V
I. O discurso do disparo
– Os direitos humanos da bala;
eles não são os mesmos
antes e depois do disparo.
Antes, o direito ao voo;
depois, ao corpo.
São talvez opostos,
mas a bala também não é a mesma
antes e depois do disparo.
Estão vivos? Mandei atirar.
Tiram fotos? Mandei apagar
as luzes. Ainda tremem? Não
aparecerão na tevê. Porém
filmam? A hemorragia
borra a imagem. Querem fazer corpo
de delito? Seu corpo é um delito,
os hospitais não atenderão
ao crime.
– Os direitos humanos do disparo:
o gatilho e a bala,
que são da mesma cor
até o momento
em que o direito é dispensado.
Há um vídeo. Não tenho
que explicá-lo. Os autores
é que são suspeitos por
ainda estarem de pé.
A polícia deve explicar
como, se tudo isso ocorreu,
tudo isso foi filmado,
e como o sangue que pulsa
na tela ainda pulsa no corpo.
– Os direitos humanos;
humanos, talvez,
mas, por isso, tortuosos
e fugidios, inscrevem-se
na carne, que palpita
sob os retos instrumentos de poder.
Descem do morro? Mando-o
arrasar, a terra insolente erguida
servirá para um aterro
sob que os corpos
encontrarão sua utilidade.
– Os direitos humanos do alvo:
saber-se alvo
e não furtar-se ao sangue
que a bala libertará
do que é apenas corpo.
Cem mil na rua? Digam
que foram cem, mil é
redundância. Trezentos mil?
Decretarei que foram cinquenta,
não é tempo de carnaval.
Um milhão? Decido que nada
ocorreu, a cidade foi planejada
segundo o design da mordaça.
– Direitos humanos do desaparecimento:
entraram pela porta da delegacia
e foram abrigados eternamente.
II. Horizontes revolucionários dos cargos de confiança
Existem as balas e existem os argumentos.
Da nossa boca, saem os primeiros.
Comparecemos à missa
com a peruca de Lênin.
Elogiamos a tortura em nome da propriedade.
Os elogios recebem direitos autorais.
Substituímos as árvores pela polícia,
alimentamo-nos dos frutos que caem dos novos galhos.
Mudamos os rios em seca
e brindamos à metamorfose com lábios úmidos.
A retidão cai-nos bem,
se não há corpo não há crime,
e, se houvesse, não estaria reto.
Intercambiamos o diário oficial e o cassetete
e ninguém nota a diferença.
Horizontes políticos da delação e da vigilância:
criamos um mundo mais bem gerido
em que todos os espaços se tornaram fronteiras.
Substituímos a ordem pela ordem.
A troca é o regime da propriedade.
III. Pranto grátis pela mercadoria
Réquiem das vitrines quebradas
que guardavam as mercadorias desaparecidas;
os manequins eram os melhores humanos,
somente eles tinham pudor,
cobriam-se totalmente
da mercadoria.
Tenham piedade das vitrines quebradas,
agora a magistratura envia flores;
os manequins eram os melhores súditos,
existiam somente para serem vistos
e cobertos.
Réquiem eterno das vitrines quebradas,
os manequins davam lições de civismo,
não tinham a ironia dos mendicantes que,
mesmo vestidos,
desnudam o corpo da cidade.
Dia da ira
do plástico e do capital
que perderam seus filhos mais autênticos,
os manequins, olhos perpetuamente abertos
para o nada.
Liberta-me, ó Domínio,
das ruas sem a bomba
com que a segurança
esvazia as ruas
para os manequins marcharem;
liberta-me, ó Dono,
das cidades em que os cacos de vidro
desamparam os muros das propriedades.
IV. A bondade dos homens de bem
Meu nome é coquetel molotov,
mas pode chamar-me de polícia
que atendo sem pudores.
Quando gritam nas ruas,
não me reconheço nos epítetos;
reencontro-me ensurdecedor
no segredo dos negócios públicos.
Chamam-me licitação,
mas assino como casas de praia e jatinhos
pois tenho vários nomes.
A alcunha da ordem
agrada-me, ouço-a enquanto
derrubo mais cem escolas.
Porém meu nome não é vandalismo,
pois está assinado
no diário oficial.
V. V
Amar o ido,
gritam as pedras
da cidade.
Amar o ido,
gritam as pedras,
e todos são pedras
pois são pisados
pela cidade.
Amar o ido,
gritamos as pedras,
todos servimos
para nos atirar
em nome da cidade
que ainda não chegou.
Amar o ido,
ocupando o
grito
que parte pela cidade
mudando as vias
em voz.
P.S.: O poema foi publicado em Canção de ninar com fuzis.
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