I
- Gente! Vocês não vão acreditar!
- O quê?
- Acho que a gente vai ter que ler mesmo o livro da matéria.
- Não pode ser.
- Por quê?
- O pessoal que faz dependência me contou. Tem que ler.
- E agora?
- Tem que ler, senão não vai passar.
- Como é que se faz isso?
- Sei lá.
- Qual é mesmo a matéria?
- É uma que tem ciência no nome.
- Ah... Será que tem algum livro assim na biblioteca?
- E agora?
- Vou ter que trancar a matéria!
- Tu é muito burra, quer assustar a gente. Não foi o pessoal da dependência que falou? É gente burra, como é que tu vai acreditar neles?
- Mas eles disseram que tem que ler o livro da matéria.
- Só pode ser por isso que ficaram reprovado. Vai conversando com essa gente, vai, espertinha. Má companhia só traz mau conselho.
II
Professores vão a uma reunião. Esperando serem chamados, chega uma aluna muito nervosa que se dirige à funcionária da seção.
- Quero apresentar queixa contra uma professora.
- Certo. Tome o formulário.
A aluna fica paralisada. Momentos depois, a funcionária indaga se a aluna quer caneta.
- Não. É que não lembro do nome da professora.
- E ela dá aula de quê?
Novo silêncio.
Os professores entram para a reunião. Ela ocorre. Eles saem, e a aluna continua parada diante do papel em branco. Certamente não permaneceu por muito mais dias na posição, pois se tratava da última semana, posterior ao exame final.
III
- Você sabe de algum lugar para fazer residência? E rápido? Não tenho muito tempo, só posso gastar poucas horas na semana.
- Tem um colega que deve saber, ele vem aqui no mesmo horário.
- Valeu, vou falar com ele. Mas quem é?
- Não lembro. Não vejo muito esse cara por aqui.
Tinham que sair, já era a hora da aula. Deixaram os dois a sala de professores.
IV
- O aluno escreveu que Aristóteles era filósofo contemporâneo!
- E daí?
- E daí que a prova tinha consulta! Em nenhuma parte do livro está escrito que Aristóteles é contemporâneo!
- Ah, e não é? Não sei.
- Não, não é... E seus alunos, eles estão indo bem?
- Muito bem. Aproveitei que na prova vieram todos e convidei para o lançamento de meu livro novo, "Ética sintetizada para todos". Você também vem? Estou esperando!
V
- Idiota! Não se faz mais sala para todas as turmas, ninguém mais faz gestão de recursos educacionais assim! Educação a distância é isto mesmo de dinheiro virtual, sala virtual, aprendizado virtual! Idiota! No dia da prova com comparecimento físico, cada grupo de vinte turmas tem que ser numa semana diferente! Não quero mais reclamação de aluno fresco só porque teve de fazer prova no corredor! Ainda vou acabar de vez com os corredores, não vão poder mais falar disso... E não esqueça de planejar direito: aula com comparecimento físico, enquanto não acabamos de convencer o ministério a acabar com essa velharia, só uma vez por semana! Já acabamos com aquela rubrica de gastos, os professores, agora é tudo tutor! Ninguém reclama, eles ganham com o número de tutelados que trazem para nós. Estamos crescendo, estamos crescendo. Temos que seguir os lemas da gestão educacional: "Solidariedade é um valor corporativo: as turmas revezando salas estão curtindo a solidariedade!" Não é isso? Então era "Nossa universidade está nas redes: vamos nos ver no ar"? Ou "Nossa universidade é sustentável, uma turma recicla a sala que a outra usou"? Vocês não lembram? Ai, esqueci o que o marketing resolveu adotar como linha de gestão acadêmica. Chamem o pró-reitor de pesquisa, ele vai lembrar, foi ele que recebeu o ofício do marketing.
O palco e o mundo
Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.
domingo, 12 de maio de 2013
terça-feira, 7 de maio de 2013
Lançamento conjunto com Veronica Stigger: Delírio de Damasco e Código negro
Lançarei um livro inédito de poesia, Código negro, no Pari Bar (Praça Dom José Gaspar, 42 - República), em São Paulo, dia 18 de maio de 2013, às 16 horas - ou seja, ainda antes da Virada Cultural. A boa notícia é que o farei com Veronica Stigger, que fará o lançamento paulista de Delírio de Damasco. Os dois saem pela Editora Cultura e Barbárie (http://www.culturaebarbarie.org/), em edições artesanais.
