O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Despacificar o país ou Uma volta pela lagoa, de Juliana Krapp

O sangue da menstruação, mas também o do aborto e até o das chacinas estão entre as coisas que escorrem nos poemas de Uma volta pela lagoa, de Juliana Krapp (Círculo de Poemas, 2023). Há momentos mais elusivos no livro, que outros leitores preferirão, porém o que me convenceu foi o cruzamento entre as violências domésticas e públicas e o seu vetor comum, o patriarcalismo.

Muito apropriadamente, o primeiro poema chama-se "Meu pai" e não tem nada da ternura que outros poetas encontram a tratar dessa figura (como "Pai", de Fabio Weintraub, em Novo endereço): pregos, revólver, cassetete, farda, cova rasa; "[...] o sangue/ do meu pai corre em mim como corre o medo de que me pegue em flagrante".

No entanto, quem morre no poema é o pai, de um tumor e, antes dele, com a ajuda da filha, o cabrito que ela ajudou a segurar enquanto o pai o abria com a faca: "[...] meu pai enterrou/ a faca bem na testa do cabrito eu vi o mesmo lugar/ onde nele crescia o tumor eu ouvi o urro eu vi o sangue/ brotar instantâneo [...]".

Pode-se pensar em tanta coisa: numa inversão da cena do sacrifício (não realizado) de Isaac por Abraão, especialmente em relação à questão do gênero, mas também numa radicalização da "estranha ideia de família/ viajando através da carne", de Drummond, com ênfase na violência. Por sinal, vejo também uma espécie de alusão a Carlos Drummond de Andrade no poema "Casa", em que a aparição dos ratos lembra "Edifício Esplendor".

Depois desse momento familiar, nada mais adequado do que outro, o que dá título ao livro, um poema sobre aborto; destaco este momento de ternura e coágulo:


Estou seguindo em velocidade mais baixa que o normal
talvez para te proteger
o que não faz sentido
algum amanhã você não vai mais existir será
apenas um pouco de sangue
extraído de mim como fazem
os homens ao sugar do chão
o petróleo penso
se o que sairá
é mesmo sangue
do meu sangue decerto
substância se avolumando em coágulo e estigma a contagem
de hormônios única prova
de uma vida
que não houve


É interessante que o poema aluda a um lugar desde o título, provavelmente no Rio de Janeiro, como outros momentos do livro. A conhecida canção de Laura Nyro sobre aborto, "Gibsom Street", faz o mesmo, pois o trauma tem um local de nascimento; revisitar o endereço reviva-o.

Mais adiante, "Caju" alude ao cemitério do Rio de Janeiro na Zona Portuária em termos quase alquímicos: a matéria morre para se transmutar: "[...] a água que cresce/ como germe escuro  ao redor calafrio/ ante a morte ante aquilo que reverbera/ manchas de sangue sob os tonéis o úmido/ tornado negro [...]"; perto do fim, chega a "nesga de mar/ insidioso que nada retém nem desloca". O poema, dessa forma, realiza com uma fluidez notável essa passagem de imagens do sangue para o mar nesse espaço de morte.

O mar ressurge em "Bandeira", poema com que me identifiquei porque escrevi certa vez (nos Cinco lugares da fúria) sobre a bandeira nacional sendo impossivelmente pintada com secreções corporais durante uma sessão de tortura. Krapp imagina isto:


[...] eles podem
sobretudo estirá-la no assoalho
onde fazem as execuções e então logo será a imagem
autêntica de um país pacificado a firmeza o arrojo
da pátria a acolher o imobilismo você pode
usar um estilete sobre base sólida para recortar as estrelas
e pregá-las na blusa à moda do Terceiro Reich


Castro Alves, claro, viu antes de todos nós que a bandeira nacional é uma mortalha (em "O navio negreiro"); no entanto, como o problema não foi resolvido, pois o Estado continua a ser uma máquina genocida, temos que continuar a dizer essas coisas.

No poema de Krapp temos uma interessante imagem da apropriação dos símbolos nacionais pelos fascistas de hoje. O termo pacificação, que foi muito usado no Rio de Janeiro pelas políticas populistas de segurança do Estado (que tratam como inimigo interno as populações periféricas e racializadas), significa a paz das valas comuns.

Krapp, falando desse sangue derramado, opera no sentido oposto: uma denúncia da suposta "paz'". Essa denúncia tem sido feita por alguns dos melhores artistas brasileiros. Na música popular, pode-se lembrar de O Rappa e sua música "Minha alma (A paz que eu não quero)", com a letra de Marcelo Yuka.

O irônico e terrível "Romance de formação", de Krapp, não é um romance, claro, porém conta bem a história da formação de crianças de classe média assistindo à tortura e à chacina de crianças pobres nas ruas:


Cadáveres na porta de casa
grumos de sangue
ainda morno
esfregados com vassoura de piaçava água
da mangueira levando tudo embora

Ora amarrados uns aos outros
ora apenas uma cabeça
apartada do corpo ou um corpo
que lembra um tronco
à semelhança da árvore
convulsionada após o incêndio


No final, vemos o eu lírico passar de uniforme escolar, desviando a vista de tudo isso, com a menção à "blusa branquíssima", que devemos ler numa chave racial, creio; afinal, o poema começa com o verso "Cadáveres por todos os lados" (isolado e sem enjambement, o que é pouco frequente nesta poética) e os meninos são chamados de ratazanas e gambás pela vizinhança. Certamente não são brancos.

Os poemas mais elusivos usam também essas imagens de sangue e violência, porém dissolvidas em outras; alguns desses poemas parecem parafrasear Ana Cristina Cesar; cito "O que é realidade o que é ficção", que é um dos pontos altos deste livro. Esta passagem poderia estar em A teus pés:


é que seus poderes estão crescendo
agora que está virando mulher
mocinha
vespa-assassina
barata medusa todo carnaval

Há até um poema chamado "Ana C." que questiona essa poeta em termos nada condescendentes, porém com a bela imagem final da "mudez lasciva de vozes/ barganhando/ na água envenenada/ sob a folhagem escura".

"Conversa séria", outro poema mais próximo do fim, parece vir de outra autora: sua ironia é mais próxima da superfície, talvez para que leitores masculinos consigam entendê-lo: "[...] não é razoável/ que você os critique por frequentarem debates políticos/ enquanto não se importam com as mulheres que limpam suas privadas [...]".

Aqui também há uma operação de despacificação desses momentos maiores ou menores da ordem patriarcal. Para a autora, todos eles são igualmente importantes. Este verso, de "Gavetas em tempos difíceis" parece sintetizar essa poética: "Parecem miudezas, são molotov".



