No ano passado, usei esse panfleto numa atividade na disciplina Filosofia jurídica. O poeta, cientista político, diplomata e especialista em Milton Nascimento (entre outros talentos) Ricardo Rizzo, meu amigo, perguntou por que não lembrei de que o título vinha de canção de Milton e Ronaldo Bastos, "Menino", escrita em resposta ao assassinato do estudante Édson Luís pela polícia no Rio de Janeiro em 1968. "Quem cala sobre o teu corpo consente na tua morte", na voz do compositor.
Eu sempre tinha de lembrar da canção com os alunos, que em geral não tinham conhecimento nem interesse por música brasileira e não identificavam a referência, que continuava atual na época.
Nesse ano de 1979, Elis Regina interpetava a canção no espetáculo Saudades do Brasil, com arranjo de Cesar Camargo Mariano. Ela chegou a combiná-la com uma canção de Fátima Guedes, "Onze fitas". http://www.blogger.com/img/blank.gif
Elis lançou tanto Milton quanto Fátima Guedes. Aqui, se pode ouvir a compositora. A combinação que a poderosa cantora fez foi lançada em disco e pode ser ouvida nesta ligação, com a intuição da cantora em ver o liame entre os dois assassinatos, entre as duas violências.
Talvez algo de correlato estivesse presente no Cordão da Mentira; ou na carta que as Mães de Maio brasileiras escreveram para as Mães da Praça de Maio argentinas.
Ainda na concentração da passeata, podem-se ver duas formas de representação dos desaparecidos da ditadura: o cartaz com diversos rostos de desaparecidos, que pode ser visto também na nota anterior que fiz sobre o Cordão da Mentira, e as lindas efígies coloridas, que permitiam a visão dos dois lados. Os que sofreram a mesma violência na democracia estavam igualmente representados.
Os desaparecidos e mortos da ditadura foram homenageados também nas placas que foram afixadas em locais estratégicos. Mostrei algumas na nota anterior.
Ativistas dos direitos indígenas estavam presentes na manifestação - ao lado, camiseta com mensagem contra o genocídio dos índios Guaranis, em marcha judiciosa e executiva no Mato Grosso do Sul. Participaram do Cordão também os membros das bicicletadas, que por vezes caem vítimas do desastre urbanístico e administrativo que São Paulo continua a ser.
Escritores na passeata: Fabio Weintraub, em foto tirada ainda na concentração do evento, em frente ao Cemitério da Consolação. Logo abaixo, Julián Fuks na Rua Fortunato, com a camiseta azul dos 33 anos das Mães da Praça de Maio.
Na Rua Maria Antônia, vemos novamente a comissão de frente da passeata, composta pelas Mães de Maio. Desta vez deste ângulo, para se ver a mensagem da camiseta: "Um mundo melhor é possível: Quando o Estado não mais discriminar, não excluir o pobre e negros. Exigimos dignidade, igualdade, justiça e liberdade!".
A mensagem pressupõe outro valor: a diversidade, que se manifestou na passeata.
Ainda na mesma rua, de verde, Raphael Tsavkko, the angry Brazilian, jornalista que escreveu no seu blogue sobre o Cordão, incluindo fotos bem melhores do que as minhas e vídeos. Pode-se vê-lo com uma camiseta de apoio aos bascos.
Presente na manifestação, estavam setores da Academia. Os estudantes de Psicologia apareceram, sem divã, para afirmar que nem Freud entende a impunidade dos torturadores. De fato, o fundamento teórico deve ser outro, precisa ser buscado no lugar onde se encontram certas derivas de uma criminologia que se pretende crítica com a extrema direita menos disfarçada. Na foto seguinte, não conheço os outros, mas, no centro, com a camiseta branca inscrita com "Juicio y castigo", estava o mestre em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo Renan Quinalha, orientando de Deisy Ventura. Sua dissertação tinha como tema a justiça de transição.
Caminhando para o Minhocão, ainda passando pelo Largo de Santa Cecília. Apesar da faixa da Companhia de Teatro Kiwi sobre a impossibilidade da felicidade, creio que ela foi desmentida, pois a manifestação tinha um sentido de júbilo.
Em frente ao Teatro do Folias d'Arte, foi realizada nova pausa. Soltaram-se balões vermelhos, imagem simples de júbilo.
Na nota anterior, incluí foto de Lino Bocchini, jornalista da Falha de S.Paulo, censurado judicialmente pelo jornal quase homônimo. Ele escreveu também sobre o Cordão da Mentira. Agora, insiro outra foto. Na árvore em frente ao prédio da Folha de S.Paulo, vejam, que foi amarrada uma placa em homenagem às vítimas do urbanismo higienista de São Paulo. Essas placas foram ignoradas na modesta cobertura da passeata feito pelo Estado de S.Paulo, e na modestíssima pela Folha, e tal silêncio ecoa o silêncio dessas vítimas.
P.S.: Contei, em outra nota, que o professor Ítalo Moriconi falou do manifestante no Rio de Janeiro que teve o braço quebrado pela polícia na recente manifestação contra a comemoração do golpe militar. Eis aqui a história dele.