O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

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quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Democracia com instrumentos de escuta





Nos anos 10 vigiávamos os que subvertiam a vigilância, prendíamo-los em nome da segurança, a lei cabia na jaula

Nos anos 20 infiltrávamos os movimentos antiescravatura, se queriam a liberdade, o que mais desejariam depois?

Nos anos 30 metralhamos os membros da sociedade antimilitarista só para lhes dar uma justificativa

Nos anos 40 sabotamos em nome da pátria, da família, da decência e do jantar às 8 da noite as associações femininas

Nos anos 50 desaparecemos com anarquistas e quejandos no anexo secreto dos direitos humanos

Nos anos 60 brincávamos de tiro ao alvo com os negros que não sabiam seu papel no jogo de polícia e ladrão

Nos anos 70 comprávamos pastores e bombas e nenhum deus nos impedia

Nos anos 80 continuavam existindo muitos índios, solucionamos com a importação de minas

Nos anos 90 começamos a financiar os terroristas que nos bombardeariam nos anos 00

Nos anos 00 competíamos com os peixes na ocupação dos oceanos com plásticos e corpos de procedências variadas

Nos anos 10 vigiávamos os que subvertiam a vigilância, prendíamo-los em nome da segurança, a jaula transbordava da lei

em países distantes



agora todos aqui
















Nota: Trata-se de poema para um livro vindouro, O desvio das gentes.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Memória em regime de catástrofe, ou temer o leitão



                                                            para Déborah e Eduardo, pelos alertas



I

em país rico
cultura se respira no ar
pedaços de documentos de dois séculos
três
cinco
flutuam sobre as casas e as ruas

ainda quentes
cobrem o país


II

ande pelo mundo:
existe apenas o limite entre o sangue e a cinza

toda cinza tem o retrogosto de sangue
e vice-versa

a alternativa ao zero
remonta a menos do que nada

entre a cinza
(uma gigantesca teia no céu
sem origem ou centro)

e o sangue
(nostálgica memória do coração)

o fogo decidiu nosso lugar


III

Um só magistrado custa mais do que a manutenção do museu
portanto
ela não deve ser paga
as instituições precisam funcionar normalmente

Holocausto da memória nacional durante o governo da devastação
por conseguinte
presidente e ministros permanecem
as instituições precisam funcionar normalmente

Antes do auto-da-fé governos e empresas ignoraram o diretor do museu
por essa razão
ele merece baraço pregão cinzas
as instituições precisam funcionar normalmente

Vejam que o fogo queima e as cinzas caem
prova de que as instituições funcionam
vejam que os dentes quebram com o impacto do cassetete
prova da normalidade
tanto dos manifestantes
quanto do Estado


IV

havia Estado demais
nas goteiras ribeirinhas
nos fios desencapados
nos cortes orçamentários
Estado demasiadamente
havia no pó à espreita
nas bolsas atrasadas
nas portas que não abrirão
é preciso acabar com a vontade de Estado
ela ergueu estas paredes
cobriu-as contra a lua e o sol
dando-lhes a forma
para abrigar outras formas

o fogo
liberta as formas de si mesmas
devolve ao chão as paredes
e já não sabemos
se se trata de Estado demais
ou da libertação
da livre iniciativa
dos estacionamentos
dos centros comerciais
com fast food redes de roupa telefonia chinelos diplomas universitários
dos postos de gasolina 
com detectores de fumaça

que antes não podiam erguer-se neste espaço
contaminado pelo excessivo Estado


V

temer o leitão
temer o leitão
a vara de porcos
possuída por demônios

no lodo 
a legião construiu
o palácio de governo

temer o leitão
temer o leitão
os senhores do lodo
vomitam restos humanos

para aumentar seu reino
erguido com os materiais
da putrefação

temer o leitão
temer o leitão
o suíno ama pérolas
ouro prata diários oficiais

o ácido de seu estômago
corrói as pedras da memória
a dignidade das formas

temer o leitão
temer o leitão
ou cortar-lhe a cabeça
mas virando o rosto

para não ver o sangue esguichando
da origem dos demônios
esperando que alguém encaixe uma cabeça humana
no buraco da putrefação
para que alguma boca ainda faça soar os guinchos 


VI

cultura no ar
fragmentos de livros centenários
distribuem-se sobre as varandas e as ruas
e a catástrofe torna-se
a única política cultural permitida

páginas no ar
na atmosfera lê-se
a obra nacional
o livro da catástrofe


VII

a certidão com duzentos anos
do prédio que já tombou
agora cai também

o esqueleto que há onze milênios
pisou o continente
é agora desfeito pelos que pisam no país

o fóssil de outra era geológica
entra finalmente na atual
através das chamas
vemos que ele voa na fumaça
o que lhe era impossível quando vivia

os insetos não identificados
jamais o serão
capturados por um predador
tão natural quanto o plástico e o hino nacional

os olhos e a boca da máscara indígena
acordaram quando a fumaça os atravessou
e viram e cantaram com gemidos

o incêndio autocelebrado
que chamamos de país


VIII

Filho da puta, quem mandou este convite? O museu? Sei que fica longe da zona nobre. O diretor vai dar habeas corpus para mim? Os quadros valem imunidade criminal? Esculturas garantem trancamento de inquéritos policiais? Bem questionou o ministro do outro governo, nesse aspecto não o critico, se museu se relacionava à educação! Vitral faz cair jatinho de político? Tudo inútil. Resumem-se a coisas decorativas, ao contrário de mim. Carta de independência? Nesse museu? Não importa. Isso me cheira a coisa ultrapassada, não acha? Não mando ministro não. Ausentar-me-ei da cerimônia. Pouco importa se são cem anos.Já deu o que tinha de dar. Não tem que manter isso aí não.  Duzentos? Já? Nem notei que passou tanto tempo. Mas vou ficar. Nesse dia, sem viajar, vou ganhar muito mais do que isso nas malas.


IX

insetos devorados pelas chamas
as plantas desnascidas pelo fogo
destruídos os registros das vozes 
dos cantos dos povos já desaparecidos
os reinos africanos destronados
pela catástrofe desta república
tudo o que
extinto
novamente deixou de ser
reencontra-se na dimensão
da floresta paralela ao mundo

ela cresce


X

ouvem como um hino
os bilhetes de suicídio
pisam como território
obras em destroços

“o site bloody coffe nada nos esconde: quatro de dez dos melhores cafés bebem-se nos museus privados, por deus tenham modos, privatizem todos!”

hasteiam sua bandeira
em plena fogueira
sua magna carta
escrevem com a fumaça

“só nos museus privados vi múmias com esparadrapos modernos e brilhantes, esqueçam o que veio antes, privatizem os museus, o passado não é seu!”

amam a ruína
porém nada os incrimina:
quando liberal,
o extermínio é legal

“com fogo não se brinca, quem não privatiza está queimando lucros, compromete o futuro, deve continuar preso, assim como o tal do acervo, que, dizem os plebeus, é coisa de museu, vendam sem demora enquanto não sai de moda”


XI

o meteorito resistiu ao fogo
solitário diante da catraca
estrangeiro ao planeta
não sucumbiu ao tempo histórico
isto é
à catástrofe

perspectivismo da catraca:
há muito mais catástrofe
entre o ozônio e o pré-sal
do que supõem as antropologias
não há diferença absoluta
entre o estatuto do sangue e o da cinza

paralisações aceleradamente infinitas
imobilidades freneticamente conectadas
a catraca permite o ingresso da catástrofe
ou a forma oficial 
de digerir o mundo

mas o mundo também é um meteorito durante o fogo

e os oceanos confundem-se com a úlcera
e a terra reconfigura-se em bactéria
a retomar as paredes do corpo

os governos precisarão de colonoscopia
para ver a si mesmos


XII

o fogo cava um túmulo no ar
lá ficarão os documentos
como os seres humanos

domingo, 17 de junho de 2018

#VaiTerCopa



I

Poucos momentos há
em que a multidão forma um país;

pode acontecer em jogos
(o país é um jogo
como outras delimitações espaciais de casas
a serem conquistadas
pelo azar da força
pela força do azar)

mas da seleção masculina de futebol;

não de outros jogos,
que não desviam tantas contas secretas,
não geram tantos mandados de prisão internacionais,
não compram tantos assentos no parlamento,

ou seja,
não dizem respeito ao caráter do país;

não da seleção feminina,
sem o falo para dançar em volta
os cidadãos perdem motivação,
sem a sombra do falo
o sol queima-os demasiado,
não podendo encostar no falo,
exaustos vergam, caem na terra
e em outros elementos hostis ao país.

