O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

sábado, 28 de abril de 2012

Poesia lésbica de político homofóbico, ou a arte sabe mais do que as instituições

Em uma nota sobre a deriva belomontesca de Jorge Mautner, lembrei como Anthony Garotinho, quando assumiu o governo do Estado do Rio de Janeiro, criou uma publicação da Secretaria de Cultura que, em seu primeiro número, publicou uma entrevista em que o governador divulgava sua persona de "poeta do amor".
De fato, Garotinho escreveu livros de versos, o que, em princípio, não destoaria da vocação beletrística de tantas autoridades brasileiras. Getúlio Vargas entrou na Academia Brasileira de Letras, José Sarney e  Marco Maciel estão lá etc. Em tantos desses casos, a literatura é tratada antes como fator de prestígio do que como objeto estético.
Talvez seja esse o caso de Garotinho, hoje deputado federal pois a lei da ficha limpa ainda não era eficaz na última eleição para o Congresso. Quero ressaltar, porém, como a obra poética do autor, embora de escasso mérito, se insurge contra as posições do político.
No portal do Centro Cultural Anthony Garotinho, instituição sediada em Campos, está disponível integralmente um dos livros de poesia do político, Diário do amor, dedicado à esposa e atual prefeita desse Município e, como ele, ex-governadora do Estado.
Todo o livro é composto de anotações de criança apaixonada, que, nos poucos momentos menos fracos, chega ao nível da imitação de poesia. Pareceu-me que se destaca o poema de número 13, que é ruim de forma estranha, interessante. Ele se inicia descrevendo uma chuva noturna; um dos amantes acorda com um raio e contempla a amada na cama.
Um virtuosismo sintático involuntário surge nos versos "Loucura de quem ama é assim:/ sente desejos imensos / intensos / impossíveis." Na aliteração com a vogal "i" anasalada, o autor reproduz a interjeição do leitor ao chegar nesse verso ("iiihhhh"), que, ainda por cima, já teria ficado resfriado com a leitura (daí a nasalidade) em razão de toda a chuva que cai durante o poema. Soa mal, parece loucura, mas tem seu método.

Neste trecho,
 

Você deitada
dormia o sono de uma fada,
tive o desejo
de lhe dar tantos beijos

a diferença/deferência da rima toante ocorre com o "i" a separar o beijo do desejo da consonância total (presente em "deitada" com "fada", uma rima perfeita). A vogal, novamente, ecoa a interjeição que o leitor terá feito desde o início da leitura do poema. 
Ao incorporar ao poema a própria reação crítica de quem o lê, o autor se orienta por qualidades dialógicas e inclusivas - certamente acidentais e, por isso, presentes nessa obra. Ela marca-se por um caráter político que se contrasta, como veremos, com a atuação do autor como político na cena pública institucionalizada.
Esse contraste é explicitado no estranho final, à primeira vista apenas banalíssimo:

mas num único beijo
você vai sentir mais desejo
do que a terra sente
depois de um dia quente,
recebendo da chuva
um beijo de verão.

Volta a rima toante dialógico-inclusiva de "beijo" e "desejo", contrastando novamente com uma rima perfeita, "sente" e "quente". A alternância de tipos diferentes de rimas não é uma exibição gratuita da limitada técnica versificatória garotinhiana, e sim uma decorrência formal da desmistificação do amor, que, embora pareça ter momentos de perfeição e harmonia, sempre está ligado à condição imperfeita das coisas humanas.  Não há novidade nisso.
O que há de inesperado? O eu lírico dirige-se a uma "amada", isso é anunciado explicitamente. No entanto, qual é o gênero desse eu? Um leitor ingênuo associaria a pessoa do poeta ao eu lírico e, portanto, incautamente pensaria que se trata de um homem cortejando uma mulher. Uma análise mais cuidadosa mostra que não se trata disso absolutamente. 
É a chuva quem beija a amada terra, e sabemos que, mitologicamente, a terra é associada ao gênero feminino. E as chuvas, as águas? O mesmo gênero: uma leitura arquetípica do poema deixa claro que se trata da relação amorosa entre arquétipos femininos, numa ousada representação poética de uma relação sexual entre duas mulheres. A fada-amada-terra é beijada pela amante-chuva. Isso explica o "mas não!" no tocante ao raio, estranha interrupção sintática no segundo verso, "Um clarão me acordou essa noite/ achei ser um raio, mas não! ", que, aparentemente, pareceria decorrer de um deficiente manejamento dos recursos da língua. Mas não: o raio, símbolo fálico, é repentina e firmemente renegado na intensa relação lésbica descrita por Garotinho.
Dessa forma, podemos contrastar o caráter reacionário e hostil aos direitos humanos do político Garotinho, que vocifera contra programas de combate à homofobia (chamados arbitrariamente de "kit gay"), à elogiosa abertura de gênero presente na poesia do autor. 
No exercício da poesia, embora de baixíssima qualidade, ele se mostra de muito melhor nível do que na condição de político, ao rascunhar versos em que o amor entre mulheres é um impulso natural, e não um vil pecado. Uma atração calorosa entre elementos da natureza.
Lemos, portanto, a poesia lésbica de um político homofóbico, fenômeno invulgar que mostra como as forças inconscientes que movem a literatura podem-se mostrar mais sábias do que a atuação pública cuidadosamente planejada de um político profissional.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Brasil e as velhas cotas para brancos

O Supremo Tribunal Federal, que já instituiu cotas raciais (desde 2001, com Marco Aurélio na presidência, o tribunal "implementou o sistema de cotas em serviços terceirizados para trabalhadores negros ingressarem no STF"), julga se elas são constitucionais em universidades públicas. Creio que não haverá surpresa no julgamento.
Aqui só gostaria de lembrar que o Brasil, embora isso não seja lembrado pelo DEM, partido político que se insurgiu contra essas políticas afirmativas, já teve cotas raciais, informais ou não, em favor dos brancos.
Uma lembrança óbvia é a política de imigração, que, desde o século XIX até pelo menos o ano de 1980, desejou "embranquecer" a população brasileira. Em uma nota sobre Machado de Assis, comento artigo de Ana Maria Gonçalves sobre o assunto.
O Decreto-lei n. 7967, de 27 de agosto de 1945, que privilegiava a "ascendência europeia", foi aprovado segundo os interesses dos grandes produtores agropecuários. Na ditadura militar, houve algo de correlato na política de colonização de terras na Amazônia por migrantes do sul do país.
Existiram também as cotas informais criadas pelo racismo. Um exemplo é o Itamaraty - não sei se a vedação de diplomatas negros (uma cota de zero por cento...) foi algum dia formalizada internamente naquela instituição. Hoje as coisas começam a mudar, e este discurso de formatura, proferido por Maria Eugênia Zabotto Pulino em abril de 2012, é impressionante (agradeço a Cybelle de Lima, que me chamou a atenção para o vídeo).
Essa novíssima turma de diplomatas, em vez de se chamar "Turma Barão do Rio Branco", preferiu escolher "Milena Oliveira de Medeiros", diplomata brasileira e negra, natural do Acre, que morreu por causa de malária contraída na Guiné Equatorial. A doença foi diagnosticada tardiamente - o que gerou protestos dos diplomatas pela alegada negligência do Ministério das Relações Exteriores.
A oradora argumentou que homenagear uma diplomata acriana seria uma forma de, indiretamente, celebrar Rio Branco, pois durante sua longa gestão no Ministério das Relações Exteriores o Brasil logrou tomar (adquirir, mais diplomaticamente falando) o Acre para si.
Quanto a mim, menos diplomaticamente, posso comentar que a escolha da homenageada corresponde a mais um passo significativo para enterrar aquela herança de Rio Branco - que é também uma herança significativa em termos de gênero.
Os exemplos de políticas de embranquecimento do Brasil são variados. Outro caso dessas políticas racistas de reforçar os grupos predominantes foi o do embranquecimento dos professores no Rio de Janeiro, ocorrido na primeira metade do século passado, estudado por Jerry Dávila,  professor da Universidade da Carolina do Norte, no livro Diploma de brancura: Política social e racial no Brasil, 1917-1945 (lançado pela Unesp), de que tomei conhecimento por meio de crônica de Elio Gaspari.
O autor recorda que colônias de imigrantes europeus, brancos, no sul do país também foram alvo da atenção governamental, para que se abrasileirassem. Essa preocupação, com Vargas, estava ligada à Guerra Mundial que se aproximava e as preparações militares dos alemães. No entanto, eles não eram vistos como inferiores, ao contrário dos negros:

No Rio, durante a era Vargas, a eugenia não estava relegada a conferências profissionais e remotos laboratórios, mas era um esforço coletivo, participativo.  [...] No sistema escolar, os eugenistas colocaram suas ideias em prática pela primeira vez, aprendendo e executando os programas para aperfeiçoar a raça. Suas pesquisas mostravam aquilo em que queriam acreditar: que alunos brancos, ricos, eram mais qualificados e isso podia ser mensurado. Nos casos em que um teste revelava o oposto, o pesquisador se esforçava para explicar por que os testes ou os pesquisados haviam-se desviado dos verdadeiros resultados, obtidos nas condições que se sabia serem verdadeiras. [p. 92]

A Constituição de 1934, não por acaso, previa que o Estado estimularia a educação eugênica:

Art 138 - Incumbe à União, aos Estados e aos Municípios, nos termos das leis respectivas:
        [..]
        b) estimular a educação eugênica; 

É claro que essse tipo de educação equivale à negação da universalização do letramento e da educação - metas que ainda não foram atingidas no Brasil, embora as políticas públicas estejam hoje mais perto da universalização do analfabetismo funcional.
Argumentos de negação do racismo no Brasil, portanto, derivam de uma ignorância tão vasta sobre o país que não podem ser considerados honestos, intelectualmente falando. Em alguns casos, podem ser até vistos como uma campanha deliberada para manter as cotas de cem por cento, ou algo próximo disso, para brancos.
No início desta nota, me referi a artigo de Sales Augusto dos Santos sobre "Políticas públicas de promoção de igualdade racial" que trata do combate ao racismo institucional, que é uma forma de discriminação indireta que persiste no Brasil. Esse problema deve ser conjugado à memória de que o país já teve formas oficiais de discriminação direta em favor dos brancos, isto é, em prol dos dominantes. Contra esse tipo de discriminação, políticos como os do DEM jamais se levantaram.
Compensar aquelas políticas não é nada menos do que um dever de justiça do Estado brasileiro. Ou, segundo, Marcelo Träsel, uma pechincha: "Nenhum negro ou índio está pedindo para se deitar com a minha mulher, ou vender minha filha para angolanos, ou me aplicar algumas chibatadas."

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Desarquivando o Brasil XXXIV: Emancipação dos índios e genocídio no Brasil


Neste dia do índio, decidi lembrar de um relatório de espionagem, pela Polícia Civil de São Paulo, da  30ª Reunião  da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que ocorreu em 1978, ainda durante o governo Geisel. O documento pode ser consultado no Arquivo Público do Estado de São Paulo.
O antigo Ministério do Interior, a que se subordinava a FUNAI, havia apresentado projeto para a emancipação dos índios brasileiros. Essa emancipação já era prevista pelo Estatuto do Índio, a lei federal nº 6001 de 1973, e poderia ser feita pela FUNAI ou por decreto do Presidente da República.

