O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

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sábado, 14 de janeiro de 2017

Poesia e cegueira: o road movie de Alexandre Rodrigues da Costa

No livro Objetos difíceis (Rio de Janeiro: 7Letras; Juiz de Fora: Funalfa, 2004), que venceu o prêmio Cidade de Juiz de Fora em 2003, li pela primeira vez a poesia de Alexandre Rodrigues da Costa (Belo Horizonte, 1972). Não gostei tanto assim dos poemas, e perdi esse autor de vista até o ano passado, quando descobri em uma livraria do Rio de Janeiro Como assistir a um road movie em pé (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2016), que me fez procurar suas outras obras.
Os poemas adotam os motivos da ferida, do olhar (e o olhar ferido), do sangue, da mutilação, encenações incompletas de crimes contra a vida e, às vezes, é referido ou interpelado algum sujeito feminino, ou o que restou dele. Não são incomuns as referências a outras artes; um de seus títulos, por sinal, é Bela Lugosi no ateliê de Kandinski (7Letras, 2013). Em seu último livro, o cinema recebe mais alusões.
Essa poética pareceu-me firmar-se a partir do livro de 2005, fora-de-quadro, publicado pela 7 Letras, aberto com o poema "Ut pictura poesis": "como nos diz/ o filósofo, "pegue o olho/ de uma pessoa/ qualquer,/ morta há pouco/ tempo,/ corte,/ com habilidade,/ em direção/ ao fundo,/ as três partes/ que o envolvem,/ feito isso,/ olhe para/ a película branca/ à sua frente,/ e veja,/ não talvez/ sem admiração/ e prazer,/ uma pintura/ que representará/ em perspectiva/ todos os objetos/ de fora",".
Não sei que filósofo seria esse, ignoro se o trecho se trata de invenção ou de resgate feito por Alexandre Rodrigues da Costa. De qualquer forma, é um achado do autor, pois ele bem descreve uma poética. Nesta entrevista dada a Rodrigo Guimarães, em 2008, ele afirma "trabalho com as palavras como uma espécie de rasura do olhar", e explica: "Essa rasura do olhar seria um pouco parecido com o que Francis Bacon faz em suas telas, nas quais os corpos, as faces, se tornam imagens precárias, cujos limites estão prestes se dissolverem no próprio cenário que as compõem"; "Queria que a página fosse uma ferida e que todo o livro fosse como um corpo mutilado, fragmentado.".
Em Bela Lugosi no ateliê de Kandinski, encontramos este "Exigências mínimas", que incluem a ferida e a cegueira:
Se nos
colocássemos
em uma história,
não
saberíamos
como perder
as mãos.
Devemos,
assim, expor
a superfície
ao corte,
deixar que
a lâmina
caminhe sobre
o silêncio
e atravesse
nossos olhos?
Trata-se de "a face atravessada/ por sua própria sombra" ("Lâminas", de Peso morto, publicado pela 7Letras em 2008). Cortam-se e silenciam-se a história e o referente; é muito curioso como este autor consegue aludir a possibilidades de história sem nunca, realmente, contá-las. Os olhos são cortados para que se possa examinar o próprio olhar - qualquer outra possibilidade, aparentemente, seria dolorosa demais.
No fim de "Noite plana", poema do livro A mímica invertida dos desaparecidos (7 Letras, 2014), vemos explicitada esta relação entre cegueira e anestesia:
Calma,
mais um pouco
e ficaremos cegos,
então marcaremos com sinais
coisas que não
compreendemos,
coisas que nem ao menos
servem para sofrer.
A impressão de que toda esta poesia se passa pós-trauma, e de que não ficaremos sabendo da origem do problema, qual seria a catástrofe original, expressa-se no enloquecimento do olhar e da anatomia, em imagens impressionantes como a do início de "À deriva", de Corpos cegos (7Letras, 2012):
o olho enterrado
na carne,
tão próximo da noite
quanto o silêncio da loucura.
A mutilação e o enlouquecimento da anatomia parecem-me meios de alcançar, nesta poesia, o informe, assim como a obnubilação do referente. O livro Como assistir a um road movie em pé oferece-nos diversas realizações desse ideal; cito o começo de "Janelas sem vidros lançam um terrível reflexo":
Sem ir ao extremo de dizer que a realidade,
neste quarto, também era uma forma
de mutilar nossos corpos,
E isso talvez seja o mais próximo de um poema de amor no livro. Em outro texto teórico, "Ponto de laceração: a morte como desarticulação nos poemas de Ana Cristina Cesar e Orides Fontela", o poeta (que é professor  na Universidade do Estado de Minas Gerais) estudou o "poema como objeto sacrificial e encenação da morte" em Orides Fontela e a encenação da morte do sujeito em Ana Cristina Cesar.
É curioso que seus interesses teóricos encontrem correlato tão forte em sua poesia. Um dos melhores poemas do seu último livro chama-se nada menos "Aruspicação", e corresponde a uma fala, claro, dos adivinhos que leem vísceras. Eles tentam justificar-se:
Se há integridade naquilo
que fazemos?
Mas claro que há.
Não andamos
sobre sepulturas à toa.
Usamos diagramas, tabelas,
gráficos, e calculamos,
no fundo de nossos
corpos, quanto de vísceras
precisaremos para nos amarrarmos
uns aos outros,
para que, no escuro,
não batamos nas paredes.
Temos aí uma bela imagem para o que significa a tradição poética? Os poetas, mais ou menos mortos, amarrando-se com vísceras para não bater nas paredes, em vez de derrubá-las? Aberto com o verso "Não há assassino entre nós", um gesto de denegação, o poema termina desesperançado:
Não estamos mortos.
Apenas pensamos
como mortos,
agimos como mortos,
na esperança de que não haja
assassinos entre nós.
Bataille é uma das referências teóricas importantes para Alexandre Rodrigues da Costa, que nele destaca a insistência no corpo dilacerado para abrir-se sacrificalmente ao "ilimitado". Cito, do poeta, Acidentes de leitura:
Se a imagem se torna insuficiente, é porque ela foi dilacerada, exposta a esse erro que lhe corta as amarras com o reconhecível e a deixa tão vulnerável quanto pode ser em sua origem. O glitch possibilita, dessa maneira, resgatar o corpo a partir de uma multiplicidade negativa, pois cada fragmento de imagem, combinado com outros, de forma aleatória, se apaga em sua origem, mesclado aos reflexos que deixa e às sombras que projeta. A partir dessa perspectiva, o corpo se abre ao ilimitado como se fosse o da vítima em um ritual sacrificial.
Creio que, nesta poesia, a impressão deixada é a do indefinido, mais do que a do ilimitado. O sacrifício está presente em vários dos poemas, como "A sobrevivência dos mortos", com uma alegria que se compraz na morbidez:
Parece que estão
sempre atrás de nós,
com o chicote nas mãos
prestes a nos cortar
a carne com a alegria
típica dos anjos.
O trauma nunca explicitado e, por isso, ainda mais forte, encontra a imagem de uma fratura original em "Weltinnenraum", nome do espaço íntimo do mundo segundo Rilke; nesta poesia, no entanto, é um osso fraturado de um morto, trazido desde a infância:
Finge olhar o que
de perto morre,
acaricia, com medo,
a parte oculta,
o osso quebrado
que as larvas não alcançam.
"Um dois, três."
"É ali", diz a criança,
"que meu brinquedo
se esconde."
O clima aqui é completamente diverso do de "Tarde de maio", de Carlos Drummond de Andrade, que celebremente começa "Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos/ assim te levo comigo, tarde de maio", apesar da referência drummondiana a "disjecta membra". Na fratura original do poema de Alexandre Rodrigues da Costa, temos a promessa da loucura: "A vida, alguém comenta,/ perde a razão.", escreve em um dos melhores poemas do livro, "Medo":
Com o mar aprisionado
pelos ossos,
vejo o deserto onde,
à luz vacilante da saliva,
ela gargalha.
O vidro se quebra.
Antes que as mãos sangrem
cubro o medo
com a noite,
com o que resta das palavras.
Mergulho a face
entre as lâminas,
sem me importar se ela
cuidará das feridas.
Feridas, cortes, facas, chicotes. "A pele da lâmina" parece combinar Cabral e Gullar:
Com a faca dentro da carne,
como não sentir o cheiro
das frutas podres a impregnar a casa,
No entanto, não temos no poema nem o impulso metalinguístico de Cabral nem a celebração da vida que fervilha no apodrecimento, tão típica de Gullar. Alexandre Rodrigues da Costa realiza outra coisa, um elogio do informe, que ele encontra em Bataille e exalta. No artigo "Corpos lacerados: o sacrifício da palavra na obra poética de Georges Bataille", esta passagem serve, penso, para entender sua própria poesia:
O informe assinala, portanto, a desistência de dominar a matéria. Mas para que se vá ao encontro dessa matéria informe, é necessário abraçar os caminhos da transgressão. E para que a transgressão ocorra, a contradição deve ser percebida como a afirmação daquilo que é profano, ou seja, a nossa própria existência. No instante em que o pensamento se volta para o dualismo, não há espaço para conciliação ou redenção, mas para o fracasso. Por isso, pensar e conceber o poema sob os desígnios do informe deixa, na página, como se fosse ferida, uma palavra sempre aberta, fundada no descontínuo, no fragmentário. O desconhecido, aquilo que não tem resposta, passa a dominar a linguagem e o que se estabelece é uma tensão não resolvida entre nascimento e morte, entre o transitório e o permanente. Longe de uma síntese, o informe abraça simultaneamente os dois termos, sem que haja uma conclusão, um fim.
Diferente de Bataille, esta poesia não tem como marca o erotismo. Este lugar da transgressão não lhe é importante. Em "A dissecação e a reconstrução de Marilyn Monroe - parte 3", o foco é o "medo inalcançável", e não o apelo erótico da artista.
Há algum road movie nesta poesia que, ironicamente, tem na cegueira autoinfligida seu modo de produção? Encontramos ironia a respeito dos produtos industriais de Hollywood:
Os mortos não são como antes,
há muito seus gestos
tornaram-se calculados
e hoje, dizem, atuam
em filmes hollywoodianos.
O trecho vem do poema que recebe o título do livro. O último poema, "O corte preciso", insinua uma história, mas foge da narratividade; poderia ser um filme de Godard, não uma produção de Hollywood:
O corpo perdido em si mesmo
se mescla ao choro daqueles que não
podem vê-lo,
aos jornais despedaçados sobre a mesa,
às cenas que jamais explicam
o que virá em seguida.
Não se sabe quando a mataram,
depositaram, sob a água,
nada além de dias mais longos.
Nesta poesia, o corte pode ser tanto a forma de assassinato do corpo, ou o recurso cinematográfico. Essa ambiguidade é fundamental para este autor, que não quererá distinguir entre poética e crime, poética e morte, na bela imagem da falta, com que o livro se encerra: "nada além de dias mais longos".