O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

30 dias de canções: Bornelh, o amor e a alba

30 dias de canções

Dia 14: Uma canção que você gostaria de tocar (ou ter tocado) em seu casamento

"Reis glorios" (Rei glorioso), de Guiraut (ou Giraut, e ainda Guiraud) de Bornelh (ou Borneilh) que viveu aproximadamente entre os anos de 1140 e 1200. É uma das minhas músicas favoritas, e uma canção de alba. Candé, na sua História universal da música, disse que ela continuou célebre até o fim do século XIV, o que é notável para essa época sem imprensa e, muito menos, registros sonoros.
Bornelh parece ter vindo de origem modesta, porém se tornou um dos trovadores mais respeitados. 70 de seus poemas chegaram até nós, mas apenas 4 com a música.
As canções de alba tinham como tema a despedida dos amantes com o amanhecer. A primeira vez que ouvi essa música foi numa apresentação do Ars Antiqua de Paris nos anos 1990, no Rio de Janeiro. Era uma execução bastante lenta, como a que fizeram em estúdio: https://www.youtube.com/watch?v=iG7nJ6KoxCo.
O grupo La Contraclau adota uma interpretação dançante: https://www.youtube.com/watch?v=Zv_jhDNajOw.
Na voz do grande Paul Hillier, do disco Proensa, temos uma outra interpretação: https://www.youtube.com/watch?v=ccBpe0FpHr8.
Dessa música, sobreviveu apenas, e ao menos (de boa parte do repertório medieval, só restou o poema), a linha vocal. Os músicos especializados no repertório medieval veem-se obrigados a criar o acompanhamento, o que talvez já ocorresse na época, isto é, talvez o acompanhamento fosse programaticamente, ao menos em parte, improvisado.
Além disso, os músicos devem adotar suas próprias concepções sobre o ritmo, em razão da notação musical dessa época.
Na época da composição, as fronteiras entre música popular e música "clássica" não existiam e poesia e música andavam de mãos dadas. sobre o impacto decisivo da lírica trovadoresca, cito Eduardo Sterzi, Por que ler Dante (São Paulo: Globo, 2008):
[...] a canção trovadoresca pode ser vista, sem exagero, como a forma originária de toda  a lírica europeia posterior, pelo menos até meados do século XIX, quando o poema em prosa e o verso livre vêm abalar aquele esquema plurissecular (que, no entanto, não se extingue; está vivo, ainda hoje, na maioria das canções populares do Ocidente). E fecunda ainda, para além da literatura (transbordando para as outras artes, para a filosofia, para o senso comum), na medida em que a lírica dos trovadores é uma das fontes principais da imaginação ocidental, ao fornecer-lhe todo um vocabulário do amor e da subjetividade que antes não existia, ou existia apenas de modo incipiente [...]
Trata-se também de uma época em que as culturas islâmicas e cristãs se influenciavam mutuamente (afinal, essa é a própria dinâmica da cultura, e não a da polícia de costumes, hoje adotada por setores da esquerda). Na melodia de "Reis glorios", reconhecemos os gestos da vocalidade da música árabe tradicional. E talvez a própria palavra trobar venha do árabe, leio no texto de Jean-Pierre Canihac ao disco "Reis glorios: L'influence de la musique arabe dans la mythologie occitane" do grupo de Toulouse Les Sacqueboutiers (o barítono Pierre-Yves Binard canta muito bem a canção nesse disco). Segundo leio, Julian Ribera, em 1928, lançou essa hipótese a partir da palavra árabe taraba, que teria como um de seus significados "compor música, entreter por meio de música".
As duas primeiras estrofes do poema, em provençal, querem significar algo como isto:

Rei glorioso, verdadeira luz e claridade,
Deus poderoso, Senhor, se a vós aprouver
Ao meu companheiro prestai fiel ajuda,
Que eu não o vi depois que a noite chegou,
E logo virá a alba.

Belo companheiro, se dormes ou se velas,
Não mais durmas, suavemente levanta,
Que no oriente vejo ascender a estrela
Que traz o dia, eu bem a reconheci,
E logo virá a alba.

A primeira estrofe é do sentinela; a segunda, do amante, que se alternam. Não ousei rimar nem metrificar, mas o original segue o esquema de pares de versos rimados, que se chamava cobas doblas
Acho que ninguém percebeu, mas fiz uma paródia séria desse poema no meu Código negro em homenagem ao "glorioso nada".
Voltando à poesia de verdade, Bornelh é citado por Dante mais de uma vez. Na Divina Comédia, ele é referido não como o melhor poeta de sua época; ele seria mais popular, mas é preterido por Arnaut Daniel, o "miglior fabbro".
Trata-se da passagem que mais gosto na Comédia, o XXVI do Purgatório. No XXVI, temos aqueles cujo pecado foi "hermafrodito", mas se arrependeram e, por isso, não foram para o Inferno. Dante comove-se por ver lá Guido Guinizelli, que ele reconhece como mestre dele e de outros melhores. No entanto, Guinizelli aponta para um outro, superior a ele mesmo: Arnaut Daniel.
Cito essa passagem na tradução de Xavier Pinheiro (http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/divinacomedia.html):

— “O que te indico, irmão” — tornou-me terno
(E seu dedo outra sombra me apontava)
Mais primor teve no falar materno.


“Nos versos, nos romances superava
A todos: stultos só dizer ousaram
Que o Limosim aquele avantajava.

“Pelo rumor verdade desprezaram,
E, como arte e razão desconheceram,
Sem fundamento opinião formaram.

“Assim muitos outrora procederam
Com Guittone e o seu nome hão proclamado;
Mas verdade alfim todos conheceram.

“E pois que o privilégio hás alcançado
De entrar nesse mosteiro portentoso,
Por Cristo, como abade governado,

“Um Pater Noster diz por mim piedoso;
Quanto mister havemos neste mundo,
Onde ato algum não há pecaminoso.” —

“Por dar lugar ao spírito segundo,
Já próximo, no fogo desparece.
Qual peixe, quando imerge de água ao fundo.