A novidade é que as terras indígenas, com a emancipação, seriam tratadas como terras privadas e poderiam ser vendidas. Conforme conta Roque de Barros Laraia, juristas como Dalmo de Abreu Dallari e Carlos Frederico Marés auxiliaram na denúncia do projeto, que foi alvo de grande campanha da Associação Brasileira de Antropologia e da, ainda segundo Laraia, "única grande mobilização da sociedade civil brasileira" em prol dos índios desde 1910, quando foi criado o Serviço de Proteção aos Índios.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Vitor Silva Tavares no Bartleby Bar

No Bartleby Bar, de Manuel de Freitas, Vitor Silva Tavares aparecerá para falar sobre Mario Cesariny e outros assuntos - ele tem muitos sobre o que falar. Para quem estiver próximo de Lisboa, aconselho que não perca esta conversa, pois creio que será imperdível. Afinal, boa parte da grande literatura portuguesa já passou pelas mãos do editor veterano, inclusive Manuel de Freitas. O bar fica na Rua Imprensa Nacional, 116b (cave do restaurante BS).

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Oxigênios anárquicos: entrevista com Vitor Silva Tavares

Estivemos, eu e Fabio Weintraub, em julho de 2007 em Portugal e aproveitamos para entrevistar um dos mais notáveis editores portugueses, Vitor Silva Tavares. Ele havia comemorado setenta anos, o que deu ensejo a diversas matérias jornalísticas.
Apesar da importância de seu trabalho, o editor não é tão conhecido no Brasil. Lembro-me de um bom livreiro no Rio de Janeiro achando que ele só lançava clássicos - e é quase o contrário! De autores clássicos, se é o caso, Vitor Silva Tavares busca títulos marginais, como se verá abaixo. E ele não tem medo de lançar autores jovens, até mesmo em poesia.
De fato, ele não teme muita coisa: sua porta está sempre aberta, desde que esteja lá para receber os visitantes. Na livraria Letra Livre, foi-nos dito que bastava apertar a campainha que a porta se abriria. E assim foi, sem perguntar quem éramos. Ele já me conhecia, porém.
A entrevista cobre uma série de temas: a escravidão nas colônias que Portugal ainda mantinha na África, a censura em Portugal e no Brasil, os surrealistas portugueses, o fascismo, literatura brasileira e até um auto-da-fé judicial realizado contra livro do século XIX que a & etc havia relançado!
Notável é que seu pertencimento à esquerda não esteja apenas no catálogo, mas também no modo de produção: ele não fica com os direitos autorais e jamais republica os livros, com uma única exceção: um livro apreendido pela polícia portuguesa depois de 74, o que é contado a seguir.
A entrevista saiu no K Jornal de Crítica. Como não está mais disponível, publico-a neste blogue com fotos (de qualidade mediana) que tiramos na editora, em Lisboa. http://www.blogger.com/img/blank.gifCreio que ela mantém o interesse, pois o caráter singular deste editor manteve-se inalterado, e talvez até mais excepcional, diante da crise em Portugal e na Europa.
Naquele tempo, a editora não estava na internet, mas hoje tem um blogue próprio, que aparece na lista ao lado.


K Jornal de Crítica 17 | nov/dez 07
Oxigênios anárquicos: Letras, Ativismo e Resistência: Vitor Silva Tavares e a Editora & etc



Vitor Silva Tavares, jornalista e editor nascido em Lisboa em 1937, trabalhou na Ulisseia (fundada por Abel Pereira da Fonseca) e fundou sua própria editora, a & etc (Edições Culturais do Subterrâneo), que teve origem em um magazine publicado no Jornal do Fundão. Esse magazine tornou-se uma revista (de 1973 a 1974) e, em 1974, pouco antes do 25 de Abril, uma editora, que prossegue muito ativa. Nela, publicou Adília Lopes e Henri Michaux, Alberto Pimenta e Max Ernst, Hermann Ungar e Ana Hatherly, Bataille e Herberto Helder, Sade e Satie, Picasso e Luís Miguel Nava, Nunes da Rocha e Nâzim Hikmet... Trata-se de uma empresa anticapitalista, que não fica com o copyright das obras. Ademais, nunca reedita livros (com exceção do único que foi censurado em Portugal após o fim do fascismo, episódio contado nesta entrevista) - o dinheiro é pouco e sempre usado para livros novos.
Pouco depois de completar setenta anos, em julho de 2007, Vitor Silva Tavares concedeu a Fabio Weintraub e Pádua Fernandes esta entrevista na sede da editora.


K - Como surgiu a intenção de ser editor?
VST - Foi por mero acaso, que uma grande editora portuguesa [Ulisseia] de repente ficou sem orientação e alguém se lembrou de sugerir o meu nome, justamente porque sabia que eu era um leitor compulsivo, tinha adquirido uma razoável cultura literária, e não apenas literária, mas artística (meus interesses se alargavam para o campo das artes plásticas, do cinema e por aí afora). Fui aceito e lá fiquei por mero acaso, aliás, como quase tudo o que ocorre na minha vida. Creio, porém, ser do André Breton aquela frase que diz que a única coisa que não acontece por acaso é o acaso. Parece que tinha que ser.

K - Isso foi na Ulisseia. Mas antes disso houve o trabalho como jornalista.

VST - Sim. A minha estreia nos jornais foi da seguinte maneira: um jornal daqui de Lisboa, chamado Jornal do Comércio, abriu um concurso literário a que chamou "A oportunidade 202". Quem ganhasse o prêmio, além da publicação no jornal, recebia 202 escudos. Resolvi concorrer. Só que, em vez de mandar poesia, conto, enfim, literatura de ficção, mandei uma reportagem sobre pequenos delitos. Ali onde agora está a Biblioteca Camões funcionava o Tribunal dos Pequenos Delitos. Fiz uma reportagem sobre um dia de trabalho nesse tribunal. Escusado será dizer que ganhei os 202 escudos. Mais do que isso: ligaram do jornal para perguntar à minha mãe que idade eu tinha e se eu era bom estudante, ao que ela respondeu: "Não, é um vadio". Quando publicaram o texto, fizeram uma pequena nota que revelava minha idade (15, 16 anos), me aconselhava a prosseguir nos estudos e me dizia para não esquecer que eu tinha uma caneta de ouro. Abriram-me então espaço para eu continuar a escrever.

K - Conte-nos um pouco mais do seu encontro com o surrealismo e com os surrealistas portugueses.

VST - Tive conhecimento direto, pessoal, dos representantes do surrealismo português. Houve dois grupos, digamos assim, na história do surrealismo português. Um deles era algo folclórico, superficial, epidérmico. Uma cisão no interior desse primeiro grupo veio gerar o segundo, para mim o mais autêntico. Aquele que vem a juntar Mário Cesariny, que havia passado pelo primeiro (e lá continuou em parte), António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Henrique Leiria e outros. Como é que vim a conhecê-los? Sempre através da Ulisseia. Antes de entrar para a Ulisseia, fiz uma viagem a Paris (exclusivamente para procurar autores, livros, editoras) e lá comprei a História do Surrealismo, do Maurice Nadeau. Ao chegar a Lisboa, já na Ulisseia, convidei o Mário Cesariny para traduzir e apresentar o volume. Mal podia adivinhar que não se davam: Cesariny repudiava completamente o historicismo de Nadeau. Os surrealistas portugueses são alheios à historicidade. Não é papel deles se debruçar sobre a história, muito menos sobre a própria história. Portanto, a tradução não foi avante. Em compensação, Cesariny propôs a Ulisseia uma espécie de antologia por ele organizada, que eu publiquei sob o título A Intervenção Surrealista [1966]. Uma antologia muito mais ortodoxa, bretoniana, seguindo a linha dos manifestos. Foi o primeiro livro surrealista que publiquei na Ulisseia. Em Portugal ninguém publicava os surrealistas. Era um pequeno grupo em ruptura com o neorrealismo vigente, que ocupava jornais, editoras em resistência ao fascismo. Ninguém publicava aqueles rapazes algo bizarros que andavam à noite a apanhar gatos em cima dos telhados e a os meter em caixas de papelão e outras coisas assim. Então eu botei a Ulisseia a serviço dos surrealistas portugueses, com quem tive contatos pessoais, nas noitadas, nas boêmias, nos cafés. De resto, há uma história interessante. Certo dia Cesariny chamou-me a um cafezinho para uma conversa. Lá fui eu. Ele, com o ar conspirativo, vozinha baixa, ao fim e ao cabo propôs-me entrar no grupo surrealista, um grupo fechado. Disse-lhe: "Sim, senhor. Mas quanto é que se paga por cota?" O que podia ser entendido como provocação foi logo secundado por uma gargalhada que cimentou um tipo de relação especificamente surrealista. A simples pergunta dava logo uma distância, digamos assim, dialética em relação ao movimento.

K - A África foi determinante para a formação de suas convicções políticas. Você voltou de lá politicamente diferente. Isso se deveu à sua atuação jornalística?

VST - Sim, em certa medida. Em 1959 fui a Benguela e, em março de 1961, rebenta a guerra em Angola. Quando começa a guerra em Benguela, os brancos vão à África do Sul comprar armamentos. Essa gente virava-se para mim, mostrava os bacamartes e dizia que, se chegasse ali a guerra, o primeiro a ser abatido seria eu, porque era mais preto do que os pretos. Naquela altura não percebia como tudo aquilo fazia parte da guerra fria, na competição por zonas de influência e por matérias-primas, pelas riquezas incomensuráveis do continente. Tinha ainda uma perspectiva humanista e lírica: via apenas o problema das independências nacionais, de povos que queriam se libertar da tutela de seus colonizadores. Sabia, porém, que os americanos estavam, grosso modo, por trás da UNITA [União Nacional para a Independência Total de Angola.], e sobretudo da UPA [União dos Povos de Angola], que foi o primeiro movimento a pegar em armas e lutar contra o colonizador.

K - Muito nos impressionou, na primeira vez que estivemos aqui, quando nos contou como eram recrutados os trabalhadores na África, e sua denúncia em relação a isso. Queria que nos contasse de novo essa experiência.

VST - O primeiro contato que tive com esses tais contratados foi no Porto do Bolito. O navio tinha acabado de atracar, eu ainda estava na amurada, com a pessoa que conheci na viagem - um engenheiro belga que trabalhava nas minas do Catanga, e que regressava ao trabalho. Perto da amurada, no cais, ficavam o capataz, uns sipaios, ou seja, polícias, e um conjunto de 30, 40 estivadores. Esses estivadores vinham presos com cordas nos pulsos e nos tornozelos, presos uns aos outros, numa longa fila. Perguntei ao conhecido o que era aquilo e ele me respondeu que eram os contratados.

