O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Dmitri Hvorostovsky (1962-2017), o cantor do mundo, a voz da Rússia e da Itália

Morreu hoje, dia 22 de novembro de 2017, o barítono russo, siberiano, Dmitri Hovrostovsky (1962-2017), que lutava desde junho de 2015 contra um câncer no cérebro. Sua voz era tão impactante que lembro bem da primeira vez que o ouvi: era um disco da RCA de trechos de ópera que uma tia me havia dado, com árias eu já conhecia, como "Caro nome" (na voz de Anna Moffo), mas uma que eu ignorava completamente: a ária do Príncipe Yeletsky, da ópera A Dama de Espadas, uma das que Tchaikóvski escreveu a partir de Púshkin.
Trata-se de uma das mais bonitas declarações de amor que o compositor russo escreveu, delicada e apaixonada. Para fazer justiça a essa música, é necessário um grande controle do legato e um fôlego sem falha. O barítono tinha tudo isso e um excepcional veludo no timbre que não se desfazia mesmo quando o cantor usava mais força. A última frase do personagem para sua amada (Lisa, que preferiria o tenor...), ele a cantava em um fôlego só, com um belo crescendo.
Era Hvorostovsky, ainda bem jovem, e a faixa vinha da gravação da ópera completa, regida por Seiji Ozawa. O papel lhe serviu de estreia no Metropolitan Opera House em 1995. Antes disso, ele cantou a ária na competição de canto que o tornou conhecido de um dia para o outro, "Singer of the World", em Cardiff, 1989. Por sorte, o vídeo está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=ywb492BL4iM (para vê-lo em 2003, com o timbre mais escuro e o mesmo legato, sugiro esta apresentação, também ao vivo: https://www.youtube.com/watch?v=W8zKkvGB7Rw).
Naquela competição que o revelou, ele enfrentou, entre outros candidatos, o baixo barítono galês Bryn Terfel, que também fez (continua a fazer) uma grande carreira. Li uma entrevista de Terfel, que perdeu o primeiro lugar para Hvorostovsky, em que comentou ter notado que o russo o venceria depois de ouvi-lo em "Ombra mai fu", da ópera Serse, de Händel; era uma escolha estranha para uma competição de canto (esta peça é batida demais, toca até em igrejas, e não é das mais exigentes vocalmente), mas perfeita se o cantor tem um legato como este: https://www.youtube.com/watch?v=PoAhxAlW6QY
Nessas apresentações do jovem barítono, além do timbre lindíssimo e do seguro apoio (que lhe permitia realizar todas as expressivas nuances de crescendo e decrescendo), note-se a abertura para o agudo; ele chegou, durante os estudos de canto, a julgar que era tenor, mas isso não durou muito. Era uma voz bem diferente de Terfel, que foi para papéis mais graves e canta muito do repertório germânico. Hvorostovsky concentrou-se nos papéis de barítono lírico do repertório russo, em que ele nunca teve realmente rival, na ópera italiana do século XIX e na canção russa.
Na primeira categoria, destaca-se Eugen Oneguin, outra ópera que Tchaikóvsky escreveu a partir de Púshkin. O papel título foi escrito para barítono, e ele o cantou desde jovem. Só neste século, apesar da idade do personagem (ele termina a peça com apenas 26 anos), Hvorostovsky disse sentir-se ter chegado à idade ideal para interpretá-lo. Aqui, pode-se vê-lo na ária do fim do primeiro ato, no Metropolitan Opera House, em Nova Iorque, cena em que o personagem desdenha da declaração de amor feita pela jovem Tatiana, interpretada por Renée Fleming, com regência de Valery Gergiev: https://www.youtube.com/watch?v=qa_13xMhjkg
Oneguin mata, em duelo, seu melhor amigo, um poeta, por questões de honra (ele o provoca dançando com a amada do poeta em um baile), viaja para longe, retorna anos depois e descobre Tatiana casada com um nobre bem mais velho. Decide que está apaixonado por ela, marca um encontro. Ela confessa que ainda o ama, mas o rechaça neste dueto final: https://www.youtube.com/watch?v=i8mJsowhByo
Em disco, ele a gravou a ópera completa na regência de Bychkov; antes disso, escolheu os dois solos para seu primeiro disco solo, de 1990, gravado pela extinta Philips, regido por Gergiev. Para seu primeiro solo, escolheu apenas árias de óperas de Tchaikóvsky e Verdi. A gravação apontava os caminhos que o barítono seguiria, e ele aprofundou as interpretações dessas árias, quando a elas retornou. Compare-se a ária da Iolanta com a gravação completa, regida por, mais um vez, Gergiev; ou a da morte de Rodrigo com o que ele fez na gravação de Don Carlo regida por Bernard Haitink, que se destaca, em termos vocais, somente pelo barítono e pelo grande meio soprano Olga Borodina, russa como Hvorostovsky, e uma de suas companheiras de palco e de geração. Com ela, além de óperas completas, gravou "Olga & Dmitri", com repertório italiano (Rossini e Donizetti), francês (Saint-Saëns) e russo (Rimsky-Korsakov).
Em relação à segunda categoria, a ópera italiana, ele se dedicou ao bel canto nos anos 1990: Rossini, Bellini, Donizetti. Nesse momento, alguns o comparavam aos grandes barítonos italianos da "época de ouro" (início do século XX). "Bel Canto Arias" (que também recebeu o título ridículo de "Songs of love and desire"), regido por Ion Marin, testemunha a agilidade vocal e o agudo fácil (a famosíssima ária do Barbeiro de Sevilha), o legato (ária de I Puritani) e o investimento dramático de que o barítono já era capaz (na cena da ópera Lucia di Lammermoor).
Aos poucos ele foi deixando esses papéis do bel canto porque, segundo suas palavras, precisava de "mais ação", e foi direcionando sua carreira para Verdi. Giorgio Germont, personagem de La Traviata, foi um dos papéis que lhe permitiu fazer essa transição; ele o gravou com Zubin Mehta, fazendo este papel de pai para um tenor que tinha quase o dobro de sua idade, o impressionante Alfredo Kraus, e com um soprano também de outra geração, Kiri Te Kanawa (registro a diferença etária porque alguns críticos julgaram-na um problema dessa gravação; não sou da mesma opinião).
Na terceira categoria, ele gravou na primeira fase da carreira, que a Philips registrou, tanto a canção clássica russa quanto a tradicional e a popular. "Olhos negros", evidentemente, no disco homônimo, o "Kalinka", com coro, que é uma maravilha, mas também canções de Rachmaninov, Tchaikóvsky, de Sviridov (que ainda estava vivo, e escreveria para Hvorostovsky e o pianista Mikhail Arkadiev "Petersburgo, um poema vocal"). Ele gravou pela primeira vez "Canções e Danças da Morte", de Mussorgsky, nessa época, porém sua gravação posterior é bem mais interessante.

