A violação maciça dos direitos humanos é sempre uma operação complexa que exige uma combinação de ações e omissões, pois é fundamental, para a magnitude da violação, que aqueles que poderiam impedir os atos ilícitos se mantenham calados ou inertes. Em orquestrações, inclusive as musicais, alguns instrumentos devem silenciar enquanto outros tocam, para que o efeito almejado seja atingido.
Como desconheço quem seja o compositor desta obra que é a ruína de todo um bairro, o Pinheirinho, não sei se houve orquestração ou, na verdade, um encontro casual de ações e omissões. De qualquer forma, o acaso também pode ser voluntariamente empregado na composição musical (e jamais se consegue afastá-lo de todo na execução... musical), porém poucas vezes com resultados felizes.
A barbárie da destruição de todo um bairro pela prefeitura de São José dos Campos (nas mãos de Eduardo Cury) e os poderes estaduais de São Paulo (Executivo, com a polícia de Geraldo Alckmin, e Judiciário combinando forças), sob bombas e tiros foi acompanhada de omissões significativas em nível federal. A notável falta de coragem cívica da presidenta Dilma Rousseff, que teria criticado a portas fechadas a barbárie e manteve-se calada a respeito quando esteve em São Paulo (bem pode ser que ela tenha aprovado a barbárie; neste caso, a falta é de civismo), e a inércia da ministra Maria do Rosario, que divulgou esta nota postergada (lembro que ela critica quem trabalha rápido em favor dos direitos humanos) estão sendo acompanhadas do bloqueio do bolsa-família para os, direi assim, "refugiados" de Pinheirinho (o Haiti é aqui - e também não é, já que os haitianos estão sendo impedidos de vir).
Falta de civismo? Ou de civilidade? E para quem? Rousseff, rainha incontestável do ato-falho (lembremos do meio-ambiente, que ela caracterizou como inimigo), inolvidavelmente revelou que ela seria presidenta de todos os brasileiros "mas também dos pobres"; pobre é uma categoria à parte, que não entra na dos cidadãos brasileiros.
Outra omissão foi a notável falta de jornalismo da grande imprensa, que não reclama quando é censurada em ações contra os pobres. Este artigo de Jânio de Freitas é esclarecedor das mentiras da Polícia Militar e do governo do Estado, mas cala a respeito da dimensão de classe social do problema, do qual ele mesmo é parte. Se houvesse ação parecida em mansões griladas em Brasília (eu argumento com o impossível apenas como ilustração), a reação jornalística teria sido bem outra.
Em termos jurídicos, toda ação foi de um desacerto tão grande que se entende que a juíza Márcia Loureiro, talvez para se certificar de que sua caneta foi mesmo capaz de gerar a devastação (a única forma como esses juízes poderiam emular poetas como Eliot e The waste land), foi pessoalmente ao local depois da operação policial. Trata-se de atitude rara, pois os magistrados em geral são uma espécie de gabinete, e qualificada neste caso como escárnio por Wálter Maierovitch.
Sugiro ver, para quem aprecia emoções fortes, a entrevista que a magistrada concedeu sobre a ação, disponível no YouTube, e compará-la com este texto de Jorge Luiz Souto Maior sobre a função social da propriedade e este, de Vladimir Aras, que qualifica o caso de nada menos do que naufrágio judiciário.
A lição é ostensiva para quem acha que é possível a democratização (e até justiça de transição!) de um país em que um poderes políticos é abertamente antidemocrático (Eliana Calmon que o diga).
Felizmente, temos em contraponto ações do Ministério Público Federal: aqui se pode ler a petição inicial de ação civil pública contra a União, o Estado de São Paulo e o Município de São José dos Campos. E a procuradora Gilda Pereira de Carvalho enviou ofício ao prefeito Eduardo Cury cobrando-lhe o respeito ao direito à moradia da população que foi alvo de bombardeios da Polícia Militar e da Guarda Municipal.
A discussão permanece. Políticos associados ao governo defendem a operação literalmente arrasa-quarteirão. Soninha Francine publicou no twitter contra os moradores, ou certos moradores, do Pinheirinho. Depois, tentou explicar-se em um texto que é o oposto do que João Telésforo escreveu, "Justiça não é pacificação", que elogia a tensão e o conflito para a criação de novos direitos e de poder popular - Bruno Cava fez o mesmo, por sinal. E a Francine escreveu algo mal articulado e sem humor, o contrário do que Hugo Albuquerque logrou nas "Dez mentiras que cercam o Pinheirinho".
A propósito, Idelber Avelar fez um amplo roteiro comentado de leitura sobre Pinheirinho; André Egg fez também o seu, em duas partes. Agradeço aos dois terem citado este blogue.
O Judiciário empenhou-se intensamente para impedir que os direitos humanos fossem aplicados ao caso. No entanto, deve-se reconhecer que a Polícia Militar foi quem mais trabalhou na destruição física de Pinheirinho. Além da mão militar, suas ações prosseguem na área da comunicação. Sobre isso, escreverei outra nota, provavelmente amanhã.
O palco e o mundo
Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
sábado, 28 de janeiro de 2012
"Contra naturam": Desenvolvimento sustentável à moda Rousseff

Em 26 de janeiro deste ano, a presidenta Dilma Rousseff, no Fórum Social Mundial 2012, a que foi depois de se encontrar amigavelmente com Kassab e Alckmin após o massacre de Pinheirinho (sem dizer uma palavrinha sobre a barbárie ocorrida em São José dos Campos), afirmou que desenvolvimento sustentável é crescimento acelerado!
Até o início da década de 1970, fazia mais ou menos sentido defender que desenvolvimento econômico é simplesmente igual a crescimento. Em 1972, a Conferência de Estocolmo, organizada pela ONU e origem de diversos compromissos internacionais em matéria ambiental, levou à paulatina mudança dessa noção. Um desenvolvimento que não se traduza em um compromisso com as gerações futuras não pode ser considerado sustentável. Mais do que isso: um compromisso com o planeta.
