O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

"Junco", de Nuno Ramos

Já escrevi nota anterior que anunciava um texto que me encomendaram sobre Nuno Ramos: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2011/08/nuno-ramos-e-o-trabalho-do-informe.html
O livro ainda não saiu e o escritor lançou novo livro, Junco. Por esse motivo, fiz este breve adendo ao texto, que deve ser publicado em 2013:



No ano seguinte a este artigo ter sido terminado, Nuno Ramos lançou Junco (São Paulo: Iluminuras, 2011), seu primeiro livro de poesia todo composto em versos. As imagens das águas e da praia e dos fragmentos poderiam levar a crer que o escritor tivesse desejado criar um The Waste Land particular ("These fragments I have shored against my ruins"). No entanto, a realização literária afasta o paralelo.
Se O mau vidraceiro já mostrava uma dissolução da complexidade de Ó, o livro novo decepciona por levar adiante essa facilitação. A antes complexa interação entre texto e imagem cedeu lugar a écfrases simples. Alguns poemas parecem meras ilustrações das foto reproduzidas. Certos momentos assemelham-se a cópias dulcificadas de Manoel de Barros ("aqui dois pardais se amaram/ antes da minha chegada", p. 23; "Mas já velho e navegado/ desejoso apenas de contar/ os grãos de chão mais reles", p. 111). O espírito da autoajuda paira perigosamente sobre "O chão é a grande pergunta/ haver chão/ se tudo voa/ e quer cantar." (p. 53).
Reiterações dos outros livros podem ser identificadas, com os corvos (“os alicates das mandíbulas/ em pequenas bicadas”, p. 39), os urubus, em previsíveis aliterações com u (“Procuro no núcleo/ azul o útero exato/ que exala essa fornalha/ até mim// o último urubu do mundo.”, p. 51), os cães (“O cão, velho cão/ é tempo/ intervalo/ entre duas chuvas.”, p. 73), e momentos que parecem esboços para Ó (“Um poema se fez!, aviso/ num pito/ voltem à praia onde juncos/ moles, brancos/ aspargos sobre carvalhos mortos/ boiam formando palavras”, p. 89; “Dizemos ó/ e nosso corpo/ expande a baía”, p. 102-3). Não há novos territórios conquistados.
O último poema emprega trechos de “A máquina do mundo” de Carlos Drummond de Andrade. Seu interesse está em revelar as diferenças entre os dois escritores. A “máquina”, em Drummond, está fora do sujeito: ele a encontra na estrada pedregosa de Minas, mas recusa olhar “a estranha ordem geométrica de tudo” e segue adiante. No poema de Nuno Ramos, o sujeito não só não deixa de olhar os “fantasmas”, “texturas, corpos sólidos” (p. 114), como essas imagens são dadas pela lágrima dele mesmo, que as reflete num “espelho enciclopédico” (p. 115) e acaba por cair e se misturar às ondas na “praia, praia, praia, praia” (o verso final, p. 115). A autoconfiança do poeta Nuno Ramos chega ao ápice nesse ponto. O gesto de baixar o rosto, em Drummond, que vem no momento de recusa à revelação da máquina, é o mesmo gesto que permite à lágrima onisciente no poema de Nuno Ramos cair e revelar-se “numa glória transparente” (p. 114).
Há problemas de versificação. A forma, em geral, não é feliz, e certas tentativas de quebrar os versos são canhestras: “Rep/ ara/ nada para/ até a casca/ das árvores e a pedra”, p. 81). A rima, quando aparece, também é primária (“O chão sob a cal/ tem a língua de sal.// A enguia de areia/ presa na rede// seca de sede.”, p. 31; “Por isso durmo e não pergunto/ junto aos juncos.”, p. 11). Alguns poemas, porém, salvam-se do naufrágio involuntário, como o 17º (“Ama, disse meu olho/ os dois íntimos contrários/ areia e mar”).
Note-se também que a modesta qualidade gráfica desta edição da Iluminuras prejudica bastante o livro, pois as imagens que os poemas espelham não são bem reproduzidas.
Parece-me significativo que, ao tentar deixar bem nítida a marca de gênero, escrevendo em verso, Nuno Ramos tenha feito seu livro mais fraco. Sua força, que é a do informe, perde-se. Alberto Tassinari, em texto publicado numa obra essencial para a compreensão do artista plástico Nuno Ramos, escreveu, contrastando-o com Hélio Oiticica, que “Em Nuno, ao contrário, não há um teste dos limites da arte além de cada gênero.” 18 O comentário não é verdadeiro para a literatura.


