorrente do ‘abandono de função’ por 13 favoráveis e dois votos em branco. Dois dias depois a demissão da Professora foi publicada no Diário Oficial por ato do Governo do Estado, Paulo Egídio Martins, conforme relato de seu irmão Bernardo Kucinski no livro K, editora Expressão Popular, São Paulo 2012.
O romance de Kucinski é tratado como fonte da Comissão. Nessa ocasião, o livro foi ainda exposto na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, onde ela funcionava. Adriano Diogo, presidente, da Comissão "Rubens Paiva", avisou na audiência: "Eu só queria falar uma coisa, a editora que fez o livro do Professor Bernardo Kucinski com a vida da Ana Rosa mandou cerca de 20 exemplares que estão com a exposição aqui no plenário, aqui no auditório tem o livro do Bernardo Kucinski, o K, que conta a história de toda a família Kucinski."
Rosa Cardoso, a comissionária da CNV presente na audiência, "endossou ofício da Comissão Estadual da Verdade em que esta pede que a Congregação do Instituto de Química da USP e o reitor daquela universidade revejam decisão da congregação, de outubro 1975, em que foi aprovada a demissão da professora Ana Rosa Kucinski".
Eu assisti a outra audiência pública, de 29 de outubro de 2013, da mesma Comissão, no espaço dos estudantes de Química, o Queijinho. Eu não trabalhava para ela ainda. A audiência foi gravada e Rosa Cardoso, comissionária da Comissão Nacional da Verdade, também participou. Fiz um relato do evento neste blogue, lembrando que "Uma aluna que pertencia ao C.A. explicou que o diretor do Instituto havia aparecido no queijinho, mas havia deixado o local cinco minutos antes de os trabalhos começarem."
Não só a direção da Faculdade de Química se ausentou, como a Comissão da Verdade da USP nada fez. Ela somente passou a agir depois dessas ações da Comissão Estadual e da Nacional.
No relatório da Comissão da USP, publicado só tempos depois de sua extinção oficial, temos a reprodução dos documentos da década de 1970, mas nada sobre o que ocorreu no século XXI, um verdadeiro salto mortal histórico. Sobre o que ocorreu em tempos mais recentes, lemos apenas, no volume III, que "Em 2014, após diligências da Comissão da Verdade da USP, o Instituto de Química se dispôs, por unanimidade de votos dos membros da Congregação, a anular o ato anterior de rescisão de contrato por abandono de cargo e pedir desculpas formais à família da professora."
Tratei disso em outra nota deste blogue: https://opalcoeomundo.blogspot.com/2018/04/desarquivando-o-brasil-cxliv-o.html.
No relatório, não é apresentada a verdade sobre as ações necessárias para que a Universidade deixasse o seu posicionamento de cumplicidade com a ditadura; são silenciadas as ações daquelas outras Comissões e de Bernardo Kucinski, incluindo seu livro K.; nesse caso, temos um exemplo do uso dos relatórios como forma de silenciamento. Felizmente temos, para lutar contra essas formas de censura burocrática, entre outras armas, a literatura.
O que me faz voltar a Paulo Torres: em 1933, ele enviou aos jornais uma carta ao "Clube dos Artistas Modernos", de São Paulo, exigindo ser retirado da lista de sócios, pois "infelizmente" não acreditava em artistas, declarando-se "inimigo de classe dos srs.": "Prefiro continuar com os meus humildes camaradas de sofrimento. Com os que têm o hábito do trabalho."
A tese em História Social de William Golino, Retrato pictórico moderno: suas formas e significados, defendida na PUC-SP em 2010, reproduz em anexo a carta e a resposta do Clube, que zombou de Torres afirmando tê-lo encontrado dias depois no Jóquei Clube com a "burguesia endinheirada".
Em resposta dada ao Correio da Noite, Paulo Torres pôde esclarecer o sentido de suas declarações: "Como já tive ocasião de observar, não divido os homens em artistas e não artistas. Divido os elementos da atual sociedade em duas classes: a dos exploradores e a dos explorados. Esse negócio de artista é coisa muito velha, muito preciosa, muito ridícula, e, por isso mesmo, profundamente inútil..." Obras como a de Kucinski evidenciam o caráter velho e engessado dessa insuficiente dialética.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Lançamento de Caminhos da lírica brasileira contemporânea

Este livro de ensaios, Caminhos da lírica brasileira contemporânea (org. Simone Rossinetti Rufinoni e Tercio Redondo) foi publicado pela Nankin em dezembro de 2013, mas somente neste 9 de abril de 2014 é que será lançado no Restaurante Central das Artes (rua Apinajés, 1081, em São Paulo).
A própria organizadora é um dos autores, bem como Eduardo Sterzi, Fabio Weintraub, Iumna Maria Simon, Priscila Figueiredo, Renan Nuernberger, Vilma Arêas e Viviana Bosi. Talvez de intruso, também entrei nessa prestigiosa lista, com um artigo sobre Nuno Ramos.
Embora predominem autores ligados à faculdade de Letras da USP (o que não é meu caso, naturalmente), as abordagens críticas são bastante diferentes, bem como o escopo dos ensaios. Alguns se detêm em um só autor, outros fazem referência a vários. Eduardo Sterzi, em um trabalho que tem Pasolini como centro, refere-se a Carlito Azevedo. Nuernberger trata de Angélica Freitas, Marília Garcia e Ricardo Domeneck e, para isso, passa por Leminski, Paulo Ferraz, Fabiano Calixto, Dirceu Villa e outros. Viviana Bosi analisa Rubens Rodrigues Torres Filho, Francisco Alvim e Sebastião Uchoa Leite. Fabio Weintraub debruça-se sobre Régis Bonvicino, Tarso de Melo, Sebastião Nicomedes e outros.
Alguns dos ensaios foram publicados anteriormente: o de Priscila Figueiredo sobre Airton Paschoa e o de Iumna Maria Simon, que tem Claudia Roquette-Pinto como objeto.
Neste livro há críticos que também são poetas: Sterzi, Weintraub, Figueiredo, Nuernberger, e alguns aparecem também como objeto de análises nos ensaios. Fabio Weintraub, por exemplo, é analisado por Simone Rufinoni; Priscila Figueiredo, por Vilma Arêas.
Também nesse aspecto, o livro é interessante por flagrar como os autores de hoje refletem sobre e são pensados por seus contemporâneos. Há uma conversa sendo urdida entre os poetas brasileiros? Provavelmente várias, e a obra apresenta algumas.




quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Primavera Literária na Praça Roosevelt

A escritora Ana Rüsche (http://wordpress.anarusche.com/) solicitou a divulgação da programação literária das Satyrianas, a Primavera Literária, de que ela é curadora.  O evento ocorrerá do dia 2 ao 4 de novembro de 2012.
Estarão lá, na Praça Roosevelt em São Paulo, Eduardo Sterzi e Renan Nuernberger, com outros nomes interessantes. De Sterzi, comentei vídeos nossos na USP aqui, http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/01/videos-da-voz-do-escritor-com-eduardo.html, e tracei algumas considerações sobre um grande poema seu: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2011/06/1964-e-voz-do-autor-eduardo-sterzi-e.html).
Sobre Nuernberger, tracei algumas considerações sobre sua crítica, http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/04/contra-ditadura-militar-o-cordao-da.html, e sua poesia, http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2010/10/leitura-do-dia-poemas-aus-nuernberger.html.
Foi esta a mensagem que recebi de Rüsche:


Primavera Literária| Satyrianas 2012

“A mesma outra praça e a mesma outra cidade”

Durante as Satyrianas, o evento “Primavera Literária” reúne escritores para uma conversa no final da tarde na Praça Roosevelt.

O tema não poderia ser outro: “A mesma outra praça e a mesma outra cidade” - nos dias 2, 3 e 4/11, a ideia é realizar um bate-papo sobre alguns dos processos de transformação do espaço urbano e a produção literária.


(ou acesse: http://migre.me/bgMiU)


PROGRAMAÇÃO
(sujeita a alterações)
curadoria: ana rüsche

das 16h às 18h


sexta, 2/11
- eduardo sterzi (escritor, crítico e professor)
- flávio ricardo vassoler (escritor e pesquisador)
- márcia denser (escritora e jornalista)
- paulo fehlauer (fotógrafo, jornalista e produtor multimídia)
* Neste dia, haverá venda de livros das 14h às 18h (participação da Editora Patuá, Selo Demônio Negro e outras casas editoriais).

