Tentei algo como uma tradução de um poema de Hans Magnus Enzensberger, do livro Zukunftsmusik, de 1980, republicado na antologia Gedichte 1950-2005. Ele emprega imagens que servem tanto para os minerais quanto para o pensamento; curioso é que a caracterização desse pensamento mineral seja feita principalmente de negativas e, por isso, acabe aludindo à resistência.
Consistência
O pensamento
atrás dos pensamentos.
Um seixo, comum,
puro, duro,
não à venda.
Não se dissolve,
não se põe
em discussão,
é o que é,
não aumenta nem diminui.
Incomum,
não colorido, com veios.
Não novo nem velho.
Não precisa de justificativa,
não exige fé alguma.
Não sabes de onde
o tens, aonde
ele vai, para que
serve. Sem ele
serias pouco.
O palco e o mundo
Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.
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quarta-feira, 17 de maio de 2017
sábado, 11 de março de 2017
30 dias de canções: A boca seca da revolução: Miguel Poveda e Narcís Comadira
30 dias de canções
Dia 22: Uma canção e uma revolução
"Boca seca", de Miguel Poveda e Narcìs Comadira. Poveda a gravou no disco "Desglaç", de 2005, todo feito a partir de poemas em catalão.
Cheguei a pensar, para esta categoria, em uma canção revolucionária, como "Ça ira" ou "Bella ciao", porém pensei que era mais interessante uma canção que remetesse a uma ânsia de mudança, mas sem estar ligada a um evento histórico determinado, ou que se mostrassem em aberto para uma mudança futura.
Neste vídeo, Poveda a canta ao vivo: https://www.youtube.com/watch?v=FEvGneiu4t0.A gravação (e não a bela execução musical) tem defeitos. Aqui, em bis, ele não a canta inteiramente, mas o vídeo não tem problemas, e a interpretação é muito bonita: https://www.youtube.com/watch?v=c1BD1BvHcS0.
Uma tradução literal poderia ser assim:
Gritamos
Até não poder mais.
A paz, a paz,
Justiça e liberdade
Até não poder mais.
Gritamos até não poder mais
Que nos incomodavam tantas estruturas
Imóveis,
Tantos papéis, tantas leis,
A jaula que encarcera
Até não poder mais.
Temos a boca seca.
Poveda (que eu cheguei a cogitar para o dia 28 deste desafio de canções) tem uma ligação com a poesia; seu disco anterior tinha como repertório os poemas de exílio de Rafael Alberti.
Em "Boca seca", do disco programaticamente catalão, Miquel Gil participa e vocifera a estrofe central. Dimitri Psonis toca o "santur", que dá uma sonoridade toda especial à faixa.
Pode-se ver algo disso no documentário Desglaç. Poveda conta nele seu encontro com Comadira; "Boca seca" lhe pareceu um "título precioso": https://youtu.be/rbhy4NmUX-4?t=17m30s.
Esse disco foi o primeiro para que compôs música. O cantor considera, com razão, esse um dos poemas "reivindicativos" que escolheu: https://youtu.be/rbhy4NmUX-4?t=35m49s.
Quase escolhi "Final", do mesmo disco, criada a partir do poema Joan Brossa que celebra a morte de Franco. No entanto, a morte do facínora não foi resultado de uma revolução; pelo contrário, seu fim tranquilo mostram exatamente o malogro de um projeto revolucionário na Espanha. Mas vejam o tango que ele e Marcelo Mercadante escreveram para o assassino, para a "Excremência": https://youtu.be/rbhy4NmUX-4?t=43m12s.
O poema de Narcís Comadira que Poveda musicou vem do primeiro livro do escritor e artista plástico, La febre freda, de 1966. http://www.escriptors.cat/autors/comadiran/obra.php
No Brasil, Ronald Poolito traduziu Comadira para o português; entre essas traduções, está um livro inteiro, Desdesejo: http://www.lamparina.com.br/livro_detalhe.asp?idCodLivro=144; também no 12 Poetas Catalães, traduzido com Josep Domenech: http://www.catalonia.com.br/download/12_poetas_catalaes.pdf.
A melodia que Miguel Poveda, conhecido intérprete de flamenco, criou para o poema nasce, coerentemente, do grito anunciado no primeiro verso.
Os ornamentos vocais que criou para essa transfiguração do grito, a própria música, são típicos desse gênero ibérico que, para o cantor, é universal. Creio que essa caracterização do flamenco faz todo sentido, pois o grito também é universal.
A exclamação com que a voz lança "La pau" ("a paz") encarna, creio, a luta para atingi-la. Em 1966, essa boca teria que esperar até a década seguinte para que o regime assassino do franquismo acabasse. Cito José Antonio Martín Pallín e Rafael Escudero Alday na introdução ao livro Derecho y memoria histórica (Madrid, Editorial Trotta, 2008):
[...] hoje sabemos que foram mais de 200.000 as pessoas assassinadas entre os anos de 1939 e 1942, que 700.000 estiveram em campos de concentração, que mais de 400.000 foram presos e que uns 300.000 foram expulsos de seus postos de trabalho. Sabemos agora que se tratou de um autêntico genocídio por motivos políticos que os vencedores da guerra executaram sem pudor, ensoberbecidos pela marcha imperial de seus protetores nazistas.Como o fim desse regime criminoso ocorreu por meio de um grande pacto de esquecimento sob a tutela de um monarca, penso que se pode adotar o método que Poveda empregou para compor: continuar o grito, ampliando-o.
sábado, 4 de março de 2017
30 dias de canções: Wolf e Mörike imaginando a ilha
30 dias de canções
Dia 19: Uma canção que quer ser a própria vida
"Gesang Weylas" (O canto de Weyla), de Hugo Wolf sobre poema de Eduard Mörike. O poema é de 1831. A conhecida canção foi composta em 1888.