De fato
há poucos momentos
em que a multidão forma um país

como nos linchamentos


II

Colocam as cabeças de um lado,
os outros restos dos corpos de outro;

ainda não se equilibram;

talvez uma bola de futebol ali?...

Sim,
agora os pesos equivalem-se,
agora temos a imagem da justiça
aqui em jogo


III

Mais raros ainda os instantes
em que se ouve o hino do país;

praticamente nunca em festividades públicas,
calado pela desafinação militante
ou pelo ritmo dos pulos
executados como se fossem
o vero hino do país.

E se ele for tudo isto mesmo?
O que resta do ruído nas gargantas
depois dos gritos de socorro ou não,
ou que resta de silêncio
nas gargantas estraçalhadas

e todo território do país não passar
do raio atingido pelos gritos?

Não, o hino do país pode ser ouvido
no ruído dos corpos partidos
pelas pisadas da multidão em fuga.


IV

Todos os compositores executados na abertura dos jogos
teriam sido reconhecidos pelo genocida,
teriam sido aprovados pelo genocida
que governou o país no milênio passado.

Eis o espírito esportivo
que pode ser vendido,
que pode gerar direitos autorais
em todos os países do mundo.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Sinhô chuta de bico





grafismos indígenas
grafismos negros
na camisa da seleção masculina de futebol

nunca teremos,
dizem os racistas,
mas por uma razão humanitária,

pois, se apagamos os subalternos
desde sua produção simbólica,
não precisaremos de institutos legais de segregação,

aliás desnecessários quando acadêmicos
jogam bananas para seus colegas escuros
e aprendem direito quem tem cara de preso;

pois, se apagamos os subalternos
desde sua produção simbólica,
não precisaremos de metralhadoras,

embora largamente usadas por capangas 
e outras forças oficiais de segurança
com mira técnica para alvos escuros;

grafismos indígenas
grafismos negros
na camisa da seleção masculina de futebol

nunca teremos,
dizem os racistas,
mas por uma razão patriótica,

o futebol é imanente à formação do povo,
se ele se reconhecesse na camisa
arriscar-se-ia a enxergar-se como povo

e não como algo genérico e difuso
que serve de número para anunciantes
e de entretenimento para a indústria

quando cai das arquibancadas,
quando se entredevora dividido em torcidas
em vez de unido como classe;

e a visão das raças discriminadas
fomentaria conflitos em vez da harmonia patriótica 
entre a bota e o rosto esmagado

grafismos indígenas
grafismos negros
na camisa da seleção masculina de futebol

nunca teremos,
dizem os racistas,
mas por uma razão técnica,

para evitar erros de arbitragem,
certamente seriam cometidos
se a seleção se vestisse dos injustiçados

em vez de assumir os símbolos
da raça vitoriosa, que precisou
que outras perdessem suas terras

e onde foram expulsas erguessem o estádio
em que lavam arquibancadas e banheiros,
para ensinar o sinhô a não chutar de bico;

o jogador negro, para efeitos de patrocínio,
deve ser considerado branco
enquanto for bem sucedido

grafismos indígenas
grafismos negros
na camisa da seleção masculina de futebol

nunca teremos,
dizem os racistas,
pois o racismo é o seu país

e ele, sem uniforme, poderia confundir-se com os homens

sábado, 16 de dezembro de 2017

"Na mala noturna para a presidência/ comprimia-se todo um país?"

Na mala noturna para a presidência
comprimia-se todo um país?
Claro que não, reveja o vídeo,
a mala parece pesada.

Quem carregava para a presidência
a mala noturna?
Sim, vós carregastes para a noite
toda a presidência
e tornastes o dia impossível
pois não há luz no interior da mala
e já não restou nada fora dela
a que se possa chamar um país.

A mala noturna da presidência
tinha a mesma cor da bandeira do país?
Não, pois as coisas mortas
não podem emular o ligeiro colorido das vivas,
no vídeo a mala andava a grande velocidade.

De quem era o couro
da mala noturna da presidência?
O perfeito material
ainda vibrava
das tentativas inúteis dos humanos
de escapar aos golpes
que lhes arrancaram pele e convicções
sobre a noite,
maior que o país,
cobre-o inteiro
agora que seus tecidos mostram-se nus,
sem epitélio algum,
depois que a presidência por eles passou.

Aberta, ela se tornaria uma nova caixa de Pandora?
Seria inútil, veja que o infortúnio já estava livre
e a carregava e recebia.

Tampouco presidência há,
mas um oco
de que agora tudo é feito.

O pó sobre a mala noturna da presidência,
é verdade que, quando ele é varrido pelo vento,
torna-se todo o território do país?
No vídeo a pressa de carregá-la
mais do que a ciclones na atmosfera
levou a irregularidades no território,
buracos onde o passo pesou mais firme
e nos quais o próprio país caiu
e não foi mais visto.

Se você fosse despachado
na mala noturna da presidência,
alguém quereria recebê-lo,
alguém ousaria abri-la
sem temer o trabalho 
de esvaziá-la e lavá-la
de ter carregado
algo não monetário,
isto é, sem higiene, sem
o caráter de ente vivo
e móvel sobre o mundo?

Tampouco sei se é noite
fora da mala e da presidência,
depois de horas de interrogatório
perde-se a noção das horas, dos dias,
da fome, da sede, dos pingos
de sangue já indiscerníveis no chão,
dos gritos, dos choques, das varas,
dos projetos legislativos e dos lanches judiciais,
perde-se a noção,
afirma-se apenas a certeza
de que continuo em meu país.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O escritor anuncia

O escritor anuncia na tevê:
inventou o alfabeto.

A humanidade não estava preparada para isso,
mas este é o papel dos grandes artistas,
despreparar a humanidade.

Dizem que o ex-presidente dos EUA vai escrever uma autobiografia com o título “Dias Brancos na Casa”. Vou apresentar um projeto para lançar um livro com o mesmo título assinando com o nome dele. A esquerdalha não vai gostar, a editora reaça topa, ela sabe onde está o dinheiro. Não tem problema sair com nome de outro. Completei trinta mensagens neste mês. Em duas não mencionei meu nome, mas foi por motivos estilísticos.

Nas redes sociais, o escritor anuncia:
inventou o livro,
as vendas on line,
a lista de best-sellers.

Jamais a humanidade
estará à altura dessas notícias,
por isso os escritores criam o analfabetismo.

Lançamos “Dias Brancos na Casa”. Boa parte do público não sabe o que quer dizer pseudônimo e compra o livro, e a minoria que sabe compra por causa do escândalo. Minha literatura realizou a democracia, alcança a todos. Na minha modéstia autoral, permaneço anônimo. Escrevi vinte e oito textos sobre mim neste mês. Não assinei três por razões de suspense.

O escritor decreta
que inventou a sátira,
mas não quem caiu dentro dela.

Novamente reclama da tevê do silêncio absoluto sobre seu livro.
Vocês não sabiam que a escrita
nasceu para registrar operações comerciais?
Venda de carneiros e escravos?

Como é que foram censurar o livro? Gente ignorante em democracia e em literatura, que é feita para todos. A justiça se curvou ao imperialista ianque. O juiz ainda disse que o livro poderia causar um diferendo internacional entre Brasil e Estados Unidos se a editora do ex deles não conseguisse me proibir. Nenhum dos livros que assinei causou tanto escândalo, da próxima vez vou tentar fazer um relatório da vida sexual no Vaticano.

O escritor anuncia na publicidade:
o governo caiu,
meu livro era sobre o governo. Portanto...

A política não estava preparada para ouvir isso,
mas este é o papel dos grandes escritores:
não tolerar nada que os supere.