Acerquei-me da sombra que aparece,
E disse que ao seu nome apercebia
Meu desejo o lugar que assaz merece.

Logo assim livremente me dizia:
— “Tão cortês vosso rogo é, que escutando,
Me encobrir não quisera ou poderia.

“Arnaldo sou, que choro e vou cantando,
Triste os erros passados meus lamento,
E o fausto dia estou ledo esperando.

“E peço-vos pelo alto valimento,
Que da escada a eminência ora vos guia,
Que em tempo vos lembreis do meu tormento.”

E, após, ao fogo apurador se envia.

O "Limosim" que, embora preferido por muitos, seria inferior a Daniel, era Bornelh, que nascera no castelo do Visconde de Limoges. Dante escreve em provençal a belíssima fala do espírito de Arnaut Daniel (para mim, um dos pontos mais altos da poesia), efeito que é perdido na tradução acima.
Dante à parte, leio no guia Fayard da Música Medieval, organizado por Françoise Ferrand, que Bornelh foi considerado pelos contemporâneos como o "maître des troubadours".
Na Comédia, não sabemos para onde foi Bornelh: Bertran de Born está no Inferno, Guinizelli e Daniel, no Purgatório, e Folquet de Marselha, no Paraíso. Prefiro pensar que ele permaneceu em outra esfera, a da Poesia, onde as fronteiras não são tão armadas como as daquele esquema religioso medieval, e cuja ordem não seja do julgamento, com sua tríade condenação/expiação/absolvição, mas a da beleza e de seus ritmos. 
Também prefiro pensar nestes outros termos, os da poesia, no tocante ao meu casamento.


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável
Dia 10: Manuel Falla e a dor da natureza
Dia 11: De "People" ao povo e Cauby Peixoto
Dia 13: Baudelaire, Duparc e volúpia


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Desarquivando o Brasil CXXXIV: O senador não viu os povos indígenas e os camponeses na ditadura

O senador Ronaldo Caiado ontem, no Senado Federal, segundo a checagem da Agência Pública, levou dados falsos sobre terras indígenas à sabatina de Alexandre de Moraes. Coincidentemente, a falta de correspondência com a realidade que vem ocorrendo nessas terras (grilagem, genocídio, etnocídio) atende a interesses do latifúndio, sempre interessado em tomar áreas dos povos originários e ampliar a devastação ambiental.
O desapego em relação à exatidão dos dados publicamente apresentados, mesmo se para fundamentar algo que deveria ser feito com seriedade e cuidado, como a sabatina de um indicado para o Supremo Tribunal Federal, não é nada incomum na elite política brasileira. Outro exemplo recentíssimo desse desapego foi dado em coluna do senador na Folha de S.Paulo, publicada em 11 de fevereiro de 2017, "O deficit moral do Estado".
O artigo enuncia que todas as crises do Brasil partem da expressão que ele escolhe para título. Como divulgar dados errados não é, para ele, um problema moral, fala dos mortos em três dias na greve da Polícia Militar no Espírito Santo com esta comparação: "basta lembrar que, segundo números da Comissão da Verdade, morreram, ao longo dos 21 anos do regime militar - e na grande maioria dos casos em enfrentamento armado - 434 pessoas, à média de 21 pessoas por ano".
O que o senador quis dizer com "Comissão da Verdade", já que houve, e ainda há, várias no Brasil? Teria sido a Comissão Nacional da Verdade (CNV)? Impossível, pois:

a) A maioria dos casos não foi de "enfrentamento armado", mas de chacinas e execuções extrajudiciais, ilegais mesmo perante o direito antidemocrático da época; aliás, o relatório da CNV reitera o que se sabe há décadas, e tinha sido comprovado pelo Brasil: Nunca Mais; a ditadura inventava "enfrentamentos" e "suicídios" para encobrir as execuções.
b) O relatório fala de 434 mortos e desaparecidos POLÍTICOS, isto é, pessoas que foram consideradas oponentes do governo, o que inclui pessoas da esquerda armada e membros da resistência pacífica. As OUTRAS VÍTIMAS da ditadura, as que foram assassinadas em razão das políticas dos governos militares, são MUITO MAIS, milhares, segundo o próprio relatório da CNV, que o senador não leu ou não entendeu: "foi possível estimar ao menos 8.350 indígenas mortos no período de investigação da CNV, em decorrência da ação direta de agentes governamentais ou da sua omissão. Essa cifra inclui apenas aqueles casos aqui estudados em relação aos quais foi possível desenhar um estimativa. O número real de indígenas mortos no período deve ser exponencialmente maior" (CNV, Relatório, vol. II, p. 205). No caso dos povos originários, trata-se do extermínio para a colonização de terras, criação de usinas hidrelétricas, abertura de estradas e implantação de outros projetos desenvolvimentistas.