sábado, 11 de fevereiro de 2017

30 dias de canções: Nyro, as drogas e o transporte

30 dias de canções

Dia 8: Uma canção sobre drogas, legais ou não

"Been on a train", de Laura Nyro. Anos atrás, um amigo, poeta e historiador, me chamou a atenção para uma cantora e compositora que eu não conhecia, Amy Winehouse. Era o lançamento de "Rehab". Ouvi, gostei e comentei: a temática da droga e a repetição "no, no, no" lembravam uma canção dos anos 1960, "Poverty train", de Laura Nyro, outra cantora e compositora.
A diferença é que a situação imaginada por Winehouse circunscreve-se ao plano privado e familiar. Nyro enxerga o consumo de drogas em sua dimensão social e retrata pobres, em um trem, consumindo tóxicos. Ela descreve o efeito, no começo da música: se o adicto não for espancado (estamos bem na realidade, não no céu com diamantes), ele pode ver as paredes rugir, sentir seu cérebro no chão... Ao mesmo tempo, o "no, no" soa como uma tentativa de negação, a princípio fraca, https://youtu.be/Jxjk4Ck4vMA?t=1m26s, depois desesperada: https://youtu.be/Jxjk4Ck4vMA?t=2m29s.
O plano familiar surge, de forma interessante, depois de uma visão do Demônio: "Devil played with may brother/ Devil drove my mother". Nesse contexto, é mesmo de esperar que as relações familiares tenham se rompido ou estejam perturbadas.
A estrofe seguinte trata da fome que acomete esses pobres dependentes de tóxicos. Os versos "You're starving today/ But who cares anyway?" poderiam servir para as chamadas crackolândias de hoje e a reação dos indiferentes.
No fim, o eu lírico, que assume o papel do viciado, cala-se sob o impacto da "doce cocaína".
Nyro, contemporânea de Bob Dylan (o "y" do nome dela deve pronunciar-se da mesma forma que o dele), precursora de outras compositoras como Joni Mitchell, não é tão conhecida hoje quanto alguns de seus contemporâneos. Quem só quer da canção popular simples entretenimento, realmente não terá o mínimo interesse em ouvir a obra dela, não obstante suas primeiras canções terem proporcionado tantos sucessos a outros artistas (Blood, Sweat & Tears,The Fifth Dimension, Barbra Streisand...); Nyro, como se sabe, resolveu rejeitar o star system e recusou até mesmo aparecer na televisão, embora convidada por apresentadores como David Letterman. 
Há esta brilhante exceção de 1969, com "He's a runner" e a música que escreveu a partir do assassinato de John Kennedy, "Save the country".
De "Poverty train", há um vídeo da compositora em sua primeira aparição pública profissional, que ocorreu no Monterey Pop Festival em 1967. A banda é fraca - depois, ela nunca mais se apresentaria sem comandar o piano - mas ela cantou bem: https://www.youtube.com/watch?v=0YxIGXISEi4
Nyro gravou-a no seu segundo disco, "Eli and the thirteenth confession", de 1968, com uma alucinante flauta no arranjo de Charlie Calello.
Dito isso, não é essa a canção dela que escolho para os 30 dias de canções, e sim a segunda que escreveu sobre trens e drogas: "Been on a train". O fato de ela ter escrito duas canções com essa temática pode ter vindo tanto de observação do consumo em transportes públicos, ou pelo fato de que as drogas também transportam, pois levam a consciência para outras dimensões: a "trip", em "Poverty Train".
A segunda canção tornou-se música para balé criado por Alvin Ailey, "Cry" ( com a gravação original de Nyro: https://www.youtube.com/watch?v=d8mqPD_tARM), dedicado a "todas as mulheres negras em todos os lugares - especialmente nossas mães".
É de lembrar que a música que encerra o álbum "Christmas and the Beads of Sweat", de 1970, em que Nyro gravou "Been on a train", protesta contra a prisão dos Panteras Negras.
Michelle Kort, autora da biografia Soul Picnic: the Music and Passion of Laura Nyro, afirma que a compositora escreveu a canção inspirada provavelmente na morte de um primo no fim de 1969, em razão da heroína. 
A música encena um contato, no trem, com alguém que está a consumir drogas e que está a morrer lentamente; desta vez, o eu lírico não é do usuário, mas o de quem assiste ao consumo e se sente profundamente afetado; a letra repete "been on a train/ and I'm never gonna be the same".
Ela se dirige ao homem dizendo que há uma luz brilhante no vento do norte que pode levá-lo para casa, mas ele pede para que ela o deixe sozinho. 
A música torna-se mais agitada na estrofe seguinte; ela retruca "You got more tracks on you baby/ than the tracks of this train" e mais, até que ele diz, de forma tranquila, que só tem uma coisa para aliviar a dor; nesse momento, vem inesperadamente o forte súbito no extremo agudo: "No no/ damn you mister/ and I dragged him out the door": https://youtu.be/d8mqPD_tARM?t=3m08s
Depois do solo de piano, a narradora conta que ele morreu, e que ela nunca mais irá para o norte.
Outro compositor talvez acabasse neste ponto, preocupado com a extensão da faixa para o rádio (ela dura quase seis minutos). Não seria o caso de Nyro. Antes de retomar o "been on a train", ela diz que acha que dentro de um ou dois meses partirá um trem para o norte (aqui, evidentemente, uma imagem da terra dos mortos), e que ela ainda ouve as palavras dele: "There's nothing left to say or do". Ela discorda, muito suavemente: "but mister you were wrong/ and I'm gonna sing my song for you", isto é, a mesma canção que estamos ouvindo. 
A música não pôde salvá-lo, mas talvez pudesse conferir algum sentido à situação, àquela viagem.
A canção, pois, oferece dois aspectos da lei universal enunciada por Baudelaire, isto é, a embriaguez, seja, segundo o poeta, de vinho, de poesia ou de virtude, de acordo com as inclinações de cada um. Laura Nyro, que havia experimentado diversas substâncias da categoria baudelairiana "vinho", inclusive o ácido, acabou por preferir a música (droga da categoria "poesia") como fonte da embriaguez. Mas ela também provaria muito da virtude, a terceira categoria da lei universal de Baudelaire, engajando-se nas causas feministas, pacifistas, dos direitos dos animais e também dos povos originários, com a canção contra a remoção forçada do povo Navajo, "Broken rainbow", escrita para o documentário homônimo.
"Been on a train", além de oferecer as mudanças de tempo e de dinâmica típicas da autora, nada comuns na música popular daquele tempo e muito menos na de agora, exige uma boa extensão vocal. Além disso, a abordagem nada escapista deste assunto sério talvez tenham feito que ela não fosse gravada por muitos intérpretes. Conheço apenas Judy Kuhn em seu "Serious Playground: The Songs of Laura Nyro", de 2007 (com uma das melhores versões de "Stoney end"), e Billy Childs, no premiado "Map to the Treasure: Reimaigining Laura Nyro" (que tem até Yo-Yo Ma e Renée Fleming, que ganharam o Grammy com sua participação no disco), de 2014. Childs a gravou brilhantemente com a voz de Rickie Lee Jones e o saxofone de Chris Potter.


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura