O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

domingo, 15 de julho de 2012

"al Face-book", ou o que Alberto Pimenta dislikes



Anunciei, em nota anterior, que Alberto Pimenta havia lançado al Face-book (Lisboa: 7Nós, 2012). Eu não sabia que o evento havia sido filmado.
Pode-se ver, nesta ligação, a leitura de todo o livro que o autor fez na livraria Gato Vadio, no Porto, em 31 de Março de 2012 [corrigido].
Antes de começar o poema, Pimenta explica brevemente o que é a sátira e revela que esse é o seu primeiro livro no gênero. Durante a leitura, que dura mais de uma hora e meia, o público desata a rir diversas vezes com a graça do poema, da interpretação (o performer Alberto Pimenta cria diferentes vozes e acentos para os personagens) e das referências à realidade portuguesa. Entende-se que o livro já esteja na segunda reimpresão alguns meses depois de lançado, o que é raro para poesia.
O livro parte de um desastre educacional - Portugal está cheio deles, inclusive a tradição de dar diplomas a quem não frequentou (ou o fez apenas parcialmente) os cursos, nem sempre em condições legais. Em A arte de furtar, afirma-se que vários bachareis formavam-se na Universidade de Coimbra sem por os pés na instituição. Foi necessário, no entanto, que o país tivesse um Passos Coelho para que o governo convidasse os professores para a emigração, o que me parece equivaler a fechar as portas e apagar as luzes de Portugal.
Nesse contexto de descalabro, Pimenta escolheu um recente caso de respostas absurdas em exame nacional de português que incluía um poema célebre de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa ("Dois excertos de odes", com o verso "A lua começa a ser real."). Célebre, mas não para os estudantes portugueses. Um aluno

afirmou que se tratava dum poeta
que não era dos mais falados
que estava ainda noutra onda
que não tinha nada que ver
com as mais recentes linhas poéticas
que se passavam todas
nas imediações da casa
bar ruas transportes engates
actos quotidianos
que não se davam a fitas
de olhar para a lua
pois sabendo procurar
há poesia em todo lugar
até ou mais ainda no caixote do lixo
problema é a falta de vocações
[...]

claro que ouvi falar
do projecto americano
de pôr uma nova luz no espaço
mas se era outra como a lua não percebi
dizia uma resposta
que depois duma breve consulta
à embaixada americana
não foi considerada aceitável (p. 10-11)
Há uma revolta contra o exame e a questão, e o governo resolve criar uma comissão. Paralelamente, os  estudantes tornam-se "amigos" dos professores na tal rede social. Tudo vai enlouquecendo gradativamente. A auréola da lua cai na lama definitivamente:

a lua são buracos
e uns cacos a tapar
um estagiário da área lá na América
roubou alguns
dos que os astronautas trouxeram
deitou-se em cima com a namorada
e coax coax
já está
mas ela
depois de ter dormido com outro
num colchão de latex coax
desistiu da lua
a lua já não conta
nem para as mulheres (p. 24-25)
Em passagem satírica com certas modas teóricas, um grupo de professores não viu nenhum "apocalipse" nem "eclipse do saber". Depois, Pimenta volta a satirizar os alunos.

ou então como dizia
o blog duma jovem penteada
quase como a cabeça de rosas
de Salvador Dali
um jovem com muito carácter
que já tinha levado 3 professores
e uma professora
à demissão por assédio sexual
três luas duma vez
eu até gostava
mas fico só com uma
não tenho roupa para três (p. 35)


Até acidentes de carro passam a acontecer por causa dos motoristas distraídos com a lua.
A revolta cresce, Pimenta volta a satirizar o governo. A comissão formada para resolver a questão

deliberou
devolver os exames aos alunos
e assim
enquanto não fossem privatizados
a tarefa de organizar as provas
caberia provisoriamente em co-produção
aos próprios candidatos
[...]
no entanto
e apesar de os poetas
já não serem o que eram
havia que não perder de vista
a política estratégica
de crescimento sustentado da poesia
havia que assegurar
que a poesia continuasse disponível
e acessível a todos
especialmente aos mais carenciados
o que a curto prazo implicará
como ficou dito
a sua cuidadosa privatização

recomenda-se no entanto
a todos que vão elaborar as provas
que doravante ponham a lua de parte
porque ela até induz perturbações ao sono (p. 60-61)

Está tudo aí: o discurso da ampliação do acesso e da sustentabilidade usado para a privatização, e a censura ao pensamento e ao ensino decorrentes da mercantilização. Há mais "sustentabilidade" no livro: passa um programa sobre a "Amazónia devastada" e, como se devastar este mundo fosse pouco, temos esta distopia tecnológica:

quando um jovem físico português
professor numa universidade da Carolina
ou da Virgínia do Norte
lembrou que se era utópico
no actual grau de evolução da ciência
embora não impossível num futuro
que já se entrevia no horizonte
pensar em capturar a lua
e reparti-la pelos países envolvidos na missão
[...]
mas nós no novo mundo sabemos
gerir as dificuldades do presente
pondo em prática sonhos do futuro
assim fizeram os pais
da bomba atômica (p. 49-50)
Devastação extraplanetária, o que tem tanto valor ético quanto a bomba atômica!
O governo brasileiro, com capacidades tecnológicas ainda modestas, só está logrando, com a violação de normas internacionais sobre genocídio, meio-ambiente e comunidades indígenas (para não mencionar a miragem do direito constitucional), destruir a Amazônia. Imaginem se o Brasil conseguisse mandar foguetes para o espaço! O défice público superaria os da Copa e das Olimpíadas somados. Pensem nos aditivos, com preços na lua, que a Norte Energia iria cobrar para construir hidrelétricas no satélite da Terra. As usinas somente seriam possíveis com uma pequena transposição das águas remanescentes do Amazonas, o que exigiria mais um aditivo ao contrato original...
No final do livro, simultaneamente engraçado e terrível, temos a zombaria em que tudo se revela falso, e não há faces por trás das máscaras.
Nesse contexto, a tal rede social, Facebook, entra como um caldo insípido, de que todos gostam, composto pela mediocridade da repetição like e por um consenso que é comodismo e rendição.
Alberto Pimenta não se rendeu. E há outros como ele. O sucesso do livro faz pensar que ainda há esperança em Portugal, apesar da Europa.




quarta-feira, 11 de julho de 2012

O cavalo marinho de Ricardo Rizzo


No terceiro número da extinta revista de crítica Rodapé, publiquei um artigo ("Os olhos do mar no cavalo das águas") sobre o primeiro livro de poesia de Ricardo Rizzo, Cavalo marinho e outros poemas (São Paulo: Nankin Editorial, 2002).
Antes que seja publicada sua pesquisa sobre a obra política de José de Alencar, sobre que escreveu a dissertação de mestrado em ciência política, decidi deixar disponível o artigo neste blogue.
Ele me convidou para escrever na contracapa do segundo livro, País em branco (São Paulo: Ateliê, 2007), o que gerou esta nota:

Após as cercanias mineiras de Cavalo Marinho e Outros Poemas (2002), seu primeiro livro, Ricardo Rizzo segue um périplo mais amplo em País em Branco. Do poema longo "Plano de Segurança para Bagdá e Vizinhanças" ao irônico "Tristes Franceses", de Kigali em "Inútil Paisagem" a "Quem fez a Rússia", a trajetória culmina no impressionante "De um Lado do Rio Pinheiros" ("Estou pobre / feito o lixo das clínicas, o baço / que não usaram no transplante"), com epígrafe do autor de "Meditação sobre o Tietê". Esta poesia constitui "movimentos / através dos quais mantém / suas mãos presas / ao planeta". Suas soluções formais assumem, portanto, um firme compromisso com a imanência. Não outro é o caráter político dessa poética: "a manhã do país é uma chaga / que se abre a quem souber torturá-la".
Abaixo, o artigo, em que tentei traçar as influências e as preocupações dessa poesia, e apontar a força dessa estreia e desse autor, confirmada no segundo livro. É rara uma boa estreia, ainda mais do que um bom segundo livro (tantas não-vocações morrem antes de reiterar-se). Com frequência, os poetas jovens e inéditos querem publicar logo (desconselho tal temeridade a quem não é Rimbaud...) e, mais velhos, tentam depois esconder seus primeiros rebentos. Há milhares desses casos, inclusive famosos, como Cecília Meireles.
Ricardo Rizzo não terá esse problema.





































quinta-feira, 5 de julho de 2012

Direito, literatura e racismo "onde arde o fogo sagrado da liberdade"


Eu havia feito um comentário a um artigo de Idelber Avelar para a Fórum, "Sobre algumas vitórias recentes da luta afro-brasileira", por causa de uma observação de leitor que pretendia que a legislação racial do Brasil no século XX, por ter se dirigido aos imigrantes, não teria afetado os negros e mulatos brasileiros.
Achei bastante equivocada a observação, embora o erro fosse previsível e até comum para os leigos no direito, que costumam resumir a lei aos textos e confundir o direito com o conjunto das leis. Até alguns profissionais do direito cometem esses equívocos...
Com a mudança no sítio da revista, aquela observação sumiu, bem com o que escrevi. Exponho meu ponto de vista aqui, como já queria antes, em três tópicos que, na verdade, são propostas de pesquisa para quem tiver mais fôlego do que eu.

a) Há diversas formas de eficácia do direito. Uma delas é de caráter simbólico: uma norma jurídica pode gerar menos efeitos concretos diretos do que transformações nas representações que a sociedade faz sobre o tema da norma (ver Jacques Commaille). Creio que seria interessante verificar como o incentivo à imigração europeia ajudou na caracterização de um grupo indesejado, os negros e os mulatos estrangeiros, com reflexos sobre os brasileiros da mesma cor.

Na literatura brasileira, lembro agora de trecho de romance de Ana Maria Gonçalves, Um defeito de cor (Record, 2006), em que a narradora, Kehinde (mãe de Luiz Gama), fala das restrições criadas no Brasil aos africanos libertos depois da Revolta dos Malês em 1835:

Em maio, um dia depois do cumprimento das penas de morte, saiu a aprovação da lei sobre a deportação, que dizia que todos os africanos libertos, suspeitos ou não, deveriam deixar a Bahia assim que o governo achasse algum país para recebê-los. [...] Ou seja, preto, na Bahia, só se fosse escravo, ou então se tivesse algum dinheiro, porque podiam protelar a deportação os africanos que se dispusessem a pagar um imposto de dez mil réis [...]
O medo dos brancos de o Brasil se tornar um novo Haiti não deixou de surtir efeito sobre os negros brasileiros e se vinculou ao projeto de "embranquecimento" do país. No romance de Ana Maria Gonçalves, aparecem intermitentemente as tensões dos escravos e dos libertos com os mulatos que desejavam passar por brancos.
A distopia de se querer um Brasil racialmente homogêneo e branco persiste, creio, no imaginário: lembro de, no ano passado, estar no Rio de Janeiro, Barra da Tijuca, e ouvir uma senhora comentando que (o punhado de) haitianos que entrou no país iria "escurecer" o Brasil. Perguntem a essa senhora se ela acha dignos os negros brasileiros. A resposta será sim, porém na função de empregados domésticos e zeladores.

b) A maior parte da discriminação vem de um infra-direito (aqui, faço uso de Foucault), que cria distinções onde a norma jurídica prevê a igualdade formal. Outra hipótese para pesquisa: talvez se possa verificar, em muitos casos, que a norma jurídica discriminatória surge quando essa discriminação social não é suficiente para assegurar a dominação.
Voltando à literatura, em casos como este, que Francisco Maciel retrata em O primeiro dia do ano da peste (Estação Liberdade, 2001), a norma jurídica da igualdade formal terá sua existência aprovada até mesmo pelos racistas moderados, pois será sabotada cotidianamente pelas práticas de discriminação:
A resposta devia ser esta: no Exército entrei soldado e saí cabo. O capitão me aconselhou a seguir carreira. Eu disse que não seguia  porque nunca tinha visto um general crioulo e eu não seria o primeiro. Por isso, de vez em quando, eu banco o sargento à paisana. Por aí.
Com isso, os horizontes dos grupos discriminados fecham-se, a despeito do que diga a lei, até pelo fato de ela dizer tão pouco, hoje, se apenas prevê a igualdade formal. O que pode suscitar reações coléricas são as medidas jurídicas de igualdade material, como cotas. Essas medidas, tanto por seus efeitos concretos (provável melhoria das condições de vida dos grupos discriminados) quanto por suas implicações simbólicas (o reconhecimento da persistência do racismo), fizeram e farão os racistas sair do armário.

