O palco e o mundo


Dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Poesia de Domeneck, a saliva que faz chover

Fiquei bastante chateado nesta quarta-feira porque, devido a uma reunião de trabalho, perdi a leitura que anunciei em outra nota. No entanto, pude ler, após o lançamento que perdi, o Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012), novo livro de Ricardo Domeneck.
No ano passado, assisti a uma reunião de pesquisa de um grupo de professores e estudantes de Letras em que um dos autores comentados era Domeneck (para pronunciar corretamente: DoMEneck), poeta brasileiro contemporâneo que publicou Carta aos anfíbios (2005), cadela sem Logos (2007), Sons: Arranjo: Garganta (2009). Escrevi apenas sobre o primeiro livro (http://www.germinaliteratura.com.br/resenha23.htm) e sobre o segundo (http://www.weblivros.com.br/k-jornal-de-cr-tica/k-jornal-de-cr-tica-10-abr-07.html#duas).
Domeneck já me criticou (em e-mail - escrevemo-nos bissextamente), com razão, pela tendência de afiliar sempre um autor a um sistema nacional. No entanto, outro problema, em polo oposto, é negar que haja Brasil na poesia dele, o que às vezes é feito por ignorância. Naquela reunião, cheguei a ouvir, em aparte a uma observação que fiz, que Murilo Mendes nunca esteve entre suas referências; dizer tal disparate exige não ter lido nem a poesia nem os ensaios nem as entrevistas - veja-se a página 113 de Sons: Arranjo: Garganta), às vezes por má-fé, para simplesmente afastá-lo do debate: um DJ radicado em Berlim seria completamente estrangeiro aos debates da poesia brasileira...
Interessam-me bastante os movimentos que Domeneck faz entre as influências brasileiras (Murilo, Drummond, Hilda Hilst, Bandeira) e estrangeiras (Mallarmé, Frank O'Hara, Gertrude Stein), a "alta cultura" (Wittgenstein) e o pop (Kate Moss), português e outras línguas. Nos livros de 2007 e 2009, o eu aparecia quase como um dispositivo de citações e referências, articulando-as. Por vezes, essa articulação parecia imitar algo como o fluxo internacional das mercadorias, e a poesia de Domeneck ressentia-se quando simplesmente refletia, com certo deslumbre, esse fluxo sem o pensar.
O terceiro livro, porém, aprofundava o lirismo em momentos como este:

a barba de três dias
e o sol queimando
as unhas, o cotidiano
longe dos olhos
ou o anjo
que volta o rosto
sempre à espera
das facas às costas.

Como eram os melhores textos, logo faziam pressupor que os livros seguintes seriam de amor. E assim vieram o breve Cigarros na cama (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2010) e o longo Ciclo. Permanecem nesse último os problemas com o monoteísmo, as brigas com Cabral (usando Elisabeth Bishop: "Educação pela perda"), as referências às outras artes e à cultura pop, presentes nos três primeiros, mas o foco amoroso predomina, com a mudança daquele eu que era um dispositivo de referências.
Aqui, Domeneck constrói, com o uso de didascálias (lembro duas das melhores: "Chegando à cidade onde fixei finalmente o significado de vindima", "Texto em que o poeta medita sobre a transitoriedade da existência física, enquanto alterna canais de televisão na Berlim de junho de 2006 em busca de material para o poema e assiste a documentários sobre Marilyn Monroe, a Ilha da Páscoa e um jogo de futebol"), uma persona que lembra a de poetas mais antigos - em certo poema, a que me referirei no final, pede perdão por ter trocado o modernismo pelo lirismo.
Lembrei de Villon, que foi um dos primeiros a criar uma persona bem individual, e que podia referir a si mesmo como "pauvre Villon", "vieux singe", "martyr d'amour"... E, como o poeta francês escreveu baladas na gíria dos homossexuais daquele tempo, creio que há outro paralelo.
Domeneck escreveu a interessantíssima "X + Y: uma ode", que começa:

Houvesse nascido
mulher, já teria dado
à luz sete
filhos de nove
homens distintos.
Agora, vivo entretido
com as teorias
a explicarem meu gosto
por odores específicos,

Depois, como o poema é longo, já são treze homens e onze filhos... A má educação cristã aparece no trecho "Não mentirei dizendo/ que não temo e tremo/ com o perigo do Inferno." O final, quando se imagina lendo Catulo e Kaváfis com o futuro amante, "um moço pasolínico" (o contrário do namorado ignorante que não distingue o pound inglês do Pound americano em Cigarros na cama), é um dos momentos mais divertidos do livro:

Quando chegarem os bárbaros,
me encontrarão na cama;
que venham porém armados,
pois hei de estar acompanhado,
e em riste as nossas lanças.

Em "nossas", acrescente-se a de Kaváfis, perfeitamente integrado à situação - a citação nada tem de gratuita.
Vejam a ternura completa disto, de o poeta reclamar que o cobertor não estava bem distribuído entre os dois corpos:

e protestei contra sua falta
de percepção para as simetrias
necessárias em uma relação,
quando ele, sorrindo, voltou
o rosto em forma de colisão
com o meu e asseverou
que tampouco os pulmões
têm o mesmo tamanho,
mas que o esquerdo
seria menor
para dar espaço ao coração,
que ele, antilírico,
chamou de miocárdio,


Domeneck escreve coisas divertidas sobre o cânone (ver o verso único "Poetas com marinha exército aeronáutica" de poema cujo título não direi, ou a pergunta final de "A educação dos cívicos sentidos"). Porém, o poema que li alto na mesa do jantar, quando ainda não tinha conseguido comer no ambiente barulhento e apertado pouco propício para a conversa, quanto mais à poesia, foi "Texto no qual o poeta, vivo da silva e em sangria desatada, pede perdão ao mestre morto por seus arroubos tragicômicos". Quem é o mestre? Murilo Mendes, claro!
Domeneck declara-se afastado justamente do livro de Murilo de que me sinto mais próximo, Convergência, sobre que escrevi algumas linhas mal-traçadas (afinal, nós - eu e o poeta em sangria - tratamos o eu de forma muito diferente no que fazemos).
O que o afasta de MM? O lirismo (agora mais intenso) de Domeneck e o cristianismo (aliás, nada ortodoxo) de Murilo. O discípulo justifica-se:

Mestre, encontrei enfim um moço com paciência de Jó e potência de Thor, toda antilirice desértica em mim sumiu quando as chuvas regulares da saliva deste despencaram em minha boca, [...]

Imagem de um Cântico dos cânticos bem pessoal. O livro tem mais de cento e oitenta páginas, mas se leem num jato. Lastimo apenas que o trabalho de revisão da 7 Letras continue fraco.

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