O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

terça-feira, 7 de março de 2017

30 dias de canções: Tiganá Santana e a memória negra

30 dias de canções

Dia 21: Uma canção favorita com um nome próprio no título 

"Mama Kalunga", de Tiganá Santana, que a gravou no disco "The invention of colour", de 2013.
Pode-se ver o compositor interpretando suavemente (ele canta principalmente com a voz de cabeça) esta canção no programa Ensaio, da TV Cultura, veiculado em 21 de maio de 2015; ele começa explicando a origem da palavra candomblé e o contexto desta música: https://youtu.be/i5EHkPSrWdc?t=29m30s.
Duas das mais importantes cantoras brasileiras já a gravaram: Virgínia Rodrigues, que escolheu essa canção para título de seu disco de 2015, produzido pelo compositor e por Sebatian Notini, e Fabiana Cozza, que a gravou em "Partir", disco desse mesmo ano.
Virgínia Rodrigues ao vivo no programa Metrópolis, da TV Cultura: https://www.youtube.com/watch?v=z0X1UdFHTSI.
O nome próprio, naturalmente, é o da deusa: "Água-mãe, vós que aprimorais o meu desmanche/ Pra que eu sempre possa vos representar". 
A letra navega por imagens relativas à água: "Quem na vida rápida veleja"; "O mistério é gota flutuante"; "Eis-me aqui/ Morrendo de mim ao mergulhar". Coerentemente, a primeira frase traz um bom mergulho no grave. No entanto, a música mantém um perfil sereno, de ondas acariciando barco.
Não sei o que significa o refrão da música, que está em um idioma africano (possivelmente o quicongo); importei discos dele que talvez incluam traduções, mas ainda não chegaram; os de Virgínia Soares e Fabiana Cozza não trazem tradução alguma para os trechos em línguas estrangeiras.
Como aconteceu com outros artistas brasileiros (lembro de certa fase da carreira de Joyce), ele teve mais receptividade no exterior. Tiganá Santana gravou na Suécia e no Senegal. Em uma loja de São Paulo, quando fui procurar discos dele, não sabiam de quem se tratava e perguntaram-me se ele era brasileiro!


Ele é baiano e sua mãe, Irani Santana, foi um dos fundadores do movimento Negro Unificado (MNU) nos anos 1970, como ele conta nesta entrevista dada à revista O Menelick 2o. Ato em 2015. 
O MNU, como se sabe, foi vigiado durante a ditadura militar, a qual buscava calar a denúncia e impedir o combate à discriminação racial. O MNU contava com muitos militantes socialistas, o que era outro motivo de suspeita. Acima, pode-se ver cópia de um panfleto de um ciclo de debates ocorrido em agosto de 1980 na PUC-SP (que foi um espaço importante para os movimentos negros em São Paulo) com Joel Rufino dos Santos (que, antes de morrer, escreveu um depoimento especial sobre sua experiência na ditadura para a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo 'Rubens Paiva"), Clóvis Moura, Mário Espinosa e Eduardo de Oliveira, promovido pelo Departamento Cultural do MNU.
O documento está no Acervo Deops/SP do Arquivo Público do Estado de São Paulo, assim como o seguinte.


A polícia política de São Paulo registrava como "ocorrências" do "campo político" as reuniões públicas do Movimento Negro Unificado e de outras organizações do movimento negro. Acima, se trata de evento ocorrido na Assembleia Legislativa do Estado em 10 de outubro de 1980, com o tema da violência policial contra os negros, e que contou ainda com a Frente Nacional do Preto, a Comissão de Justiça e Paz, a Federação Nacional dos Servidores Públicos e os alunos negros da PUC-SP.
Creio que o engajamento de Tiganá Santana nas raízes africanas da música brasileira, nesta memória do país, tem um claro caráter político, eis que a repressão aos movimentos negros não terminou com o fim da ditadura militar, tampouco a violência policial dirigida contra a "juventude preta, pobre e periférica", como lembram os movimentos negros e/ou contra a violência policial nos dias de hoje, entre eles as Mães de Maio.
Muitos querem fingir que essas vozes de denúncia e protesto não existem. Está aqui, no entanto, a canção que diz: "Serei eu a voz que nunca seja/ Já que a voz pode remeter ao que não há". 

Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável
Dia 10: Manuel Falla e a dor da natureza
Dia 11: De "People" ao povo e Cauby Peixoto
Dia 13: Baudelaire, Duparc e volúpia
Dia 14: Bornelh, o amor e a alba
Dia 15: Rodgers e Hart e o desejo de arte
Dia 16: Piazzolla, Trejo e o irrecuperável
Dia 17: Janequin, ir à cidade que grita
Dia 18: Amin, Garfunkel e outros pássaros
Dia 19: Wolf e Mörike imaginando a ilha
Dia 20: A loucura, Schumann e Andersen

segunda-feira, 6 de março de 2017

30 dias de canções: A loucura, Schumann e Andersen

30 dias de canções

Dia 20: Uma canção que destrói o sentido 

"Der Spielmann" [O violinista], de Robert Schumann sobre poema de Hans Christian Andersen, traduzido do dinamarquês para o alemão por Adelbert von Chamisso. Ela foi composta em 1840.
Eu não tinha muita ideia do que escolheria para esta categoria, que criei a partir da original "uma canção que tem muitos significados para você", que achei um tanto sem sentido porque deveria abranger todos os dias do desafio. Parece-me claro que uma canção que tivesse poucos significados não deveria estar em dia nenhum, a não ser que houvesse algum para música ruim.
Pensei em alguma canção que mostrasse um processo de enlouquecimento, ou que tivesse esse processo como princípio formal. Tinha que ser Schumann, portanto, que mais de uma vez escreveu sobre esses estados da alma. 
Aqui, Dietrich Fischer-Dieskau a interpreta ao vivo com Hartmut Höll: https://youtu.be/AzrPWoSOxQI?t=7m40s.
A partitura dos cinco Lieder sobre poemas de Andersen pode ser baixada nesta ligação.
A primeira estrofe define a situação do casamento em uma cidade pequena. O vinho está tão vermelho, mas a noiva está branca como a morte.
Na segunda, sabemos que ela está realmente morta, mas para aquele que ela não esqueceu, e que está na festa tocando violino suficientemente alegre.
Na terceira, o violinista se comporta de maneira estranha e pressiona o instrumento junto ao coração, como se também o quebrasse em milhares de pedaços.
A quarta começa com o comentário de como é triste morrer assim, com o coração ainda jovem; exclama-se que não se quer mais assistir a isto, a cabeça está girando.
Na última o discurso perde aparentemente conexão. É melhor traduzir da tradução de Chamisso:

Quem mandou vocês me apontarem com o dedo?
Ó Deus, protegei-nos misericordiosamente
Para que ninguém seja tomado pela loucura.
Eu mesmo sou um pobre músico.

As frases parecem desconexas, mas todas servem perfeitamente para retratar a situação: o próprio narrador é o músico e o homem que, provavelmente, amou e não foi amado. O que ele terá feito no casamento? Terá realmente estado lá? Em algum momento, o amor foi recíproco?
O texto não responde a essas questões. A música... Ela parece girar em falso, com as mesmas frases sendo repetidas em estado cada vez mais alterado (são mais deformações do que variações). O primeiro verso da última estrofe, em que o narrador interpela aqueles a quem está contando a história, soa como ameaça exatamente por seu caráter descosido com a frase anterior.
Depois disso, a prece irrompe como total surpresa, tanto no texto quanto na música, que muda de andamento até o final calmo e piano. O instrumento, no fim, parece também não reencontrar mais os fios da história e a música termina no grave. Parece-me uma assinatura da loucura.
Dietrich Fischer-Dieskau, bem mais jovem do que no vídeo, gravou uma caixa Schumann com Christoph Eschenbach. "Der Spielmann" está muito bem lá. A interpretação que mais gosto, por ressaltar as descontinuidades musicais e a instabilidade do narrador, é a de Anne Sofie von Otter com Bengt Forsberg, no impressionante disco Schumann de ambos, por causa da variedade de ataques (da cantora e do pianista) e de cores que a cantora recria na voz.
Em 1842, o músico enviou as canções ao escritor, dizendo que talvez parecessem estranhas, como os poemas lhe pareceram à primeira vista, mas que ele tinha encontrado uma forma não usual para musicá-los. De fato. Ouçam a intensidade de outra dessas canções, "Der Soldat", que também está próxima da loucura: https://www.youtube.com/watch?v=7PtKAl8LM_4. Nessa canção, o único amor que o soldado teve é conduzido para ser executado; vejam a expressão do barítono ao dizer que, do pelotão, todos erraram, comovidos, e só ele acertou o condenado, e no coração: https://youtu.be/7PtKAl8LM_4?t=2m15s.
A história da composição desses Lieder pode ser lida no portal da gravadora Hyperion, que reuniu todos os Lieder de Schumann em projeto do pianista Graham Johnson: http://www.hyperion-records.co.uk/dw.asp?dc=W3129_33106. Stephan Loges, nessa gravação, interpreta bem a dupla Schumann/Andersen.
Schumann, infelizmente, morreu louco. Tentou matar-se antes jogando-se no rio Reno, como Virgina Woolf faria depois, no rio Ouse. No caso do músico, a origem do problema foi a sífilis, o que foi confirmado com a publicação de seu prontuário em 2006 por Aribert Reimann. 
Ao contrário da escritora, ele não teve sucesso na tentativa de suicídio e passou o resto da vida em um asilo; internado em 1854, morreu em 1856. 

Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável
Dia 10: Manuel Falla e a dor da natureza
Dia 11: De "People" ao povo e Cauby Peixoto
Dia 13: Baudelaire, Duparc e volúpia
Dia 14: Bornelh, o amor e a alba
Dia 15: Rodgers e Hart e o desejo de arte
Dia 16: Piazzolla, Trejo e o irrecuperável
Dia 17: Janequin, ir à cidade que grita
Dia 18: Amin, Garfunkel e outros pássaros
Dia 19: Wolf e Mörike imaginando a ilha

domingo, 5 de março de 2017

Circulação do livro e estreitamento da literatura

Escrevi há poucos meses um texto sobre o fim de boa parte dos cadernos literários ou de resenhas na grande imprensa, especialmente por ver que esse tema não era considerado importante por pessoas que se apresentam publicamente como escritores. Perguntava-me se isso não era sinal de um estreitamento público da literatura, seu abandono, parcial ou total, pelo jornalismo brasileiro.
A questão é parte de um problema bem mais vasto, que inclui o estreitamento do próprio jornalismo, que vem reagindo com uma estratégia, a meu ver suicida, de dumbing down.
No tocante à literatura, outra questão é a da circulação dos livros. Com as grandes redes destruindo as livrarias menores (em tamanho, não em qualidade), à falta de uma lei do livro, a tendência é a sobrevivência apenas de alguns livros que se encaixam no formato do best seller.
Em relação a livros universitários, proliferam os manuais para estudantes com analfabetismo funcional, que são boa parte do público universitário de hoje; na literatura, alguns poucos títulos de certos autores, alguns com qualidade. Essa concentração não é sustentável e sufoca a literatura (o mesmo ocorre em relação aos livros técnicos), que só poderá aparecer segundo determinadas modas do momento, segundo um regime de celebridades, seja de autores que se comportam publicamente como tais, seja de, por exemplo, coletâneas selecionadas por gente famosa fora da literatura, que não logram apresentar nenhum critério de seleção, nenhum pensamento sobre suas escolhas e até escolhem, aparentemente sem saber, autores que não existem em carne e osso.
Vejo escritores jovens, ou não tanto, querendo "reagir" a isso simplesmente entrando no jogo, tentando entrar na lógica das celebridades (fazendo anúncio de material esportivo, por exemplo), mas com uma "pose" crítica. Vejo como sinal inquietante desse estreitamento crítico, ou até de reflexão, que se considerem importantes textos que não passam de celebrações superficiais de que os livros estão sendo editados e estão à venda, e talvez, daqui a quatro décadas, poderão estar em exposição em algum museu.
O caráter superficial dessas manifestações celebratórias decorre de não ver os problemas sociais relativos ao público leitor, à circulação dos livros, e até mesmo à edição.
Em relação à circulação, há o problema da venda. Na semana passada, li alguns textos sobre a rede FNAC, que anunciou e depois desmentiu que deixaria o Brasil. Quero destacar dois editores, um do Brasil, outro de Portugal. A ameaça que ronda a Fnac é a da Amazon e seus descontos, que tem usado contra outras redes, que estão em crise (como a Saraiva), as mesmas armas que elas usaram contra as livrarias menores.
Haroldo Ceravolo, um dos editores da Alameda, com muita propriedade iniciou o artigo "Crise nas livrarias: Insistindo no erro até encontrar o fracasso", publicado em 2 de março no Publishnews, tratando do jornalismo para depois falar das livrarias Cultura e Fnac. Ele bem sabe das relações entre esses dois exercícios públicos da palavra.
A maior parte do texto é dedicada à Livraria Cultura e aos erros estratégicos que a fizeram entrar em crise. Ele a diferencia da Fnac, que há muito havia se entregue à lógica do best seller, que não é sustentável nem para a literatura (pois aniquila a diversidade) nem, ao que parece, para os negócios:
Ainda não falei sobre a Fnac, talvez porque seja muito difícil pensar a Fnac hoje como uma livraria. A livraria era apenas um puxadinho num negócio de venda de aparelhos eletrônicos a preços altos e qualidade média. Como livraria, que é o que nos interessa, a Fnac sequer era um negócio: os livros estavam lá talvez por tradição, talvez porque o modelo foi pensado ou adaptado unindo as duas pontas. Mesmo as iniciativas culturais, como o prêmio Fnac-Maison de France, foram escasseando. Assim, a Fnac há muito tempo não era um local de venda a sério de livros.
As condições impostas pelas grandes redes (centralização das compras, os prazos para pagamento, a venda de espaços de exposição etc.) em geral cerceiam a circulação dos livros das editoras menores, como a própria Alameda, que possui títulos excelentes, que já citei mais de uma vez. Tal política afasta o público leitor, por isso é uma estratégia suicida, assim como o dumbing down dos jornais.
Não vou para a Fnac e cada vez menos visito a Cultura; lembro que desejava comprar um livro da Revan, Voz humana: a defesa perante os tribunais da república, de Fernando Augusto Fernandes. Nessa livraria, informaram-me que estava esgotado. Adquiri-o depois na Primavera Literária, no estande da Revan, que me disse que não só o livro estava em catálogo, como a Cultura simplesmente evitava comprar os livros da editora.

Experiências semelhantes são contadas do outro lado do Atlântico. Afinal, trata-se de um processo global do capitalismo com suas fusões e monopólios.
Recebi semana passada o número 10 da Cão Celeste, de dezembro de 2016, publicada pela editora portuguesa Averno. Para quem não é do campo da literatura, informo que ela é uma das principais revistas literárias da língua portuguesa, responsável pelo Prêmio Diógenes de poesia (vejam seu sucinto blogue: http://ocaoceleste.blogspot.com.br/).
Tenho um artigo nesse número, mas os outros artigos e poemas, e também desenhos (como o da capa, de Daniela Gomes), são excelentes. Mais abaixo, podem ver o sumário, que o blogue não traz.
Um dos editores, o poeta e crítico Manuel de Freitas, conta em "as coordenadas líricas" sua experiência com a Fnac. Anos atrás, ele comprava música barroca e também literatura na loja, que tinha uma "oferta inaudita" de bens culturais. No entanto...
[...] a Fnac, que depressa se tornou vigorosa e tentacular, asfixiou todas as livrarias e lojas de discos que havia à sua volta. Praticado o extermínio, que foi extremamente eficaz, a Fnac logo se furtou à sua pretensa vocação cultural, transformando-se numa cadeia de computadores, aparelhagens, utensílios tecnológicos de todo gênero. Admito até, e por experiência própria, que a Fnac seja bastante competente nessa área.
Há algumas poucas diferenças em relação ao Brasil. O sucesso do extermínio de lojas menores variou de acordo com o local: no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca (um bairro, aliás, pouco amigo de livrarias) isso aconteceu. Em outras lojas, não sei: acho que a loja da Paulista não conseguiu ter a mesma força. A competência das seções de informática e de outros produtos tecnológicos, no entanto, difere em Portugal, pois no Brasil elas são como Ceravolo diz: preço alto e qualidade média.
dumbing down da rede aconteceu de forma bem parecida no Brasil. Manuel de Freitas, em seu texto, conta que os livros eram devolvidos pela Fnac com avarias, com adesivos que não se desgrudavam, ou seja, voltavam "em estado de lixo". O que o levou a não deixar mais os livros nessa rede. O público de literatura, pelo menos em Lisboa, vai para outros lugares, como a Paralelo W, a Letra Livre (que vende para o Brasil), a Ler Devagar...
O resultado foi a descoberta de que a Averno não precisava da Fnac para distribuir seus livros.
Ceravolo afirma, no seu texto, que os pequenos editores precisam encontrar outros meios para a circulação. Creio que ele está correto, e que as editoras pequenas, no Brasil, devem procurar saídas criativas, como a Averno tem feito.
A esse respeito, aproveito e lembro que, nos dias 24 e 25 de março, ocorrerá uma feira de livros de poesia, "Desvairada", organizada por Marília Garcia, Fabiano Calixto, Leonardo Gandolfi e Tiago Marchesano, com 24 editoras. Vejam aqui: https://www.facebook.com/events/155136481644008. Certamente será um evento muito criativo, pois incluirá atividades culturais.
Para o Brasil (conheço pouco a situação portuguesa), imagino que essas saídas têm que incluir a educação, tendo em vista as furiosas políticas de iletramento implementadas ou projetadas pelos diversos níveis do Estado brasileiro, o que inclui os variados ataques à docência.
As escolas e as bibliotecas, escolares ou não, com programas de leituras e outras iniciativas, são uma dimensão importantíssima da circulação do livro. Não por acaso, ambas (escolas e bibliotecas) continuam sob ataque no Brasil. Em São Paulo, no dia de aniversário da cidade, 25 de janeiro de 2017, foi programado pela sociedade civil (especialmente as associações dos bibliotecários) um Abraço do Centro Cultural São Paulo, ameaçado de "desestatização" pelo prefeito João Doria (analisei, por sinal, alguns dos enormes erros de direito administrativo do prefeito em um texto de fevereiro).


Estive no Abraço. Acima, uma das fotos que tirei na ocasião, destacando a faixa do Sinbiesp, que era umas entidades organizadoras. O CRB também estava em peso. Abaixo, alguma das faixas, que foram deixadas no chão durante os discursos.

Uma das fotos que vi dos protestos contra Trump nos Estados Unidos neste ano mostrava uma bibliotecária com um cartaz afirmando que a a situação estava tão grave que até os bibliotecários tinham que ir às ruas protestar. Achei curiosa a ironia em relação à categoria, como se ela fosse a última de todas para mobilizar-se... No Brasil, isso não é verdade.
As bibliotecas são importantíssimas para a circulação do livro, e fundamentais para o direito à literatura, como direito cultural. Haroldo Ceravolo lá estava. Também vi Marcelo Zelic e Maria Rita Kehl. Afora Kehl e Rodrigo Ciríaco, não vi, no entanto, mais nenhum escritor no Abraço. Provavelmente havia mais alguns, mas certamente eram poucos, como também não eram numerosos os participantes, embora houvesse muita gente dentro do Centro Cultural engajada em outras atividades. Ele é um sucesso de público e de atividades culturais, e exatamente por isso deve estar sob ameaça.
Uma das formas superficiais de tratar da circulação dos livros consiste em ignorar as políticas de leituras e de bibliotecas. Seria importante que mais escritores se engajassem nisso, tanto nos seus textos quanto na sua ação. A ação pública também pode ser uma forma de circulação de literatura.



sábado, 4 de março de 2017

30 dias de canções: Wolf e Mörike imaginando a ilha

30 dias de canções

Dia 19: Uma canção que quer ser a própria vida 

"Gesang Weylas" (O canto de Weyla), de Hugo Wolf sobre poema de Eduard Mörike. O poema é de 1831. A conhecida canção foi composta em 1888.
Aqui, uma gravação ao vivo de dois maiores músicos do século passado, o barítono Dietrich Fischer-Dieskau e o pianista Sviatoslav Richter: https://www.youtube.com/watch?v=j78AWwfk7eQ.
Para ouvi-la em voz feminina, nada menos do que a impressionante voz do mezzo-soprano Christa Ludwig acompanhada do ilustre Gerald Moore: https://www.youtube.com/watch?v=IJR2aYWZuek.
Para quem achar, o disco de Anne Sofie von Otter com Ralf Gothoni todo dedicado a canções de Wolf e Mahler, de 1987, traz uma interpretação impressionante.
Tento uma tradução pobre e literal do canto de Weyla; o original, em metro iâmbico, é rimado:

Tu és Orplid, minha terra!
Longe brilhas;
Tua ensolarada costa torna em vapor
A névoa marinha, e assim a face dos deuses se umedece.

Antigas águas se elevam
rejuvenescidas em torno de sua cintura, filha!
Diante de tua divindade inclinam-se
Os reis, eles são teus criados.

Não se trata de mitologia grega, nórdica ou de qualquer outro lugar: Orplid e Weyla só existiam na imaginação de Mörike e colegas no seu tempo de estudantes.
No final, o poema parece fazer uma alusão a Isaías, capítulo 49, versículo 23; fiquei em dúvida em como traduzir "Wärter" porque as traduções em português que vi usam "aio", mas também a palavra mais específica "tutores". "Criados" (vassalos e servos são designados por outras palavras) foi a solução que achei que poderia sugerir a ideia de subordinação sem trazer a de educação, que seria estranha para uma ilha.
No livro de Eric Sams, The songs of Hugo Wolf, leio que o compositor imaginou a deusa com uma harpa cantando sentada ao luar. O piano, de fato, imita os arpejos daquele instrumento. O tom, diz Sams, é quase religioso: assistimos a uma cerimônia mística enquanto ela ocorre no "mundo imaginário do poeta". Creio que não é necessário entender as palavras para sentir este clima; por isso, Wolf talvez tenha tido mais sucesso em criar um mundo próprio do que Mörike.
Uma vez que se trata de Hugo Wolf, a voz adere de forma imaginativa ao texto; talvez ela o reescreva. Em "Uralte Wasser" (antigas águas) vai para o grave, a própria frase do "Vor deiner Gottheit" (diante de tua divindade) inclina-se, até o forte agudo "Könige", os reis, que acabam por se revelar "Wärter", criados, e a voz vai para o grave numa dinâmica mais fraca.
Não entendo boa parte do que diz Dietrich Fischer-Dieskau nesta masterclass em que ele trabalha este Lied com a soprano Hanna-Elisabeth Müller, mas é plenamente inteligível o cuidado com os detalhes, que é o que faz diferença neste repertório.
Não sei se a que atribuir a presença de deuses, mitologias antigas ou pessoais, na poesia alemã da primeira metade do século XIX. As tentativas revolucionárias nos Estados alemães nessa época fracassaram, o que levou Heine àquela observação em Contribuição à história da religião e da filosofia na Alemanha, de que, se os franceses executaram seu rei, os alemães ao menos mataram deus... Com Kant e a Crítica à Razão Pura.
Quando o Estado se unificou, o fez sob um regime monárquico e conservador. Não sei se seria legítimo ler o que Wagner, tão admirado por Wolf, fez sob esse prisma, porém é significativo que O anel do Nibelungo, aquela saga dos deuses germânicos, fosse finalmente encenada diante de reis e nobres, e que seu compositor fosse um ex-revolucionário.
Talvez somente em uma mitologia (pessoalmente inventada, ainda por cima) Mörike se visse autorizado a imaginar reis como criados... E de uma deusa, note-se, não de uma operária.
Estamos longe de Büchner e de um universo sem deuses e com "nós, os pobres" ("Wie, die arme Leute") como protagonistas, o que ocorre em Woyzeck (por algum tempo lido como Wozzeck, dado o estado do manuscrito). Para isso, o século XX. E Alban Berg.
Woyzeck, por sinal, morre afogado, acreditando estar banhado de sangue. Vítima de outra Orplid: a luta de classes. Mas esta é a própria vida, e não uma ilha imaginária.


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
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Dia 17: Janequin, ir à cidade que grita
Dia 18: Amin, Garfunkel e outros pássaros

sexta-feira, 3 de março de 2017

30 dias de canção: Amin, Garfunkel e outros pássaros

30 dias de canções

Dia 18: Uma canção na qual você gostaria de ter nascido 

"Curruíra", de Beth Amin e Jean Garfunkel. A música foi gravada no disco "Poesia à toa", creio que de 2009 (o encarte não informa a data de gravação): https://www.youtube.com/watch?v=6pPTz7xZuOw
Quando imaginei esta categoria, inspirado no dia do desafio original "canção do ano em que você nasceu", não sabia bem o que escolher. Deveria optar por uma canção que tivesse uma dimensão utópica? Já que a utopia, por definição, não existe, e desejamos que ela nasça...
Creio que "Curruíra" possui essa dimensão, e não é óbvia. Aqui, pode-se ver a compositora interpretando ao vivo: https://youtu.be/8D4Gh1R72DM?t=30m5s.
Joana Garfunkel, cantora que é filha de um dos compositores da canção, gravou-a e escolheu-a para título do seu disco: https://www.youtube.com/watch?.v=CTwgRYyNeeUEla e Beth Amin cantam na mesma tonalidade, mas adotam formas diferentes de finalizar a canção.
No vídeo ao vivo, Amin diz que Garfunkel quis letrar a música por ela lembrar "Chovendo na roseira", de Tom Jobim. Eu penso nesta passagem específica da música, e talvez por isso ele tenha escrito o verso da "chuva de verão que dá e passa": https://youtu.be/8D4Gh1R72DM?t=33m23s.
A obra de Jean Garfunkel é bastante conhecida; a de Beth Amin, menos, o que é uma perda para os que apreciam a música brasileira, pois ela pode sustentar a comparação com Jobim.
Esta canção conjuga natureza e poesia, o que é tremendamente atual na atualidade das políticas prosaicas de destruição que tomaram o país e predominam tanto à direita quanto à esquerda, e cujos crimes são premiados por liminares judiciais e aditivos contratuais de milhões ou de bilhões.
Este é o país da devastação.
A canção não trata da degradação, no entanto; sua terra é a daquela dimensão utópica, onde "o medo/ é só mais uma assombração". 
A curruíra, irmã, nessa canção, de Cora Coralina ("E canta tua sina/ Como a Cora Coralina"), é a própria poesia, que sabe que tudo passa, mesmo a primavera e o "frio da alucinação".
A referência à literatura não é nada gratuita, o que às vezes acontece em algumas alusões literárias em música. A referência sustenta-se em razão dos versos de Jean Garfunkel e por Beth Amin ter buscado, já há alguns anos, conjugar sua obra à de poetas brasileiros como Annita Costa Malufe e Álvaro Faleiros, e estrangeiros: Alfonsina Storni e Florbela Espanca.
A terra desta curruíra é a da dimensão utópica, o que significa, evidentemente, que ela pisa nos ares. O animal foi bem escolhido. 
A própria música de "Curruíra", em seu movimento de ascensão, parece querer negar a gravidade, inclusive no sutil decrescendo do final da gravação da compositora, no arranjo de Yaniel Matos. Creio que a vocalização de Joana Garfunkel no final da canção atende a esse mesmo espírito.
Naquele decrescendo, temos o "passarinho": de fato, uma pequena utopia, a de sabermos passar com leveza. Não nasci nela e, se tentar atingi-la, creio que não saberei incendiar o suficiente para o que pede o segundo verso: acender o espaço.


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
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Dia 14: Bornelh, o amor e a alba
Dia 15: Rodgers e Hart e o desejo de arte
Dia 16: Piazzolla, Trejo e o irrecuperável
Dia 17: Janequin, ir à cidade que grita


quarta-feira, 1 de março de 2017

30 dias de canções: Janequin, ir à cidade que grita

30 dias de canções

Dia 17: Uma canção em dueto

"Voulez ouyr les cris de Paris" ou, simplesmente, "Les cris de Paris" [Os gritos de Paris], de Clément Janequin, publicada em 1528, uma das mais famosas canções polifônicas da renascença francesa.
Eu não tinha ideia do que escolher para esta categoria. Tantos duetos conehcidos são, na verdade, discursos monológicos divididos entre um cantor e outro. Às vezes, como geralmente ocorre em canções de amor, simplesmente um cantor repete o que o outro já fez, ou cantam em uníssono, ou cantam em terças o tempo todo, o que é tedioso.
Cheguei a pensar em dueto entre voz e instrumento, o que faz todo sentido em nível musical, mas me acusariam de desprezar o elemento literário da canção...
Até que me veio a ideia do dueto, na verdade, do diálogo como estrutura, e pensei que tinha que ir para a polifonia. Na polifonia, em vez do esquema de melodia principal e acompanhamento, o diálogo entre vozes diferentes está na própria estrutura da música.
Entendendo metaforicamente o dueto como diálogo, e o diálogo como procedimento musical, eu deveria ir para a canção polifônica, e a canção polifônica francesa na Renascença é cheia de exemplos divertidos. Ouçam-na com o Ensemble Clément Janequin. Achei apenas a primeira gravação que este grupo (na época, Dominique Visse cantava, mas não o dirigia) fez dessa canção: https://www.youtube.com/watch?v=FiPhbS_ZlRk.
A segunda está no disco "L'écrit du cri", um trocadilho que, literalmente, significa a escrita do grito, incluindo Janequin e compositores contemporâneos. Embora muito interessantes, nenhum deles supera o grande músico renascentista.
"Vocês querem ouvir os gritos de Paris?", perguntam os cantores; ofertas de vinhos, queijos, peixes, um cliente responde que falta dinheiro, outro diz que quer o leite porque está com frio... Com esses diálogos e anúncios, temos, enfim, toda uma cena urbana revivida em nossos ouvidos.
A canção incorpora os gritos dos vendedores de rua; esses anúncios eram regulamentados pelas diferentes corporações, isto é, eles seguiam regras estabelecidas. Os padrões de uma sociedade dividida em estamentos e corporações existiam também para o grito, que era um código, um estatuto e uma arte. Mesmo hoje, podem-se ouvir curiosos gritos para venda em Paris.
Essa paisagem sonora foi tema e material da música. Com a canção recuperando os gritos dos vendedores (não podemos mais saber o quanto há de reprodução e o quanto de invenção nos gritos que Janequin fixou; de qualquer forma, a genial enunciação polifônica é dele), temos um exemplo de diálogo do músico com as ruas, e um procedimento que a poesia no Brasil começou a adotar mais sistematicamente nos anos 1990, com os "arranjos" para vozes de rua na poesia de Alberto Pucheu, como apontei nesta resenha, http://media.wix.com/ugd/91ec05_bcb91091a37e4fdfb897a9e0fcbe4eb7.pd, em que recuperei este trecho que Pucheu não recolheu em livro: "Uma das coisas que mais me provocam é experimentar o quanto de “não-poético”, de cotidiano, de ordinário, a poesia consegue suportar. Talvez se lembrem de “na cidade aberta no 3” e de “Poema para a maior audiência do país”. O primeiro, com vozes de vendedores ambulantes que circulavam no trem e com o aviso de seus destino e horário de partida. O outro, uma disposição de frases que foram ditas no programa do Ratinho por diversas pessoas".
Também vendedores ambulantes... No fim do século XX, ou no início do século XVI, eles fazem parte da paisagem sonora urbana.
Janequin, na última linha , ainda diz, para quem quer ouvir mais desse cotidiano: "Se vocês querem ouvir mais deles, vão então procurá-los!", e o diálogo com o ouvinte termina com uma exortação para ir às ruas da cidade. Este é o caráter social da música dessa época.
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