O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Uma homenagem a Aziz Ab'Saber

Morreu hoje, com 87 anos, o grande geógrafo Aziz Ab'Saber. Ele era um daqueles nomes que ultrapassam as fronteiras de sua ciência, tanto pela importância de sua teoria, quanto pela força de seu engajamento. Conheci intelectuais que eram de esquerda para questões da classe média - para outros problemas, mantinham-se firmes em seus preconceitos de classe. Não era, de forma alguma, o caso dele.
Apesar de todo seu prestígio, não se encastelou: mantinha-se acessível aos que o procuravam e era completamente despido de pose. Achava-o admirável nisso também.
Entre suas bandeiras, estava a criação de bibliotecas populares (lembremo-nos de que ele foi um grande educador), a que ele fazia generosas doações. Enquanto existiu a que era a maior ocupação vertical da América Latina, a ocupação Prestes Maia (acabou em 2007, com o governo Kassab), ele foi um dos apoiadores da biblioteca criada pelo catador de papel Severino Manoel de Souza. Ele esteve na ocupações várias vezes e em duas ocasiões proferiu palestra para os moradores. A propósito, vejam o fundamental livro do Fórum Centro Vivo, o Dossiê Violações de Direitos Humanos na Cidade de São Paulo: propostas e reivindicações para políticas públicas, que documentou o higienismo da era Serra/Kassab, que continua e talvez se prolongue além de 2012, o que dependerá dos eleitores da cidade.
Nestes últimos tempos, Aziz Ab'Saber se dedicava a reunir a obra e a combater o projeto de Código Florestal. A primeira tarefa, ele a terminou nesta semana.
Quanto à segunda, devemos continuá-la por ele e pelas florestas. Ele foi um dos que denunciou o absurdo anticientífico do projeto que faz a alegria da CNA.
Na verdade, ele combateu a proposta desde os seus fundamentos, propugnando que se devia fazer um Código da Biodiversidade, e não um mero Código Florestal. Acessem nesta ligação o texto Do Código Florestal para o Código da Biodiversidade, que ele apresentou na 62ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), uma organização essencial da ciência brasileira (e importante na resistência contra a ditadura militar), de que ele era presidente de honra e conselheiro:

A utopia de um desenvolvimento com o máximo de florestas em pé não pode ser eliminada por princípio em função de mudanças radicais do Código Florestal, sendo necessário pensar no território total de nosso país, sob um ampliado e correto Código de Biodiversidade. Ou seja, um pensamento que envolva as nossas grandes florestas (Amazônia e Matas Tropicais Atlânticas), o domínio das caatingas e agrestes sertanejos, planaltos centrais com cerrados, cerradões e campestres; os planaltos de araucárias sul-brasileiros, as pradarias mistas do Rio Grande do Sul, e os redutos e mini-biomas da costa brasileira e do Pantanal mato-grossense, e faixas de transição e contrato (core-áreas) de todos os domínios morfoclimáticos e fitogeográficos brasileiros.

O próprio modelo, cientificamente, está ultrapassado. Que CNA e Kátia Abreu defendam o atraso, não é de espantar: eles representam a dominação secular do latifúndio no Brasil. E, aos aldorebelianos que acham patriota que o Brasil destrua seus próprios ecossistemas, sugiro que leiam isto:

Será muito triste, cultural e politicamente falando, que pessoas de diversas partes do mundo ao lerem as mudanças absurdas pretendidas para o Código Florestal, venham a dizer que fica comprovado que “o Brasil não tem capacidade para administrar e gerenciar a Amazônia”.

A questão é científica e política. Creio que os obituários repetirão que Aziz Ab'Saber era muito respeitado, mas isso não vale para todos os meios: para a maioria dos políticos profissionais, a palavra dele era igual a zero. Para essa categoria, por sinal, a ciência e a academia não são coisas para se ouvir. Lembro de como ele se referia à ignorância em Geografia de diversos políticos, inclusive de Marina da Silva, que ele achava uma Ministra muito fraca (é verdade, no entanto, que ela é uma sumidade perto da atual versão governamental do ambientalismo).
E por quê? Nesta entrevista que ele concedeu à Fórum, lembramos que aquela categoria prefere a opinião mais cientificamente consolidada das empreiteiras: "Acontece que o governo sempre quer fazer obras gigantescas, faraônicas. Quer transpor as águas do São Francisco, fazer barragens no Madeira, que nem conhece direito, nem sabe a distância, tem pouco conhecimento geográfico."

2 comentários:

  1. Marcel Soares de Souza19 de março de 2012 18:05

    Caro Pádua,
    belíssima homenagem.
    A primeira conferência de minha vida acadêmica, como calouro de direito na UFSC em 2006, foi proferida pelo Prof. Aziz, no encerramento da reunião anual da SBPC.
    O auditório, onde sentavam cerca de 800 pessoas, foi, a certo momento supreendido pela queda da energia, o que impediu a continuidade do uso do microfone. O já octagenário professor levanta-se, caminha até a frente do palco e passa os vinte minutos seguinte falando 'no gogó' para a multidão mais do que atenta.
    Foi certeiro, preciso e lúcido ao constatar a miséria de nossas políticas ambientais.
    Infelizmente, prevalece esse estilo colonizado de "homenagear" nossos(as) grandes intelectuais. Sempre referidos como "dignos de respeito", "notáveis" e mesmo "geniais", e raríssimas vezes ouvidos a respeito das grandes questões da vida nacional. Os elogios ficam nos galvãobuênicos "É do Brasil!!".
    Ademais, segues - ao lado da AJP -- com o melhor em atividade sobre o direito.
    Um grande abraço,
    Marcel S. Souza

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  2. Caro Marcel,
    você soube começar muito bem seu ingresso no mundo das conferências. Somente vi o professor Aziz Ab'Saber falar ao vivo duas vezes.
    Eu não tinha pensado em Galvão Bueno na condição de modelo de um estilo nacionaleiro de homenagem. Minha referência de ufanismo histérico era o Afonso Celso. Talvez o comentarista esportivo represente melhor os tempos atuais em sua recusa à reflexão e à análise (já presente, porém, no livro ufanista do velho conde). Afinal, esse tipo de homenagem dispensa o trabalho de ler os homenageados!
    Obrigado, mas o trabalho da Assessoria Jurídica Popular é que é fundamental.
    Abraço-o,
    Pádua.

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