O livro de Stigger reúne frases que, segundo a autora, "contêm elementos que fazem o leitor pensar, imaginar o que pode estar ali por trás". Ele nasceu de uma exposição realizada no SESC que acabou sendo levada, com o título Sarau, para a embaixada brasileira na Bélgica em dezembro de 2012.
Trata-se, pois, de um livro que transita entre gêneros (o que é uma das marcas da autora), e que, por aludir a conversas ouvidas no espaço público, também se move sem fixar-se entre os sujeitos das enunciações.
Sete das matérias já escritas sobre Delírios de Damasco podem ser lidas nesta ligação: http://culturaebarbarie.org/ddd.html#.UYYU4sq6reM
Código negro foi escrito pouco depois de O palco e o mundo, que foi meu primeiro livro, publicado em Lisboa pela &etc em 2002. O Código ganhou menção honrosa no Nascente, da USP, em 2002, e no prêmio de poesia da Funalfa em 2004. No entanto, só teve uma oportunidade de publicação agora, que a Editora Cultura e Barbárie me solicitou um título para a coleção pseudo-.
Nunca publiquei anteriormente esta poesia. Para curiosidade de quem ler esta nota, incluo as duas epígrafes da obra e o segundo poema:
[...] fique o estado de liberdade sem o seu correlativo odioso.
As leis concernentes à escravidão [...] serão pois
As leis concernentes à escravidão [...] serão pois
classificadas à parte e formarão o nosso Código Negro.
Teixeira de Freitas
Teixeira de Freitas
the qualities of the heart need darkness
Hannah Arendt
Código Negro: A Língua
I
Escapar à noite desta noite;
não desta, que chamará o dia,
nem da próxima, que não é hoje
e nunca o será mesmo se ainda.
Maldizer a noite desta noite;
o que, porém, a insultaria,
como se a noite um nome não fosse
fugidia escorre jamais dita.
Nunca haver a noite desta noite;
vazio, o que ao céu restaria
senão este nunca, um morto nome,
e a noite, um corpo vivo no dia?
Que me escape e me tenha e maldiga
a noite desta noite; eu a vejo,
como os cegos amam o vermelho
assim a possuo e chamo vida.
II
O que se possui e o que se perde
ambos estão no mesmo tesouro;
um de outro não se reconhece,
senão por maior ou menor logro.
Duelam pelo próprio engodo
o que se possui e o que se perde;
para dizer qual deles é o outro
montam-se, relincham e competem.
Ao que se possui o que se perde
cavalga e chega do nu envolto;
vestido de si, o seu oposto
vale apenas quanto o avesso despe.
Miséria e tesouro são estrangeiros
à fortuna jamais pertencida;
como os cegos odeiam o vermelho
não a conheço e a acuso de vida.
III
Nenhuma acusação diz a língua
da culpa; ignora-a quem acusa,
tampouco a ouve a suposta vítima
que na fala verdade supunha.
Na culpa também verdade alguma,
fala o diga, língua não o ensina,
norma, condenado e testemunha
julgam: é o juiz que sentencia
e não a língua, que, impoluta,
na acusação não se denuncia,
reputa-se, mesmo se a lei grita,
muda como puta quando chupa.
Condena-me a dar quanto não tenho
a verdade que goza na língua;
os cegos bolinam o vermelho,
e os gemidos nada denunciam.
IV
O farol não vê, ele persegue,
mas, como os tolos, não sabe o quê;
soubera-o, deixaria de dizer:
aquele que viaja amanhece.
O farol não diz, ele acontece,
embora siga os loucos na tese
de que a lua só emudeceu
quando o discurso chegou ao céu.
O farol não sabe, está presente,
pois, semelhante aos mortos, descrê
em destino, incrédulo escarnece
do aprendizado que não é ser.
Para tolos, loucos e mortos brilha
o que só com luz aponta o negro
como os cegos sangram o vermelho
e é a morte que diz segue à vida?
V
Como os cegos amam o vermelho,
para tolos, loucos e mortos brilha
o que só com luz aponta o negro:
a noite desta noite, eu a vejo,
miséria e tesouro são-lhe estrangeiros,
e para que não a perca ao dia
condena-me a dar quanto não tenho
como os cegos odeiam o vermelho.
Que me escape e me tenha e maldiga
a fortuna jamais pertencida;
os cegos bolinam o vermelho,
a verdade que goza na língua.
Como os cegos sangram o vermelho
a vida escapa à noite da língua?