Permanecem, porém, as mentalidades retrógradas, interessadas apenas no lucro a curto prazo, deixando a desertificação, a poluição e a extinção de espécies como legado que esperam não chegar a ver, conquanto tudo isso já ocorra. Ouçam a volta do desenvolvimentismo versão Médici no governo retrô que temos hoje no Brasil: http://t.co/8DiZxKzI.
A partir dos sete minutos, ela enuncia que estará no centro dos debates algo mais amplo do que o meio ambiente e o clima: "um novo modelo de desenvolvimento". Novo, de fato? Após 10 minutos e 37 segundos, ouvimos:
No meu governo, quando falamos de desenvolvimento sustentável, eu quero dizer aqui de forma clara no que estamos falando. Para nós desenvolvimento sustentável significa crescimento acelerado de nossa economia para poder distribuir riqueza. Significa criação de empregos formais e expansão da renda dos trabalhadores. Significa distribuição de renda [...]
Depois de transcrever o áudio, descobri que o texto já está disponível no portal da Presidência da República. No entanto, ouvi-la pode ser bem mais inspirador e revelador do que a simples leitura, em razão da entonação dura, monótona e levemente ameaçadora que a presidente empresta àquelas palavras. Ouçam que fala de amplo mercado de consumo (mais um caso de ameaça ao meio ambiente, embora ela não o perceba) etc. Aos 12 minutos e 48 minutos, recorda da sustentabilidade ambiental como "condição imprescindível", mas ela já a reduziu ao mero crescimento econômico (com distribuição de renda).
O gosto nulo e o talento zero da presidenta para o ambientalismo, sempre reiterados, fazem-nos relembrar que, quando na Casa Civil do governo Lula, ela já tinha exposto o Brasil ao ridículo ao dizer, em Copenhague, 2009, que o "meio ambiente é uma ameaça ao desenvolvimento sustentável". Marina da Silva, que não pôde continuar naquele governo, jamais teria dito tal enormidade (que bem representa, note-se, como se sustenta cientificamente o pensamento de Rousseff).
Talvez os seus idos, velhos, distantes dias de militante marxista estejam ligados ao fato de que hoje a presidenta reviva o discurso de seus antigos algozes, apenas enfiando um "sustentável" aqui e acolá para adornar o discurso.
Quem aponta esse problema é o geógrafo marxista David Harvey, ao escrever sobre ecossocialismo em Justice, Nature, and the Geography of Difference. Ele explicou que se provou ser difícil tirar do marxismo a "visão marcada pela húbris" da "tese da dominação da natureza": "O marxismo compartilhou, com boa parte da ciência burguesa, uma repugnância geral à ideia de que a 'natureza' pode controlar, determinar ou até limitar qualquer tipo de comportamento humano."(p. 193).
Um ponto de contato com o capital predador...
Voltando ao discurso em Porto Alegre: é claro que a plateia governista aplaudiu o absurdo científico proferido pela presidenta. Rousseff concluiu sua fala de maneira triunfal e afirmou: "Tenho certeza: um outro mundo é possível."
Pois eu tenho certeza de que, dependendo do Médici reloaded (Belo Monte é só um dos exemplos da ressurgência dos projetos desenvolvimentistas da ditadura militar) precisaríamos de outro mundo, eis que para o atual só restará a destruição.
Mas não o teremos.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Vídeos da Voz do Escritor, com Eduardo Sterzi
Já escrevi sobre Eduardo Sterzi por ocasião da participação dele (e minha) no evento Voz do Escritor em 14 de junho de 2011.
O evento é organizado pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Nele, já vi, sempre em duplas, Waldo Motta e Ricardo Aleixo, João Gilberto Noll e Cristovão Tezza, Francisco Alvim e Chacal... E gostei de ouvir os escritores em uma conversa com os professores e o público.
Em razão da relevância dos autores que são chamados para falar, não esperava que eu fosse participar dessas conversas, pelo menos não já em 2011. Naquela ocasião, compuseram a mesa os professores (a quem agradeço pela confiança no que escrevo) Jorge de Almeida, Roberto Zular e Fábio de Souza Andrade (que me convidou pessoalmente). Quanto a Eduardo, é evidente que ele tem muito a dizer e que sua fala foi enriquecedora para o público - e para mim.
Fabio Weintraub filmou os trabalhos, mas a bateria caiu. Infelizmente, a câmera já tinha entrado em coma quando vieram as perguntas do público. A pergunta de Fábio de Souza Andrade não foi gravada, mas as respostas sim. Eduardo leu e comentou Borges, o que também foi perdido. E acho que o que fiz melhor foi a leitura de trechos de meu poema hidrelétrico, que também não foi captada.
Há, porém, mais de uma hora para se ver, que dividi, em minha edição, em nove partes. Basta clicar nelas que se abrirá o vídeo no YouTube.

Parte I: Abertura por Jorge de Almeida; apresentação de Eduardo Sterzi por Roberto Zular; Eduardo Sterzi lê "Pássaro-de-ouro" do livro "Prosa".
Jorge de Almeida abre os trabalhos ressaltando a proximidade entre os dois convidados. Zular acentua a variedade na obra de Eduardo Sterzi, que também é crítico, e o autor fala do caráter de coletânea do primeiro livro, "Prosa".

Parte II: Eduardo Sterzi lê "Outro cacto" de "Prosa" e "Personagens" de "O aleijão".
Trata-se de dois momentos e estilos bem distintos da poética de Eduardo.
Parte III: Apresentação de Pádua Fernandes por Fábio de Souza Andrade.
O professor Fábio de Souza Andrade ganha o "O palco e o mundo", que está segurando na foto e lê a generosa resenha que escreveu sobre "Cinco lugares da fúria".

Parte IV: Pádua Fernandes lê poemas de "O palco e o mundo" e "Cinco lugares da fúria" com Eduardo Sterzi.
Parceria improvisada para o segundo poema. Meus textos estão incluídos na descrição do vídeo.
Parte V: Roberto Zular pergunta a Pádua Fernandes e Eduardo Sterzi.
Momento em que se descobre que um dos convidados está mais para Mahler e, o outro, para Webern.
Parte VI: Eduardo Sterzi responde a Fábio de Souza Andrade sobre Dante e o sujeito poético; leitura de Francisco Alvim e de "Jogo" e "1º. de janeiro" de "O aleijão".
Veem-se aqui o Sterzi teórico da literatura e o poeta, talentos que raramente se encontram combinados.
Parte VII: Eduardo Sterzi lê "Escada" de Carlos Drummond de Andrade
Nada menos do que um dos grandes momentos da poesia brasileira, e da poesia do século XX, lido por Eduardo Sterzi.
Parte VIII: Pádua Fernandes responde a Fábio de Souza Andrade e lê Murilo Mendes e Ana Cristina Cesar.
O que falei sobre Ana Cristina Cesar, escrevi no blogue, e trouxe para este espaço um textinho sobre Murilo Mendes, escrito há tempos.
Parte IX: Pádua Fernandes lê Alberto Pimenta, Fabio Weintraub, Eduardo Sterzi e Julián Axat.
A inexistência de Alberto Pimenta, em sua primeira versão, foi a segunda nota deste blogue. E a primeira foi uma entrevista, em vídeo, que fiz com Axat, com a tradução do poema que li nesse dia.
Digo isto ainda: faço uma declaração sobre São Paulo no quarto vídeo. As bombas e os tiros que passaram a assumir o papel de políticas públicas no Estado de São Paulo fazem-me, infelizmente, corroborá-la.
O evento é organizado pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Nele, já vi, sempre em duplas, Waldo Motta e Ricardo Aleixo, João Gilberto Noll e Cristovão Tezza, Francisco Alvim e Chacal... E gostei de ouvir os escritores em uma conversa com os professores e o público.
Em razão da relevância dos autores que são chamados para falar, não esperava que eu fosse participar dessas conversas, pelo menos não já em 2011. Naquela ocasião, compuseram a mesa os professores (a quem agradeço pela confiança no que escrevo) Jorge de Almeida, Roberto Zular e Fábio de Souza Andrade (que me convidou pessoalmente). Quanto a Eduardo, é evidente que ele tem muito a dizer e que sua fala foi enriquecedora para o público - e para mim.
Fabio Weintraub filmou os trabalhos, mas a bateria caiu. Infelizmente, a câmera já tinha entrado em coma quando vieram as perguntas do público. A pergunta de Fábio de Souza Andrade não foi gravada, mas as respostas sim. Eduardo leu e comentou Borges, o que também foi perdido. E acho que o que fiz melhor foi a leitura de trechos de meu poema hidrelétrico, que também não foi captada.
Há, porém, mais de uma hora para se ver, que dividi, em minha edição, em nove partes. Basta clicar nelas que se abrirá o vídeo no YouTube.

Parte I: Abertura por Jorge de Almeida; apresentação de Eduardo Sterzi por Roberto Zular; Eduardo Sterzi lê "Pássaro-de-ouro" do livro "Prosa".
Jorge de Almeida abre os trabalhos ressaltando a proximidade entre os dois convidados. Zular acentua a variedade na obra de Eduardo Sterzi, que também é crítico, e o autor fala do caráter de coletânea do primeiro livro, "Prosa".

Parte II: Eduardo Sterzi lê "Outro cacto" de "Prosa" e "Personagens" de "O aleijão".
Trata-se de dois momentos e estilos bem distintos da poética de Eduardo.
Parte III: Apresentação de Pádua Fernandes por Fábio de Souza Andrade.
O professor Fábio de Souza Andrade ganha o "O palco e o mundo", que está segurando na foto e lê a generosa resenha que escreveu sobre "Cinco lugares da fúria".

Parte IV: Pádua Fernandes lê poemas de "O palco e o mundo" e "Cinco lugares da fúria" com Eduardo Sterzi.
Parceria improvisada para o segundo poema. Meus textos estão incluídos na descrição do vídeo.
Parte V: Roberto Zular pergunta a Pádua Fernandes e Eduardo Sterzi.
Momento em que se descobre que um dos convidados está mais para Mahler e, o outro, para Webern.
Parte VI: Eduardo Sterzi responde a Fábio de Souza Andrade sobre Dante e o sujeito poético; leitura de Francisco Alvim e de "Jogo" e "1º. de janeiro" de "O aleijão".
Veem-se aqui o Sterzi teórico da literatura e o poeta, talentos que raramente se encontram combinados.
Parte VII: Eduardo Sterzi lê "Escada" de Carlos Drummond de Andrade
Nada menos do que um dos grandes momentos da poesia brasileira, e da poesia do século XX, lido por Eduardo Sterzi.
Parte VIII: Pádua Fernandes responde a Fábio de Souza Andrade e lê Murilo Mendes e Ana Cristina Cesar.
O que falei sobre Ana Cristina Cesar, escrevi no blogue, e trouxe para este espaço um textinho sobre Murilo Mendes, escrito há tempos.
Parte IX: Pádua Fernandes lê Alberto Pimenta, Fabio Weintraub, Eduardo Sterzi e Julián Axat.
A inexistência de Alberto Pimenta, em sua primeira versão, foi a segunda nota deste blogue. E a primeira foi uma entrevista, em vídeo, que fiz com Axat, com a tradução do poema que li nesse dia.
Digo isto ainda: faço uma declaração sobre São Paulo no quarto vídeo. As bombas e os tiros que passaram a assumir o papel de políticas públicas no Estado de São Paulo fazem-me, infelizmente, corroborá-la.
Violência em Pinheirinho II: Meios de comunicação e os caminhos dos protestos

No dia seguinte ao ato em São Paulo de apoio a Pinheirinho, que relatei aqui, o jornal Folha de S.Paulo publicou matéria no estilo Diário Oficial do Estado sobre a destruição da comunidade de Pinheirinho. No tocante à manifestação na Paulista, apenas uma foto e uma legenda afirmando que ela continha apenas cem pessoas. Como leciono habitualmente para turmas de setenta alunos, posso declarar que o jornal está errado e que havia bem mais gente, apesar de a passeata ter sido convocada em pouco menos de três horas.
Por sinal, aconselho a ver as fotos de Thiago Miranda dos Santos Moreira.
O Estado de S.Paulo fez uma cobertura bem superior do evento, calculando em 500 participantes, e revelou que a moça que carregava o cartaz "Quando morar é um privilégio, ocupar é um direito." era a estudante de Psicologia Camila Santos.
Parabéns para ela, que mostrou um entendimento do direito à moradia bem superior ao do Tribunal de Justiça de São Paulo.
O jornal também deu o destaque acertado à declaração de Ophir Cavalcante, em nome da OAB, de que a ação havia sido ilegal. E incluiu uma declaração no mesmo sentido do poeta e professor de Filosofia do Direito da Facamp, Tarso de Melo (também meu amigo). Tarso, por sinal, estudou e publicou sobre a função social da propriedade.
Os grande meios de comunicação, aparentemente, não se mostraram pressurosos a protestar contra o bloqueio contra jornalistas feito pela Polícia Militar na região.
Os pequenos não são necessariamente melhores em termos de crítica ao poder (vejam este exemplo, que finge não haver presos políticos em Cuba), mas alguns buscam furar o bloqueio policial e exercer dignamente o jornalismo. E há quem consiga, fora da imprensa, documentar de forma independente ações abusivas da polícia de São Paulo.
Não tenho tevê, mas li comentários de pessoas chocadas com certa cobertura dos acontecimentos - emissoras que, em vez de irem atrás da notícia, ficam na frente dela, acobertando-a. Este vídeo parece ser mais fiel ao que ocorreu:
http://www.youtube.com/watch?v=NBjjtc9BXXY
Ele foi realizado pelo Coletivo de Comunicadores Populares; a filmagem e as entrevistas: Cristina Beskow, Yan Caramel, Gabriel de Barcellos, com edição de Jefferson Vasques. No final, ouve-se uma declaração oportuna sobre "ditadura".
Como se dá à resistência a essa ordem de coisas? Ainda é possível a via judicial. O Ministério Público Federal, eu ignorava até descobrir pelo Twitter, propôs ação contra a Prefeitura daquele município por omissão no atendimento à população de Pinheirinho. Como se sabe, a Prefeitura acabou agindo, mas não no sentido que o MPF desejava: a Guarda Municipal ajudou a Polícia Militar a atacar aquela população.
Outra notícia é que a Associação Democrática por Moradia e Direitos Sociais de São José dos Campos propôs mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal contra a desocupação. Provavelmente o tribunal vai agir depois do fato consumado.
Há outras vias além da judicial, evidentemente. Numa ação virtual, foram derrubados no dia 24, ontem, mais ou menos às 22 horas, os portais do governo do Estado de São Paulo e do Tribunal de Justiça de São Paulo, e não as autoridades correspondentes.
E lembro que dia 25 é um dia de protesto físico em São Paulo no aniversário da cidade:
Grande ato ESPECULAÇÃO EXTERMINA: BASTA DE TREVAS NA LUZ E EM SÃO PAULO!
Concentração a partir das 8h, na Praça da Sé.
Caminhada rumo ao Pátio do Colégio, onde Alckmin e Kassab estarão, por volta das 10h.
Atividades culturais (10 grupos de teatro confirmados, música hip hop, dança) na Luz no período da tarde (a partir das 13h30).
Se a imprensa (en)cobrirá a manifestação, não sei. Sei que já somos mais de trezentos, mais de trezentos e cinquenta, e pisamos a terra como quem descobre nas esquinas o furto da cidade.
P.S. Merece destaque esta matéria do jornal The Guardian, escrita por Rodrigo Nunes, The fight against Brazil's Pinheirinho eviction can be an inspiration, em que analisa como a esquerda tem sido em geral pouco crítica em relação às desocupações forçadas no Brasil (e ao governo de Dilma Rousseff), e como as redes sociais estão sendo usadas para furar o bloqueio da grande imprensa.
P.S. 2: A manifestação em Florianópolis a favor de Pinheirinho foi adiada e será amanhã, dia 26 de janeiro, na frente do terminal de ônibus do centro, o TICEN, às 18hs.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Violência em Pinheirinho: Tiros e bombas como política habitacional
Em São Paulo, vanguarda do país, tiros e bombas foram instituídos como política pública de saúde. Panaceia para todos os direitos sociais, o mesmo remédio é usado para as políticas de habitação. Colhendo a oportunidade concedida pela juíza Márcia Faria Mathey Loureiro, da Justiça Estadual, a Polícia Militar pôde descumprir ordem da Justiça Federal e invadir a comunidade de Pinheirinho em São José dos Campos em nome da massa falida de Naji Nahas. O presidente do Conselho Federal da OAB, Ophir Cavalcante, considerou um "grave erro" toda a operação, considerando que se deveria esperar o Superior Tribunal de Justiça decidir sobre o conflito de competência. Não estudei o processo, mas essa posição parece-me correta.
A Associação Paulista de Magistrados havia publicado nota em defesa da juíza Loureiro, defendida no dia 22 também pelo desembargador Capez (irmão do deputado federal Capez do PSDB). A nota é curiosa:
Trata-se da liminar dada pela Justiça Federal, que acabou sendo ignorada pela Justiça estadual. Os magistrados paulistas, parece-me, realizaram nessa nota uma avaliação completamente equivocada da situação. A violência não só não foi mitigada removendo os moradores (o oposto, que eles permanecessem ao menos durante as negociações com os governos estadual e federal, é que faria sentido!), como ela partiu da polícia, e não da população, ao contrário do que parecia supor tal Associação de Magistrados. Ainda não sei quantos mortos foram vítimas dessa última operação da polícia militar de São Paulo.