c) O direito não se resume simplesmente à legislação. As dimensões da doutrina e da jurisprudência, por exemplo, não devem ser esquecidas. É importante verificar como a variável raça afeta as decisões judiciais. Talvez em áreas como direito penal ela seja decisiva, tendo em vista o que ocorre em áreas próximas, como a medicina legal, que considerava os negros "naturalmente" inferiores, assim como os mestiços e índios.
Cito agora o advogado, jornalista, poeta e ex-escravo Luiz Gama. Sua mãe, por ter participado das revoltas de escravos na Bahia, teve de fugir e o seu filho jamais conseguiu encontrá-la. A história é muito conhecida: por ter nascido de uma liberta, Luiz Gama era livre, e o direito brasileiro não permitia sua escravização. No entanto, depois de sua mãe ter desaparecido, o pai vendeu-o ilegalmente (acontecimento nada incomum) como escravo. Mais tarde, Luiz Gama conseguiu provar e recobrar seu estatuto original e tornou-se um dos abolicionistas e advogados mais marcantes do século XIX brasileiro. E ele também era um bom poeta.
Em solidariedade a outro abolicionista, José do Patrocínio, atacado por ser mulato, Luiz Gama publicou na Gazeta do Povo em 1880:

Em nós, até a cor é um defeito, um vício imperdoável de origem, o estigma de um crime; e vão ao ponto de esquecer que esta cor é a origem da riqueza de milhares de salteadores, que nos insultam; que esta cor convencional da escravidão, como supõem os especuladores, à semelhança da terra, ao través da escura superfície, encerra vulcões, onde arde o fogo sagrado da liberdade.

Ligia Fonseca Ferreira coligiu escritos de diversos gêneros do autor em Com a palavra, Luiz Gama (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2011), que acabo de citar. Nesse trecho, como em outros, temos a denúncia dessa crença na inferioridade de nós negros e mestiços, sem esquecer da hipocrisia das fortunas que foram construídas a partir da escravidão.
A hipocrisia sobre o tema continua no século XXI, como provou o DEM com a arguição por descumprimento de preceito fundamental n. 186, contrária às cotas raciais em universidades públicas. Felizmente, o direito positivo não está mais a seu lado.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O golpe no Paraguai e a Carta Democrática Interamericana

Houve um golpe no Paraguai. Uma tentativa de falsificar o direito para justificar a falsificação da democracia que lá ocorreu é dizer que, apesar de o presidente Lugo não ter tido como se defender, e de nenhuma acusação ter sido provada ou mesmo definida, a constituição paraguaia não faria tais exigências.
A indigência desse arrazoado é manifesta. Está naquele texto constitucional o princípio da ampla defesa, que, com sua natureza de princípio, irradia-se para as outras previsões do ordenamento. Li que Deisy Ventura pronunciou-se no sentido de que o caso é um "precedente assustador na América Latina", o que facilmente se verifica com a escandalosa a violação à soberania popular. Dilma Rousseff, por sinal, usou expressão parecida. Em nota, a Federação de Associações de Juízes para a Democracia da América Latina e Caribe também condenou o golpe.
A suspensão do Paraguai tanto do Mercosul quanto da Unasul é correta, portanto, eis que tais organizações exigem que seus participantes adotem o regime democrático. Não é de admirar que os Estados Unidos, que tradicionalmente atacaram a democracia na América Latina, tenham logo reconhecido o governo golpista.

Ademais, o golpe vinha sendo preparado há tempos, e se relaciona com a instabilidade política daquele Estado, como se pode ver nesta análise de André Luiz Coelho. A recente intervenção do Legislativo na corte suprema daquele país parece ter sido um dos passos. Hugo Albuquerque acertadamente destacou que um dos pretextos para  a derrubada do presidente foi o fato de Lugo ter assinado o segundo Protocolo de Ushuaia (celebrado em dezembbro de 2011), que fortalece o compromisso democrático do Mercosul. E as empresas multinacionais que realizavam ilegalidade transgênica no campo também se opunham ao governo.
Gostaria de destacar três pontos:

a) A conduta ainda tímida da OEA, cujo secretário-geral, Insulza, está mais ocupado em sabotar o sistema interamericano de direitos humanos. Lemos no comunicado de 23 de junho que os Estados da região testemunharam um "juicio sumario que, aunque formalmente apegado a la ley, no parece cumplir con todos los preceptos legales del derecho a la legítima defensa".  O Mercosul, que tem seu compromisso democrático formalizado no Protocolo de Ushuaia, já suspendeu o Paraguai.
A OEA também possui um compromisso equivalente, a Carta Democrática Interamericana, que não vem sendo lembrada por muitos comentaristas. O curioso é que Insulza aludiu à Carta em seu primeiro discurso à frente da OEA, em 2005.
De qualquer forma, de acordo com ela, a suspensão somente poderá ocorrer depois de deliberação de no mínimo por dois terços dos Estados na Assembleia da OEA:

Artigo 21
Quando a Assembléia Geral, convocada para um período extraordinário de sessões, constatar que ocorreu a ruptura da ordem democrática num Estado membro e que as gestões diplomáticas tenham sido infrutíferas, em conformidade com a Carta da OEA tomará a decisão de suspender o referido Estado membro do exercício de seu direito de participação na OEA mediante o voto afirmativo de dois terços dos Estados membros. A suspensão entrará em vigor imediatamente.
O Estado membro que tiver sido objeto de suspensão deverá continuar observando o cumprimento de suas obrigações como membro da Organização, em particular em matéria de direitos humanos.
Adotada a decisão de suspender um governo, a Organização manterá suas gestões diplomáticas para o restabelecimento da democracia no Estado membro afetado.


b) O pretexto para a derrubada do presidente eleito foi o de mortes em conflito agrário. Isso mostra como essa questão continua problemática no continente - e, nesse ponto, devemos lembrar do Brasil. Metade dos ativistas ambientais assassinados na última década eram brasileiros, de acordo com estudo da Global Witness, tal é o empenho do governo federal nas questões ambiental, fundiária e das comunidades indígenas. Como o congresso brasileiro vaia ativistas ambientais mortos, não vejo como esse novo recorde brasileiro vá mudar nos próximos anos. Deve-se lembrar que também o Judiciário é peça importante na criminalização dos movimentos sociais e de jornalistas, como está ocorrendo em Belo Monte, com o recente pedido de prisão preventiva de onze militantes contrários à construção da hidrelétrica.

c) O fato de a suprema corte paraguaia ter legalizado o golpe não elide o caráter autoritário da derrubada de Lugo. As decisões das cortes têm autoridade, o que não significa que sejam sempre corretas - o plano da validade jurídica não se confunde com o da correção teórica da decisão judicial, embora se relacionem. Tal é razão pela qual existe e é relevante a teoria do direito (ela seria inútil se o direito fosse pura discrionariedade) e também por que toda decisão deve ser discutida publicamente, embora acatada. A discussão pública sobre a razoabilidade e a adequação da decisão em muito ajuda na melhoria das decisões do Judiciário - e, neste caso, na denúncia da manobra golpista realizada por esse poder e pelo Legislativo contra o Executivo.
Quanto a golpes legalizados por  cortes, temos, no Brasil, o exemplo recente da ADPF n. 153, quando o Supremo Tribunal Federal decidiu que a Constituição de 1988 subordinava-se a uma emenda da Constituição de 1967; isto é, a Constituição da democratização não representaria uma ruptura com a ordem autoritária, e sim era apenas uma dócil continuação do texto constitucional da ditadura, como expliquei nesta nota. A impunidade de assassinos e torturadores, de ontem e de hoje, dependia disso.

Sobre a Carta Democrática, que foi aprovada em 11 de setembro de 2001 (nada menos), escrevi há mais de dez anos um texto ("A Carta Democrática Interamericana e a eterna novidade da democracia", com Julius Moreira Mello) que era cético. Eu apontava algo que ocorreu agora no Paraguai, o fato de

hoje, boa parte dos regimes autoritários revestir-se de uma aparência constitucional. O caso do ditador japonês do Peru, Alberto Fujimori, foi exemplar: após golpe de estado, ele foi eleito e reeleito para a Presidência do país. Aparentemente, o Congresso funcionava e o Judiciário era independente. Todavia, o ditador impunha pesado controle sobre os Poderes Legislativo e Judiciário, mediante corrupção e expurgos, bem como sobre os meios de comunicação, e alterou a Constituição de forma a torná-la mais centralizadora e permitir a continuidade do autoritarismo sobre o Peru.
A Carta pode ser útil nesses casos? O projeto da Carta submetido às contribuições da sociedade civil possuía ainda mais deficiências a respeito:

Artigo 12 - Em conformidade com a cláusula democrática da Declaração de Québec, qualquer alteração ou ruptura inconstitucional da ordem democrática em um Estado membro da OEA constitui um obstáculo insuperável para a participação do Governo desse Estado nas sessões da Assembléia Geral, na Reunião de Consulta, nos Conselhos da Organização e nas conferências especializadas, e também nas comissões, nos grupos de trabalho e em outros órgãos criados dentro da OEA, sujeito ao estabelecido na Carta da OEA [, bem como do processo de Cúpulas das Américas].

