Uma das poucas coisas que unem os partidos políticos é o ataque à educação pública, isto é, à educação
tout court. A progressiva
destruição do Inep pelo governo federal, o estado pós-colapso das escolas do maior Estado da federação, governado pelo partido que faz oposição àquele que governa a União, o crescimento metastático dos conglomerados que exploram o ensino superior (superior apenas no nome, basta ver a qualidade de sua produção científica e políticas como a de degola de doutores), e mesmo episódios, tão ridículos quanto significativos, como os dos políticos que transitam entre governos de uma sigla (PT) ou de outra (PSDB), como é o caso de Chalita (ele mesmo um exemplo do baixo prestígio da educação, com sua histórica reciclagem de dissertação - vejam
nesta ligação), no momento no PMDB, que foi secretário de Geraldo Alckmin e hoje é de Fernando Haddad,
e é novamente investigado por formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, peculato, corrupção ativa e passiva e fraude à licitação.
Há diversos outros exemplos desses ataques à educação e à pesquisa, em geral por meio de transferência do patrimônio público para grupos privados; aparentemente, é o que ocorrerá com o futuro
Código Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, aprovado pelo Congresso no dia 9 de novembro, e que seguiu para sanção presidencial.
Os professores já se mostraram, diversas vezes, impotentes para lutar contra esse processo, e especialmente fracos para lutar contra as entidades que os representam e fazem o jogo dos governos. Faltava-lhes, creio, construir alianças com outros grupos, ou talvez, assumir que o principal sujeito do processo de educação é o aluno.
Conheci diversos colegas que recusavam essa noção (que me parece óbvia) a respeito do papel fundamental do estudante e, ainda mais, alunos que o recusavam, preferindo uma postura passiva, que não exigisse muito esforço nem levasse ao risco de aprender algo. No entanto, o levante dos estudantes dos colégios de São Paulo parece desmentir esses maus professores e maus alunos: a educação somente pode acontecer se os alunos se levam a sério como sujeitos ativos.
O governo do Estado de São Paulo resolveu fechar 93 escolas e os estudantes reagiram ocupando, no momento máximo do movimento, em torno de 200 delas (chegou
a 219 nesta lista; vejam
o mapa). Tecnicamente, os motivos do governo foram contestados mais de uma vez por especialistas (por exemplo, por
pesquisadores da UABC e
da Unicamp) e a tentativa autoritária de fechamento (eufemisticamente chamada de "reorganização escolar" pelo governador e por seus diversos assessores de imprensa nos grandes meios de comunicação). Os motivos "técnicos" eram negados também
pelas salas superlotadas e pela evidência de que o governo iria simplesmente reduzir os recursos para a Educação pelo segundo ano consecutivo:
http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,alckmin-reduz-participacao-da-educacao-no-orcamento-pelo-2-ano,10000003217
O governo, por sinal, sabia de antemão que estava batido no campo técnico e, de forma autoritária, decidiu atacar as próprias universidades estaduais, que não compactuaram com a "reorganização". Cito
Luiz Carlos de Freitas em artigo de 3 de dezembro:
Sem consultar ninguém, inclusive o
sistema público de Universidades que o próprio Estado paga, preferiu
ouvir consultorias privadas pagas por empresários que ofereceram a ele
receitas milagrosas já fracassadas em outras plagas, para ressuscitar o
moribundo sistema educacional do Estado que segundo seu próprio
Secretário de Educação, é uma vergonha.
O Secretário ao proferir sentença de
morte para o sistema educacional que administra, esqueceu-se apenas de
que é o seu partido, o PSDB, que está no poder há mais de 20 anos no
Estado e que, a vergonha que ele sente, deve-se à política traçada por
este mesmo partido ao longo de sua longeva presença no poder estadual.
As autoridades surpreenderam-se com a criativa reação dos estudantes e reagiram com suas armas habituais: não o diálogo, terreno em que o governo perderia e em que já foi derrotado, mas as bombas. Em seu procedimento usual com os problemas sociais, o governo do Estado fez com que a Secretaria de Segurança assumisse a questão; como na República Velha, a questão social é tratada como questão de polícia. Há diversas matérias sobre o e
spancamento de estudantes por policiais,
violações do Estatuto da Criança e do Adolescente no uso de armas,
spray de pimenta e algemas,
menino de cueca carregado
pela polícia e
ameaçado para "sumir"; denúncia de
racismo e assédio sexual; outros
vídeos desconcertantes de agressões físicas aos alunos; estudantes apreendidos
por filmarem na rua;
uso de cassetete contra menores manifestantes pacíficos; uso de bombas de gás e
outros instrumentos de repressão também no ato de 9 de dezembro, em que os estudantes
fecharam a Paulista,
tentaram seguir até a República e
foram atingidos pela polícia etc. Ariel de Castro Alves afirmou que
foram cometidos diversos crimes contra os estudantes. A
Anistia Internacional, em 4 de dezembro, criticou a repressão às manifestações pacíficas e o uso excessivo de força contra os estudantes. Vejam nesta foto que a violência se dirigiu também contra os jornalistas:
http://www.abraji.org.br/?id=90&id_noticia=3310
Apesar de tudo isso, e de escolas terem sido depredadas enquanto estavam ocupadas pela polícia (
conforme indica este vídeo), o governador acaba de declarar, em 16 de dezembro, que pretende
investigar e responsabilizar os estudantes.
Os alunos lograram se organizar apesar das entidades que supostamente os representam (vejam
o non sense da UNE e da Ubes ao reivindicar para si a luta alheia; da Umes, ao
querer a desocupação) e dos partidos que historicamente manipulam o movimento estudantil,
como o PCdoB.
“A UNE, a Ubes, a Umes não têm a mesma liberdade que temos", constatou
um dos líderes do movimento, Eudes Cássio da Silva Oliveira.
A foto ao lado, contra o que foi bem chamado de "desorganização" das escolas, tirei-a na Escola Estadual Fidelino Figueiredo. A do começo deste texto, de cartazes nos tapumes que cercam o Centro Cultural dos Correios.
A ocupação das escolas gerou cenas comoventes como as dos alunos pintando e lavando as instalações, descuidadas pelo poder público, descobrindo material escolar oculto pelos diretores, e tendo
aulas e atividades extracurriculares de que foram impedidos de desfrutar. É o governador, não os jovens, quem "mata aula", segundo este brilhante cartaz:
https://twitter.com/saturnoretorna/status/673231201478529024
Por sinal, recomendo o blogue do
professor e escritor Rodrigo Ciríaco, que escreveu em 5 de novembro ("Quando as máscaras caem") sobre a conivência de certos diretores e professores com a política estadual: