O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

domingo, 7 de junho de 2026

"O fascista em comunidade com as pulgas"

Para meu amigo Eduardo



I

O fascista em comunidade com as pulgas:
comunhão de apetites.

O internacionalismo fascista 
ou a hemorragia viaja no mesmo sentido
para fora dos corpos
na diplomacia da bomba.

Feixes unidos por amor ao sangue:
empilhados, formam uma cratera
que se eleva até a tempestade.

A identidade fascista ou o espelho, 
na mão direita ou na esquerda,
revelando a cara da mercadoria.

Os fascistas têm fé em deus assim como as pulgas acreditam no calor
e abandonam os corpos mortos.

Ao contrário das pulgas, quando eles saltam, é para cair.

Ao contrário de muitas pulgas, os fascistas
são muito específicos em relação às raças que sugam.

Dizem que existiu poesia fascista,
porém ela foi esquecida
na programação da alucinação artificial,
que substituiu a imbecilidade natural.

Os fascistas querem a política no estilo das pulgas.
Elas também vivem do sangue alheio,
contudo, são mais inteligentes
e sabem que o inseticida é mais político do que elas.


II

A quantidade de fascistas (tipicamente larvas ou pupas) que chegam à maturidade é muito pequena quando comparada â grande quantidade de hospedeiros que eles parasitam. Populações de fascistas apenas sobrevivem em razão da capacidade publicitária e da lucrativa relação com o ambiente que destroem. Contudo, se os desastres ambientais forem favoráveis, mais fascistas chegarão à idade adulta. Uma infestação poderá ocorrer com as doenças de que são vetores e o canibalismo tipico dessas espécies introduzidas.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Réquiem e país

Não cantaste nem tocaste,
não regeste nem produziste,
tampouco partiste a maçã
ou derrubaste o café
ou fechaste a porta
sobre o réquiem.

Porém o que não cantaste vinha de tua voz,
o que não poderias escrever
nascia de tua mão

porque ela se tornava
a maçã partida
quando as portas se fecharam
e o café foi derramado
pelo dia que não mais nasceria.

Não regeste,
porém teu gesto
apoderou-se de todo o réquiem
quando tuas mãos caíram
tomadas pelo mundo.

Agora, tu mesmo
tão inacabado
quanto a música.


II

Num país melhor
terias sobrevivido.

Réquiem também para o país
sempre inacabado
enquanto não deixar viver.