Li, no twitter de Ophir Cavalcante, que Ministro Ari Parglender, exemplo da vocação republicana do Judiciário brasileiro, decidiu neste domingo monocraticamente pela competência da Justiça estadual, mas ainda não li em que termos. De qualquer forma, quando se lembra que o Tribunal de Justiça de São Paulo anulou a condenação do Ubiratan do Carandiru, sabemos que é essa Corte a quem tem mais experiência no Brasil com violência policial e extermínio.
Sugiro que se leia sobre a situação no blogue Solidariedade à Ocupação Pinheirinho.
A União poderia intervir no assunto? Decerto, tendo em vista que é competência comum dela, dos Estados, Municípios e Distrito Federal, segundo o artigo 23 da Constituição da República:
Mas ela não agiu no domingo em que a comunidade foi invadida. Eduardo Sterzi (nas fotos, com o cartaz: São Paulo é uma ditadura. Nós somos a resistência; Veronica Stigger também lá estava com Resiste, Pinheirinho) soltou no twitter a sugestão, depois da notícia de que a Polícia Militar de São Paulo tinha invadido dia 22, de madrugada, a comunidade de Pinheirinho em São José dos Campos, de que se fizesse, ainda nesse dia, um ato de solidariedade no MASP às 17 horas. Solicitou que alguém que tivesse facebook fizesse uma página para o evento, e Fabio Weintraub (Estado terrorista, tragédia à vista) a criou: http://t.co/30jRTFb5 Já passava das 14 horas.
Felizmente, partidos de esquerda viram uma chance de capitalizar o evento e ajudaram a organizá-lo. Nas fotos que tirei, podem-se ver bandeiras do PSTU, do PSOL, até o PCdoB estava lá (se se tratasse de manifestação em prol dos índios ou das florestas, é claro que esse partido não estaria). Identifiquei dois políticos do PT, o deputado estadual Adriano Diogo e o senador Eduardo Suplicy, que fotografei. Além de membros dos partidos, havia pessoas da Conlutas, do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, da academia.
Nos discursos, ouvi acusações aos governos tucanos de São José dos Campos (o prefeito Eduardo Cury) e do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Mas a omissão do governo federal pareceu-me gritante.


Seguindo o previsto, a concentração ocorreu no MASP. Depois das 18 horas, sob leve chuva, começou uma passeata até o prédio do Tribunal Regional Federal, que é próximo. Todas as pistas da Paulista no sentido Consolação foram fechadas pelo movimento - uma das fotos mostra a avenida vazia, efeito da caminhada. Depois das 19:40, as falas continuavam, com a avenida sempre ocupada, e fui embora.
De positivo, está a insistência na moradia como direito, o que leva a caracterizar aquela posse como "ocupação" (ato que leva ao cumprimento da função social da propriedade), e não como "invasão".






Lucidamente, em um dos cartazes se vinculou a operação policial de destruição de Pinheirinho à invasão da USP e às bombas e tiros na Cracolândia. Fernando Haddad, que foi ministro da educação nos governos de Lula e ainda de Rousseff, chegou a declarar, em 2011, contra a invasão da USP, que essa Universidade não era a Cracolândia. A declaração é absurda: na lógica da militarização das políticas públicas (Kassab, por exemplo, entregou quase todas as subprefeituras aos coroneis da PM) e da caracterização do cidadão como inimigo, todo lugar no Estado de São Paulo é a Cracolândia; as garantias republicanas ou valem para todos, ou para ninguém. Mesmo os privilegiados podem sofrer (afinal, há sempre dissensões entre as elites) quando o direito é pisoteado pelo arbítrio. E é o que tem ocorrido em massa no Brasil, provam-no, experimentam-no na carne os índios em Belo Monte. Agora, os haitianos também descobrem o que significa um Brasil com ares de potência.
Com essa democracia, de fato, nenhum militar, nenhum banqueiro precisará exigir a volta da ditadura. Esta democracia sem justiça de transição (sem justiça, tout court) cumpre eficientemente a missão de tornar desnecessária a nostalgia fetichista das botas e das fardas.







A Associação Paulista de Magistrados havia publicado nota em defesa da juíza Loureiro, defendida no dia 22 também pelo desembargador Capez (irmão do deputado federal Capez do PSDB). A nota é curiosa:
O cuidado, a estratégia e o zelo da ação visavam mitigar a possibilidade de violência e prejuízos às pessoas e foram coordenados pela magistrada estadual Márcia Loureiro Faria Mathey Loureiro, que inclusive se encontra sob proteção especial em razão das diversas ameaças recebidas por sua atuação destemida nesse caso. Infelizmente, todo o esforço foi desperdiçado com a decisão açodada e de competência no mínimo duvidosa da Magistrada Federal, que trouxe a reboque enormes prejuízos materiais. O pior, no entanto, foram os danos de difícil mensuração, como a perda da credibilidade nas instituições e o recrudescimento da violência na região.
Trata-se da liminar dada pela Justiça Federal, que acabou sendo ignorada pela Justiça estadual. Os magistrados paulistas, parece-me, realizaram nessa nota uma avaliação completamente equivocada da situação. A violência não só não foi mitigada removendo os moradores (o oposto, que eles permanecessem ao menos durante as negociações com os governos estadual e federal, é que faria sentido!), como ela partiu da polícia, e não da população, ao contrário do que parecia supor tal Associação de Magistrados. Ainda não sei quantos mortos foram vítimas dessa última operação da polícia militar de São Paulo.
Li, no twitter de Ophir Cavalcante, que Ministro Ari Parglender, exemplo da vocação republicana do Judiciário brasileiro, decidiu neste domingo monocraticamente pela competência da Justiça estadual, mas ainda não li em que termos. De qualquer forma, quando se lembra que o Tribunal de Justiça de São Paulo anulou a condenação do Ubiratan do Carandiru, sabemos que é essa Corte a quem tem mais experiência no Brasil com violência policial e extermínio.
