O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

segunda-feira, 22 de junho de 2015

As Mães de Maio, ou os movimentos sociais pensam o mundo

Comecei a escrever isto no twitter, vendo pessoas governistas atacando as Mães de Maio. Para a gente infame, ou cuja leviandade é tão extrema quanto sua desinformação, que diz que as Mães de Maio são linha auxiliar do PSDB, sugiro, caso saiba ler, ao menos estes links, entre centenas de outros:

Para os governistas que não sabem ler, aconselho estas figuras do facebook:

terça-feira, 9 de junho de 2015

A Caravana Sudamérica continua no Brasil: no Rio de Janeiro, de 9 a 12 de junho

Ver a programação completa no blogue, que inclui ato público no Consulado do México no dia 12 de junho: http://caravana43sudamerica.org/2015/06/03/programacao-da-caravana-43-no-rio-de-janeiro/

Sobre Porto Alegre, saiu a notícia da censura de uma atividade da Caravana em 6 de junho em uma escola municipal: https://twitter.com/MIC_RJ/status/607211350281043968

No México, os parentes dos 43 normalistas assassinados pelo Estado mexicano conseguiram boicotar as eleições, o que me pareceu legitimamente democrático: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/06/07/internacional/1433698911_274923.html

Aliás, para os professores de ciência política que acham que a violência do Estado não tem relação nenhuma com a questão da democracia (com a consequência de isolar, da questão política, os direitos civis), e assim não apenas dão de costas à realidade, mas também recalcam, de forma elitista, os movimentos sociais como as Mães de Maio (que não dissociam a questão da soberania popular dos direitos humanos), lembro deste pequeno texto.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Algo como um poema, a política do possível



discriminado no movimento LGBT
por viver na rua
discriminado no movimento sem-teto
por ser gay

discriminada no movimento indígena
por ser mulher
discriminada no movimento feminista
por ser índia

discriminado entre os escritores
por ser poeta
discriminado entre os poetas
por não ter bolsa
por ler poesia
onde nada se lia

(– venha para as faculdades Uniuni
onde você aprenderá que é único
onde só tem gente selecionada
onde todo mundo pensa como você)

discriminado por não ter empatia
com a discriminação
dos que discriminam peças que nunca viram
poemas que nunca lerão

discriminado por ter empatia com a leitura
enquanto a pureza do movimento
vem de nunca ler o diferente

os discriminadores querem a pureza

enquanto negros coletam o lixo
em troca de pão e desabrigo
religiosos de todas as cores
pedem faxina étnica nas ruas

(– o café azedou
não podemos nos sentar juntos
porque somos de linhas teóricas diferentes;
com licença que vou dar minha palestra sobre estado de direito)

por ser mulher
discriminada no movimento judaico
discriminada no movimento pró-palestina
discriminada no movimento socialista
por dividir a luta

discriminada à direita
porque combate o assassinato em massa
discriminada à esquerda
porque combate o assassinato em massa
e no centro não há lugar
exceto para cadáveres

(– nesta rede social você poderá criar grupos fechados
eliminar gente por palavras-chave
bloquear preventivamente pela cor de olho dos avatares
venha sem medo viver sem fronteiras!)

discriminado na agência governamental de direitos humanos
porque contrário à execução sumária
discriminado na reunião da associação de moradores
porque contrário à tortura de mendigos
discriminado na assembleia de condomínio
porque favorável às leis trabalhistas
e discriminado fora das reuniões
pois sua cadeira de rodas
não cabe nos buracos das ruas

o partido revolucionário
cindiu-se na vanguarda pós-revolucionária neorradical
e na fração neorrevolucionária pós-radical
acusam-se mutuamente de diversionismo
na luta por cargos públicos
pelo posto de poodle da direita
não trocam mais entre si
figurinhas coloridas de lênin

(– seu currículo é bom,
não a contratamos por causa de preconceito
mas por simples
aplicação das estatísticas correntes
sobre a sua empregabilidade)

nada mais no horizonte público?
esta é a política do possível:
fazer com que as outras políticas
sejam impossíveis

discriminada no movimento LGBTTT
por ser negra
discriminada no movimento negro
por ser mulher
discriminada no movimento feminista
por ser trans
discriminada no movimento trans
por ser negra
da capo

(– torturada. mas lia os autores errados.
– estuprada. mas nunca foi às nossas reuniões.
– mutilada. mas não tinha empatia com a causa,
e a empatia, 
filha única do ressentimento,
é a nossa fonte de justiça.

– seus pedaços, no esgoto. 
mas pensamos que nela só a morte 
foi um traço comum com a humanidade.

