O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

Mostrando postagens com marcador Veronica Stigger. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Veronica Stigger. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Desarquivando o Brasil CLI: Um dossiê sobre justiça de transição e ditadura em tempos de exílio político

Saiu no fim de 2018 o número da revista InSURgência com o dossiê sobre Direito, Memória e Justiça de Transição, que organizei com Diogo Justino em nome do Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais [se a ligação estiver caída, pode-se ler a enquete aqui:  https://t.co/LXWvwYjlfd]:


O dossiê com os artigos científicos sobre o tema contou com pesquisadores da Argentina, Brasil, Colômbia e Espanha: Aitor Bolaños de Miguel, Reyes Mate, José Antonio Zamora, Amanda Evelyn Cavalcanti de Lima, Luana Rosário, Amanda Salles da Silva, Amanda Cataldo de Souza Tilio dos Santos, Walkyria Chagas da Silva Santos, Camila Gomes de Lima, Janaína de Almeida Teles, Julián Axat, Angela Navia López e Sebastian Alejandro Garcia.
As resenhas, abrigadas na seção "Caderno de retorno", trataram de obras recentes sobre justiça de transição: "Entre os restos da ditadura e da democracia, de Edson Teles", por Renan Quinalha; "Como será o passado? História, historiadores e a Comissão Nacional da Verdade, de Caroline Silveira Bauer", por Lucas Pedretti.
A InSURgência compõe-se também de uma seção de documentos. Foram escolhidos alguns relativos aos crimes da ditadura, mas também aos crimes da democracia, com a manifestação do Coletivo RJ Memória, Verdade e Justiça, da Campanha Ocupa Dops e do Grupo de Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça contra a "intervenção civil-militar decretada na segurança pública do Rio de Janeiro pelo governo golpista e ilegítimo", de 20 de fevereiro de 2018. De lá para cá, a situação piorou: o governo golpista não só chegou ao fim do mandato como se prolongou em setores do governo federal e do governo estadual de São Paulo. A intervenção serviu de palco para mais violências e para o crime político do assassinato de Marielle Franco, além de ter mantido o poder das milícias do Rio, mais poderosas do que nunca depois da temporada de intervenção.
Em 2018, a Constituição de 1988 comemorou tristemente 30 anos com a eleição de uma chapa que prometeu não a cumprir em vários pontos importantes; por isso, não poderia faltar uma proposta para a Constituinte: o "Projeto contra a tortura e a repressão política para a Assembleia Nacional Constituinte" foi elaborado em 1987 pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. Não foi aprovado, infelizmente. Hoje, depois de a apologia aos crimes contra a humanidades ter sido premiada com o governo federal e outros cargos políticos, ele seria considerado subversivo. Esse documento, que não estava mais disponível, foi cedido por Crimeia Schmidt de Almeida.
Também da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, temos o "Comunicado ao Grupo de Trabalho de Perus (GTP) e ao CAAF", com o Grupo Tortura Nunca Mais-RJ e pesquisadores e militantes, de 17 de março de 2018, escrito por conta da identificação de um dos desaparecidos políticos que havia sido ocultado na Vala de Perus, Dimas Antônio Casemiro, e da falta de estrutura que estavam a sofrer as equipes de antropologia forense nesse trabalho de identificação. A situação possivelmente piorará, com a eleição para o governo federal de alguém que comete a indignidade de comparar familiares de desaparecidos (um problema que se mede em milhares todos os anos ainda hoje) com cachorros.
Da mesma Comissão e de diversas entidades, pesquisadores, militantes (sou um dos signatários, por sinal), do Brasil e do exterior, o "Manifesto onde estão os desaparecidos políticos? Estado de exceção ontem e hoje", lido em 31 de março de 2017 em ato realizado na faculdade de Direito da USP. O professor Gilberto Bercovici conseguiu o salão nobre para o ato, que cobrou esta dívida do Estado brasileiro. Abaixo, uma foto que fiz na ocasião: o público ergueu as fotos de mortos e desaparecidos políticos.


Também publicado pela primeira vez foi este "Ofício da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” à Comissão Nacional da Verdade sobre os desaparecidos políticos", de 2014, assinado pelo presidente da Comissão, o deputado Adriano Diogo. Ele estava, bem como Amelinha Teles, na organização do ato do Manifesto lido na USP e na preparação do Comunicado antes citado. A Comissão Nacional da Verdade ameaçava deixar de fora, no relatório final que publicaria em dezembro daquele mesmo ano, desaparecidos políticos cujo estatuto já havia sido reconhecido. Foi um momento de tensão entre a Comissão Nacional e os movimentos e militantes que atuavam no campo da justiça de transição.
A Insurgência possui uma seção para textos literários relativos ao tema do dossiê, "Poéticas políticas". Os autores que atenderam ao chamado foram Fernanda Telha Ferreira de Castro, Priscila Figueiredo, Guilherme Gontijo Flores, Armison Rodrigues Pereira, Veronica Stigger e Micheliny Verunschk.
As  seções "Em defesa da pesquisa" e "Temas geradores" publicaram artigos e relatos de temas variados, e não foram editadas por mim e por Justino.
A revista conta com uma seção de entrevistas. Quero agradecer aos pesquisadores que responderam à enquete que organizei: "Direito, memória e justiça de transição: enquete com pesquisadores das comissões da verdade brasileiras". Nomeio-os aqui, separando-os por Comissão (alguns deles trabalharam em mais de uma, indico aquela sobre que responderam):

  • Comissão Nacional da Verdade (2012-2014): James Green, Orlando Calheiros, Pedro Benetti, Rafael Pacheco Marinho.
  • Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva" (2012-2015): Maria Amélia de Almeida Teles, Maria Carolina Bissoto, Renan Quinalha.
  • Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara (comissão estadual de Pernambuco; 2012-2016): Joelma Gusmão.
  • Comissão Camponesa da Verdade (2012-2014): Eduardo Fernandes de Araújo, Sérgio Sauer,  Leonilde Servolo Medeiros, Regina Coelly Fernandes Saraiva.
  • Comissão da Verdade da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2012-2015): José Willington Germano.
  • Comissão Estadual da Verdade e da Preservação da Memória do Estado da Paraíba (2013-2017): Dmitri Bichara Sobreira, Yann Gomes dos Santos.
  • Comissão Estadual da Verdade do Paraná - Teresa Urban (2013-2016): Samara Feitosa.
  • Comissão da Verdade do Rio (2013-2015): Lorena Lucas Regattieri, Lucas Pedretti Lima.
  • Comissão da Verdade em Minas Gerais (2013-2017): Fernanda Nalon Sanglard, Marina Camisasca, Thelma Yanagisawa Shimomura.
  • Comissão da Verdade da UFES (2013-2016): Ayala Ayala Rodrigues Oliveira Pelegrine.
  • Grupo de Trabalho Juscelino Kubitschek - GT-JK (2014): Marina Ruzzi.
  • Comissão Municipal da Verdade de Juiz de Fora (2014): Fernando Perlatto.
  • Comissão da Verdade sobre a Escravidão no Distrito Federal e no Entorno (2016-2017): Júlia Conceição Berto.

Eu mesmo trabalhei para três comissões diferentes, sempre como pesquisador. Quando me apresentam, seja em meio jornalístico ou em acadêmico, as pessoas tendem a confundir-se e acham que fui "membro" de alguma delas. Nada disso. Em regra, aconteceu nas comissões uma divisão de trabalho bem clara: havia os membros das comissões, que eram indicados politicamente e que respondiam nessa condição pelas atividades; e havia os pesquisadores e assessores, que eram aqueles que faziam funcionar administrativamente essas organizações, órgãos ou entidades, e que realizavam as pesquisas documentais, de campo, as entrevistas, tomadas de depoimento.
Essa confusão habitual, uma entre tantas deste processo de construção social da justiça de transição no Brasil, inspirou-me a ideia da enquete. Em algumas comissões, podiam-se achar membros que também eram pesquisadores. Não era a regra, no entanto; houve até comissões sem pesquisadores, bem como aquelas em que alguns ou muitos membros, de tão ausentes, nem mesmo participavam dos atos públicos.
De qualquer forma, como a opinião dos membros dessas comissões foi documentada pela imprensa, quis ouvir esse lado que ficou na sombra, que é o dos trabalhadores da pesquisa. Mandei as questões para mais de cem pessoas, responderam-me vinte e cinco, de 13 comissões diferentes.
Perguntei sobre a principal dificuldade para a elaboração do relatório final e sobre o cumprimento das recomendações. Pois, se as comissões na pesquisa tiveram um olhar para o passado, elas também, no tocante à punição dos crimes, à reparação dos danos e à não repetição das graves violações de direitos humanos, bem como às reformas institucionais necessárias, fizeram recomendações para o futuro da sociedade brasileira.
É interessante ler as respostas pensando em como o Brasil optou pelo passado em 2018. O presidente eleito é arcaico até mesmo nas referências retóricas que faz em suas modestas falas, como a referência a área destinada a crimes contra a humanidade durante a ditadura militar (a "Ponta da Praia"), que se tornam o projeto mais discernível de um governo que começa, no primeiro mês, com um exilado político. Ele é Jean Wyllys, do PSOL-RJ, deputado federal que reagiu à inédita violência de Bolsonaro ter dedicado o voto pelo impeachment de Dilma Rousseff ao único torturador da ditadura que foi assim declarado pela Justiça brasileira.
Este episódio do exílio, bem como aquele de apologia à tortura envergonham o Brasil e ratificam a importância do tema da memória e da justiça de transição, tristemente atual e irresolvido, tanto para a pesquisa teórica quanto para a ação política.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

"Opisanie Świata", a antropofagia política de Veronica Stigger

Veronica Stigger encontrou em uma narrativa mais longa, a novela Opisanie Świata (São Paulo: CosacNaify, 2013), também uma formidável forma de expressão. Afora o gênero novo, porém, esse livro não representa uma mudança maior na poética de Stigger: também nele está presente a pluralidade de gêneros, o que inclui o uso de cartões postais e reclames antigos. A dimensão plástica, por sinal, é constante da obra desta autora e um de seus traços mais originais.
Aqui, pode-se ouvir a escritora explicar por que escolheu um título em polonês e como escreveu o livro: http://culturafm.cmais.com.br/comecando/entrevistas/veronica-stigger-apresenta-seu-livro-opisanie-swiata-pela-cosac-naify
Abaixo, uma foto da autora, que tirei em janeiro deste ano, entre os poetas Fabio Weintraub e Eduardo Sterzi. Todos estávamos em viagem...

A narrativa desse livro começa na Polônia e termina na Amazônia, o que, segundo Stigger, foi-lhe sugerido por Eduardo Sterzi como um desafio. Veja-se que esse arco geográfico poderia ser o de uma trajetória antropofágica, o que é exatamente o que a autora logra: o personagem principal será, de fato, apropriado pelo Brasil no meio do colapso europeu, assim como os outros estrangeiros que aqui encontra.
Há vários diálogos com autores do modernismo: o navio de Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, é avistado durante a travessia, um elefante drummondiano é redesfeito e, em apêndice, a autora elenca suas fontes de escrita, algumas orais. Uma leitura da rica intertextualidade desta novela precisaria também abordar a escolha dos nomes dos personagens, Opalka (que lembra o famoso pintor, cuja obra cortejava a desaparição), que é o protagonista, e Raul Bopp, seu companheiro de viagem.
O Bopp de Stigger tem, como o Glenn Gould de Thomas Bernhard, elementos em comum com o artista, mas, em larga medida, é um personagem com personalidade distinta da que um biógrafo descreveria. A presença de Bopp neste livro, creio, deve-se ao teor político da antropofagia assumida por Stigger.
Nesta breve nota, tratarei apenas disso. O grande Murilo Mendes, em curto e certeiro texto, "Sobre Raul Bopp", destacou que o outro poeta havia afirmado que "a maior volta do mundo que eu dei foi na Amazônia", apesar de ter viajado para tantos países, mesmo antes de embarcar na carreira diplomática. Murilo trata da presença da Amazônia na poesia de Bopp como
[...] a parte incomunicável do Brasil, seu lugar secreto, a floresta amazônica, plantada no tempo passado, em sua solidão e intimidade. A parte indígena do Brasil que Bopp considera como cenário adequado para sua revolução, seu plano de rutura com uma Europa que, grávida da história, se vê novamente em seus filhos americanos, mas que não pode ainda penetrar na dimensão amazônica.
O mundo que escapou a Jean-Arthur Rimbaud.
Murilo considera, com razão, Cobra Norato um "documento capital" do movimento antropofágico. Em que sentidos esse movimento pode se mostrar atual, isto é, inspirar novos discursos? Alexandre Nodari é um dos que têm criado esses discursos novos, referindo-se notadamente a Oswald de Andrade. Veronica Stigger preferiu apropriar-se de Bopp neste livro; também nele, ir à Amazônia significa chegar ao mundo.
Não vou contar a história (a autora ainda está lançando pelo país o livro, e hoje o faz em São Paulo, na livraria da Vila da Fradique Coutinho), mas adianto que parte do gênio de Stigger está em como revela (no fim da história) os andaimes da memória usados para construir a ficção, e o quanto eles implicam a perda, o abandono de um estado inicial, como nos rituais.
Os rituais de iniciação descritos, o próprio caráter iniciático da longa viagem de navio da Europa ao Brasil (com o sacrifício de um dos passageiros e o suicídio de outro) implicam a perda do continente natal, a perda também da família.
É notável que a chegada à Amazônia faça-se sob a égide da perda. Nesse ponto, podemos ver o quanto a escritora, com uma história que se passa nos anos 1930, fala dos tempos de hoje, em que essa região está em tremendo perigo. Qual seria a nova "descrição do mundo" (a tradução do título), a nova viagem que deve ser feita? Este livro, com a narrativa desta chegada da Amazônia, concomitante com o início da II Guerra Mundial, parece apostar em uma nova descrição antropofágica, cujo caráter político faz-se completamente oportuno neste contexto de ataque generalizado, pelos poderes instituídos e pelo agronegócio, aos povos indígenas, às comunidades tradicionais e ao meio ambiente, assuntos a que já aludi algumas vezes: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2013/09/terra-sem-lei-x-o-iii-encontro-nacional.html
Stigger não trata disso como matéria (ela não tematiza Belo Monte no livro, por exemplo), e sim como poética, o que me parece extraordinário. Creio que o tão comovente final do livro afete o leitor não só pelo que ocorre à família de Opalka, mas também por envolver-nos coletivamente: a perda também é nossa, é também das gerações futuras, descobrimo-lo nas rasuras de Opalka.
A negatividade desta história de Stigger, ausente de Cobra Norato, aponta, no entanto, para uma imaginação política que consiga transformar a memória em ficção. Trata-se da viagem apontada por aquelas rasuras, e da forma como a escritora se apropria da literatura brasileira do século XX, dando-nos pistas para a criação de um novo mundo.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Lançamento conjunto com Veronica Stigger: Delírio de Damasco e Código negro


Lançarei um livro inédito de poesia, Código negro, no Pari Bar (Praça Dom José Gaspar, 42 - República), em São Paulo, dia 18 de maio de 2013, às 16 horas - ou seja, ainda antes da Virada Cultural. A boa notícia é que o farei com Veronica Stigger, que fará o lançamento paulista de Delírio de Damasco. Os dois saem pela Editora Cultura e Barbárie (http://www.culturaebarbarie.org/), em edições artesanais.