Consegui a liberação, mas a Justiça revelou que eu era o autor. Mais um escândalo, vai vender mais. Vou processar a Justiça por ter feito isso. Vocês todos no público têm o dever de esquecer que fui eu que escrevi, ouviram?! Sou contra a censura. Estou defendendo o direito ao anonimato neste mundo de tantas vigilâncias concretas e virtuais! E daí? O público não lê críticas. Eu sei que a capital dos Estados Unidos não é New York, e sim outro lugar. Os erros, as redundâncias, a monotonia são do pseudônimo, não são meus. Como assim o livro deixa os bombardeios pueris e até simpáticos? Não me pergunte onde fica o Pentágono! O livro é do pseudônimo, não falo mais disso.

O escritor revela à humanidade
que se alimenta;
para iluminá-la, abre sua cozinha
para programas culinários.

Ele assumiu a junk food,
mas não soube lidar com os ingredientes,
o livro provocou indigestão e desnutrição.

Não, eu sei que é genial. Eu me comparo mais com Fernando Pessoa, que marcou o século XX dizendo que o poeta é um fingidor e criando heterônimos. Eu marquei o século XXI reduzindo o presidente dos Estados Unidos a um mero pseudônimo meu, algo que os poetinhas esquerdistas que me criticam jamais conseguiram fazer. Nunca um escritor levou a literatura a um patamar tão alto. Meu próximo projeto intervirá ainda mais fortemente na geopolítica, que eu transformei num mero anexo do mercado editorial. Não sou de esquerda nem de direita, eu estou no topo.

Em Nova Iorque,
o escritor fará seu último anúncio;
escravos commodities? política junk food? analfabetismo best-seller?
os jornais também não sabem o que virá,
esperamos no salão a próxima obra,
até que se abre a porta, e uma bomba no Oriente Médio
devolve o salão aos elementos primevos.


domingo, 30 de abril de 2017

Direitos humanos do cassetete





Não o de ser rompido
na cabeça intransigente
de transeuntes que sem licença
andam pela cidade
como se as ruas não imitassem minha forma

Não o de ser quebrado
no corpo de militantes
como se eu também não tivesse um corpo
mais homogêneo, sem divisões
pois ele é todo repressão
perfeito, sem divergências,
tudo em mim
serve para a ordem

Não o de ser partido
na testa que ostenta vaidosa a si mesma
como se eu também não tivesse partido, o da ordem
e a ordem de hoje é partir

Não o de ser dividido em dois
no crânio de militantes
ao contrário deles
não tenho aberturas
como boca e olhos
portas de entrada para mim
ao contrário dos crânios
não sou oco por dentro
não sirvo de esconderijo para pensamentos
e outros instrumentos da desordem

Tampouco o direito de respirar por aparelhos
eu o dispenso, mesmo na minha atmosfera preferida,
a do gás lacrimogêneo
nunca me falta fôlego
é o Estado que não consegue respirar sem mim

Eu, o cassetete,
sou o verdadeiro titular de direitos humanos
porém nenhum daqueles

E sim, embora rompido por testas intransigentes,
detenho o direito humano da integridade
física pessoal política

Meu direito nunca foi cassado

Garantido
por
fardas
jornais
togas
e outros acessórios
menos íntegros do cassetete

sexta-feira, 28 de abril de 2017

#GreveGeral


O que se deve
faz-se afinal,
o que nos devem,
o quanto e qual,
será entregue
por bem, por mal,
o braço se ergue em
greve geral;

existem direitos demais temos que superar isso, o pé, além de pisar, pode até chutar
não haverá ônibus, pagaremos táxis para os servidores chegarem ao trabalho
existem direitos demais, precisamos cortar alguns, basta que a terra seja pisada e aberta
os táxis ficaram com medo de atender só aos servidores, atenderão a todos, desde que sejam cidadãos e se dirijam ao trabalho 
o pé pode pisar a terra, a terra pode ser escavada, e nela guardamos os direitos, um dia poderiam germinar, se estivessem vivos
como os cidadãos também não quiseram, decreto que os servidores durmam na repartição até acabar a greve

entrar em greve,
ação total,
produto leve,
descapital,
criado em série,
marcha jogral,
o grito segue,
ressoa igual
ao juro, ao spread,
mesmo ao jornal
que nada escreve
do industrial
ritmo que segue,
marcha atual
porque a greve
cria o geral.

a terra, aberta, não sairá andando, pode receber os pés e tudo o que sobrar do corpo plantado com os direitos, se tivessem raízes, quem sabe cresceriam
mas o próprio prédio da repartição ausentou-se, demitimos estes cidadãos e esta arquitetura, encontraremos uma cidade mais dócil para abrigar a prefeitura,  
eles crescem, os direitos e os corpos; temos que atacar a raiz da subversão, onde ela se planta, tudo se pode dar, chegou a hora de devastar a terra

(gritos e juras
greve geral
os graves juros
greve geral
mais groove e gira
greve geral
mais ginga e jump
greve geral
jari, jirau?
greve geral)

O ministério da justiça desempacota as bombas para receber a passeata dos direitos;
Se temos escravos ainda para que mantermos dispendiosos direitos trabalhistas, privilégio dos que ainda estão livres? Acabemos com o privilégio da liberdade, exceto para os senhores, óbvio, se não o que  digo não fará sentido.
A secretaria de segurança resolve ampliar seu palácio faz obras sob as togas, sobre as redações dos jornais, dentro dos robôs de redes sociais para acomodar a importação de escudos e balas;
Introduzo a tese, as greves faziam sentido quando prejudicavam os patrões, estou desenvolvendo que estamos no capitalismo humanista, a empresa tem hoje uma função social, concluo enfim que o grevista é um criminoso contra a humanidade. Já sou pós-doutor?
O economista explica que exercer direitos gera custos enquanto exerce a liberdade de expressão;

Todo o local
vira intempérie:
as balas ferem,
tudo normal,
o tiro reflete a
voz oficial;
as bombas fedem,
hálito usual
do Estado, verme
intestinal
que indigere
o ar vital.

Não quero greve porque não gosto de carro de som, as músicas são tão fracas, às vezes até índios e chocalhos participam, não quero acabar na mata,  prefiro chegar em Brasília com a trilha sertaneja do agronegócio. 
O geneticista revela a origem mórbida dos direitos e recomenda engenharia genética nos trabalhadores para gerar mais empregos;
Por que fazer greve em dia de trabalho? Não é contraditório? Por que não vai fazer greve quando estiver morto? Greve de apodrecer? De cheirar mal? Daqui a pouco vão dizer que existe diferença entre patrão e empregado, vida e morte, inteligência e alguma outra coisa que esqueci.
A professora de direito penal fiscaliza se os banheiros entraram em greve, promete prender o governo se os odores não forem produzidos, assegura os cidadãos da continuidade da produção de merda.
Falam de "direito do trabalho", mas antes disso vem o "trabalhar direito"; falam do trabalhador, mas antes do "trabalha" vem a "dor". Está no Pentateuco, e antes do penta te dou um teco.

O que se deve
faz-se afinal,
o braço ergue em
greve geral
nada mais leve
que a capital,
agora entregue
na rua-coral
ao risco à febre
desvertical

terça-feira, 29 de novembro de 2016

"A bomba jogada agora/ para explodir por vinte anos"



A bomba jogada agora
para explodir por vinte anos
e substituir os tijolos por areia
e tornar a areia no pó
do que jamais voltará a se erguer
nem mesmo pelo vento
pois afundará até tocar
o centro da terra
e esvaziá-lo completamente
e depois fazer o oco
ascender à superfície do planeta
já sem terra alguma
o planeta apenas a atmosfera
toda formada pelos gases
da bomba jogada agora
para explodir por vinte anos
e substituir a atmosfera
pelo mau hálito do Estado
que só se alimenta de cassetetes
programas de tevê tiros juros
liminares dívidas orações
braços quebrados de militantes
olhos vazados de fotógrafos
marcas de botas
sobre as costas de estudantes
e outras úlceras da política
que explodirão por vinte anos
depois de vomitadas
pelo estômago do Estado
somente saciado
quando a bomba lançada agora
enfim chegar ao chão
e substituir o solo pela cratera
aposentadas rotação translação
e outros movimentos planetários
pois a cratera dispensará a matéria
fatigada
após explodir vinte anos
e todos as naves caírem afundarem
já sem terra à vista
que não tenha sido vendida pelo Estado
em troca de vinte anos
de explosão
de rios trocados por rejeitos
hospitais tornados em ágio
miseráveis convertidos no pó que os cobre
vendido em troca da pele
escolas e bocas
fechadas pelo arame farpado
nascido das sementes transgênicas
com que a política se reproduz
até o desfazimento do Big Bang
e suas consequências
já superadas pelo Estado
que num instante arremessou
a aniquilação do tempo