Logo, a contrario sensu, uma ruptura constitucional da ordem democrática (como chegou a acontecer no Peru) escaparia ao sistema criado pela Carta... Essa falha foi objeto de contribuição da sociedade civil. A redação definitiva do artigo 19, já transcrito, e do artigo 18 bastante melhoraram a previsão original:

Artigo 18 - Quando, em um Estado membro, ocorrerem situações que possam afetar o desenvolvimento do processo político institucional democrático ou o legítimo exercício do poder, o Secretário-Geral ou o Conselho Permanente poderão, com o consentimento prévio do governo afetado, determinar visitas e outras gestões com a finalidade de fazer uma análise da situação. O Secretário-Geral encaminhará um relatório ao Conselho Permanente, o qual realizará uma avaliação coletiva da situação e, caso seja necessário, poderá adotar decisões destinadas à preservação da institucionalidade democrática e seu fortalecimento.
No entanto, pode-se duvidar que o sistema criado pela Carta Democrática tenha alguma eficácia contra as ditaduras constitucionais, que foi o caso do Peru. Devido à aparência democrática e à existência de eleições periódicas, a forma de controle internacional mais efetiva é justamente a realizada pela Comissão e pela Corte Interamericanas de Direitos Humanos. Basta lembrar da série de derrotas que a ditadura de Fujimori sofreu perante a Corte.
Outra questão que expõe os estreitos limites da Carta é o da ameaça das empresas transnacionais aos direitos humanos [...]

Nesse artigo, eu defendia que deveria haver uma articulação da Carta com o Sistema Interamericano de Direitos Humanos no sentido de

prever que, em casos de desrespeito às decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos, o Estado-membro seria suspenso da OEA, o que seria uma forma de sanção ao descumprimento do artigo 68 do Pacto de São José da Costa Rica, que dispõe sobre o compromisso dos Estados de “cumprir a decisão da Corte em todo caso em que forem partes”.
Como isso não foi feito, pode-se bem duvidar da sinceridade dos Estados membros no tocante ao fortalecimento do Sistema Interamericano de Direitos Humanos. 

 Pelo menos nesse ponto, meu ceticismo mostrou-se correto. A propósito, a revista The Economist (que não pode ser qualificada de esquerdista) publicou neste mês interessante matéria sobre como planeja-se enfraquecer o Sistema, com o firme apoio não só da Venezuela, como do Brasil de Dilma Rousseff.


sexta-feira, 15 de junho de 2012

Imagens da Devastação em "Literatura e Autoritarismo"

Na revista Literatura e Autoritarismo, acabei de publicar o artigo "Biopoder e biopoética na poesia de Julián Axat: 'yluminarya' e o genocídio na Argentina". Eu havia anunciado nesta nota o trabalho, que está disponível nesta ligação. Nada tenho a acrescentar ao que escrevi naquele momento, exceto a bela notícia de que Julián Axat terminou um livro novo de poesia. Alguns dos poemas novos podem ser lidos no blogue de poesia do autor.
A revista lançou o dossiê Imagens da Devastação, organizado pelos professores Eduardo Sterzi, Ana Maria Domingues de Oliveira e Marcus Brasileiro. O tema que escolhi foi o do genocídio na Argentina. Como há diversas devastações, os outros autores escolheram assuntos bem diversos, como as imagens de guerra no espaço urbano, tema do texto de Fabio Weintraub, que analisa a poesia de Ronald Polito.
Na apresentação, lemos que "Razões não faltam para que o nosso tempo seja visto como um tempo de devastação"; uma delas, lembram os organizadores, é a destruição da Amazônia, que se converte em soja, pasto e na obscuridade programada das usinas hidrelétricas.