O livro de Stigger reúne frases que, segundo a autora, "contêm elementos que fazem o leitor pensar, imaginar o que pode estar ali por trás". Ele nasceu de uma exposição realizada no SESC que acabou sendo levada, com o título Sarau, para a embaixada brasileira na Bélgica em dezembro de 2012.
Trata-se, pois, de um livro que transita entre gêneros (o que é uma das marcas da autora), e que, por aludir a conversas ouvidas no espaço público, também se move sem fixar-se entre os sujeitos das enunciações.
Sete das matérias já escritas sobre Delírios de Damasco podem ser lidas nesta ligação:  http://culturaebarbarie.org/ddd.html#.UYYU4sq6reM

Código negro foi escrito pouco depois de O palco e o mundo, que foi meu primeiro livro, publicado em Lisboa pela &etc em 2002. O Código ganhou menção honrosa no Nascente, da USP, em 2002, e no prêmio de poesia da Funalfa em 2004. No entanto, só teve uma oportunidade de publicação agora, que a Editora Cultura e Barbárie me solicitou um título para a coleção pseudo-.
Nunca publiquei anteriormente esta poesia. Para curiosidade de quem ler esta nota, incluo as duas epígrafes da obra e o segundo poema:



[...] fique o estado de liberdade sem o seu correlativo odioso.
As leis concernentes à escravidão [...] serão pois 
classificadas à parte e formarão o nosso Código Negro.
Teixeira de Freitas

the qualities of the heart need darkness
Hannah Arendt



Código Negro: A Língua


I

Escapar à noite desta noite;
não desta, que chamará o dia,
nem da próxima, que não é hoje
e nunca o será mesmo se ainda.

Maldizer a noite desta noite;
o que, porém, a insultaria,
como se a noite um nome não fosse
fugidia escorre jamais dita.

Nunca haver a noite desta noite;
vazio, o que ao céu restaria
senão este nunca, um morto nome,
e a noite, um corpo vivo no dia?

Que me escape e me tenha e maldiga
a noite desta noite; eu a vejo,
como os cegos amam o vermelho
assim a possuo e chamo vida.


II

O que se possui e o que se perde
ambos estão no mesmo tesouro;
um de outro não se reconhece,
senão por maior ou menor logro.

Duelam pelo próprio engodo
o que se possui e o que se perde;
para dizer qual deles é o outro
montam-se, relincham e competem.

Ao que se possui o que se perde
cavalga e chega do nu envolto;
vestido de si, o seu oposto
vale apenas quanto o avesso despe.

Miséria e tesouro são estrangeiros
à fortuna jamais pertencida;
como os cegos odeiam o vermelho
não a conheço e a acuso de vida.


III

Nenhuma acusação diz a língua
da culpa; ignora-a quem acusa,
tampouco a ouve a suposta vítima
que na fala verdade supunha.

Na culpa também verdade alguma,
fala o diga, língua não o ensina,
norma, condenado e testemunha
julgam: é o juiz que sentencia

e não a língua, que, impoluta,
na acusação não se denuncia,
reputa-se, mesmo se a lei grita,
muda como puta quando chupa.

Condena-me a dar quanto não tenho
a verdade que goza na língua;
os cegos bolinam o vermelho,
e os gemidos nada denunciam.


IV

O farol não vê, ele persegue,
mas, como os tolos, não sabe o quê;
soubera-o, deixaria de dizer:
aquele que viaja amanhece.

O farol não diz, ele acontece,
embora siga os loucos na tese
de que a lua só emudeceu
quando o discurso chegou ao céu.

O farol não sabe, está presente,
pois, semelhante aos mortos, descrê
em destino, incrédulo escarnece
do aprendizado que não é ser.

Para tolos, loucos e mortos brilha
o que só com luz aponta o negro
como os cegos sangram o vermelho
e é a morte que diz segue à vida?


V

Como os cegos amam o vermelho,
para tolos, loucos e mortos brilha
o que só com luz aponta o negro:
a noite desta noite, eu a vejo,

miséria e tesouro são-lhe estrangeiros,
e para que não a perca ao dia
condena-me a dar quanto não tenho
como os cegos odeiam o vermelho.

Que me escape e me tenha e maldiga
a fortuna jamais pertencida;
os cegos bolinam o vermelho,

a verdade que goza na língua.
Como os cegos sangram o vermelho
a vida escapa à noite da língua?



P.S.: Em homenagem aos índios brasileiros, que estão exercendo plenamente a política ocupando o empreendimento ecocida de Belo Monte, lembro de dois trechos dos livros. De Veronica Stigger, temos esta frase, "Mataram um monte de índios para construir Brasília", abaixo em um dos cartazes expostos no SESC.