Sugiro que se leia sobre a situação no blogue Solidariedade à Ocupação Pinheirinho.
A União poderia intervir no assunto? Decerto, tendo em vista que é competência comum dela, dos Estados, Municípios e Distrito Federal, segundo o artigo 23 da Constituição da República:
IX - promover programas de construção de moradias e a melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico;
X - combater as causas da pobreza e os fatores de margnizalização, promovendo a integração social dos setores desfavorecidos;
Mas ela não agiu no domingo em que a comunidade foi invadida. Eduardo Sterzi (nas fotos, com o cartaz: São Paulo é uma ditadura. Nós somos a resistência; Veronica Stigger também lá estava com Resiste, Pinheirinho) soltou no twitter a sugestão, depois da notícia de que a Polícia Militar de São Paulo tinha invadido dia 22, de madrugada, a comunidade de Pinheirinho em São José dos Campos, de que se fizesse, ainda nesse dia, um ato de solidariedade no MASP às 17 horas. Solicitou que alguém que tivesse facebook fizesse uma página para o evento, e Fabio Weintraub (Estado terrorista, tragédia à vista) a criou: http://t.co/30jRTFb5 Já passava das 14 horas.
Felizmente, partidos de esquerda viram uma chance de capitalizar o evento e ajudaram a organizá-lo. Nas fotos que tirei, podem-se ver bandeiras do PSTU, do PSOL, até o PCdoB estava lá (se se tratasse de manifestação em prol dos índios ou das florestas, é claro que esse partido não estaria). Identifiquei dois políticos do PT, o deputado estadual Adriano Diogo e o senador Eduardo Suplicy, que fotografei. Além de membros dos partidos, havia pessoas da Conlutas, do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, da academia.
Nos discursos, ouvi acusações aos governos tucanos de São José dos Campos (o prefeito Eduardo Cury) e do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Mas a omissão do governo federal pareceu-me gritante.


Seguindo o previsto, a concentração ocorreu no MASP. Depois das 18 horas, sob leve chuva, começou uma passeata até o prédio do Tribunal Regional Federal, que é próximo. Todas as pistas da Paulista no sentido Consolação foram fechadas pelo movimento - uma das fotos mostra a avenida vazia, efeito da caminhada. Depois das 19:40, as falas continuavam, com a avenida sempre ocupada, e fui embora.
De positivo, está a insistência na moradia como direito, o que leva a caracterizar aquela posse como "ocupação" (ato que leva ao cumprimento da função social da propriedade), e não como "invasão".






Lucidamente, em um dos cartazes se vinculou a operação policial de destruição de Pinheirinho à invasão da USP e às bombas e tiros na Cracolândia. Fernando Haddad, que foi ministro da educação nos governos de Lula e ainda de Rousseff, chegou a declarar, em 2011, contra a invasão da USP, que essa Universidade não era a Cracolândia. A declaração é absurda: na lógica da militarização das políticas públicas (Kassab, por exemplo, entregou quase todas as subprefeituras aos coroneis da PM) e da caracterização do cidadão como inimigo, todo lugar no Estado de São Paulo é a Cracolândia; as garantias republicanas ou valem para todos, ou para ninguém. Mesmo os privilegiados podem sofrer (afinal, há sempre dissensões entre as elites) quando o direito é pisoteado pelo arbítrio. E é o que tem ocorrido em massa no Brasil, provam-no, experimentam-no na carne os índios em Belo Monte. Agora, os haitianos também descobrem o que significa um Brasil com ares de potência.
Com essa democracia, de fato, nenhum militar, nenhum banqueiro precisará exigir a volta da ditadura. Esta democracia sem justiça de transição (sem justiça, tout court) cumpre eficientemente a missão de tornar desnecessária a nostalgia fetichista das botas e das fardas.







sábado, 21 de janeiro de 2012
Belo Monte e Mautner: Kaos em favor da Ordem
O depoimento é bastante peculiar. Invoca-se o patriotismo, como se fossem os "interesses internacionais" que desejam impedir a usina. É claro que o imperador Mautner despojou por decreto os índios, os antropólogos, o Ministério Público Federal, os ecologistas, artistas, eu mesmo etc. da nacionalidade brasileira. Trata-se de uma ideologia da "união nacional", autoritária, que impede ver interesses divergentes e diversidades culturais.
Depois do ato de arbítrio do Imperador Mautner, passemos para os ufanismos de bolso:
1. "a nossa democracia é realmente muito democrática e a mais ampla de todas em sua constituição"
A democracia brasileira é a mais ampla do mundo? Para quem? Certamente não para o povo brasileiro. Não sei se a "constituição" a que ele se refere é a norma jurídica ou a formação política. Nos dois casos, estaria errado.
2. "A dor e o prazer às vezes estão muito juntos neste processo. E dá uma dor no sonho de macular aquele cenário imaginário."
Dor para quem, prazer para quem? Uma forma de negar os danos é dizer que o Xingu não existe; se ele é só imaginário, destruí-lo não causaria efeitos reais... Porém, Mautner é bem explícito ao afirmar que há um sonho de destruir tudo aquilo. Essa aspiração, que é a do Capital, passou a ser também dele. Tal é o novo imaginário do Kaos.
3. O artista declara que Belo Monte vem para "necessidade de eletricidade dos habitantes da Floresta Amazônica", que estaria 80% preservada. E o resto do Brasil teria 61% de floresta preservada! Afora os índices enlouquecidos do novo ecologista Mautner, parece que a eletricidade do local será aproveitada para exportação para a China - eis os interesses internacionais que estão ao lado da construção de Belo Monte.