– no esgoto, seus pedaços. 
repetimos:
nunca houve discriminação
mas simples
aplicação das estatísticas correntes
sobre sua expectativa de vida)


P.S.: O poema foi publicado em Canção de ninar com fuzis.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A livraria Leonardo da Vinci, as cores do analfabetismo e as bolhas sectárias de opinião

Eu nunca deixei de comprar livros na Leonardo da Vinci, conhecida livraria que fica no subsolo do prédio Marquês do Herval, no centro do Rio de Janeiro. Deixei de morar no Rio de Janeiro, o que tornou minhas idas a essa livraria bem esporádicas, mas como ela é, de longe, a melhor dessa cidade (e não há nada de parecido em São Paulo, onde moro), tentava passar por ela, se houvesse tempo. Na última vez que fui ao MAM, no fim de 2014, ainda comprei na Piccola Da Vinci que lá existia e já fechou.
Terei que deixar de frequentá-la, porém, pois ela está a fechar, depois de 63 anos de atividade. No fim do ano passado, tive uma rara conversa com Milena Duchiade, e ela afirmou que estava difícil mantê-la. Não me surpreendi, por isso e pela decadência geral daquela cidade e das mudanças nos mercados de bens culturais, que já tinham vitimado a loja de discos Modern Sound.
Eu estava procurando, naquele dia, um título da Cultura e Barbárie. A livreira falou que era a Da Vinci a única a ter os livros dessa editora no Rio de Janeiro - são conhecidas as tremendas dificuldades de distribuição que impedem as pequenas editoras de distribuir seus títulos nas grandes redes.
Na matéria que indiquei acima, vemos a inteligência e a lucidez da livreira que identifica sem ilusões as razões que levaram ao fim da Leonardo da Vinci: não ter café (o Diagnóstico do Setor Livreiro de 2009 apontou a tendência de as livrarias se tornarem prestadoras de outros serviços, que não as vendas de livros), não vender informática, ter pouquíssima autoajuda e, finalmente, o estado lastimável em que está o centro do Rio de Janeiro, sob pó e pedra, que acabou de soterrar os negócios.
Li recentemente que as livrarias independentes voltaram a crescer... em Nova Iorque. Mas o Brasil é outra coisa.
A livraria continuaria se tivesse criado uma seção de livros de colorir? Haveria mais chance, e ainda mais se vendesse também lápis de colorir. Vejam esta lista de mais vendidos ("Publishnews"), de 11 a 17 de maio deste ano: http://www.publishnews.com.br/telas/mais-vendidos/Default.aspx?data=22/05/2015&tipo=semanal
Entre os vinte mais vendidos, 118825 livros de colorir. Do resto, todos os gêneros confundidos, 51637. Quase setenta por cento da quantidade de exemplares vendidos, que vieram de oito títulos, isto é, quarenta por cento da lista.
Uma perda de fôlego dos lápis de cor, deve-se ressaltar. Na semana anterior, os mesmo oito títulos haviam atingido setenta e oito por cento das vendas dos "vinte mais"...
Esses livros, além de ostentarem a virtude altamente inclusiva de não exigir muitas capacidades de leitura, sempre raras no país, possuem um caráter antiestressante certamente bem recebido pelo público. Faço notar que, nesses dois aspectos, tais obras são o oposto do que grande parte da literatura exige, que demanda letramento e não promete, em troca, uma terapia.
No entanto, em defesa dessa literatura, provavelmente a mais condizente com o momento, lembro que ela apresenta certas virtudes de algumas vanguardas, como o apelo sensorial e a interatividade com o público, que não pode ficar passivo diante da obra... Ademais, para os críticos dos livros eletrônicos, que vivem uma fase de declínio, os livros de colorir representam uma espécie de triunfo, talvez o triunfo possível neste país, dos livros impressos.
Talvez eles tenham sobretudo o apelo da nostalgia: eles remontam a época escolar, única, para a maior parte das pessoas, em que há um contato com o livro. Vejam, na pesquisa do Instituto Pró-Leitura, a queda no índice de leitura de 36 a 28% entre 2009 e 2011 (reiterada em pesquisa da Fecomércio-RJ divulgada em abril de 2015); a diminuição, tanto em números percentuais quanto em absolutos, do número de leitores entre 2007 e 2011 (de 95,6 para 88,2 milhões) - sendo leitor aquele que leu pelo menos parte de um livro nos últimos três meses antes da pesquisa. Dezesseis por cento dos não leitores são estudantes, naturalmente, em um país em que analfabetos logram obter diplomas de curso superior em instituições privadas.
O gráfico que mais me doeu foi este:


Além da queda da média, que foi de estonteantes 2,4 livros em 2007, verifica-se o papel da escola, e é provavelmente o que assegura o primeiro lugar de Monteiro Lobato entre os escritores mais admirados em 2007 e 2011. Quando se vê a "leitura por gêneros", até a Bíblia caiu. Subiram, no entanto, contos (eu não sabia disso antes de publicar Cidadania da bomba...) e livros religiosos. Relembro o Diagnóstico do Setor Livreiro de 2009, que apontou os gêneros de literatura infantil e juvenil como os mais vendidos pelas livrarias brasileiras.
O projeto de lei sobre preço fixo do livro, portanto, embora possa ter um impacto positivo sobre as livrarias independentes, não ataca as raízes do problema, que é o do desaparecimento gradual de algo que mal chegou a aparecer no país, que é a leitura.
Por sinal, a própria livreira, na condição de representante das Associações Estadual de Livrarias do Rio de Janeiro e da Nacional no II Seminário do Livro e da Leitura, creio que em 20 de maio de 2010, disse algo parecido na Câmara dos Deputados:
O último ENAF - Estudo Nacional sobre Alfabetização Funcional, diz que apenas 25% dos alfabetizados - assim considerados como tal - têm capacidade plena de leitura. Ou seja, apenas 25% daqueles que, teoricamente, saberiam ler, e dessa base estamos excluindo os realmente analfabetos.
A produção editorial, dados da CBL de 2008, foi de 211 milhões de livros para uma população de 190 milhões de habitantes, o que dá 1,1 livro produzido por ano por habitante. Desse total, a maior parte foi comprada pelo Governo, como já foi dito aqui pelo representante da Belelivros. O Governo brasileiro é um dos maiores compradores de livros do mundo; o livro didático é a grande válvula de escape das editoras, e as compras governamentais sustentam a indústria editorial. Não houvesse isso, se retirarmos dos 211 milhões de livros os 120 milhões ou 130 milhões comprados pelo Governo, sobrará quase nada.

Quase nada, ressalta-se. Imagino (mas sem dados empíricos) que, como a educação é cotidianamente sabotada no Brasil (o espancamento de professores por governos reeleitos é, na verdade, uma realidade que todo dia ocorre em nível micropolítico), seja pelos governos, seja pelos empresários da área, o contato com o livro que ocorre na infância não consiga formar leitores, apesar das compras governamentais. Outra questão, que nem sonho enfrentar agora, está nos impactos dessas compras na pauta editorial e na literatura.
Milena Duchiade, na mesma ocasião, falou de pesquisa financiada pela Câmara Brasileira do Livro, o Sindicato Nacional dos Editores, a ANL e a AEL, a partir dos dados da Pesquisa de Orçamento Familiar - POF, do IBGE. Os dados eram do início do século. É interessante ver que, se os mais pobres de fato não têm como comprar o livro, os mais ricos não o querem, simplesmente:

As despesas das famílias se distribuem nessa ordem; primeiro, os aparelhos eletroeletrônicos e seus conteúdos; depois, a telefonia celular - as famílias despendiam já em 2002 e 2003 mais dinheiro com telefonia celular, assinatura e aparelhos, do que com todo o lazer fora de casa (parque de diversões, discoteca, forró, motel, cinema, teatro, tudo, enfim). Só depois vem a leitura. Nessa área, mais da metade, 53%, entre jornais e revistas, mais leitores de revistas do que de jornais. Depois, vem o livro didático pago, porque o livro didático não pago entra como doação, embora apareça na pesquisa. As pessoas informam se receberam o livro em doação.
Então, primeiro, jornais e revistas: 53%; depois, livros didáticos: 20%; livros em geral: 10%, sem ser didático. Quase o mesmo gasto em fotocópias. Em relação ao livro técnico, gastava-se, em 2002-2003, mais dinheiro com fotocópia do que com livros técnicos.
Os senhores poderão afirmar: "É porque o livro é caro. É porque não tem". Não. Foi estratificado esse gasto por renda familiar e por nível de instrução do chefe da família, da pessoa de referência da família, para não chamar de chefe e ser politicamente correta. Apenas um quarto, 25% das famílias cuja renda familiar está acima de 15 salários mínimos gasta algum dinheiro com livro não didático. Portanto, não é uma questão de renda, porque elas gastaram com televisão, com telefone celular, com outros itens.
O livro não tem valor. Como disse a professora, o livro, na esfera simbólica, não é considerado um prêmio, não é considerado um valor, mas um castigo. Essa é uma questão extremamente grave.
Então, os senhores poderiam ainda afirmar: "Mas existem as pessoas com instrução. Elas são a nossa salvação". Engano. Menos de 30% das famílias cujos chefe têm nível superior - vejam: não é que tenha largado a faculdade; ele completou - continuam comprando livro. Compram outras coisas, mas não compram livros. Temos de enfrentar essa situação real.
São esses os que poderiam ter comprado os livros da Leonardo da Vinci, e não o fizeram, bem como de outras livrarias. O número delas vem diminuindo no Brasil, como havia ressaltado a livreira na Câmara dos Deputados:
Trouxe dados que o IBGE publicou, semana passada, em cima da pesquisa Perfil dos Municípios Brasileiros - 2009, baixados download grátis no site do IBGE.
Essa pesquisa foi feita com base em informações que as 5.565 Prefeituras Municipais de todo o Brasil fornecem. Foram comparados os dados de 2009 com os de 1999. O número de municípios que possui livraria baixou de 35% para 28%. Significa dizer que entre 1999 e 2009 um grande número de municípios deixou de ter, pelo menos, uma livraria.
Entretanto, vamos analisar o que sucedeu no tocante às unidade de ensino superior. Aumentou 95%, no período, o número de municípios que possuem instituições de ensino superior. Para se ter ideia, no Brasil há mais municípios com unidades de ensino superior - 2.132 - do que municípios que possuem livrarias, 1.557, segundo esses dados. [...]
Temos, então, esse paradoxo: quase 600 municípios onde existe uma instituição de ensino superior - que instituição de ensino superior será essa, não me perguntem, não me comprometam - não possuem livraria alguma!
Talvez este último problema esteja relacionado com certas instituições de ensino superior, que aumentaram em número com os governos de Fernando Henrique Cardoso e, com a política para o ensino superior das administrações do PT de jogar milhões de recursos públicos em sofríveis instituições privadas, agravaram um curioso tipo de analfabetismo: o diplomado. Creio que, nesse sentido, a universidade, no Brasil, vem agravando o problema do analfabetismo.
Voltando à Leonardo da Vinci: li muitas pessoas contando suas histórias da livraria; algumas delas mostram a generosidade de Dona Vanna, que é mesmo uma figura ímpar. Minha memória vai em outra direção: o tempo que o centro do Rio de Janeiro tinha livrarias (continuam existindo, mas em número menor: Berinjela, Folha Seca, o Paço Imperial e outras), muitas delas dedicadas aos livros usados: a Praça Tiradentes era cercada de sebos, e isso acabou (segundo Thiago da Silva Santos, o impacto da Estante Virtual contou para essa extinção). A Livraria Brasileira, tão próxima da Leonardo da Vinci, do outro lado da avenida Rio Branco (no edifício Avenida Central), era a minha preferida e fechou em 2005; a Livraria São José (já bem decadente), também com uma história de uma clientela de intelectuais, em 2014.
Creio que deva ser lamentado o fim de mais uma livraria com livreiros, isto é, pessoas que conhecem os livros, o que as grandes redes (onde a precarização das condições de trabalho é a regra) não têm nem desejam; o fechamento de um lugar onde livros menos óbvios, ou de pequenas editoras e autores independentes, que não lograr chegar às grandes redes, são encontráveis ou encomendáveis (redes como a Livraria Cultura, por exemplo, não encomendam certas editoras); e, finalmente, um lugar de sociabilidade que as lojas virtuais não podem proporcionar. Livrarias como a Leonardo da Vinci são espaços para encontro, o que é tão necessário, especialmente neste momento em que o espaço virtual parece estimular acirramentos vazios de fanatismos satisfeitos de si mesmos e bolhas sectárias de opinião.

P.S.: Na foto, meu gato (um animal que gosta de livrarias), mostrando que a Leonardo da Vinci fez a cabeça dele.
P.S.2: Um terço das vendas mundiais dos livros de colorir Jardim Secreto e Floresta Encantada ocorreu no Brasil, segundo a notícia do Publish News.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Caravana Sudamérica 43 e as Mães de Maio: massacres no México e no Brasil


Familiares dos 43 estudantes assassinados em Ayotzinapa chegarão em São Paulo no dia 2 de junho. Divulgo abaixo o texto da Caravana Sudamérica 43 e sua lista de apoiadores.
A terrível história é mais um dos crimes do Estado mexicano: estudantes da Normal Rural de Ayotzinapa foram executados pela polícia municipal em setembro de 2014: leiam a história, que teve repercussão mundial. Os estudantes estavam "fazendo uma coleta de recursos entre a população local para a manutenção da sua escola e para assistir a marcha nacional contra o esquecimento da matança dos estudantes de 1968". Acabaram sendo alvo de outro massacre.
Eu sabia dessa chegada porque ela foi um dos assuntos do último encontro do seminário das quartas-feiras da Faculdade de Filosofia da USP, dia 27 de maio, em que estiveram representantes das Mães de Maio. As Mães receberão os familiares mexicanos. Como se sabe, elas também representam famílias que sofreram um massacre: o assassinato de centenas de jovens na periferia de São Paulo em maio de 2006.
O crime foi impressionante: o número de vítimas foi maior do que o de militantes políticos durante os anos da ditadura militar (menor, claro, do que o de índios e camponeses mortos pela ditadura, que são mais de dez mil). E gerou resposta imediata do Ministério Público do Estado de São Paulo, em 25 de maio: um elogio público à Polícia Militar... O que é uma das razões pelas quais as Mães de Maio pedem a federalização desses crimes.
Foram três membros do movimento ao seminário. Débora Maria da Silva explicou que os mortos das Mães de Maio "têm nome e sobrenome", exigindo memória e justiça, e que elas não querem "poder de gabinete", mas "poder de transformação": sabiamente, não querem se institucionalizar, mesmo na Comissão da Verdade da Democracia, que segue trabalhando: "Este movimento tem cérebro. Nós não somos coitadas. Somos guerreiras, nós não nos curvamos pro Estado."
A uma indagação sobre o deputado estadual Telhada, do PSDB, que é contrário ao movimento, Débora respondeu que ele é um "produto da sociedade paulistana", "que não vê o outro da periferia". Sobre o Ministério Público estadual, ela reiterou que os procuradores não fazem a fiscalização externa da polícia e que pedem o arquivamento dos inquéritos, apesar dos laudos apontarem para execuções.
Danilo Dara informou que estão produzindo novo livro para os 10 anos dos crimes e criticou o "mercado de direitos humanos": acadêmicos e organizações não governamentais que usaram as Mães para promoção própria. Ouçam-no falar sobre a desmilitarização da polícia (outro dos temas do seminário) nesta entrevista à Central Autônoma.
Francilene Gomes Fernandes falou da dissertação de mestrado em Assistência Social, pela PUC-SP, que elaborou sobre os crimes de maio, "Barbárie e direitos humanos: as execuções sumárias e os desaparecimentos forçados de maio (2006) em São Paulo", e a dificuldade ética e metodológica de estudar o objeto em que ela diretamente implicada, que acabou se tornando uma vantagem. E ela explicou que as Mães não tiveram "nenhum apoio da Defensoria Pública em nenhum momento".
Entre outras perguntas, o professor Paulo Arantes quis saber da relação do movimento com os familiares de mortos e desaparecidos políticos. Francilene afirmou que "não existe hierarquização de nossas lutas", "é um crime de lesa-humanidade". Alguns dão apoio, como Ângela Mendes de Almeida e Alípio Freire, mas Danilo denunciou que "a maioria ou silencia ou está se lambuzando em cargos". Eles mencionaram a atuação de Adriano Diogo, que foi preso político da ALN (Ação Libertadora Nacional), presidiu a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva" e apoiou a fundação da Comissão das Mães de Maio.

Foi uma ocasião importante para a discussão da possibilidade de construir a democracia e a justiça no Brasil. E a vinda do Movimento do México será importante para ampliar o debate a articular ações, imagino.
No contato com as famílias mexicanas, vemos a ampliação da rede desses movimentos de direitos humanos, que não devem se circunscrever aos limites nacionais, sendo as execuções sumárias e os desaparecimentos forçados os instrumentos criminosos de "gestão" das populações que os Estados da América Latina (e, sim, o Brasil pertence à América Latina) tantas vezes empregam com moradores das periferias, bem como com os negros e as populações indígenas.
Sugiro o acompanhamento das notícias da Caravana no portal do Coletivo Antiproibicionista DAR.

Depois de passarem por Argentina e Uruguai, familiares dos 43 estudantes desaparecidos pelo Estado mexicano em setembro do ano passado desembarcam em São Paulo na noite desta segunda-feira para a primeira das três etapas brasileiras da Caravana 43 Sudamérica. A iniciativa, organizada por coletivos e movimentos sociais autônomos, busca demonstrar solidariedade com a luta dos familiares e fazer ecoar suas demandas por justiça e apresentação com vida dos desaparecidos.

Inaugurando os eventos no dia 2, a partir das 14h, haverá uma coletiva de imprensa na qual os familiares explicarão melhor a Caravana Sul-americana e suas demandas. Ela acontecerá na sede da Kiwi Cia. de Teatro, no centro da cidade. Os familiares não estarão disponíveis para entrevistas no restante dos dias.

Haverá ainda um debate público, a ser realizado às 19h do dia 2 de junho e do qual participarão as Mães de Maio, também no centro, e um sarau na noite do dia 3 de junho, no Taboão da Serra, organizado pelo Sarau do Binho em conjunto com outros saraus da periferia paulista, no qual será prestada solidariedade e homenagem aos familiares de Ayoztinapa e sua luta.

O debate do dia 2 de junho será precedido de uma intervenção teatral pública na Praça da Sé, às 18h, organizada pelo grupo de teatro Coletivo de Galochas, e a agenda dos familiares contará ainda com uma visita a uma aldeia indígena na zona sul da cidade.
A Caravana 43 Sudamérica começou no dia 16 de maio e no total passará por sete cidades: no Brasil incluirá também Rio de Janeiro e Porto Alegre. O recorrido acontece nos mesmos moldes de movimentações recentemente organizadas nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa, onde familiares dos desaparecidos passaram por doze países.

Mais informações:

Programação pública completa
2 de junho (terça), às 14h – Coletiva de imprensa com os familiares
Kiwi Cia de Teatro: Rua Frederico Abranches, 189

2 de junho (terça),
às 18h, intervenção teatral na Praça da Sé. Coletivo de Galochas.
às 19h – Debate público – Caravana 43: familiares de Ayotzinapa, Mães de Maio e suas resistências
Quadra dos bancários: rua Tabatinguera, 192

3 de junho (quarta), às 20h – Ayotzinapa somos todxs – Sarau do Binho com outros saraus
Espaço Clariô: Rua Santa Luzia, 96 – Taboão da Serra
  
Coletivos que compõem a Caravana em São Paulo:  
Mães de Maio
Movimento Passe Livre – SP
Casa Mafalda Espaço Autônomo
Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais CATSO  
Rede 2 de Outubro
Espacio de Lucha Contra el Olvido y la Represión (ELCOR) – Red Contra la Repression (México)
Margens Clínicas
Comboio Moinho Vivo
Rizoma Tendência Estudantil Libertária
Coletivo DAR (Desentorpecendo a Razão)
Rede Extremo Sul
Comissão Yvyrupá

P.S.: As Mães de Maio deram um lindíssimo fora na editora Boitempo nesta nota: http://passapalavra.info/2015/06/104815

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Uma casa comum para o Estado, os Índios, os Extrativistas e os Sem-Terra? O III Colóquio Habitat e Cidadania

Fui convidado a participar de grupo de trabalho sobre direito ao território e legislação fundiária no III Colóquio Habitat e Cidadania: Habitação no campo, nas águas e nas florestas, que ocorreu entre 12 e 15 de maio deste ano, na Universidade de Brasília. Esse GT contou com os professores Karla Hora (que o presidiu) e Ariovaldo Umbelino de Oliveira.
A comissão organizadora do evento era formada por integrantes do Grupo de Pesquisa em Habitação e Sustentabilidade do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP (HABIS/IAU/USP), do Centro de Ação Social em Arquitetura Sustentável da Faculdade de arquitetura e Urbanismo da UnB (CASAS/FAU/UnB) e do Grupo de Estudos em Reforma Agrária e Habitat do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFRN (GERAH/PPGAU/UFRN).
O colóquio anterior havia ocorrido na USP São Carlos em maio de 2011 e produziu um interessante documento com o resumo das discussões e uma série de propostas para o Estado, atacando a falta de isonomia entre os programas para a cidade e para o campo: 
A discriminação da população rural dentro das políticas públicas habitacionais do governo federal acentua-se na medida em que não há recursos previstos, dentro do Minha Casa, Minha Vida, para a provisão habitacional em assentamentos de reforma agrária. Para solucionar a falta de habitação, a população assentada passou a contar exclusivamente com recursos do INCRA, por meio do programa Crédito Instalação, que prevê 15 mil reais para a construção de novas moradias e 8 mil reais para reforma. No entanto, este órgão do governo federal não possui técnicos em número e qualificação adequada suficiente para implementar uma política habitacional justa e eficiente para os assentamentos rurais. Também não disponibiliza assessoria técnica especializada e gratuita para um acompanhamento satisfatório dos empreendimentos.
Diante deste cenário, o II Colóquio Habitat e Cidadania: Habitação Social  no Campo configurou-se como uma iniciativa que pretende retomar e qualificar este debate em âmbito nacional, propondo a articulação e a formulação de estratégias e ações que possam orientar   mudanças significativas na política de habitação social no Brasil, cujo horizonte seria a isonomia de recursos, de atendimento, de tratamento, de consideração, enfim,de direitos entre o urbano e o rural.
O direito à moradia foi constitucionalizado por meio da emenda n. 26, de 14 de fevereiro de 2000. Se a sua efetividade nas cidades é problemática, no campo, onde historicamente o acesso aos direitos e à justiça é menor, o quadro se mostra mais difícil.
O programa federal Minha Casa, Minha Vida, acabou sendo estendido para o meio rural entre o II e o III Colóquios, como era a demanda dos movimentos no campo. No entanto, com que limites isso se deu? No evento, os problemas se mostraram bem claramente.
A organização do colóquio, além de trazer pessoas da academia, chamou representantes dos movimentos sociais, das populações indígenas e do governo. Ademais, pensou na habitação não apenas nos campos, mas incluiu a perspectiva dos moradores das florestas e das águas, incluindo os pescadores.
As divergências entre os grupos presentes foram muito significativas: a Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar (FETRAF) e o Movimento dos Sem-Terra (MST), apesar de relatarem experiências que demonstram que o programa mal funciona e, de fato, não é adequado para a diversidade de culturas e de climas no Brasil, muito menos para as dificuldades de logística fora do ambiente urbano, defenderam o Minha Casa, Minha Vida e o governo federal. Não foi à toa que Kátia Abreu pode ser ministra... Os índios e os extrativistas, pelo contrário, foram bastante críticos, bem como a maior parte dos representantes da academia.
Era uma boa ideia, ou estratégia consequente, defender o programa? Interessante análise de Mariana Fix e Pedro Arantes, "Minha casa, Minha Vida, o pacote habitacional de Lula", de 2009 (quando o programa ainda se circunscrevia à moradia urbana), argumenta que ele ressuscitava a ideologia da casa própria da ditadura militar "num contexto de apaziguamento das lutas sociais e de conformismo em relação às estruturas do sistema". Ademais,
[...] não se encontra no pacote qualquer preocupação com a qualidade do produto e seu impacto ambiental, a não ser a que é posta pelo próprio capital da construção e suas pífias certificações de qualidade, que garantem na verdade sua viabilidade como mercadoria, ou seja, a ratificação da prevalência do valor de troca sobre o valor de uso.
O amplo repertório nacional e internacional de soluções para a habitação social é sumariamente ignorado na formulação do pacote e nas moradias padrão apresentadas pela Caixa Econômica. As duas tipologias propostas pela Caixa foram divulgadas pela instituição como solução padrão para todo o território nacional, desconsiderando condições climáticas, culturais, geográficas diferenciadas do Brasil. Elas já estão pré-aprovadas (o que agiliza prazos e diminui o tempo de análise de projetos) e se tornaram referência para incorporadores imobiliários como parâmetro para os estudos de viabilidade e rentabilidade dos empreendimentos – evidentemente que os empresários não pretendem fazer nada melhor ou maior para a faixa de 0 a 3 salários, sob pena de reduzirem seus lucros, e até já estudam a supressão de paredes internas das unidades habitacionais.
Os defeitos estruturais desse Programa, concebido para as construtoras e não para a população, em sua financeirização e sua recusa à diversidade cultural e ambiental, confirmaram-se no meio rural. Mesmo adotando um discurso de defesa do governo, o MST e a FETRAF não puderam negar os problemas, embora acreditem que eles possam ser solucionados simplesmente com maiores investimentos. Tendo a pensar que se trata de um engano, como Ailton Krenak denunciou no Colóquio: a política está errada desde sua concepção.
A maior parte do evento foi transmitida ao vivo e gravada pela PósTV. Indico abaixo os vídeos, sem me preocupar em resumi-los, pois ainda não vi todos.


1. Conferência de abertura, do geógrafo, professor da USP, Ariovaldo Umbelino de Oliveira. É impressionante vê-lo falando da reforma agrária no Brasil, atualizando os dados de seu livro Modo de produção capitalista, agricultura e reforma agrária, explicando a não-reforma agrária do governo Lula até a reforma mínima do governo Rousseff. Antes de chegar à atualidade, ele dá uma grande aula sobre a história da legislação fundiária no Brasil desde os tempos coloniais.
É impressionante o que ele diz, a partir dos dados oficiais, sobre a grilagem que ocorreu no Brasil entre 2003 e 2014 - sem paralelo até mesmo durante a ditadura militar, segundo o geógrafo.
A maior parte das terras improdutivas está no "paraíso do agronegócio".
Ele trata dos diversos episódios de corrupção no INCRA e das operações da Polícia Federal. E destacou que o "calcanhar de aquiles do agronegócio" é a propriedade fundiária: os ruralistas "sabem que suas terras estão sobre ilícito".

2. Mesa de 13 de maio, manhã: Representantes do governo se apresentaram, do Ministério das Cidades e da Caixa Econômica, bem como militantes camponeses e quilombolas.
Fátima Vieira, do MST/MS, mostrou quadros que pareciam vir de um representante da Caixa Econômica, de tão governistas que eram. Uma doutoranda da USP questionou a falta de problematização do programa, o que gerou discussão.
Girlene dos Santos falou do Projeto Brasil Quilombola, que seria bonito, porém, "para chegar à política, é preciso passar por uma série de entraves": problemas com o INCRA, o financiamento, e a  logística. E revelou que já havia recebido dez ligações de pedreiros que queriam deixar as obras porque não haviam recebido pagamento.
Agmar Lima, que, além de representante quilombola em Minas Gerais, é vereador pelo PT, também falou dos problemas de execução na ponta: não haver estradas, fornecedores não quererem atender... Porém, no debate, afirmou que "era fácil problematizar" e que "nós aceitamos o que o governo brasileiro e suas instituições nos dá". E reclamou que a academia não ia para as comunidades quilombolas: "nós não temos ninguém nosso na academia".
Muito interessante foi a fala de Célia das Neves, da Reserva extrativista Marinha Mãe Grande (PA), sobre a inadequação do programa e da legislação existente para as comunidades de pescadores. Ela denunciou que o maior estuário do mundo, do Amapá ao Maranhão, estava ameaçado pela construção de um porto para a Vale (eleita, como sempre deve-se lembrar, a pior empresa do mundo em 2012). Vejam-na empregar o neologismo "maritório", junção de mar e território, que, em sua imaginação conceitual, surpreendeu o professor Ariovaldo.

3. Mesas de 13 de maio, tarde: Falas de representantes do Ministério das Cidades, do MST, da FETRAF e da ONG Núcleo de Cultura Indígena.
Cedenir Oliveira, do MST/RS, em alusão ao debate anterior, defendeu o modelo do Minha Casa, Minha Vida: "nós temos que olhar os interesses coletivos dos sujeitos, senão você pode cair no individualismo"; "você pode fazer quatro ou cinco projetos e a família se adapta".
Ailton Krenak (vejam-no em 1988, defendendo o capítulo dos povos indígenas na Constituinte, em trecho do filme "Índio Cidadão?" de Rodrigo Arajeju) se apresentou, fez uma homenagem a Osmarino Amâncio (a partir de 1 hora e 37 minutos do vídeo), com quem criou a União dos Povos da Floresta em 1987, e criticou severamente o Minha Casa, Minha Vida: "estamos cada vez mais introjetando em nossas políticas públicas os modelos de urbanização"; "meu povo teve que lutar por muito tempo para continuar a viver em beira de rio".
Elvio Motta, coordenador nacional da FETRAF, falou dos problemas com os fornecedores, com a mão de obra, mas elogiou o governo, e afirmou que "as melhores casas são dos movimentos sociais organizados". Ressaltou, porém, a existência de máfias no programa, com entidades organizadoras falsas: o Ministério precisaria "separar o joio do trigo".
Em resposta a pergunta, Cedenir Oliveira defendeu a autoconstrução assistida, que seria uma forma de evitar o assistencialismo. Ailton Krenak fez uma declaração veemente e elegante, explicando que estava no encontro errado, não com os movimentos sociais que queriam mudar o país, mas com aqueles que simplesmente aceitavam "bugigangas" do governo. Ele não teria vindo para "homologar políticas" que a longo prazo seriam danosas e cujos efeitos teriam que ser desfeitos depois. E deixou a mesa!
Foi o momento mais dramático do Colóquio, em que a oposição entre estes movimentos de sem-terra e as populações tradicionais, fortemente discriminadas pelo governo federal, apareceu de forma inegavelmente flagrante.
Não pude ver a mesa seguinte, com representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (vejam, a partir de 3'30'', a explicação de como o direito à moradia está sendo "sistematicamente violado" na construção de barragens) e do Movimento Camponês Popular, pois aproveitei para assistir a algumas aulas no Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais, em que falaram Ailton Krenak e Manuela Carneiro da Cunha.

4. Mesa de 14 de maio, manhã: Osmarino Amâncio, previsto para o dia anterior, acabou falando nesse dia, e denunciou que estava sendo alvo de criminalização pelo ICMBio (vejam a história no Índio é Nós: http://www.indio-eh-nos.eco.br/2015/05/26/carta-dos-servidores-do-icmbio-e-a-criminalizacao-dos-povos-da-floresta/). O governo federal está criminalizando as práticas tradicionais das comunidades extrativistas; para a atual administração, o seringueiro construir uma casa com a madeira caída na floresta é um crime ambiental, mas a construção da Usina de Belo Monte é perfeitamente lícita!
Vejam o que Osmarino espirituosamente diz dos três candidatos mais votados na última eleição presidencial.
Foi muito impressionante a fala de Smri'a'u Xavante, José Tserenhomo Xavante e Tseredzu Xavante, da Comunidade Xavante de Ripá (MT) falaram com Alexandre Lemos (que fez a tradução; dos Xavantes, somente o cacique, José, falava em português). Eles rejeitaram as casas do govenrno e preferiram ficar com suas tradições - como mostra este filme, "Uma casa, uma vida", um dos curtas exibidos no Colóquio à noite.
Houve também falas dos representantes da COOPERHAF (SC) e do CREHNOR (RS), que evidenciaram as dificuldades de financiamento e de construção para a habitação no campo. A professora Amadja Borges, da UFRN, fez uma interessante fala crítica, nos comentários, às políticas do governo federal.

5. Mesa de 14 de maio, tarde: Perdi a maior parte desta mesa, que tratou das experiências do Peru e do Uruguai, com falas de Miguel Angel Hadzich, Sandra Graciela Vegara Davila, Martin Batalla e Gonzalo Balarini.

6. Plenária final: As discussões dos grupos de trabalho foram expostas. O professor João Marcos Lopes fez um histórico dos colóquios e dos programas governamentais. Nos debates, pode-se ver a representante do Ministério das Cidades afirmar que não haverá mais recursos neste ano nem no ano que vem.
Por causa da viagem de volta, não fiquei até o final. Eu não tinha visto Rodolfo Sertori, a partir de 2 horas e 11 minutos, criticar com toda razão que "a gente deixa de lutar por terra por lutar por verba do Minha Casa Minha Vida [...] um programa que só surgiu por demanda de construtora. Todo mundo sabe disso. Isso não é segredo."; "O Ministério das Cidades não é nosso parceiro. Ministério das Cidades é parceiro de construtora". Deve-se lembrar que ele administra o programa também para a área rural...
Sertori conta as dificuldades do próprio Colóquio: tiraram "dinheiro do bolso". O INCRA nunca respondeu aos telefonemas da organização, e a Funai teria apenas perguntado quando foi contactada por causa deste evento, "o que a gente tem a ver com isso?". Os índios presentes compreenderam a questão muito melhor do que a Funai...
A partir de 2 horas e 26 minutos, Célia das Neves retoma a palavra e critica a medida provisória 665, que prejudicou, entre tantas outras categorias, os pescadores, por conta do seguro defeso, e o decreto 8425, de 31 de março de 2015, que "não reconhece a cadeia produtiva familiar dos pescadores", com discriminação de gênero (o que é impressionante, lembrando que foi uma mulher, presidenta da república, que assinou esta norma): as mulheres deixariam de ser consideradas pescadoras, ela explica.

Ainda será elaborado o documento final do III Colóquio. Achará uma casa comum para todas essas posições divergentes, que revelam os limites e as concessões da esquerda que está agora no poder?

P.S.: Em agosto de 2015, tive conhecimento da tese de doutorado de Alexander Hilsenbeck, "O MST no fio da navalha: dilemas, desafios e potencialidades da luta de classes", defendida em 2013 no programa de pós-graduação em ciência política da Unicamp. Faço notar que  banca era composta por intelectuais simpáticos ao Movimento, incluindo Bernardo Mançano Fernandes, que publicou com Stedile.
No trabalho, que levanta parcerias de empresas transnacionais com o MST, ainda anterior ao impacto do "Minha casa, minha vida" nesse movimento, a guinada à direita é explicada desta forma:
Vemos, assim, um reordenamento da lógica de gestão do Estado e a integração da ação política dos movimentos sociais à nova lógica gerencial de governo. Numa manifestação de perda de referência social, busca-se fantasiosamente superar as barreiras de classe em favor de uma cidadania limitada, que se atrela e se fundamenta no mercado.
Na conclusão, temos perguntas incômodas como estas:
Ao trilhar o caminho da prioridade às questões relativas às técnicas, financiamentos e ao mercado, com parcerias com empresas capitalistas transnacionais por políticas governistas, não estaria o MST convertendo-se, também ele, numa unidade (ainda que marginal) do sistema?
Seria este o caminho a ser seguido pelo MST? De permitir que sua agenda de lutas seja preenchida exogenamente pelos temas impostos pelo governo? Em mais de uma década de governos do PT qual foi o balanço do acúmulo de forças e qual foi o ascenso dos movimentos de massas? Não teria essa falta de acúmulo contribuído para uma guinada à direita nas recentes mobilizações de massa de junho de 2013?