O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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sexta-feira, 21 de junho de 2024

Desarquivando o Brasil CC: Uma nota sobre Chico Buarque e censura na ocasião de seus 80 anos

Tive a ideia de escrever esta nota porque, em 19 de junho de 2024, aniversário de oitenta anos de Chico Buarque, o jornalista Evandro Éboli publicou no Twitter um documento da Censura sobre a peça Roda Viva, em que o censor Mario F. Russomano indagava se "Francisco Buarque de Holanda" seria "débil mental". 

A imbecilidade da questão sobre um dos artistas mais brilhantes da história do Brasil refletia bem  o rebaixado estado mental da ditadura militar.

O documento, explicou Éboli, estava exposto no Arquivo Nacional em um banner que o então ocupante da presidência da república, o militar Jair Bolsonaro (outra "página infeliz de nossa história"), negacionista nos planos da ciência e da história, mandou retirar:



As expressões "de baixo calão" que ofenderam os censores tinham sido contribuições de Zé Celso, o saudoso indisciplinador de mentes e corpos, que dirigia a peça. Exatamente por causa das mudanças no texto, a Censura havia decidido voltar a examinar o espetáculo; neste despacho de 25 de janeiro de 1968, o Censor Federal Augusto da Costa explica que "nas seguintes apresentações para o público, as marcações foram acrescidas de novas ideias que ocorreram ao seu diretor no afã de procurar um aprimoramento para o espetáculo, que deram ao mesmo nova dimensão quanto a restrição de idade", sugerindo o limite de 18 anos:



A peça sofreu ataques dos grupos da extrema-direita (Marília Pêra foi espancada grávida em São Paulo pelos fascistas do CCC, o Comando de Caça aos Comunistas, que invadiram o teatro de Ruth Escobar) e acabou sendo proibida. A peça Calabar: o elogio da traição, de 1973, que escreveu com Ruy Guerra, também seria censurada. Em 2018, meio século depois, Zé Celso remontou Roda viva no Teatro Oficina. 

Chico Buarque foi censurado como compositor e dramaturgo, o que é amplamente conhecido. Sabe-se também do exílio de precaução que ele viveu na Itália de 1969 a 1970. Depois de voltar ao Brasil, ele continuava a ser vigiado, inclusive no exterior. Nesta edição de 1973 do Boletim Comunismo Internacional, um documento reservado do SNI, sua viagem à Argentina foi enquadrada como "campanha contra o Brasil no exterior". Passo agora a reproduzir documentos que estão no Fundo DEOPS/SP do Arquivo Público do Estado de São Paulo:



Ele teria dito que "as circunstâncias atuais fazem com que toda a música seja política [...]; toda a música está cumprindo uma função política, na medida em que é utilizada de acordo com planos bem claros." Era a época do chamado "circuito universitário" de apresentação de artistas:



Ele disse preferir essas apresentações à televisão. No entanto, os estudantes também eram um grupo suspeito para a ditadura. Por isso, os agentes da repressão acompanhavam-no. Vejam como o delegado Romeu Tuma (um dos 377 autores de graves violações de direitos humanos segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade) escrevia em código os nomes de Chico Buarque e do MPB-4, querendo saber se tinha havido agitação estudantil e propaganda subversiva nesta apresentação de outubro de 1972:



Não tinha ocorrido nenhuma agitação desse tipo. No entanto, ele era um artista visado: "você não gosta de mim, mas sua filha gosta", ele escreveria no ano seguinte sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide, criado para escapar da marcação cerrada da censura. O Centro de Informações do Exército (CIE) caracterizava o artista em termos de "proselitismo desagregador", "mantendo os estudantes em permanente expectativa política":



Vejam que foram incluídos nessa categoria de artistas incômodos à ditadura Alaíde Costa, Capinan, Edu Lobo, Egberto Gismonti, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Jards Macalé, Marília Medalha, Milton Nascimento, MPB-4, Nara Leão, Sérgio Ricardo, Trio Mocotó, Vinicius de Moraes e Ziraldo. Bela lista.

Na soi-disant abertura, ele continuava a ser censurado, claro, assim como outros artistas. Em 1977, ocorreu a censura dessa apresentação dele com Bibi Ferreira, Edu Lobo, Milton Nascimento  e MPB-4, todos considerados pelas autoridades como "artistas tradicionalmente contestadores ao regime". A apresentação teve de ser adiada e o local, mudado. 



