O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

quarta-feira, 22 de março de 2017

30 dias de canções: Ilse Weber e o silêncio do mundo

30 dias de canções

Dia 29: Uma canção improvavelmente composta

"Wiegala", de Ilse Weber. Aqui, na voz de Anne Sofie von Otter, que a gravou no disco "Terezín": https://www.youtube.com/watch?v=cAN5qjcAn8w.
Ilse Weber era uma judia tcheca germanófona, como Kafka. O escritor morreu em 1924, não viu as políticas de invasão, conquista e extermínio que a Alemanha implantaria, que acabaram afetando sua família.
Weber foi assassinada em 1944 no campo de Auschwitz.
O campo de concentração de Terezín, a 60 km de Praga, serviu de propaganda para os nazistas: parte da elite cultural judaica foi levada à força para lá e o campo foi chamado de "assentamento judeu". Representantes do Comitê Internacional da Cruz Vermelha foram levados para verificar suas condições e não perceberam nada de errado.
No entanto, os prisioneiros viviam sob ameaça de deportação para campos de extermínio, o que ocorreu a quase todos, e tinham que realizar exaustivos trabalhos forçados.
Nem todos artistas foram para lá: Schulhoff, por exemplo, foi morto no campo de Wülzburg. 
Não era provável conseguir criar arte em um campo de concentração, no entanto em alguns lugares isso era possível. O pianista italiano Francesco Lotoro já conseguiu gravar parte dessa música. 
Em Terezín, Viktor Ullmann criou a ópera que parodiava o próprio ditador alemão, O Imperador de Atlantis, que é uma obra-prima que lhe custou a vida.
Ilse Weber escreveu poemas no campo de concentração e musicou alguns deles, usando o violão.
"Wiegala" é uma canção de ninar. Quando as crianças de Terezín foram transferidas para Auschwitz, para serem mortas em massa, Weber quis ir com elas, e cantaram a canção na câmara de gás.
A doce letra apresenta três estrofes: na primeira, o vento brinca com a lira e toca suavemente, e o rouxinol canta. Na segunda, a lua é uma lanterna e olha para o mundo. No fim, comenta-se o silêncio do mundo: "Nenhum som perturba a adorável paz./ Durma, minha criança, durma também."; "Como o mundo está silencioso".
No fim, seria o silêncio dos mortos. Por isso, quase escolhi esta música para o trigésimo dia do desafio, a canção que lembra o mundo. Seria, porém, injusto com Ilse Weber e sua coragem.


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável
Dia 10: Manuel Falla e a dor da natureza
Dia 11: De "People" ao povo e Cauby Peixoto
Dia 13: Baudelaire, Duparc e volúpia
Dia 14: Bornelh, o amor e a alba
Dia 15: Rodgers e Hart e o desejo de arte
Dia 16: Piazzolla, Trejo e o irrecuperável
Dia 17: Janequin, ir à cidade que grita
Dia 18: Amin, Garfunkel e outros pássaros
Dia 19: Wolf e Mörike imaginando a ilha
Dia 20: A loucura, Schumann e Andersen
Dia 21: Tiganá Santana e a memória negra
Dia 22: A boca seca da revolução: Miguel Poveda e Narcís Comadira
Dia 23: Encontrar o dia novo, Villa-Lobos e Ferreira Gullar
Dia 24: Bosco e Blanc vs. racismo e censura
Dia 25: Sarah Vaughan e os palhaços
Dia 26: Mahler, o marginal

segunda-feira, 20 de março de 2017

30 dias de canções: Shajarian, o grito contra as chamas, o cantor contra o Estado

30 dias de canções

Dia 28: Uma canção de um artista cuja voz você ama

"Faryad" ("O grito"), de Mohammad Reza Shajarian, sobre poema de Akhavan Saless. Shajarian gravou-a em 2003, porém ignoro se ela é mais antiga.
Para mim, Mohammad Reza Shajarian é o maior cantor do mundo. Tinha, portanto, de escolher alguma música dele, embora eu não entenda nada de sua língua. Vejam-no aqui com seu filho, Homayoun Shajarian, que possui um timbre idêntico ao do pai: https://www.youtube.com/watch?v=Jxt8RuZWRaA.
Neste caso, ele não escolheu um poema da era clássica, mas um poeta moderno, uma dos pioneiros da poesia moderna persa, que morreu em 1990. 
Olhando as versões em francês e em inglês do disco "Faryad: Masters of Persian Music", faço esta versão fuleira:

Minha casa está em chamas. Eles queimam furiosamente o que eu construí, cada folha que plantei, enquanto corro de um ponto a outro em vão e grito, grito.
Do alto de seu teto, meus inimigos se regozijam e gargalham com o espetáculo da destruição e, testemunha desta injustiça, grito, grito.
Com minhas mãos cobertas de bolhas, apago uma chama porém outra se acende. Meus vizinhos despertarão de seu sono profundo para me oferecer uma mão amiga?
E eu grito, grito.

Sua voz é muito impressionante pela capacidade de sustentar frases longas e pela agilidade, além da beleza do timbre. No vídeo, acima, ele tinha mais de sessenta anos (nasceu em 1940). Este outro, em Nova Iorque, foi filmado em 2013 e é sensacional: https://www.youtube.com/watch?v=GnI4R9Bdl3g.
Mohammad Reza Shajarian interessou-se pelas canções clássicas persas apesar de, em seu ambiente familiar islâmico, elas serem encaradas como algo proibido: http://www.npr.org/2010/09/27/130047062/mohammad-reza-shajarian-protest-through-poetry.
Sua filha, Mojgan Shajarian, cantou em seu conjunto, o que é muito mal visto no Irã: uma voz de mulher poderia excitar os homens... Aí ele também desafia interditos.
Como desafiou em 2009, depois dos protestos violentamente reprimidos contra a reeleição de Ahmadinejad, ele juntou sua voz à do povo. O político chamou as multidões de cinza e lama. 
Shajarian declarou que a voz dele era da cinza e da lama, e seguiria sempre assim. E lançou uma música de protesto, "Língua do fogo". Em consequência, suas canções foram proibidas e ele não pode mais apresentar-se no Irã
Foi filmado um documentário, Voice of Dust and Ash, que nunca vi, sobre o incidente. O trailer tem narração e legenda em inglês.
Sobre o banimento, cito a matéria de Shima Sharabi, "Mohammad Reza shajarian: Iran's Most Beloved Banned Singer", publicada dia 18 de janeiro de 2017 no Iran Wire:
It has now been seven years since the Islamic Republic of Iran Broadcasting (IRIB) first banned Shajarian’s voice, photograph and even his name from being broadcast on state-run radio and television. The ban was a punishment for his support for the “wrong” side in 2009’s disputed presidential election. When millions of Iranian people went out on the streets to protest against the official results of the election — which gave Mahmoud Ahmadinejad a second term in office — Shajarian joined them. He released a song entitled Language of Fire to support protesters, posting it online. “Lay down your gun,” the song begins. “I hate this weird shedding of blood. The gun in your hand speaks the language of fire and iron.”
A matéria também conta que, no fim do ano passado, ele descobriu que está com um câncer. As últimas notícias que vi eram a de que estava reagindo bem ao tratamento, felizmente.
Coincidentemente, escrevo esta pequena nota no ano novo persa: . Esperemos que não se repita por mais um ano, a vergonha, imposta pela teocracia, de a maior voz do Irã não poder apresentar-se em seu próprio país.
E que ele cante, cante.


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável
Dia 10: Manuel Falla e a dor da natureza
Dia 11: De "People" ao povo e Cauby Peixoto
Dia 13: Baudelaire, Duparc e volúpia
Dia 14: Bornelh, o amor e a alba
Dia 15: Rodgers e Hart e o desejo de arte
Dia 16: Piazzolla, Trejo e o irrecuperável
Dia 17: Janequin, ir à cidade que grita
Dia 18: Amin, Garfunkel e outros pássaros
Dia 19: Wolf e Mörike imaginando a ilha
Dia 20: A loucura, Schumann e Andersen
Dia 21: Tiganá Santana e a memória negra
Dia 22: A boca seca da revolução: Miguel Poveda e Narcís Comadira
Dia 23: Encontrar o dia novo, Villa-Lobos e Ferreira Gullar
Dia 24: Bosco e Blanc vs. racismo e censura
Dia 25: Sarah Vaughan e os palhaços
Dia 26: Mahler, o marginal

domingo, 19 de março de 2017

30 dias de canções: Schubert e o duplo

30 dias de canções

Dia 27: Uma canção que cancela as canções

"Der Doppelgänger" ("O duplo"), uma das consequências de Franz Schubert ter lido Heinrich Heine. Pena que o compositor morreria pouco depois.
O editor Haslinger, após a morte do compositor em 1828, reuniu postumamente as últimas canções (com exceção de "Der Hirt auf dem Felsen") sob o título Schwanengesang ("Canto do cisne"). Não se trata, portanto, de um ciclo como Viagem de inverno e A bela moleira, concebidos pelo compositor. 
Nesse conjunto, está a célebre "Serenata", sobre poema de Ludwig Rellstab (vejam o tenor Peter Schreier e o pianista Rudolf Buchbinder), que os cantores populares também interpretam, se tem voz para tanto (por exemplo, a rainha do rádio Ângela Maria e, da geração mais nova de cantores brasileiros, Lívia Nestrovski).
No entanto, os poemas de Heine que estão nesse conjunto póstumo destacam-se por uma sonoridade própria e estão entre as obras máximas de Schubert e da canção em geral.
Entre elas, "Der Doppelgänger" talvez seja a mais desconcertante. Sugiro ouvi-la na voz de contralto da cantora e maestrina Nathalie Stutzmann, acompanhada por Inger Södergren. https://www.youtube.com/watch?v=vCv9i-1IRFA.
A primeira estrofe do poema de Heine descreve o ambiente: noite quieta, ruas silenciosas. O amor do narrador ali morava; ela deixou a cidade, mas a casa ainda está no mesmo lugar...
Na segunda estrofe, ele vê outro homem, que está atormentado pela dor. Ele se horroriza quando vê a face dele, iluminada pela lua: é a sua própria forma... A declamação chega ao desespero em "meine eigne Gestalt" (minha própria forma): https://youtu.be/vCv9i-1IRFA?t=2m15s; vejam a expressão de Stutzmann nesse momento: ela exprime o desgosto do narrador em deparar-se com o duplo.
Na terceira e última estrofe, ele se dirige a seu "pálido companheiro" e indaga por que ele "macaqueia" a dor de amor que o torturou naquele lugar, tantas noites, em um tempo antigo.
Depois do forte em "so manche Nacht": https://youtu.be/vCv9i-1IRFA?t=2m48s, vem o melisma em alter (velho, antigo) e a música vai desaparecendo no piano.
Ian Bostridge, conhecido tenor e intérprete de Schubert, em A Singer's Notebook, destacou a "terrível simplicidade e severidade", a "subversão radical do impulso melódico" das canções sobre poemas de Heine em O canto do cisne, que "ainda chocam e parecem ir muito além dos poemas de amor perdido em que se baseiam".
De fato. Esta não foi a última canção de Schubert, mas poderia ter sido. Principalmente, ela aponta para o fim de um estilo de canção mais próximo da popular (que continuaria, mas pareceria cada vez mais anacrônico). Pode-se ver "na paralisação da linha vocal - o que expressa o estado mental patológico do narrador - apenas o melisma final tem algo que lembra a forma da canção", conforme lembra Helene Wanske na apresentação da gravação que o barítono Bo Skhovus fez do ciclo Schwanengesang
No "alter Zeit", isto é, no tempo antigo é que aparece na linha vocal um perfil mais cantabile... Aqui, Schubert parece dar adeus a uma forma de canção.
Brigitte Fassbaender, em nota à própria gravação com o compositor e pianista Aribert Reimann, vê nessa canção uma ruptura "em direção a um novo mundo". 
Seria o desgosto de deparar-se consigo mesmo, com o duplo, uma exasperação com os limites da forma? Não sei, e precisaríamos que Schubert tivesse vivido mais para que soubéssemos aonde ele iria, que formas novas ele inventaria
De qualquer forma, Der Doppelgänger aponta novos desafios para os compositores de canções e, nesse terreno, Schubert nunca seria ultrapassado.


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
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Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável
Dia 10: Manuel Falla e a dor da natureza
Dia 11: De "People" ao povo e Cauby Peixoto
Dia 13: Baudelaire, Duparc e volúpia
Dia 14: Bornelh, o amor e a alba
Dia 15: Rodgers e Hart e o desejo de arte
Dia 16: Piazzolla, Trejo e o irrecuperável
Dia 17: Janequin, ir à cidade que grita
Dia 18: Amin, Garfunkel e outros pássaros
Dia 19: Wolf e Mörike imaginando a ilha
Dia 20: A loucura, Schumann e Andersen
Dia 21: Tiganá Santana e a memória negra
Dia 22: A boca seca da revolução: Miguel Poveda e Narcís Comadira
Dia 23: Encontrar o dia novo, Villa-Lobos e Ferreira Gullar
Dia 24: Bosco e Blanc vs. racismo e censura
Dia 25: Sarah Vaughan e os palhaços
Dia 26: Mahler, o marginal


30 dias de canções: Mahler, o marginal

30 dias de canções

Dia 26: Uma canção que cancela as paixões

"Ich bin der Welt abhanden gekommen" ("Tornei-me estranho ao mundo"), de Gustava Mahler, sobre poema de Friedrich Rückert, composta durante 1901 e 1902. Ele musicou mais quatro desse poeta nessa época.
Esta canção só poderia ser feita por Mahler. Mas não o resume musicalmente: ele tem diversos momentos em que o mundo invade a música, que contrastam com esses de lirismo.
Esta música soa melhor em vozes médias ou graves. Para ouvi-la em voz feminina, sugiro Jessye Norman, com a Filarmônica de Nova Iorque regida por Zubin Mehta: https://www.youtube.com/watch?v=bxh-VTqNK0c.
Entre os homens, aconselho José van Dam, aqui na gravação de estúdio com a Orquestra Nacional de Lille regida por Jean-Claude Casadesus: https://www.youtube.com/watch?v=kuQBg-tS0o8
O original é metrificado e rimado, na minha tradução fuleira ficaria assim:
Tornei-me estranho ao mundo, nele já perdi muito tempo. Faz tanto que ele não ouve nada de mim que deve bem acreditar que estou morto! Não dou a mínima se me julgam morto. A isso não posso retrucar nada, pois realmente morri para o mundo. Morri para o tumulto do mundo e descanso em um território silencioso. Eu vivo sozinho em meu paraíso, em meu amor, em minha canção.
Na canção, repete-se uma vez "em meu amor" (in meinem Lieben): https://youtu.be/bxh-VTqNK0c?t=5m42s, na frase mais aguda do fim; na última, "Na minha canção" (in meinem Lied), ouve-se um recolhimento ao repouso. A ornamentação em gerstoben (morto) na frase "deve bem acreditar que estou morto", também é muito interessante: Dietrich Fischer-Dieskau, mesmo aqui, em fim de carreira, ao lado de Chailly, acha a expressão mais correta: o barítono mantém a voz leve e sua face está serena, não se trata de nenhuma tragédia: https://youtu.be/587P3LMhkJg?t=2m9s
Afinal, ele realmente se isolou e achou, fora do mundo, aquilo de que necessita: paraíso, amor, canção: Himmel, Liebe, LiedNão tenho ideia de como reproduzir as assonâncias desses três substantivos, que Mahler tão bem explora, em português.
Se a música é tão pessoal, talvez seja porque Mahler tenha visto na letra algo que lhe era muito próximo. Tinha que ser algo estranho no mundo, pois era um judeu no Império Austro-Húngaro; em razão da discriminação, teve de batizar-se no catolicismo para reger a Ópera de Viena. Klemperer, em 1948, falou à Rádio de Budapeste sobre o compositor, cujo valor ainda era subestimado naquela época, antes de reger A canção da terra: "Por toda sua vida, eu foi atacado tanto por antissemitas quanto por filossemitas. Ele era, propriamente falando, um marginal". Ele não era religioso, mas tinha um sentido de piedade que não se adequava a nenhuma igreja.
Além disso, ele era um compositor que não era entendido na época, nem mesmo por Klemperer ou Bruno Walter, os dois maestros mais jovens que o conheceram e foram fiéis à música de Mahler, que morreu prematuramente em 1911. Nenhum dos dois chegou a reger todas as sinfonias. Leonard Bernstein, nos anos 1960, seria o primeiro a fazê-lo. O filme de Visconti, Morte em Veneza, com o onipresente adagietto da Quinta Sinfonia, ajudou na divulgação da obra de Mahler que, hoje, é das mais populares, e eclipsou, em número de gravações e apresentações, quase todos seus contemporâneos. E pensar que, ainda nos anos 1980, comprei um livrinho sobre Mahler dos Guias Musicais da BBC com um tom geral negativo sobre a obra, chegando a comparar sua música com a de Mascagni...
O adagietto da Quinta compartilha do clima melancólico da canção "Ich bin der Welt abhanden gekommen", que é uma das facetas mais atraentes da música de Mahler. Outra delas é a forma como integrou a canção à sinfonia, como fez na Segunda, na Terceira e na Quarta. A Primeira, a Quinta, a Sexta e a Sétima são apenas instrumentais; a Oitava, porém, é completamente cantada, com uma série de solistas e coros, inclusive um infantil. A Nona, que ele nunca chegou a ouvir, é puramente instrumental, e provavelmente também o seria a Décima, que ele não completou.
Klemperer, naquela mesma fala, comenta como Mahler tocou piano em um recital só de canções suas em Berlim e a sala estava bem vazia. Era 1907. Poucos anos lhe restavam, e ele deixaria nesse ano Viena para Nova Iorque, onde a doença cardíaca, que o matou, e a concorrência com Toscanini não lhe permitiram fazer tanto sucesso como maestro.
Alex Ross, em um livro creio que chamado O resto é surdez, tenta minimizar o antissemitismo de Viena (ele não menciona, mas quando Bruno Walter tornou-se assistente de Mahler em 1901, foi atacado em termos discriminatórios pela imprensa austríaca) e afirma que Mahler foi para os Estados Unidos realmente para ganhar muito dinheiro.
Nos anos 1930, a Áustria logo pareceria perigosa demais para todos os judeus, e a Alemanha já o era quando a anexou. Bruno Walter deixou a Áustria depois de ainda reger lá a Nona de Mahler, que pode ser ouvida como uma sinfonia de despedida, em 1938, ano da anexação.
Paul Griffths, no interessante e acessível Modern Music: A concise history, apresenta uma explicação interessante para o sucesso póstumo de Mahler:

[...] parte da música aparentemente mais reacionária da metade do século [XX] pode realmente ser, em um nível diferente, a que mais olha para o futuro - música na qual, como no altamente sofisticado mundo de Berio, a própria linguagem composicional se sujeita à vontade do artista para que ele a manipule e a use contra ela mesma. Mahler, cujas sinfonias operam exatamente nesse mundo de falsas aparências, começou nos anos 60 e 70 a ser visto como uma figura central da música do século.
Algo da consciência que ele tinha da linguagem musical e sua relação com a história estaria finalmente presente na música daquelas décadas. Finalmente, o mundo tinha aportado, depois das tempestades das guerras mundiais e dos genocídios, após ondas e correntes estéticas, às margens de Mahler.

Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
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Dia 24: Bosco e Blanc vs. racismo e censura
Dia 25: Sarah Vaughan e os palhaços


sexta-feira, 17 de março de 2017

30 dias de canções: Sarah Vaughan e os palhaços

30 dias de canções

Dia 25: Uma canção cujo intérprete pode ser considerado coautor

"Send in the clowns" (Mande entrar os palhaços), de Stephen Sondheim, na versão de Sarah Vaughan. 
Vejam uma interpretação que segue de perto o original: https://www.youtube.com/watch?v=vufO2FZY6XQ.
A Divina Sarah Vaughan transforma a canção em um grande momento de expressão de perda e ironia; ela gravou-a em 1980 com a orquestra de Count Basie: https://www.youtube.com/watch?v=UBJSP2NUaSU
A canção pertence ao musical "A little night music", que nunca vi; o espetáculo recebeu diversos prêmios, inclusive por sua música: https://www.ibdb.com/broadway-production/a-little-night-music-3176/#awards
A canção é cantada, na peça, por uma atriz que tem seu pedido de casamento rejeitado por um homem que quer casar com uma mulher mais jovem. Ela foi logo tirada do contexto e gravada por diversos intérpretes, muito diferentes entre si: Frank Sinatra (creio que o primeiro a fazê-lo) e Renato Russo, Barbra Streisand e Tom Jones, Sumi Jo e Grace Jones. Não ouvi todas desta lista, mas, das que conheço, a de Vaughan é a mais comovente e, musicalmente, a mais inventiva.
A canção é aparentemente simples, mas creio que isso é uma virtude, por deixar espaço para o intérprete improvisar. 
Vaughan criou a sua própria partitura vocal. Primeiramente, o andamento: ela canta mais lentamente do que todo mundo, seu controle respiratório lhe permite fazê-lo, e assim ela tem mais espaço para detalhes. Logo ela começa a ornamentar a música; "Don't you aprove": https://youtu.be/2rd818Ae3J8?t=1m11s.
A rica voz de peito desta contralto traz peso à questão "Where are the clowns?": https://youtu.be/2rd818Ae3J8?t=1m47s; e tristeza ao "Sure of my lines/ No one is there"https://youtu.be/2rd818Ae3J8?t=2m45s. A ironia em "Don't you love farce?" contrasta com a seriedade de "My fault, I fear": https://youtu.be/2rd818Ae3J8?t=3m14s.
Ela alterna entre as cores mais leves e as mais pesadas de sua extensa palheta de expressões até chegar à última estrofe (lembro que Sondheim, em aula, enfatizou a importância do jogo de cores vocais e a ironia nesta canção), que ela começa leve, com a pergunta irônica: "Isn't it rich?": https://youtu.be/2rd818Ae3J8?t=4m31s, até chegar o trêmulo, efeito que sempre indica uma intensificação no sentimento, na palavra my da frase "Loosing my timing this late in my career": https://youtu.be/2rd818Ae3J8?t=4m44s
Ela fica dez segundos no trêmulo e ainda faz um crescendo! Ela, que nunca teve uma aula de canto. Todavia, mais do que uma proeza vocal, ouve-se aí o drama desta situação amorosa.
Em estúdio, ela vai para o agudo em "career", porém me parece mais apropriado o mergulho no grave. Ao vivo, o ataque mais forte em "Where are the clowns" impressiona mais do que em estúdio e contrasta com os últimos instantes de ironia, antecedidos por um ritardando: "Well, maybe next here": https://youtu.be/2rd818Ae3J8?t=5m32s.
É o momento da devastadora coda que Vaughan criou a partir dessas palavras, de que "talvez" (isto é, com certeza) os palhaços estejam perto daqui. 
Essa canção já atraiu atores sem voz, capazes (com sorte) de apenas reiterar as linhas sem nada acrescentar. Tinha que ser um grande intérprete do jazz para transformar a canção ritmicamente e melodicamente. Stravinsky, em razão da Segunda Guerra Mundial, foi viver nos Estados Unidos. Segundo Robert Craft, maestro que foi por bastante tempo seu assistente, o compositor russo achava que a grande música dos EUA não estava na Broadway ou nos musicais, e sim no jazz e nas missas gospel, isto é, na música dos negros.
Vaughan, como todos sabem, foi uma das maiores representantes do jazz vocal. Não obstante sua grandeza e as décadas de carreira (ela começou nos anos 1940), ela chegou a ficar sem gravadora em certo momento nos anos 1970, com todas suas três oitavas relegadas pelo pessoal do rock e da discoteca. Nessa época, porém, ela conseguiu fazer algumas gravações muito interessantes de canções que não eram originalmente do domínio jazzístico, enquanto outros cantores de sua geração declinavam. Vejam "A house is not a home", de Burt Bacharach: https://www.youtube.com/watch?v=vDtQzuqtrtg. Ou "Imagine", do disco "A time in my life", em que canta Marvin Gaye, Carly Simon, Michel Legrand e Bob Dylan: https://www.youtube.com/watch?v=I86x1e2oqXM.
Nesses momentos, a cantora, que compunha também, fazia das canções alheias criações próprias, senhora da liberdade que a linguagem do jazz confere aos intérpretes, uma linguagem criada por um povo que foi escravizado. Como escreveu Charles Rech em Subversive sounds: Race and the birth of jazz in New Orleans"A característica africana que mais pessoas associam com o o jazz é a improvisação. Ela confere ao músico um senso de liberdade indisponível na tradição clássica, e essa razão bastava para ela ter implicações políticas para os afro-americanos."

Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
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Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
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