sábado, 3/11
- fernanda carvalho (escritora e fundadora do Prólogo Selo Editorial)
- gabriel kolyniak (poeta, gaitista e editor Revista Córrego)
- juliana bernardo (poeta)
- marcelo montenegro (poeta)


domingo, 4/11
- fabiana motroni (agitadora cultural)
- luis rafel montero (escritor)
- renan nuernberger (poeta e pesquisador)
- ronaldo cagiano (escritor)



domingo, 1 de abril de 2012

Contra a ditadura militar: o Cordão da Mentira e Armando Freitas Filho segundo Renan Nuernberger


O Cordão da Mentira vem "repudiar o evento de celebração do golpe militar de 1964, realizado no Círculo Militar do RJ, e a ação violenta da Polícia Militar do RJ contra os manifestantes no dia 29/3/12. O Cordão classifica tais acontecimentos como, no mínimo, lamentáveis." O coletivo é "composto por coletivos políticos, grupos de teatro e sambistas de diversos grupos e escolas de São Paulo".
Ainda não o conheço, mas pretendo participar do desfile em repúdio ao golpe de 1964.
Vejam, na página do Cordão, os vídeos da manifestação, no Rio de Janeiro, contra a comemoração que militares da reserva fizeram do golpe militar. Vejam as bombas e o laser da polícia. Forma os acontecimentos do último dia 29 de março. Dois dias depois, em São Paulo, em lançamento dos novos títulos da coleção Ciranda de Poesia da EdUERJ, coordenada pelo professor Ítalo Moriconi, o professor contou-me que um estudante da UERJ teve o braço quebrado pela polícia na manifestação contr ao golpe e foi tratado no Hospital Universitário.
No dia primeiro de abril, dia do golpe, o Cordão da Mentira desfilará em São Paulo, do Cemitério da Consolação, a partir das 11:30h, até a Rua Mauá, para chegar ao antigo DOPS, hoje Memorial da Resistência. O Cordão explica aqui o trajeto, cujo mapa segue abaixo.

Trata-se de manifestação cultural, com intervenções teatrais. Estou curioso para ver o que ocorrerá, que linguagens artísticas far-se-ão ouvir e ver.

E volto à coleção da EdUERJ organizada por Moriconi. Na Ciranda de Poesia, cada volume é dedicado a um poeta, com um ensaio e uma antologia. Renan Nuernberger é o autor do volume Armando Freitas Filho, conhecido poeta contemporâneo que viveu os tempos da ditadura militar.
O livro é muito bom e atesta o grande talento crítico de Nuernberger, que analisa, entre outros títulos de Armando Freitas Filho, A flor da pele, de 1978 (tabloide republicado no livro À mão livre, do ano seguinte), que trata da tortura e da violência reinantes no Brasil da época. Sua última seção toma significados do verbete pele do dicionário Aurélio, deformando-os (torturando-os, creio). Um exemplo: "Estar na pele de, e enfiar (no outro) agulhas sob as unhas. Estar na posição (para ser enrabado por muitos), situação, etc., ocupada por (alguém), e então avaliar o porquê de todo esse sofrimento; estar no lugar de, pois as coisas mudam."
Creio que discordo da interpretação de Nuernberger nesse ponto. Ele vê alternância de vozes e da posição dos indivíduos (torturado e torturador) nessa passagem, pois as "coisas mudam". Mudam? Não, o poema é irônico a respeito, como se vê depois: "o país não tem memória nacional", a impunidade é garantida para sempre: "Tirar sua pele de você, sua identidade. Gozar na pele de, impunemente, com a polícia a seu favor, para sempre. Cortar a pele de, e esquecer tudo isso bem depressa, pois agora a história é outra, as águas passadas não movem o moinho, e o Brasil é feito por nós?"
Concordo com Nuernberger, no entanto, em sua conclusão sobre o poema:

O poema deixa em aberto a possibilidade iminente de novas investidas da truculência para além da ditadura militar. Embora se possa esquecer toda a violência ocorrida nos porões do DOPS e do DOI-CODI, essa mesma violência - em diferentes tempos e locais - pode emergir da mais oculta das entranhas do Brasil que, por não a ter enfrentado durante o processo de abertura democrática, mantém o fantasma da tortura e prisioneiros políticos em latência. [p. 43]

O esquecimento dessa violência é, justamente, um dos fatores para a truculência de hoje. Para lembrar de ambas, além da leitura do livro, sugiro, para quem estiver em São Paulo, a participação no Cordão da Mentira. Escolher, para a caminhada, o DOPS como ponto final deve significar a firme vontade de que ele não seja o ponto final, ou recorrente, da história do Brasil.

segunda-feira, 14 de março de 2011

"Há mais poetas que homens" e o fascínio atropelador pela máquina

A alma encantadora das ruas continua a ser um livro encantador. João do Rio recolhe suas crônicas sobre o Rio de Janeiro do início do século XX, que era, evidentemente, uma outra cidade.
Acho que o caráter especial (tantas vezes mistificado) da cultura carioca vinha de contatos menos segregacionistas entre as diferentes classes. No Rio de Janeiro, ainda hoje, encontram-se favelas nas "áreas nobres": Vidigal, Pavãozinho, Rocinha... A segregação, em termos territoriais, ocorre de forma diferente do que acontece no Município de São Paulo.
Em outras épocas, Tom Jobim, rapaz de classe média, pôde ter contato com músicos populares; Villa-Lobos, também. Esses intercâmbios entre classes dinamizaram a cultura carioca.
Como as fronteiras internas da cidade cesceram dramaticamente, interditando ainda mais territórios de um grupo a outros grupos, creio que se pode dizer que Rio de Janeiro não há mais, naquele sentido antigo, mesmo com tudo de ilusório que aquela integração apresentava. A sociabilidade do bunker talvez esteja a conformar o novo caráter do carioca.
Escrevo isto, no entanto, não por causa da cidade, mas por causa de poetas. Em um dos momentos mais interessantes do livro (que deve ser lido, aconselho, na edição da Crisálida, com o notável trabalho de pesquisa de Oséias Silas Ferraz), João do Rio visita a prisão e começa a crônica com uma frase que, para muitos, ainda hoje, não é nada óbvia: "O criminoso é um homem como outro qualquer."
João do Rio teme os condenados cínicos, porém. O que ele vai pesquisar? A poesia feita pelos presos. Afinal, todos fariam versos no Brasil. Para mostrar a humanidade dessas pessoas, cita diversos versos dos presidiários; alguns eram repentistas.
A crônica é "Versos de presos", de 1905. Ele a conclui descrevendo um encontro com poeta (livre) no bonde. É um jovem escritor que chama os poetas velhos de "animais" e prossegue a diatribe querendo condená-los juridicamente: "Este país está todo errado. Há mais poetas que homens. Eu, governo, mandava trancafiar metade, pelo menos, ali, com castigos corporais uma vez por mês!"
João do Rio termina: "Mal sabia ele que a Detenção já estava cheia."
A frase é terrível. Alguns poetas brasileiros não chegariam nem mesmo à condição humana? Estariam abaixo dela? Desconheço. Certo é que muitos não chegam à condição de leitores, nem mesmo de poesia.
Trata-se de casos em que o fascínio por si mesmo estende-se às suas próprias produções, mesmo as poéticas, mas não chega à poesia (talvez porque suas produções em versos, elas mesmas, não atinjam o estatuto de poesia).
Esse descaso pela arte não pode ser verificado nos autores que se engajaram no livro POA 2502, que reúne diversas formas: conto, poema, foto, cartum... O livro, disponível gratuitamente na internet, foi produzido em resposta ao atropelamento coletivo de ciclistas da Massa Crítica em Porto Alegre, que aconteceu em 25 de fevereiro deste ano.
A escritora Ana Rüsche, uma das editoras, convidou-me para participar com algo, mas eu nada tinha e não consegui produzir no prazo de três dias. Divulgo a iniciativa, porém, aqui.
Alguns dos escritores, como Eduardo Sterzi, enviaram textos já publicados alhures (um dos momentos mais fortes de Aleijão - a fronteira da cidade é desenhada no corpo a chutes). Outros, entre os quais se inclui Renan Nuernberger, produziram especialmente para o projeto.
O poema de Nuernberger confirma as características que pude ler na sua poesia: ele conhece a história da literatura e escreve com um olhar de crítico literário. Além de citar a expressão popular que acabou em música, "Nóis capota mais num breca" (poetas que só leem poesia podem ser humanos, mas tendem a ser chatos...) faz uma analogia entre o deslumbramento de Marinetti pela máquina e o "macho alfa" atropelador.
É possível que o horizonte do fascismo seja comum às duas figuras.
O fascínio atropelador pela máquina? João do Rio certamente não iria intitular, hoje, se vivo fizesse suas incursões pela cidade, seu livro de "A alma encantadora das ruas". Entre 1905 e 2011, surgiram na cidade os personagens motorizados de Rubem Fonseca, que desejam tirar algo essencial do direito à cidade, a circulação, dos que não podem (e há os que podem e não querem, o que irritou certa jornalista, conservadora, de periódico de São Paulo) adquirir os caros motores do transporte individual.
A segregação entre as classes manifesta-se também na mobilidade urbana. E há, mesmo ao volante, mais máquinas do que homens.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Leitura do dia: Poemas aus Nuernberger

Em outro escrito (http://opalcoeomundo.blogspot.com/2010/08/waltercio-caldas-e-algo-como-um-poema.html), lamentei que jovens artistas apresentassem como credenciais de atualidade o desconhecimento do passado. Esse comentário não pode ser feito sobre Renan Nuernberger, autor que nasceu em São Paulo em 1986.
Seu primeiro livro, Mesmo poemas, (http://mesmopoemas.wordpress.com/), lançado em 2010 pelo Selo Sebastião Grifo, denota um temperamento crítico, no sentido de análise e diálogo com poéticas alheias. A favela de Heliópolis, por exemplo, nele aparece, mas pelo prisma da poética arquitetônica de Ruy Ohtake, que tem trabalhado com essa comunidade. "Mesmo" aqui, "poemas".
Ferreira Gullar e João Cabral de Melo Neto são obsessões que atravessam este livro, e de que o autor ainda não se exorcizou totalmente. Drummond também, a quem quase devemos a drummondiana orelha. Também comparecem Murilo, Mário de Andrade, Vinicius...
(Lembro que inspiração às vezes é confundida com a invocação de espíritos, porém ela tem muito de exorcismo.)
A poesia contemporânea brasileira há tempos tem-se dedicado ao esforço citacional, às vezes por necessidade de legitimação, às vezes por esnobismo. Não é o caso de Nuernberger, que apresenta Gullar e Cabral como problemas para sua poética própria.
Portanto, os melhores momentos do livro ocorrem quando ele sai da condição de "O Aluno" (título do primeiro livro de José Paulo Paes, de 1947, que explicitamente presta um tributo a Drummond, Bandeira, Murilo...) e trata Cabral e Gullar como problemas, e não modelos; são exemplo disso "Gullariana" (que inicia com uma alusão a Vinicius) e "Cabral (velho aço nos ossos)", que assim começa:

molhar uma esponja no discurso-rio
retesá-lo não, sua sintaxe selvagem,
absorvê-lo, pois, em seu ímpeto, em
seu impacto com os poros puros, brio
de assepsia.

Como outros poetas contemporâneos (lembro agora de Eduardo Sterzi e Tarso de Melo), Nuernberger revisita Drummond em um interessante tom menor, o que gera a "Caixinha do saber empacotada", inspirado na máquina do mundo, que se revela ser a mercantil propaganda.
Danilo Bueno destaca este fato no posfácio, e é, com efeito, interessante verificar como estão fortemente presentes em Mesmo poemas autores contemporâneos, como Angélica Freitas, Ruy Proença, Paulo Ferraz, Andréa Catrópa, Eduardo Lacerda. Nisso, e apenas nisso (pois a poética é muito diversa) lembrei dos poetas da geração chamada marginal, que tanto faziam esse tipo de frequentação mútua em verso.
Nessa imersão no contemporâneo, devem-se incluir as críticas a Régis Bonvincino em um poema-objeto que foi entregue no lançamento do livro e em "'Xerox, tigre, terror'": a poesia não é área de segurança, acusa Nuernberger com humor; mas só vou entregar o começo:

fiz tão
pouco publiquei
tão menos
nem sei se
posso proclamar
-me poeta

(i, too, dislike it: enfim)

O fim do último poema também pode ser revelado aqui; poderia vir ser o problema para os próximos livros do autor, seja de poesia, seja de crítica, pois se trata do grande desafio da arte contemporânea: apossar-se dos escombros.

e Adalgisa se afoga em seu próprio
escopo, sua própria
prosa, seu próprio sexo (se acaso
ainda estivesse viva!), seu nome

próprio (?)

como nos são
próprios todos os escombros