4. Espera que ela cumpra "suas promessas escritas", as condicionantes.
Belo Monte já encarna a quebra, pelo Estado brasileiro, de promessas escritas, o Pacto de São José da Costa Rica entre elas. A presidenta Dilma Rousseff aprofunda o estado de Estado-fora-da-lei no sistema internacional de direitos humanos de que o Brasil, na verdade, nunca chegou a sair completamente. Como a poluição nos rios amazônicos e a sede dos índios sabem perfeitamente, as condicionantes impostas ao empreendimento ecocida não cumpriram seu papel: o IBAMA, adotando o iletramento como método hermenêutico (sempre favorável aos poderosos), licenciou aquilo sem considerar que cumprir as condições fosse um requisito para as obras... As condicionantes não condicionam!
O ecocídio segue sem respeitar aquilo que deveria servir-lhe de condição, razão pela qual o Ministério Público Federal, diante da complacência do governo federal com a ilegalidade, propôs uma das ações civis públicas contra o empreendimento.
A manifesta duplicidade do Instituto pode ser comparada com o que fez contra Nuno Ramos: no caso do artista, que não tem milhões nem faz campanhas eleitorais, cumprir todos requisitos para o licenciamento ambiental não evitou a proibição de Bandeira Branca. Rigor além da lei para a arte, complacência aquém da lei para as grandes empresas. O que é mesmo que o IBAMA deseja conservar no Brasil?
Pode-se contrapor à sabedoria mautneriana esta análise de fontes sobre Belo Monte feita por Idelber Avelar.
Jorge Mautner teria renegado seus antigos ideais nessa entrevista à TV Belo Monte? Não conheço suficientemente bem a obra do artista/pensador, que foi reeditada em alto nível pela editora Azougue. Li apenas Fragmentos de sabonete e outros fragmentos, em que o autor realmente consegue transformar o pensamento em espuma a escoar pelo ralo. Mautner, com esta obra, comprova que "Um livro, às vezes, é apenas um pedaço de sabonete." (p. 28).
Esse livro, publicado em 1976, e que li na edição revista e ampliada de 1995 (lançada pela Relume Dumará), contém uma premonição do que seriam as redes sociais: "Haverá máquinas imensas, cérebros eletrônicos imensos, onde os seres colocarão cartões indicando quais os outros seres que eles querem conhecer." (p. 13). Afora isso, parece-me lamentável.
Politicamente, é pernicioso; aqui também, a visão mautneriana da democracia é ingênua e perigosa, porque afirma prescindir da reflexão:
Vivemos em comunidade porque esta é a forma mais democrática de relacionar-se. E também por causa da tecnologia, da superpopulação, da descentralização, do desaparecimento do individual neurótico. A democracia é evidente em si mesma. (p. 17).
Temos aí o perigo dessas ideologias políticas que rejeitam a razão em nome de um sabonete em êxtase. Se é evidente a democracia, não precisamos questionar nem mesmo se há sentido na tese de que a superpopulação acabaria com as neuroses individuais (psicanalistas poderiam confirmar essa intuição mautneriana?), tampouco o próprio fundamento da utopia mautneriana, que é a tecnologia, o "Grande Mundo Tecnológico", "assustador", que "promove a grande modificação do sistema nervoso de todas as criaturas, quer elas queiram, quer não." Isso é um problema? Não, "porque o que realmente importa é saber captar, entender e concretizar (transformar a ação e gestos) este novo encadeamento de relações." (p. 19).
Não é interessante? Mautner personifica a Tecnologia (usemos maiúscula, como o autor) para tratá-la como algo inelutável, e assim não ver que interesses humanos estão por trás dela. Há teleologias mais sofisticadas do que essa.
Apesar de ter escrito já na década de 1960 sobre a bomba atômica, Mautner faz em Fragmentos de sabonete um elogio irrefletido à tecnologia. Nessa utopia, o lugar dos índios é o do passado, como no trecho nostálgico das páginas 24 e 25, em que ele saúda o futuro que "É a humanidade cristalizada numa pílula imortal." (p. 25). Mautner certamente aplaudirá quando tivermos de tomar a natureza em pílulas - o astronauta tem que fazê-lo, pois está longe da natureza. Porém, se a destruirmos, não teremos nem mesmo essa chance.
Para tanto, há o extermínio imaginário dos índios, coisa tão repetida por aí, que consiste em imaginar que esta era uma terra de gente nua, sem fé nem lei nem rei, vieram os portugueses com a civilização, e agora temos o Brasil, em que todos são unidos e ponto, não há mais índios.
Portugal e Brasil esforçaram-se, mas não conseguiram o extermínio total. Lembro de ninguém menos do que Eduardo Viveiros de Castro que, em entrevista, declarou que, no colégio, havia aprendido que não há mais índios - e a descoberta da realidade levou-o a querer estudá-los. Os esforços de completar, no plano imaginário, o genocídio muitas vezes ocorrem para que ele possa prosseguir sem maiores alarmes no plano concreto.
Os portugueses tinham aliados índios, e os franceses, e os holandeses. Mas no fim a união nacional decretou-se pelo futebol e pelos batuques (sagrados nos terreiros e profanos nos carnavais; ou o inverso disso? Ou o simultâneo?). (p. 42)
Os índios, hoje, sofrem os efeitos dessa pretensa "união nacional", cujos tambores (de revólveres também?) abafam outras vozes. Mautner chega a criticar Lévi-Strauss por ter escrito Tristes trópicos: "Coisas indígenas. Os trópicos não são tristes, faltou um olhar carnavalesco para Lévi-Strauss (sim, um olhar mais profundo para que ele enxergasse essa realidade. Um olhar macunaímico, e não entendiado." (p. 75).
De fato, se os seus olhos estão cegos para as condições dos povos indígenas hoje, e se o seu intelecto está estagnado o suficiente para achar que o carnaval é uma tradição indígena, você achará entediante Lévi-Strauss...