Aqui, uma gravação ao vivo de dois maiores músicos do século passado, o barítono Dietrich Fischer-Dieskau e o pianista Sviatoslav Richter: https://www.youtube.com/watch?v=j78AWwfk7eQ.
Para ouvi-la em voz feminina, nada menos do que a impressionante voz do mezzo-soprano Christa Ludwig acompanhada do ilustre Gerald Moore: https://www.youtube.com/watch?v=IJR2aYWZuek.
Para quem achar, o disco de Anne Sofie von Otter com Ralf Gothoni todo dedicado a canções de Wolf e Mahler, de 1987, traz uma interpretação impressionante.
Tento uma tradução pobre e literal do canto de Weyla; o original, em metro iâmbico, é rimado:
Tu és Orplid, minha terra!
Longe brilhas;
Tua ensolarada costa torna em vapor
A névoa marinha, e assim a face dos deuses se umedece.
Antigas águas se elevam
rejuvenescidas em torno de sua cintura, filha!
Diante de tua divindade inclinam-se
Os reis, eles são teus criados.
Não se trata de mitologia grega, nórdica ou de qualquer outro lugar: Orplid e Weyla só existiam na imaginação de Mörike e colegas no seu tempo de estudantes.
No final, o poema parece fazer uma alusão a Isaías, capítulo 49, versículo 23; fiquei em dúvida em como traduzir "Wärter" porque as traduções em português que vi usam "aio", mas também a palavra mais específica "tutores". "Criados" (vassalos e servos são designados por outras palavras) foi a solução que achei que poderia sugerir a ideia de subordinação sem trazer a de educação, que seria estranha para uma ilha.
No livro de Eric Sams, The songs of Hugo Wolf, leio que o compositor imaginou a deusa com uma harpa cantando sentada ao luar. O piano, de fato, imita os arpejos daquele instrumento. O tom, diz Sams, é quase religioso: assistimos a uma cerimônia mística enquanto ela ocorre no "mundo imaginário do poeta". Creio que não é necessário entender as palavras para sentir este clima; por isso, Wolf talvez tenha tido mais sucesso em criar um mundo próprio do que Mörike.
Uma vez que se trata de Hugo Wolf, a voz adere de forma imaginativa ao texto; talvez ela o reescreva. Em "Uralte Wasser" (antigas águas) vai para o grave, a própria frase do "Vor deiner Gottheit" (diante de tua divindade) inclina-se, até o forte agudo "Könige", os reis, que acabam por se revelar "Wärter", criados, e a voz vai para o grave numa dinâmica mais fraca.
Não entendo boa parte do que diz Dietrich Fischer-Dieskau nesta masterclass em que ele trabalha este Lied com a soprano Hanna-Elisabeth Müller, mas é plenamente inteligível o cuidado com os detalhes, que é o que faz diferença neste repertório.
Não sei se a que atribuir a presença de deuses, mitologias antigas ou pessoais, na poesia alemã da primeira metade do século XIX. As tentativas revolucionárias nos Estados alemães nessa época fracassaram, o que levou Heine àquela observação em Contribuição à história da religião e da filosofia na Alemanha, de que, se os franceses executaram seu rei, os alemães ao menos mataram deus... Com Kant e a Crítica à Razão Pura.
Quando o Estado se unificou, o fez sob um regime monárquico e conservador. Não sei se seria legítimo ler o que Wagner, tão admirado por Wolf, fez sob esse prisma, porém é significativo que O anel do Nibelungo, aquela saga dos deuses germânicos, fosse finalmente encenada diante de reis e nobres, e que seu compositor fosse um ex-revolucionário.
Talvez somente em uma mitologia (pessoalmente inventada, ainda por cima) Mörike se visse autorizado a imaginar reis como criados... E de uma deusa, note-se, não de uma operária.
Estamos longe de Büchner e de um universo sem deuses e com "nós, os pobres" ("Wie, die arme Leute") como protagonistas, o que ocorre em Woyzeck (por algum tempo lido como Wozzeck, dado o estado do manuscrito). Para isso, o século XX. E Alban Berg.
Woyzeck, por sinal, morre afogado, acreditando estar banhado de sangue. Vítima de outra Orplid: a luta de classes. Mas esta é a própria vida, e não uma ilha imaginária.
domingo, 5 de fevereiro de 2017
30 dias de canções: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
30 dias de canções
Dia 5: Uma canção que precisa ser tocada baixo
"Über den Selbstmord" [Sobre o suicídio], de Hanns Eisler e Bertolt Brecht. O poema aparece na peça A alma boa de Setsuan. Eisler o musicou nos Estados Unidos em 1942, quando os dois artistas comunistas estavam em exílio.
A partitura pode ser vista nesta ligação. Traduzo os versos como Eisler os musicou:
Neste país e neste tempo
Não deveriam existir noites enevoadas
Tampouco pontes altas sobre rios.
Mesmo as horas entre a noite e o dia
E todo o inverno, com isso, são perigosos!
Então, diante da miséria,
Os homens, em um momento,
Jogam fora a vida insuportável.
Neste país e neste tempo
Não deveriam existir noites enevoadas
Tampouco pontes altas sobre rios.
Mesmo as horas entre a noite e o dia
E todo o inverno, com isso, são perigosos!
Então, diante da miséria,
Os homens, em um momento,
Jogam fora a vida insuportável.
O poema tem um segundo verso, "Basta um pouco", na segunda estrofe, que Eisler não incluiu; "em um momento" foi adicionado.
Quando se chega à última palavra, "fort", temos um fortíssimo e com a indicação sforzato; soa como se o corpo se jogasse da ponte no último momento e mergulhasse profundamente.
Por causa da sintaxe alemã, o "fort" tem que vir no final, o que deve ter inspirado Eisler para o efeito repentino. Para, em português, sugerirmos algo parecido, teríamos que fazer isto:
Então, diante da miséria,
Os homens, em um momento,
Jogam a vida insuportável fora.