Não se pode acusar Belo Monte de violar valores tradicionais do Estado brasileiro...
Não escrevi sobre a capital nem sobre os índios em Código negro. No entanto, nele há um poema de amor (todos os poemas são de amor), chamado "Reforma urbana" (título bem típico), com este trecho, que se refere à ideologia desenvolvimentista. Dilma Rousseff, ressuscitando doutrinas da ditadura militar, vem tentando implementá-la no país:
veja as ruas, hoje sem sombra; já associavam
a queda das árvores à elevação da economia,
o engarrafamento à aceleração do progresso.

Para acompanhar essa luta dos índios, sugiro a leitura do Xingu Vivo (http://www.xinguvivo.org.br/) e do Combate ao Racismo Ambiental (http://racismoambiental.net.br/). E temos a Ocupação Belo Monte: http://ocupacaobelomonte.wordpress.com/.
A grande imprensa está servindo como Diário Oficialesco do governo, lembra Idelber Avelar: https://www.facebook.com/idelber.avelar/posts/10151485726032713

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Leitura pública e "Sul" de Veronica Stigger


Ajudo a divulgar esta leitura pública em 18 de janeiro de 2012, na Livraria da Vila em São Paulo, com os autores mencionados, que publicaram na revista Modo de Usar. Clicando na imagem, ela se ampliará.
Já escrevi sobre Ricardo Domeneck e, recentemente, incluí neste blogue duas entrevistas de Veronica Stigger, uma que me foi dada antes de sua estreia em livro, e outra, de 2011, em que menciona sua próxima obra, Sul.
E é dela que Stigger lerá um impressionante poema chamado "O coração dos homens", desde já um dos melhores de 2012.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Veronica Stigger sobre o coração dos homens

Conheci Veronica Stigger por meio de seu marido, Eduardo Sterzi. Não sabia que ela escrevia ficção até que, certa vez, timidamente perguntou se eu poderia ler um conto que havia sido recusado em uma revista de cultura porque desagradaria a ala católica do partido no poder... Li a maravilha que é "A chuva" e indaguei se ela concordaria em participar da seção de pré-publicação de Ciberkiosk, reservada a textos inéditos. Ela concordou e escolheu "Câncer no cu", "Depois da chuva" e "O cabeção", todos posteriormente incluídos em O trágico e outras comédias.
Antes mesmo de a revista sair, o escritor e então editor Fernando Matos Oliveira perguntou se eu poderia verificar se ela não se interessaria em publicar o livro pela Angelus Novus. Dessa forma, ela estreou em Portugal em 2003. No ano seguinte, o livro seria lançado pela 7Letras.
Na foto acima, vê-se a autora no lançamento de Os anões, com Fabio Weintraub. Aqui está a introdução aos contos em Ciberkiosk, anterior à sua estreia em livro:


VERONICA STIGGER
________________________________________
Nascida em Porto Alegre em 1973, formou-se em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é mestre em Semiótica pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e doutoranda em Teoria e Crítica da Arte pela Universidade de São Paulo (USP).

Publicou ficção em VOX XXI; artigos teóricos na revista Arte e Ciência – Mito e Razão ("Arte e mito em Picasso") e no Caderno de Comunicações da Unisinos ("Ser ou não ser: eis uma questão de foto" e "A verdade está lá fora", análise de uma relação estrutural entre o seriado Arquivo X e o mito de Édipo, apresentado no 9.º Encontro Anual da Associação Nacional de Programas de Pós-graduação em Comunicação, texto publicado ainda em cd-rom e em via impressa no Caderno de Textos referente ao Encontro); resenhas na revista Superinteressante.

Sobre a literatura escrita por mulheres, perguntou-se-lhe o que achava do verso de Alberto Pimenta de as moscas de pégaso, "a escritora não tem cu". Stigger foi incisiva: há alguns anos, cerca de meia década atrás, escrevi em uma resenha de jornal que mulher não sabe escrever ¬ opinião que ainda sustento -¬, justamente por faltar a ela algo a que poderíamos dar o nome de cu. Parece-me que a mulher sente a necessidade de se afirmar como mulher a cada linha do texto ficcional. Quando leio um livro escrito por uma mulher, percebo a preocupação de a escritora lembrar ao leitor, a cada linha da obra, de que se trata de uma mulher escrevendo ¬ preocupação inexistente na literatura escrita por homens. Os homens não precisam fazer a barba para produzir literatura de qualidade, enquanto as mulheres, parece-me, acham imprescindível a troca do absorvente. Claro que não estou aqui me referindo a todas as escritoras, mas a uma boa parcela delas. Há exceções. Para mim, a literatura escrita por mulheres deveria ser algo mais do que apenas uma forma de afirmação das mulheres, uma espécie de chá das cinco que só interessa àqueles que participam do chá; deveria ser literatura. Nesse sentido, creio que as mulheres deveriam ter mais cu. Eu, pelo menos, tento.
Stigger convoca em seus contos surpreendentes imagens, como se fizesse da fanopéia uma arte da narração. Em meus contos, busco sempre uma imagem incomum, algum acontecimento (uma chuva de caralhos) ou algo (um gato verde, uma fila de homens nus) que fuja à normalidade, à realidade de nosso mundo, para tratar esse acontecimento, essa coisa como algo corriqueiro. Talvez essas imagens que crio funcionem como imagens de um inconsciente coletivo. Entretanto, se concordássemos que as imagens de meus contos assemelham-se a imagens do inconsciente coletivo, talvez tivéssemos de admitir que estou a criar mitos, o que não creio ser o caso.
Os três contos a seguir integram o livro inédito O trágico e outras comédias.


Do primeiro livro até hoje, muito ocorreu. Ela concluiu o doutorado com a Arte, mito e rito na modernidade: A dimensão mítica em Piet Mondrian e Kasimir Malevitch, a dimensão ritual em Kurt Schwitters e Marcel Duchamp (que espero que seja logo publicada), foram publicados pela CosacNaify Gran Cabaret Demenzial (2007) e Os anões (2010), que apostam na diversidade de gêneros: conto, roteiro, teatro, poesia e ready-made. E há também a literatura infantil de Dora e o sol. Em todos esses livros, o leitor pode facilmente perceber o olhar da professora e pesquisadora de arte, que se revela na montagem heterogênea dos textos e na sensibilidade para os efeitos visuais.
Deve-se lembrar da recente exposição de frases que ela fez no SESC.
Na verdade, a poética de Veronica Stigger deriva muito mais das artes plásticas do que de modelos literários - daí a importância do ready made na sua literatura. Não é de estranhar que o livro Os anões seja, ele mesmo, um objeto, com projeto gráfico de Maria Carolina Sampaio.
Singularizam-na essa poética plástica, bem como a ausência de psicologia em boa parte de sua ficção, que recorda neste aspecto a influência dos mitos ameríndios que ela estudou na obra de Lévi-Strauss.
Abaixo, está uma pequena entrevista que fiz com ela neste ano e deveria ter saído em um periódico. Como isso não ocorreu, incluo-a aqui para terminar bem 2011 e anunciar 2012; pois Veronica Stigger fale de seu próximo livro, Sul, e menciona seu projeto amazônico-polonês. Uma nova pré-publicação, portanto.


Sul inclui o conto “2035”, já publicado em antologia de ficção de guerra. Aludindo a seu trabalho como crítica de arte, pode-se nele ver a violência como rito?

Veronica Stigger: Sim. Em “2035”, a violência não é gratuita, ela não só pode como deve ser compreendida dentro de uma lógica ritual – mais especificamente, sacrificial. O sacrifício, nos lembra René Girard, serve como uma forma de canalização da violência, ao transferir para uma vítima sacrificial as violências e tensões internas de uma sociedade. Assim, ritualmente, ao se sacrificar a vítima, apaziguam-se essas violências e tensões e impede-se a eclosão de novos conflitos. A violência tem aí, portanto, um caráter expiatório. No conto em questão, percebe-se, pela descrição do cenário, que a narrativa se ambienta num lugar arruinado e desolado, num lugar que talvez tenha passado por uma catástrofe ou uma guerra. É possivelmente contra essa atmosfera de catástrofe e guerra que se atua ritualmente em “2035”. O que torna tudo mais complexo e terrível é que o conto não é narrado a partir do ponto de vista dos sacrificadores, mas do sacrificado.


Em Sul, “2035” parece fazer alusão ao bicentenário da Farroupilha. No entanto, pode-se dizer que, em comum com 2666 de Bolaño (autor que fornece uma das epígrafes do livro), temos nele a permanência de um estado de guerra?

VS: Sim. Como já mencionei, queria criar um clima de estado não tanto em guerra, mas pós-guerra. Esse estado é sugerido pela descrição do cenário: uma terra arrasada, desértica, em que as pessoas temem sair às ruas e se comunicar umas com as outras. Como o título deixa claro, “2035” se passa no futuro, na data das comemorações dos duzentos anos da Revolução Farroupilha. O conto se originou de um convite para participar de uma coletânea de narrativas em que cada escritor deveria inventar uma história que dissesse respeito a uma determinada guerra. A mim, coube a Guerra dos Farrapos. Lembrando-me das grandes comemorações dos cem anos da Revolução Farroupilha, com bandeiras da Alemanha nazista (entre outras) balouçando no Parque Redenção, queria imaginar como seriam as comemorações dos duzentos anos da guerra, num futuro próximo. Foi aí que me veio à mente esse cenário de destruição. Não tenho uma visão muito otimista do meu sul...

Borges fornece outra das epígrafes de Sul. No entanto, não se pode afirmar que a concepção stiggeriana de sul é muito diferente da de Borges, bem mais violenta e visceral? Tanto em “Mancha” quanto em “O coração dos homens”, o sul é também o sul do corpo.

VS: De fato, pode-se pensar o sul em “Mancha” e “O coração dos homens” como o sul do corpo e – eu acrescentaria – seus fluidos. Os dois contos citados chamam a atenção não apenas para, digamos assim, as partes baixas, mas principalmente para o sangue: o sangue vertido por alguma ferida (que há também em “2035”) e o sangue menstrual. Nesse sentido, é mais “visceral” que Borges. E também mais violento – talvez justamente por trazer o sangue para o primeiro plano. Borges, em “O sul”, um dos mais fantásticos contos já escritos, está tratando de outra coisa. A questão principal ali é a honra. Dahlman, o protagonista, na iminência de uma morte num leito de hospital por septicemia, escolhe para si, em delírio, uma morte mais honrosa: a morte em duelo. O trecho deste conto que extraí para a epígrafe de Sul é justamente o seu final, quando Dahlmann sai para a rua em direção a uma morte certa, já que tem plena consciência de que não saberá manejar a adaga que tem na mão.