Se a história não é o forte de Mautner, a filosofia também não. Ou sim? Ele glorifica Hegel mais de uma vez, "Hegel anuncia a nova cultura chegando das Américas." (p. 51), mas esse é o filósofo que, como expliquei no meu livrinho sobre direitos humanos, considera "natural" o desaparecimento dos índios (segundo Hegel, "inferiores em tudo") diante do contato com o "sopro" da atividade europeia...
Outro sinal inquietante do pensamente mautneriano foi dado na época em que apoiou o então governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho. No primeiro número do então caderno de cultura do governo do Estado, Instalação cultural, de julho de 1999, temos, na capa, a chamada para "Mautner, o anjo do impossível", e outra matéria, "Poesia e política no poder", sobre Garotinho que, assim como Sarney, é dono da mesma excelência na poesia e na política.
O político-poeta elogia Mautner como artista e como filósofo. Mautner não faz por menos: "acho da maior importância o destaque dado a literatura e a leitura pelo governador poeta Anthony Garotinho, em todas as escolas do Rio de Janeiro." E traça considerações sobre os índios;
Quase todos nossos indígenas eram canibais. Foi novamente através da música e também do teatro que os jesuítas acabaram com a antropologia [sic] no curto período de uma geração. A união nacional deste país-continente deve-se também a este trabalho dos jesuítas através da música e da poesia.
Afora os erros históricos e novamente a ideologia da "união nacional", é deveras significativo o ato-falho de acabar com a antropologia... Afinal, se os índios se dissolveram naquela união, e a antropologia só estuda esses povos, para que ela deveria continuar?...
Mautner reconhece que existia preconceito contra os índios nos anos 1970, mas, "vinte anos depois", "Novamente um milagre da música e da poesia! Lá em Parintins, qualquer loiro de olhos mais verdes, ou qualquer loira de olhos azuis juravam ser descendentes de índios, com muito orgulho!" Ali Kamel tem seus predecessores entre os artistas a soldo.
Volto a Belo Monte. O projeto precisa dessas mistificações artísticas, históricas e filosóficas para ter uma aparência palatável. Mas essa aparência não esconde os problemas jurídicos, não apenas da ilegalidade em relação ao direito ambiental e aos direitos humanos, como seu caráter provavelmente criminoso.
O estado brasileiro tornou-se parte da Convenção da ONU Convenção para a prevenção e a repressão do crime de genocídio, de 1948, e, por isso, editou a Lei nº 2.889, de 01 de outubro de 1956, que transcrevo inteiramente:
LEI Nº 2.889, DE 1 DE OUTUBRO DE 1956.
Define e pune o crime de genocídio.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA:
Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º Quem, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal:
a) matar membros do grupo;
b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo;
c) submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial;
d) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;
e) efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo;
Será punido:
Com as penas do art. 121, § 2º, do Código Penal, no caso da letra a;
Com as penas do art. 129, § 2º, no caso da letra b;
Com as penas do art. 270, no caso da letra c;
Com as penas do art. 125, no caso da letra d;
Com as penas do art. 148, no caso da letra e;
Art. 2º Associarem-se mais de 3 (três) pessoas para prática dos crimes mencionados no artigo anterior:
Pena: Metade da cominada aos crimes ali previstos.
Art. 3º Incitar, direta e publicamente alguém a cometer qualquer dos crimes de que trata o art. 1º:
Pena: Metade das penas ali cominadas.
§ 1º A pena pelo crime de incitação será a mesma de crime incitado, se este se consumar.
§ 2º A pena será aumentada de 1/3 (um terço), quando a incitação for cometida pela imprensa.
Art. 4º A pena será agravada de 1/3 (um terço), no caso dos arts. 1º, 2º e 3º, quando cometido o crime por governante ou funcionário público.
Art. 5º Será punida com 2/3 (dois terços) das respectivas penas a tentativa dos crimes definidos nesta lei.
Art. 6º Os crimes de que trata esta lei não serão considerados crimes políticos para efeitos de extradição.
Art. 7º Revogam-se as disposições em contrário.
Rio de Janeiro, 1 de outubro de 1956; 135º da Independência e 68º da República.
Creio que todas as letras do artigo 1º estão sendo praticadas no Brasil, embora eu não esteja conseguindo verificar, na jurisprudência, se os tribunais brasileiros estão aplicando essa lei. Creio que os antropólogos e o Ministério Público devem apurar se Belo Monte é a realização da letra c desse artigo.
Trata-se, lembro, do mais grave crime de todos, cujo cometimento, segundo Hannah Arendt, poderia justificar a aplicação da pena capital. Vejamos o final de Eichmann em Jerusalém:
E justamente porque você apoiou e implementou uma política de não querer dividir a terra com o povo judeu e o povo de algumas outras nações - como se você e os seus superiores tivessem algum direito de determinar quem deveria ou não habitar o mundo - descobrimos que ninguém, isto é, de nenhum membro da raça humana se pode esperar que queira dividir a terra com você. Essa é a razão, e a única razão, pela qual você deve ser enforcado.
Mas lembremos que a Constituição brasileira proíbe essa pena e o Judiciário brasileiro jamais poderia aplicá-la, exceto em caso de guerra. E a pena não é realmente necessária para os poderes estabelecidos: os grupos que, na realidade, a recebem (como os índios) não têm mesmo acesso à justiça. Ademais, a pena deveria ser contra aqueles poderes, e o Judiciário não cometeria tal ingratidão.
E o acesso ao imaginário da nação? Impossível na cosmovisão mautneriana, com que termino esta nota. Pois o artista-filósofo afirma que é "nos demais países latino-americanos" que "a população índia é 'espacialmente' separada da outra"; no Brasil, ela não seria, por causa da miscigenação... Cito a página 71 do livro-sabonete.
Espaços para os índios, para o autor, não se justificam, portanto. É interessante ver como o argumento da miscigenação pode ser apropriado de forma palatável para o racismo.
Em nome da união nacional (a Ordem por trás do Kaos), calam-se as dores dos divergentes: "aqui é uma só festança, um só futebol, um grande carnaval, lembrar mestre Gilberto Freyre."
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