O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Antologia em torno de Donizete Galvão, "Outras ruminações"

Dia nove de dezembro, a partir das 19:00h, na Casa das Rosas (Avenida Paulista, n. 37, São Paulo-SP), será lançada uma antologia coletiva centrada na obra do poeta mineiro recentemente falecido, Outras ruminações: 75 poetas e a poesia de Donizete Galvão. A organização é de Reynaldo Damazio, Ruy Proença e Tarso de Melo.
Para cada um dos poemas escolhidos de Donizete Galvão, alguns autores escreveram poemas em resposta ou em diálogo. São 15 os do homenageado (e mais um, como uma espécie de epígrafe), mais os dos autores que com ele conversam.
A coletânea inclui muitos amigos do poeta, mas não se resume a eles, embora Donizete muitos possuísse. Não se pode reduzir esta obra à amizade: ela interessa sobretudo aos que não o conheceram, e que terão de Donizete Galvão agora a poesia, sem a intermediação da figura do poeta. Ele não está mais aqui para falar de poesia, mas a obra sobreviverá a sua ausência pessoal.

Ela sobreviverá, ao contrário de tantos autores que, em vida, foram mais conhecidos do que Donizete o foi, mas apenas por causa dos esforços de marketing pessoal e autopromoção, das redes de prestígio e sabotagem que manejaram quando vivos, e que se esvaziaram depois de mortos, levando-os ao esquecimento.
O livro não é, pois, uma ação entre amigos. Ademais, os leitores de poesia contemporânea brasileira poderão constatar que, em geral, a poesia de Donizete é, no mínimo, melhor do que a dos outros participantes da antologia.
Não escreverei uma resenha, pois fui incluído; escrevi um poema curto, mas sem a concisão que Donizete atingiu a partir da visão de uma pomba morta no chão da cidade em "Deformação".
Mas quero destacar um poema, entre tantos interessantes, e também referido a "Deformação": Sérgio Alcides parte não da imagem da pomba (que bebe "água preta" no poema de Donizete Galvão), porém das cores, cinza, preto, até chegar ao branco. A pincelada final é dada pelas pálpebras - eu imagino um último olhar, apenas, ou o desfalecimento do pintor, dando de cara no que pintou, e é uma parede... Aqui, não temos a paleta de artista plástico, mas o pincel de pintor de parede.
Não se trata de uma estetização da morte, e sim de concepção bem cotidiana ("como um pacote selado/ e endereçado ao nocaute"), com um fim sem saída. Sérgio Alcides, sem trair sua própria poética, consegue dialogar  de forma original com o universo de Donizete.
O livro não inclui a lista de poemas escolhidos por obra do autor. Ei-la: 
Azul navalha (São Paulo: T. A. Queiroz Editor, 1988): Irmão inventado, Diante de uma fotografia de Auden.
As faces do rio (São Paulo: Água Viva, 1991): International Klein Blue, O poço.
Do silêncio da pedra (São Paulo: Arte Pau-Brasil, 1996): Recomendações.
A carne e o tempo (São Paulo: Nankin Editorial, 1997): Dessincronia, Roedor.
Ruminações (São Paulo: Nankin Editorial, 1999): Ruminações, Escoiceados.
Mundo mudo (São Paulo: Nankin Editorial, 2003): Mão de pilão, O hóspede, Deformação.
O homem inacabado (São Paulo: Portal/Dobra, 2010): O cortador de bambus, Vida minúscula, Atravessar as coisas, A preparação do próximo dia. 
O último volume foi o preferido pelos organizadores. O único livro publicado de que nenhum poema aparece na antologia é o breve Pelo corpo, que escreveu com Ronald Polito e foi publicado em 2002 (Santo André: Cacto/Alpharrabio).

P.S.: O poema que escrevi:

Urbanismo e voo



Para alguns poetas, o albatroz,
e vivo,
embora no chão e a pontapés;

para outros, algo menor
e ainda mais nítido:

penas e bico
vão, despertados
pela chuva.

Arrastado pelo esgoto,
o bico do pombo continua a cantar a cidade,

ou começa a fazê-lo
agora, que a descobre
pela garganta.

O vento não logrou carregar as penas,
a lama é tudo o que elas terão
do voo.

Um mapa, todo o tesouro,
o que chutes e pisadas
formam com os restos do corpo

terça-feira, 11 de março de 2014

Homenagem a Donizete Galvão, 11 de março, na Casa das Rosas



Homenagem ao poeta Donizete Galvão, falecido inesperadamente no início deste ano, na Casa das Rosas, neste 11 de março, às 19h30. Poetas e amigos lerão os poemas dele.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Missa de 7º dia de Donizete Galvão e mais referências ao poeta