Trata-se de um informe de 12 de julho de 1977 da Coordenação de Informações e Operações da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Já haviam sido vendidos três mil e trezentos ingressos.

Apesar disso, a ditadura militar chegou a usar sua música sem autorização: "A banda", um de seus primeiros sucessos, com sua letra inofensiva para o regime, foi capturada para incentivar o alistamento militar, o que provocou o protesto do músico. Esta é a notícia que saiu no boletim de março de 1972 do boletim de março de 1972 do "Frente Brasileño de Informaciones", o irônico FBI dos exilados (só no exterior as denúncias deles podiam ser ouvidas, em razão da censura no Brasil), editado no Chile:



Lembro disso porque, meio século depois, na campanha eleitoral de 2022, o membro da família Bolsonaro que os paulistas se acostumaram a eleger como deputado federal se apropriou de "Roda viva", nada menos, para suas redes sociais, em postagem que pretendia que o Brasil estaria sob censura porque bolsonaristas estavam sendo processados!

Chico Buarque, um conhecido apoiador de Lula, processou o político. A magistrada Monica Ribeiro Teixeira inscreveu seu nome na longa história de conflito do Judiciário com os artistas brasileiros indeferindo o pedido sob o insólito pretexto de que não havia prova de que a canção de 1967 era de sua autoria

Vejam o compositor com o MPB-4 defendendo a canção no Festival da Record: https://www.youtube.com/watch?v=3ALZNNUQdYM. Ela ficou em terceiro lugar, depois de "Ponteio", de Edu Lobo e Capinan, a vencedora, e "Domingo no parque", de Gilberto Gil. Em quarto, "Alegria, alegria", de Caetano Veloso. Que ano para a música popular brasileira! Se o Judiciário tivesse memória... O próprio direito à memória encontra dificuldades no campo judicial, problema que já abordei aqui e alhures algumas vezes.

Proposta nova ação contra o deputado federal, o juiz Fernando Rocha Lovisi mandou que a postagem fosse retirada. Era dezembro de 2022, aquele filho do ainda ocupante da presidência já estava reeleito. O estrago que a postagem podia causar, no sentido de ganhos eleitoreiros para o violador dos direitos do compositor, já estava feito, porém.

Curiosamente, em agosto de 2023, o Judiciário reconheceu o abuso mas não determinou indenização para Chico Buarque, embora ele tivesse ganhado indenização em outro processo, contra o Bolsonaro que é senador pelo Rio de Janeiro, que usou sua imagem em postagem em redes sociais.

A ação judicial deve durar alguns anos e não deixa de mostrar que nem tanto mudou no estado mental de nossas autoridades, o que a volta explícita dos militares ao poder, ensejada pelo golpe de 2016, pareceu tristemente comprovar: eles continuaram os mesmos.

Felizmente, pode-se constatar algo semelhante em Chico Buarque: ao contrário de alguns de seus colegas, ele permaneceu fiel a si mesmo ao longo das décadas e nunca "estancou" ou "deixou de cumprir".


