O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Memória em regime de catástrofe, ou temer o leitão



                                                            para Déborah e Eduardo, pelos alertas



I

em país rico
cultura se respira no ar
pedaços de documentos de dois séculos
três
cinco
flutuam sobre as casas e as ruas

ainda quentes
cobrem o país


II

ande pelo mundo:
existe apenas o limite entre o sangue e a cinza

toda cinza tem o retrogosto de sangue
e vice-versa

a alternativa ao zero
remonta a menos do que nada

entre a cinza
(uma gigantesca teia no céu
sem origem ou centro)

e o sangue
(nostálgica memória do coração)

o fogo decidiu nosso lugar


III

Um só magistrado custa mais do que a manutenção do museu
portanto
ela não deve ser paga
as instituições precisam funcionar normalmente

Holocausto da memória nacional durante o governo da devastação
por conseguinte
presidente e ministros permanecem
as instituições precisam funcionar normalmente

Antes do auto-da-fé governos e empresas ignoraram o diretor do museu
por essa razão
ele merece baraço pregão cinzas
as instituições precisam funcionar normalmente

Vejam que o fogo queima e as cinzas caem
prova de que as instituições funcionam
vejam que os dentes quebram com o impacto do cassetete
prova da normalidade
tanto dos manifestantes
quanto do Estado


IV

havia Estado demais
nas goteiras ribeirinhas
nos fios desencapados
nos cortes orçamentários
Estado demasiadamente
havia no pó à espreita
nas bolsas atrasadas
nas portas que não abrirão
é preciso acabar com a vontade de Estado
ela ergueu estas paredes
cobriu-as contra a lua e o sol
dando-lhes a forma
para abrigar outras formas

o fogo
liberta as formas de si mesmas
devolve ao chão as paredes
e já não sabemos
se se trata de Estado demais
ou da libertação
da livre iniciativa
dos estacionamentos
dos centros comerciais
com fast food redes de roupa telefonia chinelos diplomas universitários
dos postos de gasolina 
com detectores de fumaça

que antes não podiam erguer-se neste espaço
contaminado pelo excessivo Estado


V

temer o leitão
temer o leitão
a vara de porcos
possuída por demônios

no lodo 
a legião construiu
o palácio de governo

temer o leitão
temer o leitão
os senhores do lodo
vomitam restos humanos

para aumentar seu reino
erguido com os materiais
da putrefação

temer o leitão
temer o leitão
o suíno ama pérolas
ouro prata diários oficiais

o ácido de seu estômago
corrói as pedras da memória
a dignidade das formas

temer o leitão
temer o leitão
ou cortar-lhe a cabeça
mas virando o rosto

para não ver o sangue esguichando
da origem dos demônios
esperando que alguém encaixe uma cabeça humana
no buraco da putrefação
para que alguma boca ainda faça soar os guinchos 


VI

cultura no ar
fragmentos de livros centenários
distribuem-se sobre as varandas e as ruas
e a catástrofe torna-se
a única política cultural permitida

páginas no ar
na atmosfera lê-se
a obra nacional
o livro da catástrofe


VII

a certidão com duzentos anos
do prédio que já tombou
agora cai também

o esqueleto que há onze milênios
pisou o continente
é agora desfeito pelos que pisam no país

o fóssil de outra era geológica
entra finalmente na atual
através das chamas
vemos que ele voa na fumaça
o que lhe era impossível quando vivia

os insetos não identificados
jamais o serão
capturados por um predador
tão natural quanto o plástico e o hino nacional

os olhos e a boca da máscara indígena
acordaram quando a fumaça os atravessou
e viram e cantaram com gemidos

o incêndio autocelebrado
que chamamos de país


VIII

Filho da puta, quem mandou este convite? O museu? Sei que fica longe da zona nobre. O diretor vai dar habeas corpus para mim? Os quadros valem imunidade criminal? Esculturas garantem trancamento de inquéritos policiais? Bem questionou o ministro do outro governo, nesse aspecto não o critico, se museu se relacionava à educação! Vitral faz cair jatinho de político? Tudo inútil. Resumem-se a coisas decorativas, ao contrário de mim. Carta de independência? Nesse museu? Não importa. Isso me cheira a coisa ultrapassada, não acha? Não mando ministro não. Ausentar-me-ei da cerimônia. Pouco importa se são cem anos.Já deu o que tinha de dar. Não tem que manter isso aí não.  Duzentos? Já? Nem notei que passou tanto tempo. Mas vou ficar. Nesse dia, sem viajar, vou ganhar muito mais do que isso nas malas.


IX

insetos devorados pelas chamas
as plantas desnacidas pelo fogo
destruídos os registros das vozes 
dos cantos dos povos já desaparecidos
os reinos africanos destronados
pela catástrofe desta república
tudo o que
extinto
novamente deixou de ser
reencontra-se na dimensão
da floresta paralela ao mundo

ela cresce


X

ouvem como um hino
os bilhetes de suicídio
pisam como território
obras em destroços

“o site bloody coffe nada nos esconde: quatro de dez dos melhores cafés bebem-se nos museus privados, por deus tenham modos, privatizem todos!”

hasteiam sua bandeira
em plena fogueira
sua magna carta
escrevem com a fumaça

“só nos museus privados vi múmias com esparadrapos modernos e brilhantes, esqueçam o que veio antes, privatizem os museus, o passado não é seu!”

amam a ruína
porém nada os incrimina:
quando liberal,
o extermínio é legal

“com fogo não se brinca, quem não privatiza está queimando lucros, compromete o futuro, deve continuar preso, assim como o tal do acervo, que, dizem os plebeus, é coisa de museu, vendam sem demora enquanto não sai de moda”


XI

o meteorito resistiu ao fogo
solitário diante da catraca
estrangeiro ao planeta
não sucumbiu ao tempo histórico
isto é
à catástrofe

perspectivismo da catraca:
há muito mais catástrofe
entre o ozônio e o pré-sal
do que supõem as antropologias
não há diferença absoluta
entre o estatuto do sangue e o da cinza

paralisações aceleradamente infinitas
imobilidades freneticamente conectadas
a catraca permite o ingresso da catástrofe
ou a forma oficial 
de digerir o mundo

mas o mundo também é um meteorito durante o fogo

e os oceanos confundem-se com a úlcera
e a terra reconfigura-se em bactéria
a retomar as paredes do corpo

os governos precisarão de colonoscopia
para ver a si mesmos


XII

o fogo cava um túmulo no ar
lá ficarão os documentos
como os seres humanos