Eis o sumário do Dossiê, que conta com uma tradução feita por Idelber Avelar, além dos artigos abaixo indicados:

SUMÁRIO

ENTRE VIVOS E MORTOS: IMAGEM E MEMÓRIA
Kelvin Falcão Klein

FRAGMENTOS DE LUZ, MEMÓRIAS DA DESTRUIÇÃO
Gustavo Silveira Ribeiro

A POÉTICA DA DEVASTAÇÃO DE YAN LIANKE
Carlos Eduardo Bione

BIOPODER E BIOPOÉTICA NA POESIA DE JULIÁN AXAT: YLUMINARYA E O GENOCÍDIO NA ARGENTINA
Pádua Fernandes

INVENTARIANDO DECEPÇÕES: A DEVASTAÇÃO DA GUERRA EM TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA
Tatiana Sena

A MANAUS DEVASTADA EM DOIS IRMÃOS DE MILTON HATOUM
Katrym Aline Bordinhão dos Santos

MEU PRIMEIRO BUNKER: IMAGINÁRIO BÉLICO EM TERMINAL, DE RONALD POLITO
Fabio Weintraub

O FURACÃO KATRINA: NOVA ORLEANS PERDIDA NA ENCHENTE
Greil Marcus
Werner Sollors
(Tradução de Idelber Avelar)

sábado, 9 de junho de 2012

Chacal, a poesia e o duplo

Creio que há poetas melhores do que Chacal, porém não sei de ninguém que seja mais poeta do que ele. É certo que viveu também de música, principalmente produção de rock, e de outros ofícios artísticos. Não obstante esses outros afazeres, ele é um exemplo de alguém que se dedicou a escrever, publicar, produzir, encenar poesia, e abrir espaço para os versos de outros.
Raríssimo caso de poeta não ressentido com o mundo acadêmico, já o vi dizer mais de uma vez que não vê problema em ser criticado ou em ser pouco estudado naquele meio. Lembro de um jantar em que um mau poeta-músico reclamou do pequeno número de teses sobre si mesmo; chegou ao ponto de queixar-se de uma resenha favorável de certa professora, por não ter conseguido entender o texto - embora percebesse que era positiva!
Faço notar que a resenha era perfeitamente inteligível, o mau poeta-músico é que tinha problemas de leitura. Reclamou, em seguida, que a universidade deveria abandonar os consagrados e apoiar os escritores novos. Chacal, muito elegante, ouviu tudo e respondeu calmamente que não achava que esse fosse o papel da universidade...
Em Uma história à margem (Rio de Janeiro: 7 Letras), que já tenho mas ainda não li, Chacal propõs-se a escrever um romance autobiográfico. É esse livro que está sendo levado aos palcos, no exercício perigoso de retratar-se duplamente, pois não só Chacal escreveu sobre si, como interpreta a si mesmo em cena.
Vi o espetáculo ontem no SESC Copacabana. Chacal é dirigido por Alex Cassal, que assina com ele a dramaturgia. O poeta é o único artista no palco, mas quem decide pela poesia não pode ter medo... E Chacal, que tanto se apresentou em público, e tanto fez no CEP 20.000, está mais do que à altura desses riscos. Poesia também é risco, por sinal, como lembraria Augusto de Campos, que é citado no espetáculo, embora Charles Peixoto e Waly Salomão, companheiros de geração (e, muitas vezes, de estética, ao contrário dos concretistas, cujo projeto é muito diferente), estejam - como deveria ser - bem mais presentes.
A encenação é tão simples quanto eficaz: bananas, a barba de Allen Ginsberg, alguns lps, folhas, um megafone, batom, um pano azul que serve de ondas e de parangolé são alguns dos poucos elementos com que Chacal retrata as décadas de 1970 a 1990 (principalmente), de que ele foi um dos personagens. Os mimeógrafos, o Circo Voador, o CEP 20.000 estão presentes, assim como a praia, as drogas, as prisões. Trata-se menos de uma poesia que se quer fazer vida do que uma vida que se entende como poesia.
Chacal fala, declama, pula, dança e canta (principalmente samba) e não há instante que sugira que o poeta e performer esteja a fazer pose. Nota-se que ele não quer se institucionalizar, o que seria fatal para sua poética e sua utopia.
Mesmo quando a poesia não é tão boa assim, presa a trocadilhos sonoros (Ginsberg, invocado mais de uma vez, foi capaz de livros muito diferentes - e muito bons - como o Uivo, o Kaddish e América; não há essa variedade nem mesmo em Drops de abril), o corpo de Chacal habita-a e torna-a credível como texto teatral.
Dois dos graves acidentes que sofreu, e que poderiam tê-lo matado, são retratados sem autocomiseração alguma no espetáculo. Vejo nisso a questão do duplo: Chacal é, entre outras coisas, um sobrevivente, e sua trajetória fez-me pensar que a poesia  tem uma vida tão acidentada quanto a dele, e ela também resiste na alegria de fazer.