18 TASSINARI, Alberto. O caminho dos limites. Nuno Ramos. Org. de Ricardo Sardenberg. Rio de Janeiro: Cobogó, p. 21.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Poesia e bem-estar ou editais antidrummondianos entre sombras

Não irei desprestigiar este concurso participando dele. Não obstante, gostaria de avisar que o SESC, cuja presença na vida cultural brasileira é tão marcante, lançou edital de concurso de poesia que recebe o nome de Carlos Drummond de Andrade - logo ele, que não aceitava prêmios.
O concurso também é antidrummondiano no art. 7º do edital, que prevê que "As poesias devem conter elementos que promovam o bem-estar e os valores morais."
O prêmio é antigidiano! Ou foi criado para barrar Baudelaire, uma vez que as únicas flores admitidas são as do bem?
O poeta, tradutor e designer André Vallias escreveu um poema que genialmente mostra o que fazer. O exemplo, no entanto, pode não ser suficiente. Para ajudar os poetas neófitos que participarão do certame edificante, ofereço dicas do que deve ser cuidadosamente evitado. Exemplos que talvez sejam de poesia, mas nunca de altos valores morais, que é o que importa quando a poesia falta - e ela nos falta sempre, tão necessária que é:


Promoção do alcoolismo e outras adições:

mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
(Poema de sete faces, Alguma poesia)

O poeta ia bêbedo no bonde.
(Aurora, Brejo das almas)
mal sabe ele que o  artigo 18
autoriza porres até de absinto;
(Noite na repartição, A rosa do povo)


Insalubridade e falta de asseio:

Olho os meus pés, como cresceram, moscas entre eles circulam.
(Os rostos imóveis, José)
Minha mão está suja.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
(A mão suja, José)
Que morador resiste
à sensualidade de comer galinha azul?
(Favelário nacional, Corpo)
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
(Resíduo, A rosa do povo)
não catei o verme nem curei a sarna.
(Confissão, Claro enigma)



Incitação ao suicídio (o Código Penal deve ser consultado junto com o Dicionário de Rimas):

Quero a última ração do vácuo,
a última danação, parágrafo penúltimo
do estado - menos que isso - de não ser.
(Sono limpo, Farewell)
As complicadas instalações de gás,
úteis para o suicídio.
(Edifício Esplendor, José)
e disse apenas alguns
de tantos que escolheram
o dia a hora o gesto
00000000o meio
00000000a dis-
00000000solução
(Homenagem, As impurezas do branco)


Devassidão múltipla: incesto, pornografia, sadismo, bestialismo e transexualismo:


viste em mim teu pai morto, e brincamos de incesto.
(De arredio motel em colcha de Damasco, O amor natural)

Oh! sejamos pornográficos
(Em face dos últimos acontecimentos, Brejo das almas)
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.
(O lutador, José)
e esse cavalo solto pela cama
(O quarto em desordem, Fazendeiro do ar)
João vira Joana: acontecem
dessas coisas sem preceito.
(A história de João-Joana, Versiprosa)


Desrespeito à Bioética:

Bate na vaca, bate.
(O fazendeiro e a morte, Boitempo)
o homem e a poluição fazendo amor.
(Antibucólica 1972, Discurso de primavera e algumas sombras)


Crítica ao progresso tecnológico ou antidesenvolvimentismo regressivo (falha gravíssima para a atual administração federal e para os intelectuais radicais a favor):

Com seu satânico poder,
os mísseis enterram a História.
(Os amores e os mísseis, Corpo)
Vinde feras e vinde pássaros, restaurar em sua terra este habitante sem raízes,
(Chamado geral, Boitempo)
Como esses primitivos que carregam por toda a parte o maxilar inferior de seus mortos,
(Tarde de maio, Claro enigma)
A bomba
0000furtou e corrompeu elementos da natureza e mais furtara e mais corrompera
(A bomba, Lição de coisas)



Desacato e calúnia contra funcionário público (não procurar poesia no Código Penal):

Ó burocratas!
Que ódio vos tenho, [...]
(Escravo em Papelópolis, Farewell)
Que fazem os juízes modorrantes
à brisa nas cadeiras da calçada,
(A paz entre os juízes, Boitempo)
[...] é gente da polícia
- sadismo, horror - que após muita sevícia
vai jogando mendigos desgraçados
à correnteza, [...]
(Jornal em verso, Versiprosa)


Desrespeito à pátria:

O Brasil só tem canibais.
(Fuga, Alguma poesia)
proclamou-se levianamente a República.
(Malogro, Boitempo)
323 casos de afogamento
no feriado nacional
(Diamundo, As impurezas do branco)

Descrença e blasfêmia:

[...] Jeová em sua pujança
castigando as criaturas infames e as outras: igualmente.
(Canções de alinhavo, Corpo)
E se Deus é canhoto
(Hipótese, Corpo)
O homem arrependo-me
da criação de Deus,
(Versos de Deus, A paixão medida)
o único absurdo é Deus
o único culpado é Deus
(Único, As impurezas do branco)


Terrorismo:


Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
(Elegia 1938, Sentimento do Mundo)
Por fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
(A flor e a náusea, A rosa do povo)
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, [...]
(Nosso tempo, A rosa do povo)


A lista poderia estender-se, mas tenho que terminar outro texto. Creio que ela permitirá aos iniciantes uma visão clara do que não será admitido no concurso.
Escrever cartinhas lacrimosas para os poetas mortos é uma bela pedida, ao contrário dos exemplos ímpios que transcrevi. Afinal, chorar gera alívio e bem-estar, muito úteis quando a poesia falta.
A partir dos exemplos blasfemos e violentos e devassos, não pensem, contudo, que esse poeta que citei e cujo nome me foge era completamente desprovido de qualidades cívicas. Isso já seria demais! Ele demonstrou muito respeito pela Política literária (Alguma poesia).
Quando a poesia falta, é tal política que permite ganhar prêmios...

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

País bloqueado: Drummond e Nabuco

Vi Eduardo Sterzi, no último sábado, falar de A rosa do povo na Biblioteca Mário de Andrade, com as intervenções poéticas da Companhia da Flor (boa escolha para um livro em que flores têm um papel tão importante). Esse foi o primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade que tive, ainda na adolescência, numa edição do Círculo do Livro. O livro sempre foi um dos meus favoritos.
Um dos poemas que mais me despertaram a curiosidade foi o Áporo, que tem aquele verso de uma palavra só, "antieuclidiana". Sterzi, com pouco tempo, falou da interpretação que Décio Pignatari deu ao poema, vinculando-o a Prestes ("presto se desata"), mas não da de Davi Arrigucci Jr. nem da sua própria. Enquanto isso, eu lembrava de Joaquim Nabuco.
O segundo quarteto do admirável poema de Drummond (alguém lembra de uma das críticas mais ridículas da literatura brasileira, que defendia que ele não era um grande escritor porque não escreveu romances e porque não teria sido autor de grandes sonetos?) emprega a expressão memorável "pais bloqueado", que Sterzi toma para si no livro O aleijão.
Parece-me, contudo, que Drummond pode ter-se inspirado em Joaquim Nabuco para escrevê-la. Em O Abolicionismo, Nabuco, escreve sobre o "país fechado" que seria o Brasil de seu tempo:

O funcionalismo é, como já vimos, o asilo dos descendentes das antigas famílias ricas e fidalgas, que desbarataram as fortunas realizadas pela escravidão [...] É além disso o viveiro político, porque abriga todos os pobres inteligentes, todos os que têm ambição e capacidade, mas não têm meios, e que são a grande maioria dos nossos homens de merecimento. Faça-se uma lista dos nossos estadistas pobres, de primeira e segunda ordem, que resolveram o seu problema individual pelo casamento rico, isto é, na maior parte dos casos, tornando-se humildes clientes da escravidão; e outra dos que o resolveram pela acumulação de cargos públicos, e ter-se-ão, nessas duas listas, os nomes de quase todos eles. Isso significa que o país está fechado em quase todas as direções [...]
A classe dos que assim vivem com os olhos voltados para a munificência do governo é extremamente numerosa, e diretamente filha da escravidão, porque ela não consente outra carreira aos brasileiros, havendo abarcado a terra, degradado o trabalho, corrompido o sentimento de altivez pessoal em desprexo por quem trabalha em posição inferior a outro, ou não faz trabalhar.

O bloqueio, parece-me, tem o sentido de tudo ter de passar pela administração pública, que é apreendida por interesses privados, que, na época, não era outro senão o do escravismo. Dessa forma, "o servilismo e a adulação são a escada pela qual se sobe", e "os empregados públicos são os servos da gleba do governo".
Talvez não seja abusivo, portanto, pensar que também nesse poema os temas do funcionário e da fazenda - característicos do Brasil de Drummond - estariam presentes e fariam parte do "labirinto".
Ademais, se Drummond estaria a dialogar com Nabuco, não seria a qualificação "antieuclidiana" uma referência não ao geômetra antigo, que teria deixado de prever as formas da flor, e sim a Euclides da Cunha, esse outro nome do pensamento nacional? Os impasses que Nabuco viu na monarquia continuavam na república, podemos lê-los em Euclides.
Dessa forma, a orquídea - como a flor que vence o asfalto em "A flor e a náusea" - superaria a sanha genocida do governo e das forças armadas, o coronelismo e a pobreza? O determinismo e o racismo, presentes em Os sertões? "Crimes da terra, como perdoá-los?"
É bem possível. Mas o sentido de "Áporo" sempre escapará, pois é poesia, e um poema trata sempre de algo e de outra coisa: "e uma rosa se abre, um segredo comunica-se, o poeta anunciou,/ o poeta, nas trevas, anunciou."