Na regravação, ele já não estaria na Philips; a gravadora, que usava estratégias para explorar a beleza física dele, especialmente para o mercado dos Estados Unidos, queria que ele gravasse mais crossover, isto é, mais música popular, e não do repertório russo. Neste século, ele foi para a Delos, o que significou uma série de projetos mais pessoais, mas também elencos menos estelares (no entanto, certo vídeo em que ele canta música brega sem camisa é de 2009).
O barítono gravou a ária e outras de Verdi, inclusive os solos de Rigoletto no "Verdi Arias", de 2002, regido por Mario Bernardi. Ele ainda estava vivo quando saiu a gravação da ópera completa, realizada em 2016: https://twitter.com/Hvorostovsky/status/929017529774886912.
No dia 17 último, divulguei uma crítica publicada no Washington Post, que fazia notar que ele tinha cancelado todas suas apresentações públicas e seu prognóstico ainda era incerto. No primeiro semestre deste ano, ele ainda foi capaz de dar concertos (algumas imagens estão no twitter dele); e ainda pôde fazer uma aparição surpresa na apresentação de gala do Metropolitan com "Cortiggiani". O câncer, porém, lhe havia tirado o equilíbrio, e ele não se sentia mais seguro para andar no palco (é possível notar isso quando ele sai do palco no Met); em um dessas últimas apresentações, um dos braços está numa tipoia, pois ele havia caído em casa.
Nessa fase, seu maestro mais constante nos estúdios foi Constantine Orbelian, que o dirigiu em sua última gravação de ópera, que saiu há poucos dias, o Rigoletto, de Verdi. Hvorostovsky gravou esse difícil papel, para o qual esperou anos, em 2016, quando já sabia estar doente.
Dessa ópera, eu o vi cantar a ária "Cortiggiani, vil razza dannata" ao vivo. Ele se apresentou algumas vezes em Buenos Aires, mas acho que a única vez que se cantou no Brasil foi em um recital em 8 de setembro de 1997 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Ele já tinha gravado vários discos e era uma estrela em ascensão. Anunciou-se que faria um programa de canções russas com o pianista Mikhail Arkadiev, com quem já tinha feito algumas gravações.
No entanto, o programa apresentado foi bem diferente: era praticamente todo composto de árias (a maioria, de óperas), como se vê ao lado. Em um longo arco temporal, ele foi do barroco ao verismo, passando pelo classicismo e pelo romantismo. O programa escreve incorretamente o nome de Bellini, de quem ele cantava uma ária de I Puritani. Como faltam outras informações, lembro que as árias de Händel sem indicação de origem vieram da Brockes Passion e de Orlando; o Gounod pertence ao Faust, a de Leoncavallo, a I Pagliacci, e as de Verdi, a Un ballo in maschera e Don Carlo.

O teatro estava praticamente vazio. Comprei ingresso para a galeria, mas o pessoal do Teatro pediu para que o público presente descesse à plateia, onde não havia praticamente ninguém. Assisti a tudo bem perto, talvez na quarta fila, não lembro mais.
A primeira parte do programa, exceto Mozart, e a foto usada provinham do disco que gravou com Neville Marriner e a Academy of St Martin in the Fields, "Arie Antiche". Ele não era um cantor do barroco e ouve-se, em algumas faixas, certa incongruência entre a interpretação do cantor, praticamente romântica, e o acompanhamento sóbrio de Marriner.
No disco como no palco, sua capacidade de sustentar frases longas causava admiração, assim como espantava sua maneira de respirar, que era bem audível. Tenho uma queda pela ária "O del mio dolce ardor"; o original é cantado geralmente por mezzos, mas não desdenho ouvi-la com um barítono como este, e a facilidade da subida ao agudo em "le più liete speranze" impressionou. Na famosa ária do Orfeo de Gluck, a interpretação tão emocional e com vibrato de Hvorostovsky talvez pudesse ser chamada de antiquada, mas era sincera e vocalmente esplêndida.
Das árias de Mozart, lembro da facilidade com que cantou a conclusão do "Vedrò mentr'io sospiro", que pode pegar o cantor no contrapé. Na segunda parte do programa, ele estava completamente em seu elemento; quase pulei para trás com o sol agudo que ele, seguindo certa tradição, emitiu perto do fim do Prólogo da ópera Os Palhaços.
Nunca tinha ouvido uma voz tão impressionante. O final do programa confirmou que aquele canto estava sempre ligado a um propósito dramático, especialmente na ária da morte de Rodrigo em Don Carlo. O marquês leva um tiro, em execução extrajudicial determinada pelo rei e exigida pelo grande inquisidor, durante visita ao príncipe, encarcerado por ordem real. Pouco tempo depois do concerto, ele gravaria a ópera completa sob a regência de Haitink.
Neste século, ele manteve seu repertório principalmente em duas línguas, a italiana e a russa. Gravou canções napolitanas para a Delos, explorou os papéis mais pesados de Verdi e chegou até a Rigoletto, com uma voz que era essencialmente lírica. No campo russo, fez de tudo: ópera, canção clássica e popular, música religiosa (ele já tinha gravado para a Philips o belo "Credo"); em 2004, foi o primeiro cantor lírico a fazer um concerto na Praça Vermelha de Moscou, com músicas russas da II Guerra Mundial, que ele gravou para a Delos ("Wait for me"). Era um herói nacional. Lamento não saber russo e não poder ler as matérias de seu país. Este obituário da CBC News pareceu-me bom, mas a seção do The New York Times inclui vídeos de suas apresentações, tanto em ópera quanto em recital.
Eu o vi uma segunda vez ao vivo, em 2015, pouco tempo antes de ele descobrir ou revelar para o público que estava doente. Era a ópera Un ballo in maschera, de Verdi, no Metropolitan Opera House, com a regência do grande James Levine. Nenhum dos papéis principais era cantado por um italiano, e não se sentia falta disso. O tenor polonês Piotr Beczala estava audivelmente doente e seria substituído na matinê transmitida pelo rádio pelo tenor brasileiro Ricardo Tamura), as americanas Sondra Radvanosky, Dolora Zajick (desafiando poderosamente os anos, ela é sexagenária) e Heidi Stober.
Hvorostovsky, o russo, estava muito bem, e na ária "Eri tu", ele realizava o contraste entre o início, em que ele está dominado pelo desejo de vingança, e a nostalgia de "dolcezze perdute", até a exclamação "non siede che l'odio/ E la morte nel vedovo cor!". Sua vitoriosa carreira confirmou o predomínio dos cantores eslavos no campo da ópera italiana; ele e Borodina, claro, mas também cantores que vieram depois, como Beczala, Anna Netrebko e Ildar Abdrazakov.
Não é comum cantores encontrarem êxito artístico ao mesmo tempo na ópera e na canção, tendo em vista as diferentes exigências vocais e de temperamento (a canção, em geral, exige muito mais intimismo), mas Hvorostovsky foi um desses exemplos, tanto em razão da técnica respiratória quando da excelente articulação: mesmo que não se conheça o idioma do texto que ele canta, as palavras são perfeitamente distinguíveis, algo não muito comum entre os cantores líricos, e tão necessário para a canção. Neste campo, os discos de Tchaikóvsky (algumas das canções do cd duplo de 2009 "Tchaikovsky Romances" podem ser vistas neste vídeo), Rachamaninov ("Rachmaninov Romances", gravado em 2011, incluiu esta peça) e de canções a partir de poemas de Púshkin, de 2010, gravados com o pianista Ivari Ilja para a Delos são preciosos.
Em 2011, gravou com o excelente Ivari Ilja um disco que recebeu em inglês o título"In this moonlit night" com canções de Tchaikóvsky, Taneyev e o ciclo "Canções e Danças de Morte" de Mussorgsky. Desta vez, não na versão orquestral, mas apenas com o piano, seguindo o original do compositor.
Os poemas foram escritos por Arseny Arkadyevich Golenischchev-Kutuzov. A famosa canção final descreve um campo de batalha: finda a luta, a Morte, o "Marechal de campo" (título da canção) aparece para declarar-se vitoriosa, decretar que os soldados agora estão reconciliados e contar suas tropas, formadas por todos os corpos: pede para que se levantem, mas depois ela irá enterrá-los: "Ano após ano passará/ E até a memória de vocês se extinguirá".
Trata-se de versos que Hvorostovsky cantou com toda eloquência necessária para encarnar o poderoso personagem, mas que nunca se dirigiriam a este cantor, nem mesmo hoje.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Desarquivando o Brasil CXXXIX: O combate policial às publicações anarquistas, ontem e hoje

Livros anarquistas voltaram a ser objeto de apreensão policial e de prova criminal. Em 2013, eles já tinham sido enquadrados na categoria de "material perigoso". Naquele ano, tal literatura foi apreendida na Federação Anarquista Gaúcha, em razão dos protestos e manifestações que ocorriam no país, durante a gestão do governador petista Tarso Genro.
Lembremos que a Polícia Civil fluminense chegou a considerar, em 2014, Bakunin suspeito de participar de atos violentos em protestos.
Agora, que a polícia gaúcha chega a resultados semelhantes por meio de livros e de "coquetéis molotov" pacifistas feitos de garrafas pet, faço mais uma nota sobre apreensão de publicações durante a ditadura militar. Como há milhares de documentos com esse objeto, escolho este por estar mais próximo de nosso tempo, por vir do último governo daquela época.