Eu aqui, no liceu, nos livros de história, aprendera que Portugal havia abolido a escravatura, donde o meu espanto. Mais tarde vim a saber como era o processo. Conheci um indivíduo sinistro, um contratador, digamos assim, conhecido naquelas bandas pela alcunha de "Leão da Anhara", um tipo de leão que ataca, mesmo saciado. Ele pegava uns sipaios e, com uma ou duas caminhonetes, partia para o interior, levando barris com uma mistela de vinho, uma mistura com aguardente para embebedar aquela gente toda. Levava também uns cobertores chamados cambriquitos (as noites são muito frias no interior). Quando chegava na aldeia, distribuía vinho e cobertores. Horas depois estavam todos bêbados. Então ele e os sipaios pegavam os espécimes fisicamente mais fortes e os enfiavam nas caminhonetes. Quando os homens acordavam, estavam a centenas de quilômetros de distância de sua aldeia. Eram então levados aos postos administrativos do Estado onde os brancos fazendeiros, que precisavam de mão-de-obra, os compravam, pagando ao Estado um tanto por cabeça (o contratador recebia uma comissão). Uma determinada porcentagem de prisioneiros logo fugia (os que fossem apanhados eram abatidos a carabina). Suponhamos que o contrato fosse por um ano. Eles iam parar numa fazenda, em que havia somente uma cantina onde se abastecer. Sem noção do que era preço, do que era moeda, os contratados ficavam sempre a dever à cantina, que pertencia ao proprietário. Com isso, tinham que prolongar o tempo de contrato. Se por lei o contrato era de um ano, muitos ficavam por seis, sete, dez anos. Decorrido o tempo do contrato, o Estado comprometia-se a devolver a suas terras os indígenas que sobrevivessem.

K - Poderia falar novamente do artigo que você fez para O Intransigente denunciando as contratações e o que se seguiu, as pessoas que vieram tirá-lo do jornal?

VST - Sim, essa é uma cena de western. Não foi a única que tive. Esse episódio que eu contei cruza-se com outro. Não foi apenas eu denunciar uma determinada empresa, fazendeiros, a existência dos contratados. Isso estava consignado em todo o território. Suponho que também nas outras colônias. Já tinha começado a guerra lá no norte. Já os civis tinham partido para aqui e acolá para as tais incursões noturnas de vigilância. Eles atiravam sobre tudo o que se mexia, criando-se assim entre os brancos a ideia de que todo preto era um inimigo para abater. Chegou então ao meu conhecimento a informação de que, numa determinada fazenda, os fazendeiros tinham enfiado meia-dúzia de contratados - supostamente aliados dos terroristas -, em sacos com pedras e que os tinham atirado ao rio, onde eram estraçalhados por crocodilos. E é isso exatamente que eu denunciei, cruzando a questão dos contratados com essa violência suplementar (que, no meu entendimento, caracterizava genocídio).

K - Ninguém censurou o artigo?

VST - Num determinado período, a censura local ficou sem instruções de Lisboa, pois a guerra havia perturbado os serviços de vigilância na colônia. Aproveitei esse período de desatenção da censura para denunciar a política de contratação e o assassinato dos negros no jornal. Os contratadores também não fizeram por menos: armados, um pai e seus dois filhos, com chapéus sertanejos, foram me prender no jornal, enfiaram-me dentro de um carro, e me levaram aos arredores da cidade, para uma zona mais plana que servia de pista de aterrissagem de aviões de pequeno porte. Por essas alturas, minha ação como jornalista já era conhecida (e em parte apreciada) por algumas pessoas (não muitas) opositoras do regime de guerra. Eram meus protetores, digamos assim. Durante todo esse tempo, nunca usei, nunca trouxe comigo sequer um canivete, nada - eu só tinha a minha caneta. No sítio onde eu morava minha porta vivia aberta e a janela também. Numa pequena cidade onde tudo se sabe logo, assim que meus protetores souberam do que se passou no jornal, imediatamente tomaram providências. Assim é que, quando me meteram para o meio do terreno e me disseram que iam me abater, eu lhes disse: "Sim, sim, que atirem, faz favor, não vou oferecer resistência (e nem podia), me matem, e depois talvez tenham cinco segundos de vida. Olhem". E então olharam. Naqueles morros circundantes dessa pequena pista havia uma dúzia de carabinas de alta precisão direcionadas às cabecinhas deles. "De vocês, não vai sobrar nenhuma falangeta". E assim não morri.

K - A sua editora surgiu depois do 25 de Abril?

VST - Não, o primeiro livro, Coisas, é publicado antes de 25 de abril, em março.

K - Por falar em ditadura, conte-nos da sua peripécia com a ditadura militar brasileira no envio de livros...

VST - Uma distribuidora brasileira cujo nome já não lembro encomendou uma quantidade razoável do teatro do Picasso. Por quantidade razoável estou a me referir a uns 100, 150 livros, o que para o & etc era uma coisa enorme. A exportação foi um problema. Para além de todas as dificuldades burocráticas, retidos nos correios, na alfândega, os livros foram por fim enfiados em sacos de lona fornecidos pelos próprios correios, conduzidos a uma seção especial de onde seguiram para o Rio de Janeiro. Muitos meses depois, recebo um aviso dos correios para retirar uma encomenda no mesmo sítio de onde haviam partido os livros. Quando fui ver, esses mesmos sacos vinham com carimbos semelhantes aos da censura de cá, com dizeres de "proibido" e coisas assim. Ao abri-los encontro 30 ou 40 livros totalmente rasgados, estragados. Era um monte de papel estragado devolvido pelas autoridades policiais militares brasileiras que tinham, portanto, apanhado os embrulhos na alfândega. Tinham visto na papelada que eram do Picasso - há gente culta, claro, o militar brasileiro é normalmente uma pessoa bastante culta [risos]. Picasso, portanto, comunista. Na verdade, não podiam permitir que um comunista entrasse no Brasil. Ainda que fosse o teatro de Picasso, claro.

K - Ainda tenho uma pergunta, relacionada ao problema da censura. O senhor disse que, quando publicou o artigo denunciando as pessoas atiradas aos crocodilos, a censura portuguesa estava meio bagunçada. Mas como era nos períodos em que ela funcionava? O senhor submetia seus textos ao censor? O censor ficava no jornal? Havia censura local ou tudo passava por aqui?

VST - Não, a censura lá era autônoma, como a de cá. O edifício da censura era assim: a cúpula ficava em Lisboa e dependia diretamente da presidência do conselho. Em última análise, dependia diretamente do Salazar. Depois havia delegações espalhadas por todas as cidades do país, pois havia jornais regionais, espetáculos, coisas assim. Os casos mais bicudos, que as censuras locais não sabiam como resolver, eram encaminhados à sede em Lisboa. Nos jornais, a gente escrevia um artigo, o tipógrafo compunha e tiravam-se várias cópias, duas das quais iam logo para o Serviço de Censura. Uma cópia seguia para o responsável pela paginação e outra para os revisores. Por lei, era obrigatório enviar também, além do texto, quaisquer elementos gráficos que acompanhassem o artigo. No entanto, no & etc eu nunca mandei elementos gráficos, mas tão-somente os textos - sabendo que depois poderia sofrer sanções por isso. Posso lhes mostrar o que guardei da revista... não tenho jeito nenhum para organizar, mas... José Cardoso Pires, aqui, autorizado parcialmente.
"A burguesia intelectual é muito cosmopolita, muito cosmopolita, muito revolucionária, muito revolucionária, mas alimenta uma nostalgia tramada pela pax juris e servida com boas maneiras." [trecho censurado]

K - E acontecia de vocês conhecerem os censores?

VST - Não. Quando estive a dirigir o suplemento cultural do Diário de Lisboa, tinha acesso direto ao próprio diretor da Censura. Mas só a ele, não aos censores propriamente ditos. No entanto, houve uma exceção. A história é engraçada e tem a ver ainda com o & etc do Fundão. Ele tinha estado suspenso pela censura durante seis meses. Foi durante esses seis meses que eu, o escritor José Cardoso Pires, e o diretor do jornal, António Pauloro,[1] nos reunimos para ver como é que era possível, quando o jornal retomasse a sua atividade, manter uma folha ou uma parte cultural, pois o jornal tinha estado fechado por causa de uma folha cultural. Para contornar as dificuldades que desde logo se anteviam, decidimos transformar o suplemento em magazine e chamá-lo de & etc, nome que não identificava nenhuma ação cultural determinada. A tática foi esta: "Nós não vamos entrar de leão, vamos entrar devagarinho". Tivemos então que escolher nomes para a primeira página. Para o primeiro número, escolhemos um velho professor universitário de grande prestígio intelectual em Portugal, o Ernani Cidade. Ele já tinha nessa altura quase 80 anos, senão mais. Fui falar com ele, que aderiu à ideia e ficou todo comovido. Quem mais? Havia também um poeta que vim a publicar na Ulisseia: José Blanquis de Portugal. Era um poeta raro, erudito, e que ocupava o cargo de subdiretor dos serviços meteorológicos nacionais. Também era musicólogo - fazia palestras na emissora nacional sobre concertos, música clássica etc.

Homem de grande cultura, com espírito e humor muito fino, muito matemático e também já com alguma idade. Fui falar com ele, que também aderiu à ideia. Deu-me um artigo adaptado de uma crônica que ele já lera aos microfones da emissora nacional. Os serviços de censura, bem como a emissora nacional, estavam subordinados à Presidência do Conselho. Mandei compor o artigo do Blanquis de Portugal e enviei-o à censura, que o devolveu completamente retalhado. Corri então para o diretor da censura, a quem disse: "O senhor sabe quem é este senhor? É o diretor dos serviços meteorológicos nacionais e colaborador da emissora nacional que, como o senhor sabe, depende diretamente do Dr. Oliveira Salazar. Ou esses cortes são levantados ou apresentarei imediatamente meus protestos ao Dr. Paulo Rodrigues!" Paulo Rodrigues era o secretário do Dr. Salazar para os efeitos de censura. Como quem tem cu tem medo, o homem ficou passado. Abriu exceção e mandou chamar o censor, com quem me sentei numa salinha. O censor era um velhote, tenente-coronel reformado, grande parte dos censores eram oficiais já reformados. "Qual foi o seu critério, por que é que cortou isto?" O homem não tinha resposta. "O corte é absolutamente arbitrário! Como é que o senhor vai cortar aqui, artigo para a emissora nacional?" Ele então foi levantando os cortes, deixando apenas uns quatro ou cinco, para defender a honra do convento. E é aí que entra a questão dos elementos gráficos. Arranjei uma gravurinha do século XIX - uma mãozinha com uma tesoura - que reduzi e apliquei na primeira página, quatro ou cinco vezes nos lugares onde tinha havido cortes. Aprendemos com a censura a ler os sinais gráficos. Tudo poderia constituir mensagem, subliminar, escondida. Era um jogo de gato e rato.

K - E depois desse primeiro número, em que havia o artigo do Ernani Cidade e do Blanquis de Portugal, o que continham os números seguintes?

VST - Depois os números foram se radicalizando, mas apenas quanto ao aspecto ideológico da intervenção. Nunca quis fazer nenhum boletim político, nunca estive ligado sequer ao partido comunista, logo, não tinha de estar a serviço desta ou daquela formação política. No contexto da cultura portuguesa, o magazine foi se radicalizando pela posição totalmente antiortodoxa, pelo lado polêmico (nomeadamente contra os medíocres escritores neorrealistas), bafejado com os oxigênios (algo anárquicos, mas muito vivos) que vinham dos maios de 68. Ele foi se tornando muito mais solto de linguagem, com um tipo de humor cáustico, tomando posições que os franceses já chamariam de contracultura. Eu, mais modestamente, utilizando tão-somente a língua portuguesa, dizia que estávamos a "mijar fora do pinico". Isso se repetiu posteriormente na revista já autônoma, que também se caracterizou pelo uso de uma linguagem desenvolta, aberta, não raro contundente; por não reconhecer ídolos intocáveis e, ainda durante a ditadura, por repudiar a autocensura. "Os filhos da puta que cortem" - nós dizíamos - "...e, mesmo assim, vamos protestar". Criamos muitas inimizades, mas também, sobretudo com gente mais nova, conquistamos muitas adesões. Uma parte desse espírito está no conjunto dos livros publicados pela editora. Quando noutras entrevistas me perguntam: "Que linhas segue o & etc do ponto de vista conteudístico?" - tenho grande dificuldade em responder. O mais fácil é apresentar o catálogo e pedir que tirem as próprias conclusões. As linhas de força estão patentes no catálogo. Não é uma, serão várias. Então qual é o denominador comum? O modo de produção. Esse é exatamente o mesmo hoje, como quando nasceu. E é esse modo de produção que é político. Porque é fácil fazer catilinárias contra a exploração capitalista, contra a globalização das multinacionais. Eu, em qualquer café, posso estar a falar três horas sobre isso e, entretanto, na minha vidinha, no meu comportamento, cá estou eu. Não é verdade? Ora, aqui temos outro modo de produção - aí está a resposta, a resistência, a resistência política. Aí também se notam certas coisas. O Lafargue que eu publiquei não foi apenas o da Religião do Capital. No ano em que se comemorou o grande centenário do Victor Hugo, publiquei um livro do Lafargue que arrasa com o Hugo...

K - A lenda do Victor Hugo...

VST - ... a que eu pus o título O anti-Hugo. A gente lê esse livrinho do Lafargue e desaparece o Victor Hugo como pai da humanidade.

K - Ainda sobre essa questão, o senhor publicou agora a Djuna Barnes [O livro das mulheres repulsivas], que foi uma lutadora pelos direitos da mulher no século XX...

VST - ... herdeira das feministas americanas. E também dos movimentos gay, lésbico etc. Aliás, nesse aspecto, o & etc também tem uma componente muito forte. Basta ver que até a organização das lésbicas em Portugal tem contatos conosco. Temos no nosso catálogo uma, duas, três, quatro, cinco, seis lésbicas, grandes autoras. Assumidamente lésbicas, grandes minhas amigas. Essa é uma das tais linhas do & etc. Também aqui começamos a publicar a literatura homossexual (ou de homossexuais), numa altura em que ainda de certo modo isso era tabu. Temos cá também, desde o arranque, o Livro Branco do Jean Cocteau (e com todos os desenhinhos, pois). É evidente que isso chocou o meio livreiro. Há pouco tempo, um crítico, a propósito da Adília Lopes, fez uma crônica no jornal em que, a certa altura, dá conselhos a ela, exortando-a a se afastar de uma família devassa da qual fazem parte João César Monteiro, do cinema, Luís Pacheco, Vitor Silva Tavares, o Manuel João, do Ena Pá 2000, uma família devassa. O que haveria na cabeça – ou nos cornos – desse publicista?


K - E por falar na resistência a certos livros, Alberto Pimenta, um dos poetas editados pela casa, contou-me da resistência ao Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta, livro que tinha comprometimento político explícito, contrário ao massacre dos iraquianos...

VST - É um livro maldito. A maior parte dos livreiros não o quis devido ao tema, embora não se trate de uma poesia panfletária. Não há no livro nenhuma retórica demagógica sobre a questão do Iraque. Trata-se de um tema terrível tratado por um poeta de maneira poética. Aquela paca imperialista não está apenas a cometer o genocídio, está a esmagar uma cultura que fazia parte do patrimônio da humanidade. Isto deve ter sido percebido pelas centrais de compras de algumas organizações livreiras. Tenho indicação direta disto e a transmiti ao Alberto Pimenta. Houve, sim senhor, boicote a esse livro. Mas esse é um dos papéis de intervenção de uma editora cultural através da poesia. Pimenta é um autor incômodo (sempre foi), um outsider, alguém fora da redoma dos poetas que se leem todos uns aos outros, espreitam todos os umbigos uns dos outros. Pimenta está fora dessa campânula, e portanto está muito bem, acho eu. A amizade e a irmandade que nos une não assenta apenas no fato de termos ideias mais ou menos paralelas sobre a literatura e o papel da poesia, não, estende-se, abre-se ao mundo e entre a poesia e a nossa vida há uma interpenetração. Sem o público o que seria a poesia? Seria uma das belas artes, um tricô literário, se quisermos. Há gente que tem muito jeito para tricô literário, há muitos dotados. E a isso chamam poesia. Entendo muito mais a poesia como expressão de uma vivência, essa sim, muito rica e profunda de implicações, e que depois pode ter ou não ter expressão literária. Pedro Oom, um dos próceres do surrealismo português, começa um poema dizendo: "Posso escrever. Posso não escrever".

Há centenas, talvez milhares de, chamemos poetas, que escrevem, digamos, poesia, são conhecidos como poetas, publicam livros de poesia, são entrevistados como poetas, fazem viagens pelo mundo para lerem suas poesias. Eu a esses não chamo poetas. Em compensação, eu e o Alberto conhecemos muita gente, poetas de verdade, que não fazem nada disso, porque "pode não se escrever". Quando já para o fim, uma vez entrevistaram o Mário Cesariny e perguntaram-lhe: "Senhor Mário Cesariny, o senhor ainda escreve?" Ele disse: "Não, não, claro que não, a musa pôs-me os cornos, traiu-me como uma puta. Foi juntar-se a outros e a mim pôs-me os cornos." [risos].

K - E quanto aos autores mais jovens, como Manuel de Freitas?

VST - Ainda houve autores mais jovens do que ele aqui no & etc. Uma indicação de que a editora não se fossilizou, não se academizou, é a afluência de originais de meninos e meninas que ainda não têm 20 anos. Mas não temos aqui quotas geracionais - tanto publico um rapazinho que tem agora 22 anos como o Pimenta, que vai fazer 70 (eu já fiz). Publiquei até o Diário íntimo, do Luís Amaro, em homenagem a um homem de 83 anos que levou toda a sua vida ao serviço dos poetas. Tendo sido ele funcionário da editora Portugália, e depois, muitos e muitos anos, Secretário de redação da Colóquio Letras, dedicou sua vida à poesia dos outros. Tão parco, tão pudico foi com sua própria obra, que subalternizou sempre o próprio trabalho, dedicando cuidado, atenção, carinho, ajuda a gerações de poetas em Portugal. Então o & etc publicou, no ano passado, a obra poética do velho Luís Amaro, independentemente de se poder dizer que é uma poesia que já não se faz. Mas o que é isso? Escolas literárias? Ah, são como as ondas. Vem uma, depois vai abaixo e aparece outra, volta atrás, avança...


K - Foi com esse espírito que o senhor publicou a Eufonia, do Berlioz?

VST - Sim, senhor. Essa é outra das linhas do & etc: procurar pequenas preciosidades ou curiosidades literárias de autores que se notabilizaram por outras vertentes da criação artística. É o caso do Berlioz, conhecido como compositor romântico. Foi para mim uma grata surpresa poder publicar uma obra de ficção, ainda por cima futurista, do senhor Berlioz. A mesma coisa com Douanier Rousseau. O senhor Douanier Rousseau, o pintor, também tinha pecinhas de teatro. Publiquei então essa coisa deliciosa que se chama A vingança de uma órfã russa. E o lemos com um sorriso giocôndico, o mesmo com que vemos a sua pintura. Do mesmo modo o Picasso, que também escreveu teatro, e até poesia. Ou então são obras que os próprios autores, digamos assim, atiraram para uma espécie de gueto. Assim é que, de autores portugueses como João de Deus, publicamos, na contramarcha, um livro chamado Criptinas. Ora, João de Deus foi um herói da grande poesia lírica portuguesa. Ele compôs um livro de iniciação à leitura, para a escola primária, uma cartilha chamada Cartilha maternal. Foi enterrado com pompa nacional. Grande poeta lírico, amigo das crianças e tal. Esse livro Criptinas é um livro de poesias eróticas... e quão eróticas, quem havia de dizer... A mesma coisa com o Guerra Junqueiro, o poeta da República, da pátria, dos símbolos, o Victor Hugo português, que também deixou um livro de poesias eróticas publicado por nós - A porra do Luz Soriano.

K - Gostaria de aproveitar a sua menção à presença de peças de teatro no catálogo para que o senhor nos contasse um pouco da sua relação com o teatro.

VST - Havia comprado uma edição francesa de A formação do ator, do Constantin Stanislavski... Pelo cinema já sabia muito bem o que era o Actors Studio - o senhor Strasberg e o senhor Kazan foram adaptar o método Stanislavski ao modo americano, somando-lhe Freud. Essas coisas eu já ia sabendo, e tive uma paixão assolapada por aquele faz-de-conta, que cresceu muito quando a Casa da comédia decidiu montar uma peça do Almada [Negreiros], Deseja-se mulher, escrita há mais de 50 anos e jamais representada. Uma peça que ele, Almada, havia lido pela primeira vez num café de Paris, para ninguém mais ninguém menos que o senhor Federico García Lorca. E vim a trabalhar intimamente, diariamente, com o doutor Amado e com Almada para fazer esta peça. Foi um momento muito alto da vida do Almada. Ao cabo de cinquenta anos, ele via finalmente sua peça em cena. A maneira de o Almada se comunicar fazia com que muita gente o temesse - aqueles olhos enormes, aquele carão, a maneira tão recortada de dizer as coisas faziam com que ele parecesse um monstro. Não era. Era um menino. Em conversa comigo, certa vez falou-me (acho que deixou isso escrito em algum lugar) que um dia, quando ele era pequeno, o pai perguntou-lhe: "Filho, o que é que tu queres ser quando fores crescido?". Ele respondeu: "Quero ser pintor". E o pai: "Pintor é vagabundo". Ele: "Então, se não posso ser pintor, quero ser menino". [risos] Vou contar-lhes um pequeno episódio. Uma vez fui à casa dele. Ele fumava uns cigarros muito ordinários chamados Definitivos, que vinham na sequência de uma outra marca, chamada Provisórios. Nessa altura ele fumava Definitivos, que nem tinham filtro. Ele então pega o maço, tira o cigarrinho e diz: "Vou te contar a história da minha vida. É muito simples: eu antes fumava Provisórios, agora fumo Definitivos. Quer dizer, já cumpri o serviço militar". [risos] Vai daí, puxa da caixa de fósforos para acender o cigarro. Mas a caixa estava vazia. Dei-lhe então a minha. Ele a abriu, acendeu o cigarro, e quando ia ma devolver, eu disse: "Mestre, fique com ela". O homem ficou comovido até as lágrimas. Porque eu lhe tinha oferecido uma caixa de fósforos. Não era o valor das coisas, mas o gesto. Uma oferta é uma oferta, uma generosidade é uma generosidade; não se quantifica. Era como se lhe tivesse dado uma salva de prata ou qualquer coisa assim. Ficou comovidíssimo.

K - Como foi o seu primeiro contato com a literatura brasileira?

