O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Dennis Radünz e "Ossama", ou a atualidade do fóssil

Para mim, que escrevi sobre Julián Axat e as valas comuns na Argentina, foi interessante achar Ossama - último livro (Florianópolis, Jaraguá do Sul: Letras Contemporâneas, Editora da Casa, 2016) de Dennis Radünz, com as belas ilustrações de Julia Amaral. O autor explicou para Carlos Schroeder o título, um "brasileirismo que significa, literalmente, porção de ossos, como se esses poemas – que versam sobre autoritarismos, burocracias, consumismos e desaparição – tivessem sido escavados no que nos restou da civilização: um museu-mundo".
Todos os temas são abordados por meio dessa proposta de escavação em busca dos fósseis da civilização... Uma vez que se trata de paleontologia, é necessário datar os ossos: pelo carbono ou pela luminescência, que dão o título às duas partes do livro.
O livro é marcado formalmente pela experimentação, do soneto à poesia visual (sua invenção verbal lembra Haroldo de Campos), e, no tom, pela presença do humor, com a poesia valendo menos que "dinheiros fora de circulação" ("economia das formas breves", referindo-se ironicamente aos poemas do próprio livro), poema com que o livro termina. A seção "Datação por luminescência" é aberta por um soneto sobre a cédula com a efígie de Drummond, "cinquenta cruzados novos", com tema análogo, engraçado em seu tom grave: "em que marca de água uma cara valora,/ em espécie e viva, mas perdida do uso?"
O primeiro poema, "As cidades sedadas: carta de achamento do desastre", cita a carta de Pero Vaz Caminha ao rei português anunciando o que se tornaria o Brasil - este é o achamento... Suas três partes aludem a acidentes: no trânsito; incêndio em edifício; em avião. Radünz faz seguir a esse um poema sobre endereço não incluído no "google street view". Em vários momentos, temos a marca da perda da terra e do mundo, e esses sem-terra, sem-teto, sem-superfície, esses fora-do-mapa são os que não têm valor (como a própria poesia). Para "Os inquilinos", "a morada, muda a muda, desmorona". Uma poesia que louvasse os proprietários teria outra abordagem, provavelmente triunfalista.
Em "olha-podrida [dos suicidados pelas ditaduras]", temos os sem-nome, sem-lápide, sem-túmulo (isto é, desprovidos até mesmo dos sete palmos de terra reservados aos mortos): os desaparecidos políticos reclamam sua identificação:
todos os dedos decepados
revolvidos em retalhos
(entre os livros esgotados)
pedem nomes
A primeira parte trata de temas sociais, chegando à geopolítica e a este assunto de urgente atualidade, o fim do mundo. O silêncio dos fins de tarde em Brasília revela "áreas de bastilha", o "diretor-executivo do mercado de futuros" faz "polícias" e "bala de borracha", a destruição dos rios de Minas pela mineração é evocada em "Terrábile [de um neologismo lido em Murilo Mendes], um poema tenta retratar o flash de fratura no genocídio em Ruanda ("A segunda imagem").
"Museu-mundo" trata da perda do planeta e do fim do "sapiens", e começa com a pobre Laika, lançada inapelavelmente ao espaço sideral: "eles não salgaram/ a carne da cadela laika" (quase ouvimos uma balalaica na referência à pobre cachorra soviética); o poema parece imaginar a destruição do mundo pelas águas, e no úmido "museu do homem" imagina estes "resíduos": "o dedo de galileu/ o cérebro de einstein/ o último exemplar/ de ética a nicômaco".
A segunda parte apresenta alguns poemas líricos e de família. A água está ligada à memória e à passagem do tempo e dos corpos: "corpo consumido em extremos desde os lados do além até um centro/ que é de ilhas diluídas [,,,]"; no belo poema da saga familiar, "mais os ribeiros de meus dias/ e os fins nas águas negativas/ em que os avô e pai me foram/ incendiando nos dentros"; sobre a "ondina", lemos que "e o mundo grave de fora na endolinfa se chega/ e se esconde no espelho, todo ouvidos, o peixe"; enfim, "os ossos umedecem/ os sedimentos da nascença".
É interessante o movimento do livro, pois a água que trazia o desastre desde a viagem de Cabral, e que leva a uma radical perda do mundo, e as "umidades do museu do homem" só guardarão resíduos, a água conduz-nos à segunda parte do livro, em que ela está presente, porém como líquidos interiores (linfa, sangue – estendido metaforicamente para a genética), bebidas, com predominância dos temas da esfera privada, que coabita com a constatação de que a poesia perdeu o mundo da mesma forma que "dinheiros fora da circulação".
O livro constata a Bastilha, mas não encontrou, nas escavações, nenhum plano de rebelião. A esperança e a experiência foram recortadas pelo tempo, como parece sugerir a "linha do tempo"? Nesse recolhimento, o livro parece ser bem atual e encarnar a dissolução da ação política, bem como as perspectivas de mudança social, que parecem ter a atualidade do fóssil, eis que ela se tornou muito menos provável do que o fim do mundo.

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