Escrevo para avisar que a missa de 7º dia do poeta Donizete Galvão será em São Paulo, na quarta-feira, dia 5 de fevereiro, às 20 horas, na Paróquia São Francisco de Assis, na Rua Borges Lagoa, 1209 A. Lá, poderemos dar mais um abraço em Ana Tereza, a viúva, e nos filhos Anna Lívia e Bruno.
Muitos têm se manifestado sobre esta perda. Sugiro a leitura de poema de Ruy Proença, "Notícia", que parte de um presente que recebeu de Donizete e o relaciona à notícia do falecimento. Guilherme Gontijo Flores escreveu um "In memoriam" que combina memória, uma pequena antologia e comentários aos poemas escolhidos.
Escrevi, em meu texto anterior, que não havia nada de Donizete no youtube senão a leitura filmada por Fabio Weintraub. Felizmente, no dia primeiro de fevereiro, o editor Adilson Miguel colocou no youtube a participação de Donizete Galvão no documentário "Versos diversos: a poesia de hoje", dirigido pelo professor Ivan Marques, que a TV Cultura exibiu em 1999. Ele fala sobre a própria poesia: "Não sou um poeta de altos voos imaginativos. Minha poesia é mais ligada aos objetos, aos fragmentos." 
Modéstia à parte deste escritor, é claro que é necessário ter muita imaginação para fazer os objetos falarem. Talvez, no entanto, a imagem mais adequada, neste caso, não seja mesmo a do voo, e sim o de uma imaginação que brote da terra.
Da citação que faz, no vídeo, de Francis Ponge, sairia o título de um livro seu: Mundo mudo.
Em O Estado de S.Paulo, dois de seus amigos escreveram, elevando bastante o nível das notícias da imprensa diária: Mariana Ianelli falou da poesia, "Um olhar sobre a obra de Donizete Galvão", em 31 de janeiro, e Humberto Werneck, da amizade e da convivência, "Um artista do convívio", no dia 2.

Ainda sobre a convivência: no texto anterior deste blogue, incluí algumas das fotos que tirei de Donizete. Nesta ao lado, de 2007, anterior ao primeiro problema cardíaco que teve, ele abre um sorriso tão grande que decidi resgatá-la. Era aniversário de Veronica Stigger. Em pé, está o poeta Paulo Ferraz. Do fundo até chegar ao sorriso do poeta, estão a esposa de Paulo, Fernanda Crancianionova, a psicanalista Elaine Armenio, o filósofo Luiz Repa.


Mais uma do último lançamento, de O homem inacabado, em 2010, com Fabio Weintraub.
Termino também esta nota com a lembrança de que é necessário recolher sua obra para que não não cessem os leitores desta poesia. 
Talvez o melhor elogio fúnebre que se lhe possa fazer é o de que encontrará ainda mais leitores daqui em diante do que o fez até agora.



P.S.:  Vejo agora que Tarso de Melo fez uma lista com referência a textos sobre Donizete Galvão: http://tarsodemelo.wordpress.com/2014/02/05/presenca-ausencia-de-donizete-galvao/








sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Íntimo e desconcertante: Donizete Galvão (1955-2014)

Conheci em 2003 Donizete Galvão, que faleceu no dia 30 de janeiro de 2014, de madrugada, atingido por um enfarte. Nasceu em Borda da Mata (MG) e conservava muito do caráter mineiro na sua forma de receber as pessoas, ao menos como faziam os mineiros de sua geração. Sempre que entrei em sua casa, pude fazê-lo como se estivesse na minha. Ana Tereza Marques, sua viúva, acolhia-nos também calorosamente nas ocasiões que ficaram conhecidas como "sabadonis", em referência aos famosos "sabadoyles".
Vejo agora que sua morte foi noticiada em diversos veículos de comunicação. Estas são um pouco mais informativas, a da CBN Foz e d'O Globo. Várias delas erram até a idade com que morreu, 58 anos. Vejo também que alguns amigos dão seus testemunhos, como Dirceu Villa.

Muitos tiveram contato com ele em oficinas de poesia em São Paulo. Quem não frequentou nenhuma delas e tampouco o viu em recitais pode assistir a esta leitura de sua própria poesia neste vídeo, filmado em 22 de agosto de 2009 por Fabio Weintraub: http://www.youtube.com/watch?v=6x7MCjCqgaM
Tratou-se de convite do professor Elias Amorim Feitosa Jr. do Cursinho da Poli, em São Paulo, a Donizete, Marcelo Ariel, Eduardo Sterzi, Veronica Stigger e Priscila Figueiredo.
Estranhamente, é o único deste poeta que encontrei no youtube. Suas aparições na tevê Cultura ainda não estão disponíveis. Donizete leu, naquela ocasião, um poema de Mundo mudo (São Paulo: Nankin, 2003), "Arrozal", e outro de Ruminações (São Paulo: Nankin, 1999), "Mapa". Pode-se ouvi-lo, íntimo e desconcertante: "Substituir o espantalho/ Foi o seu primeiro trabalho."

As fotos ao lado são do lançamento de seu último livro, O homem inacabado (São Paulo: Dobra, 2010). Não sei dizer se é o seu melhor livro, pois não li todos, suas primeiras obras estão esgotadas. Felizmente, nele não aparece uma certa dicção, próxima de Dora Ferreira da Silva, em que se busca interpelar diretamente os deuses e o sagrado. O que dá certo para sua antiga amiga, que Donizete entrevistou mais de uma vez, não é o que melhor funciona para ele. Por exemplo, não é dos seus melhores o poema que escreveu para ela e que foi citado na última resposta desta entrevista dada a Antônio Donizeti Pires e Solange Fiuza Cardoso Yokozawa. Foi ainda republicado em antologia que a Patuá lançou em 2014, É que os hussardos chegam hoje.