Como dizer que os povos bombardeados com napalm para abertura de estradas não foram vítimas da ditadura? Mesmo depois da condenação do Estado brasileiro por genocídio no Tribunal Bertrand Russell em 1980? A própria CNV afirma que não foi capaz de investigar a fundo e avaliar o número das milhares de vítimas dos genocídios contra os povos indígenas cometidos pela ditadura militar. Ademais, reduzir as vítimas das ditaduras ao número dos mortos e desaparecidos entre os oponentes políticos seria de uma desfaçatez adversária de qualquer critério razoável sobre o significado histórico da ditadura, e amiga dos negacionistas que desejam suavizar ou legitimar os crimes contra a humanidade em que aquele regime se baseou.
O senador, obviamente, não leu o relatório da CNV. Uma vez que o nobre parlamentar trata, habitualmente, dos assuntos do campo, e que os latifundiários não criaram uma comissão da verdade própria (assim como a FIESP e as Organizações Globo também não, embora provavelmente tenham muito a colaborar com documentos sobre a ditadura), teria o nobre parlamentar buscado seus números na Comissão Camponesa da Verdade?
Tampouco, pois o relatório da Comissão Camponesa listou 1196 camponeses e apoiadores mortos. Por sinal, em 2013, livro da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Camponeses mortos e desaparecidos: excluídos da justiça de transição, feito a partir de pesquisa de Gilney Amorim Viana, que já trazia a lista dos 1196, mostrando que o governo tutelado pelos militares encabeçado por José Sarney não fez a violência no campo diminuir: "E o que é mais impressionante, o padrão da repressão política no campo, medido pelo indicador de mortes e desaparecimentos forçados de lideranças camponesas, continuou em crescente durante a transição civil, de 1985-1988, atingindo mais de 45% dos 602 casos selecionados".
Qual foi a fonte do senador? Teria sido o Dossiê Ditadura:  Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil (1964-1985) da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos? De forma alguma. O livro, que pode ser lido na sua edição mais atualizada no portal da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo 'Rubens Paiva" (para a edição de 1995, ver o DHNet), apresenta o número de 436 mortos e desaparecidos políticos:
Na versão revista e ampliada do Dossiê que ora apresentamos, estão reunidas as informações coletadas durante as pesquisas, as conversas e a troca de correspondência com parentes, amigos e ex-presos políticos. Passados 30 anos da edição da Lei de Anistia, a soma atinge 396 pessoas no Brasil, sendo 237 mortos e 159 desaparecidos políticos. Desde 1996, novas investigações obtiveram informações de mais 69 pessoas. No exterior, há 30 casos, incluindo os mortos em decorrência de sequelas da tortura ou de acidente no exílio. Além disso, há 10 pessoas que morreram antes do golpe de 1964, totalizando 436 nomes. Esse número pode aumentar, pois não foram esgotadas todas as possibilidades de pesquisa e investigação, tais como as realizadas nos arquivos do antigo SNI, hoje parcialmente disponíveis ao público no Arquivo Nacional.
Alguns desses nomes não foram pesquisados pela CNV a qual, por sua vez, acolhe alguns que não estão nesse Dossiê. Por sinal, quando foi anunciado que a CNV apresentaria apenas 421 casos (depois, houve uma ampliação), a Comissão "Rubens Paiva" protestou em ofício de 7 novembro de 2014 (que pode ser lido no anexo da introdução do Relatório daquela Comissão):
Esclarecemos que nossa discordância se deve ao fato de que, desde 2009, quando houve a publicação do já mencionado Dossiê Ditadura, produzido por esforço e empenho exclusivamente dos familiares de mortos e desaparecidos políticos, sem nenhuma ajuda do Estado, seu conteúdo nunca foi contestado por nenhum órgão estatal ou da sociedade civil e nem sequer por qualquer agente da repressão citado no livro. É inadmissível que caiba à Comissão Nacional da Verdade, criada com o objetivo de esclarecer as graves violações de direitos humanos e colaborar com o processo de reparação às famílias, o papel de ser a primeira a questionar e a descartar, ao invés de investigar profundamente, os casos relatados e descobertos com grandes sacrifícios pelo movimento de familiares em nosso país.
É necessário reiterar que, em reunião com o então coordenador da CNV, Pedro Dallari, foi acordado expressamente tanto com a Comissão de Familiares e quanto com a Comissão “Rubens Paiva” que se partiria do universo de casos do Dossiê dos familiares para aprofundar as investigações e ampliar a categoria de vítimas, com a ressalva de que nenhum caso seria ignorado de forma a não reforçar a recorrente política de esquecimento que o Estado Brasileiro impõe aos mortos e desaparecidos políticos desde o período da ditadura. Esse compromisso foi selado e reafirmado em diversas oportunidades, inclusive quando a Comissão Nacional da Verdade recebeu, em Audiência Pública realizada em São Paulo, na data de 14 de março de 2014, simbolicamente, um exemplar do Dossiê.
Vale mencionar que ainda há casos como o de Gerosina Silva Pereira e o de Ângelo Pezzuti da Silva que já foram reconhecidos pela Comissão de Anistia por estes terem sido executados por agentes do Estado. É um retrocesso questionar a veracidade destes fatos já reconhecidos oficialmente. 
Na introdução do relatório da Comissão "Rubens Paiva", por sinal, temos uma avaliação das possibilidades de quantificação das milhares de vítimas da ditadura militar. Provavelmente, nunca teremos o quadro completo:
Conforme apuração que consta no Dossiê publicado pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, as violências atingiram cifras muito elevadas no Brasil: mais de 50 mil presos nos primeiros meses depois do golpe, 436 mortos e desaparecidos políticos no Dossiê de Familiares, uma quantidade não determinada de índios, 10.034 pessoas submetidas a inquérito e 7.376 indiciadas por crimes políticos, 130 banidos, 4.862 cassados, 6.952 militares atingidos, 1.188 camponeses e apoiadores assassinados, 4 condenados à pena de morte (que foi comutada; a ditadura executou vários, mas sempre fora da lei) e milhares de exilados.
Esses números foram ampliados nos últimos anos. Em relação aos povos indígenas, as estimativas apontam para, no mínimo, 8350 mortos e desaparecidos, configurando o crime de genocídio. A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, no estudo Camponeses Mortos e Desaparecidos: Excluídos da Justiça de Transição, apontou o número de 1196 camponeses e apoiadores. Apenas uma pequena minoria das vítimas no campo e dos índios foi oficialmente anistiada.
Apesar de elevados, esses números não oferecem a completa dimensão das violências que foram praticadas pela ditadura militar brasileira, um regime político que sistematizou a prática de crimes contra a humanidade e disso dependia para subsistir. Em primeiro lugar, porque é impossível compreender apenas com estatísticas a gravidade e a herança de violências de um regime autoritário e sua persistência no presente. Em segundo, o próprio caráter arbitrário das ditaduras esconde o número real das violações de direitos humanos, pois muitos casos anônimos não figuram nas listas existentes sobre esse tema.  
Parece-me, portanto, que o senador não se baseou em nenhum estudo sério ou atualizado sobre o assunto, o que é muito decepcionante, levando em consideração as graves atribuições e competências de um senador da república. Além disso, é intrigante que o senador não tenha lido o relatório da CNV, uma vez que ele é citado no documento; por exemplo, aqui:
Liderada pelo médico Ronaldo Caiado, de tradicional família de fazendeiros e políticos de Goiás, e pelo pecuarista Plínio Junqueira Júnior, a UDR foi criada nesse estado a partir da movimentação dos grandes proprietários da região em oposição ao PNRA. Tinham como objetivo inicial prestar auxílio legal a seus associados para evitar a desapropriação de seus imóveis, pela nova legislação. No entanto, a versão divulgada pelos movimentos sociais de trabalhadores rurais dá conta de atividades muito distintas. Eles denunciam o envolvimento de seus sócios com “compra de armas e a formação de milícias privadas para enfrentar, violentamente, as ‘invasões’ de terra”, estratégia adotada pelos trabalhadores rurais após a formação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). (CNV, Relatório, vol. II, p. 142).
Talvez lhe interessassem as referências sobre a UDR no Relatório, como esta:
Tal posição do Estado diante dos conflitos pela terra, sempre em apoio aos grileiros e grandes proprietários, criminalizando sistematicamente as tentativas de resistência de posseiros, estende-se até o final do período das investigações atribuídas à CNV: o ano da Constituinte Democrática de 1988. Foi quando a democracia incipiente do governo Sarney, aliado aos governos dos estados de Goiás, do Pará e do Maranhão, deu seu consentimento tácito às ações armadas comandadas pelos membros da UDR (União Democrática Ruralista), criada por fazendeiros de Goiás, mas que logo se expandiu para todo o país. A UDR foi o agente ideológico e o articulador político da violência do latifúndio que, em defesa de suas terras, passou a fomentar de forma sistemática e organizada a violência no campo, promovendo assassinatos de posseiros, sindicalistas e advogados de causas dos camponeses. (CNV, Relatório, vol. II, p. 94).
De qualquer forma, apesar da evidente deficiência teórica do senador nesse assunto, fica algo de inexplicável no seu esquecimento dos camponeses e dos índios entre as vítimas da ditadura (o que eleva o número para a ordem dos milhares, embora não saibamos quanto), tendo em vista o interesse do nobre parlamentar pelas coisas do campo.
Seria de bom alvitre que ele propusesse, em vez de uma investigação contra a Imperatriz Leopoldinense pelo fato de a Escola de Samba estar apoiando os povos do Xingu, que ele propusesse uma CPI sobre o genocídio dos povos indígenas e outras sobre a grilagem de terras no
Cerrado, na Amazônia, no Nordeste...
Creio que essa iniciativa serviria até mesmo para melhorar a imagem do país, recentemente manchada com a criminalização da ciência pelo Congresso Nacional brasileiro. A chamada CPI da Funai e do Incra está mirando a Associação Brasileira de Antropologia, razão pela qual assinei, e convido a assinar, esta petição de apoio à ABA.
Depois de fazer a sugestão ao senador, termino lembrando que o monumental erro que ele cometeu, pretendendo que as vítimas da ditadura foram apenas os oponentes políticos, ignorando o caráter genocida da ditadura militar, já foi feito por vários outros, inclusive especialistas em justiça de transição, mas especialmente a imprensa. Uma pequena lista:

  • "Segundo as estimativas atuais, a ditadura brasileira causou cerca de 358 mortes, enquanto na Argentina, por exemplo, certas estimativas indicam 30 mil mortos e desaparecidos." (MASQUES, Teresa C. S.; ARTURI, Carlos S. O exílio enquanto um mecanismo de exclusão política durante o regime militar no Brasil. In: GALLO, Carlos Artur; RUBERT, Silvania. Entre a memória e o esquecimento: estudos sobre os 50 anos do Golpe Civil-Militar no Brasil. Porto Alegre, Deriva, p. 155-169, 2014, p. 160).
  • "A segunda mentira é a de que a repressão militar levou à morte de milhares de opositores. Entre combatentes da guerrilha, mortes nas prisões ou desaparecimentos, foram 429 os opositores que perderam a vida, conforme Fernão Lara Mesquita mostrou em recente artigo publicado no Estado." (Ives Gandra da Silva Martins. As mentiras 'verdadeiras'. O Estado de S. Paulo, 19 abr. 2014. http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,as-mentiras-verdadeiras-imp-,1155907).
  • "Depois de dois anos e sete meses de trabalho, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) confirmou, em seu relatório final, 434 mortes e desaparecimentos de vítimas da ditadura militar no país. Entre essas pessoas, 210 são desaparecidas." (Agência Brasil. Comissão reconhece 434 mortos e desaparecimentos durante ditadura militar. 10 dez. 2014. http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2014-12/comissao-reconhece-mais-de-200-desaparecidos-politicos-durante)
  • "The 4,400-page publication stands out as among similar efforts in other countries. It names 377 individuals as responsible for 434 political murders and disappearances."  (The Economist. The final reckoning. 13 dez. 2014. http://www.economist.com/news/americas/21636059-investigation-human-rights-abuses-names-culprits-far-too-late-final-reckoning)
  • "In the end, the commission confirmed that the Brazilian state was responsible for at least 191 deaths and 210 disappearances during that period. (It also located the remains of 33 people who had previously been classified as missing.)" (Kathryn Skkink, Bridget Marchesi. Nothing but the Truth. Foreign Affairs. http://www.iri.usp.br/documentos/2015.02.26%20-%20Foreign%20Affairs%20%28EUA%29-%20mat%C3%A9ria%20sobre%20a%20CNV.pdf)
  • "No Brasil, a Comissão da Verdades listou 434 vítimas (apenas mortos e desaparecidos) em seu mais recente relatório, de dezembro de 2014." (Luciana Dyniewicz, Mariana Carneiro. Argentina ainda discute número de vítimas da ditadura militar. Folha de S. Paulo, 1o. fev. 2016. http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/02/1735938-argentina-ainda-discute-quantas-foram-as-vitimas-da-ultima-ditadura-militar.shtml)


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

30 dias de canções: Baudelaire, Duparc e volúpia

30 dias de canções

Dia 13: Uma de suas canções favoritas dos anos 70

"L'invitation au voyage" (o convite à viagem), de Henri Duparc e Charles Baudelaire. A canção foi escrita em 1870. Como este desafio já trouxe canção dos anos 70 do século passado, e trará pelo menos mais uma (não escolhi todas ainda), resolvi pegar algo um pouco mais antigo do milênio que se foi.
A canção é uma das mais conhecidas deste autor que se calou com trinta e seis anos, musicando novamente Baudelaire com nada menos do que "La vie antérieure", e que morreu quase meio século depois.
Ouçam a canção com o tenor Paul Groves e o pianista Roger Vignoles: https://www.youtube.com/watch?v=broHRYE0AiY; com o baixo-barítono José van Dam e o pianista Maciej Pikulski: https://www.youtube.com/watch?v=o-d2KXgpaSw; e na versão orquestral, interpretada pelo soprano Felicity Lott acompanhada pela orquestra da Suisse Romande regida por Armin Jordan: https://www.youtube.com/watch?v=tjfr3XwG_v4.
Graham Johnson, nas notas de um disco seu com Felicity Lott, "Mélodies sur des poèmes de Baudelaire", nota que Baudelaire foi bem menos musicado do que outros poetas franceses do que, por exemplo, Verlaine, e ele atribui esse fato à complexidade do poeta. Duparc não musicou, porém, a estrofe central ("Des meubles luisants"). O poema, segundo leio na biografia Baudelaire, escrita por Enid Starkie, foi inspirado por uma das namoradas do poeta, a atriz Marie Daubrun, e escrito em 1855.
A tradução de Ivan Junqueira pode ser lida por meio desta ligação; há um erro de quem a transcreveu: não são "canis", mas "canais": http://antoniocicero.blogspot.com.br/2011/06/linvitation-au-voyage-mon-enfant-ma.html
Essa canção me impressiona pelo fato de ao mesmo tempo a melodia parecer conduzir para o dístico "Lá tudo é só ordem e beleza,/ Luxo, calma e volúpia." (traduzo literalmente), e ele soar também como suspensão da canção. O tempo para nesse momento, e imaginamos que ela poderia continuar indefinidamente, com o aumento da complexidade do piano em cada estrofe  é curioso como o acompanhamento se transforma mais do que a voz; o que ocorre aí não é da ordem da linguagem articulada; talvez o seja da volúpia, que é o fulcro do poema e se torna também o do músico, mesmo quando a voz se cala.
Baudelaire concorda nestes termos com a apreciação de Liszt sobre a música de Wagner (cito da terceira parte do Richard Wagner e Tannhäuser em Paris):
Com efeito, sem poesia, a música de Wagner ainda seria uma obra poética, sendo dotada de todas as qualidades que constituem uma poesia bem feita; explicativa por ela mesma, tanto que todas as coisas estão nela bem unidas, ligadas, adaptadas reciprocamente e, se é permitido criar um barbarismo para exprimir o superlativo de uma qualidade, prudentemente concatenadas.
A influência de Wagner sobre Duparc talvez pudesse ser constatada da mesma forma, embora no formato breve da canção. 
E, certamente, se poderia afirmar do poema de Baudelaire, com seus esquemas rítmico e rímico, que, sem música, ainda seria uma obra musical.


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável
Dia 10: Manuel Falla e a dor da natureza
Dia 11: De "People" ao povo e Cauby Peixoto


