Curiosamente, muitas não reconheciam a marca do cineasta de O som ao redor: não só os ângulos e os zooms que parecem fazer de cada olhar uma ameaça, a câmera adotando uma poética do conflito ou da insegurança, e o tratamento do som: há muito som ao redor, muito ruído passageiro cuja origem não consegui identificar. Essas estratégias incorporam o aleatório e o acaso, dados imprescindíveis para que tenhamos a ilusão de que a própria vida está nas telas, e não aqueles joguinhos de armar onde tudo se encaixa, artifícios baratos de certo cinema comercial.
Não farei, no entanto, uma resenha cinematográfica, muito menos analisar a excelência das atuações, especialmente o tour de force da grande atriz Sônia Braga. Escrevo esta pequena nota para pensar nos pressupostos arbitrários, mas tão significativos, de certas críticas que li.
- Criticar o uso da "trilha sonora" como típico de telenovelas sem nem mesmo mencionar nenhuma das peças musicais do filme, muito menos o seu compositor predominante, Villa-Lobos, é de uma superficialidade que talvez encontre correlato nos piores comentaristas de tevê. Note-se que, na festa de aniversário da tia Lúcia, toca-se a música de parabéns de Villa-lobos e Manuel Bandeira (ela volta depois), o que já é um dado político e estético essencial, em vez daquela bobagem estadunidense que é onipresente no Brasil (Adriano Brandão me chamou a atenção deste vídeo com o maestro Iván Fischer corrigindo a musiquinha: https://www.facebook.com/medicitv/videos/10153607377142352/). É chocante a ignorância musical dos críticos que dizem que é tocada uma "musiquinha de parabéns". A protagonista, por sinal, é autora de livro sobre o compositor, com título, de que não me recordo, que alude às músicas que não ouvimos. Fazer ouvir o que mal escutamos talvez seja um traço essencial da poética de Kleber Mendonça Filho.
- Achar que um filme é ruim porque, no final, não ocorreu o fim da sociedade de classes é de um esquerdismo que não chega a ser juvenil; ele parou na idade dos contos de fadas. Revoluções precisam de uma mentalidade mais adulta.
- Decretar que o filme é fraco por não ser de esquerda, ou não ser de esquerda o suficiente, é outro caso de esquerdismo, porém senil, de gente de um sectarismo velho, que não ouve Stravinsky porque ele era de direita e não lê Fernando Pessoa porque o poeta era contrário à democracia. A senilidade sectária também existe no lado oposto: gente de direita que não lê García-Lorca...
- Considerar que a qualidade de uma obra depende de o personagem principal chegar a uma consciência mais completa de si mesmo significa confundir cinema com psicanálise para personagens. Grandes obras sobre a alienação não resolvida foram feitas, inclusive no cinema. Trata-se, aliás, de personagens pungentes.
- Acreditar que as declarações do autor trazem a verdade sobre a obra é de uma inocência tão assustadora quanto a do segundo item. Se o cineasta diz que retratou uma presidenta impedida em sua personagem principal, espero que a declaração seja fruto de alguma militância, e não de uma convicção profunda, que seria muito equivocada. A presidenta afastada estava do lado das grandes empreiteiras e dos projetos desenvolvimentistas, ecocidas (Belo Monte é só um dos exemplos). Se ela estivesse retratada no filme, seria o personagem que não aparece e mandou licenciar o empreendimento contra o qual luta a personagem principal de Aquarius.
- Comentar que o filme é fraco porque leva a uma identificação da plateia com a personagem principal pressupõe que o público é homogêneo. Pelo contrário, creio que as questões de gênero (cuidadosamente escamoteadas por boa parte das resenhas que li) podem levar muitas pessoas a terem até repulsa da personagem. A vida sexual da mulher de terceira idade, ou da mulher mastectomizada, ou da mulher tout court continua sendo tabu para muita gente. Pareceu-me belo que o filme não fingisse, na propaganda, ser "para toda família". A divulgação destacou uma conclamação de boicote do filme feita por aquele "lúcido" crítico que escreveu certa vez que Drummond não sabia escrever sonetos...
- É interessante notar como o filme é diferente do cinema político dos anos 1960 (ainda bem, para que cópias requentadas do cinema novo?), mas ignorar que as questões de gênero fazem parte dessa diferença significa não só ignorar a história do cinema, mas a própria história tout court.