O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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domingo, 7 de junho de 2026

"O fascista em comunidade com as pulgas"

Para meu amigo Eduardo



I

O fascista em comunidade com as pulgas:
comunhão de apetites.

O internacionalismo fascista 
ou a hemorragia viaja no mesmo sentido
para fora dos corpos
na diplomacia da bomba.

Feixes unidos por amor ao sangue:
empilhados, formam uma cratera
que se eleva até a tempestade.

A identidade fascista ou o espelho, 
na mão direita ou na esquerda,
revelando a cara da mercadoria.

Os fascistas têm fé em deus assim como as pulgas acreditam no calor
e abandonam os corpos mortos.

Ao contrário das pulgas, quando eles saltam, é para cair.

Ao contrário de muitas pulgas, os fascistas
são muito específicos em relação às raças que sugam.

Dizem que existiu poesia fascista,
porém ela foi esquecida
na programação da alucinação artificial,
que substituiu a imbecilidade natural.

Os fascistas querem a política no estilo das pulgas.
Elas também vivem do sangue alheio,
contudo, são mais inteligentes
e sabem que o inseticida é mais político do que elas.


II

A quantidade de fascistas (tipicamente larvas ou pupas) que chegam à maturidade é muito pequena quando comparada â grande quantidade de hospedeiros que eles parasitam. Populações de fascistas apenas sobrevivem em razão da capacidade publicitária e da lucrativa relação com o ambiente que destroem. Contudo, se os desastres ambientais forem favoráveis, mais fascistas chegarão à idade adulta. Uma infestação poderá ocorrer com as doenças de que são vetores e o canibalismo tipico dessas espécies introduzidas.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Réquiem e país

Não cantaste nem tocaste,
não regeste nem produziste,
tampouco partiste a maçã
ou derrubaste o café
ou fechaste a porta
sobre o réquiem.

Porém o que não cantaste vinha de tua voz,
o que não poderias escrever
nascia de tua mão

porque ela se tornava
a maçã partida
quando as portas se fecharam
e o café foi derramado
pelo dia que não mais nasceria.

Não regeste,
porém teu gesto
apoderou-se de todo o réquiem
quando tuas mãos caíram
tomadas pelo mundo.

Agora, tu mesmo
tão inacabado
quanto a música.


II

Num país melhor
terias sobrevivido.

Réquiem também para o país
sempre inacabado
enquanto não deixar viver.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Metano bovino na cabeça

 




I

Metano bovino na cabeça,
Jesus na conta do banco,
um soldador na mão
e ele se convenceu:
seria presidente de novo.

O latifúndio colhera
metano bovino no banco,
Jesus ligado na tomada 
eletrocutara a democracia,
o soldador na cabeça 
incendiara as ideias
e ele se convenceu:
era presidente de novo.

Sua tornozeleira chutaria longe
as cabeças cortadas da democracia
se conseguisse levantar as pernas
sem o metano ter enxaqueca.

"Nunca deixei de ser presidente,
a lama continua sendo curral."

Acordou para a troca de fralda.


II

A tornozeleira eletrônica 
e o eletroencefalograma da fuga.

De madrugada, ele queria escapulir.

De manhã, pela madrugada ele só teve curiosidade.

No dia seguinte, ele ontem ouviu vozes.

Dois dias depois, na antevéspera se medicara.

Forma branda de alienação,
vozes na tornozeleira sussurraram
que ainda era presidente.

Quatro anos antes,
espécie genocida de alienação,
milhões de sussurros gritaram
que ele era presidente.

Agora
liberais rugem
projetos de anistia premonitória 
para crimes de lesa-humanidade 
porque ensurdeceram
e o único ruído que recordam
são os arrotos 
de que ele voltará a ser presidente.


III

Cascas de camarão entupindo
tumores intestinais, esposa e filhos 
competindo pela diverticulite
institucional, a inflamação do país
ou o regime da política 
disputando a digestão do atraso.

Nada disso mais o tocava.

Dentro da cela,
finalmente estava cercado 
apenas de si mesmo.


sexta-feira, 14 de março de 2025

"Caem árvores,/ porém não/ o prefeito"


Caem árvores,
porém não
o prefeito;

assim crescem
os mil ramos
do deserto

e dão sombra
ao desastre
reeleito.

Mil enchentes,
mas a sede
do prefeito

quer sugar
maremotos
no deserto,

águas-vivas
calcinando o
próprio leito.

Rios queimam
na saliva
do prefeito

quando brinda
com as chuvas
ao deserto

que respinga
das mil taças
no seu peito.

Caem árvores,
mas nenhuma
no prefeito

que por onde
ele passa
é o deserto

ou a terra
prometida
aos insetos.

Na madeira
devastada
sopra o vento

que a carrega,
que empilha
os gravetos

numa ponte
para o nada.
O prefeito

a atravessa
e o pedágio
do trajeto

a cidade
paga-o em juros,
dividendos

ao mercado
nu com in-
vestimentos,

Crescerão
as sementes
se o dinheiro

vende enchentes
e especula
com os pleitos

nos gestores
do deserto?



domingo, 19 de janeiro de 2025

Canto e êxodo

Ao Moacyr


I

O sangue doado a ti,
mas o teu coração
interrompido.
O sangue deixou
de correr, porém
a doação segue.

O sangue doado a ti 
derramou-se
perdido e reencontrado
como tu mesmo
circulas agora
nas veias do mundo.

Doa-se o sangue
da mesma forma
como se canta;
cantavas, isto é,
ofertavas-te inteiro 
às veias do silêncio.

O sangue circula
como o canto ressoa
no coração dos ares:
não se ouve mais,
porém segue, esperando
habitar a distância.


II

Na última mensagem
falaste de êxodo e sucesso
na passagem de ano.

Parecia engano, era uma promessa.


terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Adília


I

É preciso ser muito idiota
ou muito poeta
para afirmar que a poesia é o amor;

(a poesia, evidentemente, é o amor
e o ódio também o é;
quando combinamos os dois
o prato ainda não resulta na poesia)

é preciso ser muito louco
ou muito poeta
para aconselhar alguém a escrever poesia;

(é óbvio que a loucura escreve
tanto quanto a poesia,
mas se juntamos as duas
não temos ainda o poeta)

mencionar estrelas no poema é o cúmulo,
nem os astrólogos o fazem,
ocupados que estão com a indústria do entretenimento
e as eleições nas grandes potências;

(sabe-se desde as cavernas
que tanto as sombras quanto os versos
vêm da nostalgia das estrelas)


II

Talvez escrever poesia seja apenas perder a gata
e ganhar as garras
o cio
o salto
sobre a presa mínima


III

A poeta morreu antes do fim do ano,
deixou a Física antes do fim do curso,
esqueceu os planos ao sair à rua,
queimou os projetos antes de pegar os fósforos,
não sabia qual era a frente
onde trocaria de lugar com o carro e os bois,
não chegou a terminar a viagem
e a troca de lugares
e porque recusou tanto o fim
podemos nela recomeçar.


IV

Ao verso final
da obra reunida
chama-se morte;

pode-se dizer
o mesmo
do inicial.

Ao verso final
da obra reunida
chama-se golpe,

aquele que acerta
o plexo solar
e dobra o corpo

em mil estrelas;
diga o mesmo
sobre as estrelas.


V

Se tivesse sido um homem
que desinteressante teria sido.

É o que se diz quando se vê um homem poeta:
quão mais interessante seria
se fosse uma mulher.


VI

os livros, ou seja, a carne,
o osso e mais algo
que abraça ou fere
como os poemas;

os livros, ou seja, terra,
ares e águas e mais outra coisa
para meios de transporte
como os poemas;

os livros, ou seja, o abraço,
a ferida e o transporte
que juntos
não compõem aquilo
que os poemas
tampouco logram.


VII

Sabemos que morreu uma poeta
porque os jornalistas não sabem o que dizer
e os influencers não dizem nada,
embora especialistas em tanto dizer
sobre o que ignoram por completo.

Sabemos que morreu uma poeta
porque pararam de lhe perguntar
suas influências, seus amores,
desistiram de saber o conceito
e a finalidade da poesia,

embora ela inteira se manifeste
na morte da poeta,
compartilhando entre nós
o ser e o não-ser.


VIII

Tenho dois gatos: o Breu e a Brilho. O preto puxa o papel higiênico e o desfaz em tiras antes de saltar para as alturas do box; a frajola observa tudo ao lado do tapete do banheiro. 
Breu nas alturas, Brilho ao rés do chão.
Aprende-se muito sobre poética quando se vive com gatos.


IX

Às vezes você escrevia como as crianças.
Quem não gosta de poesia não tem desculpa alguma.


X

A poeta morre,
editores que nunca a publicaram 
desdenham do cadáver
que jamais verão.

Lembro do orgulho de Vitor,
dizer que foi o primeiro editor da poeta.

Também foi o meu,
mas essa é a única coisa em comum
que tive com a poeta

além do fato
de que estamos sempre a terminar.


XI

Declamações nas aulas de português, ou
lições caladas sobre Portugal,
essenciais para aprender
que para os fascistas somos cães de rua
e aos habitantes da rua
eles enforcam.


XII

Quando os poetas não se internam
ou saem da internação, o que fazem?
Derrubam asilos? Arrombam
suas portas? Abrem o poema

para o leitor entrar se quiser
talvez ele não tenha outro refúgio
para pensar ou espreguiçar-se ou cantar
e para ouvir os cães do lado de fora
e poder chamá-los para dentro se quiser
e saírem juntos quando lhe apetecerem
e morderem juntos
se atacados
depois de terem entrado no poema.

Há os poetas que constroem os asilos,
mas esses não entram
em minhas categorias poéticas.


XIII

Ignoro se gostam mais da sua obra em Portugal, em Angola, em Moçambique, no Brasil ou alhures.
O lugar onde apreciam sua obra certamente torna-se alhures.


XIV

Por outro lado, nunca sabemos quando nascem poetas.


sábado, 21 de setembro de 2024

Teoria jurídica do exorcismo ou ufologia intestinal

 

A Justiça condenou cientistas que desmentiram que os vermes fossem transmitidos por ETs.

Maurina morreu porque os vermes bloquearam seu intestino por ela ter trocado o tratamento médico pelo exorcismo de ETs.

Os exorcistas de ETs ganharam indenização milionária pela angústia e pelas lágrimas derramadas após terem sido denunciados por cientistas.