VST – O primeiro poeta brasileiro que eu nos meus, sei lá, quinze, dezesseis anos, por quem eu tive na altura uma grande paixão, pouco ou nada sabia da literatura brasileira, mas como tive uma namorada que trabalhava na Livraria Barateira, que tinha de tudo e mais alguma coisa, livros de segunda mão e tudo, um dia apanhei um livrinho e achei curioso o nome do autor: Catulo da Paixão Cearense. E já nessa altura eu gostava, pois passava na rádio, do Luís Gonzaga. Pronto. Já não lembro do título do livro, claro que não, mas comprei o livro e me encantou. E foi a partir do Catulo que comecei a interessar-me por poetas brasileiros. Até então eu não freqüentador da literatura brasileira. Não chegava cá, ou não estava à minha vista, eu não tinha me educado para isso. Estava no grau zero do conhecimento da literatura brasileira.E foi por esse nicho, Luís Gonzaga, "Vem cá cintura fina, cintura de pilão, cintura de menina, vem cá meu coração", coisas assim, que eu fiquei com a métrica do Catulo. Por causa do Catulo, fui depois comprar um livrinho pequenino, edição brasileira também, do Manuel Bandeira. Pronto. Só mais tarde é que tive mais informação do Brasil cultural, quer dos escritores, dos pintores, Cândido Portinari, é claro, que teve uma influência extraordinária, poderosíssima, no arranque do neo-realismo português. Pode-se dizer que o arranque das obras mais importantes do neo-realismo plástico português tiveram a nítida influência do Portinari.

Conhecendo mais o Brasil cultural, pega o Carlos Drummond de Andrade, pega depois o João Cabral de Melo Neto. De tal modo que estudantes da Universidade brasileira, não sei qual, vem cá a Portugal ao Teatro Tivoli com um arranjo cênico do Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Com esses estudantes estava o Chico Buarque de Holanda. Houve problemas com a censura e com a PIDE por causa dessa apresentação. Isso alertou muita gente para a obra de João Cabral de Melo Neto. E no Jornal do Fundão, o proprietário e diretor do jornal, António Pauloro, que tinha muita saída entre os imigrantes portugueses no Brasil daquela região que é Cova de Beira, o Jornal do Fundão lia-se muito no Brasil, por causa desses imigrantes. Era uma ponte cultural com o Brasil. Tanto assim que, quando vem a Portugal o Presidente Juscelino Kubitscheck, é convidado pelo António Pauloro a ir lá ao Fundão. E nesses convites que o António Pauloro fazia a personalidades brasileiras, quer políticas, quer intelectuais, normalmente ele fazia esses encontros nas festas de aniversário do jornal, uma vez foi convidado João Cabral de Melo Neto. E eu tive a ocasião de estar com ele lá no Fundão.

Mais ou menos por essa altura, nos anos 60, estava eu a fazer o Suplemento & etc do Jornal do Fundão, já tinha passado para o Diário de Lisboa com a parte cultural do jornal, quando o José Cardoso Pires me fala que no Instituto Alemão, o diretor do instituto, de nome Curt Meyer Clason, era um homem muito culto, tinha passado muitos anos no Brasil, tinha aprendido, e bem, a língua portuguesa do Brasil e, tanto assim, que a ele se devia a divulgação internacional "de um tal Guimarães Rosa". Ora bem: tinha eu também comprado, por mero acaso, um livrinho chamado Primeiras Estórias. A primeira ediçãozinha brasileira. E tem um conto pequenino, "Famigerado", e descobri um grande autor da língua portuguesa, brasileiro, brasileiríssimo, mas vou rencontrar na linguagem de Guimarães Rosa, apesar das suas audácias estilísticas, um português vicentino puríssimo nas suas estruturas, puríssimo! Que encanto foi reencontrar a língua portuguesa através, finalmente, de um autor brasileiro e regional, digamos assim. Só depois é que veio o Grande Sertão Veredas, bom. Mas comecei por esse Primeiras Estórias e fiz publicar no magazine & etc "Famigerado".

Dando o salto para o Curt Meyer, o José Cardoso Pires estabelece o encontro e eu vou falar com o Curt Meyer. Além de amigo íntimo do Guimarães Rosa, seu biógrafo, era, sobretudo, seu tradutor. Por esses acasos do destino, estava finalmente a falar com o homem que mais contribuiu na Europa culta para que Guimarães Rosa fosse conhecido como o gigante que é da literatura brasileira e da literatura mundial. E devo a maior devoção e admiração pelo Guimarães Rosa finalmente a um alemão, o Curt Meyer. Nessas coisas da cultura cada vez mais nota-se que não há fronteiras, nem sequer fronteiras de idade. O Curt Meyer era um homem muito mais velho do que eu.

Esse Curt Meyer acabou por ser muito maltratado não pela inteligentsia local, mas pelo governo alemão, em conivência com certas autoridades portuguesas. Na verdade, ele imprimiu ao Instituto Alemão uma dinâmica cultural também sociológica, também política, que fez com que as autoridades alemãs e portuguesas acabassem por lhe tirar o tapete, insinuando-se, e não passou disso, que o homem havia tido na sua juventude ligações ao Partido Nacional-socialista alemão. Cá outro dia vos disse que há muitas maneiras de assassinar um homem, e esta é das mais cruéis, e das mais insidiosas. Ele deu a conhecer Brecht, Kurt Weil e coisas assim, e, nesses tempos, não era coisa muito bem vista, não senhor, nem de um lado, nem do outro. Pronto. Portanto, quer quer que houve essa motivação política para afastar o Curt Meyer, homem de grande cultura e um gentleman, um cavalheiro. Homem muito sabedor e muito amante do Brasil e profundo conhecedor da literatura brasileira, da cultura brasileira para além de Guimarães Rosa.

Não constitui grande surpresa quando, na editora Ulisseia, na coleção de ensaio, eu publico um livro, uma antologia organizada e prefaciada pelo Ernesto Melo e Castro, um homem cá pioneiro da poesia experimental, que chegou a fazer coisas em conjunto com o próprio Alberto Pimenta e a Ana Hatherly, os chamados experimentalistas, este livro chamava-se Proposição 2.01 [1965], sobre a poesia gráfica, a poesia experimental, com o contributo para a língua portuguesa, poderosíssimo, importantíssimo, dos irmãos Campos. Pronto. Ele divulgou cá nessa antologia. E já uma literatura de vanguarda, minoritária, quer crer que, quando eu publico o livro cá em Portugal de poesia experimental, também relativamente poucos brasileiros tinham contato ou conhecimento com esse movimento que estava a dar. Quer crer. Suponhamos que é uma questão de escala: enquanto cá poderia haver 20, 30, 50 pessoas que se começavam a conhecer a dita poesia experimental, talvez no Brasil pudessem ser mil, mas o que é mil no Brasil? Nada. É uma gota no oceano.

K – Ontem achei As metamorfoses do vídeo, de Alberto Pimenta, e o Homo Sapiens...

VST – Puxa vida, onde é que vai achar essas coisas? É uma preciosidade, está muito bem.

K – Ainda havia páginas coladas no livro. No Metamorfoses do vídeo, há um poema de Alberto Pimenta que se refere a batidas na porta: em determinada hora, é a leitaria, em determinada hora, são pedintes, e em certo horário, pode ser a polícia, que tem uma outra forma de bater. E se refere à apreensão do livro O Bispo de Beja, publicado pela & etc em 1980. Poderia contar essa história, pois achávamos que em 1980 o fascismo já havia acabado...

VST – É caso único, que eu saiba, no Portugal já não-facista. Porque a apreensão desse livro e aquilo que se seguiu... Foi assim: eu tinha publicado na tal Coleção Contra-Margem umas obrazinhas subterrâneas, soterradas nas bibliotecas, no pó do olvido, obras laterais às obras mais conhecidas de certos autores etc, e foi buscar-se um velho opúsculo que serviu na altura até para a propaganda republicana, estávamos na monarquia em Portugal, era um poema satírico que se debruçava, tratava literariamente, de um caso que tinha dado um certo escândalo porque envolvia um tal de Bispo de Beja acusado de homossexualismo. Bom. Parece que a população de Beja tinha-se rebelado contra o Bispo de tal modo que ele teve de fugir para a Espanha. A Igreja Católica estava entrosada com o regime que, a esta altura, já sofria grandes embates. Os republicanos queriam mudar o regime etc. E, portanto, esse escândalo, de origem sexual, foi servir a um senhor para fazer uma sátira que aproveitava para agredir a Igreja e por em causa a própria monarquia. Nossa! Ao apresentar o livro, num curto prefácio, chegamos a dizer que, neste aspecto da temática sexual, se tratava de um livro reacionário. A visão do autor sobre o homossexualismo era uma visão reacionária. Está escrito. Foi assim publicado: tomamos essa precaução de apresentar o livro como mais um modelo da poesia satírica que, aliás, é uma das linhas que acompanha toda a história da poesia portuguesa, das cantigas de escárnio e maldizer, que atravessa os séculos e as histórias literárias. E, portanto, nós incluímos o livrinho, por estar incluído nessa direção, mas vendo desde logo que os objetivos eram propagandísticos da república com uma visão algo reacionária que, aliás, acompanhou toda a primeira república e a ditadura e etc, etc. Houve alguma abertura à temática homossexual no 25 de abril em diante. Antes disso, era completamente tabu. Pronto. E o historial de artistas, intelectuais, poetas perseguidos por homossexualismo não mais acaba. O próprio Mário Cesariny até foi preso e tudo. Ele foi preso em França e por homossexualismo. Nisso não estávamos sozinhos [risos dos entrevistadores].

Ora bem: estou eu aqui sentadinho e, de repente, vejo entrar por aquela porta nada menos do que cinco pessoas: quatro cavalheiros e uma senhora. Aproximam-se, perguntou-se onde é que estava o livro O Bispo de Beja. "O que é que se passa?" "Somos da polícia judiciária e temos um mandado de busca e apreensão desse livro que vocês publicaram". Vocês podem ter idéia da minha estupefação. Para o meu bem e para o meu mal, já tinha tido longa experiência do que eram as investidas da PIDE para levar livros. Na Ulisseia, não sei quantificar, mas foram dezenas de livros aprendidos. E acreditar que, já no Portugal pós- abril, pudesse estar a acontecer coisa do gênero... Então, automaticamente, e por causa da minha experiência anterior, a primeira coisa que eu faço é por-me aqui em pé: os polícias estão de pé e não quero vê-los sentado, de baixo para cima. Pus-me na altura deles, até mais alto, sentei-me em cima da secretária e disse "Tratem de se identificar. Quem é que me diz que são da polícia judiciária? Pode ser um bando de gangsters que vêm roubar livros". Identificaram-se, os crachás. "Agora, o mandado. Quem é que mandou?" Os senhores apresentam-me um documento do Ministério Público. Leio atentamente, faço passar o tempo, após a leitura e digo par ao grupo: "Vocês não têm vergonha? Vocês estão utilizar em papel químico, a maneira como entraram e como se apresentaram, a atuar como os vossos colegas da PIDE". Então o chefe disse: "Alto lá! Isso é ofensivo. Nós não somos da PIDE." "Estão a atuar em papel químico de vossos colegas da PIDE. O que é que faz? Prendem-me? Fuzilam-me?" Isto era uma coisa inaudita. Eu não podia aceitar de modo nenhum. Pois se eu, nos anos anteriores ao 25 de abril, enfrentei a PIDE, nunca lhes dei de mão beijada coisa nenhuma, como é que agora, em situação de liberdade, ia aceitar uma coisa dessas? Estava a passar isso, estavam ali sentados naqueles degrauzinhos o Herberto Helder e o Paulo da Costa Domingos, que nessa altura trabalhava muito comigo dentro da & etc. E eu lanço um olhar ao Paulo da Costa Domingos que, rapazinho, tinha me acompanhado várias vezes à censura. Eu tinha alguns pacotes, que estavam ali atrás, onde eu tinha um divã. Esse meu olhar par ao Paulo era muito significativo e e ele apreendeu logo o que esse meu olhar queria dizer. Entretanto, digo ao inspetor "E se eu não entregar os livros, o que me acontece?", diz o tipo: "Escaqueiro-lhe esta merda toda". "Sim, senhor. Quem fala assim não é gago." Pego o telefone e disco para o Diário Popular. Estava lá um prosador, escritor e grande jornalista, ainda vivo, que é o Batista Bastos, e eu digo "Oh Batista Bastos, queres saber de uma coisa? Tem aqui na minha frente cinco agentes da polícia judiciária, me assaltaram aqui a editora para retirar um livro, "O Bispo de Beja", que eu publiquei". O outro começou aos gritos a zoar, não queria acreditar: "Como pode ser?", "Exatamente assim, como nos tempos da PIDE. Um mandado de apreensão." "Vou já tratar disso." E desliga o telefone. "Um momentinho, antes de lhes dar os livros, vou-lhes dar os livros." Ligo para o Diário de Lisboa, onde eu já tinha estado. O chefe de redação era meu amigo Cássio Barradas. Eu disse a mesma coisa que eu tinha dito ao BB. A reação dos gajos que tinham entrado de leão, "escaqueiro-lhe esta merda toda", já estavam mais conciliadores. E dialogantes. "Então digam lá. Isto foi por certo uma denúncia. De onde partiu a denúncia?" E o homem diz: "Oficialmente não sei, nós recebemos ordens", "Essa de receber ordens é também papel químico, como é o óbvio. É claro que sim." Diz o homem: "Não sei, mas eu suponho que a denúncia partiu justamente lá de Beja.", "Já me chega. Sim senhor, agora vou dizer uma coisa: vão levar os livrinhos, façam-me o favor, eu assino. Mas lhes digo uma coisa: de todas as vezes que a PIDE me apreendeu livros, em todas as vezes eu fui apresentar meu protesto por escrito à direção da PIDE. Nunca ganhei. Nas duas exceções em que a PIDE reconheceu que realmente não havia razão objetiva para terem recebido ordens para retirar o livro A ou o livro B, então disse dêem-me cá os livros, ou vou lá buscar. E a resposta foi sempre esta: infelizmente, já não podemos devolver os livros, pois a gente mete os livros lá no subterrâneo, que está cheio de ratos, baratos e umidade, e os livros, portanto... Vocês vão levar o livrinho, já comecei a protestar, e podem ter a certeza de que não vou ficar por aqui. Isto para mim é uma coisa completamente inaceitável. E, portanto, quero de vocês a garantia de que esses livrinhos que eu entendo como um assalto, um roubo, que esses livrinhos são meus, quero-os devolvidos nas mesmas condições em que os levam, e não quero ouvir depois que foram a um lugar muito úmido e com ratos e baratas." E partiram porta afora. A imprensa no dia seguinte dá grande destaque ao assalto à pequena editora & etc, ainda estava fresca a memória da censura, e havia mais jornais do que agora, e desde jornais da extrema esquerda, "Voz do Povo", até jornais já conotados com a direita, todos foram unânimes no protesto contra este atentado à liberdade, ao livro. Aparece aqui uma equipe da televisão. Fez uma entrevista. "Sabe de onde veio a denúncia?", "Ouvi uns zunzuns de que eventualmente teria partido da cidade de Beja." No dia seguinte, no telejornal não saiu nada. O que é que eu pensei? Bom, censura interna, me entrevistaram para nada. Já na rádio, não, sou entrevistado. Em auto-entrevista para o Diário de Lisboa, atribuo ao momento político que estávamos a passar, em 1980 tínhamos um governo de coligação da direita chamado ADE, Aliança Democrática, que se apresentava como uma democracia musculada. Bom, como sabem, tenho pouco músculo e não gosto muito de democracias musculadas. Bom, atribuí isso ao estado geral do país, a um governo da direita que permitia um estado de coisas que começava a se insinuar em toda sociedade portuguesa e esse era apenas um reflexo dessa tal democracia musculada, aproveitando para dar a dentada que pude ao então responsável pela cultura e atual grande publicista, Vasco Pulido Valente [2]. Eu atribuí essa apreensão como um balão de ensaio para a instauração da tal democracia musculada.

Passam 4 ou 5 dias, recebo um telefonema da televisão. O rapaz, chefe da equipe, que tinha estado a me entrevistar, tinha ido a Beja, mal tinha acabado minha entrevista, tinha feito lá uma inquirição e tinha filmado as declarações do denunciante: um padre. E, se eu quisesse ver, tinha eu eventualmente o direito de resposta. Enfiei-me num táxi, a jato, para os estúdios da televisão, e lá fui ver a entrevista com o padre, a dizer entre outras coisas, que estava perfeitamente bem com a sua própria consciência e que voltaria a fazer as mesmas coisas. Eles ainda pretendiam lançar essa peça filmada no telejornal, e comigo em direto. Mas houve uns mercenários lá em cima e é evidente que a direção da televisão não me quis em direto. Encostaram-me à parede e filmaram-me com meu direito de resposta lá ao padre.

Entretanto, pego um processo, evidente, por abuso de liberdade de imprensa e isto e aquilo. Sou chamado várias vezes à Judiciária. A certa altura descobri, depois de vários interrogatórios, que o inspetor da Judiciária era ainda mais anticlerical do que eu. A certa altura, eu comecei a exasperar-me com as perguntas. O delegado do Ministério Público nunca estava satisfeito. A Judiciária mandava o relatório dos interrogatórios comigo e o gajo mandava perguntar uma coisa completamente diferente. Entretanto esse meu advogado entrou em contato com o delegado do Ministério Público que lhe diz o seguinte "Pode dizer a esse seu cliente que ele nunca mais vê os livros. Porque eu prefiro queimá-los a devolvê-los." Quando meu advogado me disse isso, "queimá-los", não sei bem o que me recorda essa de queimar os livros... Ora bem. Chega um momento em que o advogado disse que o processo está organizado. E que está na vara tal do Tribunal da Boa Hora. E eu vou lá com ele e vou cometer uma das maiores asneiras de minha vida. Os funcionários procuram naquele monte infindável o processo e não acham: "de processo do Bispo de Beja, nada". Em altos berros, digo dentro do tribunal: "Ou o dito processo aparece dentro de 24 horas ou vou outra vez para a televisão e para tudo que é jornal dizer que mistério é esse no Portugal democrático onde processos desaparecem, que nem sequer foram julgados, desaparecem dentro do próprio tribunal."

Vinte e quatro horas depois, o processo, milagrosamente, tinha reaparecido. Qual foi a asneira? Eu vou a um corredor do tribunal, sento num banquinho e vou ler o processo todo. E descubro finalemtne que o juiz tinha até mandado arquivar. Mas me esqueci de fotocopiar aquela tralha toda. Não fiz, esqueci. Mas, de qualquer modo, eu li o processo. O padre passou numa livraria qualquer em Beja e viu o livro. Primeiro, foi à polícia. E a polícia é de segurança pública, não fez nada com aquilo: "fala com o Bispo lá de Beja". E o bispo aconselhou o padre, ele lava as mãos, como se não fosse bispo, e aconselhou o padre a mandar as coisas para Lisboa para a Conferência Episcopal que é o lado administrativo da Igreja Católica. A Conferência Episcopal pega naquilo, não sabe o que há de fazer, e manda para o Cardeal patriarca, que também não sabe. Nenhuma dessas entidades aparecia como acusadora. Mas a polícia de Beja pega no livrinho e manda para o comando de Lisboa. O comando também não sabe o que há de fazer, é polícia de segurança pública, pega naquilo e manda para o Ministério Público. O Ministério Público que tinha lá um jovem delegado em princípio de carreira, que entende que tinha ali um caso bom, que lhe daria notoriedade, vinha muito ao encontro das idéias já vigentes sobre o Portugal como deve de ser na tal democracia musculada, "o que é isso, ofensa grava à Igreja Católica, e ainda para mais o homossexualismo e mais não sei o quê", e resolve, qual Joana d'Arc, tomar posição, querendo levar o processo até o fim. Ele realmente conseguiu. O processo acabava com despacho do juiz, "arquive-se". Não havia, ao fim e ao cabo, acusação formada tecnicamente, porque as entidades eventualmente ofendidas, a saber, a Igreja católica, tinham tirado as mãos para não serem escaldadas. Logo, o tipo não tinha base. Então, sou informado pelo meu advogado, numa certa manhã, que estando a decorrer audiência de julgamento no Tribunal da Boa Hora, velho edifício num velho convento, portanto com seu claustro interior, os tais livrinhos, que a polícia judiciária tinha enviado para o Ministério Público, o tipo pega neles, rega-os com gasolina, ateia o fogo e me disseram que fez uma fumarada negra de tal modo que saiu muita gente a tossir das salas da audiência, juiz, réus e polícias.

K – Em pleno tribunal?

VST – É verdade, foram queimados em pleno Tribunal da Boa Hora. Os livrinhos que a polícia judiciária levou. Mas tinha dois pacotes e o Paulo pega neles, eu estava a fazer a conversa toda com os gajos, e o Paulo mete-os para baixo do divã. Como foi caso único, desde o 25 de Abril até agora, essa é uma das medalhas desta pequena editora. Parece impossível como essas coisas acontecem aqui. Uma editora sem grande expressão, sem grande nome, nada disso. Post scriptum: no dia seguinte a ter estado aqui a brigada da judiciária, aparece aqui um polícia de rua, de segurança pública com uma cópia do mesmíssimo mandato. Ou seja: o delegado do Ministério Público foi tão eficiente que manda o mandato para a polícia judiciária mas também par ao comando da PSP. Aí já não deu para a zanga que tive na véspera... Ora meu senhor, a nova PIDE já levou isto para fora. Não há aqui nenhum. É preciso assinar alguma coisa? Eu assino já, que é para o senhor mostrar serviço. Não bastava uma: duas polícias, duas! Uma coisa tão estúpida.

Claro que os jornais me apoiaram muitos, escritores, os suplementos culturais etc. Mas notei o seguinte: na maior parte dos apoios, havia um denominador comum, que era assim: isto é uma coisa admissível, mas o poema em si nem vale como objeto literário. Dentre os indivíduos que se solidarizavam comigo, estava o escritor e poeta Fernando de Assis Pacheco, com quem eu tinha trabalhado no Diário de Lisboa. E quando eu vejo o Fernando de Assis Pacheco repetindo naquela tecla, na tal auto-entrevista para esse jornal atiro-me a essa gente toda e em particular ao Fernando de Assis Pacheco, com o seguinte argumento de que estava a dar para as autoridades que me apreenderam o livro, a dar de bandeja um argumento que só pode funcionar contra mim, contra a editora, contra a liberdade de publicar. Não senhor, é um grandissíssimo poema. Se não fosse um grande poema, nem provocava as reações que está a provocar. Foram dar o argumento de ouro de que aquilo era uma porcaria, portanto a intenção do editor... O Assis ficou muito chocado comigo, foi confidenciar a amigos comuns que não esperava que eu fosse reagir daquela maneira, ficou mesmo muito magoado, até mais porque o texto dele era de completa adesão a mim e à editora, só que também saía com esse argumento. Eu tive a ocasião, já passada toda essa turbulência, de falar com o Fernando de Assis Pacheco e recordar-lhe o seguinte: Fernando, como jornalista profissional, atravessaste todo o tempo da censura, o que foi a batalha do Diário de Lisboa e minha, em particular, contra a censura e tudo o mais. Tinhas o dever de teres raciocinado um bocadinho. De não escorregares nessa da análise literária quando estamos aqui num caso político. Tinhas o dever, como eu, de não fornecer de modo nenhum de bandeja argumentos ao inimigo. Não é nada pessoal, aprecio-te muito. É evidente que se trata de um caso político.

O & etc nunca fez reedição nenhuma. Exceto essa. Estava ainda portanto a correr o processo contra mim por abuso de não sei quê, eu resolvo voltar ao local do crime e reeditar o livro. O primeiro nem tinha nenhuma alusão ao caso passado em Beja. Mas como eu já tinha em meu poder uma caricatura de um caricaturista de nome em Portugal, se não me engano Francisco Valença [3], que mostrava o dito Bispo em Madame Pompadour a frente de um espelho botando rouge e pó de arroz e com meias de senhora e rendinhas. Uma caricatura que havia passado no início da ditadura, em 1910. Essa caricatura eu pus na capa da reedição, indicando que tinha passado livremente em jornais no início da república. E já lá pus como apresentação essa história do delegado do Ministério Público e as posições tomada, claro, por jornais. um editor solidário comigo veio propor uma co-edição de cinco mil exemplares. A minha resposta foi, como é óbvio, nem pensar. Podem em acusar de tudo menos de, por causa de um escândalo desses, estar eu agora a explorar comercialmente. Não, isso é um caso político. A reedição é uma reincidência. Se me vão acusar, tem que me acusar pior, pois sou reincidente. Era um desafio às autoridades. Nessa altura ainda havia jornalistas nos jornais, e a maior parte dele tinha sentido na pela a censura. Se fosse agora, desconfio que não teria repercussão nem a solidariedade da classe porque os jornalistas já foram metidos na prateleira, amordaçados, ou atirados para outro emprego.

K – A reedição não lhe rendeu nenhuma sequela jurídica?

VST – Claro que não. Eles não estavam à espera de uma resposta tão rápida e agressiva. Eu fui ao ataque, acusei o governo.



Notas

[1] Escritor e jornalista, nascido em 1915, opôs-se ao regime salazarista. Foi eleito deputado em 1986.

[2] Licenciado em Filosofia, ele é atualmente cronista na imprensa portuguesa. Foi Secretário de Estado de Cultura em 1980 e publicou, entre outros livros, Retratos e Auto-retrato" (1997) e "Um herói português: Henrique Paiva Couceiro" (2006).

[3] Francisco Valença (1882-1962), ilustrador e caricaturista, fez desenhos também para publicidade.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Universos paralelos da educação V: ficções da exclusão digital

- Professor, você não me chamou.
- Qual é seu nome?
- ...
- Você não está na lista.
- Mas eu estou sim.
- Tem certeza? Mostre-me o comprovante de sua matrícula. Talvez não esteja matriculado nesta matéria.
Volta com o papel.
- Professor, está aqui a matéria.
- Mas aqui está escrito que você está dispensado.
- Então? Então, eu estou matriculado.
- Mas aqui diz que você está dispensado.
- Então, estou matriculado.
- Está vendo aqui? Está escrito que você cursou a disciplina na Faculdade QWERTY. Não é verdade?
- Eu estudei lá.
- E você não fez esta matéria lá?
- Fiz.
- Como você já fez a matéria nessa outra faculdade, você não precisa fazer aqui.
- ?...
- Reparou que essa matéria e a YTREWQ já estão com nota final no seu histórico? E as outras não? É porque você já as cursou, está dispensado e não precisa fazer de novo.
- Então não preciso fazer de novo?
- Não, porque você está dispensado.
- Ah! Estou dispensado na matéria, mas não preciso fazer de novo!
- Não. Se está dispensado, é porque não precisa cursar mais uma vez. Você já sabe a matéria...
- Aaaahhhh...
- Se quiser assistir as aulas, tudo bem, mas eu não vou avaliar você!
- Obrigado, professor! Obrigado! Eu não tinha entendido antes o papel da faculdade porque não sou bom nesse negócio de informática!

Dispensado com 79 (em 100) em Filosofia.


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Desarquivando o Brasil XXXIII: A poesia de Julián Axat e o genocídio na Argentina

Eduardo Sterzi me pediu, e escrevi o artigo "Biopoder e biopoética na poesia de Julián Axat: yluminarya e o genocídio na Argentina" para a revista Literatura e autoritarismo, da Universidade Federal de Santa Maria. Ao lado, vê-se o poeta argentino antes de conferência que deu em São Paulo.
Não vou publicar o trabalho neste blogue, pois estará em breve plenamente acessível no endereço eletrônico da revista (adendo: já está: http://w3.ufsm.br/literaturaeautoritarismo/revista/dossie08/sumario.php). Eis o resumo:

O artigo trata da poesia de Julián Axat e das suas imagens do genocídio que ocorreu durante a ditadura militar argentina na poesia de Julián Axat. Este poeta, profundamente influenciado por Roberto Bolaño, cria uma “biopoética” para se opor ao biopoder do terror apoiado pelo Estado. Destaca-se o livro “Ylumynarya”, que expande os limites políticos da representação poética do terror, comparando-o com a escultura de Alberto Heredia, que também empregou o silêncio dos vestígios do corpo para denunciar a violência na Argentina.


E parte da introdução:

Quais são os limites políticos da representação em arte? A indagação, se tem como objeto os limites dados por um órgão censor, dependerá em parte das normas jurídicas, em parte do arbítrio das autoridades que exercem a função de polícia do pensamento. Se o objeto são os limites dados pela própria forma artística, a resposta dependerá do tipo de arte que se pretende fazer.
Na arte de entretenimento, esses limites podem ser bem estreitos. Alguns autores consideraram, por exemplo, “ensurdecedor” o silêncio da chamada cultura popular nos Estados Unidos diante dos ataques de 11 de setembro de 2011. Esse tabu pode ser notado em outros regimes de circulação de imagens, como o da propaganda eleitoral. Mesmo na campanha política espetacularizada de Bush, em 2004, as imagens das torres do World Trade Center foram retiradas depois de apenas algumas horas (Retort, 2008, p. 141).
Aquelas imagens são da devastação e, por isso, desafiam, com o caráter extremo de seu objeto, a representação. A cultura de entretenimento, que geralmente acolhe mal a negatividade (seria em vão esperar que Beckett seriamente inspire, por exemplo, um blockbuster hollywoodiano), pode dificilmente abordar certos temas sem afastar o seu público.[...]
Neste breve artigo, entre várias representações possíveis, tratar-se-á apenas da poesia de Julián Axat, poeta e editor argentino que nasceu em 1976, ano do último golpe militar em seu país. A ditadura que durou até 1983 e provocou a morte e o desaparecimento de dezenas de milhares, incluindo os pais de Axat.


O melhor do texto, evidentemente, é a poesia de Axat. A segunda parte do livro ylumynarya é um longo poema, com inspiração em Bolaño, sobre os mortos da última ditadura na Argentina.
A atividade do autor como poeta e editor pode ser acompanhada no blogue Los detectives salvajes; como jurista especialmente preocupado com os direitos dos menores (trata-se de sua área de atuação como Defensor judicial em La Plata), pode-se ler el niño rizoma.
Como o tema da violência dos regimes autoritários não é tão abordado assim na poesia brasileira dos autores mais jovens (uma exceção recente é de Ricardo Domeneck, outra é do próprio Eduardo Sterzi), deixo estes poucos trechos do poema dentro da série Desarquivando o Brasil.


Gui Rosey

"Gui Rosey nasceu em Paris em 27 de agosto de 1896. Colaborou com os Surrealistas desde 1932. Foi visto pela última vez em Marsella em 1941, entre os surrealistas refugiados que esperavam deixar a França. Desde então não se teve mais notícias dele."




Penso em Gui Rosey
e evoco os nossos que também foram tragados pela terra
ou a terra que sobre eles jogaram/
sem saber se estavam mortos
aos contratados para achar seu túmulo
penso em Bolaño que também buscou Gui Rosey
e nós o imitamos para buscar os túmulos dos nossos
Marselha sempre a mesma
imigra ou emigra a formiga argonauta que leve seu nome
o dado preciso para dar com cadáver/corpo velocino
cometa capturado para sempre/nas goelas de uma ostra
traficantes de diamantes acendem flores
Rimbaud também desaparece em Marselha/com a garganta seca/apodrecida
a muralha de seu rosto/o poeta surrealista de 1941
o poeta de 2008 que o busca
porta assimétrica abrindo dimensões opostas
quantos vieram atrás do mistério
quantos se perderam/e nada...
somente um nome nos anais da poesia
nem uma pista na cidade que o leve
ao lugar da demolição/ da perda


[...]

O que faz um Filho?
filma seu rostro ou o pinta
bate uma foto e a coloca junto com a de seus pais
fica com a insignificância de um poema

formas de regressar ao instante
que reluz de perigo

eu conheço
um filho que/
encontrou um poema
de seu pai e
o fumou em
uma noite
de angústia

[...]


(o dia dos mortos ou a sociedade dos poetas
desaparecidos)

a noite de cada... no ano
os mortos (são mortos?) conspiram em ossários
rangem ossos ao armar-se e desarmar-se
a noite de cada... no ano
formas breves
no instante em que dura a junção
fartos da mão
monstro vertebrado de puro cálcio
avança sem arregimentar
caveiras com olho vazio na frente
canto ou lamento fuzilado do ultratúmulo
julgam-se
celebram-se
lembram-se
e entregam-se à muralha da noite
que nunca os esquece
que sempre os faz aparecer
em emissários disfarçados
filamentos que viajam para mim de manhã
para serem poema

...
onde está minha cotidiana herança de luz?



Quem há de serenar então minhas cem estátuas
que da luz se desprendem e enlouquecem?

[...]



Acho que é um dos grandes momentos da poesia latino-americana. Espero lançar em breve uma antologia em português da poesia de Julián Axat.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Desarquivando o Brasil XXXII: Memória, tortura e silêncio





(Desarquivando o Brasil: esta breve nota foi escrita para a campanha no twitter, dias 10 e 11 de abril de 2012, contra a lei de anistia e pelo direito à memória e à verdade.)




Leonardo Sakamoto assistiu ao escracho feito na casa de Harry Shibata e contou-o no seu blogue. Sugiro a leitura do texto, bem como da coluna de Vladimir Safatle sobre esse tipo de iniciativa, que se inspira no que os HIJOS fizeram na Argentina. Estive na rua Fradique Coutinho somente depois e fotografei os cartazes lá deixados.
Deve-se lembrar que a estratégia dos HIJOS ocorreu em resposta às anistias que os agentes da repressão conseguiram na Argentina depois dos julgamentos no governo Alfonsín. O escracho, lá como no Brasil, decorre de uma demanda pela justiça e pela memória, que deve voltar-se também para a pesquisa dos arquivos. Essa pesquisa nada tem de inútil.
Insisto nessa utilidade porque, no mesmo número da revista do Arquivo Nacional que publicou um artigo contra o direito à memória e à verdade, há um curioso trabalho do conhecido historiador James Green, "A Proteção da Privacidade com a Abertura Plena dos Arquivos", que pode ser lido como uma defesa da improficuidade dessa pesquisa documental.
O historiador, de forma corretíssima, afirma que os documentos "dos DOPS" estão cheios de mentiras. Cabe ao historiador examiná-los criticamente. No artigo, porém, lemos esta passagem crucial:

Existe um silêncio total a respeito da tortura nos milhões de documentos, interrogatórios, relatórios e informes produzidos pelo DOPS em nível nacional.

Isso não é verdade de forma alguma. Lembro de Maria Luiza Tucci Carneiro, um dos pesquisadores que melhor conhece esses arquivos e um dos maiores historiadores brasileiros:

À primeira vista parece impossível adentrarmos fundo nessa documentação do DEOPS/SP que, organizada de acordo com a lógica policial, se abre para um emaranhado de informações complexas, muitas vezes desconectadas. Localizar documentos que comprovem as prisões arbitrárias, a tortura e os assassinatos não é tarefa fácil. Mas, felizmente, existe uma ordem por procedência e data que, cruzada com os testemunhos orais, podem nos aproximar dos mandantes dos crimes. Temos que aprender a "ler nas entrelinhas" em busca de indícios e sinais. Relatórios, fotografias, telegramas, ofícios, pôsteres e panfletos compõem hoje um importante corpus documental que pode nos ajudar a avaliar os mecanismos de repressão sustentados pelo Estado brasileiro [...] [p. 337 de "Desarquivando a ditadura", artigo do livro A luta pela anistia, organizado por Haike Kleber da Silva e publicado pela Imprensa Oficial do Estado de Sao Paulo e pela UNESP em 2009]

Volto a indicar a tese de livre docência da historiadora, Cidadão do mundo, trabalho indispensável sobre o antissemitismo no Brasil.
Mesmo eu, que pude pesquisar poucos milhares de documentos do DEOPS/SP, encontrei diversos que tratavam de tortura. Não é comum ver nos interrogatórios a afirmação do preso de que foi torturado, mas é possível achá-la (eu o fiz mesmo sem pesquisar especificamente o assunto) e até com as fotos que denunciam as marcas da violência. Não as vou publicar aqui. O Dossiê Ditadura Desaparecidos Políticos traz diversas dessas fotos, algumas tão terríveis que parecem mostrar um sofrimento ainda vivo nos corpos já mortos.
Também não são comuns, porém existem igualmente, os laudos médicos que documentam a tortura - transcrevi aqui e em artigo boa parte de um deles, que atestou as violências por que passou Olavo Hansen antes de ser envenenado.
Outro tipo de documento, bem mais fácil de encontrar, são as denúncias contra as torturas, que o sistema de informações coletava e arquivava com todo cuidado, no Brasil e no exterior (um exemplo eram as publicações e as cartas da Anistia Internacional). Afinal, essas denúncias eram consideradas "propaganda psicológica adversa", ou seja, violações da segurança nacional. Seria ingênuo achar que esse tipo de documento não seria encontrado, em várias línguas, em arquivos desse tipo.
Um desses testemunhos da tortura já publiquei parcialmente neste blogue: carta de 23 de outubro de 1975, assinada por diversos presos políticos que estavam no Presídio da Justiça Militar em São Paulo. Diante da afirmação do então presidente da OAB, Caio Mário da Silva Pereira, de que não tinha conhecimento de fatos concretos de tortura a presos políticos, escreveram um impressionante relato de como a violência era institucionalizada pelos órgãos de repressão.
Antes, publiquei uma lista dessa carta com nomes dos agentes da repressão. Agora, publico parte do final do documento, que pode ser lido no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Os presos haviam acabado de saber do assassinato de Vladimir Herzog, que Harry Shibata atestou como suicídio sem nem mesmo ter visto o corpo, e escreveram um adendo.

Os presos mencionaram os dois médicos, Arildo de Toledo Viana e Shibata, que assinaram o laudo e qualificaram o último como "Mengele": "Esclareça-se que este último, verdadeiro Mengele do Brasil de hoje, é quem sistematicamente firma os atestados de óbito de presos políticos assassinados pela OBAN."
Justiça seja feita aos médicos brasileiros, Shibata perdeu seu registro profissional. Nada de parecido aconteceu no Judiciário brasileiro, cuja ativa colaboração com a ditadura militar jamais foi revista institucionalmente - tal foi, e continua sendo, a transição incompleta para a democracia no Brasil.
Não por acaso, o Supremo Tribunal Federal permanece como um bastião contrário à transição política para a democracia, o que pode ser confirmado nesta semana, se forem decididos e indeferidos os embargos de declaração que o Conselho Federal da OAB interpôs na ADPF 153.

sábado, 7 de abril de 2012

Antes das redes sociais, Pimenta entre Roma e Iraque

Alberto Pimenta lançou, no final do mês passado, livro novo, Al-Facebook, pela editora 7 Nós. Ainda não o tenho.
Escrevi, há mais de cinco anos, uma resenha para a Germina sobre dois livros de Pimenta, Alberto Pimenta, Iraque e Ovídio: vozes e silêncios da inquietação. Eram Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta e Imitação de Ovídio, de 2005 e 2006, respectivamente. Duas obras-primas.
Eu havia escrito outra, mais curta, para o K Jornal de Crítica, que aproveito para republicar aqui.
Faço-o por pura ansiedade, enquanto não leio o livro mais recente.



Contra o Império e os outros dispositivos sanitários: Alberto Pimenta e as políticas emancipatórias



No segundo semestre de 2005, um livro de poesia inteiramente voltado à invasão do Iraque pelos EUA – uma questão da esfera pública internacional. Na primeira metade de 2006, outro livro: um longo poema sobre o amor e o exílio, evocando Ovídio. O leitor se surpreenderá com as diferenças entre ambos, mas a diversidade e a feracidade são conhecidas marcas do escritor português Alberto Pimenta.
O primeiro, Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta (Lisboa: &etc) continua a temática geopolítica desse poeta, que já escreveu sobre a ONU, prisioneiros de guerra, o mercado financeiro mundializado... Desta vez, porém, o autor cria um alter ego iraquiano que reflete sobre “as botas” dos ianques que pisoteiam seu país.
Trata-se de uma poesia antiimperialista, tanto no conteúdo quanto na forma: Pimenta dá a voz ao outro também ao refletir e transformar a herança da poesia lírica árabe (penso especialmente nos divãs), e espelha a dualidade entre Oriente e Ocidente, o passado babilônico e o presente muçulmano, a paz e a guerra, como diz no último poema (ou última parte, se considerarmos o livro como uma só poesia):

Não sei
Se tornarei a ver
As caravanas
Que de madrugada
Atravessam o deserto
Em frente
Às ruínas de Palmira

Ou
As azenhas milenares
De Hama
A chiar de esforço
Quando elevam
A água do oponte
Até ao aqueduto
Que encima a cidade

Ou
A paisagem
Aos pés do monte Kasyun
Coberta de estrelas
Que caíram
E se fizeram
Pura luz esparsa:
A cidade de Damasco

[…]
Já ouvi dentro de mim
Um trovão
Fender-me a alma.

Para a unir de novo
Não sei o que terei de enfrentar.


Lançado na Mesquita de Lisboa, o livro foi boicotado por livrarias em Portugal, país que não enviou soldados, mas que teve poetas (como Vasco Graça Moura) que apoiaram abertamente a invasão do Iraque.
O segundo livro, Imitação de Ovídio (Lisboa: &etc), aparentemente habitaria em mundo diverso do Marthiya. Mas não: ambos marcam-se pelo engajamento em (e contra) um tempo hostil. Neste, o eu poético dirige-se a sua amada e está exilado de seu lugar, de seu tempo, e até mesmo das palavras. Na epígrafe escolhida, da oitava elegia do livro IV de Tristia de Ovídio, se lê que o destino foi propício no passado, mas agora traz infortúnios (Pimenta poderia ter escolhido, devido a sua posição marginal no sistema literário português, outro trecho dessa obra: ingenio sic fuga parta meo, isto é, o talento foi a causa de seu exílio).
A hostilidade do tempo atual reflete-se na capa, baseada em colagem do autor, Nela, se vêem dois corpos que naufragam entre rasuras e restos de texto de lingüística – a rasura chega a obscurecer o logotipo da editora.
Os tempos atuais naufragam, presos a “ideias que/ ao nascer/ já não são nascentes/ e / vão todas em direção ao poente” (p. 9). Entre elas, as de Heidegger, o “pobre demente” (p. 15 e 21). Os homens estão perdidos “carregando/ males/ e mails” (p. 22), enquanto a pobreza aumenta:

por exemplo e
a propósito,
há mais
miséria
que há vinte anos

e então
já havia
este dito:

mais miséria
que
há vinte anos [p. 44-45]


O que dizer a respeito, se “o homem/ não é o senhor da verdade/ e a religião/ está de volta” (p. 46), pelo que “não há/ mais nada/ que pensar” (p. 46). Entre hoje e amanhã, abre-se um espaço “que não é o da eternidade” (p. 24).
A obra, um poema dividido em quatro partes (I, II, III e a sua soma, VI), busca outras idéias, contra a decadência desse mundo que começa a apodrecer: “elas espatifam-se/ contra os ossos do crânio/ e trazem à boca/ sangue tirado ao coração:// não é assim, amor?” (p. 12). Como as “palavras/ são dispositivos/ apenas sanitários” (p. 52), o livro busca escrever com o corpo: “os lanhos, todos eles,/ abrem-se/ com a língua” (p. 34).
Todavia, Pimenta não se ilude com as políticas do corpo, cujo potencial emancipatório parece ter-se esgotado nas décadas de 1960 e 1970. O eu poético dirige-se à amada, com a ponta do dedo rodeia-lhe “a esfera” de saliva (p. 62), mas não sabe o que, a quem, e se ainda poderia dizer. O livro termina com a interrogação: “e tu?/ tu sabes?” (p. 63).
O desencanto, pois, marca esta obra (outro paralelo com Ovidio, além do amor e do exílio): “poesia/ propriamente dita/ não há meio de acontecer,/ é como matar um pássaro ontem/ com uma pedra/ atirada hoje” (p. 59), sem tirar-lhe, contudo, a inquietação. É preciso responder à pergunta: “poderemos ainda/ colaborar/ para que a morte/ não seja/ a melhor forma de libertação?” (p. 61).