sábado, 28 de janeiro de 2017

30 dias de canções: Um retrato à beira da razão, de Tom e Chico

30 dias de canções
Dia 1: Uma canção com uma cor no título

Até mais de uma cor: duas. "Retrato em branco e preto", de Tom Jobim e Chico Buarque. Ou nenhuma, de certa forma: se o retrato é em branco e preto, não é colorido.
Antes de a parceria com Chico Buarque existir, Tom Jobim havia composto e gravado um tema instrumental a que deu o título "Zingaro"; está no disco "A certain Mr. Jobim", de 1967. O arranjo é de Claus Ogerman.
Jobim, em 1968, acabou oferecendo o tema para o jovem Chico Buarque letrá-lo, no que se tornou a primeira canção da parceria, uma das mais notáveis da música brasileira. Ademais, trata-se de uma das melhores canções da dupla. 
Helena Jobim, no livro sobre seu irmão, Antonio Carlos Jobim: Um Homem Iluminado, escreveu que Jobim telefonou para Chico Buarque ir a sua casa e tocou-lhe diversas vezes "Zingaro"; a música foi gravada em fita para Chico Buarque criar os versos sozinho, o que fez em "poucos dias". Ele a gravou naquele mesmo ano, em arranjo do maestro Gaya.
Vejam a partitura, em arranjo de Paulo Jobim, no portal do Instituto Antonio Carlos Jobim.
Com a entrada de Chico Buarque, o título e o clima da música mudaram completamente: a nova música agora trata de um amor que não deu certo, mas a que se está aprisionado. Esse amor "que eu nego tanto" e que "volta a sempre a enfeitiçar/ Com seus mesmos tristes velhos fatos,/ que num álbum de retratos, eu teimo em colecionar". 
O desacerto psíquico é dado pela sintaxe; a certa altura, um vocativo interrompe uma enumeração que descreve o seu estado : "Novos dias tristes, noites claras/ Versos, cartas, minha cara,/ Ainda volto a lhe escrever". O que exatamente ocorreu? Um dos elementos geniais da letra é jamais contar o que foram os "tristes velhos fatos", não precisar fazê-lo: "Eu trago o peito tão marcado/ De lembranças do passado/ E você sabe a razão". Trata-se quase do funcionamento dos mecanismos do trauma.
O intérprete desta canção deve ficar muito atento: as frases musicais sobem e descem de forma quase tão sutil quanto "O último desejo" de Noel Rosa.
O título aparece apenas no penúltimo verso. Por que em branco e preto, se todos falam "em preto e branco"? Isso teria incomodado Tom Jobim, segundo li no texto de José Ruy Gandra para a reedição do disco Chico Buarque de Hollanda - Volume 3, em que o compositor a gravou. Chico Buarque teria respondido com isto: "Vou colecionar mais um tamanco/ Outro retrato em preto e branco".
É certo que retrato em "branco e preto" apresenta uma singularidade que o cotidiano "em preto e branco" não tem, chamando a atenção para o título e sugerindo, creio, a desolação. Cotidiano, de fato: a foto em branco e preto, nos anos 1960 no Brasil, era muito mais comum que a foto colorida.
A história, no entanto, chama a atenção para outra questão: o foco da letra talvez fosse a palavra soneto e, por isso, o compositor não quisesse dispensar a palavra da rima - preto - que teria que ficar no final.
A imagem da coleção de sonetos também é invulgar. A letra não adota essa forma poética. Se o soneto era tão necessário a Chico Buarque, talvez fosse por influência ou alusão a outro parceiro de Tom Jobim, mais velho e mais célebre, e com cuja sombra o jovem compositor teria que se defrontar: o poeta e conhecido sonetista Vinicius de Moraes (por sinal, Tom Jobim já havia musicado o "Soneto da separação").
Como os compositores interpretaram a canção? Chico Buarque gravou a música com um canto macio, sem tensões. No histórico disco de 1974, Elis e Tom, a abertura dramática do arranjo de César Camargo Mariano, com cordas e o piano de Jobim, faz o canto de Elis Regina parecer ainda mais desconcertante: a dinâmica vocal nunca vai para o forte (o que é surpreendente tratando-se desta cantora, mas não neste disco), a maior parte do tempo a voz é mantida em baixo volume. No entanto, a emissão marcada de certas notas impede qualquer sensação de serenidade, ao contrário do que ocorre com Chico Buarque. Essas duas particularidades da interpretação de Elis Regina deixam a impressão de uma dor muito interiorizada, um lamento que não pode ser dito em voz alta. Quando ela se cala e o piano e as cordas fecham a música, o drama volta ser explícito e o clima lembra o de Chausson na "Chanson perpétuelle". Por sinal, Tom Jobim, pelo que li, ouvia muito a música francesa dessa época.
Evidentemente, os intérpretes não precisam, neste estilo, se prender à intenção dos compositores. Uma interpretação completamente diferente dessas duas é a de Ney Matogrosso e Raphael Rabello em "À flor da pele", disco de 1990. Eu vi ambos ao vivo interpretando essa canção exatamente como o fizeram no disco: contrastes de dinâmica (tanto no violão quanto na voz), notas em marcato, num discurso exacerbado (que, é claro, chocará os que preferem a interpretação suave, com os graves falados e os agudos omitidos ou enrouquecidos, de João Gilberto) que leva, no 24o. compasso da partitura segundo Paulo Jobim, a um salto para o agudo em uma frase que deveria descer, culminando em um belo agudo em falsete na palavra "razão". 
Razão; justamente o que a canção não diz (isto é, o motivo do fracasso daquele amor), e que o eu lírico, ali, parece estar à beira de perder.