fosse o mesmo que aDia
O palco e o mundo
Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".
quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
"Se o dia D/ fosse o mesmo que aDia"
fosse o mesmo que aDia
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
Desarquivando o Brasil CLXXIII: Araguaia e massacre em tempos de pandemia
O Estado foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, em 2010, pelos crimes de tortura e desaparecimento forçado de militantes políticos que ousaram defender as liberdades políticas e a democracia durante a ditadura militar (1964-1985).Nós mulheres, ex-presas políticas, que nos rebelamos e resistimos contra o autoritarismo da Ditadura Civil Militar que impuseram à sociedade brasileira naquele período, vimos repudiar estes atos e demandar que as instituições democráticas do Estado Brasileiro tomem as providências cabíveis.Não permitiremos que nosso país mergulhe de novo no fascismo e no obscurantismo.Em defesa da democracia, das liberdades políticas e pelo fim da tortura e dos desaparecimentos forçados!
Art. 8º. É concedida anistia aos que, no período de 18 de setembro de 1946 até a data da promulgação da Constituição, foram atingidos, em decorrência de motivação exclusivamente política, por atos de exceção, institucionais ou complementares, aos que foram abrangidos pelo Decreto Legislativo nº 18, de 15 de dezembro de 1961, e aos atingidos pelo Decreto-Lei nº 864, de 12 de setembro de 1969, asseguradas as promoções, na inatividade, ao cargo, emprego, posto ou graduação a que teriam direito se estivessem em serviço ativo, obedecidos os prazos de permanência em atividade previstos nas leis e regulamentos vigentes, respeitadas as características e peculiaridades das carreiras dos servidores públicos civis e militares e observados os respectivos regimes jurídicos.
206. Igualmente, na mesma sentença, a Juíza ressaltou que não cabe negar a importância histórica dos fatos do caso e que “tempos como aqueles, de […] violação sistemática de direitos fundamentais, não devem ser esquecidos ou ignorados”.314 Indicou que “a informação prestada pela [União] é o que permitirá o acesso dos [a]utores aos restos mortais de seus familiares” e que, “se o aparato estatal agir de maneira que violações de direitos humanos fiquem impunes e não se restabeleça a vítima (na medida do possível) na plenitude de seus direitos, o Estado viola suas obrigações convencionais no plano internacional”.315 Ressaltou que os fatos citados na Ação Ordinária constituem “gravíssimas violações de direitos humanos” e, aplicando jurisprudência deste Tribunal, determinou que a verdade sobre o ocorrido deveria ser relatada aos familiares de maneira pormenorizada, já que era seu direito saber o que realmente ocorreu.316 Como consequência do anterior, a Juíza Federal de Primeira Instância solicitou à União que suspendesse o sigilo e entregasse todas as informações relativas à totalidade das operações militares relacionadas com a Guerrilha.317207. Em 27 de agosto de 2003, o Estado Federal, por meio da Advocacia-Geral da União, interpôs uma apelação contra a referida decisão, na qual, inter alia, questionou o levantamento do sigilo dessas informações e reiterou que o pedido dos autores estava sendo atendido mediante a Lei nº 9.140/1995.318 Informou também que a Comissão Especial, no marco de aplicação da referida lei, “requisitou e recolheu documentos e informações provenientes das Forças Armadas e de outros órgãos públicos, além de ter realizado missões na Região do Araguaia para levantamento de informações e busca de restos mortais das pessoas desaparecidas”.319
segunda-feira, 28 de dezembro de 2020
"Um ano de vírus,/ dois anos de verme"
dois anos de verme,
todo o corpo
ocupado
como um planeta
sob asteroides.
Um ano de vírus,
dois anos de verme,
um universo
programado
para a implosão
das estrelas.
Um ano de vírus,
dois anos de verme,
os asteroides
trazem a
não minérios,
a explosão
não gera luz,
mas poeira,
é o que
das estrelas.
Após um ano
de vírus, o dobro
do verme,
que tempo
resta
que corpo
é este mudado
em tempo
medido
em verme
no universo
cronometrado
pela poeira,
a imitação
que as estrelas
fazem do vírus?
domingo, 27 de dezembro de 2020
Mundo-Vertigem, antologia da ficção fantástica brasileira por Luiz Bras
Luiz Bras me chamou para participar desta antologia de literatura fantástica brasileira contemporânea, Mundo-Vertigem, por causa do conto "Grito adentro", de Cidadania da bomba.
Fiquei muito surpreso, pois sempre achei este gênero muito além das minhas forças. Concordei, no entanto, não apenas pela oportunidade de estar com ele e os outros autores, mas por pensar que o fantástico é também uma forma de ver o mundo e a literatura, e que, inobstante a situação cotidiana retratada na história, se poderia ver aquele conto, que escrevi em quinze minutos em uma oficina de literatura de Fabio Weintraub, dessa forma.
Acrescento ainda que, se eu tivesse tanto pudor com o que está além de mim, não poderia escrever. Pois a literatura exige um esforço de ultrapassar-se.
Depois de quase um ano de pandemia no mundo, e de dois anos da volta como farsa dos militares ao poder no Brasil, o que ainda pode ser considerado fantástico na literatura? Talvez a mais previsível "normalidade" seja o fantasma que poderia nos causar vertigens com suas alturas inacessíveis do rés do chão.
Segue abaixo o release da obra, já disponível para compra:
Mundo-vertigem
Alink Editora
Luiz Bras (organização)
14 x 21 cm
232 páginas
R$ 37
A coletânea Mundo-vertigem: ficção fantástica brasileira reúne trinta e seis talentos de nossa literatura contemporânea, todos fascinados pelas facetas mais insólitas da existência. Os contos aqui reunidos comprovam que essa nova geração de ficcionistas continua mantendo em altíssimo nível nossa ficção fantástica (às vezes chamada de realismo mágico), gênero impulsionado no século vinte, entre nós, pelos mestres do extraordinário: Murilo Rubião, José J. Veiga, Lygia Fagundes Telles, Victor Giudice, Maria Helena Bandeira, Jamil Snege e outros.
Autores:
Adrienne Myrtes + Alex Xavier + Amilcar Bettega + André Czarnobai + Antonieta Fernandes + Braulio Tavares + Carla Figueiredo Vieira + Carlos Emílio Corrêa Lima + Danielle Martins Cardoso + Eduardo Sabino + Fábio Fernandes + Helen Fadul + HelO Bello Barros + Isabor Quintiere + Ivan Carlos Regina + Ivan Nery Cardoso + João Paulo Parisio + Manoel Herzog + Márcia Barbieri + Marne Lúcio Guedes + Nathalie Lourenço + Nelson de Oliveira + Pádua Fernandes + Patricia Galelli + Rafael Sperling + Regina Junqueira + Rodrigo Garcia Lopes + Romy Schinzare + Rosana Rios + Santiago Santos + Sidney Rocha + Silvia Camossa + Sofia Soft + Tereza Yamashita + Veronica Stigger + Wilson Alves-Bezerra
Alink Editora
alinkeditora@gmail.com
www.alinkeditora.com.br
quarta-feira, 16 de dezembro de 2020
Cida Moreira fala no Entreartes
Espero poder entrevistar em 17 de dezembro de 2020 com o professor Marcos Lemos a cantora e atriz Cida Moreira, às 18 horas. O evento é iniciativa do "Entreartes: conversas sobre a literatura brasileira", organizado por Lemos e Simone Rossinetti Rufinoni e ligado ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da USP. Já foram realizadas entrevistas com Zeca Baleiro, Milton Hatoum e Bia Lessa, disponíveis no canal do programa. Nesta ligação, a conversa poderá ser acompanhada ao vivo.
Claro que fiquei muito feliz com o convite. Não falarei disso no momento, mas me lembro da primeira vez que a vi: foi na tevê, no chamado "Festival dos festivais", em que ela defendia "Novos rumos", de Rossini Ferreira e Ana Ivo, uma música de clima brasileiro e antigo (um choro), que não logrou premiação, mas de que gostei muito e foi uma das poucas desse momento que ficou em minha memória. No entanto, só a vi apresentar-se ao vivo depois de mudar-me para São Paulo, neste século.
Era 1985, e ela já tinha muita experiência artística, pois cantava e tocava piano desde a infância e, desde a década de 1970, se envolvera em diversos projetos teatrais importantes, entre eles "A ópera do malandro", além de "Ornitorrinco canta Brecht e Weill". Sua carreira impressionante inclui ainda o cinema e, no campo musical, abrange compositores tão diversos quanto Ligeti e Lamartine Babo, Janis Joplin e modinhas imperiais, Arrigo Barnabé e Custódio Mesquita, Amy Winehouse e Eduardo Dussek, Tom Waits e Hanns Eisler, entre outros. Sua identificação com Kurt Weill e Chico Buarque é muito celebrada.
Na coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, recomendo um volume dedicado a esta artista, escrito por Thiago Sogayar Bechara. Na conversa do Entreartes, buscaremos ouvir esta grande intérprete de Brecht sobre literatura brasileira.
Alberto Pimenta e o Discurso sobre o filho-da-puta de volta, em tempos muito apropriados, ao Brasil
Foi editado novamente no Brasil o Discurso sobre o filho-da-puta, de Alberto Pimenta. Desta vez ele saiu na revista Serrote, número 35/36, publicação do Instituto Moreira Salles.
O livro, como se sabe, é uma das obras mais originais do século passado, e a mais traduzida do autor. Não acho inapropriado classificá-lo de ensaio, tendo em vista o caráter livre e imaginativo que o gênero pode assumir. Após o "plano geral da obra", que já se anuncia genial, abre-se com um poema, a "balada ditirâmbica do pequeno e do grande filho-da-puta":
o pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.
A repetição obsessiva da expressão acaba por normalizar o "palavrão" e realizar o seu significado profundo: demonstrar que esta espécime de ser humano está em todos os lugares, todas as dimensões da vida social, e mesmo entre os leitores deste livro. O gênio de Pimenta na caracterização dos diferentes tipos de filhos-da-puta e de sua atuação nunca foi demasiadamente louvado.
Em homenagem ao momento político do Brasil e aos cheques alimentadores de seus grandes representantes, lembro deste trecho:
que o filho-da-puta especializado em fazer faz um acordo público, é difícil saber se é um acordo público que traz préstimos particulares ou se é um acordo particular feito de prestações públicas, e o mesmo acontece sempre que ele, o filho-da-puta, faz todas as coisas que o filho-da-puta faz, as obras públicas feitas por motivos particulares, os programas de ensino público decretados com intenções particulares, as guerras públicas movidas para obter vantagens particulares, os jornais públicos cujo préstimo é relatar sobretudo os prestígios particulares, os estabelecimentos públicos para ocupações particulares, a assistência pública para lucros particulares, em suma, os negócios públicos feitos para fins particulares e os negócios particulares feitos com meios públicos, e basta.
Há filhos-da-puta especializados em fazer e há aqueles que se dedicam a não deixar fazer; estes habitam, por exemplo, "a secretaria, toda a secretaria da mais baixa à mais alta, não é, como se supõe, o lugar onde se faz, mas o lugar onde não se faz, onde se sonega, onde se põe por baixo do monte o papel que devia estar em cima". Eles cometem esses atos e omissões porque, entre outras razões,
o desejo do filho-da-puta é que ninguém estivesse nunca no meio do novo, do belo, do agradável, porque isso dá satisfação a quem lá está; que ninguém fizesse nunca nada de novo, de belo, de agradável, que isso vem alterar a ordem das coisas, e o filho-da-puta só se sente à vontade quando as coisas estão na ordem e ele à frente delas.
O ódio ao belo e o amor à ordem, sabemos bem que tipo de artista isso dá, e que prêmios e atenções ele recebe.
A Serrote omite que o Discurso teve uma edição no Brasil posterior à portuguesa de 2000. Em 2003, a Achiamé o relançou, duas décadas após a edição de 1983 da Codecri.
Talvez a revista pudesse ter informado que o livro foi levado ao teatro em Portugal neste infausto ano de 2020 (por essa razão, menos infausto), com direção de Fernando Mora Ramos, música de Miguel Azguime e o "quarteto de cordas vocais" Cibele Maçãs, Fábio Costa, Marta Taveira e Nuno Machado. Talvez não, visto que, em razão dos atrasos causados pela pandemia, o espetáculo teve a estreia adiada. Os tempos estão bem difíceis também para os trabalhadores do teatro e da música, para não falar da ópera.
Falando neste assunto, o que faria o filho-da-puta diante deste problema mundial de saúde pública? Imagino, em exercício abstrato de suposição, que o filho-da-puta especializado em não deixar fazer impediria que a população se vacinasse ou mesmo se prevenisse corretamente.
Alcançaria sucesso nesse empreendimento genocida? Ignoro. Precisaria muito da cooperação de seus semelhantes, muitos deles especializados em matar e, outros, em se deixar matar. Quem sabe alcançaria a marca de duzentos mil mortos em doze meses? De tanta omissão e impedimentos, lograria realizar uma ação inaudita. Como escreve Alberto Pimenta sobre o filho-da-puta, "o homem é nosso alvo".