P.S.: Em homenagem aos índios brasileiros, que estão exercendo plenamente a política ocupando o empreendimento ecocida de Belo Monte, lembro de dois trechos dos livros. De Veronica Stigger, temos esta frase, "Mataram um monte de índios para construir Brasília", abaixo em um dos cartazes expostos no SESC.
Não se pode acusar Belo Monte de violar valores tradicionais do Estado brasileiro...
Não escrevi sobre a capital nem sobre os índios em Código negro. No entanto, nele há um poema de amor (todos os poemas são de amor), chamado "Reforma urbana" (título bem típico), com este trecho, que se refere à ideologia desenvolvimentista. Dilma Rousseff, ressuscitando doutrinas da ditadura militar, vem tentando implementá-la no país:
veja as ruas, hoje sem sombra; já associavama queda das árvores à elevação da economia,o engarrafamento à aceleração do progresso.
Para acompanhar essa luta dos índios, sugiro a leitura do Xingu Vivo (http://www.xinguvivo.org.br/) e do Combate ao Racismo Ambiental (http://racismoambiental.net.br/). E temos a Ocupação Belo Monte: http://ocupacaobelomonte.wordpress.com/.
A grande imprensa está servindo como Diário Oficialesco do governo, lembra Idelber Avelar: https://www.facebook.com/idelber.avelar/posts/10151485726032713
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Desarquivando o Brasil LVIII: O Primeiro de Maio
Para o primeiro de maio, achei que seria oportuno recordar algumas notas que escrevi sobre os trabalhadores durante a ditadura militar e indicar mais alguns documentos.
Um caso emblemático foi o do trotskista Olavo Hanssen, que foi preso em uma invasão policial durante uma comemoração do Dia do Trabalho. Torturado por alguns dias e envenenado, acabou falecendo. Seu caso gerou uma primeira condenação do Brasil pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos e um procedimento na Organização Internacional do Trabalho. A justiça brasileira aceitou a versão oficial de que ele poderia ter se suicidado. Eis um trecho do início dessa nota de 2011:
Tendo em vista isso que é a Justiça brasileira, quase um oximoro, é comum que os conservadores sejam, em termos de fontes jurídicas, isolacionistas. Afinal, para esses senhores, trata-se de uma grande garantia que o Brasil tenha um Judiciário que considera, na sua mais alta instância, que os banqueiros são o lado mais fraco da sociedade (http://www.asmpf.org.br/ler_noticia.php?noticia=647).
Outro caso, que foi a gota d'água que levou à demissão do general Ednardo d'Ávila Melo, que estava à frente do II Exército, foi o do operário Manoel Fiel Filho. O inquérito acabou concluindo pelo suicídio:
Exemplo recente, em dezembro de 2012, a Comissão de Anistia resolveu o caso dos militantes da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo, que foram anistiados pela perseguição durante a ditadura:
http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/12/desarquivando-o-brasil-xlv-perseguidos.html
Um dos trabalhos da polícia política era impedir greves. Apenas para citar um dos documentos que ainda não incluí neste blogue, veja-se este elogio, encaminhado em 14 de abril de 1970 pelo então delegado titular da ordem política, Alcides Cintra Bueno Filho, aos investigadores da polícia Humberto Quaglio Filho, José Lebrum, Celso Pereira de Aguiar e Ubiracir P. da Silva por terem prevenido greve e agitações na Faculdade de Engenharia Industrial de São Bernardo do Campo.O elogio havia sido feito pelo diretor da instituição de ensino, o "Prof. Dr. Henrique S. de Almeida".
Parte da correspondência da polícia política, com efeito, vem dos patrões e das empresas solicitando tais ações repressivas.
No entanto, já encontrei também o oposto: sindicato que pede ciência e providências da polícia a respeito de irregularidades patronais, o que mostra como as questões trabalhistas haviam sido tomadas pela ideologia (e pela prática) da segurança nacional.
Independentemente dessas solicitações, principalmente patronais, o Primeiro de Maio era uma data sensível para as autoridades. Pode-se ver também nesta nota o início de um "plano de policiamento", de 28 de abril de 1970, também da Delegacia de Ordem Política, das "várias festividades em comemoração do Dia do Trabalho". A operação começou em 29 de abril e terminou em 2 de maio. Ele incluiu o "setor estudantil", compreendido pela USP, a Universidade Católica e Mackenzie (note-se especialmente as unidades de cada instituição que foram destacadas pela polícia) e, no "setor político", incluiu a sede da ARENA, partido de sustentação da ditadura militar.