Pode-se dizer que este seu livro seria o maior exemplo, na sua obra, de “literatura feminina”? A vítima em “2035” é mulher, do homem só restam líquidos em “Mancha”, e em “O coração dos homens” os fluidos femininos inundam o mundo.

VS: Não sei se existe isto que você chama de “literatura feminina”. Claro, há livros que só poderiam ter sido escritos por uma mulher, mas não sei se isso configura uma “literatura feminina”. De qualquer modo, também não saberia dizer se, dentre os meus, este livro seria o mais evidentemente escrito por uma mulher. Dois dos aspectos para os quais você chama a atenção – a vítima ser uma mulher em “2035” e a redução dos homens a líquidos em “Mancha” – já foram, de uma maneira ou de outra, tratados em livros anteriores. Já em O trágico e outras comédias, meu primeiro livro, há um conto, chamado “A chuva”, em que os homens são reduzidos a seus “caralhos”. Havia tanto naquele conto quanto agora há em “Mancha” um deliberado apagamento da figura masculina. No livro seguinte, Gran Cabaret Demenzial, o conto de abertura é sobre uma mulher que se automutila: em certa medida, ela é sua vítima e seu algoz ao mesmo tempo. A novidade em Sul – e talvez seja o elemento mais propriamente “feminino” – é a abordagem tão crua e direta da menstruação. Sobre isso, não sei se um homem seria capaz de escrever como escrevi, ou como outra mulher poderia escrever.

Lemos em “O coração dos homens”: “O sangue tem um cheiro adocicado./ Um cheiro persistente./ Um cheiro de morte.// O mijo tem um cheiro ácido./ Um cheiro passageiro./ Um cheiro de rodoviária.” O coração dos homens é aquilo que bombeia os dejetos?

VS: Sim. Mas é também e principalmente o que sangra. Como diz o rei dos putos da colônia Guerrero, o coração dos homens é o “que sangra como as mulheres” e “que obriga os verdadeiros homens a se responsabilizarem por seus atos, quaisquer que sejam”.

Sul, como Gran Cabaret Demenzial e Os anões, aposta na mistura de gêneros curtos. Você pretende escrever uma ficção mais longa, como já anunciou em entrevista, ou crê que as narrativas curtas são o seu melhor meio de expressão?

VS: Creio que o conto é meu melhor meio de expressão, aquele no qual me sinto mais confortável – e que sinto também mais afim ao universo de escrita e de leitura do nosso tempo. No entanto, estou atualmente trabalhando na escrita de um livro de maior fôlego, até para experimentar algo para o qual não sinto ter predisposição, digamos, natural (sem esse esforço, ainda viveríamos nas cavernas). Não será um romance, mas uma novela, e se chamará Opisanie świata, que quer dizer “descrição do mundo” e é como se traduz Il Milione, o livro de viagens de Marco Polo, para o polonês. É justamente como uma espécie de relato de viagens que essa novela deverá se constituir. A idéia é acompanhar o deslocamento do protagonista, Opalka, um cinqüentão, desde sua Polônia natal até a floresta amazônica. Ainda em casa, ele recebe uma carta por meio da qual descobre que tem um filho em Manaus, onde viveu por um tempo, e que este está muito doente. Daí a necessidade de voltar à Amazônia. Embora a forma externa seja a da novela, pretendo no interior dela continuar brincando com os mais diversos registros, como o do relato de viagens, o da carta, o da narrativa em terceira pessoa, o do diário etc. Vamos ver no que vai dar.

“Coração dos homens” parece influenciado por Lucrecia Martel. Você reconhece essa influência, ou aprecia a cineasta?

VS: Eu gosto muito do cinema de Lucrecia Martel. Acho-o magnífico. Mas não vejo tanto a influência de Lucrecia Martel em “O coração dos homens”. Se fosse forçada a fazer uma aproximação entre este conto e uma obra cinematográfica, diria que estaria mais próximo do universo de Catherine Breillat em Para a minha irmã.

domingo, 1 de maio de 2011

Terra sem lei III e Desarquivando o Brasil VII: Belo Monte e as vítimas do Estado