Milhares de pacotes de exorcismo foram vendidos depois da notícia de que a Justiça condenou cientistas que desmentiram que os vermes fossem transmitidos por ETs.


Os cientistas que desmentiram os vermes foram condenados pela Justiça e transmitidos para os ETs.

Maurina morreu porque seu intestino foi contrário aos vermes que bloquearam os cientistas.

Os exorcistas de ETs denunciaram que a indenização gerou angústia e lágrimas porque os cientistas morreram no cárcere sem pagar nada.

Milhares de pacotes de Justiça foram vendidos depois da notícia de que os exorcistas condenaram cientistas que desmentiram que os ETs fossem transmitidos por vermes.


Os ETs condenaram cientistas que provaram que a Justiça era transmitida por vermes.

Maurina morreu porque a Justiça bloqueou seu intestino quando ela abandonou o tratamento médico pelos cultos religiosos interplanetários.

A Justiça ganhou indenização milionária dos cientistas pela angústia e pelas lágrimas que derramou em solidariedade aos ETs e exorcistas.

Milhares de pacotes de vermes foram vendidos depois da notícia de que os ETs condenaram cientistas que desmentiram que a Justiça fosse transmitida por exorcistas.


Os vermes condenaram cientistas que desmentiram que o Sol girasse em torno da Justiça e dos ETs.

Maurina morreu porque exorcistas e vermes bloquearam a translação da Terra em torno do Sol.

Os exorcistas de ETs decretaram a paralisia da Terra diante do Sol e ganharam dos cientistas uma indenização milionária na Justiça.

Milhares de pacotes de viagem ao Sol foram vendidos depois que os cientistas abandonaram a profissão porque as verbas dos magistrados são avistadas além da Terra.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Deu Fim

O ângulo de noventa graus

do pau de arara com a parede

assegura o dez por cento

de crescimento do PIB.


A precipitação de duzentos metros

de napalm nas aldeias

assegura o dez por cento

das fardas no garimpo.


-- Nunca falei em bolos. Confundiram com a palavra balas. Elas se multiplicam sobre vocês.


Dois milhões de francos 

para grampos e alicates 

assegura o dez por cento

das malas diplomáticas.


Menos vinte volts

para a cadeira do dragão 

assegura dez por cento

do valor dos fornos crematórios.


-- A ciência provou que o coração bate um milhão e quatrocentas mil e tantas vezes. Depois disso, paralisa-se. Por isso a ginástica acelera a morte, quase como se fosse um economista.


Trinta por cento de fraude

no índice de preços

assegura dez por cento

dos votos no partido governista.


A economia de seis azeitonas

nos jantares empresariais

assegura dez por cento

a mais de desaparecimentos forçados.


-- Se tiverem fome, terão que migrar. Aceitarão até trabalho sem salário e os empresários poderão investir mais. A Economia lida com recursos finitos. Acabar com a fome não tem fundamento científico. Passe o caviar, por favor.


A duplicação de algemas

nas eleições de sindicatos

assegura dez por cento 

dos canapés das multinacionais,


assim como a triplicação 

de granadas na dívida externa

assegura dez por cento

da erudição do economista.


-- O povo deixou de me eleger. Mas jornalistas, políticos da esquerda, professores e editores escolheram-me seu representante perpétuo. A democracia funciona.


A quintuplicação dos ais

assegura há cinquenta e cinco anos

cem por cento do chicote

sobre as domésticas e outros animais.


 -- A democracia funciona.


segunda-feira, 15 de julho de 2024

Subterrâneo do anjo e aniversário de Walter Benjamin

Como 15 de julho é dia de aniversário do filósofo Walter Benjamin (nascido em Berlim, 15 de julho de 1892; suicidado pelos nazistas em Portbou, 27 de setembro de 1940), vou  deixar aqui este poema que escrevi a partir da famosa Tese IX sobre o conceito de história.

Conto por que decidi finalmente abordar o tema, depois de pensar nele por muito anos. Gustavo Silveira Ribeiro me pediu um poema em 2022 para o terceiro número da revista Ouriço com o tema  de "poesia e história". A ideia realmente óbvia que eu tinha era partir de Benjamin, que escreveu tanto sobre poesia quanto sobre história e percebeu a necessidade de entender a história por meio dos poetas, especialmente, mas não exclusivamente, nos seus estudos sobre Baudelaire e Paris.

Ademais, Benjamin escrevia poeticamente, digamos assim, porque evidentemente refletia por meio de imagens. Comprova-o, entre outros textos, a Tese IX, com sua referência ao quadro de Paul Klee (aproveito e deixo aqui a referência a vídeos de Eduardo Sterzi para a revista FronteiraZ sobre poesia e imagem: https://www.youtube.com/watch?v=Qoa1RgwRfHM).



Eu guardei esse motivo do conceito de história por muitos anos em algum escaninho mental, adiando até o o momento em que me sentisse preparado, o que evidentemente jamais aconteceria. Resolvi finalmente enfrentá-lo com o pretexto da encomenda, que enviei no fim de 2022. Continuo com esse motivo; o "Subterrâneo do anjo" foi apenas o primeiro movimento.

Vejam os autores incluídos na revista, lançada em 2024 com o tema, finalmente alterado, da imaginação. Apesar de eu ter tratado de outras coisas, relativas à encomenda original, os editores tiveram a delicadeza de incluir meu poeminha. O próprio Walter Benjamin, que escreveu também sobre imaginação, está lá, por sinal. 

Essa é uma revista que tem muita procura (seus números esgotam, o que não acontece sempre com os periódicos de poesia), mas ainda está disponível para venda. Como o meu poema saiu lá com a formatação errada, deixo-o aqui também.



Subterrâneo do anjo


Pádua Fernandes





I


Na primeira vez em que fui assassinado pela polícia nacional,

a câmara de gás era portátil,

cabia no porta-malas da viatura.

Na primeira vez em que fui cremado pela polícia nacional,

dispensaram a viatura,

o campo de concentração era o meio de transporte para o país.

Na primeira vez em que a polícia nacional dispersou minhas cinzas,

o hasteamento da bandeira dispensou campos de concentração.

Na primeira vez em que a polícia nacional se cobriu de cinzas

a gentil brisa nascida do despir das togas

antes da sauna vespertina

removeu das fardas o pó.


– O poema mente: os editais para a construção de campos de concentração seguiram quase todas as regras, as empresas agroexportadoras em consórcio com os bancos de investimento venceram a concorrência.

– Mas o Ministério Público fez bem quando opinou pela nulidade do resultado, as empresas de seguro saúde têm notória especialização na matéria!

– O pedido de vistas de um Ministro interrompeu o julgamento quando já se tinha formado maioria para que o edital fosse interpretado de acordo com a Constituição: cotas raciais, sociais e de gênero deveriam ser impostas nos campos.


Na primeira vez em que a criança foi impedida de abortar

e a juíza apontou para o crucifixo do fórum

e o estupro celebrou a família tradicional

e a direita lançou campanhas eleitorais com vouchers para granadas

e a juíza perguntou se a criança acreditava em bonecas

que nasciam na barriga das meninas

e a ministra de direitos humanos explicou a felação infantil sem dentes

para os fiéis interessados

e os eleitores cobriam de cédulas a pastora morta durante o culto

até que ela ressuscitasse sob o peso asfixiante

e os juízes vedaram o aborto legal à criança

pois eram competentes para abortar a legalidade,

os escombros da repetição da primeira vez

fizeram sombra ao sol

e alguns se perguntaram

se era só a noite ou o fascismo;

outros, se era só o fascismo

ou o país. 


– O poeta erra: ele escreve como se existisse algo como o nascimento.

– Era melhor que ele não tivesse nascido. Mas isso pode ser remediado.


Na primeira vez em que morreram cem mil

e os liberais trocaram as políticas de saúde pela dispneia,

na primeira vez em que morreram duzentos mil

e os militares torturaram vacinas em nome da segurança nacional,

na primeira vez em que morreram trezentos mil

e o planeta foi considerado oficialmente plano,

na primeira vez em que morreram quatrocentos mil

e drogas para piolho foram enviadas para as aldeias,

na primeira vez em que morreram quinhentos mil

e a imprensa burguesa louvou a direção correta,

na primeira vez em que morreram seiscentos mil

e os parlamentares trocaram covas por votos,

na primeira vez em que morreram setecentos mil

e a bolsa disparava com os índices da fome,

na primeira vez em que morreu um milhão

e os algarismos foram considerados subversivos,

na vez alguma em que ninguém morreu,

jamais a produtividade do sistema político,

dos juros e do mercúrio

que substituiu os peixes nos rios pátrios

desceria a zero.


– Isto nem parece com poesia, ele faz é ativismo do movimento "Todas as árvores de pé", ramificação que brotou do movimento comunista internacional.

– É para derrubar o cara?

– Claro. Os versos sobre os milhões desviados para tratar a disfunção erétil das forças armadas ameaçam a higidez do Estado.


Na primeira vez em que não se via nada que não fosse polícia,

os olhos do capitão úmidos do adeus ao orçamento público

pingavam polícia,

o patrocínio latifundiário para os cantores da trilha sonora da tortura de camponeses

comprava a polícia,

o desaparecimento do boletim de ocorrência

da chacina de mulheres transexuais

ostentava a presença da polícia,

enquanto as gargalhadas do jornalista e do economista com a notícia de mais um estrangulamento de negros

(diminuição benfazeja do défice da previdência, explicou o economista;

este pessoal ruim de bola nem sabe posicionar o joelho em cima de um pescoço, criticou o jornalista),

queriam esconder a polícia.


– Com as escolas cívico-militares, nada disto será lido pelos estudantes.

– Se elas derem certo, eles não lerão mais nada!

– Assim, poderemos economizar a munição para alvos mais importantes, como alunos de cabelo africano.


A primeira vez em que a polícia nacional atirou no menino autista que não disse como se chamava

e as folhas caídas sobre o corpo encontrado uma semana após reproduziam o mapa do Estado,

a primeira vez em que a federação das indústrias inflou patos gigantes nas ruas

e o golpe de Estado era o que se via no espelho dos palácios,

a primeira vez em que juízes pegaram os papéis deixados sob o pau de arara

para ler nas manchas a lei que aplicariam,

ou aquela em que se decidiu pela incineração coletiva para privatizar com higiene os cemitérios,

ou nesta em que o desvio de verbas da educação para estandes de tiro

levou ao monopólio dos prêmios literários por rascunhos de oficina.