Nessa mesma entrevista, ele fala do que é sua principal qualidade: "sou um escritor preso à realidade [...] não atinjo culminâncias do sublime". Suas culminâncias estão, paradoxal e poeticamente, ao rés do chão. Não à toa, ele chega a se classificar, na mesma entrevista, como "materialista místico", por acreditar em um deus imanente à matéria, e nisso se sentia próximo a Kazantzákis, um de seus autores preferidos.
Quem nunca o leu, antes de comprar seus livros (ainda) em catálogo, poderá fazê-lo nesta breve antologia publicada pelo Centro Cultural São Paulo, disponível gratuitamente na internet: Alta noite.
Nela encontramos uma "Arte poética", em que "a língua da vaca" lambe sem cessar a cria, mesmo com as "pústulas no lombo"; e este poema, também, de fato, antológico, "Escoiceados", de Ruminações. Cito-lhe o início e o final:

Meu pai e eu
nunca subimos
num alazão
que galopasse
ao vento.
[...]
Levamos
bons coices.
Meu pai e eu.
Os dois
nunca subimos
na vida.
Nesse "fracasso na vida" temos a ética e o êxito desta poética: ele não está do lado dos vencedores. A propósito, aconselho a leitura da brilhante análise que a poeta e ensaísta Priscila Figueiredo fez desse poema:
A queda do pai e do filho, transcrita por meio de um expressivo quiasmo, tem dimensão revelatória e simbólica. É a imagem de um momento fundamental, em que se decide o destino de ambos. Uma vez caídos no chão, ficarão no chão para sempre. Cair do burro passa a significar agora não subir socialmente, e aqui voltamos ao que dizíamos linhas atrás. A humilhação de se submeter a um animal adquirido por ninharia é reposta e produz mais humilhação: quem nunca subiu não subirá. Como diz a letra de uma música bastante tocada nas rádios: "O de cima sobe /o de baixo desce".
Em O homem inacabado, há um poema que me parece servir como sua poética; fiel ao tom desta poesia, a figura que é retratada não é um escultor, mas um simples ferreiro que, no entanto, mostra-se senhor da matéria de sua profissão. Cito o final de "O ferreiro":
Cadência de artífice
que mantém o prumo
em sua faina
de onde saem
os objetos que povoam o vazio.
Um homem sem senhor
reina na matéria,
sua clareira de liberdade.
Sem os objetos produzidos pela liberdade (e, no caso, por uma figura socialmente subalterna, o ferreiro, significativamente escolhida pelo poeta para representar-se), temos apenas o vazio, o que me parece ser uma aposta na ação e nos instrumentos de emancipação social.

Para acabar esta breve nota sobre Donizete, relembro seu amor pela música. A última vez que nos comunicamos por e-mail, no início do ano, ele me perguntava sobre dúvida que, dizia, lhe "tirava o sono": uma personagem de criada da commedia dell'arte que aparece em óperas como La serva padrona, de Pergolesi. Se nem ele sabia, quanto mais eu... Descobri, porém, a referência em livro de Lauro Machado Coelho, e lhe respondi que era a servetta.
A música, de fato, o preocupava e gerou, além do ouvido que se detecta em sua obra, poemas como "Solilóquio de Nina Simone": "Habitou-me um deus espesso./ Sangue cor de fígado."
Donizete, contudo, foi além da mera tematização da música na literatura e penetrou no mundo da música brasileira contemporânea: Willy Corrêa de Oliveira compôs canções sobre textos seus, que, creio, ainda não foram gravadas, mas já foram apresentadas em público. Ainda não as ouvi, também isso me falta conhecer.
Esperemos que sua obra poética seja reunida e publicada; é o que dele ainda podemos ter, e é o que lhe devemos, pois isso não foi feito enquanto vivia.
Basta desta situação em que só se conhecem, dos poetas, os anos de nascimento e de morte, e nem assim os jornais, como neste caso, consigam calcular a idade... A poesia tem que ser (re)posta em circulação. É significativo que as notícias que vi sobre a morte de Donizete na grande imprensa tenham se poupado de citar os versos do autor, como se o poeta só pudesse aparecer pela sua morte, mas não pelo que o faz vivo, a poesia.
Que não se diga dessa obra o que ele escreveu sobre o corpo em "Depreciação", poema do raro livro que publicou a quatro mãos com Ronald Polito, Pelo corpo (Santo André: Alpharrabio, 2002):
De hoje em diante
a máquina imperfeita
de teus músculos
será mais um objeto
em desuso.


P.S.: Fabio Weintraub reclamou que ficou apenas implícita a relação entre a servetta e a poética de Donizete. É verdade. Não sei se ele teve tempo de escrever sobre isso (ele me fez a pergunta no dia 7, respondi-lhe no dia 12), ou mesmo se era para fins literários que ele necessitava da informação; mas imagino que o interesse na personagem é análogo ao interesse em figuras como a do ferreiro.