O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

"Se o dia D/ fosse o mesmo que aDia"

I

Se o Dia D
fosse o mesmo que aDia
a luz, o sol, o ciclo das coisas
que esperam a noite rasa dos corpos insepultos
acabar?

Se a letra D do Dia D
fosse a mesma que arDia
na febre que os corpos
para a noite rasa da putrefação ao relento
arrasta?

Se a Hora H
fosse a mesma da bomba,
que general acertaria o próprio relógio
pelo instante que 
exploDia?

Se a Hora H
e o Dia D
fossem anunciados
por quem combate o
ABC?

Seria um filme B. Besta, bosta. 
Basta.


II

As 
Armadas
Anunciam: os
Ares
Agora
Assumem o pau de
Arara

Aprendem
A
Assassinar
A
Aviltar os
Arfantes
Aprisionados
Ao
Aço da
Agonia

Antes do
Apagamento do
Apagão
À vista 

As 
Armadas
Arquitetam

Alterar
A
Atmosfera em
Asfixi
a


III

Se assassinos são eleitos,
nem os túmulos se salvam,
também a democracia
morre após assassinar,
e a morte chora sozinha

trocada por um meme
por robôs multiplicado
mais eficaz do que ela
para que os homens enfim
se reclinem sobre a terra.


IV

Verme e
Vírus à
Vista

Verme e
Vírus
Vêm

Veloz a 
Voragem

Vasta a de-
Vastação

Voraz é a 
Vitória e a
Voracidade
Venceu

Várias
Vítimas de-
Voradas

Vírus e
Verme
Vomitam


V

Impuseram o segredo
ao exame de fezes do verme:
infecto pelos fascistas.

Com o veneno correto,
até as fezes do verme
voltarão a ser sadias.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Desarquivando o Brasil CLXXIII: Araguaia e massacre em tempos de pandemia

Em 2016, o então deputado federal que hoje ocupa a presidência da república selou o caráter ilegítimo do processo de soi-disant impeachment da presidenta Dilma Rousseff dedicando seu voto a um criminoso, que fora declarado torturador pelo Judiciário brasileiro. A decisão tinha sido confirmada pelo Superior Tribunal de Justiça.
Agora, em dezembro de 2020, para manter acesa a chama golpista e misógina de seus admiradores e/ou cúmplices, voltou a atacar Rousseff, o que gerou seu protesto em 28 de dezembro, "Índole de torturador", que destaca a dimensão coletiva da ofensa: "Bolsonaro não insulta apenas a mim, mas a milhares de vítimas da ditadura militar, torturadas e mortas, assim como aos seus parentes, muitos dos quais sequer tiveram o direito de enterrar seus entes queridos."
Insulta e rebaixa o país inteiro, evidentemente. No dia seguinte, 29, vinte e três ex-presas políticas, entre elas Amelinha Teles e Crimeia Schmidt de Almeida, publicaram sua carta de apoio a Dilma Rousseff. Destaco este trecho:
O Estado foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, em 2010, pelos crimes de tortura e desaparecimento forçado de militantes políticos que ousaram defender as liberdades políticas e a democracia durante a ditadura militar (1964-1985).
Nós mulheres, ex-presas políticas, que nos rebelamos e resistimos  contra o autoritarismo da Ditadura Civil Militar que impuseram à sociedade brasileira naquele período, vimos repudiar estes atos e demandar que as instituições democráticas do Estado Brasileiro tomem as providências cabíveis.
Não permitiremos  que nosso país mergulhe de novo no fascismo e no obscurantismo.
Em defesa da democracia, das liberdades políticas e pelo fim da tortura e dos desaparecimentos forçados! 
A carta chama a atenção para a condenação em caso movido pelos Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, um exemplo de ativismo judicial dos movimentos sociais. Neste ano, a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Gomes Lund e outros, sobre a Guerrilha do Araguaia, completou dez anos. No entanto, ela continua largamente descumprida pelo Estado brasileiro, que não investigou nem responsabilizou os agentes dos atos da repressão, tampouco encontrou os restos mortais dos desaparecidos, com pouquíssimas exceções.
As militantes também chamam atenção para a continuidade dos crimes de tortura e desaparecimento forçado. Trata-se de um dado crucial, pois eles continuam a ser praticados por agentes do Estado ou por seus colaboradores e parceiros (como as milícias urbanas ou rurais que compartilham a "gestão" de territórios no país), e parecem necessários para a manutenção de uma sociedade tão desigual quanto a brasileira.
Creio que algumas das razões para a invocação persistente, em chave negacionista, da ditadura militar pelos poderes instituídos decorrem dessa necessidade operacional da gestão policial do Estado, e da exigência ideológica do culto à morte ou ao extermínio. Falei disso em agosto deste ano com apoio em Hannah Arendt em uma "live" que o Centro de Estudos Hannah Arendt da USP apagou.
Esse negacionismo apoia-se, como se viu na época da ditadura militar, em uma visão conspiracional, paranoica da realidade, que alimenta ideologicamente a extrema-direita. Citei naquele momento Leônidas Xausa por intermédio do livro Universidade e repressão: os expurgos na UFRGS, que a L&PM e a ADUFRGS lançaram em 1979:


A farsa da extrema-direita de hoje acentua-se no fato de buscar os mesmos bodes expiatórios daquela dos anos 1950 e 1960, os comunistas, hoje, como antes, amalgamados a outros grupos indesejáveis de natureza diversa, como feministas, negros, ecologistas, indígenas, LGBT etc. O impulso de negação da realidade fundamental para este processo, neste ano de 2020, chegou aos requintes de produção milionária e estocagem de remédios não eficazes pelas Forças Armadas para uma pandemia que, alegadamente, não existe ("gripezinha") e que, embora inexistente, teria sido criada por um país oriental para a dominação mundial pelos... comunistas.
Em mais de uma vez, inclusive em dezembro, Bolsonaro homenageou ou mencionou Ustra, judicialmente declarado torturador. Como se sabe, ele morreu em 2015, antes de ver um fã tornar-se presidente da república. Em maio de 2020, o chefe de governo reuniu-se e elogiou outro agente de graves violações de direitos humanos da ditadura militar, Sebastião Curió. Criminoso confesso, confirmou à imprensa em 2009 a execução extrajudicial de 41 pessoas durante a Guerrilha do Araguaia, época em que era major. Depois, ele fez carreira com a exploração de Serra Pelada e do trabalho dos garimpeiros, com a correspondente devastação ambiental. Em coluna publicada em 2020, "Fogo no Pantanal e na Amazônia mostram a verdadeira política econômica de Bolsonaro", Celso Rocha de Barros bem viu na devastação uma das convergências entre Curió e Bolsonaro.
O Ministério Público Federal tentou processá-lo em 2012, mas a ação não foi acolhida por causa da interpretação que o Supremo Tribunal Federal impôs à Lei de Anistia. Destaco dois trechos:







A violência foi infligida não só aos guerrilheiros, mas à população local, inclusive os povos indígenas. Como as operações violaram até mesmo o próprio direito da ditadura (para não falar das normas internacionais sobre combatentes, também descumpridas), o efeito da impunidade somente seria atingido com a extensão inconstitucional da anistia aos agentes graves violações de direitos humanos. 
Essa extensão indevida foi realizada pelo Judiciário brasileiro em 2010, em julgamento cujos recursos dormem atualmente nas gavetas do Ministro Luiz Fux. A Constituição de 1988, no Ato da Disposições Constitucionais Transitórias, havia expressamente limitado a anistia às vítimas da ditadura.
Como virou moda, ao menos desde aquela ocasião, ignorar o texto constitucional para decidir (a Lava-[a-]Jato confirmaria esse método), cito-o aqui:
Art. 8º. É concedida anistia aos que, no período de 18 de setembro de 1946 até a data da promulgação da Constituição, foram atingidos, em decorrência de motivação exclusivamente política, por atos de exceção, institucionais ou complementares, aos que foram abrangidos pelo Decreto Legislativo nº 18, de 15 de dezembro de 1961, e aos atingidos pelo Decreto-Lei nº 864, de 12 de setembro de 1969, asseguradas as promoções, na inatividade, ao cargo, emprego, posto ou graduação a que teriam direito se estivessem em serviço ativo, obedecidos os prazos de permanência em atividade previstos nas leis e regulamentos vigentes, respeitadas as características e peculiaridades das carreiras dos servidores públicos civis e militares e observados os respectivos regimes jurídicos.
A falta de responsabilização de Curió e outros, pois, repousa na negação judicial da Constituição da transição democrática, bem como do Direito Internacional dos Direitos Humanos. No entanto, como a imprescritibilidade da responsabilidade do Estado nesses casos foi reconhecida até mesmo pelo Judiciário brasileiro (Recurso Especial nº 1.815.870 - RJ), por causa desses agentes da repressão, o Estado é obrigado a pagar indenizações.
O PSOL informou a Corte Interamericana de Direitos Humanos do elogio ao Curió, tendo em vista que ele implica violação da sentença do caso Gomes Lund. Na Justiça Federal, foi proposto ao menos um processo. Alguns jornais ignoraram o nome das propositoras da ação: Laura Petit da Silva, Tatiana Merlino, Angela Mendes de Almeida, Maria Amélia de Almeida Teles (a Amelinha), Criméia Schmidt de Almeida e Suzana Lisboa (algumas delas, signatárias da carta de apoio a Dilma Rousseff). O pedido foi acolhido em dezembro de 2020.
Causando surpresa em ninguém, a Advocacia-Geral da União resolveu recorrer, afirmando que há "intepretações divergentes" sobre os fatos históricos. Sim, sempre há, mas nenhuma legítima. O Estado brasileiro foi condenado pelo seu próprio Judiciário e pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por causa dos crimes que cometeu no Araguaia. É improvável a boa-fé do condenado que faz o elogio público de seus próprios malfeitos, nunca cumpriu a sentença nacional nem a internacional e já produziu, em tempos muito melhores, um documento oficial, com provas, de que Curió foi um dos agentes de graves violações de direitos humanos. Trata-se do relatório da Comissão Nacional da Verdade.
A Advocacia-Geral da União tem assumido o papel histórico de defender os crimes do Estado brasileiro. Dessa forma, em 2003, no governo Lula, apelou contra a sentença que condenou para não ter que entregar as informações das Forças Armadas sobre a Guerrilha do Araguaia. O acórdão da Corte Interamericana destacou esse fato:
206. Igualmente, na mesma sentença, a Juíza ressaltou que não cabe negar a importância histórica dos fatos do caso e que “tempos como aqueles, de […] violação sistemática de direitos fundamentais, não devem ser esquecidos ou ignorados”.314 Indicou que “a informação prestada pela [União] é o que permitirá o acesso dos [a]utores aos restos mortais de seus familiares” e que, “se o aparato estatal agir de maneira que violações de direitos humanos fiquem impunes e não se restabeleça a vítima (na medida do possível) na plenitude de seus direitos, o Estado viola suas obrigações convencionais no plano internacional”.315 Ressaltou que os fatos citados na Ação Ordinária constituem “gravíssimas violações de direitos humanos” e, aplicando jurisprudência deste Tribunal, determinou que a verdade sobre o ocorrido deveria ser relatada aos familiares de maneira pormenorizada, já que era seu direito saber o que realmente ocorreu.316 Como consequência do anterior, a Juíza Federal de Primeira Instância solicitou à União que suspendesse o sigilo e entregasse todas as informações relativas à totalidade das operações militares relacionadas com a Guerrilha.317
207. Em 27 de agosto de 2003, o Estado Federal, por meio da Advocacia-Geral da União, interpôs uma apelação contra a referida decisão, na qual, inter alia, questionou o levantamento do sigilo dessas informações e reiterou que o pedido dos autores estava sendo atendido mediante a Lei nº 9.140/1995.318 Informou também que a Comissão Especial, no marco de aplicação da referida lei, “requisitou e recolheu documentos e informações provenientes das Forças Armadas e de outros órgãos públicos, além de ter realizado missões na Região do Araguaia para levantamento de informações e busca de restos mortais das pessoas desaparecidas”.319
Registre-se que a brilhante magistrada que falou dos fatos que não devem ser esquecidos ou ignorados chama-se Solange Salgado. Em 2009 o recurso protelatório do Estado brasileiro foi negado. No ano seguinte, viria a condenação pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.
A defesa dos crimes de lesa-humanidade e o descumprimento do Direito Internacional dos Direitos Humanos, bem como da Constituição da transição democrática, elegeram em 2018 governos feitos a sua imagem e semelhança, com seus reiterados elogios ao crime e ao massacre. 
O massacre, por sua vez, torna-se dimensão institucional da resposta à pandemia, que não termina em 2020. Essa resposta gerou denúncias ao Tribunal Penal Internacional. 
A propósito, a Procuradoria do TPI aceitou em dezembro de 2020 investigar o governo brasileiro por incitação ao genocídio contra os povos indígenas. Veremos se essa denúncia seguirá o mesmo caminho da que os Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos ofereceram à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

"Um ano de vírus,/ dois anos de verme"

I

Um ano de vírus,
dois anos de verme,
todo o corpo
ocupado
como um planeta
sob asteroides.

Um ano de vírus,
dois anos de verme,
um universo
programado
para a implosão
das estrelas.

Um ano de vírus,
dois anos de verme,
os asteroides
trazem a
queda,
não minérios,

a explosão
não gera luz,
mas poeira,
é o que 
resta
das estrelas.

Após um ano
de vírus, o dobro
do verme,
que tempo
resta 
ao corpo,

que corpo
é este mudado
em tempo
medido
em verme
e febre,

no universo
cronometrado
pela poeira,
a imitação
que as estrelas
fazem do vírus?


II

Nenhum universo
na febre medida pelo verme,
apenas colisões do capital
com o sistema imunológico.

Mas o verme vê a febre
e nega o termômetro,
o colapso climático
e até o rubro das chamas

enquanto Roma arde
durante o concerto do vírus
feito só de gemidos
de agonizantes.


III

Morrem completamente isolados.
Com saudade não dos familiares, mas dos ares,
o oposto dos asteroides
que se inflamam
ao atingirem a atmosfera.


IV

Multidões ainda
levantam os gritos e espirros aos céus
orando para o verme,
que infecte todas as camadas geológicas
e logo não se distinga mais
entre a moléstia e a terra,
entre o solo e a devastação,
multidões oram 
por sacrifícios humanos
enquanto são abatidas,
ainda são multidões
essas que gradativamente
caem durante os urros e sussurros
aos asteroides
para que o vírus
torne tudo em pó
e assim todos eles
confundam-se
às estrelas
mortas, porém
vão caindo, e o voo 
das moscas que cobrem seus ossos
será tudo
que conhecerão do firmamento.


V

Um ano de vírus;
para o verme,
um começo de parceria,
quem sabe
uma fábrica de máscaras furadas para pandemias,
uma empresa de festas para febres coletivas,
um armazém do exército para remédios inúteis,
um serviço de disparo de mensagens 
de otimismo, deus e civismo,
mensagens sobre a vileza dos mortos
que caíram inertes
só para desmenti-las.

Verme e vírus
inventam um país
à imagem do empreendedorismo.
Também no sabor blue berry.


VI

O plantão durou dois anos.
Porém levamos mais tempo para descartar o material contaminado no lixo hospitalar.

domingo, 27 de dezembro de 2020

Mundo-Vertigem, antologia da ficção fantástica brasileira por Luiz Bras





Luiz Bras me chamou para participar desta antologia de literatura fantástica brasileira contemporânea, Mundo-Vertigem, por causa do conto "Grito adentro", de Cidadania da bomba.
Fiquei muito surpreso, pois sempre achei este gênero muito além das minhas forças. Concordei, no entanto, não apenas pela oportunidade de estar com ele e os outros autores, mas por pensar que o fantástico é também uma forma de ver o mundo e a literatura, e que, inobstante a situação cotidiana retratada na história, se poderia ver aquele conto, que escrevi em quinze minutos em uma oficina de literatura de Fabio Weintraub, dessa forma.
Acrescento ainda que, se eu tivesse tanto pudor com o que está além de mim, não poderia escrever. Pois a literatura exige um esforço de ultrapassar-se.
Depois de quase um ano de pandemia no mundo, e de dois anos da volta como farsa dos militares ao poder no Brasil, o que ainda pode ser considerado fantástico na literatura? Talvez a mais previsível "normalidade" seja o fantasma que poderia nos causar vertigens com suas alturas inacessíveis do rés do chão.
Segue abaixo o release da obra, já disponível para compra:




Mundo-vertigem

Alink Editora

Luiz Bras (organização)

14 x 21 cm

232 páginas

R$ 37


A coletânea Mundo-vertigem: ficção fantástica brasileira reúne trinta e seis talentos de nossa literatura contemporânea, todos fascinados pelas facetas mais insólitas da existência. Os contos aqui reunidos comprovam que essa nova geração de ficcionistas continua mantendo em altíssimo nível nossa ficção fantástica (às vezes chamada de realismo mágico), gênero impulsionado no século vinte, entre nós, pelos mestres do extraordinário: Murilo Rubião, José J. Veiga, Lygia Fagundes Telles, Victor Giudice, Maria Helena Bandeira, Jamil Snege e outros.


Autores:

Adrienne Myrtes + Alex Xavier + Amilcar Bettega + André Czarnobai + Antonieta Fernandes + Braulio Tavares + Carla Figueiredo Vieira + Carlos Emílio Corrêa Lima + Danielle Martins Cardoso + Eduardo Sabino + Fábio Fernandes + Helen Fadul + HelO Bello Barros + Isabor Quintiere + Ivan Carlos Regina + Ivan Nery Cardoso + João Paulo Parisio + Manoel Herzog + Márcia Barbieri + Marne Lúcio Guedes + Nathalie Lourenço + Nelson de Oliveira + Pádua Fernandes + Patricia Galelli + Rafael Sperling + Regina Junqueira + Rodrigo Garcia Lopes + Romy Schinzare + Rosana Rios + Santiago Santos + Sidney Rocha + Silvia Camossa + Sofia Soft + Tereza Yamashita + Veronica Stigger + Wilson Alves-Bezerra



Alink Editora

alinkeditora@gmail.com

www.alinkeditora.com.br


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Cida Moreira fala no Entreartes


Espero poder entrevistar em 17 de dezembro de 2020 com o professor Marcos Lemos a cantora e atriz Cida Moreira, às 18 horas. O evento é iniciativa do "Entreartes: conversas sobre a literatura brasileira", organizado por Lemos e Simone Rossinetti Rufinoni e ligado ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da USP. Já foram realizadas entrevistas com Zeca Baleiro, Milton Hatoum e Bia Lessa, disponíveis no canal do programa. Nesta ligação, a conversa poderá ser acompanhada ao vivo.
Claro que fiquei muito feliz com o convite. Não falarei disso no momento, mas me lembro da primeira vez que a vi: foi na tevê, no chamado "Festival dos festivais", em que ela defendia "Novos rumos", de Rossini Ferreira e Ana Ivo, uma música de clima brasileiro e antigo (um choro), que não logrou premiação, mas de que gostei muito e foi uma das poucas desse momento que ficou em minha memória. No entanto, só a vi apresentar-se ao vivo depois de mudar-me para São Paulo, neste século.
Era 1985, e ela já tinha muita experiência artística, pois cantava e tocava piano desde a infância e, desde a década de 1970, se envolvera em diversos projetos teatrais importantes, entre eles "A ópera do malandro", além de "Ornitorrinco canta Brecht e Weill". Sua carreira impressionante inclui ainda o cinema e, no campo musical, abrange compositores tão diversos quanto Ligeti e Lamartine Babo, Janis Joplin e modinhas imperiais, Arrigo Barnabé e Custódio Mesquita, Amy Winehouse e Eduardo Dussek, Tom Waits e Hanns Eisler, entre outros. Sua identificação com Kurt Weill e Chico Buarque é muito celebrada.
Na coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, recomendo um volume dedicado a esta artista, escrito por Thiago Sogayar Bechara. Na conversa do Entreartes, buscaremos ouvir esta grande intérprete de Brecht sobre literatura brasileira.


Alberto Pimenta e o Discurso sobre o filho-da-puta de volta, em tempos muito apropriados, ao Brasil

Foi editado novamente no Brasil o Discurso sobre o filho-da-puta, de Alberto Pimenta. Desta vez ele saiu na revista Serrote, número 35/36, publicação do Instituto Moreira Salles.
O livro, como se sabe, é uma das obras mais originais do século passado, e a mais traduzida do autor. Não acho inapropriado classificá-lo de ensaio, tendo em vista o caráter livre e imaginativo que o gênero pode assumir. Após o "plano geral da obra", que já se anuncia genial, abre-se com um poema, a "balada ditirâmbica do pequeno e do grande filho-da-puta":

o pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.

A repetição obsessiva da expressão acaba por normalizar o "palavrão" e realizar o seu significado profundo: demonstrar que esta espécime de ser humano está em todos os lugares, todas as dimensões da vida social, e mesmo entre os leitores deste livro. O gênio de Pimenta na caracterização dos diferentes tipos de filhos-da-puta e de sua atuação nunca foi demasiadamente louvado.
Em homenagem ao momento político do Brasil e aos cheques alimentadores de seus grandes representantes, lembro deste trecho:

que o filho-da-puta especializado em fazer faz um acordo público, é difícil saber se é um acordo público que traz préstimos particulares ou se é um acordo particular feito de prestações públicas, e o mesmo acontece sempre que ele, o filho-da-puta, faz todas as coisas que o filho-da-puta faz, as obras públicas feitas por motivos particulares, os programas de ensino público decretados com intenções particulares, as guerras públicas movidas para obter vantagens particulares, os jornais públicos cujo préstimo é relatar sobretudo os prestígios particulares, os estabelecimentos públicos para ocupações particulares, a assistência pública para lucros particulares, em suma, os negócios públicos feitos para fins particulares e os negócios particulares feitos com meios públicos, e basta.

Há filhos-da-puta especializados em fazer e há aqueles que se dedicam a não deixar fazer; estes habitam, por exemplo, "a secretaria, toda a secretaria da mais baixa à mais alta, não é, como se supõe, o lugar onde se faz, mas o lugar onde não se faz, onde se sonega, onde se põe por baixo do monte o papel que devia estar em cima". Eles cometem esses atos e omissões porque, entre outras razões,

o desejo do filho-da-puta é que ninguém estivesse nunca no meio do novo, do belo, do agradável, porque isso dá satisfação a quem lá está; que ninguém fizesse nunca nada de novo, de belo, de agradável, que isso vem alterar a ordem das coisas, e o filho-da-puta só se sente à vontade quando as coisas estão na ordem e ele à frente delas.

O ódio ao belo e o amor à ordem, sabemos bem que tipo de artista isso dá, e que prêmios e atenções ele recebe.
A Serrote omite que o Discurso teve uma edição no Brasil posterior à portuguesa de 2000. Em 2003, a Achiamé o relançou, duas décadas após a edição de 1983 da Codecri.


Talvez a revista pudesse ter informado que o livro foi levado ao teatro em Portugal neste infausto ano de 2020 (por essa razão, menos infausto), com direção de Fernando Mora Ramos, música de Miguel Azguime e o "quarteto de cordas vocais" Cibele Maçãs, Fábio Costa, Marta Taveira e Nuno Machado. Talvez não, visto que, em razão dos atrasos causados pela pandemia, o espetáculo teve a estreia adiada. Os tempos estão bem difíceis também para os trabalhadores do teatro e da música, para não falar da ópera.
Falando neste assunto, o que faria o filho-da-puta diante deste problema mundial de saúde pública? Imagino, em exercício abstrato de suposição, que o filho-da-puta especializado em não deixar fazer impediria que a população se vacinasse ou mesmo se prevenisse corretamente.
Alcançaria sucesso nesse empreendimento genocida? Ignoro. Precisaria muito da cooperação de seus semelhantes, muitos deles especializados em matar e, outros, em se deixar matar. Quem sabe alcançaria a marca de duzentos mil mortos em doze meses? De tanta omissão e impedimentos, lograria realizar uma ação inaudita. Como escreve Alberto Pimenta sobre o filho-da-puta, "o homem é nosso alvo".