Lemos que "Esse policiamento preventivo tem o objetivo de evitar inscrições murais e pixamento nas ruas, monumentos e próprios Federais, Estaduais e Municipais. Impedir a colagem de cartazes ou a distribuição de volantes e panfletos subversivos. Impedir ainda comícios relâmpagos nos Ginásios, Colégios, Institutos de Educação e Faculdades, assim como outras agitações."
O assassinato de Olavo Hanssen deu-se nesta operação.
Tratava-se de orientação nacional, e não apenas paulista. O "Sumário Informativo" do Comunismo Internacional, periódico do SNI, em seu "Calendário dos principais eventos comunistas", destacava o Primeiro de Maio como uma das datas da "maior importância [...] para os Órgãos da Segurança Nacional". Além do Dia do Trabalho, comemorava-se também nesse dia a proclamação do socialismo em Cuba.
Os outros dias críticos para o SNI, em maio e junho, eram o nascimento de Marx, o dia da luta pelo reconhecimento da República Democrática Alemã (a Alemanha comunista), o dia de solidariedade aos povos do Vietnã, Laos e Camboja, o do sequestro do embaixador alemão no Brasil, o nascimento de Che Guevara e o dia da Jornada contra a Penetração Imperialista nas Universidades (da Organização Continental Latinoamericana e Caribenha de Estudantes).
Algumas dessas questões foram superadas, mas não o Dia do Trabalho, especialmente em um país em que as ilegalidades trabalhistas são tão presentes, e se tornam agudas, com a cumplicidade das autoridades, nessas obras para os grandes eventos esportivos e outros grandes projetos governamentais. Belo Monte, palco de sucessivos protestos de trabalhadores, é um desses casos.
P.S.: A ortografia do nome de Olavo Hanssen foi corrigida segundo esta nota: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2013/05/ato-em-memoria-de-olavo-hanssen-e.html
Um caso emblemático foi o do trotskista Olavo Hanssen, que foi preso em uma invasão policial durante uma comemoração do Dia do Trabalho. Torturado por alguns dias e envenenado, acabou falecendo. Seu caso gerou uma primeira condenação do Brasil pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos e um procedimento na Organização Internacional do Trabalho. A justiça brasileira aceitou a versão oficial de que ele poderia ter se suicidado. Eis um trecho do início dessa nota de 2011:
Desarquivando o Brasil V: o assassinato de Olavo Hanssen: comunismo e insuficiência renal aguda (http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2011/04/desarquivando-o-brasil-v-o-assassinato.html)
Ele era um sindicalista ligado ao Sindicato dos Metalúrgicos e um dirigente do PORT – Partido Operário Revolucionário Trotskista. Ele havia sido aluno de Engenharia na Universidade São Paulo, mas deixou os estudos para se engajar na política sindical. Em 1970, trabalhava em uma indústria química em Santo André.
Em 1º. de maio de 1970, ele foi preso com outros sindicalistas, enquanto distribuía panfletos, por policiais militares, na praça de esportes da Vila Maria Zélia, na cidade de São Paulo, durante uma comemoração autorizada do dia do trabalho. Hanssen foi torturado até o dia 5 de maio. Apesar dos protestos de outros presos políticos no DEOPS/SP, ele não recebeu assistência médica adequada e foi levado ao Hospital do Exército em Cambuci somente em 8 de maio, quando já estava em estado de coma. Em 13 de maio, sua família foi avisada que ele teria se suicidado no dia 9, e que seu corpo teria sido encontrado perto do Museu do Ipiranga.
Tendo em vista isso que é a Justiça brasileira, quase um oximoro, é comum que os conservadores sejam, em termos de fontes jurídicas, isolacionistas. Afinal, para esses senhores, trata-se de uma grande garantia que o Brasil tenha um Judiciário que considera, na sua mais alta instância, que os banqueiros são o lado mais fraco da sociedade (http://www.asmpf.org.br/ler_noticia.php?noticia=647).