– Antes de explodirmos a casa, ele acrescentou: "Não há primeira vez. Que seja abolido o mito da origem". Não entendi.

– Não teve tempo de terminar o poema. Lerdo. A detonação é o espaço do verso.


Também na primeira vez em que a Terra se tornou redonda

assassinos, togas e cruzes se levantaram.



II


Moramos nos escombros.

Resistimos nos escombros.

Somos feitos dos escombros.

Neste país eles chegam até o céu.

Cairemos sobre vocês.


Nem mesmo voando escaparão

pois soterraremos o anjo.



Encerrada a ilusão das asas,

a história poderá começar.


sábado, 8 de junho de 2024

Sobre a terra

 


A amiga

com as duas fotos:

o marido

(meu amigo),

e o Sol.


Ela explica:

ele é quem aponta o Sol

e a surpreende

com a notícia

de que ainda brilhe sobre o planeta.


Não sei se a informação é verdadeira,

mas não deixa de encorajar

que o Sol guarde um entusiasmo

raro de encontrar sobre a Terra.


A primeira foto, o amigo jovem:

borrada, envelhecida.

A segunda: as nuvens em ebulição

com a luz por trás.


Meu amigo atrás do tempo,

o Sol atrás das nuvens.

Mas a chuva cairá

para o júbilo das sementes.


As duas fotos tinham a mesma coloração.

Não sei se o Sol imitara meu amigo

ou se foi o tempo que os aproximou,

raros de encontrar sobre a Terra.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Toda poesía es hostil al anarcocapitalismo, antologia organizada por Julián Axat



Julián Axat organizou a recente antologia Toda poesía es hostil al anarcocapitalismo (La Plata, Argentina: Pixel/ Chile: Askasis, 2024), com poetas argentinos e de outros países e regiões das Américas.

Na apresentação, ele fala que reuniu uma "assembleia de poetas", no sentido de Alberto Szpunberg, que busca representar a "urgente situação" por que passa grande parte da população argentina:


Desde la llegada al poder de La Libertad Avanza (LLA), en diciembre de 2023, todos los espacios y universos culturales se encuentran amenazados. En esta era neo oscurantista, el mundo de la poesía tiene el revolver de Goebbels apuntando a su cabeza.

Por eso, por una cuestión de supervivencia, la poesía se pone en guardia.


A maioria dos poemas trata criticamente do anarcocapitalismo ou do capitalismo tout court: o título, claro, inspira-se em Juan Gelman, que escreveu que toda poesia é hostil a esse modo de produção econômica.

A foto acima é de Axat e mostra a expressiva arte de Richard Somonte usada na capa. O arquivo do livro pode ser baixado por meio desta ligação: https://elniniorizoma.wordpress.com/wp-content/uploads/2024/04/toda-poesia-es-hostil-al-anarcocapitalismo.verson.final_.pdf

Estes são os autores:


ARGENTINA:

Alberto Cisnero (La Matanza, 1975)

Alicia Vicenzini (Santa Fe, 1967)

Ana Barral (Bahía Blanca, 1962)

Ana Caligaris (Clorinda, Formosa, 1957)

Analía Leonor Contini (Buenos Aires, 1955)

Andrea Edith Homene (Morón, 1967)

Antonio Ramos (Rosario 1950)

Ariel Montesinos (Quilmes, 1974)

Bernabé de Vinsenci (Saladillo, 1993)

Bernardo Carretoni (Alberti, 1992)

Carla Bianco (San Rafael, Mendoza, 1975)

Carlos Aprea (La Plata, 1955)

Carlos J. Aldazábal (Salta, 1974)

Carmen Losardo (Buenos Aires, 1983)

Cecilia Pontorno (La Plata, 1979)

César Beltrán Surigaray (Chascomús, 1952)

Conrado Yasenza (Lanús, 1967)

Coti López (General Belgrano, 1980)

Dafne Pidemunt (Buenos Aires, 1977)

Daniel Ballester (Buenos Aires, 1955)

Daniel Freidemberg (Resistencia, Chaco, 1945)

Daniel Gómez (La Matanza, 1968)

Daniel Krupa (Berisso, 1977)

Daniel Quintero (Buenos Aires, 1959)

Daniel Rotelle (Pergamino, 1956)

Dante Sepúlveda (Villalonga, 1986)

Darío Ledesma (“Palito”) (Tandil, 1987)

Demetrio Iramain (Buenos Aires, 1973)

Diana Szarazgat (Buenos Aires, 1959)

Diego L. García (Berazategui, 1983)

Eduardo Alberto Nico (Eduardo Magoo) (Lomas de Zamora, 1956)

Eduardo Rubinschik (Buenos Aires, 1967)

Enrique Schmukler (La Plata, 1976)

Erika Lederer (Salta, 1976)

Ernestina Elorriaga (Darregueira, 1954)

Esteban Leyes (Quilmes, 1985)

Eugenia Straccali (La Plata, 1970)

Fedra Spinelli (Buenos Aires, 1970)

Fela Tylbor (Puerto Madryn, 1961).