O documento, uma informação confidencial do Departamento Estadual de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo (DEOPS/SP), integra o acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Três pessoas haviam sido presas em 19 de julho de 1980 perto do Parque do Anhembi, no Município de São Paulo, com "publicações suspeitas".
Uma delas era o célebre O direito à preguiça, de Paul Lafargue, que, diferentemente da informação dada pela inteligência policial, era genro de Marx, e não de Lênin... Trata-se de publicação marxista.
Na mesma informação, a prisão, em Jundiaí pela posse de periódico anarquista, O inimigo do rei. O exemplar era o número 11 (ano 4), com referência geográfica a "Salvador, Rio, São Paulo e Porto Alegre".
Por sinal, nesse número, de maio a agosto de 1980, foi publicada uma matéria com Zé Celso.
O jornal era publicado pela Editora e Livraria A, de Salvador, que também havia lançado A Plebe, apreendida em Mogi das Cruzes.
No início do século passado, foi fundado por Fábio Lopes dos Santos Luz e Edgard Leuenroth em 1917 o conhecido periódico anarquista com esse título. Foi publicado até 1951.

Não tenho cópia da publicação apreendida, porém o auto de exibição e apreensão feito pelo DEOPS/SP informa que se trata do número 15 da "nova fase" de A Plebe, que havia voltado por meio da editora de Salvador.
Estavam os agentes da repressão política preocupados com as explosões ideológicas que esse material poderia provocar? Ou seja, no léxico autoritário da doutrina de segurança nacional, reprimiam a "guerra psicológica adversa"? O irônico é que, nessa mesma época, bombas explodiam por todo o país. Não eram, no entanto, os anarquistas que as jogavam. Tampouco eram reprimidas.
O governo de Figueiredo veria o Riocentro, o atentado à OAB-RJ, ataques a defensores de direitos humanos (como Dalmo Dallari, que felizmente sobreviveu) e, entre outros atos terroristas, os inúmeros ataques a bancas de jornais que vendiam veículos da imprensa de esquerda.

Por algum motivo que me escapa, nenhum desses diversos casos foi solucionado pela polícia. A supressão das liberdades de imprensa e de expressão, que não encontrava mais o instrumento normativo dos atos institucionais, continuava a ser realizada por meio do terror.
Como no Riocentro, via-se que não se podia fazer diferença, ao menos durante a ditadura, entre grupos paramilitares e as Forças Armadas, entre ordem e terror, entre Estado e organização criminosa.
Os anarquistas, evidentemente, dirão que tais diferenças não existem, e que o Estado é sempre criminoso.
Ao lado, em outro documento de 1980 do DEOPS/SP que pode ser encontrado no Arquivo Público do Estado de São Paulo, temos o nome de alguns dos jornais que eram vítimas dessa ação: Versus, O Repórter, Movimento, Hora do Povo, O Trabalho, Voz da Unidade. Jornais foram bombardeados não só nos seus pontos de compra, mas também em suas sedes durante o governo Figueiredo, como A Hora do Povo.
Esses jornais não eram anarquistas, porém os mecanismos contra estes serviam contra toda a esquerda, que deveria relembrar sempre tais acontecimentos.
Neste momento, em 2017, que juristas defendem sub-repticiamente em rede nacional o afastamento do princípio da tipicidade penal para que associações anarquistas possam ser enquadradas na lei antiterrorismo (o anarquismo, bem ao contrário do nazismo e do fascismo, não é movido "razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião", previstas no artigo 2o. da Lei), em afronta direta às garantias fundamentais internacionais e constitucionais, temos que continuar a estar atentos às liberdades políticas, ameaçadas especialmente em regimes não democráticos, como voltou a ser o nosso.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O Teatro Oficina vs. o reino da Devastação: O Rei da Vela de Oswald de Andrade e o Condephaat

Acabou de ser aprovada, neste dia, 23 de outubro de 2017, no Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat), a continuidade do processo de autorização de construção das torres de Silvio Santos no bairro do Bixiga, no município de São Paulo, que podem encaixotar e desfigurar o Teatro Oficina, projeto de Lina Bo Bardi, que é um imóvel tombado.
No ano passado, esse pedido havia sido indeferido:
01-PROCESSO Nº71370/2014 DESPACHO Nº 2094-2016
INTERESSADO: EDUARDO VELUCCI
DATA DO PROTOCOLO INICIAL: 19/03/2014
ASSUNTO ATUAL: PEDIDO DE RECONSIDERAÇÃO DA DELIBERAÇÃO DO EGRÉGIO COLEGIADO NA SESSÃO ORDINÁRIA DE 26 DE SETEMBRO DE 2016 QUE INDEFERIU O PROJETO DE CONSTRUÇÃO PARA O IMÓVEL SITUADO NA RUA JACEGUAI, 530, 536, 542, 546, BELA VISTA.
PÓS INTERVENÇÃO: NÃO
ENDEREÇO DO IMÓVEL: RUA JACEGUAI 530/536/542/546 - BELA VISTA - SÃO PAULO / SP
PROTEÇÃO DO BEM: ÁREA ENVOLTÓRIA
ÁREA ENVOLTÓRIA DE: TEATRO OFICINA
O empreendimento planejado não afeta apenas o Oficina, ele está:
Inserido em área envoltória de tombamentos do Condephaat, a saber: Casa de Dona Yayá/Teatro Brasileiro de Comédia/Escola de Primeiras Letras/Castelinho da Brigadeiro. Dentre estes o imóvel tombado mais próximo é o do Teatro Oficina, resolução SC06 DE 10/02/1983 – DOE DE 11/02/1983, pág.36. No local incide também proteção do Conpresp (Resolução 22 DE 2002)  e do Iphan (Portaria nº62 de 15 de julho de 2011).
Com a troca dos conselheiros (estes são os nomes atuais) neste ano, a reconsideração foi deferida em favor do grupo de Silvio Santos. O relator do processo, Fábio André Uema Oliveira, da Procuradoria Geral do Estado, posicionou-se contra o Oficina, bem como outros representantes do governo do Estado. Se aprovada a construção das torres, além dos danos ao Teatro, haverá um significativo impacto no bairro. Cito artigo sobre o caso de Luanda Villas Boas Vannuchi:
[...] os interesses imobiliários são capazes de destruir bairros, não apenas transformando profundamente sua fisionomia, mas impondo usos mais rentáveis que acabam por aumentar os alugueis e expulsar tanto a população de baixa renda quanto os usos pouco rentáveis, como comércios populares e espaços de cultura.
O Bixiga, como é chamada parte do distrito da Bela Vista, está sujeito a esse tipo de ameaça. Bairro tradicional de São Paulo, manteve desde o início do século passado seu caráter popular, fortemente influenciado pela ocupação italiana, negra e nordestina, berço do samba e do teatro paulistano, confluindo uma diversidade de manifestações culturais, das cantinas às escolas de samba. Preserva até hoje não somente um reconhecido patrimônio arquitetônico, vários deles (mas não todos!) protegidos pelos órgãos competentes nas escalas municipal, estadual ou federal, mas também uma miríade de usos sociais e culturais, que fazem do bairro um ambiente único na cidade.
Há dois dias, eu estava na (re)estreia da montagem de O Rei da Vela pelo Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, quando ouvi uma reclamação a meu lado direito de que o texto original estava sendo muito modificado.



Ao contrário do que o grupo S.S. pretende para o Bixiga, o texto de Oswald de Andrade não estava sendo muito alterado, ao menos para os padrões do Oficina. Afinal, há várias continuidades em relação à situação que o autor imaginou na peça, que se passa em 1933 (ano em que a escreveu), e foi publicada em 1937. Elas eram tão flagrantes  que pessoas que não conheciam o texto imaginavam que Zé Celso e Renato Borghi teriam reescrito tudo para a peça "encaixar-se" no Brasil de hoje, mas ele não é tão diferente do de ontem...
Relembremos que a peça somente foi encenada em 1967, pelo Oficina. Agora, que se passaram oito décadas, Zé Celso (José Celso Martinez Corrêa) e Renato Borghi voltaram a montá-la, com o cenário original. Borghi já fazia o Abelardo I, que desta vez ele compartilha com Marcelo Drummond.
Tanto 1967 quanto 2017 são momentos posteriores a uma ruptura democrática. Em 1964, ainda havia expectativa de eleições diretas presidenciais em 1965: os golpistas civis como Ademar de Barros e Carlos Lacerda queriam que os militares fizessem o trabalho sujo de derrubar João Goulart e depois devolvessem o poder aos civis. No entanto, os militares resolveram continuar no poder e cassaram as lideranças civis que poderiam ameaçá-los (entre elas, os dois golpistas mencionados...): se o golpe foi civil-militar, a ditadura que se seguiu foi militar e, quando um civil deveria, constitucionalmente, assumir a presidência, foi afastado por novo golpe, em 1969: o triunvirato militar impediu Pedro Aleixo de governar e acabou passando o poder para Médici. Sabemos que, naqueles tempos, Zé Celso foi preso, torturado, e a experiência do Oficina foi interrompida.
1967 estava entre o golpe e o AI-5; 2017, não sabemos. Os militares atualmente não foram necessários para derrubar a presidência, mas não sabemos o que ocorrerá em 2018, se haverá eleições, e com quem, e o que restará do país até lá, tendo em vista a devastação geral que Temer e aliados vêm promovendo para se manter no poder e longe da cadeia.
Essa devastação ocorre também no campo da cultura, e o Teatro Oficina é um dos alvos. Cito o que Zé Celso escreve no programa da peça:
[...] o grupo Silvio Santos nos ameaça numa reunião do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo, no dia seguinte à nossa Re-Estreia, dias 21 y 22, no Majestoso Teatro Paulo Autran do SESC PINHEIROS DE SAMPÃ.
No dia 23 deste Mês, a construção de Torres no entorno Tombado do Teatro Oficina Terreiro Electrônico será ou não decidida pelo Conselho do Condephaat. [...]
Acusam, nós da "Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona" de termos destruído o 1o. Teatro Oficina, tombado "Historicamente" pelo Condephaat, para construirmos um Teatro Ilegal, isto é: a última Obra Prima de Arquitetura de Lina Bardi, q em seu Canto de Cisne, rimou com sua 1a. Obra: a Casa de Vidro no Alto de uma Floresta do Morumbi, voltada para os 4 cantos do Mundo, penetrada por uma Imensa Árvore em seu Centro.
A remontagem da peça é um gesto de resistência. Eu a reli antes de ir à representação, e confirmei minha impressão de anos atrás: embora genial, ela cai de ritmo no último ato, com a longa cena de morte de Abelardo I, que não escapa do didatismo, especialmente com a história do cachorro que prefere passar fome com os seus semelhantes. Nesta montagem, buscou-se solucionar o problema fazendo Borghi, que domina absolutamente o texto e a cena, cantar o causo do cão.
Anotei os momentos das risadas; as tiradas do Oswald, além de engraçadas, continuam atuais: "Família é uma coisa distinta. Prole é de proletariado."; "Pelo que vejo o socialismo nos países atrasados começa logo assim... Entrando num acordo com a propriedade..." Quando Pinote é expulso, Abelardo I comenta: "Voltará! De camisa amarela, azul ou verde.". As pessoas riram, certamente lembrando dos manifestantes que ajudaram a colocar no poder o primeiro presidente da história do país investigado por crimes comuns durante o mandato.
A Gioconda, "primeiro sorriso burguês", foi substituída por um retrato do Getúlio... Risos, que não superaram a gargalhada com o "Herdo um tostão de cada morto nacional."
Houve acréscimos, e corte de um breve trecho mais homofóbico de Oswald de Andrade no segundo ato (aliás, por causa de uma brincadeira desse tipo, Mario de Andrade nunca se reconciliou com ele). Entre as atualizações, a mudança dos nomes dos clientes de Abelardo I: agora, temos a reforma das dívidas de políticos tucano, e o protesto das do PT; "manda o Moro fazer a penhora". Riu-se bastante com "Dura lex, aprendi isso na Faculdade de Direito!", outra fala sempre atual.
No primeiro ato, "Nem pão, quanto mais sabonete", que Abelardo II diz a propósito do que não se dá aos pobres, virou "Nem ração, quanto mais sabonete"; mais uma referência ao Doria aconteceu no segundo ato, com as privatizações que ele deseja fazer.
Acréscimos foram as referências a uma Janaína Natal, "jurista pastora" que não passou no concurso da faculdade, "esse negócio de fazer tese de advocacia com Bíblia não dá"; ela aprovaria as milícias fascistas. Entre os biografados de Pinote, apareceu "Carmen Lúcia", uma juíza, "é uma coisa inofensiva". O Americano tornou-se uma caricatura de Trump (perfeita para a fala "Oh! good business!"; a atualização do capitalista não traiu em nada o original), e Perdigoto, o fascista, um conhecido político fascista carioca. Como alienação é mato, cheguei a ouvir a discussão de um grupo de espectadores, no intervalo, ponderando quem seria a figura...
As milícias fascistas rurais já estavam no texto de Oswald, e continuam no Brasil das Bancadas Pró-Escravismo (que atende pelos interesses daqueles empresários que devastam o meio ambiente, grilam terras, promovem massacres contra camponeses, indígenas, quilombolas, ambientalistas e defensores de direitos humanos) e Pró-Chacina (que propugnam pelo comércio de armas, pela indústria do medo e dos serviços de segurança, e pela impunidade dos agentes de Estado envolvidos nessas áreas).
No final, o elenco da peça não compareceu para os aplausos. Baixou-se uma tela com texto de Oswald de Andrade dizendo que não queria aplausos. Era o final de outra peça de Oswald de Andrade, A Morta, que coube muito bem para o momento:
Respeitável público! Não vos pedimos palmas, pedimos bombeiros! Se quiserdes salvar as vossas tradições e a vossa moral, ide chamar os bombeiros ou se preferirdes a polícia! Somos como vós mesmos, um imenso cadáver gangrenado! Salvai vossas podridões e talvez vos salvareis da fogueira acesa do mundo!
As pessoas aplaudiram, pararam, voltaram a aplaudir, até que deixaram o teatro. O ato teatral continuava mesmo depois do fim da peça, em um forte gesto de resistência, ou re-existência, como prefere Zé Celso, que me fez lembrar do parecer de Jurema Machado para o tombamento do Teatro Oficina pelo Iphan:
O fenômeno Oficina não é um produto do acaso, mas de um ambiente de notável fertilidade, inclusive com repercussões no presente, a considerar o fato de que, mesmo com todas as transformações desses 50 anos, São Paulo ainda dá lugar ao maior volume de produção, circulação e público teatral do país, da produção mais comercial a mais experimental.
Da mesma geração ou convivendo como o Oficina, tivemos o Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, do dramaturgo Jorge Andrade e de grandes diretores como Antunes Filho e atores como Paulo Autran, Cacilda Becker, Tônia Carrero, Fernanda Montenegro e Sergio Cardoso; o Teatro Maria Della Costa, fundado em 1954, grandes atores e importantes cenógrafos, como Gianni Ratto e Franco Zampari; o Teatro de Arena, que também explorou nova relação palco-platéia, com encenadores como Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Viana Filho e Augusto Boal e atores como Eva Wilma, John Herbert, Flávio Migliaccio, Milton Gonçalves e, mais tarde, Paulo José, Juca de Oliveira, Lima Duarte, Dina Sfat. Também do Arena, a fase de releitura da história brasileira com Zumbi e Tiradentes e a música de Edu Lobo, Caetano, Tom Zé, Gal e Maria Bethânia; o Teatro Ruth Escobar, depredado pela polícia durante a montagem do Oficina para Roda Viva, de montagens antológicas como Cemitério de Automóveis e O Balcão, de produções com Victor Garcia, Jean Genet e Fernando Arrabal. Ainda da geração entre o final dos anos 1960 e o início dos 70, nomes como Plínio Marcos, Antônio Bivar, Zé Vicente, Mário Prata.
Todos foram, indistintamente, atingidos pela repressão política pós 1964. [...]
Quase todos se localizavam no Bexiga – TBC, Maria Della Costa e Ruth Escobar – e o Arena, na Praça Roosevelt. TBC e Arena não mais existem, os teatros Maria Della Costa e Ruth Escobar continuam existindo, não como companhias, mas como salas de espetáculo.
Nesse aspecto, o que distingue o Oficina de todos eles é a continuidade. Não a longevidade, o que já seria muito, mas a permanência com renovação, permanência lastreada no vínculo com o presente, com o lugar, com a Terra – como em Canudos – e com a cidade. E nisso o edifício e sua inserção explicam muita coisa; são, ao mesmo tempo causa e conseqüência.
A "democracia" de hoje surtirá sobre o Oficina efeito parecido com o da ditadura de ontem? Ele não vai se entregar, e é importante que todos o apoiem nesta luta.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Notas sobre ensaio e junk speech



Não me considero um ensaísta, apenas escrevi um livro no gênero faz alguns anos; no entanto, como me fizeram algumas perguntas sobre isso, teci umas poucas considerações sobre o assunto, que muito me interessa.


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O ensaio “comenta sobre”, para usar sua expressão. Esse comentário pode tomar caminhos variados, inclusive perder o objeto, mas essa é uma ousadia para poucos. Ou pode (re)inventar o objeto comentado. O gênero demanda uma liberdade que somente uma cultura muito vasta pode proporcionar e/ou uma capacidade de análise excepcional e/ou uma capacidade de imaginação desconcertante. Há uma passagem de Beatriz Sarlo nos Sete ensaios sobre Walter Benjamin a respeito do método de Benjamin que corresponde ao que me agrada no gênero: “Seu olhar é fragmentário, não porque renuncie à totalidade, senão porque a busca nos detalhes quase invisíveis.”


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Depende do que o ensaísta quiser fazer dele. Um Steiner enfatizará o caráter teórico. Virginia Woolf (“As teorias portanto são coisas perigosas.”) ou Eliot (“Sou apenas um homem de letras que acredita levantar questões interessantes, mesmo que as respostas que dê sejam negligenciáveis.”), a dimensão literária. Um Magris poderá fazer algo mais híbrido, combinando com a ficção. Já em Montaigne o ensaio podia assumir um cunho autobiográfico. Gosto de todas essas possibilidades, todas podem ser ricas em pensamento e engajadas formalmente. Alguns poetas gostam de emular a forma do ensaio, como Alberto Pimenta – e fazem poesia com isso (o “discurso preliminar”, de Os entes e os contraentes). Borges fez o mesmo no conto (“Pierre Ménard, autor do Quixote” é um exemplo célebre). Um dos livros teóricos de Pimenta, por sinal, A magia que tira os pecados do mundo, pela sua liberdade intelectual de relacionar Adorno, Dante e ocultismo, só seria mesmo concebível como coleção de ensaios. Nesse sentido, esse gênero é um espaço de liberdade e, portanto, sua escrita é essencialmente política; cito o livro de Pimenta: “O mundo dos fenómenos é um mundo da necessidade: se a chávena cai, parte-se. O mundo da consciência é livre: inventa e organiza a seu gosto o tempo e o espaço e os fenómenos. A metáfora é apenas uma manifestação da liberdade cognitiva do ser humano; codificar essa liberdade com o intuito de restringi-la é tarefa da polícia do espírito, que durante séculos teve duas corporações: os filósofos e os teólogos.” 
Há hoje outras corporações com essa função; no Brasil, creio que se trate de uma vitória da censura que não seja mais necessário haver um órgão federal para tanto; ocorre aí mais uma economia para o Estado, além de o fato de ela ter sido amplamente terceirizada, por exemplo, pelas milícias fascistoides que estão proibindo obras de arte pelo Brasil e incentivando iniciativas policialescas do tipo “escola sem partido”; ou pelo braço armado das teologias do capital, como o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, censurando com fundamentos alegadamente neopentecostais os cultos de ascendência africana. Esses obstáculos de caráter político e social recaem e recairão sobre o ensaio nas três vertentes a que o problema alude: manifesto, teoria e arte. Nos três casos, poderá haver um pensamento ou uma forma de vida que os fascistoides desejarão silenciar.


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Creio que são pessoas de áreas diferentes, pelas citações com que já me deparei, mas não tenho ideia precisa. Não devo me preocupar com quem é meu leitor, ele deve inventar-se por si mesmo; se meus textos o ajudarem nessa tarefa, justificar-se-ão de alguma forma.


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Muito obrigado pela deferência, no entanto creio que não tenho realmente uma relação com o público. De vez em quando vejo manifestações sobre o que escrevi, mas não estou interessado em compilar ou verificar essas reações. Apesar de poucas, não me sobra energia para tal ocupação. Sei que há autores contemporâneos que dedicam mais energia a isso do que à criação literária, porém não tenho o prestígio dessas pessoas. Estou preocupado com a recepção crítica dos autores sobre que escrevo.


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Sei que há ensaios que se limitam à descrição de textos, no entanto não correspondem aos que me interessam. Sua pergunta me faz lembrar de Montaigne, que é muito interessante. No ensaio sobre os canibais, esse autor afirma que as pessoas com espírito mais fino são mais curiosas, notam mais coisas, porém as comentam e, para persuadir os outros da interpretação que fizeram, alteram um pouco os acontecimentos. A essa objeção, alguém poderia retrucar que o recorte desses acontecimentos, que é o que nos permite contá-los, já é uma forma de alteração ou, melhor, de (re)constituição da paisagem. Talvez um pouco de modificação seja inevitável… Voltando a Montaigne: aos homens de espírito fino, ele diz preferir o testemunho de um homem simples que teria vivido na França Antártica (colônia francesa nas margens da Baía de Guanabara, cuja derrota para os portugueses levaria à fundação da cidade do Rio de Janeiro). É possível que esse homem nunca tenha existido e, assim, que ele não passe de outra manifestação do “espírito fino” do escritor. Isso indicaria, mesmo em Montaigne (não no que diz naquele trecho mas em seu modo de produção, que é o mais importante), que a capacidade de descrever depende da invenção.


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Claro que sim! Somente, porém, se o autor tiver talento, condição que vale, por sinal, para qualquer assunto, em especial para um universo tão complexo quanto o da tevê. Veja o humor da defesa da televisão por Enzensberger em Mediocridade e loucura. É verdade também que não há temas simples (mesmo programas televisivos sem muita imaginação, cuja popularidade há de ser entendida), se se quer realmente enfrentá-los, e sim abordagens simplórias.


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As redes sociais afetaram como assunto, mas não creio que eu já tenha escrito algo de relevante sobre isso. No tocante a suporte de publicação, não creio que constituam um bom abrigo para ensaios, tendo em vista a volatilidade das redes e pelo fato de serem espaços dedicados à desleitura ou à não-leitura, daí os gifs, as fotos, os quadrinhos coloridos com frases supostamente de impacto ou com atribuições errôneas, bem como discussões sem fim e sem posições que façam algum sentido. O etos encorajado pelas redes, de falar sem estudo e pesquisa todo o tempo sobre não importa o quê (junk speech), tornando papos de bêbados em bar algo comparativamente mais intelectual e muito mais divertido, infelizmente vêm contaminando a produção teórica de gerações mais jovens. Talvez se possa chegar à existência de críticos literários que empreguem sua própria ignorância como fundamento (com posições tomadas a partir de “nunca vi isto”, “jamais soube de nada parecido”, "eu nunca tinha lido" etc, e outras magnificações da própria falta de estudo) e acreditem que a humanidade foi fundada pelo livro que chegou a suas mãos agora e, assim, o movimento negro, o monólogo interior, a poesia narrativa, o feminismo e o chapéu seriam reputados criações da segunda década do século XXI.
É claro que nada de avançado ou crítico pode-se fundar com bases tão frágeis, com a negação da história. Tal presenteísmo, como todos os outros, é fundamentalmente acrítico. O risco da magnificação da ignorância, que se tornaria um modo de produção intelectual, parece-me fruto, entre outros fatores, das redes sociais, que têm essa relação tão volátil com a história... Ou mesmo com a semana anterior: em algumas delas, é até difícil buscar textos mais antigos; ademais, nelas ocorre o fenômeno das pessoas tontas demais para verificar a data das notícias que compartilham: certos artistas falecidos voltam a morrer diversas vezes em razão desse fenômeno.
O instantaneísmo exacerbado por essas redes provavelmente afeta a memória e a atenção. Sem ambas, não há produção nem leitura de ensaio.
Eu as emprego apenas para divulgação do que escrevo ou das causas em que acredito, e para saber do que os outros estão a publicar (especialmente o twitter, muito melhor do que outras redes para isso).
Em relação à pós-verdade, não emprego esse léxico, pois fazê-lo seria uma capitulação.


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Trata-se uma pesquisa de sociologia da leitura que já deve ter sido feita mais de uma vez, mas ainda não a li, tampouco a realizei. Em razão de minha ignorância do assunto, não posso ajudá-lo. Se minha opinião for relevante, creio que, como no Brasil a população alfabetizada é tão pequena, o pequeno público para ensaio e para hard news deva coincidir em alguma medida. Creio, no entanto, que seria útil diferenciar entre as subespécies temáticas do ensaio para verificar a hipótese.


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No entanto, fala-se com alguém, quando se escreve um ensaio? Ele se coaduna com a tese kantiana de que pensamos melhor em público, com os outros? E, nesse pensar com os outros, o quanto tenho de imaginá-los já no momento da elaboração do texto?
Montaigne, membro da elite francesa, provavelmente criou um outro, o colono da França Antártica, menos diverso de si do que o outro de que ele falava, os indígenas americanos, que não entendiam como os miseráveis na Europa não se revoltavam e matavam os ricos. No entanto, pôde escrever sobre eles e, nessa abertura, creio que se configura uma generosidade do ensaio (ao contrário do que se chama de "post" nas redes sociais, que não passa, em geral, de mera reiteração de posição pessoal, com muito interesse em ser "curtida", mas pouco em discutir e transigir).
Essa generosidade é necessária também para a vida social, e talvez indique a necessidade do gênero nos dias de hoje. Nesse sentido, as redes sociais talvez realizem o oposto, em razão da tendência à sectarização (ou o que chama de "bolha", favorecida pelos algoritmos, que obedecem à lógica do mercado - que não pode mesmo ser democrática) e, como no jornalismo mais sensacionalista, à criação de frases de impacto para gerar cliques. Em vez de um pensamento em conjunto, estimula-se uma lógica da facção. A discordância parcial é desencorajada, e aquele que discorda é visto como inimigo, que deve ser bloqueado.
Dessa forma, surge esse fenômeno de pessoas, ou "perfis", que comentam sobre tudo, de forma mais ou menos superficial, pois não há outro jeito de fazê-lo, e porque a superficialidade confere o tom necessário para atrair mais seguidores. Esse fenômeno ocorre tanto à direita quanto à esquerda. Imaginem jovens professores que dizem que nunca um presidente foi chamado publicamente de louco no Brasil, exceto a presidenta deposta; alertados de um exemplo tão recente quanto Collor, não corrigem a bobagem curtida centenas de vezes; tentem conceber um ex-roqueiro que fique a espalhar, desdenhando os desmentidos, notícias falsas sobre mortes (fictícias) de grandes especuladores, de fraudes (não verificadas) em eleições etc. Afinal, os campos que desconhecemos são aqueles em que somos, usualmente, mais cheios de certezas.
Creio que interessa menos o absurdo conteúdo dessas afirmações do que a sua nefasta ética de produção: fala-se sem nenhum compromisso com as fontes da informação (muitas vezes disseminam-se notícias falsas sem pudor algum, especialmente veículos de "imprensa", à esquerda e à direita, que apenas estão a fazer campanha), com sua veracidade e/ou verossimilhança. É interessante notar que esse tipo de leviandade faz-se presente também nos textos em redes sociais de pesquisadores, jornalistas e professores, pessoas que deveriam ter aprendido a checar dados e a analisar textos. A má-fé confirma-se, nesses casos, quando a pessoa se depara com o desmentido e prefere manter as informações falsas ou bloquear quem alertou.
É claro que tudo isso se espalha porque o falso tornou-se um mercado importante para as grandes corporações e para os partidos políticos. Hannah Arendt (minha ensaísta favorita), no ensaio sobre a mentira na política (recolhido no Crises da República), ao notar que grande parte das informações que o governo havia tentado ocultar já tinha sido divulgada pela imprensa, comentou que "so long as the press is free and not corrupt, it has an enormously important function to fulfill and can rightly be called the fourth branch of government." As duas condições que a autora destacou, infelizmente, estão em crise mais aguda, uma vez que a própria imprensa tem participado ativamente e lucrado com a corrupção da verdade. Pode-se acrescentar a esse quadro a crescente fraqueza intelectual do jornalismo, que tornou até a ortografia motivo de apreensão. A nota que escrevi no fim de 2016 sobre "apequenamento da imprensa, estreitamento da literatura" trata disso.
Esse é o tipo de esfera pública que se forma nesses grandes conglomerados privados que são as redes sociais, evidentemente mais interessadas com o lucro do que com outras considerações. Não à toa, essa dinâmica é tão favorável à difusão de ideias fascistoides: no seu modo de produção, ela apresenta semelhanças à sociedade autoritária que aquelas facções desejam implantar. Os políticos já o notaram, a imprensa de direita e os defensores de execuções extrajudiciais não perdem tempo a espalhar notícias falsas, como, no infame caso de censura que envolve MBL e Santander contra as obras do QueerMuseu.
Recente matéria do programa de Gregório Duvivier apresentou algumas das informações falsas propagandeadas pelo MBL (pró-direita e contra direitos humanos, claro), e que o Truco, da Agência Pública, desmentiu. A réplica do MBL é típica de junk speech: afirmaram que estavam sendo "censurados" com a verificação de fatos e mandaram a imagem de um pênis de borracha: https://www.youtube.com/watch?time_continue=249&v=V4E0yXQeI2Y. Parece uma discussão comum de facebook, ao nível do qual a discussão política parece ter sido rebaixada.
Chamo junk speech em analogia à junk food: um discurso rápido de engolir, com uma atratividade superficial e calorias vazias (pode ser composto de uma figurinha, com uma frase ou não, com atribuição correta ou não, com erros de sintaxe e ortografia ou não) e que envenena a esfera pública. Seu sucesso faz compreender a facilidade da proliferação e o sucesso dos robôs nas redes, contratados por partidos políticos e outras organizações empenhadas na destruição da esfera pública. O baixíssimo grau de inteligência e a agressividade nos intercâmbios virtuais faz com que esses robôs pareçam verossímeis.
Urge, pois, encontrar novo uso das redes, debate que deve ser acompanhado da discussão sobre o direito digital e o bloqueio das iniciativas do capital contra a abertura e a neutralidade da internet - se estas se forem de vez, as possibilidades de esfera pública aí estarão ainda mais perdidas.


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Outra questão seria a relativa raridade do gênero ensaio no direito brasileiro. Às vezes, deparamo-nos com textos que levam indevidamente o nome de ensaio, pois não passam de artigos frouxos, sem a escrita mais livre e a aventura intelectual próprias do gênero. Além da evidente falta daquela generosidade, a falta de pensamento também corresponde a um impeditivo sério em um meio em que magistrados decidem contra fundamentos científicos para impor uma fé pessoal, em que os tribunais sistematicamente negam seus precedentes e sabotam as exigências constitucionais e legais de fundamentação das decisões, e, especialmente, em um habitus de culto à autoridade desde a formação jurídica, em que se aprende a seguir o dominante (jurisprudência, autor, editora etc.) e a chamar de doutrina o que faria o papel, em áreas menos infensas à reflexão, da teoria (cujo nome, ao menos, é ressalvado).
Note-se também a atuação de magistrados em espalhar informações falsas sobre a Justiça brasileira (contra os direitos sociais), bem como o acolhimento pelo Ministério Público de divulgadores de notícias falsas na condição de palestrantes. Vejam este breve resumo de Pedro Abramovay: https://twitter.com/marcelorubens/status/888057086793457665; falas desse movimento ocorreram neste ano à convite do MP do Rio de Janeiro e em evento do Ministério Público Federal de Goiás.
Raras vezes o meio jurídico nacional trabalhou em prol da democracia. Deve-se lembrar que estamos sofrendo a presidência de um jurista professor de direito constitucional. Não é de estranhar que nesse campo hostil ao pensamento o junk speech tenha encontrado solo fértil, ao contrário do ensaio.


P.S.: Os primeiros pontos, escrevi-os para responder a uma enquete de Gustavo Frank, por indicação de Heitor Ferraz Mello.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

A perda da terra e a poesia contemporânea brasileira

Escrevi no ano passado um texto para uma revista portuguesa sobre a perda da terra e a poesia brasileira contemporânea. Felizmente, o texto acabou saindo em outra, uma das melhores de literatura que temos hoje em nossa língua, a portuguesa Cão Celeste (número 10, dezembro de 2016). O periódico é publicado pela Averno, por onde saiu a primeira edição do meu livro Cálcio.
No texto, aludi a autores que tratavam, nos poemas que escolhi, da perda da casa (Leonardo Gandolfi), da perda da cidade (Fabio Weintraub, Annita Costa Malufe, Ricardo Rizzo), do país (Eduardo Jorge, Angélica Freitas, Paloma Vidal), do continente (Josoaldo Lima Rêgo) e do planeta (Marcelo Ariel).
Quis escolher essas questões já que estamos experimentando um momento de perda do país, sequestrado por criminosos (isto é, a face política do mercado) e pelo exército de reserva do fascismo, agora a censurar obras de arte.
É claro que, quando escrevi, no ano passado, a situação era bem menor pior. O que se chama de país está a degringolar a olhos vistos e vazados. Ademais, perde-se também o mundo, na banalização da catástrofe, fruto abundante do devastador modo de produção econômica.
Depois, para livro organizado por Gustavo Silveira Ribeiro (que me havia feito o convite inicial para a revista que não deu certo) e Tiago Guilherme Pinheiro, ainda inédito, ampliei o texto e, especialmente, acrescentei os poetas Reuben da Rocha e Dennis Radünz, bem como considerações sobre o último e brilhante livro de Annita Costa Malufe, que aparecia antes de forma um tanto lateral, eis que o tema somente havia aflorado no livro anterior.
Como se tratava de um simples texto panorâmico, citei poucos nomes na condição de críticos: apenas Cremilda de Araújo Medina, Eduardo Sterzi, Priscila Figueiredo, Robert Schwarz, Walter Benjamin, Machado de Assis e Sérgio Alcides.
Sei que não é fácil achar o Cão Celeste no Brasil. Se alguém quiser ler o meu pequeno artigo nesta versão, o que será interessante se, por acaso, não conhecer algum dos poetas mencionados, basta clicar nesta ligação.



quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Desarquivando o Brasil CXXXVIII: Ações anti-indígenas de Delfim Netto

Em evento da FFLCH/USP para pensar o Brasil contemporâneo, um dos mencionados na Lava-[a]-Jato foi chamado, Delfim Netto, que certamente representa o que a instituição e alguns presidenciáveis (como este) reconhecem de mais atual no pensamento econômico.
Imagino que ele não tenha sido por causa das últimas notícias, mas porque não houve justiça de transição no Brasil.
Eu estava em outro evento na FFLCH, "Memória, Verdade e Justiça: Passado e Presente na América Latina", e falei sobre "Genocídio indígena e ditadura militar: extermínio, a outra face do desenvolvimentismo".
Achei que seria polido abrir a fala com citações do homenageado do outro evento. Em 29 de janeiro de 2007, a revista Veja publicou entrevista em que o economista teceu considerações como esta a partir de uma pergunta sobre o PAC:
Veja o caso do complexo hidrelétrico Belo Monte, no Rio Xingu. Por mais nobre que seja a questão indígena, é absurdo exigir dos investidores que reduzam pela metade a potência de energia prevista num projeto gigantesco porque doze índios cocorocós moram na região e um jesuíta quer publicar a gramática cocorocó em alemão. Com o plano, o presidente tenta abordar essa e outras questões.
A referência grotesca aos índios e a suas estruturas linguísticas, bem como ao interesse protetor da Igreja Católica, parecem sinais do baixo grau de nobreza com que o economista trata desses povos. O presidente referido era Lula, que determinou a construção da hidrelétrica, empreendimento contaminado de múltiplas ilegalidades.
Em coluna de um sítio do Uol, o Glamurama, em 30 de junho de 2010, Delfim defendeu novamente Belo Monte. Como de esperar, escreveu lugares-comuns absurdos sobre a antropologia e os povos indígenas que, em razão de sua falta de qualquer base científica, são muito convenientes para grileiros e outros que desejam tomar as terras indígenas: menciona "antropólogos engajados, que chegam ao extremo de exigir que os povos indígenas, mesmo contra sua vontade, devem conservar a sua atual forma de viver e construir uma espécie de santuário antropológico para observação dos que se pensam civilizados"; bem como a ideia de "que aquelas etnias, justamente protegidas constitucionalmente por reservas adequadas, constituem 'estados soberanos' que podem declarar guerra ao Brasil ou decretar a sua independência"; ela "é ridícula, mas constitui uma ameaça à nossa integridade física e um problema de segurança nacional".
A nulidade científica do economista nesses assuntos conviria tão bem a esta Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas? Ou a referência à segurança nacional teria sido o que mais atraiu a instituição?
Em seguida, mencionei repercussões do engajamento do economista em Belo Monte: notícias como "Delfim Netto recebeu propina por Belo Monte, diz executivo da Andrade" (publicada em 7 de abril de 2016 da Folha de S. Paulo; o executivo trabalha na Andrade Gutierrez); "PMDB ordenou propina a Delfim Netto por Belo Monte" (Estado de S.Paulo, 15 de junho de 2016; agora, a empreiteira é a Camargo Corrêa); felizmente, ele negou essas acusações, e pôde explicar, sobre outras quantias, no âmbito da "Lava-[a]-Jato" à Polícia Federal, "Delfim Netto admite à PF que recebeu R$ 240 mil em espécie da Odebrecht", que presta assessorias à Odebrecht mesmo sem contrato formal, e que não sabia que estava a ser pago pelo setor de propinas da empreiteiras. Mesmo depois de tantas décadas de experiência, ainda se pode ser surpreendido.
O que não deve constituir matéria de surpresa são as consequências genocidas do desenvolvimentismo da ditadura militar. Já expliquei isso várias vezes; neste artigo, "Povos indígenas, segurança nacional e a Assembleia Nacional Constituinte":
A Funai foi uma criação da ditadura militar, com a finalidade de substituir o antigo SPI, que havia se tornado uma entidade de extermínio, como foi comprovado no chamado Relatório Figueiredo. [...]
Muitos desses crimes estão ligados a projetos desenvolvimentistas. No caso dos Waimiri-Atroari, temos, entre outros fatores, a abertura da BR-174 (a rodovia Manaus-Boa Vista), um dos elementos do projeto de “integração” da Amazônia. [...]
A militarização desses projetos de colonização decorre da posição do desenvolvimentismo na doutrina de segurança nacional: o desenvolvimento traria mais “poder” ao país e, com isso, mais segurança (FERNANDES, 2013). A militarização da própria Funai foi um dos meios para que o Estado brasileiro se transformasse em um grande “esquadrão da morte”4 contra os índios. Outras órgãos ou entidades estatais participavam disso, como o Conselho de Segurança Nacional e o Incra, que “não só era um invasor de terra indígena, como ladrão de madeiras”, segundo Sydney Possuelo, sertanista e presidente da Funai entre 1991 e 1993 (MILANEZ, 2015: 227). 
Ou "Segurança nacional e os povos indígenas, ontem e hoje". Neste blogue, em mais de uma nota. Não faz sentido separar as áreas militar e econômica, uma vez que os projetos desenvolvimentistas obedeciam a uma lógica da segurança, e requeriam a violência para sua implementação. Neste caso, a remoção violenta de povos indígenas, etnocídio e genocídio.
Melhor do que ler o que escrevi, porém, seria estudar os relatórios (e continuar as pesquisas) das Comissões da Verdade que trataram do genocídio, e de como a ditadura militar baseava-se em crimes contra a humanidade: o da Nacional e os das Comissões do Amazonas, do Paraná e de São Paulo. Creio que outros Estados (ainda) não fizeram o mesmo. Até a Comissão do Amapá, que entregou seu relatório neste ano, deixou de lado os povos indígenas.
Depois dessas referências, eu achei que seria polido fechar a fala com referências ao economista. Muito se diz dele a respeito da repressão política, do AI-5, da espoliação dos trabalhadores brasileiros com a concentração de renda promovida durante a ditadura; ele de nada se arrependeu. E afirmou, perante a Comissão da Verdade "Vladimir Herzog", da Câmara Municipal de São Paulo, sobre o aI-5, que "Se as condições fossem as mesmas e o futuro não fosse opaco, eu repetiria."; curiosamente, ele afirma que não há relação necessária entre suspensão do habeas-corpus e violência policial, em um país em que essa violência existe mesmo quando este instrumento jurídico está presente.
Penso, porém, que que o quadro fica incompleto sem suas ações anti-indígenas.
Há muito para levantar. Egon Heck, na dissertação Os índios e a caserna - políticas indigenistas nos governos militares - 1964 a 1985, trata do impacto de Delfim Netto, no governo de Costa e Silva, sobre as políticas indigenistas:
Para o governo, a ocupação efetiva do espaço amazônico é assunto altamente prioritário, e nenhum plano de organização terá validade, se não contar com o apoio decisivo das forças armadas. É a chamada "conquista e desenvolvimento da Amazônia".
Essa proposta de ocupação e desenvolvimento da Amazônia se dá no marco do "milagre brasileiro", que começa a ser implantado sob o comando de Delfim Neto.
Nestes dois anos, houve uma quase total paralisia das atividades do Estado, com relação aos índios. A verba para atividades do SPI, em 1967, só foi liberada em outubro. E a FUNAI (criada no final daquele ano) só foi instituída em julho, funcionando com um conselho diretor, que tornava as ações praticamente inviáveis [...]
Com quase nenhuma proteção do Estado, as invasões e esbulho das terras aumentaram nesses dois anos. A FUNAI  recebeu apenas um terço da verba do seu orçamento.
Justamente nessa época, como já me referi algumas vezes, ocorreram diversas denúncias no exterior do genocídio indígena no Brasil, que o governo tentou desmentir inclusive com uma visita do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em 1970, que não constatou exatamente o que o governo queria, e sim apontou um processo em que os índios poderiam perecer como membros de uma coletividade e também como seres humanos.

Os massacres já ocorriam, nesse processo de colonização em nome da segurança nacional, que tratava os índios como obstáculos ao desenvolvimento e a Amazônia, como vazio demográfico.
Essas coisas não podiam ser ditas no Brasil (lembremos, por exemplo, do samba-enredo Aruanã Açu, sobre a resistência indígena,  composto por Martinho da Vila para a Unidos de Vila Isabel em 1974, que foi censurado e teve de ser trocado por uma exaltação à Transamazônica). No exterior, porém, as denúncias ocorriam. Ao lado, incluí trecho do Brazilian Information Bulletin de janeiro de 1973 (consultei-o no repositório digital da Brown University) que é claro em afirmar que a "segurança nacional" era um pretexto para eliminar aqueles que se revelassem uma ameaça ao rápido desenvolvimento, e que a "integração nacional' significava a eliminação dos índios, sem mexer na arcaica estrutura agrária.
O "milagre" assassinava. Ainda não consegui achar uma publicação de 1983 da Secretaria de Planejamento, em que Delfim, já em meio ao desastre de sua gestão econômica durante o governo de Figueiredo, justificava-se: "Não olhe só a dívida: Veja o que ela representa: Itaipu, Tucuruí, o programa siderúrgico, os metrôs, Caraíba, a petroquímica, Tubarão…"
É muito significativo que ele tentasse justificar sua obra justamente com empreendimentos que geraram graves violação de direitos dos povos indígenas. Ele começa com Itaipu, que está ligada ao genocídio do povo Xetá ("que foram quase completamente exterminados" para a construção da usina; remeto novamente ao relatório da CNV) e à remoção forçada e morte de vários Guaranis.
Delfim, em segundo lugar, lembra de Tucuruí, que afetou gravemente os Paranakás e o povo Akrãtikatêjê, removido "por meio de violência psicológica e física, manipulação de lideranças indígenas e desagregação social do povo akrãtikatêjê por parte da Eletronorte e Funai, causando perdas materiais e culturais irreparáveis" (CNV).
A lista é longa. Para relembrar algumas referências a Delfim nesses tempos, pesquisei algumas das matérias do fundamental Porantim no imprescindível Armazém Memória.

Nesta notícia do Porantim (Ano II, n. 9, julho 1979), Delfim, ainda na condição de Ministro da Agricultura (logo tomaria o Ministério da Planejamento), ameaçava as terras indígenas com a proposta de que pequenos e médios grileiros de terras indígenas pudessem receber financiamentos públicos.

Nesta edição (Ano IV, n. 33, outubro 1981), diz-se que "homens enviados pelo Ministro" adquiriram a fazenda "Giro Morimoto", e que isso afetaria as terras do povo Nambikwara (ou Nambiquara), ameaçadas pela BR-364. Não encontrei nenhuma outra referência a Delfim no caso
Esse povo foi vítima de emissão de certidões negativas pela FUNAI e de remoções forçada pelo próprio governo brasileiro, na qual morreram vários de seus membros. No relatório da CNV, lemos que "Entre 1970 e 1971, o vale inteiro já estava tomado pela pecuária./ Os grupos mais atingidos pela ocupação das empresas agropastoris foram os índios que permaneceram no Vale por não terem suas terras asseguradas. O resultado foi uma epidemia de sarampo que matou toda a população nambikwara menor de 15 anos."
Em 1984, o Supremo Tribunal Federal fez a etnia recuperar suas terras no Vale do Guaporé, tomadas por Antonio Morimoto e empresários paulistas. Não há menção a Delfim Netto.

Este é outro jornal, A Notícia (edição de 9 de setembro de 1983). O único deputado federal indígena da história do Brasil, Mário Juruna, pediu ao ditador João Figueiredo a exoneração de Delfim, no que não foi atendido (de fato, foi mantido o responsável pelas desastrosas políticas que endividaram o país e alavancaram inflação), tampouco na criação de um Ministério do Índio.
Voltando ao Porantim. Há outras notícias, mas incluirei apenas outras duas, de tempos posteriores à democratização sem justiça de transição, que gerou esta democracia de pernas bambas.
Delfim Netto ainda cumpriria mandatos de deputado federal, até não conseguir eleger-se mais. Manteve, porém, seu prestígio entre governos federais e grandes empresas.
A Constituição de 1988 previu um processo de revisão cinco anos depois da promulgação. Alguns parlamentares tentaram aproveitar a oportunidade para apresentar propostas anti-indígenas, entre eles este então representante do Estado de São Paulo, Delfim Netto.

Ele e outros deputados "propuseram que as demarcações fiquem condicionadas à prévia autorização ou audiência do Congresso Nacional" (Guimarães, Paulo Machado. A polêmica da demarcação. Porantim. Ano XVI, n. 161, agosto 1993).
Tratava-se já da ideia de conferir competências relativas à demarcação de terras indígenas ao Congresso Nacional, que daria na famigerada PEC 215, um dos mais nefastos projetos anti-indígenas em trâmite.
O Porantim ainda realizaria outra matéria longa (Damasceno, Felisberto A. Os perigos da revisão. Porantim. Ano XVI, n. 162, jan./fev. 1994) sobre esses projetos de esvaziamento dos artigos 231 e 232 da Constituição (Jair Bolsonaro foi citado entre os que parlamentares contrários aos interesses dos povos indígenas).
Ela incluiria uma pequena série de fotos dos parlamentares autores de projetos que ameaçavam as terras indígenas. Sem terra, esses povos não sobrevivem. Não por acaso, os movimentos indígenas chamam atualmente a PEC-215 de "PEC da morte".
Dessa forma, estes parlamentares foram chamados, sem obedecer à estrita técnica jurídica, mas segundo uma metonímia poética, de "genocidas de plantão":


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