A eventual usina hidrelétrica Belo Monte, que devastaria (devastará, se realizada) uma proporção amazônica da Floresta Amazônica e fatalmente afetaria as comunidades indígenas, foi objeto, no mês passado, de decisão cautelar da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, que suspendeu o processo de licenciamento ambiental do empreendimento.
Em represália, o Estado brasileiro, num jogo sujo diplomático que remonta às táticas estadunidenses contra a ONU, decidiu não mais indicar a candidatura de
Vannuchi à Comissão em 2012. Haverá rompimento com o Sistema Interamericano de Direitos Humanos? É possível que não, mas ele não interessaria apenas às empreiteiras envolvidas no caso, mas também aos setores militares, diplomáticos e empresariais que não desejam abrir os arquivos da ditadura - o que foi objeto de recente decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
A presidenta Dilma Rousseff, neste caso, parece repetir argumentos (não sabemos o teor da resposta oficial à OEA - talvez isso ocorra apenas quando os arquivos do governo Dilma forem abertos...) que o presidente Médici, de sangrenta memória, empregou ao não autorizar a visita da Comissão Interamericana de Direitos Humanos no caso da tortura e assassinato de Olavo Hanssen em 1970, obra da Operação Bandeirante e do DOPS/SP.
Hanssen entregava panfletos a favor de Cuba, do Vietnã e das causas trabalhistas em uma festa sindical e autorizada de primeiro de maio (o dia de hoje) em 1970. Seu assassinato pelas forças da repressão gerou uma condenação pela OEA, que foi ignorada pelo Estado brasileiro. Afinal, era uma terra do arbítrio, e não da lei.
Era, mas continua a ser? Certamente. E que argumento era o de Médici e continua a estar presente? O de que fiscalização internacional no campo dos direitos humanos seria uma afronta à soberania. Isto é, as razões de Estado (ou do capital, já que não há diferença alguma no caso) são superiores às da humanidade ou, se adotarmos um ponto de vista não antropocêntrico, às da natureza.
Essa forma de ver o Estado como um absoluto (de forma que, na filosofia do direito de Hegel, não há espaço para o direito internacional) seria um hegelianismo de araque? Essa referência filosófica animaria as declarações e ações de Nelson Jobim, Mendes Júnior, OAS e Queiroz, Dilma Rousseff, PC do B e congêneres?
Acontece algo de semelhante na Argentina, sob o governo também alegadamente de esquerda da presidenta Kirchner. Leiam o que o grande constitucionalista Roberto Gargarella conta sobre a criminalização dos índios:

El CELS reclama que el Estado Nacional convoque a una mesa de diálogo para la comunidad qom “La Primavera”

La falta de respuestas del poder político y la amenaza de un desalojo violento por parte de la policía federal motivaron el levantamiento de la protesta llevada adelante por miembros de la comunidad qom “La Primavera” en la avenida 9 de Julio. Ante estos hechos el Centro de Estudios Legales y Sociales (CELS) reclama que el Estado Nacional convoque de manera urgente a una mesa de diálogo con el gobierno de Formosa y los indígenas, tal como lo exigió la semana pasada la Comisión Interamericana de Derechos Humanos (CIDH).
[...]

O CELS, como se sabe, é a organização de direitos humanos que primeiro obteve uma decisão judicial, no caso Poblete, que declarou a inconstitucionalidade das leis de anistia na Argentina. Depois de amplo debate, o Legislativo argentino anulou essas leis e a Suprema Corte argentina também acabou por declarar sua inconstitucionalidade.

Lá, também protesta-se contra a falta de diálogo com as comunidades indígenas, que permanece após a redemocratização. Nessa recusa, vemos que os índios, à diferença dos desaparecidos políticos, cujos nomes ainda podem ser repetidos por nós (na foto no início desta nota, vê-se uma das pilastras defronte à OAB-RJ cobertas de nomes de vítimas da ditadura militar), são desaparecidos em vida. O Estado não os representa, pois sua organização não é estatal. Sua forma de vinculação à terra não interessa às autoridades, visto que não segue os estatutos do território. Elas querem os índios como anônimos e desaparecidos.
A placa acima, que a escritora brasileira Veronica Stigger expôs no fim de 2010 nos tapumes do SESC 24 de Maio em São Paulo. A exposição era feita com frases alheias ouvidas nas ruas, e essa bem retrata o problema: não apenas a suposta defesa dos índios dá-se com uma frase inegavelmente racista, mas se ignora que eles continuam a existir - um genocídio que foi completado no plano do imaginário.
Belo Monte, se realizada, não será imaginária. A incompatibilidade do modelo de desenvolvimento nela incorporado (muito semelhante ao do Brasil da ditadura militar) com a democracia parece-me clara.
Termino esta nota com Eduardo Viveiros de Castro, o grande antropólogo brasileiro:

Bem, para mim, fugir do Brasil era um método de se chegar ao Brasil pelo outro lado. Circum-navegação. É importante que o Brasil ao qual se chegasse fosse outro, fosse o outro lado desse Brasil de que se haveria partido. Certamente não se tratava de fugir do Brasil para ir passear na Europa. Era fugir do Brasil, mas para voltar a um Brasil mais interessante, que não fosse o "Brasil" do poder - o Brasil da arrogante e ignorante ditadura de então, o Brasil do desprezo ao índio e ao povo, o Brasil secularmente dominado por uma classe de beneficiários de uma das mais iníquas situações de desigualdade socio-econômica da época moderna. Um país que me parecia incuravelmente escravocrata. [Eduardo Viveiros de Castro. Coleção Encontros. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008, p. 248]
O governo de Dilma Rousseff, neste caso, não se encaminha para a cura.

P.S.: O sobrenome de Olavo Hanssen foi retificado segundo nesta nota: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2013/05/ato-em-memoria-de-olavo-hanssen-e.html