domingo, 19 de fevereiro de 2017

30 dias de canções: De "People" ao povo e a Cauby Peixoto

30 dias de canções

Dia 11: Uma canção de que você não se cansa

"People", de Jule Styne e Bob Merrill. A canção foi escrita originalmente para um musical, Funny Girl, de 1964, que tinha como base a vida da artista estadunidense Fanny Brice. Styne, claro, escreveu diversos sucessos que continuam sendo gravados até hoje, como "Just in time" e "Time after time"; "People" é um deles.
A canção aparece no primeiro ato da peça. A personagem principal a canta para o futuro primeiro marido. A letra é simples, não tem densidade poética, e cita o que seria o título do musical, A very special person, felizmente logo mudado. 
A melodia, porém, é muito bonita e se presta a diversos tratamentos. Ela fez um sucesso enorme na voz da criadora do papel, Barbra Streisand, e foi logo gravada por outros artistas, como Aretha Franklin, já em 1964, em momento bastante lírico: https://www.youtube.com/watch?v=rzxVOvwjHI4. Ou, em 1967, em versão mais dançante, por Nat King Cole: https://www.youtube.com/watch?v=USsb_ig4ZmQ; ainda mais dançantes, os cantores do grupo The Tymes, que a gravaram cheios de suingue em 1968: https://www.youtube.com/watch?v=CCk1UTAhyKA.
Vejam, neste milênio, o que Stevie Wonder e Arturo Sandoval fizeram da canção: https://www.youtube.com/watch?v=LkkbedwcbvA
Essa interessante melodia faz com que possamos ouvir com interesse as repetições da palavra-título, reiterada intencionalmente: "but first be a person who needs people, people who need people are the luckiest people in the world"... 
A repetição ocorre a tal ponto que a palavra people se destaca do texto. Em razão do tratamento que a música confere a essa palavra, poderíamos, em vez de entendê-la no sentido de pessoas em uma relação amorosa (o assunto da música no contexto do musical), imaginá-la em uma chave coletiva?
Barbra Streisand era muito jovem na época de Funny Girl e teve a carreira alavancada por essa música em especial, que ela gravou diversas vezes (vejam-na no filme; a rua deserta enfatiza o caráter privado da canção). 
Neste vídeo informal filmado por fã na plateia, Streisand, realmente ao vivo (ao contrário de certas cantoras estadunidenses mais jovens e com menos voz e honestidade), já septuagenária, cantou-a em arranjo apropriado ao tom mais épico que ela, nas últimas décadas, decidiu emprestar à canção, entendendo "people" naquela outra chave, mais pública: https://www.youtube.com/watch?v=nnhKa68SZYQ
A única vez que ouvi essa música ao vivo foi com um fenômeno vocal que nunca teve uma aula de canto, Cauby Peixoto. Ele a gravou de forma jazzística, muito interessante, na década de 1960, com a excelência que ele tinha quando cantava um repertório melhor (o que não ocorria sempre, como ele mesmo reconheceu). 
Ele contou mais de uma vez a história de ter cantado "People" só com cuíca, no início da década de 1970 em Aracaju, por insistência do público. Não havia piano para acompanhá-lo. Certamente foi uma versão inusitada, de que ele deu uma mostra aqui: https://youtu.be/J5hWyBqnROs?t=35m32s
Os problemas de saúde do grande cantor fizeram com que ele tivesse, nos últimos anos, de chegar ao palco amparado e cantar sentado. A primeira vez que o vi já foi no Bar Brahma, em São Paulo. A voz, impecavelmente afinada, com o vibrato controlado, contrastava com sua fragilidade física. Fiquei muito impressionado não só pelo que ele encarnava (a chamada Era do Rádio revivia quando Cauby abria boca), quanto pelo que ele continuava tecnicamente sendo capaz de fazer, bem como pela musicalidade: os anos podaram-lhe certos excessos, e o que se ouvia era um intérprete atrás de harmonias diferentes e nuances. De súbito, o cantor levantou-se no início de seu velho sucesso, "Conceição", arrancando, só com isso, aplausos.
A última vez em que estive em uma apresentação sua foi poucos meses antes de morrer, no lançamento de seu último disco, "A Bossa de Cauby Peixoto", em fevereiro de 2016. Ele havia acabado de fazer 85 anos e havia quase morrido um ano antes. Fiquei muito impressionado porque ele abriu a noite com uma dessas canções românticas estadunidenses de décadas atrás, "Love is a many splendored thing" (que está no repertório, por exemplo, de Nat King Cole e Frank Sinatra), que exige bastante da voz. Ele foi impecável.
Cauby cantou bossa nova, naturalmente, mas também outras canções do seu repertório: "Conceição", "Bastidores" e "People", que foi o número de que mais gostei, em versão jazzística, com todos os agudos do final. 
Nessa apresentação, que ocorreu no SESC-SP, estava presente o médico que o havia atendido no ano anterior. Era o aniversário dele, que foi chamado ao palco para comer um bolo. Nesse momento, comentou que Cauby tinha sobrevivido por amor à música.
De fato, sua última turnê, que ele realizava com a parceira Ângela Maria (outra que continuava a levar a Era do Rádio na voz), só foi interrompida pela última (e breve) internação e o falecimento em 15 de maio de 2016.
Sua morte foi amplamente noticiada; notei, porém, que jornais de perfil mais popular, como Diário de São Paulo, Agora São Paulo e o Extra (e outros, que não lembro mais) deram, em suas primeiras páginas, um destaque à morte do cantor maior do que o que lhe foi proporcionado por O Estado de S.Paulo, O Globo e Folha de S.Paulo.
Esse contraste me fez ver que, se ele sobreviveu tanto tempo, mantendo a voz (o que é raro, e os cantores de gerações mais novas, que não têm os fundamentos que a geração dele  de Tony Bennett, Bibi Ferreira  adquiriram, certamente não poderão aspirar a essa longevidade vocal), o amor à música certamente foi fundamental, mas também o amor ao público, seu sentido de "people". Ele era do tipo de artista que não se vestia sem pensar que seria visto pelos fãs, mesmo que não fosse cantar.
Cauby Peixoto não tinha nenhum engajamento político; ele mesmo se confessava alienado nesse campo. No entanto, por meio de sua voz e do exuberante e original uso dela, ele se comunicava com o público. Um exemplo histórico, muito depois dos anos 1950 (época em que ele tinha as roupas rasgadas pelas fãs), foi o Show do Trabalhador no Riocentro, em 1981, ocasião em que militares tentaram realizar uma carnificina. 
Uma das bombas, que seriam atribuídas à esquerda para sabotar a abertura política, explodiu antes e matou um dos terroristas das Forças Armadas. Tratou-se, como atestou a Comissão Nacional da Verdade, de uma ação criminosa articulada pelo Estado brasileiro, o qual protegeu os facínoras na época da ditadura e continua a fazê-lo hoje, no atual regime, que se chama democrático.
Ângela Rô Rô abriu aquela apresentação e Luiz Gonzaga a fechou. Entre eles, artistas tão diferentes quanto Ivan Lins e Roberto Ribeiro, Gal Costa e Clara Nunes, Gonzaguinha e João Bosco, bem como outros notáveis: João Nogueira, Simone, Joanna, Alceu Valença, Beth Carvalho, Miúcha, Zizi Possi e Cauby Peixoto, que levou, com duas músicas, o público à histeria: https://www.youtube.com/watch?v=1hwz6cUcG7U 
Ele nem cantou esta (preferiu, com razão, Chico Buarque e Vanzolini), mas era óbvio que, nesses momentos, ele e as pessoas que lhe assistiam viviam esta afirmação tão simples, "people who need people are the luckiest people in the world". 


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável
Dia 10: Manuel Falla e a dor da natureza



sábado, 18 de fevereiro de 2017

Desarquivando o Brasil CXXXIII: Raduan Nassar e a ditadura militar

O poeta Cláudio Willer escreveu ontem sobre o absenteísmo político, na época da ditadura militar, de Raduan Nassar. Nassar foi objeto de vários comentários por ter sido ontem atacado pelo político que no momento ocupa o ministério da cultura, na entrega do Prêmio Camões.
Outras pessoas, e não Willer, chegaram a dizer, a meu ver muito equivocadamente, que se tratava de premiação exclusiva do governo brasileiro, e por isso ele deveria tê-la recusado (a iniciativa também é de Portugal), embora ele tivesse aceito a premiação antes do impeachment (não sei se o atraso na entrega ocorreu em razão de má vontade da administração Temer, ou da visível falta de excelência administrativa da gestão), e que, se ele recebeu a premiação, deveria ficar calado - essa é a ideia que fazem do debate público e da relação dos escritores com o governo.
Willer escreveu que Nassar se absteve politicamente e que disse, em 1981, que não havia censura de livros na ditadura, apesar, lembro, dos vários exemplos de livros proibidos desde os anos 1960: https://www.facebook.com/claudio.willer/posts/1345869838802906
Eu não sabia disso. O curioso é que a literatura de Raduan Nassar não era absenteísta; a esse respeito, no volume dos Cadernos de Literatura Brasileira (publicado pelo Instituto Moreira Salles em 1996) dedicado a Raduan Nassar, tanto Milton Hatoum quanto Leyla Perrone-Moisés destacam Um copo de cólera, publicado pela primeira vez em 1978, pela sua relação com a ditadura militar.
A história, que se tornou filme de Aluizio Abranches, é muito conhecida. Na cólera deflagrada após o dono da propriedade ter humilhado os empregados, e a jornalista o chamar de fascista, o homem diz "escuta aqui, pilantra, não fale de coisas que você não entende, vá por a boca lá na tua imprensa, vá lá pregar tuas lições, denunciar a repressão [...]".
Depois de afirmar que ela se tornaria polícia feminina, é o fascista, em astuta estratégia do autor, que faz este comentário subversivo: "no abuso de poder, não vejo diferença entre um redator-chefe e um chefe de polícia, como de resto não há diferença entre dono de jornal e dono de governo, em conluio, um e outro, com donos de outros gêneros".
É interessante que a discussão da repressão passe pelo jornalismo. Na entrevista publicada nos Cadernos, Nassar contou que publicava um Jornal do Bairro, criado em 1967, que "Fazia oposição ao regime da época e identificava-se com as reivindicações do então chamado Terceiro Mundo. Dava atenção também aos grupos minoritários.". Ela pode ser lida no blogue do Instituto (http://blogdoims.com.br/entrevista-com-raduan-nassar-2/).
De fato, o jornal publicou oposicionistas como Paul Singer. Na ficha que o Deops/SP fez do escritor (por sinal, o simples fato de ele ter sido fichado pela polícia política sugere que ele não era completamente absenteísta), menciona-se a atividade da Pat Publicações, de que era um dos proprietários.

A editora era investigada por publicações consideradas subversivas pelo regime, especialmente material do movimento estudantil. Sobre isso, há várias referências de documentos da repressão, mas mencionarei apenas a que tenho comigo no momento. Reproduzo ao lado parte de um documento que está no acervo Deops/SP do Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Trata-se de um documento do Centro de Informações da Marinha, de 1978, sobre a chamada "imprensa nanica", isto é, os periódicos de menor circulação que faziam oposição ao governo, que eram alvo de preocupação gigante da repressão. Esses periódicos e as bancas de jornais que os vendiam é que seriam alvos de diversos atentados, inclusive a bomba, nos governos Geisel e Figueiredo.
Dados haviam sido coletados sobre a imprensa clerical, de entidades de classe e do movimento estudantil, "além das revistas que fazem 'resistência cultural', como 'ISTO É', 'ESCRITA', 'VERSUS', etc., por apresentarem características bastante identificadas com a 'imprensa nanica'".

3) - Os demais documentos referenciados, [sic] contêm subsídios sobre as seguintes publicações: "MOVIMENTO", 'EM TEMPO", "FLAGRANTE", "VERSUS", "ANISTIA", "REPÓRTER", "LAMPIÃO", "BOLETIM ABI" e da firma impressora "Publicações e Assistência Técnica Ltda - PAT". 
Vejam a preocupação da ditadura com a "proliferação" desses jornais, com a não identificação do editor-chefe (claro que por motivos de segurança) e com a tiragem: "as tiragens dessas publicações somam mais de 120 mil exemplares".
Nassar deixou essa carreira. Sua vida, de fato, foi marcada por uma série de abandonos: de cursos, de negócios, e da literatura pela agricultura, que ele também acabou por deixar em 2011, como conta esta reportagem da Revista Piauí, publicada em 2012 (http://piaui.folha.uol.com.br/materia/depois-da-lavoura/), com a distribuição de terras para agricultores e a doação de uma fazenda para a construção de um campus da Universidade Federal de São Carlos (a doação foi taxada em quase meio milhão, que ele pagou), depois de a USP, que não queria abrir cursos de graduação na região, não ter aceitado a propriedade. No entanto alguns, não sei se honestamente, chegaram a dizer que Nassar só teria aceitado o prêmio Camões por dinheiro.
Outros acharam que o escritor deveria ter-se mantido silencioso, cobrando coerência com o seu costumeiro caráter recluso. Não tenho nada contra reviravoltas em histórias, que fazem personagens que estavam quietos se manifestarem quando a situação é dramática, gerando impacto e destaque nos jornais, que documentaram a inversão da ordem nas falas, que permitiu que o ministro falasse no final, e a pouca intimidade da atual presidente da Biblioteca Nacional com a literatura (ela errou duas vezes o nome de Nassar). Achei admirável.
Admirei também que Raduan Nassar tenha centrado seu discurso na acintosa indicação do antigo comandante da repressão política no Estado de São Paulo, o antigo secretário de segurança pública de Alckmin, político do PSDB (desfiliado há alguns dias...), Alexandre de Moraes. Como se sabe, no atual consórcio do PMDB com o PSDB à frente do orçamento federal, Moraes ascendeu ao ministério da justiça, e o nacional desastre de sua gestão, com chacinas em presídios, cortes nos órgãos de direitos humanos, ataques aos direitos indígenas credenciaram-no para ser indicado ao Supremo Tribunal Federal...  O que seria um legado desastroso de Temer e do PSDB, que duraria muito mais do que este governo provisório, tendo em vista a vitaliciedade do cargo e a PEC da Bengala.
Foi pedida a cassação de seus títulos na USP pela "má conduta científica" e acusações de plágio, bem como requerimento à Procuradoria-Geral da República. Além disso, o currículo lattes do tinha informação falsa de um alegado pós-doutorado. Eis o que o governo Temer pode oferecer de notório saber e reputação ilibada (requisitos constitucionais para o cargo, acreditem ou não).
Raduan Nassar abandonou a literatura, mas não poderá deixar de ser o autor de sua própria obra. Àqueles que criticaram o escritor e defenderam o político que desdoura o ministério da cultura (afinal, é tão representativo do atual governo, que está a degradar o país), deixo esta citação de Lavoura arcaica:
– E fica também mais pobre o pobre que aplaude o rico, menor o pequeno que aplaude o grande, mais baixo o baixo que aplaude o alto, e assim por diante. Imaturo ou não, não reconheço mais os valores que me esmagam [...] a vítima ruidosa que aprova seu opressor se faz duas vezes prisioneira, a menos que faça essa pantomima atirada por seu cinismo.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