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O banquete como forma de governo


I - Devorados com gosto

Vamos dirigir o país
Gritamos enquanto os que apoiamos
nos pisam
com nossos próprios pés;

(outros
brincam de governo
usando os nossos brinquedos)

Vamos expulsar do país
aqueles que não querem
que dirijamos o país

Gritamos com a voz
dos que nos calam
com nossos próprios tiros;

(a gente brincava de governo,
mas outros
governavam o brinquedo)

Ultimato ao país:
Terras vastas mostrem-se à altura
de serem dirigidas por nós

Bradamos do subterrâneo
onde fomos trancafiados
por aqueles a quem demos a chave do país;

(se o governo é um brinquedo,
onde é que ele quebra?)

Olhem que paralisamos o país
Anunciamos decididos
enquanto corremos da chibata
que fabricamos freneticamente,
o produto mais abundante desta terra;

(parece que o brinquedo veio com defeito,
mas que é assim mesmo
que se torna governo)

O produto mais abundante,
todos já têm
e todos o querem comprar.


II - O banquete, forma de governo

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"O Estado cobra dos olhos/ direitos da bala"





O Estado cobra dos olhos
direitos da bala;
a cegueira mostra aos olhos
como o Estado fala.

Viver na linha de tiro,
moradia crítica,
e o Estado abriga o tiro
na própria política.

Com a bala o Estado vê
enfim corpo adentro,
mas é no chão que revê
seu secreto centro:

o sangue, esteio mais sólido
da cidadania
de governos tão sólidos
quanto a hemorragia.

No entanto, existe a Justiça
e condena a luz
por ousar negar justiça
à ferida e ao pus

que tentarem sediar o Estado
em plena visão.
Tomou os olhos o Estado.
Nada mais verão.



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

As Mães de Maio, algo como um poema

Escrevi este poema atendendo a uma encomenda da revista Magma, dos alunos da Pós-Graduação do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP. Saiu no número 12, de 2015. Como a revista parece fora do ar no momento, e tendo em vista a criminalização que as Mães vêm sofrendo, já que exigir justiça parece um delito neste país, resolvi deixá-lo aqui também.




As Mães de Maio




nós vimos através
dos buracos da mão
que as balas deixaram
quando ele tentou se proteger;

nós vimos através
das rachaduras no berço
após atirarem em galhofa
na barriga de nove meses:
"antes de nascer um ladrão,
roubamos dele o nascimento";

(decretada a proibição dos velórios
por excesso de mortos)

nós vimos através
da porta da rua aberta
com a chegada do despejo coletivo
após executarem em plena rua
os que podiam pagar o aluguel;

através da perícia
jamais realizada
nas armas do Estado
encapuzadas de dinheiro e sangue;

(o Estado continua seu trabalho:
saindo do velório permitido,
os jovens caem baleados)

através do parecer jamais escrito
pelo procurador-geral; através
da decência do governador
e outras imaterialidades,
sua inocência de declarar
"não foi morto quem já não vivia";

vimos através da agenda presidencial
inexistente
para tratar dos que não existem ao poder;

(os que não caem são presos,
presos porque vivem)

através dos gritos
calados no túmulo
pelas folhas da imprensa
pelo estado da imprensa
para a qual eles nunca viveram;

vimos através da declaração de guerra
jamais feita
porque as bombas são tão mudas quanto os corpos;

(presos porque, mesmo autorizado,
um velório denuncia
a natureza do Estado)

das trompas e ovários extirpados pela dor;

dos netos não nascidos
ainda brincando no quintal;

através de todo esse longo túnel
aberto na carne deste país,

nós vimos

o próprio país, um acidente
arrancado ao mundo,

e reconhecemos sua bandeira
nos rasgos dos panos
que cobrem os corpos
deixados à rua
todos os dias, todos os meses,
como os de nossos filhos