Fernanda Maciorowski (Puerto Madryn, 1982)

Fidel Maguna (Rosario, 1993)

Gito Minore (Buenos Aires, 1976)

Graciela Cros (Carlos Casares, 1945)

Guido Croxatto (Buenos Aires, 1982)

Guillermo Bianchi (Buenos Aires, 1970)

Guillermo Saavedra (Buenos Aires, 1960)

Gustavo M. Luján (Chilecito, La Rioja. 1974)

Hernán Minardi (Carmen de Areco, 1972)

Hernán Nemi (Buenos Aires, 1972)

Horacio Fiebelkorn (La Plata, 1958)

Jerónimo Corregido (La Plata, 1990)

Jorge Felippa (Córdoba, 1949)

José Supera (La Plata, 1981)

Josefina Oliva (La Plata, 1980)

Juan López (Mendoza, 1962)

Julia Dron (La Plata 1979)

Julián Axat (La Plata, 1976)

Julio César Ciccone (Buenos Aires, 1957)

Laura Forchetti (Coronel Dorrego, 1964)

Lautaro Virgilio (Avellaneda, 1989)

Leandro Alva (Temperley, 1975)

Leandro Daniel Barret (Rosario, 1977)

Liliana m. Majic (Buenos Aires, Argentina.1964)

Luciana Cano (Santiago del Estero, 1989).

Mara Oviedo (Villa 21/24, 1990)

Marcos Herrera (Buenos Aires, 1966)

Márgara Averbach (Buenos Aires, 1957)

María Belgrano (San Luis, 1979)

María Belgrano (San Luis, 1979)

María del Pedro (La Plata, 1971)

María Malusardi (Buenos Aires, 1966)

María Manuela Corral (Córdoba, 1980)

María Rosa Montes (Santa Fe, 1952)

María Urrutia (La Plata, 1945)

María Verónica Llull (San Martín, 1975)

María Victoria Fabre (Buenos Aires, 1968)

Mariana Agustina Romano (San Miguel de Tucumán, 1992)

Mariana Finochietto (General Belgrano, 1971)

Marina Arias (Haedo, 1973)

Mario Goloboff (Carlos Casares, 1939)

Martín Pucheta (Gualeguaychú, 1981)

Martín Raninqueo (La Plata, 1962)

Marx Bauzá (San Miguel de Tucumán, 1980)

Matías Fittipaldi (Mar del Plata, 1977)

Mauro Spinelli (La Plata, 1986)

Maximiliano Spreaf (Capital Federal, 1975)

Melina Gigli (Rosario, 1976)

Miguel Martínez Naón (California, Estados Unidos, 1976)

Natalia Notari (Concepción del Uruguay, 1974)

Natalia Pascua Lagostena (Villa Constitución, Santa Fe, 1987)

Nicol Signorini (Río Cuarto, 1993)

Nicolás Aused (Santa Fe, 1977)

Nicolás Prividera (Buenos Aires, 1970)

Nilda Bulzomi (Buenos Aires, 1958)

Ohuanta Salazar (San Miguel de Tucumán, 1975)

Oliverio Saudade (Mateo Fernández) (Embalse, Córdoba, 2000)

Pablo Bilsky (Rosario, 1963)

Pablo Campos (Buenos Aires, 1977)

Pablo Jacinto (Buenos Aires, 1992)

Paula Nogueira (La Plata, 1975)

Pilar Alí Brouchoud (La Plata, 1987)

Ramón Inama (La Plata, 1971)

Ricardo Algranati (Buenos Aires, 1951)

Ricardo Bizzarra (La Plata,1960)

Ricardo Luis Plaul (Tandil, 1948)

Ricardo Rojas Ayrala (Buenos Aires, 1963)

Ricardo Ruiz (Buenos Aires, 1953)

Rodrigo Zubiría (Buenos Aires, 1976)

Romina Freschi (Buenos Aires, 1974)

Sandra Gudiño (Santa Fe, 1966)

Santiago Featherston (La Plata, 1988)

Santiago Rebasa (Buenos Aires, 1972)

Sebastián Jorgi (Lanús, 1942)

Sebastián Pelayo Murray (La Plata, 1972)

Sebastián Russo Bautista (La Plata, 1973)

Sergio Marelli (La Plata, 1962)

Sergio Morán (Mendoza, 1979)

Silvana Melo (Olavarría, 1961)

Silvia Hedman (Oberá, Misiones, 1968) 

Silvina Melone (La Plata, 1974)

Sol Mircovich (La Plata, 1990)

Soledad Rodríguez Sabater (Posadas, Misiones, 1978)

Susana Cella (Buenos Aires, 1954)

Tomás Rosner (Buenos Aires, 1986)

Tomás Watkins (Neuquén, 1978)

Verona Demaestri (La Plata, 1976)

Víctor Cuello (“Pajarito”) (La Matanza, 1976)

Vladimir Jantus Castelli (La Plata, 1975)


ARUBA (PAÍSES BAIXOS)/ ARGENTINA

Arturo Desimone (Aruba, 1984)


BRASIL:

Pádua Fernandes (Rio de Janeiro, 1971)


CHILE

Absalón Opazo Moreno (Valparaíso, Chile, 1978)

Adrián Barahona (Chile, 1973)

Nibaldo Acero (Santiago, Chile, 1975)


EL SALVADOR

César Saravia (San Salvador, 1989)


PARAGUAI

Mireya Ribas Medal (Asunción, Paraguay, 1958)


PERU:

Tamara Padrón Abreu (Lima, 1980)


URUGUAI:

Paula Simonetti (Montevideo, 1989)


VENEZUELA

María Carolina Marschoff (Mérida, Venezuela, 1973)



Além de ter escrito poemas sob dois heterônimos seus acima listados, Julián Axat elaborou outro com  o uso de inteligência artificial (Chat GPT), "cruzando los conceptos Dengue y Virus neoliberal, al estilo poesía beat". Ficou interessante.

Deixo por último a menção a um poeta e músico desaparecido pela última ditadura na Argentina, Daniel Omar Favero (La Plata, 1957), incluído nesta antologia. Sua obra somente foi publicada durante a democracia.

Este é um livro em defesa da democracia.


P.S. Este é meu poema incluído na antologia.


Presidente e excrementos caninos
Pádua Fernandes


Já está pronto para download o aplicativo que permite descobrir entre os excrementos caninos pisados na rua qual deles é o presidente do país.

Não, enganei-me: o aplicativo que merece o seu download, gratuito enquanto não é pago, aplicativo enquanto funciona, para todos enquanto não surge outra forma de vigilância, o aplicativo dá a forma do país aos excrementos, ou dá a forma de fezes para o país, não sabemos ao certo, ainda está em fase de testes, assim como o presidente.

Na verdade, o aplicativo que está pronto é o que descobre o caminho para o país passando pelos excrementos presidenciais evitados pelos cães.

Parece que a versão gratuita do aplicativo não inclui a carta de admiração presidencial para Thatcher, que, até o momento, matou mais argentinos do que ele. O upgrade nível prata inclui campos de concentração para trinta mil debaixo das águas; nível ouro, vem com a reforma administrativa que incorpora as pensões aos campos.

A versão paga do aplicativo oferece a opção reajuste de 1000% de impostos, mas com algarismos ancap, completamente capados; o modelo Empreendedor do Caralho traz buracos nas calçadas tapados com as quedas dos manifestantes; a cor Estado Mínimo mostra o Tanque Máximo com que as forças de segurança patrulham os famintos; a versão Thatcher foi concebida para os órfãos das Malvinas; a cor Valas Anônimas é muito usada em games que treinam para o mercado de criptomoedas; o formato Fome é empreendedor, flexível, resiliente e pode ser aumentado em 100%, 200% ou mais, a depender do preço do voo das contas públicas nacionais para as ilhas do Caribe.

Caribe, Panamá e outros destinos, pois não há mais desabrigo sobre o país, mas apenas superávits crescentes do sol, da lua e dos outros astros sobre os corpos humanos. Bem como da chuva. E dos tiros.

Baixei! Mas não consegui chegar a lugar nenhum… Segundo o aplicativo, acabaram as ruas, enterradas pelos excrementos. De quem? Não se sabe, com esta presidência não há mais diferença entre decretos e latidos.

Quantos presidentes
na história do mundo
vieram dos latidos?
Ele aprendeu
a cagar e mijar
somente nas ruas
hoje interditadas 
por insalubridade geral,
por isso faz do palácio
sua latrina armada,
e ao trânsito dos coliformes
sobre a rua e os corpos
chama de liberdade.
Quando os latidos
se tornam presidentes
e saem às ruas
a que hora
tudo se torna
excremento?
……………………………………………………….

Vocês baixaram o aplicativo? Imbecis. Ele rouba todos os dados.
Não adianta reclamar: não há mais governo, só há os que governam.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

"A roupa não presta. / O golpe está nu."



I

Policial militar, ou
fotógrafo de selfie
com golpistas;
soldado, ou filador
de churrasco
de golpistas acampados;
quartel, ou a útil paisagem
das cabanas de golpistas;
agro, o negócio
de semear golpistas
e usar o agrotóxico
para a democracia
jamais contaminar
a monocultura;
o púlpito, a escola
de ordenar o massacre
em nome de deus
e aliviar os intestinos
sobre os tribunais;
a bandeira da pátria, ou
o limpa-cu de golpista,
diarreicamente a tornar-se
o sudário do golpe.

Secretário de segurança, ou
turista ianque do golpe,
governador, ou
office-boy do golpe,
enquanto mulheres de generais
mandam fazer crochê
com as linhas arrancadas 
da bandeira nacional.

A roupa não presta.
O golpe está nu.


II

quebramos os vidros porque somos ordeiros
somos contra as eleições porque nós as ganhamos
nós as perdemos mas nós ganhamos
porque esta é a ordem e nós somos ordeiros
rezamos obedientes para o pneu porque caiu da nave do ET
nós sinalizamos com telefones para a astronave
descobrimos que a nave era uma urna
e nosso presidente venceu a eleição em outra galáxia

nosso presidente mandou um vídeo
ele comia farofa com doce de leite
era uma mensagem secreta
quando destruíssemos a capital tínhamos que roubar os doces nas gavetas
para deixar o país em forma
a farofa eram os cacos
dos computadores do século XXI
do relógio do século XVII
e da democracia representativa do XVIII ou XIX
a escravidão eu sei que era dos dois

antes de quebrarmos tudo
o país não era inteiro nosso
agora que é caco
conseguimos pisar sobre ele todo


III

Recebi mensagem da médica falando que a demência na população brasileira vai duplicar em trinta anos. 
E daí? Médico é demente mesmo, quer dar até vacina em quem não é doente.
Vai duplicar... Que coisa.
O quê?
O que eu estava falando.
O que era mesmo?
Demência.
É culpa deste governo! São todos dementes!
É culpa do governo de agora, que não tem um ministério da fé, então ninguém acredita. Eu vi nas mensagens do grupo de transubstanciadoras do vinho.
O que é isso?
É um grupo de senhoras que transforma vinho em água. Dão informações muito reais. Tudo na fé. Elas revelam todos os segredos deste governo de agora, como os cultos satânicos nas catacumbas da floresta na Praça dos Três Poderes. Mas a mensagem da médica não veio delas, não sei se dá para acreditar.
Este governo não é como o nosso presidente piedoso, que dava exemplo de saúde, andava de jet-ski enquanto a imprensa dizia que morriam milhares por dia. Mas... o que a médica disse mesmo?
Vai duplicar.
Ah! E o governo de agora, vai fazer o quê?
Ela falou que a ministra da saúde vai tentar impedir.
– Não disse? Iria duplicar, mas este governo mal chegou e já quer impedir! A esquerda sempre atrapalhando o progresso!


IV

(Pelas togas encharcadas
do sangue de meia quatro,
pelas fardas respingando
do sangue de meia quatro,

das veias de todo dia
abertas pelo mercado,
serve-se a democracia,
galinha ao molho pardo;

com as mãos e com os pés
lambuzam-se deste prato;
sem o cardápio do golpe,
o que servir ao Estado?)


V

claro que se os nossos parlamentares todos de direita chamaram a gente para quebrar tudo
e se nós estamos presos e eles estão livres
é que tudo não passou de um plano da esquerda 
e só por isso o golpe fracassou
porque a direita é só sucesso
o golpe contra o governo de esquerda foi dado pela esquerda
para encenar que isto é um país
por isso meu protesto dizendo que sou de direita e homem de deus
minha fé é combater os impiedosos
se levei pênis de borracha para as gavetas do tribunal
pisei no capacete da policial com ela dentro
se arranquei da parede do senado um tapete e mijei nele
foi exercendo minha liberdade de culto
só me arrependo de um ovo quebrado no congresso eu poderia ter fritado
protesto também contra os direitos humanos só servem para os criminosos
a prova é que na prisão me servem água
mas à noite eu gosto de um licorzinho 


VI

No documentário sobre a derrota do golpe
falaram em nome da democracia
apenas homens brancos
de terno ou farda.

O golpe, se triunfante,
ganharia o nome de revolução.
Eis a tradição pedagógica
inventada pelo pau de arara.

Não foi assim. Contudo,
se o golpe tivesse vencido,
no documentário da revolução
falariam apenas homens brancos
de terno ou farda.

Eis a ciência política
inventada pelo pau de arara.


VII

(Na história militar
nunca algo assim se deu:
acampados em barraca
meses diante do quartel.

Fornecemos água e luz
para os insurrectos,
banheiro para os seus cus,
segurança para os retos.

Deles não temos receio.
Damos o mesmo à república,
nós a cobrimos dos seios
até a região púbica.

Segundo os nossos fuzis
não existe diferença
entre a barraca e o país,
salvo pela obediência.)


VIII

O ovo africano:
autor desconhecido.
Presente de outro continente
ao país por ele formado.

A destruição do patrimônio,
ou a materialidade da insurreição.
Fardas terceirizaram o golpe
e elas usam botas
para apreciar as obras.

Um ano após a horda,
os pedaços da casca reconstituídos.
Faltam alguns, contudo.
A casca não é mais inteiriça.
Os olhos atravessam o ovo.

Agora a obra é outra.

Lacunas e vãos
deixam entrever
inteiro este país.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Quando o cantor se interrompe


Quando o cantor se interrompe,

a voz ainda continua?

(por quem? por quanto tempo?)

Se o cantor fecha os lábios,

abre-se ainda a boca da voz?


Abre-se para o mundo,

e o mundo se fecha:

o cantor é interrompido

seja pelo decreto, seja pelo câncer,

(o poder e a metástase

imitam-se mutuamente)

seja pelo mercado, seja pela bomba,

(igualam-se em estrondo

os produtos e a devastação)

e pouco resta à palavra

senão automatismos à venda.


O cantor foi interrompido,

cessaram os mecanismos do fôlego;

toda a atmosfera

ressoa como o deserto.


(contracústica, infra-

-diafragmática, a voz conspira

multicostal sobre o risco)

(não a voz sob o risco,

porém a música,

que entrou sem ingresso

no espetáculo do mundo)


A voz, que mande notícias,

ela suspendeu os informes

que garantiam o fluxo

entre o cantor e o mundo.


(um coro só de objetos não sonoros,

que cantores poderiam igualá-los

na solidez e na pontaria?)

(ou um coro só de ausências,

todo feito à imagem do público?)


O cantor sob interrupção 

não pode entregar a vida,

deixa que a voz o faça.


(explodida a voz, ouvimos

enfim o cantor, ou os estrondos

vêm de outra fonte: a música, talvez?)

(o mundo não se organiza em coro

e decreta que a ousadia de somar vozes

pagará um preço muito caro)


Somente não interrompe o cantor

o silêncio,

que o ouve agora.