30 dias de canções: Manuel de Falla e a dor da natureza

30 dias de canções

Dia 10: Uma canção sobre a tristeza

"Por ver si me consolaba", a Asturiana das "Sete Canções Populares", de Manuel de Falla. Há muito tempo atrás, comprei um disco usado de vinil com elas e as Canções Espanholas Antigas, de Federico García Lorca, na voz de Teresa Berganza e no violão de Narciso Yepes: https://www.youtube.com/watch?v=DzIMmLpdEyo; ao vivo, a mesma cantora, em pura concentração, com o violonista Gabriel Estarellas: https://www.youtube.com/watch?v=c4gyCJVwViI.
Quem preferir ouvi-la com orquestra: https://www.youtube.com/watch?v=9J9oDSXNfeM
Outros cantores líricos, também homens (José Carreras, por exemplo, gravou essas Canções) e cantores de flamenco também as interpretaram. André Mehmari e Ná Ozetti, dois importantes músicos brasileiros, interpretaram-na: https://www.youtube.com/watch?v=OY5W3YF_l4wHá também arranjos instrumentais, de tão grande é a popularidade dessa obra de Falla.
Essa canção me comove principalmente pelo caráter contido da música, não só em relação à dinâmica e ao andamento, mas também à extensão exigida para o cantor, do mi bemol ao dó, acessível para qualquer tipo de voz em sua oitava. O texto também é simples: alguém, tentando consolar-se, aproximou-se de um pinheiro verde, e a árvore, "como era verde", por vê-lo chorar, chorava. Um caso delicado de prosopopeia, a árvore assume uma emoção humana.
Não sabemos a origem da dor, e é realmente melhor que não tenhamos essa informação para que a música gere seu efeito hipnótico; trata-se de uma dor que as árvores podem entender, as sensações bastam para transmiti-la.
Falla não foi um Bartók, nem mesmo um Villa-Lobos no tocante à busca em campo das tradições orais na Espanha. Ele as conhecia por publicações. Cito Miguel Manzano:
[...] no hay ninguna duda de que los músicos españoles de cierto renombre no recopilaron directamente música popular. La razón es bien clara: la música popular de tradición oral ya había quedado, por la época a que nos referimos, casi completamente confinada dentro de los ámbitos rurales. No hay entre los músicos españoles ni un solo caso semejante al de Béla Bartók, que compaginó su actividad de compositor, y muy prolífico, con una dedicación también muy asidua a la búsqueda de la música popular en sus fuentes.
Como a Espanha são várias, e algumas delas nem se consideram espanholas de fato (e falam outros idiomas), é importante marcar que esta canção vem das Astúrias, no norte do Estado. Aqui está a partitura: http://imslp.org/wiki/7_Canciones_populares_Espa%C3%B1olas_(Falla,_Manuel_de).
O que nos leva de volta ao pinheiro, que compartilhava da dor: esse tipo de comunhão com a natureza, esperada nos "âmbitos rurais" de que essa música popular se origina, não é estranho. 
Hoje, no entanto, uma canção como esta teria que falar de uma árvore a chorar por ver um humano, tendo em vista as barragens, os ecocídios, as motosserras, os agrotóxicos, a impunidade no campo que, no Brasil, se antropomorfizaram e se tornaram legisladores, administradores públicos, empresários, jornalistas... E criaram um modelo que foi exportado para a América Latina e a África, o "ecocídio por corrupção". Cito a advogada Mirtha Vásquez a respeito dos impactos no Peru desse modelo desenvolvimentista: "El costo, social y ambiental de la imposición de estos proyectos no importaba, la gente puede ser desplazada, puede quedarse sin tierra, sin agua, los ríos pueden ser destruidos, las fuentes de agua desaparecidas. Y todo, absolutamente todo, por la corrupción." (https://celendinlibre.wordpress.com/category/noticias/).
Trata-se hoje provavelmente do exemplo mais forte da presença internacional do Brasil: a exportação de um modelo lucrativo de destruição, que envolve um consórcio multifacetado de delitos (corrupção, fraude, lavagem de dinheiro, crimes ambientais, crimes eleitorais, crimes contra povos originários e contra ambientalistas etc.). 
Essa degradação a que chegou o país é de uma tristeza sem fim.


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável