O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Íntimo e desconcertante: Donizete Galvão (1955-2014)

Conheci em 2003 Donizete Galvão, que faleceu no dia 30 de janeiro de 2014, de madrugada, atingido por um enfarte. Nasceu em Borda da Mata (MG) e conservava muito do caráter mineiro na sua forma de receber as pessoas, ao menos como faziam os mineiros de sua geração. Sempre que entrei em sua casa, pude fazê-lo como se estivesse na minha. Ana Tereza Marques, sua viúva, acolhia-nos também calorosamente nas ocasiões que ficaram conhecidas como "sabadonis", em referência aos famosos "sabadoyles".
Vejo agora que sua morte foi noticiada em diversos veículos de comunicação. Estas são um pouco mais informativas, a da CBN Foz e d'O Globo. Várias delas erram até a idade com que morreu, 58 anos. Vejo também que alguns amigos dão seus testemunhos, como Dirceu Villa.

Muitos tiveram contato com ele em oficinas de poesia em São Paulo. Quem não frequentou nenhuma delas e tampouco o viu em recitais pode assistir a esta leitura de sua própria poesia neste vídeo, filmado em 22 de agosto de 2009 por Fabio Weintraub: http://www.youtube.com/watch?v=6x7MCjCqgaM
Tratou-se de convite do professor Elias Amorim Feitosa Jr. do Cursinho da Poli, em São Paulo, a Donizete, Marcelo Ariel, Eduardo Sterzi, Veronica Stigger e Priscila Figueiredo.
Estranhamente, é o único deste poeta que encontrei no youtube. Suas aparições na tevê Cultura ainda não estão disponíveis. Donizete leu, naquela ocasião, um poema de Mundo mudo (São Paulo: Nankim, 2003), "Arrozal", e outro de Ruminações (São Paulo: Nankim, 1999), "Mapa". Pode-se ouvi-lo, íntimo e desconcertante: "Substituir o espantalho/ Foi o seu primeiro trabalho."

As fotos ao lado são do lançamento de seu último livro, O homem inacabado (São Paulo: Dobra, 2010). Não sei dizer se é o seu melhor livro, pois não li todos, suas primeiras obras estão esgotadas. Felizmente, nele não aparece uma certa dicção, próxima de Dora Ferreira da Silva, em que se busca interpelar diretamente os deuses e o sagrado. O que dá certo para sua antiga amiga, que Donizete entrevistou mais de uma vez, não é o que melhor funciona para ele. Por exemplo, não é dos seus melhores o poema que escreveu para ela e que foi citado na última resposta desta entrevista dada a Antônio Donizeti Pires e Solange Fiuza Cardoso Yokozawa. Foi ainda republicado em antologia que a Patuá lançou em 2014, É que os hussardos chegam hoje.

Nessa mesma entrevista, ele fala do que é sua principal qualidade: "sou um escritor preso à realidade [...] não atinjo culminâncias do sublime". Suas culminâncias estão, paradoxal e poeticamente, ao rés do chão. Não à toa, ele chega a se classificar, na mesma entrevista, como "materialista místico", por acreditar em um deus imanente à matéria, e nisso se sentia próximo a Kazantzákis, um de seus autores preferidos.
Quem nunca o leu, antes de comprar seus livros (ainda) em catálogo, poderá fazê-lo nesta breve antologia publicada pelo Centro Cultural São Paulo, disponível gratuitamente na internet: Alta noite.
Nela encontramos uma "Arte poética", em que "a língua da vaca" lambe sem cessar a cria, mesmo com as "pústulas no lombo"; e este poema, também, de fato, antológico, "Escoiceados", de Ruminações. Cito-lhe o início e o final:

Meu pai e eu
nunca subimos
num alazão
que galopasse
ao vento.
[...]
Levamos
bons coices.
Meu pai e eu.
Os dois
nunca subimos
na vida.
Nesse "fracasso na vida" temos a ética e o êxito desta poética: ele não está do lado dos vencedores. A propósito, aconselho a leitura da brilhante análise que a poeta e ensaísta Priscila Figueiredo fez desse poema:
A queda do pai e do filho, transcrita por meio de um expressivo quiasmo, tem dimensão revelatória e simbólica. É a imagem de um momento fundamental, em que se decide o destino de ambos. Uma vez caídos no chão, ficarão no chão para sempre. Cair do burro passa a significar agora não subir socialmente, e aqui voltamos ao que dizíamos linhas atrás. A humilhação de se submeter a um animal adquirido por ninharia é reposta e produz mais humilhação: quem nunca subiu não subirá. Como diz a letra de uma música bastante tocada nas rádios: "O de cima sobe /o de baixo desce".
Em O homem inacabado, há um poema que me parece servir como sua poética; fiel ao tom desta poesia, a figura que é retratada não é um escultor, mas um simples ferreiro que, no entanto, mostra-se senhor da matéria de sua profissão. Cito o final de "O ferreiro":
Cadência de artífice
que mantém o prumo
em sua faina
de onde saem
os objetos que povoam o vazio.
Um homem sem senhor
reina na matéria,
sua clareira de liberdade.
Sem os objetos produzidos pela liberdade (e, no caso, por uma figura socialmente subalterna, o ferreiro, significativamente escolhida pelo poeta para representar-se), temos apenas o vazio, o que me parece ser uma aposta na ação e nos instrumentos de emancipação social.

Para acabar esta breve nota sobre Donizete, relembro seu amor pela música. A última vez que nos comunicamos por e-mail, no início do ano, ele me perguntava sobre dúvida que, dizia, lhe "tirava o sono": uma personagem de criada da commedia dell'arte que aparece em óperas como La serva padrona, de Pergolesi. Se nem ele sabia, quanto mais eu... Descobri, porém, a referência em livro de Lauro Machado Coelho, e lhe respondi que era a servetta.
A música, de fato, o preocupava e gerou, além do ouvido que se detecta em sua obra, poemas como "Solilóquio de Nina Simone": "Habitou-me um deus espesso./ Sangue cor de fígado."
Donizete, contudo, foi além da mera tematização da música na literatura e penetrou no mundo da música brasileira contemporânea: Willy Corrêa de Oliveira compôs canções sobre textos seus, que, creio, ainda não foram gravadas, mas já foram apresentadas em público. Ainda não as ouvi, também isso me falta conhecer.
Esperemos que sua obra poética seja reunida e publicada; é o que dele ainda podemos ter, e é o que lhe devemos, pois isso não foi feito enquanto vivia.
Basta desta situação em que só se conhecem, dos poetas, os anos de nascimento e de morte, e nem assim os jornais, como neste caso, consigam calcular a idade... A poesia tem que ser (re)posta em circulação. É significativo que as notícias que vi sobre a morte de Donizete na grande imprensa tenham se poupado de citar os versos do autor, como se o poeta só pudesse aparecer pela sua morte, mas não pelo que o faz vivo, a poesia.
Que não se diga dessa obra o que ele escreveu sobre o corpo em "Depreciação", poema do raro livro que publicou a quatro mãos com Ronald Polito, Pelo corpo (Santo André: Alpharrabio, 2002):
De hoje em diante
a máquina imperfeita
de teus músculos
será mais um objeto
em desuso.


P.S.: Fabio Weintraub reclamou que ficou apenas implícita a relação entre a servetta e a poética de Donizete. É verdade. Não sei se ele teve tempo de escrever sobre isso (ele me fez a pergunta no dia 7, respondi-lhe no dia 12), ou mesmo se era para fins literários que ele necessitava da informação; mas imagino que o interesse na personagem é análogo ao interesse em figuras como a do ferreiro.

4 comentários:

  1. Muito bom o artigo! Precisa síntese aproximativa da poética e do próprio Donizete Galvão. Põe as coisas em seu devido lugar: realmente a grande imprensa tem deixado tudo a desejar... Belo e comovente também o poema-homenagem escrito por Dirceu Villa.

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    1. Obrigado, Ruy. Vejo agora que a Folha errou a idade dele e o nome da Anna Lívia.

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  2. Parabéns, Pádua! Belíssima homenagem ao Doni.

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    1. Obrigado, Sônia, e também por ter falado em nome de todos nós, amigos de Donizete, na missa de sétimo dia.

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