A partitura começa pp e chega ao pppp. A voz entra sozinha, quase que continuando o silêncio, pois está em pp, e o piano, na mesma indicação, aparece no segundo compasso. O piano termina a música, depois do fortíssimo, em pianíssimo.
Muitas interpretações ignoram completamente as indicações, na minha opinião destruindo totalmente o efeito da música. Ela deve ser interpretada "baixo". Evidentemente que cantar da forma como está escrito é bastante difícil (berrar é quase sempre uma alternativa mais fácil); por isso, suspeito, na maior parte das interpretações que descobri no youtube os cantores, populares ou líricos, já começavam forte.
Não tenho nada contra violar as indicações da partitura, mas a violação precisa ser consequente e coerente, o que não me parece ser o caso. O canto e o piano pianíssimos são muito mais interessantes por criarem uma atmosfera em que se sugere que qualquer coisa, até falar mais alto daquelas pontes, daquelas noites e daquela hora, pode levar à morte.
Quando finalmente surge o forte, e acentuado, com o choque sentimos que não se pôde evitar o suicídio.
No momento da II Guerra Mundial em que a canção foi composta, a tentação do suicídio devia ser cotidiana, mesmo entre exilados; lembrem que Zweig e Lotte mataram-se no Brasil em 1942, no mesmo ano da canção.
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
#ForaTemer em São Paulo e o saque como método de governo
Em 4 de setembro de 2016, participei em São Paulo de uma das manifestações #ForaTemer que ocorreu no país contra aquele que no momento ocupa a Presidência da República. A manifestação, a partir do vão do Masp, desceu até o Largo da Batata pela Avenida Rebouças. Quando ela se dispersava, os manifestantes, a imprensa e os que simplesmente estavam presentes foram atacados pela Polícia Militar.
Não sei bem como foi em outras cidades. Em Belém do Pará, a polícia atirou: https://twitter.com/NoticiasdoPARA/status/771900820518559744Eu não havia chegado ao Largo quando a repressão começou; ouvi de longe as bombas. E li alguns relatos e notícias:
- Matéria da Reuters: Brazilian Police break up anti-Temer rally in Sao Paulo;
- Rede Brasil Atual: PMs arremessam bombas e gás lacrimogêneo ao final de protesto em São Paulo;
- Agressão policial a repórter da BBC Brasil, Felipe Souza: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-37273147?ocid;
- El País: "Milhares vão às ruas contra Temer em SP e PM reprime ato com justificativa controversa";
- La Jornada: Miles de brasileños exigen renuncia del presidente Michel Temer;
- BBC: Brazil police use tear gas at pro-Dilma protest;
- Vídeo da Agência Democratize: gás lacrimogêneo lançado em bar: https://twitter.com/agdemocratize/status/772625972961173504;
- O gás atingiu também passageiros dos ônibus; foto da Mídia Ninja: https://twitter.com/MidiaNINJA/status/772605761646104577;
- Pablo Ortellado elaborou uma linha horária da repressão: https://www.facebook.com/ortelladopablo/posts/1213408308724740.
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sexta-feira, 7 de março de 2014
Leopoldo María Panero, o ninho do nada
Morreu ontem um dos maiores poetas contemporâneos, Leopoldo María Panero (1948-2014). Um de meus preferidos de todos os tempos, de uma forma que nunca me permitiu escrever nada sobre ele. Não conseguirei fazê-lo agora, mas darei o testemunho da minha mudez de leitor.
Não falarei de sua vida, atribulada e conhecida. Todos sabem que seu pai (Leopoldo Panero) aderiu ao regime, mas ele mesmo se tornou antifranquista e foi preso por isso e por consumo de tóxicos. Diagnosticado como esquizofrênico, passou mais da metade da vida internado em instituições psiquiátricas. Sua biografia, que inclui a bissexualidade, convidaria a lê-lo como "poeta maldito". Sua poesia, que afronta os valores convencionais, autoriza essa leitura.
Gosto da obra de seu pai e da de seu irmão Juan Luis Panero (ambos já mortos; o tio, Juan, nunca o li), mas ele sempre foi meu preferido na família pela carga de delírio que sua poesia conseguia conter, alargando as fronteiras da inteligibilidade, ou simplesmente desfazendo-a, e nesse desfazimento encontrando seu sentido.
Nisso, pode-se encontrar algum paralelo com Artaud (que ele conhecia bem e citava), além da questão biográfica de ambos terem sido pacientes psiquiátricos. Mas, de resto, são muito diferentes, os temas são dissemelhantes. Não vou mencionar as notas no Estado de S.Paulo e na Folha de S.Paulo, que não dão nem de longe a ideia da grandeza do poeta. É melhor ler a matéria que Luís Miguel Queirós fez para o português O Público.
Portugal também está muito melhor do que nós em termos de tradução de sua poesia. Confirmo agora no sistema de Biblioteca Nacional que não temos nenhum de seus vários livros, tampouco uma antologia a ele dedicada (se eu estiver errado, por favor corrijam nos comentários - ver nota).
De Gólem (Barcelona: Ediciones Igitur, 2008)
Vitória pálida do papel em ruínas
What then? sang Plato's ghost, what then?*
urinar sobre a ruína
vestir-se com pano para ir ao mercado
urinando uma vez mais
sobre o pescado
onde a têmpora grita como um veado
cagando na sombra
e gritando para o Nada
e gritando para o Nada na sombra
e errando pela página
como por um bosque
como pelo bosque cálido do Nada
e o morno da morte
em que um tigre caça pássaros sobre o vazio
com um revólver.
* William Butler Yeats
De Esphera (Buenos Aires: el ángel caído, 2008)
Imitando um homem
Oh, a bunda da voz
Electroshock que destrói meus dentes
Dentadura do silêncio na flor do nada
Homem que está feito do puro nada
Espuma que cai da minha boca
Semelhante a um homem
De mãos trementes e de turvo olhar.
De Mi lengua mata (Madrid: Arena Libros, 2008)
III
Perdido para sempre no ar da maldição
Na porta que range na casa abandonada
Movida somente pelo desabitado do grito
Pelo desabitado da alma que não povoa ninguém
Vendida ao inferno do poema, ao inferno do grito
Oh lágrima do poema e tremor do Universo
Porque o mundo é só uma sombra no ácido do grito
Oh tu, LSD, espírito do grito.
De Reflexión (Madrid: Ediciones Casus-Belli, 2010)
XLII
Rei da ruína sou
Nome oculto do desastre
Esperança na privada
Moscas voando em torno do papel
"moscas, moscas sobre o plátano nas ruas"
Lowell disse
Amparando-se no catolicismo da ruína
Piscando o olho para o desastre
Que assoma sem lábios sobre o papel
E morde.
É curioso como as citações aparecem; são mais conversações do que o que se faz normalmente como intertexto.
Escolhi poemas de livros recentes, onde são comuns as repetições, os paralelismos, as anáforas, que contrastam com um pensamento que não é linear e parece que vai se extraviar a cada momento. Tal sensação perturbadora fazia com que este poeta pudesse dizer, sem pose, sem afetação alguma:
É um trecho de Esphera. Agora, que ele não está mais entre nós, talvez sejamos quem esteja, de fato, no nada, mas calados, sufocados no próprio ninho. Afinal, como lemos em Mi lengua mata: "Viver é um trabalho mal pago".
Nota: Li em outro lugar que Heitor Ferraz Mello lembrou que, certa vez, a antiga revista Inimigo Rumor circulou tendo como encarte Conversações deste Panero. Fui verificar, é o número 15 da revista: http://editora.cosacnaify.com.br/Loja/PaginaLivro/10730/Inimigo-Rumor-15---revista-de-poesia.aspx
Não falarei de sua vida, atribulada e conhecida. Todos sabem que seu pai (Leopoldo Panero) aderiu ao regime, mas ele mesmo se tornou antifranquista e foi preso por isso e por consumo de tóxicos. Diagnosticado como esquizofrênico, passou mais da metade da vida internado em instituições psiquiátricas. Sua biografia, que inclui a bissexualidade, convidaria a lê-lo como "poeta maldito". Sua poesia, que afronta os valores convencionais, autoriza essa leitura.
Gosto da obra de seu pai e da de seu irmão Juan Luis Panero (ambos já mortos; o tio, Juan, nunca o li), mas ele sempre foi meu preferido na família pela carga de delírio que sua poesia conseguia conter, alargando as fronteiras da inteligibilidade, ou simplesmente desfazendo-a, e nesse desfazimento encontrando seu sentido.
Nisso, pode-se encontrar algum paralelo com Artaud (que ele conhecia bem e citava), além da questão biográfica de ambos terem sido pacientes psiquiátricos. Mas, de resto, são muito diferentes, os temas são dissemelhantes. Não vou mencionar as notas no Estado de S.Paulo e na Folha de S.Paulo, que não dão nem de longe a ideia da grandeza do poeta. É melhor ler a matéria que Luís Miguel Queirós fez para o português O Público.
Portugal também está muito melhor do que nós em termos de tradução de sua poesia. Confirmo agora no sistema de Biblioteca Nacional que não temos nenhum de seus vários livros, tampouco uma antologia a ele dedicada (se eu estiver errado, por favor corrijam nos comentários - ver nota).
De Gólem (Barcelona: Ediciones Igitur, 2008)
Vitória pálida do papel em ruínas
What then? sang Plato's ghost, what then?*
urinar sobre a ruína
vestir-se com pano para ir ao mercado
urinando uma vez mais
sobre o pescado
onde a têmpora grita como um veado
cagando na sombra
e gritando para o Nada
e gritando para o Nada na sombra
e errando pela página
como por um bosque
como pelo bosque cálido do Nada
e o morno da morte
em que um tigre caça pássaros sobre o vazio
com um revólver.
* William Butler Yeats
De Esphera (Buenos Aires: el ángel caído, 2008)
Imitando um homem
Oh, a bunda da voz
Electroshock que destrói meus dentes
Dentadura do silêncio na flor do nada
Homem que está feito do puro nada
Espuma que cai da minha boca
Semelhante a um homem
De mãos trementes e de turvo olhar.
De Mi lengua mata (Madrid: Arena Libros, 2008)
III
Perdido para sempre no ar da maldição
Na porta que range na casa abandonada
Movida somente pelo desabitado do grito
Pelo desabitado da alma que não povoa ninguém
Vendida ao inferno do poema, ao inferno do grito
Oh lágrima do poema e tremor do Universo
Porque o mundo é só uma sombra no ácido do grito
Oh tu, LSD, espírito do grito.
De Reflexión (Madrid: Ediciones Casus-Belli, 2010)
XLII
Rei da ruína sou
Nome oculto do desastre
Esperança na privada
Moscas voando em torno do papel
"moscas, moscas sobre o plátano nas ruas"
Lowell disse
Amparando-se no catolicismo da ruína
Piscando o olho para o desastre
Que assoma sem lábios sobre o papel
E morde.
É curioso como as citações aparecem; são mais conversações do que o que se faz normalmente como intertexto.
Escolhi poemas de livros recentes, onde são comuns as repetições, os paralelismos, as anáforas, que contrastam com um pensamento que não é linear e parece que vai se extraviar a cada momento. Tal sensação perturbadora fazia com que este poeta pudesse dizer, sem pose, sem afetação alguma:
Estou acostumado a falar do nada
E falar e falar do nada
Como o pássaro de seu ninho.
É um trecho de Esphera. Agora, que ele não está mais entre nós, talvez sejamos quem esteja, de fato, no nada, mas calados, sufocados no próprio ninho. Afinal, como lemos em Mi lengua mata: "Viver é um trabalho mal pago".
Nota: Li em outro lugar que Heitor Ferraz Mello lembrou que, certa vez, a antiga revista Inimigo Rumor circulou tendo como encarte Conversações deste Panero. Fui verificar, é o número 15 da revista: http://editora.cosacnaify.com.br/Loja/PaginaLivro/10730/Inimigo-Rumor-15---revista-de-poesia.aspx
domingo, 12 de janeiro de 2014
Questão de prova: Kant e o cosmopolitismo
Uma singela questão de Filosofia do Direito:
Como a prova pode ser respondida com consulta, vocês podem dar uma olhadinha em À paz perpétua, de Kant (um de meus livros favoritos), antes de responder.
Deixo aqui os trechos originais e as minhas tentativas de tradução livre:
Segundo artigo definitivo para a paz perpétua
O Direito das Gentes deve fundamentar-se em um federalismo de Estados livres.
[...] Isso seria uma federação de povos, que, porém, não deveria ser um único Estado. Nele haveria, de fato, uma contradição: porque cada Estado contém uma relação entre um superior (o legislador) e um inferior (quem obedece, isto é, o povo), muitos povos em um só Estado se uniriam em somente um povo, o que contradiz a condição (pois nós aqui consideramos o direito dos povos uns em relação aos outros, na medida em que eles constituem diversos Estados e não devem se confundir em um só Estado).
Zweiter Definitivartikel zum ewigen FriedenDas Völkerrecht soll auf einen Föderalism freier Staaten gegründet sein.
[...] Dies wäre ein Völkerbund, der aber gleichwohl kein Völkerstaat sein müßte. Darin aber wäre ein Widerspruch; weil ein jeder Staat das Verhältnis eines Oberen (Gesetzgebenden) zu einem Unteren (gehorchenden, nämlich dem Volk) enthält, viele Völker aber in einem Staat nur ein Volk ausmachen würden, welches (da wir hier das Recht der Völker gegen einander zu erwägen haben, so fern sie so viel verschiedene Staaten ausmachen, und nicht in einem Staat zusammenschmelzen sollen) der Voraussetzung widerspricht.
Da garantia da paz perpétua.
2. A ideia do Direito das Gentes supõe a separação de muitos Estados vizinhos e independentes entre si e, apesar de uma situação como essa em si ser um estado de guerra (se uma união federativa dos mesmos não previne a irrupção de hostilidades), no entanto ela é preferível, segundo uma ideia da razão, à fusão desses Estados pelo controle de um sobre os outros, e um poder transformado em uma monarquia universal; pois as leis, com a maior extensão do governo, perdem sempre mais em força, e um despotismo sem alma, depois de ter exterminado as sementes do bem, acaba, então, decaindo em anarquia.
Von der Garantie des ewigen Friedens.
2. Die Idee des Völkerrechts setzt die Absonderung vieler von einander unabhängiger benachbarter Staaten voraus, und, obgleich ein solcher Zustand an sich schon ein Zustand des Krieges ist (wenn nicht eine föderative Vereinigung derselben dem Ausbruch der Feindseligkeiten vorbeugt); so ist doch selbst dieser, nach der Vernunftidee, besser als die Zusammenschmelzung derselben, durch eine die andere überwachsende, und in eine Universalmonarchie übergehende Macht; weil die Gesetze mit dem vergrößten Umfange der Regierung immer mehr an ihrem Nachdruck einbüßen, und ein seelenloser Despotism, nachdem er die Keime des Guten ausgerottet hat, zuletzt doch in Anarchie verfällt.
O livro inteiro pode ser lido aqui: http://homepage.univie.ac.at/benjamin.opratko/ip2010/kant.pdf
P.S. O gabarito não é necessário, suponho.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
Antologia de viagem: Argentina III
Em 2012, estive na Argentina, o que é sempre uma oportunidade para atualizar-se com sua literatura. A viagem me inspirou duas pequeníssimas séries de poemas traduzidos:
Argentina I: http://opalcoeomundo.blogspot.com.ar/2012/07/antologia-de-viagem-argentina.html
Argentina II: http://opalcoeomundo.blogspot.com.ar/2012/07/antologia-de-viagem-argentina-ii.html
Tento agora mais uma, apesar de meus modestos talentos para a tradução, uma vez que o meio editorial brasileiro não tem sido muito generoso com a poesia argentina contemporânea - já não o é com a brasileira!
Começo, naturalmente, com Julián Axat, pois uma das razões da viagem foi o lançamento do seu mais novo livro (http://opalcoeomundo.blogspot.com.ar/2013/05/edicao-argentina-de-calcio-e-lancamento.html).
As histórias de musulmán o biopoética dizem respeito a menores vítimas de violência; escolhi, porém, um poema que, apesar de aparentemente não tratar do assunto (a referência explícita é a Paul Celan), dele nasce, o que é revelado na segunda parte do livro, "Passagens em espelho", em que, benjaminiamente, Axat expõe sua fábrica poética, trazendo, "torcidos", recortados, os materiais textuais de que compôs os poemas da primeira parte, "Mal sobre ruínas do bem".
Incluí os poucos livros que consegui ler na rápida viagem. O eu lírico que deambula no livro de Emiliano Cruz Luna; a poesia explicitamente spinoziana de Liliana Lukin em La Ética demostrada según el orden poético; a poesia de viagem de Carlos Aprea; e um longo e audaz poema em que se cruzam sexo e história, Nova Iorque e genocídio armênio, o impressionante Káukasos de Ana Arzoumanian; deste, traduzi apenas um fragmento.
Julián Axat (La Plata, 1976), musulmán o biopoética (La Plata, Libros de la talita dorada, 2013).
Mal sobre ruínas do bem
31. A poesia é / a boca
Ninguém /
testemunha /
pela Testemunha / ou
Ninguém
é poeta Testemunha
Ninguém testemunha?
Ninguém
testemunha
pela Testemunha
O poeta não?
O poeta Ninguém?
Paul Celan Ninguém?
A Testemunha é Ninguém
mas / é Testemunha
O poeta testemunha / logo
é Ninguém
Passagens em espelho (Bitácora)
31. a poesia é / a boca
... Você não sabe / você quer me defender / mas você não vive onde vivo / você come bem / se veste bem / você não é perseguido pela polícia o tempo inteiro / seus irmãos não são assassinados / você quer me defender / mas primeiro teria que saber as coisas que vivo / o que é viver da forma como meus filhos vivem numa fossa / e estão / expostos à morte / no dia-a-dia...
(Palavras pronunciadas por Romina, mãe do menor A.D, dirigidas a uma Assessora de Menores de La Plata, durante uma audiência judicial realizada em 8/10/2012)
... E sabe por quê? / Porque não têm outra saída / se o menor não faz nada / o agarram do mesmo jeito / e se está metido em algo / também... / então, é melhor estar, não?...
(Palavras pronunciadas por uma mãe tentando justificar seu filho durante uma audiência judicial. Registro em campo próprio. Realizada em 14/5/2010)
Emiliano Cruz Luna (San Justo, 1976), Desocupez (Buenos Aires: Ediciones del Dock, 2010).
Lenda do abismo nas colinas Mossman
Logo aconteceu, distanciando-se o navio não se distinguia;
mas ele ali sustentou seu obscuro humor humano.
A disgressão do rumo não é possível em um mundo sem pegadas,
a pátria não me espera, já ninguém tem
minhas lembranças, meu nome
pesa menos do que o ar sobre o céu.
Devo andar em outubro ou em sua luz falsa
a baía tende a fraturar-se
a comida já não faz falta
tenho frio
o vento é parte de meus ossos
trazendo-me a melodia da última palpitação
do voo último do pássaro do Adormecido.
Pássaro e voo nas mãos detenho, ergo uma pena
branca de uma de suas asas até minha boca e daí
a pena cai para meu peito esquerdo, muda de cor;
tornando-se pele cola-se em minhas costelas que já são parte do solo.
Liliana Lukin (Buenos Aires, 1951), La Ética demostrada según el orden poético (Buenos Aires: Ediciones La Cebra, 2011).
XXI
Às vezes sonho como estratégia
contra a devastação.
Neste senho vou veloz
como se cavalgasse
fugindo de outra mordida.
Tudo em redor se trata
de morder sobre o aberto
e tornar mais profundo
o dano para ver sua tristeza.
No meu cavalgar difícil
é a ação de fugir e
difícil a ação de ser mordido,
enquanto trato de erguer no ar
crianças, que no sonho ainda estão
inteiras e difícil a ação de crianças
que vão subindo na minha garupa:
centenas de crianças escamoteadas
às mandíbulas que povoam o mundo.
Ao despertar, tocarei a cama,
não como se buscasse o amado,
senão como quem volta
de um sonho de grandeza
e é surpreendido pela luz,
sabendo que, outra vez,
perdeu uma batalha.
Carlos Aprea (La Plata), Pueblos fugaces (City Bell: Libros de la talita dorada, 2012).
Guandacol
Na rota a Jachal,
perseguindo a derradeira luz do dia,
somos um navio em plena cordilheira,
cento e vinte colisões contínuas
mareiam como um mar.
Transtornados, famintos,
avistamos a respiração de uma baleia,
gaivotas negras como condores,
outros navios de carga nos perseguem
e um sal amargo
nos resseca a boca.
Alguém nos grita pelo caminho
que não bebamos a água do próximo rio,
que está morta,
que a mataram os da mina.
Ana Arzoumanian (Buenos Aires, 1962), Káukasos (Buenos Aires: Activo puente, 2011).
..................
Eu uma negra que está
aqui
agora,
porque não esteve
na Anatólia
nesse momento.
Aqui como um barco
que te busca na orla
dos portos
do mar
que não se enche,
para que me vejas
enquanto afundo.
A corda
com que enforcaram
as meninas
nas plantações.
Eu, uma negra
consumida
por chicotadas.
Todas as manhãs
do mundo
eu
um povo vencido
assisto
ao nascimento
de uma nação.
Woodrow Wilson e sua dislexia
escrevendo
a história do povo americano.
A dislexia de Wilson
invadindo o México,
com sua incapacidade
para ler
ou escrever
outorga a autonomia
aos povos do império otomano.
Deformações.
Eu estou aqui
porque não estive
ali
nesse momento.
Uma negra
que não dorme nunca
toda inteira.
......................
Argentina I: http://opalcoeomundo.blogspot.com.ar/2012/07/antologia-de-viagem-argentina.html
Argentina II: http://opalcoeomundo.blogspot.com.ar/2012/07/antologia-de-viagem-argentina-ii.html
Tento agora mais uma, apesar de meus modestos talentos para a tradução, uma vez que o meio editorial brasileiro não tem sido muito generoso com a poesia argentina contemporânea - já não o é com a brasileira!
Começo, naturalmente, com Julián Axat, pois uma das razões da viagem foi o lançamento do seu mais novo livro (http://opalcoeomundo.blogspot.com.ar/2013/05/edicao-argentina-de-calcio-e-lancamento.html).
As histórias de musulmán o biopoética dizem respeito a menores vítimas de violência; escolhi, porém, um poema que, apesar de aparentemente não tratar do assunto (a referência explícita é a Paul Celan), dele nasce, o que é revelado na segunda parte do livro, "Passagens em espelho", em que, benjaminiamente, Axat expõe sua fábrica poética, trazendo, "torcidos", recortados, os materiais textuais de que compôs os poemas da primeira parte, "Mal sobre ruínas do bem".
Incluí os poucos livros que consegui ler na rápida viagem. O eu lírico que deambula no livro de Emiliano Cruz Luna; a poesia explicitamente spinoziana de Liliana Lukin em La Ética demostrada según el orden poético; a poesia de viagem de Carlos Aprea; e um longo e audaz poema em que se cruzam sexo e história, Nova Iorque e genocídio armênio, o impressionante Káukasos de Ana Arzoumanian; deste, traduzi apenas um fragmento.
Julián Axat (La Plata, 1976), musulmán o biopoética (La Plata, Libros de la talita dorada, 2013).
Mal sobre ruínas do bem
31. A poesia é / a boca
Ninguém /
testemunha /
pela Testemunha / ou
Ninguém
é poeta Testemunha
Ninguém testemunha?
Ninguém
testemunha
pela Testemunha
O poeta não?
O poeta Ninguém?
Paul Celan Ninguém?
A Testemunha é Ninguém
mas / é Testemunha
O poeta testemunha / logo
é Ninguém
Passagens em espelho (Bitácora)
31. a poesia é / a boca
... Você não sabe / você quer me defender / mas você não vive onde vivo / você come bem / se veste bem / você não é perseguido pela polícia o tempo inteiro / seus irmãos não são assassinados / você quer me defender / mas primeiro teria que saber as coisas que vivo / o que é viver da forma como meus filhos vivem numa fossa / e estão / expostos à morte / no dia-a-dia...
(Palavras pronunciadas por Romina, mãe do menor A.D, dirigidas a uma Assessora de Menores de La Plata, durante uma audiência judicial realizada em 8/10/2012)
... E sabe por quê? / Porque não têm outra saída / se o menor não faz nada / o agarram do mesmo jeito / e se está metido em algo / também... / então, é melhor estar, não?...
(Palavras pronunciadas por uma mãe tentando justificar seu filho durante uma audiência judicial. Registro em campo próprio. Realizada em 14/5/2010)
Emiliano Cruz Luna (San Justo, 1976), Desocupez (Buenos Aires: Ediciones del Dock, 2010).
Lenda do abismo nas colinas Mossman
Logo aconteceu, distanciando-se o navio não se distinguia;
mas ele ali sustentou seu obscuro humor humano.
A disgressão do rumo não é possível em um mundo sem pegadas,
a pátria não me espera, já ninguém tem
minhas lembranças, meu nome
pesa menos do que o ar sobre o céu.
Devo andar em outubro ou em sua luz falsa
a baía tende a fraturar-se
a comida já não faz falta
tenho frio
o vento é parte de meus ossos
trazendo-me a melodia da última palpitação
do voo último do pássaro do Adormecido.
Pássaro e voo nas mãos detenho, ergo uma pena
branca de uma de suas asas até minha boca e daí
a pena cai para meu peito esquerdo, muda de cor;
tornando-se pele cola-se em minhas costelas que já são parte do solo.
Liliana Lukin (Buenos Aires, 1951), La Ética demostrada según el orden poético (Buenos Aires: Ediciones La Cebra, 2011).
XXI
Às vezes sonho como estratégia
contra a devastação.
Neste senho vou veloz
como se cavalgasse
fugindo de outra mordida.
Tudo em redor se trata
de morder sobre o aberto
e tornar mais profundo
o dano para ver sua tristeza.
No meu cavalgar difícil
é a ação de fugir e
difícil a ação de ser mordido,
enquanto trato de erguer no ar
crianças, que no sonho ainda estão
inteiras e difícil a ação de crianças
que vão subindo na minha garupa:
centenas de crianças escamoteadas
às mandíbulas que povoam o mundo.
Ao despertar, tocarei a cama,
não como se buscasse o amado,
senão como quem volta
de um sonho de grandeza
e é surpreendido pela luz,
sabendo que, outra vez,
perdeu uma batalha.
Carlos Aprea (La Plata), Pueblos fugaces (City Bell: Libros de la talita dorada, 2012).
Guandacol
Na rota a Jachal,
perseguindo a derradeira luz do dia,
somos um navio em plena cordilheira,
cento e vinte colisões contínuas
mareiam como um mar.
Transtornados, famintos,
avistamos a respiração de uma baleia,
gaivotas negras como condores,
outros navios de carga nos perseguem
e um sal amargo
nos resseca a boca.
Alguém nos grita pelo caminho
que não bebamos a água do próximo rio,
que está morta,
que a mataram os da mina.
Ana Arzoumanian (Buenos Aires, 1962), Káukasos (Buenos Aires: Activo puente, 2011).
..................
Eu uma negra que está
aqui
agora,
porque não esteve
na Anatólia
nesse momento.
Aqui como um barco
que te busca na orla
dos portos
do mar
que não se enche,
para que me vejas
enquanto afundo.
A corda
com que enforcaram
as meninas
nas plantações.
Eu, uma negra
consumida
por chicotadas.
Todas as manhãs
do mundo
eu
um povo vencido
assisto
ao nascimento
de uma nação.
Woodrow Wilson e sua dislexia
escrevendo
a história do povo americano.
A dislexia de Wilson
invadindo o México,
com sua incapacidade
para ler
ou escrever
outorga a autonomia
aos povos do império otomano.
Deformações.
Eu estou aqui
porque não estive
ali
nesse momento.
Uma negra
que não dorme nunca
toda inteira.
......................
quinta-feira, 28 de março de 2013
Hamlet Molotov, ou Julián Axat, poesia e história
Esta tradução foi escrita para a VII Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR, cuja chamada pode ser lida no blogue da jornalista Niara de Oliveira: http://pimentacomlimao.wordpress.com/2013/03/24/vii-blogagem-coletiva-desarquivandobr/ Dela já estão a participar a jurista Maria Carolina Bissoto (http://entrepasadoyelfuturo.blogspot.com.br/2013/03/45-anos-da-morte-do-estudante-edson.html) e a jornalista Suzana Dornelles (http://desarquivandobr.wordpress.com/2013/03/24/nao-passara/).
Gosto muito da poesia argentina e da forma como autores contemporâneos tratam as questões da história e da política.
Um dos principais nomes da poesia argentina de hoje é Julián Axat, que é um dos poetas que tenho estudado mais regularmente. Depois de lê-lo, traduzi-lo e resenhá-lo, acabamos nos tornando amigos. Em seu livro de 2012, Neo (Buenos Aires: El Suri Porfiado), ele avança ainda mais no diálogo entre poesia e história.
O amplo espectro do peronismo cobre da direita à esquerda. A parte IX alude à volta de Perón em 1973 e ao episódio do massacre de Ezeiza; no palco onde discursaria o ex-exilado estavam homens armados de Osinde, da direita do peronismo, que atiraram nos grupos de esquerda, em um conhecido e não apurado episódio de massacre da história argentina. Antonio Cafiero, social-democrata, perdeu a disputa pelo controle do peronismo para Menem (ver este artigo da professora Marcela Ferrari: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-33522012000200005&script=sci_arttext&tlng=pt).
Há outras alusões. Kafka, o caudilho Facundo Quiroga, Ginsberg, Shakespeare, o genocida Videla, o Pai - encarnando a figura do desaparecido pelo terror de Estado - e outros nomes circulam neste caleidoscópio, cujo centro é a ditadura militar argentina.
Vejam como o crânio que Hamlet, o vingador de seu pai, segura, torna-se em um coquetel molotov na parte VI. Não conheço nada de equivalente a essa combinação de militância e memória na poesia brasileira, a essa imaginação literária da justiça.
Gosto muito da poesia argentina e da forma como autores contemporâneos tratam as questões da história e da política.
Um dos principais nomes da poesia argentina de hoje é Julián Axat, que é um dos poetas que tenho estudado mais regularmente. Depois de lê-lo, traduzi-lo e resenhá-lo, acabamos nos tornando amigos. Em seu livro de 2012, Neo (Buenos Aires: El Suri Porfiado), ele avança ainda mais no diálogo entre poesia e história.
O amplo espectro do peronismo cobre da direita à esquerda. A parte IX alude à volta de Perón em 1973 e ao episódio do massacre de Ezeiza; no palco onde discursaria o ex-exilado estavam homens armados de Osinde, da direita do peronismo, que atiraram nos grupos de esquerda, em um conhecido e não apurado episódio de massacre da história argentina. Antonio Cafiero, social-democrata, perdeu a disputa pelo controle do peronismo para Menem (ver este artigo da professora Marcela Ferrari: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-33522012000200005&script=sci_arttext&tlng=pt).
Há outras alusões. Kafka, o caudilho Facundo Quiroga, Ginsberg, Shakespeare, o genocida Videla, o Pai - encarnando a figura do desaparecido pelo terror de Estado - e outros nomes circulam neste caleidoscópio, cujo centro é a ditadura militar argentina.
Vejam como o crânio que Hamlet, o vingador de seu pai, segura, torna-se em um coquetel molotov na parte VI. Não conheço nada de equivalente a essa combinação de militância e memória na poesia brasileira, a essa imaginação literária da justiça.
Antologia
2020
a Juan
Diuzeide
1
Montar uma
bicicleta coxal / sair a passeio / levar
as medulas
pelo DNA
extraído da
irmã que busca poeta / não Tinajero
/ Evas /
muitas Evas /
apropriadas
/ re-tratadas ou próximas a sê-lo
guidão em
suas vértebras do dizer
2
Armar uma
biblioteca sobre o golpe de 76 / fazê-la
arder ao
agregar
a versão
“40 anos depois, as causas do golpe
foram...”
3
Procurar o
filho idiota de Videla / convidá-lo a
participar de
Hijos com coletes.
4
Pre mortem:
encontrar radiografia de fêmur 1973: chumbo de 22 intacto no fêmur esquerdo /
Ezeiza / disparada enquanto / do palco Osinde lê Uivo de Ginsberg / alguém
(ainda não sabemos) / lhe faz manicure.
5
Posmo-rtem:
Caminhante de sombras / resto abatido entre tiras e ladrões exige devolução de
seu olho azul / para buraco teia aranha em calota perfurada / “O tempo dos
ossos é o tempo do vazio ou das pistas” (Franz Kafka. Diários).
6
Depois de
vinte anos encontram o crânio de seu pai / só o crânio / por fim era seu / o
apoiou sobre a mesa de luz para quando se desvelasse / diante do espelho falou
o monólogo do Príncipe da Dinamarca / usou-o como cinzeiro / envolve-o em papel
de jornal da época e até lhe desenhou um sorriso / em 2001 encheu-o de benzina
e pano úmido lançou-o molotov em um tira / nele escreveu versos de Maiakóvski
na frente onde mais tarde escondeu uma tiara com gravata nomenclatura / hoje
limpo de novo na mesa de luz
7
Sonho com o
ataúde do ex-presidente / Regresso à praça nessa tarde de outubro / volto à
mesma fila / na sala, se abre o caixão / saem vários John Malkovich
interpelando-me / queres ser a mim ou a nós? /A resposta vem da fila no fundo,
onde outros Malkovich gritam: Acabou-se Hamlet, agora Hécuba!
8
É
necessário submergir nas profundidades e salvar o pai para converter-se em um
menino real?
9
Antologia peronista
2020 / sonho que o General me encarrega de fazer a lista que vai trazê-lo de
volta da Espanha / passo a colocar companheiros nas filas dos assentos do avião
/ poetas de uma futura antologia neo-urondiana / então o General exige paridade
e não esqueça os neo-cafieristas / que esses têm que estar de qualquer jeito na
comitiva de regresso / desperto quando recordo que meu pai estará esperando a
chegada do avião / vão atirar nele do Palco / e ali está Osinde vociferando
Howl / e um neocafierista que faz as mãos com uma lixa / enquanto / pensa em um
poema para minha antologia 2020.
10
Armar o
arquivo das organizações revolucionárias / o museu mais completo da guerrilha
armada / de todas as guilhotinas em que a palavra fraternidade tenha sido
cortada / como margarita ou porco / arremessada sua cabeça de coágulo com
pétalas de sujeira & sangue / um Facundo bárbaro e civilizado / operação saciedade
ou a impossibilidade de sua leitura / para novas gerações adivinhas-tesouras /
as que visitem o museu.
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