Uma grande notícia editorial, depois de tantos infortúnios que o ano trouxe também para este campo. Aquele que é, para mim e outros, o maior poeta vivo que escreve em nossa língua, o português Alberto Pimenta, tem no Brasil mais um volume de poesia publicado. A Chão da Feira reuniu dois de seus livros: Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta e Indulgência plenária, ambos publicados originalmente pela & etc, editora de Lisboa.
Pimenta possuía apenas um livro de poesia no Brasil, a antologia A encomenda do silêncio, que organizei em 2004. Os livros agora reunidos, que não têm paralelo na poesia contemporânea em nossa língua, são posteriores à antologia.
Tive a honra de escrever um prefácio para esta edição. Transcrevo breves trechos, que devem servir para apresentá-lo:
Alberto Pimenta nunca se acomodou. Poeta, performer e linguista nascido no Porto em 1937, seu primeiro livro, entre as dezenas que escreveu, foi O labirintodonte, de 1970, publicado enquanto ainda estava no exílio na Alemanha. Em 1960, assumiu cargo de Leitor de português, mantido pelo governo de Portugal na Universidade de Heidelberg. Por recusar-se a apoiar a criminosa guerra colonialista que a ditadura salazarista movia em África, foi demitido em 1963 – a Universidade alemã, porém, o contratou.
Ele já havia requerido cidadania alemã quando ocorreu a Revolução dos Cravos em 1974. Quando finalmente pôde voltar a Portugal, em 1977, lançou um dos grandes livros de poesia do século XX, Ascensão de dez gostos à boca (voltado contra, entre outros, os desgostos da guerra), realizou performances, programas de televisão e diversas outras atividades.
Eduardo Lourenço já chamou Pimenta de herdeiro de uma tradição contestatória; Rosa Maria Martelo vê que em sua obra a “sabotagem dos discursos dominantes é uma estratégia fundamental, já não tanto em função de um hermetismo que torne a poesia resistente em si mesma, mas pelo desvio, pela derivação crítica”. De fato, o caráter político de sua obra é bastante pronunciado, e os dois livros aqui publicados bem o exemplificam.
Em Pimenta temos uma poesia cuja matéria é a insubmissão em uma forma igualmente insubmissa. Podemos lembrar, rapidamente, da guerra colonialista (que quase não deixou marcas na poesia portuguesa) atacada desde O labirintodonte; as críticas à União Europeia (“IV REICH/ também conhecido cabalisticamente por/ EUROPA”), o combate ao imperialismo (como no premonitório poema que começa “sonhei/ que um fogo vindo do céu/ devastava a América.”), a oposição à pena de morte etc.
