O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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sexta-feira, 21 de junho de 2024

Desarquivando o Brasil CC: Uma nota sobre Chico Buarque e censura na ocasião de seus 80 anos

Tive a ideia de escrever esta nota porque, em 19 de junho de 2024, aniversário de oitenta anos de Chico Buarque, o jornalista Evandro Éboli publicou no Twitter um documento da Censura sobre a peça Roda Viva, em que o censor Mario F. Russomano indagava se "Francisco Buarque de Holanda" seria "débil mental". 

A imbecilidade da questão sobre um dos artistas mais brilhantes da história do Brasil refletia bem  o rebaixado estado mental da ditadura militar.

O documento, explicou Éboli, estava exposto no Arquivo Nacional em um banner que o então ocupante da presidência da república, o militar Jair Bolsonaro (outra "página infeliz de nossa história"), negacionista nos planos da ciência e da história, mandou retirar:



As expressões "de baixo calão" que ofenderam os censores tinham sido contribuições de Zé Celso, o saudoso indisciplinador de mentes e corpos, que dirigia a peça. Exatamente por causa das mudanças no texto, a Censura havia decidido voltar a examinar o espetáculo; neste despacho de 25 de janeiro de 1968, o Censor Federal Augusto da Costa explica que "nas seguintes apresentações para o público, as marcações foram acrescidas de novas ideias que ocorreram ao seu diretor no afã de procurar um aprimoramento para o espetáculo, que deram ao mesmo nova dimensão quanto a restrição de idade", sugerindo o limite de 18 anos:



A peça sofreu ataques dos grupos da extrema-direita (Marília Pêra foi espancada grávida em São Paulo pelos fascistas do CCC, o Comando de Caça aos Comunistas, que invadiram o teatro de Ruth Escobar) e acabou sendo proibida. A peça Calabar: o elogio da traição, de 1973, que escreveu com Ruy Guerra, também seria censurada. Em 2018, meio século depois, Zé Celso remontou Roda viva no Teatro Oficina. 

Chico Buarque foi censurado como compositor e dramaturgo, o que é amplamente conhecido. Sabe-se também do exílio de precaução que ele viveu na Itália de 1969 a 1970. Depois de voltar ao Brasil, ele continuava a ser vigiado, inclusive no exterior. Nesta edição de 1973 do Boletim Comunismo Internacional, um documento reservado do SNI, sua viagem à Argentina foi enquadrada como "campanha contra o Brasil no exterior". Passo agora a reproduzir documentos que estão no Fundo DEOPS/SP do Arquivo Público do Estado de São Paulo:



Ele teria dito que "as circunstâncias atuais fazem com que toda a música seja política [...]; toda a música está cumprindo uma função política, na medida em que é utilizada de acordo com planos bem claros." Era a época do chamado "circuito universitário" de apresentação de artistas:



Ele disse preferir essas apresentações à televisão. No entanto, os estudantes também eram um grupo suspeito para a ditadura. Por isso, os agentes da repressão acompanhavam-no. Vejam como o delegado Romeu Tuma (um dos 377 autores de graves violações de direitos humanos segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade) escrevia em código os nomes de Chico Buarque e do MPB-4, querendo saber se tinha havido agitação estudantil e propaganda subversiva nesta apresentação de outubro de 1972:



Não tinha ocorrido nenhuma agitação desse tipo. No entanto, ele era um artista visado: "você não gosta de mim, mas sua filha gosta", ele escreveria no ano seguinte sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide, criado para escapar da marcação cerrada da censura. O Centro de Informações do Exército (CIE) caracterizava o artista em termos de "proselitismo desagregador", "mantendo os estudantes em permanente expectativa política":



Vejam que foram incluídos nessa categoria de artistas incômodos à ditadura Alaíde Costa, Capinan, Edu Lobo, Egberto Gismonti, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Jards Macalé, Marília Medalha, Milton Nascimento, MPB-4, Nara Leão, Sérgio Ricardo, Trio Mocotó, Vinicius de Moraes e Ziraldo. Bela lista.

Na soi-disant abertura, ele continuava a ser censurado, claro, assim como outros artistas. Em 1977, ocorreu a censura dessa apresentação dele com Bibi Ferreira, Edu Lobo, Milton Nascimento  e MPB-4, todos considerados pelas autoridades como "artistas tradicionalmente contestadores ao regime". A apresentação teve de ser adiada e o local, mudado. 



Trata-se de um informe de 12 de julho de 1977 da Coordenação de Informações e Operações da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Já haviam sido vendidos três mil e trezentos ingressos.

Apesar disso, a ditadura militar chegou a usar sua música sem autorização: "A banda", um de seus primeiros sucessos, com sua letra inofensiva para o regime, foi capturada para incentivar o alistamento militar, o que provocou o protesto do músico. Esta é a notícia que saiu no boletim de março de 1972 do boletim de março de 1972 do "Frente Brasileño de Informaciones", o irônico FBI dos exilados (só no exterior as denúncias deles podiam ser ouvidas, em razão da censura no Brasil), editado no Chile:



Lembro disso porque, meio século depois, na campanha eleitoral de 2022, o membro da família Bolsonaro que os paulistas se acostumaram a eleger como deputado federal se apropriou de "Roda viva", nada menos, para suas redes sociais, em postagem que pretendia que o Brasil estaria sob censura porque bolsonaristas estavam sendo processados!

Chico Buarque, um conhecido apoiador de Lula, processou o político. A magistrada Monica Ribeiro Teixeira inscreveu seu nome na longa história de conflito do Judiciário com os artistas brasileiros indeferindo o pedido sob o insólito pretexto de que não havia prova de que a canção de 1967 era de sua autoria

Vejam o compositor com o MPB-4 defendendo a canção no Festival da Record: https://www.youtube.com/watch?v=3ALZNNUQdYM. Ela ficou em terceiro lugar, depois de "Ponteio", de Edu Lobo e Capinan, a vencedora, e "Domingo no parque", de Gilberto Gil. Em quarto, "Alegria, alegria", de Caetano Veloso. Que ano para a música popular brasileira! Se o Judiciário tivesse memória... O próprio direito à memória encontra dificuldades no campo judicial, problema que já abordei aqui e alhures algumas vezes.

Proposta nova ação contra o deputado federal, o juiz Fernando Rocha Lovisi mandou que a postagem fosse retirada. Era dezembro de 2022, aquele filho do ainda ocupante da presidência já estava reeleito. O estrago que a postagem podia causar, no sentido de ganhos eleitoreiros para o violador dos direitos do compositor, já estava feito, porém.

Curiosamente, em agosto de 2023, o Judiciário reconheceu o abuso mas não determinou indenização para Chico Buarque, embora ele tivesse ganhado indenização em outro processo, contra o Bolsonaro que é senador pelo Rio de Janeiro, que usou sua imagem em postagem em redes sociais.

A ação judicial deve durar alguns anos e não deixa de mostrar que nem tanto mudou no estado mental de nossas autoridades, o que a volta explícita dos militares ao poder, ensejada pelo golpe de 2016, pareceu tristemente comprovar: eles continuaram os mesmos.

Felizmente, pode-se constatar algo semelhante em Chico Buarque: ao contrário de alguns de seus colegas, ele permaneceu fiel a si mesmo ao longo das décadas e nunca "estancou" ou "deixou de cumprir".


quinta-feira, 6 de julho de 2023

Desarquivando o Brasil CXCV: Zé Celso e os territórios do teatro e da liberdade

O homem de teatro morreu hoje, e o que posso dizer sobre ele é que, sempre que precisávamos de Zé Celso, José Celso Martinez Corrêa, ele estava lá.
Anos atrás, quando estava em São Paulo a maior ocupação urbana da América Latina, e ela estava sob ameaça de uma ação de reintegração de posse, Zé Celso apareceu para dar solidariedade. Fabio Weintraub fez o convite para ele se apresentar na Ocupação Prestes Maia e publicou fotos desse momento. O Oficina fez lá, em 20 de fevereiro de 2007, uma apresentação baseada em Canudos, com Zé Celso no papel de Antônio Conselheiro, na analogia entre a luta pela terra na peça e na luta pela moradia na cidade. No mesmo dia, o grande geógrafo Aziz Ab'Saber (um apoiador de primeira hora da ocupação e de sua biblioteca, organizada por Severino Manoel de Souza) falou sobre Canudos:

Naquele momento, pensei que a concepção de teatro de Zé Celso passava pela noção de territorialidade, o que lhe permitia participar de forma tão pertinente dos debates sobre o meio urbano e a habitação, e de compreender o tipo de espaço que é o Teatro Oficina - o que era mais uma razão para lutar por ele e pela obra de Lina Bo Bardi. A configuração do Oficina, com o palco como rua e o público naquelas arquibancadas, tantas vezes convocado a delas descer (e quantas vezes os artistas nelas sobem), parece-me acentuar o caráter político do teatro, não só pelos textos encenados, mas pelo próprio espaço da encenação, do rito.
Canudos, por sinal, foi um dos três maiores espetáculos que vi em teatro (salvo o teatro de ópera, que é outro gênero) na vida, e os outros dois não eram brasileiros.
Em outro momento em que pedimos ajuda a Zé Celso foi o lançamento em São Paulo de uma campanha que foi realizada nos idos de 5 de abril de 2014 em prol das terras e direitos indígenas, "Índio É Nós", terminaria com uma mesa com a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, a psicanalista e escritora Maria Rita Kehl e a demógrafa e antropóloga Marta Azevedo. Elas não precisam de apresentação, claro. Eu fiz a mediação.
Kehl teria feito a última fala: ela aproveitou para convidar para o lançamento do livro de memórias de Augusto Boal e aproveitou para "reverenciar" Zé Celso, que estava assistindo. Ele levantou-se e falou, de improviso, entre outras coisas, que "O Shakespeare fala de ser ou não ser, o que é maravilhoso. Mas o Oswald fala de tupy or not tupy no sentido do corpo indígena, que todos humanos têm muito".
Ele tinha 77 anos. Disse que passou a ver o terreno do teatro Oficina como tekohá, mencionou a concepção revolucionária de Lina Bo Bardi e o conflito com Sílvio Santos, e a razão de insistir na luta: "Não é para mim. Eu não podia deixar que [...] aquela terra fechasse".
Marcelo Zelic passou por trás de Zé Celso para falar com Maria Rita Kehl. Logo depois, Zé Celso fez outra surpresa e terminou a fala. Depois disso, chamei-o de "xamã do teatro brasileiro", lembre que, dia 19, faríamos a "Marcha para refundação da cidade de Piratininga" com o pessoal Teatro do Oficina e chamei David Karai Popygua (o mesmo que, nove anos depois, faria o duplo indígena de Peri na ópera O Guarani, de Carlos Gomes), que chamou para os atos do seu povo em 17 e 24 de abril.
Por causa da campanha, nós queríamos em São Paulo fazer um ato com os Guaranis do Jaraguá no 19 de abril e chamamos algumas companhias de teatro para participar. A única que aceitou foi a maior, a mais antiga e a mais jovem de todas com que falamos, o Oficina, por causa do comprometimento de Zé Celso com as causas indígenas. Se bem me lembro, foi ele que deu a ideia de que o ato fosse uma "refundação" da "cidade de Piratininga".
Saímos do Vão do MASP (depois eu leria um ficcionista contemporâneo escrevendo em nome próprio, fora dos livros, que "lugar de índio não é na Paulista"; os Guaranis já fizeram VÁRIOS atos lá), com Letícia Coura puxando com sua forte voz "Tupi or not Tupi" de Surubim Feliciano da Paixão, com uma estrofe nova escrita por Fabio Weintraub, que era um dos organizadores da campanha.
Descemos a Consolação, paramos no Cemitério para reverenciar Oswald de Andrade, fomos até o Parque Augusta, que estava sendo ameaçado de destruição pelo capital imobiliário. A mobilização para conservá-lo durou alguns anos e foi vitoriosa. Lembro de David identificando, dentro do Parque, árvores da Floresta Atlântica.
Boa parte do pessoal ficou lá, onde havia uma programação própria da campanha pelo Parque. Os que restaram seguiram até o Bexiga e o Oficina. João Baptista Lago fez um vídeo com Zé Celso e os outros artistas do Oficina: https://www.youtube.com/watch?v=9MAnqDrIIpM. A performance incluiu os Choros 10 de Villa-Lobos e cantos antropofágicos.
Zé Celso estava bem, cantou e dançou. Também nesse momento víamos sua adesão à causa indígena 
pela questão da luta territorial.
Em 2014, vi sua peça Walmor y Cacilda - O RoboGolpe. Cinquenta anos depois do golpe que derrubou João Goulart, ele via e encenava a atualidade do autoritarismo e a resistência da cultura. Escrevi uma nota naquela ocasião, destacando a questão das terras indígenas:

Zé Celso, sempre antenado com o presente, inclui os índios desde o início da peça. Para ele, e isso é explicitado no "poema primal" que lê perto do final da peça (levanta-se nesse momento; é impactante, pois estava em cadeira de rodas até então), o núcleo do golpe é o "direito absoluto de propriedade": em nome dele, e contra as reformas da base, foi dado o golpe, em nome dele os índios são espoliados de suas terras, e o próprio Oficina está sendo ameaçado (há décadas) pelo grupo de Silvio Santos.

Já no início da peça (no vídeo, depois dos 28 minutos), os atores declamaram "Sem reintegração de posse/ A terra é de Oxóssi". Contra os "assassinos da mata selvagem, nossa mãe geratriz".

Em 2017, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) autorizou que prosseguisse o processo de autorização da construção das torres do Sílvio Santos - um destombamento, de fato. Outro dia mesmo escrevi sobre OUTRO destombamento na região, o que parece que se tornou uma especialidade dos soi-disant órgãos de defesa do patrimônio em São Paulo.
Naquele ano, o Oficina estava remontando O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. Em 1967, Zé Celso foi o primeiro a montar essa peça. Como escrevi na época, tanto naquele momento quando na remontagem, com o próprio Renato Borghi voltando meio século depois ao papel de Abelardo I, Oswald era encenado depois de um golpe de Estado. Por causa de seu teatro, o Oficina foi considerado subversivo e foi destacado em panfleto do Ministério da Educação, o conhecido "Como eles agem". Segundo o documento, "é o teatro também utilizado como poderosa arma ideológica e de dissolução dos bons costumes"; mencionam-se os exemplos de O, Calcutá e Hair, e o Oficina como um dos grupos teatrais "acobertados sob o rótulo de 'Arte'", eles "movimentam-se no sentido de disseminar a ideologia comunista através de suas peças":





A peça referida é Na selva das cidades, de Brecht, que o grupo encenou com direção de Zé Celso já em 1969. O documento está no Arquivo Nacional.
A encenação, segundo artigo de Patricia Morales Bertucci, era crítica da ditadura justamente por meio da  apropriação dos materiais urbanos:

[...] foi uma intervenção no espaço simbólico do bairro do Bixiga, pois a arquiteta Lina Bo Bardi se apropriou dos objetos abandonados pelos antigos moradores dos cortiços desocupados pelo Estado, dos restos das demolições e do material de construção da Ligação Leste-Oeste no entorno do Teatro Oficina. Com isso, o grupo transformou a materialidade urbana em linguagem, o que considero como uma forma artística crítica de oposição simbólica da dominação do espaço pela ditadura

Tratava-se de restos produzidos pelas intervenções urbanas do prefeito nomeado pela ditadura, Paulo Maluf. É muito interessante que o Oficina tenha feito desses resíduos recusados do desenvolvimentismo um território de crítica e liberdade.
Na nota que escrevi em 2014, incluí alguns trechos de seu depoimento dado em uma das vezes em que foi preso pela ditadura, em 1978. Uma das prisões anteriores foi a de 1974, ano, como se sabe, da Revolução dos Cravos, que deu fim à ditadura salazarista em Portugal. Zé Celso foi para lá depois da prisão e, naquele país, teve suas atividades e declarações acompanhadas pelos serviços de informação, como soía acontecer com os exilados, banidos e pessoas consideradas perigosas para o regime que estavam no exterior.




Trata-se de um documento confidencial do Ministério da Aeronáutica de 6 de dezembro de 1974, guardado no acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP). Não verifiquei se a citação de Zé Celso no jornal português Diário de Lisboa está correta, mas é muito provável que esteja (deixo para algum eventual leitor eventualmente verificá-la). 

Afirmou ainda que, em PORTUGAL, "a liberdade está na rua" e que essa liberdade deve ser aproveitada para criar um Teatro novo, para se demonstrar "as condições que favorecem o fascismo". 

Um teatro como o Oficina, que faz da rua seu território, é capaz de nela soltar a liberdade para combater o fascismo, ainda um problema no Brasil. Imagino que a Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, com o viúvo Marcelo Drummond e os outros artistas, continuará a saber fazê-lo.


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Desarquivando o Brasil LXXXIV: Zé Celso, o RoboGolpe, a RoboCopa

Em abril, mês dos cinquenta anos do golpe de 1964, houve diversos eventos e atos sobre a efeméride. Vi apenas dois que me pareceram lamentáveis: o primeiro, palestra de um professor de filosofia de uma faculdade do interior de São Paulo que achava que Ministros do STF haviam sido cassados em 1964, que não sabia quando havia ocorrido o AI-5, e que pensava que na República de Platão tínhamos um grande modelo da nossa democracia.
Vi um Ministro do STF, Toffoli, em uma hora e quarenta minutos, gastar menos de cinco minutos com o tema da palestra e do seminário em que ela ocorria, que era o da ditadura militar, para explicar que não poderia julgar (tendo em vista a ética da magistratura!) se havia ocorrido um golpe ou uma "revolução" (tal é sua concepção de trabalho intelectual: uma função do poder político!), e que não abordaria o período porque certamente no seminário já se havia muito ouvido a respeito...
Pude assistir, no entanto, a eventos bem interessantes, o que mostra que ocorre de fato uma construção social da justiça de transição. Em termos artísticos, o que presenciei de mais impressionante, de longe, foi a peça Walmor y Cacilda 64 - O RoboGolpe, de José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, no Teatro Oficina. O espetáculo tem pouco mais de duas horas e meia (curto para os padrões do Oficina) e ficará em cartaz até 29 de junho: http://www.teatroficina.com.br/menus/45/posts/791
Várias apresentações estão disponíveis no canal da companhia. No entanto, nada se compara a experimentar o Oficina ao vivo dentro do seu próprio teatro, dançar e cantar com os artistas, e participar da celebração final. 
A peça, depois da recepção do público com música indígena (o que faz todo sentido nessa abordagem antropofágica da história brasileira, e aponta para o final da peça), inicia-se com os últimos dias de Getúlio Vargas. A tradicional família brasileira aparece, bem como o embaixador dos EUA, a FIESP e outros agentes do golpe, na conspiração contra João Goulart. Temos um desfile carnavalesco-antropofágico da história brasileira, até que irrompe o RoboGolpe, simultaneamente engraçado e terrível.
A apresentação, como ocorre no Oficina, inclui música, vídeo, poesia e dança, bem como diversas alusões ao teatro, especialmente Tennessee Williams (a iguana desse autor é personificada na peça) e, em razão do monólogo final de A Tempestade, Shakespeare. Zé Celso, no poema primal que apresenta perto do fim da peça, recusa a renúncia da magia, feita pelo personagem da última peça de Shakespeare, e decide unir Próspero a Eros.

A peça não tem como foco o Teatro Oficina dos anos 1960, embora ele (parte essencial da história do teatro brasileiro) seja nela referido; como se sabe, foi um dos grupos mais perseguidos pela ditadura militar, e Zé Celso teve que sair do Brasil. O centro é, novamente, Cacilda Becker (interpretada por Sylvia Prado), desta vez na sua forte atuação de resistência contra a ditadura que se iniciava.
A cena fulcral da peça é a ida da atriz com sua colega Maria Della Costa (por Juliane Elting) ao DOPS, comandado pelo Delegado Bonchristiano (há nomes que são destino - vejam esta entrevista que o torturador deu para a Agência Pública; interpreta-o Acauã Sol), para prestar declarações, pois Cleyde Iáconis (personagem de Letícia Coura) estava lá presa.
Essa militância teatral contra a repressão política, que se dirigia contra as ideias, os livros, as peças - era tipificada oficialmente como parte do que se convencionou chamar, na doutrina de segurança nacional, de guerra psicológica, isto é, de ações contra a ideologia e os valores do regime político.
Pode-se notar que o arrazoado autoritário não mudou tanto assim, da ditadura para cá. A Federação Anarquista Gaúcha, em 2013, foi invadida pela polícia e teve livros apreendidos. Há pouco, ativistas foram presos em Goiânia, numa antecipação do que se prepara para a Copa; eles tinham panfletos contra a Copa, o que comprovaria o que o juiz Oscar de Oliveira Sá Neto escreveu sobre "poder e ascensão intelectual dos incitadores de práticas criminosas sobre os participantes de movimentos de reivindicação, ou seja, a hierarquia dos autores intelectuais". A criminalização dos movimentos sociais passa, em geral, pela criminalização da inteligência.
Essa criminalização atinge a arte, mais diretamente a arte com propósitos críticos ou emancipatórios, o que sempre foi o caso do Teatro Oficina. Nessa outra época de perseguição aos movimentos sociais, a da ditadura militar, lembro de uma das prisões de Zé Celso, em 1974.
Ele estava trabalhando para finalizar o filme O Rei da Vela, a partir da peça de Oswald de Andrade, que ele havia montado pioneiramente em 1967. Essa prisão interrompeu os trabalhos e ele acabou indo para Portugal e ficou do país, executando vários projetos (inclusive um filme sobre a independência de Moçambique para a RTP, que tenho curiosidade de ver) até 1978.
O curioso e sucinto "relatório" assinado pelo delegado Magnotti em primeiro de julho de 1974, nos autos do inquérito contra o diretor de teatro e dramaturgo, a autoridade coatora é bem clara sobre a arbitrariedade cometida.  Mantenho os erros de concordância e de pontuação do original:
A prisão do indiciado ocorreu em virtude de ter sido encontrado em sua residência, livros que fazem apologia do comunismo, livros esse estrangeiros e que deram entrada no país através do próprio indiciado.

Essa prisão de 1974 foi logo noticiada, o que gerou clamor que ultrapassou a chamada "classe teatral" e causou a irritação das autoridades policiais, que preferiam trabalhar na obscuridade, ambiente mais propício para a ilegalidade.
Veja-se, no documento ao lado, a insatisfação daquele mesmo delegado com a notícia da prisão. A publicidade sempre atrapalhava as práticas ilegais e oficializadas de tortura e desaparecimentos forçados, ou seja, o que é caracterizado no eufemismo "os serviços de investigação de interesse da segurança nacional".
Voltando à peça, sem nunca ter saído de seu assunto, destaco a total pertinência em RoboGolpe de representar carnavalescamente o golpe por uma máquina policial. O governo do Estado do Rio de Janeiro, assumindo o  seu ridículo autoritário, de fato robocopizou sua polícia: https://twitter.com/elizondogabriel/status/468807263940255744
Essa é a RoboCopa, marca dos dias de hoje, em que até palavras cotidianas da língua viraram propriedade intelectual da FIFA.
No passado recente, na época do RoboGolpe, a cultura era uma das matérias preferidas da polícia. Na peça, temos um antológico confronto dos personagens de Cacilda Becker e Maria Della Costa com o delegado, no fim do qual elas obtêm a abertura dos teatros.
Mateus Araújo, em crítica da peça, destaca que ela faz referência aos protestos contra a Copa do Mundo. Com efeito, Zé Celso sempre dialoga com as questões do presente. Se ele fosse voltar a Hamlet hoje, certamente a Copa estaria entre as coisas podres do reino da Dinamarca. Por vezes, os paralelos são gritantes, na medida em que as forças reacionárias de hoje evocam o passado ditatorial. Vejam o que o Oficina faz com as Marchas da Família (as de ontem e as de hoje) e suas músicas a partir dos 58 minutos: https://www.youtube.com/watch?v=kqJHVXqJurE


Zé Celso não escreveu uma peça sobre sua própria trajetória nesses anos, e não sei se isso lhe interessa. Se o fizesse, estaria cheia de momentos robogólpicos. Em 1978, Zé Celso voltou ao Brasil e teve que retornar ao DOPS/SP para que esclarecesse o que havia feito no exterior.
Entre outras informações, queriam saber com que artistas mantivera contato no estrangeiro, e lhe perguntaram se eles faziam campanha contra o Brasil (novamente, a tal da guerra psicológica, que visaria atingir a imagem do país).
É curioso ver como as autoridades policiais, de fato, estavam completamente afastadas desses aspectos da cultura brasileira (que eles, não por acaso, reprimiam) e não foram capazes de escrever corretamente nem o nome de Augusto Boal.
A resposta de Zé Celso foi brilhante: "Não vi campanha contra o Brasil, esses artistas ao contrário à [sic] imagem mais linda que o Brasil pode mostrar."
Hoje, além do Teatro Oficina, os que estão criando uma bela imagem do Brasil, por meio de sua ação política, são pessoas como Sonia Guajajara, da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), na Mobilização Nacional Indígena. Em Brasília, ontem, essa Mobilização foi atacada, fazendo o Estado sujar ainda mais a imagem do nosso país. Vejam as fotos:

Montagem de Rugendas com foto de Lunaé Parracho: https://twitter.com/joaofellet/status/471719961275404288
No El País: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/05/28/politica/1401233708_863738.html
Na Servindi: http://servindi.org/actualidad/105914
Há mais! https://www.facebook.com/idelber.avelar/posts/10152253495382713

Zé Celso, sempre antenado com o presente, inclui os índios desde o início da peça. Para ele, e isso é explicitado no "poema primal" que lê perto do final da peça (levanta-se nesse momento; é impactante, pois estava em cadeira de rodas até então), o núcleo do golpe é o "direito absoluto de propriedade": em nome dele, e contra as reformas da base, foi dado o golpe, em nome dele os índios são espoliados de suas terras, e o próprio Oficina está sendo ameaçado (há décadas) pelo grupo de Silvio Santos.
Já no início da peça (no vídeo, depois dos 28 minutos), os atores declamaram "Sem reintegração de posse/ A terra é de Oxóssi". Contra os "assassinos da mata selvagem, nossa mãe geratriz".
Zé Celso, o Prosperos, movido pelo Eros do teatro, conduz a peça à celebração final: o público com os autores saem para abraçar o Oficina cantando a música que Surubim Feliciano da Paixão compôs para O Rei da Vela, "Tupi or not Tupi":  http://www.teatroficina.com.br/headlines/12. Ela pode ser ouvida na Rádio Oficina: http://www.teatroficina.com.br/radio_uzonas
Isso me tocou especialmente, tendo em vista a conjuntura, como os governos reforçaram as forças da especulação imobiliária com os grandes eventos esportivos; no 19 de abril deste ano, dia da passeata Índio é nós em São Paulo, o único grupo de teatro que participou foi exatamente o Oficina, e foi genial: os artistas animaram a caminhada com cantos antropofágicos e o "Tupi or not Tupi", que recebeu mais uma estrofe, escrita especialmente para a ocasião por Fabio Weintraub: "Que nós é índio/ na cidade ou na floresta/ que demarquem nossas terras/ é o que vamos exigir." Letícia Coura, com sua potente voz, tocou (com outros músicos do Oficina) e puxou o coro por quatro horas.
Na plataforma Índio é nós ainda não se escreveu um texto sobre esse dia, mas podemos ver que Zé Celso assistiu ao lançamento da campanha e ainda se pronunciou, inesperadamente, nela, a partir da fala de Maria Rita Kehl: http://www.indio-eh-nos.eco.br/2014/05/03/os-videos-do-lancamento-paulista-de-indio-e-nos/
No dia 19, a passeata terminou no Oficina, e nele se cantaram o Choros 10 de Villa-Lobos e a música de Surubim Feliciano da Paixão, abraçando a terra do Teatro Oficina, um tekoha do teatro e de São Paulo. Zé Celso revelou que tinha acabado de receber uma ação de reintegração de posse do Grupo Silvio Santos. Falei-lhe que os índios Guarani da Terra Indígena do Jaraguá também haviam, fazia poucos dias, sido citados por causa de uma ação do mesmo tipo.
Trata-se da questão oswaldiana da posse contra a propriedade, tão urgente mas tão pouco estudada nesses termos antropofágicos (Alexandre Nodari é uma exceção). Creio que a academia, ao menos no Direito (que é a que conheço melhor), não está à altura de espetáculos como este, que conseguem operar essas sínteses entre o passado e o presente, na relação entre o Golpe e a Copa, e de ações como da Mobilização Nacional Indígena com os sem-teto, ambos alvo da repressão robocópica:  http://mobilizacaonacionalindigena.wordpress.com/2014/05/28/comite-popular-da-copa-e-mobilizacao-nacional-indigena-denunciam-violencia-policial/.

P.S.: RoboGolpe e RoboCopa, por alguma razão que me escapa, evocam-me a ideia de roubo... E não é que a filha e neta de nomes poderosos das forças RoboCópicas disse que o que havia para ser roubado já o foi? Vejo nisso mais uma confirmação do gênio de Zé Celso, uma das "antenas da raça", e também uma estratégia de despistamento feita por essas forças. A questão é mesmo a grande política, como Elaine Tavares escreveu: "a Copa é um assunto político. E o governo está fazendo política com a Copa, exatamente como os trabalhadores, os sem-teto, os indígenas. Todos estão a fazer política. Então, é preciso que a opinião pública saiba disso, e desde aí, do conhecimento, se posicione. O que não dá é para jogar um manto protetor sobre a Copa, como se fosse apenas uma linda e alegre festa popular, a qual alguns “malfeitores” estão querendo estragar." (http://eteia.blogspot.com.br/2014/05/a-copa-e-espaco-da-politica.html)

P.S. 2: Acabo de ver que foi publicado um vídeo de João Baptista Lago, filmado no Teatro Oficina no dia 19 de abril: https://www.youtube.com/watch?v=9MAnqDrIIpM

P.S. 3: O vídeo do grande sucesso #DesarquivandoBr e #NaoVaiTerCopa do Oficina, "Axé do Robocop (RoboGolpe RoboCopa)", pode ser visto aqui: https://www.youtube.com/watch?v=_a75ZaOCSNM