Outro caso, que foi a gota d'água que levou à demissão do general Ednardo d'Ávila Melo, que estava à frente do II Exército, foi o do operário Manoel Fiel Filho. O inquérito acabou concluindo pelo suicídio:
Quanto estive na EHESS no início do ano, expliquei que limitar a análise aos processos da Justiça Militar não era suficiente para sugerir um quadro mais completo do direito como instrumento de repressão. As questões trabalhista e sindical são essenciais para tanto - e, sem isso, boa parte do evidente caráter de classe da ditadura é mal compreendido. Por isso, a Lei de Greve era considerada pelas autoridades militares um dos instrumentos jurídicos básicos da segurança nacional, e a vigilância sobre os sindicatos era essencial para o regime autoritário: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2013/04/desarquivando-o-brasil-lvii-vigiando-os.htmlDesarquivando o Brasil XI: Manoel Fiel Filho e o Ministério Público Federal, Direito e negacionismo (http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2011/06/desarquivando-o-brasil-x-manoel-fiel.html)O operário Manoel Fiel Filho, militante do PCB, foi morto há 35 anos, em 17 de janeiro de 1976 no DOI-CODI (Destacamento de Operações e Informações e Centro de Operações de Defesa Interna) de São Paulo. Era um momento difícil da lentíssima abertura política. Os agentes da repressão política, para sobreviver institucionalmente, precisavam perpetuar o regime e sabotavam a democratização.
Exemplo recente, em dezembro de 2012, a Comissão de Anistia resolveu o caso dos militantes da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo, que foram anistiados pela perseguição durante a ditadura:
http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/12/desarquivando-o-brasil-xlv-perseguidos.html
Um dos trabalhos da polícia política era impedir greves. Apenas para citar um dos documentos que ainda não incluí neste blogue, veja-se este elogio, encaminhado em 14 de abril de 1970 pelo então delegado titular da ordem política, Alcides Cintra Bueno Filho, aos investigadores da polícia Humberto Quaglio Filho, José Lebrum, Celso Pereira de Aguiar e Ubiracir P. da Silva por terem prevenido greve e agitações na Faculdade de Engenharia Industrial de São Bernardo do Campo.O elogio havia sido feito pelo diretor da instituição de ensino, o "Prof. Dr. Henrique S. de Almeida".
Parte da correspondência da polícia política, com efeito, vem dos patrões e das empresas solicitando tais ações repressivas.
No entanto, já encontrei também o oposto: sindicato que pede ciência e providências da polícia a respeito de irregularidades patronais, o que mostra como as questões trabalhistas haviam sido tomadas pela ideologia (e pela prática) da segurança nacional.
Independentemente dessas solicitações, principalmente patronais, o Primeiro de Maio era uma data sensível para as autoridades. Pode-se ver também nesta nota o início de um "plano de policiamento", de 28 de abril de 1970, também da Delegacia de Ordem Política, das "várias festividades em comemoração do Dia do Trabalho". A operação começou em 29 de abril e terminou em 2 de maio. Ele incluiu o "setor estudantil", compreendido pela USP, a Universidade Católica e Mackenzie (note-se especialmente as unidades de cada instituição que foram destacadas pela polícia) e, no "setor político", incluiu a sede da ARENA, partido de sustentação da ditadura militar.
Lemos que "Esse policiamento preventivo tem o objetivo de evitar inscrições murais e pixamento nas ruas, monumentos e próprios Federais, Estaduais e Municipais. Impedir a colagem de cartazes ou a distribuição de volantes e panfletos subversivos. Impedir ainda comícios relâmpagos nos Ginásios, Colégios, Institutos de Educação e Faculdades, assim como outras agitações."
O assassinato de Olavo Hanssen deu-se nesta operação.
Tratava-se de orientação nacional, e não apenas paulista. O "Sumário Informativo" do Comunismo Internacional, periódico do SNI, em seu "Calendário dos principais eventos comunistas", destacava o Primeiro de Maio como uma das datas da "maior importância [...] para os Órgãos da Segurança Nacional". Além do Dia do Trabalho, comemorava-se também nesse dia a proclamação do socialismo em Cuba.
Os outros dias críticos para o SNI, em maio e junho, eram o nascimento de Marx, o dia da luta pelo reconhecimento da República Democrática Alemã (a Alemanha comunista), o dia de solidariedade aos povos do Vietnã, Laos e Camboja, o do sequestro do embaixador alemão no Brasil, o nascimento de Che Guevara e o dia da Jornada contra a Penetração Imperialista nas Universidades (da Organização Continental Latinoamericana e Caribenha de Estudantes).
Algumas dessas questões foram superadas, mas não o Dia do Trabalho, especialmente em um país em que as ilegalidades trabalhistas são tão presentes, e se tornam agudas, com a cumplicidade das autoridades, nessas obras para os grandes eventos esportivos e outros grandes projetos governamentais. Belo Monte, palco de sucessivos protestos de trabalhadores, é um desses casos.
P.S.: A ortografia do nome de Olavo Hanssen foi corrigida segundo esta nota: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2013/05/ato-em-memoria-de-olavo-hanssen-e.html
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