O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

domingo, 16 de outubro de 2011

30 dias de leituras: Música, Cecília e Augusto

30 livros em um mês

Dia 28: Um livro que você cita de cor.

São tantos, que é difícil escolher. Alguns deles (Rimbaud e Pessoa) já apareceram nestes trinta dias de leituras, que viraram quase quarenta (não consegui manter o ritmo de uma nota por dia).
Como são muitos, creio que é legítimo escolher os primeiros na minha experiência de leitura. Eu lia Cecília Meireles na edição da Obra poética de 1958, pela José Aguilar, que meus pais tinham em casa, e Augusto dos Anjos, em uma edição do Eu e outras poesias um pouco menor do que as atuais. Hoje, temos a edição da Ática com os comentários de Sérgio Alcides.
A edição da José Aguilar era linda, muito diferente da que lançou a Nova Aguilar. Em 2001, foi publicada pela Nova Fronteira, com organização de Antonio Carlos Secchin, a primeira edição realmente completa da poesia, com os dois primeiros livros da autora, mas hoje também está esgotada.
O livro de 1958 incluía os desenhos de Cecília - que hoje estão publicados em Batuque, samba e macumba pela Martins.
Essa edição não tinha, evidentemente, os últimos poemas e o vasto material inédito que ela deixou ao morrer - tão nova - em 1964. Consegui, depois (faz tempo), achar em sebo esses poemas (inclusive o livro Solombra) nas edições organizadas por Darcy Damasceno.
Dela, porém, não saberia destacar um livro: desde Viagem, ela muda muito pouco. Romanceiro da Inconfidência é diferente pela matéria, mas a poética, nós a reconhecemos prontamente. Mar absoluto e outros poemas talvez seja o mais diverso nesse aspecto. Já Solombra se destaca pela adoção de uma mesma forma para todos poemas. E Vaga música? Retrato natural? Canções?
Entre os inéditos, há coisas desiguais, que ela provavelmente não teria publicado. Mas neles encontramos versos como "Mas eu amo o eterno e o efêmero e queria fazer o efêmero eterno."; "Ah! do que se disse nada mais se diga!/ Vai-se a tua Amada - vai-se a tua Amiga!"// Ah! do que era tanto, não resta mais nada.../ Mas houve essa Amiga! mas houve essa Amada!"; "Mas essa estrela,/ Rua da Estrela,/ com que o teu nome/ me deslumbrara,/ essa eu não via./ Talvez chegava/ pela alta noite?/ De madrugada?"; "Vão saindo da tua cabeça as campinas sangrentas./ Como a cauda dos cometas, vão para longe/ as perspectivas de corpos caídos e mãos abertas."
Tantos desses poemas tematizam a morte. Ela justificava essa temática com sua experiência pessoal. Creio até que foi a morte dos chamados inconfidentes o que a motivou para escrever o Romanceiro, livro em que os fantasmas literalmente falam.
O som predominante na obra acaba sendo o da elegia. A música na poesia de Cecília - ela, entre outros mil talentos, também era musicista - é tão forte que somos tomados por seu ritmo, que atinge diretamente a sensibilidade, antes mesmo de podermos apreender-lhe o sentido. E assim, sem notar, aprendemos de cor seus poemas.
O ritmo é explicitamente sentido nesta poesia ("Tem sangue eterno a asa ritmada"). Um exemplo disso é "Ária", de Retrato natural, um prodígio técnico com forte carga emocional: "Quem nos vai recordar/ na noite profunda?/ Pensamento tão gasto,/ amor sem milagre/ na profunda noite./ Os amigos se extinguem."
E nem citei os poemas que sei de cor...
Música de caráter bem diverso é a de Augusto dos Anjos. É curioso notar que os dois poetas são sucesso de público - e foi a fidelidade dos leitores que salvou a poesia de Augusto do esquecimento, já que nem mesmo os modernistas, em um primeiro momento, deram-lhe atenção. Talvez a musicalidade de ambos, que atinge o coração antes mesmo do entendimento, tenha criado essa empatia.
A de Augusto dos Anjos é mais violenta do que a de Cecília, mas tão característica que o leitor pode entender o sentido do poema sem compreender todas as palavras - o que é notável, pois ele usava muito léxico científico, e palavras não normalmente associadas à poesia, ainda mais no início do século XX, tempos de principado parnasiano no Brasil. Imaginem a coragem de começar um soneto desta forma: "Eu, filho, do carbono e do amoníaco."; escrever um decassílabo somente com duas palavras, e estas: "Profundissimamente hipocondríaco" (versos do soneto "Psicologia de um Vencido", que sei de cor).
Cientificismo? Não é tão simples, pois a astrologia e os misticismos entram nesse caldeirão poético e lexicográfico, além de filosofia - especialmente Schopenhauer. Augusto dos Anjos sempre me soou como um desbravador que tentava incorporar novos continentes à poesia: "Sofro, desde a epigênesis da infância,/ A influência má dos signos do Zodíaco!"
Um desses continentes é a pobreza. Essa poesia tão pessimista em tantos momentos nasce de uma experiência brasileira: "Sol brasileiro! Queima-me os destroços!", lemos na última estrofe do poema longo "Gemidos de arte". No quadro universalista de dor pintado pelo poeta, temos "É o dinheiro coberto de azinhavre/ Que o escravo ganha, trabalhando aos brancos!"
A consciência e a autocrítica no tocante à dominação de classe aparece em poemas muito anteriores a Drummond rever a oligarquia mineira. O soneto "Ricordanza della mia Gioventù" compara o furto de moedas do patrão com o "furto" (para o Código Penal burguês, não se poderia caracterizar assim...) do leite que a ama-de-leite poderia ter destinado à própria filha, mas tem de ser dividido com o filho do patrão...
Nesse poema, está ausente o léxico científico; não é necessário. Porém, para traçar o quadro geral de "Os doentes", Augusto dos Anjos convoca todos os seus recursos para ultrapassá-los: "Tentava compreender com as conceptivas/ Funções do encéfalo as substâncias vivas/ Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam...// E via em mim, coberto de desgraças,/ O resultado de bilhões de raças/ Que há muitos anos desapareceram!"
Ele de forma alguma está interessado em simplesmente repetir ensinamentos científicos e filosóficos, e sim submete esses recursos a uma síntese pessoal (não por acaso o livro chama-se, atrevidamente, Eu) e poética - a poesia tem uma dignidade nesta obra impressionante, de traçar uma imagem não só do humano, mas como do universo - em vários momentos, ele rompe com o antropocentrismo e tenta fazer a matéria e outros animais falarem, numa espantosa solidariedade com todos os seres.
Não é de estranhar que poetas com ambição artística mais restrita e literatura mais palatável e cordial tenham rejeitado essa obra. Lembro de Mário Quintana, afirmando que Augusto dos Anjos era Baudelaire em último estado de decomposição...
Na IV seção de "Os doentes" temos o extermínio dos indígenas, assunto sempre atual, ainda mais com o governo de Dilma Rousseff e a possibilidade de genocídio com a eventual construção de Belo Monte:

A civilização entrou na taba
Em que ele estava. O gênio de Colombo
Manchou de opróbrios a alma do mazombo,
Cuspiu na cova do morubixaba!

E o índio, por fim, adstrito à étnica escória,
Recebeu, tendo o horror no rosto impresso,
Esse achincalhamento do progresso
Que o anulava na crítica da História!

[...]

A hereditariedade dessa pecha
Seguiria seus filhos. Dora em diante
Seu povo tombaria agonizante
Na luta da espingarda contra a flecha!

[...]

Em vez da prisca tribo e indiana tropa
A gente deste século, espantada,
Vê somente a caveira abandonada
De uma raça esmagada pela Europa!

Uma crítica contundente ao progresso. Ele também é um poeta da morte, de vários tipos de morte, inclusive o genocídio e seus sons tonitruantes, que a história brasileira já conhece - de cor.

30 dias de leituras: Desejando Whitman

30 livros em um mês

Dia 27: História de amor favorita

"I stop somewhere waiting for you" - Um autor que se oferece como se a um amante, e escreve um livro que é um corpo desejante. Um autor que faz explicitamente da literatura um ato de amor a todos, democraticamente. Essa foi uma das ambições de Walt Whitman em Leaves of grass (Folhas de relva).
O impacto de Whitman na poesia ocidental foi enorme: Pessoa, Maiakóvski, Garcia Lorca e vários outros homenagearam-no em seus poemas. Pound, que chegou a dizer que só havia encontrado trinta páginas bem escritas em Leaves of Grass, porém já não mais as achava, reconciliou-se com Whitman no poema "A Pact".
Ana Cristina Cesar, sobre quem escrevi há pouco, na conversa que teve com alunos de Beatriz Rezende, publicada em Crítica e tradução, traduziu alguns versos de Whitman e comentou: "Olha só, 'eu caio das páginas nos teus braços', é um homem que, de repente, ele assume esse desejo de que o texto não seja meramente texto."
Visto que a literatura, assim como os corpos, tem o poder de despertar desejos, de fato um poema não é só texto... A poesia de Whitman diversas vezes celebra os corpos - ele escreve que prefere um belo corpo a um belo rosto. Também na prosa encontramos passagens como esta, de Specimen Days: "Doce, sã, calma Nudez na Natureza! - ah se a pobre, doente, lasciva humanidade nas cidades pudesse realmente conhecer-te uma vez mais! Não é, então, a nudez indecente? Não, não inerentemente. É o seu pensamento, sua sofisticação, seu medo, sua respeitabilidade que é indecente."
A primeira edição de Folhas de Relva, por sinal, não trazia o nome do autor, mas a imagem do seu corpo (a assinatura...) no frontispício - a que incluí nesta nota.
Para Whitman, o amor era um laço cívico, mas também podia ser uma relação de natureza sexual entre duas pessoas. Manifesta-se aí mais um elemento heterodoxo da poesia de Whitman (seu verso longo e livre já o tornava distinto do que geralmente se fazia em língua inglesa), pois há uma seção de Leaves of grass dedicada a esse tipo de amor, e que se dá entre homens – um amor entre camaradas, o que se torna claro em Calamus. Algo bastante ousado para o século XIX, e de que Oscar Wilde, mais tarde, não foi capaz com essa franqueza (o processo teria vindo antes, certamente, se o tivesse feito).
As duas facetas do amor se unem nessa obra; concordo com Roy Harvey Pearce "for as their function in the 1860 volume shows, the "Calamus" poems were to carry through to completion the poet's conception of his painfully loving relation with his readers" (em Whitman: A collection of critical essays).
Essa junção de erótica com política e poética é notável; creio que Allen Ginsberg foi especialmente inspirado por essa conjunção - ele, que chamou o poeta do século XIX "pai" mais de uma vez na sua poesia. Em uma célebre carta de Ginsberg, escrita em 18 de maio de 1956 a Richard Eberhart (publicada em The letters of Allen Ginsberg, livro organizado por Bill Morgan para Da Capo Press), temos a explicação da gênese de seu livro Howl. Nele, há um poema para Whitman, "Supermarket in California"; na carta, Ginsberg afirma que aquele autor foi o primeiro grande poeta dos EUA a reconhecer a própria individualidade, perdoando e aceitando a "Si Mesmo", e estendendo esse reconhecimento e essa aceitação para todos, definido assim a democracia.
Muito mais tarde, em 1984, Ginsberg escreveu um poema com o revelador título "I Love Old Whitman So" (publicado em White Shroud), em que se diz emocionado pelo verso "Quem toca este livro toca um homem".
No Brasil, Geir Campos publicou uma antologia que não é boa, pois corta o fôlego dos versos de Whitman. Rodrigo Garcia Lopes, respeitando a poética original, publicou pela Iluminuras uma tradução - com um alentado posfácio - da primeira edição de Leaves of Grass, de 1855. "Cálamo" veio depois, em 1860 - Leaves of Grass, como um organismo, foi sendo aumentado até a chamada edição do leito de morte, que Bruno Gambarotto traduziu e lançou neste ano pela Hedra.
Gosto muito deste poema de "Cálamo", "When I Heard at the Close of the Day", uma das histórias de amor do livro que é todo um corpo desejante, e discordo um pouco da tradução de Gambarotto neste ponto. Faço a minha para que possam dela discordar também.
Advirto que os versos começam com as maiúsculas de início de linha - as linhas que começam com minúsculas são, na verdade, continuação de um verso (não consigo indicar a quebra deles aqui):

Quando ouvi no fim do dia como meu nome havia sido recebido com aplausos no capitólio, mesmo assim para mim não foi uma noite feliz a que se seguiu,
E mais, quando eu festejava, ou quando meus planos se realizavam, mesmo assim eu não estava feliz,
Porém no dia em que levantei na alvorada com saúde perfeita, refeito, cantando, inalando o sopro maduro do outono,
Quando vi a lua cheia no oeste empalidecer e sumir na luz da manhã,
Quando perambulei sozinho pela praia, e me banhei despido, rindo com as águas frias, e vi o sol se levantar,
E quando pensei que meu querido amigo meu amado estava a caminho, Oh então fiquei feliz,
Oh então cada respiração era mais doce, e durante todo aquele dia a comida alimentava-me mais, e o belo dia passava bem,
E o seguinte veio com igual alegria, e com o próximo, no entardecer, chegou meu amigo,
E naquela noite enquanto tudo estava calmo eu ouvia as águas fluírem lentamente até a costa,
Ouvi o murmúrio sibilante do líquido e da areia como se dirigido para mim, sussurrando para me congratular,
Pois aquele que mais amo dormia ao meu lado sob a mesma coberta na cálida noite,
Na calma no luar de outono a face dele estava inclinada para mim,
E seu braço repousava suavemente sobre meu peito - e naquela noite fui feliz.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

30 dias de leituras: Hilst, Shakespeare e vômitos

30 livros em um mês

Dia 26: Um livro repugnante, porém muito bom.

Criei o tópico pensando em Hilda Hilst - ela declarou que vomita em cada linha de Genet, "mas é um grande escritor", em uma entrevista à TV Cultura que deu no lançamento de O caderno rosa de Lori Lamby.
Esse livro, Contos d'escárnio/ Textos grotescos e Cartas de um sedutor formam uma espécie de trilogia fescenina na obra de Hilst.
Ela não tem nada de repugnante, porém, exceto para moralistas, e esses livros não constituem uma ruptura na interessantíssima obra de Hilst, que culminou, creio, no final, em Estar sendo ter sido, com sua feliz união de prosa e poesia. Nele, combinam-se pela última vez seus temas preferidos, o pai, o porco, Deus, o ânus.
A entrevista é engraçada e triste: "Você não pode pensar em português. É bom pensar em inglês, em alemão, as pessoas aceitam. Em português pensar é uma coisa horrível, os editores detestam, te cospem na cara. Foi o que fizeram pra mim durante quarenta anos." Mais reveladora, porém, é a que concedeu aos Cadernos de Literatura Brasileira do Instituto Moreira Sales: "Eu leio Heidegger, Hegel, Kierkegaard, Wittgenstein e percebo que eles também não têm uma resposta acalentadora para a gente." - o que ela faz é a antítese da autoajuda.
E, de fato, é uma escritora movida pelo pensamento, também naquela trilogia, da qual Cartas de um sedutor é o momento maior (os outros são mais pueris) - na ficção brasileira, acho que só o Serafim Ponte Grande de Oswald de Andrade pode-se-lhe comparar em irrisão. O incesto está no centro do livro (o sedutor escreve para a irmã, com quem teve um relacionamento sexual, e ocorre um suspense sobre se ela conseguiu ou não seduzir o pai de ambos) - mas ele é muito engraçado, com passagens deste tipo: "pois olha, Eulália, se todo mundo lembrasse do que lhe sai pelo cu, todo mundo seria mais generoso, mais solidário, mais..."; outras, mais cruéis: "Havia no bolso direito da calça a fotografia baça de um menino segurando um porco. Atrás da fotografia estava escrito: meu primeiro amor. Enterraram-no então com fotografia e tudo."
Se há algo de repugnante nesse livro, são os escritores, retratados da pior forma possível: Genet, Proust, Rimbaud, Verlaine, Mishima, até Foucault... Embora seja um romance epistolográfico, escrever é algo repugnante:

De alguma maneira me transformaste num escriba ou melhor num escrevinhador, e só de saber que tu me pensas escritor agiganta-me a náusea. Que tipos petulantes! Que nojosos! [...] Verdade que adoro os livros, mas se pudesse arrancar de mim a visão dos estufados que os escreveram vomitaria menos o mundo e a própria vida.

Esse vômito de Hilst não é nada repugnante. A repugnância é seu motivo, que só aparentemente vem do erotismo, e nascem, na verdade, da literatura, que é o assunto o tempo todo.
Logo, não é livro que sirva para este tópico.
Um livro realmente repugnante, porém muito bom, na minha experiência de leitor, é o Mercador de Veneza, uma das mais célebres peças de Shakespeare. Não vou contar a história aqui, é claro, mas explicar por que ela me dá náuseas.
O antissemitismo na peça deixa-a pestilenta para mim. Shylock tem seu grande monólogo, um importante momento dramático, mas o processo retira-lhe o que é: a condição de judeu. Shylock é visto pelos cristãos algo como o capitalista sem escrúpulos - o que é hipócrita. No julgamento, ele diz:

What judgment shall I dread, doing no wrong?
You have among you many a purchas'd slave,
Which, like your asses and your dogs and your mules,
You use in abject and in slavish parts,
Because you bought them; shall I say to you
'Let them be free, marry them to your heirs -
Why sweat they under burdens?
[...]

Os cristãos comercializavam, exploravam e matavam outros seres humanos - essa era a lei também de Veneza. Quando Shylock insiste na sua correção diante das leis de Veneza, ele está correto: "If you deny it, let the danger light/ Upon your charter and your city's freedom" e "If you deny it, fie upon your law!/ There is no force in the decrees of Venice."
Portia, quando aparece disfarçada de advogado, usa um argumento tão falacioso (talvez para tornar a situação menos inverossímil Shakespeare faz com que seja pronunciado por alguém que não estudou Direito) e de um absurdo à toda prova: como seria possível pretender que se pode ter carne humana sem sangue? É claro que uma pressupõe o outro, senão o acordo não teria objeto. E é claro que Antonio sabia disso.
Há um paralelo cruel com a fala de Shylock em que defende a natureza humana dos judeus e diz "If you prick us, do we not bleed?"; na peça, porém, para os cristãos é que não é natural sangrar...
No entanto, não é isso o que importa - o que se deixa claro é que qualquer pretexto é bom contra um judeu. Até mesmo uma ideia sem sentido vinda de um defensor improvisado que nem advogado é - e uma mulher disfarçada, alguém que nem mesmo poderia falar no tribunal nessa posição.
Shakespeare faz Shylock dizer no primeiro ato "I hate him for he is a Christian;/ But more for that in low simplicity/ He lends our money gratis" - o odioso usurário. Mas é ele o grande objeto do ódio, e é ele que tem seus bens cobiçados. Entra aí também a hipocrisia cristã de negar aos judeus o acesso à terra (na época em que a terra era a principal fonte de riqueza), deixando-lhes como alternativa de vida justamente as atividades financeiras (consideradas pecaminosas para os católicos), para depois acusá-los de usurários.
Quando Shylock, além de perder os bens, é convertido à força, e o Duque diz que faz isso para mostrar como o espírito de Veneza é magnânimo, o deboche é completo. Simbolicamente, os judeus são exterminados nesse ponto, e o restante da peça, um óbvio anticlímax, é reservado para o entendimento dos casais.
Penso agora se o final, com aquela coisa do anel (o anel, do qual Bassanio prometeu para Portia nunca se desfazer, é entregue ao advogado, que é ela mesma que, depois do julgamento, quer saber o que foi dele feito...), seja algo além de um artifício teatral para revelar o travestimento de Portia (realmente, um personagem interessantíssimo) e Nerissa. Talvez seja para mostrar que a lei de Veneza e a lei dos cristãos sejam mesmo a de quebrar as promessas - ou seja, de que não há lei. Isso tornaria a peça menos pestilenta.
De qualquer forma, isso também viria ao encontro do antijuridismo dos fascistas e dos nazistas, para quem essa peça foi um instrumento de propaganda antissemita no âmbito da política de genocídio - que não seria justamente o mais repulsivo dos crimes?

terça-feira, 11 de outubro de 2011

30 dias de leituras: Carta sobre Ana Cristina Cesar

30 livros em um mês

Dia 25: Um livro de que você não gostava e agora ama.

Eu não gostava porque não tinha lido, simplesmente por isso; conhecia apenas alguns trechos publicados em antologias. Por estupidez minha, também. Não me lembro quando, aos vinte e tantos anos, é que percebi que se tratava de uma autora genial e passei a caçar o livro, que não estava em catálogo porque a editora, que tinha sido importante nos anos 1980, havia sofrido muito com a morte inesperada de seu dono.
Achei-o na capa original, de Waltercio Caldas. Depois, o Instituto Moreira Sales e a Ática, em conjunto, relançaram-no com outro projeto gráfico. Trata-se de A teus pés, de Ana Cristina Cesar.
Já escrevi que a considerava uma poeta política - expliquei-o quando estive no evento Voz do Autor da USP, aliás. E disse que fui influenciado por ela, que não tem culpa disso.
É interessante, para relê-la, perceber o complexo jogo intertextual da autora; perceber como ela se apropria criticamente de textos alheios, em vez de, como fazem certos poetas brasileiros, citar versos alheios para ficar bonitinho, para parecer erudito, por esnobismo, para dar menos trabalho ao eventual tradutor. Aconselho, já que a tese de Michel Riaudel não foi publicada, a assistir à conferência de Riaudel, em ótimo português, na USP, e que menciona o trabalho de tradução e os diversos erros nas edições póstumas da poeta. Estranhamente, pouca gente o viu no YouTube; estudantes de Letras, cadê vocês?
Outro problema é que nas partes 5 e 6 repetiram o mesmo vídeo...
Riaudel é o seu tradutor na França. Em francês, pode-se ler este artigo sobre o mesmo assunto: Cesar como tradutora.
Nos idos de 1998, certo escritor, Bruno Tolentino, assinou em uma revista de variedades mensal resenha da reedição de A teus pés, indignadíssimo com o cuidado projeto gráfico do IMS e da Ática, que estaria a vestir uma poesia indigna. O título da resenha bem condizia com a falta de sutileza do poetastro: "A lorota de Ipanema".
A resenha tinha vários erros (e mostrava que o Tolentino nem tinha lido de verdade o livro, que ele achou que era a "obra completa" da autora). Escrevi uma carta impublicável em resposta. A revista não o fez, publico-a agora, achando engraçado o modo como eu escrevia antes dos trinta anos:


[...] espantei-me de encontrar um artigo sobre anedotas no número 11 da revista: "a lorota de Ipanema" (p. 64). Título enganador, porém: o artigo não é sobre anedotas de bairro, é apenas anedótico: uma tentativa de resenha, fracassada em quase todos os pontos, como se verá adiante. Não se discute, é claro, a opinião do resenhista, que é assunto subjetivo; o que se deseja apontar é o seu desconhecimento da poesia em geral e sua leitura escandalosamente epidérmica da obra em questão, A teus pés, de ana Cristina Cesar.

1. Desinformação:
1.1 A teus pés, ao contrário do que pretende o resenhista, não é a obra póética completa; quantidade maior que a publicada ficou inédita à época da morte da poeta, e foi lançada pela Brasiliense. Ivan Junqueira, poeta, tradutor e intelectual admirado pelo resenhista (mas não muito lido, provavelmente) escreveu emocionado ensaio sobre Inéditos e dispersos (In Memoriam, O Encantador de Serpentes, Rio de Janeiro: Alhambra, p. 199-210, 1985).
1.2 Entre os versos destacados como "amostras grátis" da "versão canônica do banal e do gratuito", está, muito curiosamente, uma passagem de Drummond que foi objeto da "cleptomania estilística" (na expressão do prefaciador) da autora; Drummond, poeta em que o resenhista ainda não tinha reconhecido "inconsequências travestidas de incompletude". Nunca é tarde para começar uma revisão crítica.
1.3 É evidentemente despropositado tentar impingir uma imagem de imaturidade poética a uma "artesã" (já que o resenhista prefere o léxico parnasiano) do verso que dialoga com Drummond, Eliot, Baudelaire, Mallarmé e vários outros, como Jorge de Lima, Whitman, Bandeira, Kerouac. Trata-se de autêntico diálogo: Ana Cristina Cesar jamais professou o verso servil e laudatório como estes: "Emily que conheces o preço,/ o ganho e o risco,/ Emily Dickinson." ("As espécies menores"), "Ó Merquior,/ meu velho amigo/ prefaciado", "por mais que imite/ Carlos Drummond/ Dona Cecília/ e Rainer Maria,/ perdi na rifa", "Murilo Mendes,/ Drummond, Vinicius,/ Cecília e Jorge/ tiram do alforje/ ou das algibeiras/ ritmo, rima" ("Uma romã para 1997), todos do último/primeiro livro do resenhista, Anulação e outros reparos.
Ana C., muito pelo contrário, não precisa imitar ninguém nem pedir licença para compor: desmistifica Bandeira e Baudelaire e, num poema cuja aparente simplicidade é das mais capciosas, vira de pernas para o ar a poética de Mallarmé como exposta em "Salut": "Nada, esta espuma" (p. 97) - o título, apenas, já é extraordinário por dar sentido completamente outro a "Rien, cette écume": à abstração, à "espuma" mallarmaica, a poeta prefere a materialidade da escrita.[...]

2. A epiderme alfabetizanda:
2.1 Um dos trechos destacados pelo resenhista do que ele chamou "diário juvenil de óculos Ray Ban" é uma leitura feminista de um conhecido poema de Manuel Bandeira, "Irene no céu", que a autora recebeu autografado do próprio poeta. Pela escolha dos trechos que mais causaram enfado ao resenhista, vê-se que é a voz feminina que lhe causa repugnância. Sabe-se da admiração dele por Cecília Meireles, mas esta grande escritora representa um lirismo tradicional [...] Já Ana Cristina é claramente a mulher após a revolução sexual, que refuta a visão tradicional do feminino. Dessa forma, ela vira ao avesso a Irene que Bandeira tornou imaculada (a mulher, em Ana, recusa-se a ter o seu desejo domesticado pelo homem) e abomina os versos lésbicos de Baudelaire (ousados para a época, não deixam de cair no estereótipo) num poema que é dos mais originais da língua, "21 de fevereiro"(p. 106) e recebeu apreciação de Ivan Junqueira (À sombra de Orfeu, Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, p. 190-191, 1984). Não perceber a radicalidade da questão do gênero na poesia de Ana Cristina ("Posso ouvir minha voz feminina: estou cansada de ser homem.") é professar uma evidente desleitura. Ou, simplesmente, machismo.
2.2 O resenhista caiu como um pato (respeitosamente emprego um significante muito repetido em Luvas de pelica de Ana C.) no conto da confissão; Caio Fernando Abreu também caiu nessa, na antiga contracapa de A teus pés. O verso de Ana não confessa nada, ou melhor, não mais do que qualquer outra poesia legítima, pois, se a poesia é fingimento, é fingimento do que se sente (a lição pessoana). A poeta não revela nada diretamente: ela desconstrói noção de confessionalismo, subverte a questão da intimidade para repensar a própria linguagem poética, como brilhantemente percebeu Silviano Santiago na conferência "Singular e anônimo" (Nas malhas da letra, São Paulo: Companhia das Letras, p. 53-61, 1984).
2.3 À questão da transitividade da linguagem poética, acrescento que Ana Cristina, com sua armadilha do aparente confessionalismo, lida novamente com o gênero. A própria autora dá a pista para essa leitura, em depoimento na Faculdade da Cidade, quando lembra que historicamente a escrita da mulher surgiu da intimidade: cartas, diários. Ana se posiciona historicamente como voz feminina.
O resenhista não percebeu nada disso, mas acertou onde não viu: a incompletude da poesia de Ana. Acertou, é bom dizer, muito de longe: pois essa incompletude não advém apenas do desaparecimento prematuro da autora e não significa uma "inconsequência carioca". A incompletude decorre do caráter experimental de sua poesia, que, ao contrário da de autores que só fazem modular, com rimas mais ou menos pobres, metros do passado numa sensibilidade ainda sub-rilkiana (sim, é uma referência ao resenhista), experimenta formas diversas [...] e, principalmente, é portadora de uma nova poética que não se fechou sobre si mesma. Ela aponta para o futuro e, provavelmente, inspirará escritores mais jovens.
Não se deve culpar o resenhista por não ter entendido nada: ele já pertence a outra época. Sua alta reside em outro lugar, que não é a poesia.
Que o resenhista, em uma comparação sórdida, queira contrapor Cruz e Sousa a Ana Cristina Cesar é, em princípio, despropositado pois suas obras não guardam semelhança alguma. O fim de Bruno Tolentino, contudo, é bem outro: comparar a morte de ambos, ressaltando o caráter voluntário da de Ana Cristina Cesar para ridicularizar a poeta, assimilando a sua queda fatal à "dos critérios" e ousando uma alusão irônica ao poema "18 de fevereiro" (p. 103).
Como dizia Fernando Pessoa, brincar com os deuses, a morte e a loucura é próprio da baixeza de alma; e só quem está abaixo da última canalha das ruas é capaz de fazê-lo sabendo que mente.
Não é o caso do resenhista, pois, como já vimos, ele manifestamente não sabe.

P.S.: Escrevo também que, nessa fase em que passei a ler Ana Cristina Cesar, vi duas vezes o espetáculo de dança de Marcia Rubin, Tudo que eu nunca te disse, de 1997. Desde o título, baseava-se na obra da escritora, e era de uma grande inteligência dramática e profundo entendimento dessa poesia. Seria bom que fosse remontado.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

30 dias de leituras: Campos cosmopolitas da tradução

30 livros em um mês

Dia 24: Série de livros favorita.

Este tópico foi um dos que conservei da lista do "Desafio 30 livros"; eu não tinha, no entanto, a ideia do que indicar nele. Pensei na Recherche e desisti de incluí-la aqui: por experiência própria, tive de reconhecer que ela é um livro só, não uma série. Com efeito, o único volume que se pode ler isoladamente é o primeiro - porém, se perde muitíssimo limitando-se ao Swann.
Na minha experiência de leitor, uma série muito importante para mim foi uma sequência de livros de traduções (e aqui faço minha pequena homenagem aos tradutores brasileiros) que Augusto de Campos fez combinando vários autores. Na minha leitura, estes livros constituíram uma série de poesia que programava, segundo certas exigências poéticas e éticas (com Pound ao fundo), autores de épocas muito diversas que, com a mediação do tradutor e ensaísta, passaram a conversar entre si: Verso reverso controverso, O anticrítico, Mais provençais, Linguaviagem. Em alguns casos, a conversa já estava lá, como o poema de Borges para Keats, traduzido em Linguaviagem.
Todos foram publicados em edições bilíngues, o que é fundamental para poesia - e documentam a grande versatilidade de Augusto de Campos, capaz de traduzir a partir de diversos idiomas.
A primeira edição de Verso reverso controverso é de 1978, mas o conheci na segunda, que foi ampliada dez anos depois. O livro origina-se de artigos e traduções que ele vinha publicando desde 1964 e consegue reunir coerentemente (o que é ousado e notável) Marcabru e Rimbaud, Pound e Donne, George Herbert e Marino, Corbière e Arnaut Daniel...
No final, temos cantadores nordestinos - e, assim, um livro de grandes traduções termina com versos em português! Augusto de Campos não tem pruridos elitistas e reconhece a grande poesia não só nos "poetas urbanos", mas também nestes cantos: "Faço o Eixo da terra dar estalo,/ Faço a morte ter medo de morrer."
O organizador e tradutor escolhe outro canto nordestino, que lida com a imagem dos dados, a peleja entre Cego Aderaldo e Zé Pretinho. Como ele incluiu no livro poema de Arnaut Daniel com imagem semelhante, temos algo como se Mallarmé, neste paideuma, fosse Deus, e sua palavra, Un coup des dés, flutuasse atemporalmente sobre a poesia ocidental...
No livro, há um recorte de natureza temática, pois são privilegiados versos licenciosos, indecorosos, ou de um realismo cru. Com os trovadores, são mencionadas as cantigas de escárnio e maldizer (com um elogio à coletânea de Natália Correia). Uma intervenção poética contra o moralismo.
O livro era graficamente muito bem cuidado - parece que a editora Perspectiva não o alterou, felizmente. A capa, de Lizárraga, apresenta um trecho de partitura de um dos trovadores incluídos do livro, o grande Bernart de Ventadorn: a belíssima canção "Quant vey la lauzeta mover" ("Ao ver a ave leve mover", na tradução de Augusto de Campos).
É de 1986 O anticrítico, editado pela Companhia das Letras, que reúne Donne e Gertrude Stein, Cage e Dante, Emily Dickinson e Lewis Carroll, Verlaine e Huidobro... Augusto de Campos, no entanto, tenta introduzir os poetas com poemas seus que, em geral, são apenas didáticos e empalidecem diante dos poemas traduzidos. Para quem não acreditar, transcrevo esta estrofe de "América Latina: Contra-boom da poesia":

de oswald à poesia concreta
de joão cabral e joão gilberto
da pc à tropicália
criou-se uma outra linha experimental
antropófago-construtivista
que não tem paralelo
na poesia espanhola

O livro não é capaz, também, de apresentar uma figura de "anticrítico" (seria aquele que escreve poemas fracos de louvor aos poetas que admira?) contrária à do que fala em "critiquês", até porque ele não chega de fato a analisar o que é esse jargão; parece que o problema dele é com os universitários, mas seria muito ingênuo achar que há (ou havia) uma postura homogênea nesse meio. E é inconsistente reclamar da Academia escrevendo poemas comprometidos pelo didaticismo...
Augusto de Campos, na breve apresentação de duas páginas, só deixa claro que é contra a maledicência, o que é bastante vago. Intelectualmente, o livro é muito mais fraco do que Verso reverso controverso, porém as traduções justificam-no plenamente. Vejam a solução que ele dá para o começo da Comédia, que Eduardo Sterzi já elogiou algumas vezes:

No meio do caminho desta vida
me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída.

Ah, como armar no ar uma figura
desta selva selvagem, dura, forte,
que, só de eu a pensar, me desfigura?

Alguém deveria contratar a Comédia inteira por ele, a peso de ouro, que é o que valeria o livro.
O trabalho de tradução dos poetas provençais teve sequência em Mais provençais, de 1987, dedicado a dois autores: Raimbaut d'Aurenga e Arnaut Daniel. O livro abre-se com traduções de trechos de Pound e de Dante que se referem àqueles dois autores. No caso de Dante, justamente o Canto XXVI do Purgatório, que é uma de minhas seções favoritas do poema; pena que ele deixe de lado o efeito da irrupção da língua provençal com a fala de Arnaut Daniel.
Ana Cristina Cesar, em artigo que foi recolhido em Crítica e tradução, publicado pelo Instituto Moreira Salles e pela Ática, põe nas alturas uma primeira edição desse livro pela Noa noa em 1983 - o título da resenha é "Bonito demais": "Augusto é tradutor admirável, que sabe combinar a competência do scholar à consciência da tradução como ato (também) político. Sua prática dá o que pensar: ele é, dos poetas-tradutores, o que mais explicita suas opções de tradutor como militância." E cita Verso reverso controverso como exemplo anterior da militância poético-tradutória de Augusto de Campos.
Sobre esse livro, ela havia escrito um interessante ensaio comparando-o com uma edição das traduções de Manuel Bandeira, que tinha uma política tradutória muitíssimo diferente - e mais tradicional, claro. Ana Cristina Cesar, embora preferisse a engenhosidade de Augusto de Campos à personalidade de Bandeira, fez reparos à aplicação de procedimentos do Concretismo às traduções dos poemas medievais, e acho que ela estava correta.
Em 1987, Augusto de Campos lançou Linguaviagem (pela Companhia das Letras) que, na "Breve introdução" é chamado de "parente próximo" de Verso reverso controverso, O anticrítico e de Paul Valéry: a serpente e o pensar. De fato.
O âmbito do livro é menos ambicioso do que o de Verso reverso controverso, contando com Valéry, Mallarmé, Blok, Borges, Yeats e Keats. A tradução de A jovem parca ocupa a boa parte do livro (e também a "Herodias" de Mallarmé), mas o que mais me encantava eram os poemas de Keats e de Yeats, em traduções em geral superiores às de Péricles Eugênio da Silva Ramos, que dedicou, porém, um livro inteiro a cada um dos dois.
Augusto de Campos assinou, sozinho ou com outros (notadamente outros concretistas), vários outros livros notáveis de tradução de poesia - entre eles, a Poesia russa moderna. Os quatro que mencionei nesta nota, contudo, parecem-me formar uma série distinta na obra tradutória desse autor.
São também trabalhos imprescindíveis para o leitor de poesia em português e marcos no Brasil deste ofício politicamente cosmopolita que é o da tradução. Afinal, os tradutores é que são os verdadeiros embaixadores, visto que possibilitam o diálogo entre os povos.

sábado, 8 de outubro de 2011

30 dias de leituras: Rimbaud, tradição da ruptura, ruptura de tradições

30 livros em um mês

Dia 23: Livro que você leu mais vezes.

Poderia ser Em busca do tempo perdido, de Proust, sobre que já escrevi. Só li a Recherche três vezes (já vou começar a quarta), mas, como são centenas e centenas de páginas, ganha em número de páginas relidas...
As releituras variam muito segundo a época. Se estivesse a escrever durante a graduação (acho que não existiam blogues nessa época), teria sido aquela edição da poesia de Fernando Pessoa. Em outra época, teria sido a poesia reunida de Yeats. em outra, o Poesia-Experiência de Mário Faustino.
Como, de acordo com as regras que me impus, não posso escolher um dicionário, e porque adotarei o critério do número de vezes, escrevo esta nota sobre Rimbaud, que li em algumas edições diferentes. A primeira, delas, Uma estadia no inferno (Une saison en enfer) na tradução de Ivo Barroso (antes publicada pela Civilização Brasileira, depois pela Topbooks), que é muito superior à de Ledo Ivo.
Sobre a tradução deste último Ivo, não precisamos lembrar da "insignificância de seu trabalho dentro do debate poético contemporâneo brasileiro" (como escreveu há pouco Ricardo Domeneck), pois poetas sem obra relevante podem ser grandes tradutores. Mas havia uma incompatibilidade de gênios (gênio no sentido estrito de temperamento, por favor), declarada desde a introdução, e que o acadêmico ratificou: "Yo le recomendaría a un joven poeta no ser un joven poeta, especialmente si este joven poeta es un terrorista literario, un Rimbaud, un contestatario./ Yo le recomendaría que él procurase un día, tornarse un clásico de su país."
A divisão entre clássico e contestador deveria ser relativizada: há clássicos da contestação (Marx não se tomou um clássico? ou Dante?) e não existem apenas tradições do conservadorismo... Por sinal, certos conservadores gostam de ocultar na história justamente as tradições da insurreição (rápida observação: aquelas críticas apressadas a Gadamer que o encaram como conservador por tratar do papel da tradição padecem do mesmo negacionismo histórico). A tradição não é algo homogêneo e apaziguador, exceto para os que amam simplificações históricas, ou seja, embustes.
Aqui, gostaria também de discordar do tradutor brasileiro da poesia latina de Rimbaud (ele já a traduziu toda; falta um editor), seara em que não entraram Ivo Barroso e Ledo Ivo, Leonardo d'Ávila de Oliveira. Ele escreveu que "O que se nota, no entanto, é que a tomada do autor como um mito fundador da poesia moderna fica, neste caso, comprometida, já que, antes de criar, o autor joga com toda a tradição, a exemplo de versos de Virgílio ou mesmo Ângelo Poliziano."
Faz sentido pretender que a inovação em arte só poderia ser alcançada pela ignorância da própria arte?... Pode-se constatar tantas vezes o oposto: é o conhecimento da tradição que dá mais instrumentos para a ruptura - como foi o caso de Monteverdi (se não dominasse o madrigal renascentista, teria escrito algo como o Orfeu?), Beethoven, Schönberg...
Rimbaud fascinou-me porque sua trajetória é de rápidas conquistas e abandonos: domina o verso latino, vai para a poesia em verso francês, domina-a, segue para o poema em prosa, combina poesia em prosa e em verso (Une saison en enfer já foi comparado à Vida nova de Dante?), chega ao verso livre (em Iluminações, "Marine") e encerra a carreira. Certamente os impasses da sua vida pessoal contaram também, mas fato é que ele parou depois de percorrer as possibilidades poéticas de seu tempo - como se tivesse chegado ao fim do jogo.
Mário Faustino pôde escrever sobre Rimbaud: "a partir do momento em que o poeta constroi uma poesia nova, sua poesia, é melhor calar do que repetir-se" (em Poesia-Experiência). Mallarmé, depois, com Un coup de dés, traria ainda mais uma possibilidade para a poesia francesa. De fato, o que Rimbaud logra em tão poucos anos é de uma ousadia e de uma experimentação incríveis - e se compreende que essa obra tenha sido criada por um escritor tão jovem, e preocupado com a revolução social.
Tenho alunos com o dobro da idade de Rimbaud quando escreveu a Estadia que não conseguem juntar sujeito e verbo. Alguns daqueles com a mesma idade que o poeta tinha nessa época perguntam quem é o verbo e, de fato, apenas enfileiram substantivos em frases nominais que começam com a palavra "onde", a qual serve como conjunção universal indicativa de profunda elipse mental. Por trabalhar dentro da catástrofe da educação no Brasil, acho que Charles Dantzig tinha razão ao afirmar (no idiossincrático e engraçado Dictionnaire égoïste de la littérature française) que Rimbaud e Genet foram dos maiores sucessos da educação pública francesa (veneninho francês: "D'où la facilité avec laquelle il devient un poète officiel de cette même Éducation nationale [...]"). De fato, Rimbaud é um argumento em prol da educação pública - imaginem os talentos que perderam suas possibilidades, no Brasil, vendendo bala em sinal. Mesmo um liberal como Rawls diria que a igualdade de oportunidades é um requisito para uma sociedade justa.
A Saison como um paralelo à Vida nova? Os dois livros combinam prosa e poesia, são autobiográficos (vejam Eduardo Sterzi a respeito do poeta italiano) e tratam dos afetos do poeta, no caso de Rimbaud, de uma relação que aconteceu de fato, com Verlaine (Dante provavelmente nunca namorou Beatriz).
Há religião em Dante, e também em Rimbaud - ele está no inferno, mas ascenderá, é o que a "virgem louca" anuncia sobre o "esposo infernal" na primeira parte dos "Delírios".
Que inferno é esse, do qual se pode ascender? Dante pôde fazê-lo em outro livro (a Comédia), porque estava vivo e atendia ao chamado de Beatriz, que tinha se tornado uma grande dama do paraíso. No livro de Charles Henry L. Bodenham, Rimbaud et son père: Les clés d'une enigme, mostra influência do islamismo na obra do poeta, e explica que, também nesse texto (Bodenham mostra os diversos paralelos), o Corão está presente: o islâmico não permanece no inferno eternamente, ele ascende - só quem ficará lá para todo o sempre é o infiel, isto é, o não islâmico (no caso, Verlaine).
Rimbaud havia estudado o islamismo nos livros do pai, Frédéric (militar que havia servido na Argélia, e que sobre ela escreveu, e acabou, como se sabe, abandonando a família). Bodenham vê a presença do sufismo e de A conferência dos pássaros no famoso "Elle est retrouvée!/ Quoi? l'éternité", que existe em duas versões.
Além da impressionante aventura formal e existencial de Rimbaud, há nele essa dilaceração entre Ocidente e Oriente, pois não é possível pertencer a ambos; em "O impossível", lemos que "O espírito burguês nasceu com Cristo."; "Os homens da Igreja dirão: É isso mesmo. Queres referir-te ao Eden, não? Nada te interessa na história dos povos orientais."; sobre os filósofos: "Estás no Ocidente, mas livre para viveres no teu Oriente, por mais remoto que o desejes, - e aí viver muito bem. Não sejas um vencido. Filósofos, vós pertenceis ao Ocidente." [tradução de Ivo Barroso].
Ir para a África não deixou, em certo sentido, de constituir uma continuação dessa poesia, que contesta de forma tão explícita a civilização europeia. Em "Sangue mau", a identificação com os colonizados é flagrante:

Chega de frases. Enterro os mortos no meu ventre. Gritos, tambor, dança, dança, dança, dança! Não vejo nem mesmo a hora em que, desembarcando os brancos, tombarei no vácuo.
Fome, sede, gritos, dança, dança, dança, dança!

Os brancos desembarcam. O canhão! Há que submeter-se ao batismo, vestir-se, trabalhar.[tradução de Ivo Barroso]

Sintaticamente, a enumeração com a repetição da dança, com seu ritmo tão peculiar, busca encarnar a ruptura com o discurso ocidental. Não é necessário lembrar que aquilo que Rimbaud faz com o ritmo, também na poesia em prosa, é de impressionante maestria - e desafiaria qualquer músico; acho que Britten não conseguiu chegar perto da variedade rítmica de Rimbaud quando musicou parte de Iluminações - mas ouço com prazer, no entanto, o que o compositor inglês logrou.
Por sinal, Iluminações, em alguns de seus textos, leva adiante esse conflito, que é um conflito de culturas - e o desejo de romper com o Ocidente. É o caso de "Democracia", claro. Em "Vagabundos", temos o desconforto com a civilização e a busca desesperada "de encontrar o lugar e a fórmula" do "estado primitivo de filho do sol".
Rimbaud, sequioso de "possuir a verdade em uma alma e um corpo" (o final da Saison) foi literalmente buscar o sol - mas, antes, felizmente, deixou-nos sua parada selvagem.