O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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domingo, 28 de maio de 2023

O Grupo ANIMA: Valeria Bittar sobre música antiga, música brasileira e a necessidade de hierofanias

Em 18 de maio último, assisti a uma atividade do barítono Hugo Pieri, do grupo ANIMA, no Centro de Pesquisa e Formação do SESC-SP. Em quinze de junho, Gisela Nogueira, do mesmo grupo, estará lá com sua viola de arame, também de forma gratuita.

O ANIMA, claro, é uma das maiores referências da música (todos os gêneros combinados) no Brasil. No início deste milênio, entrevistei por telefone Valeria Bittar para a extinta revista eletrônica portuguesa Ciberkiosk. Bittar estava lá no 18 de maio, mas não tive coragem de dizer que eu já a tinha entrevistado há mais de duas décadas, até porque os textos da revista já cumpriram o destino das coisas digitais e evaporaram.

Eu não tinha encontrado, ademais, o arquivo da  entrevista no computador; há alguns minutos descobri-lhe o esconderijo. Como o grupo está a lançar o disco Mar Anterior pelo selo SESC-SP, acho oportuno republicá-lo.

O ANIMA tem hoje outra página na internet: http://www.animamusica.art/; e este canal no YouTube: https://www.youtube.com/@GrupoAnimaOficial/videos.


 Grupo ANIMA


 

«A Musicologia tem que ficar atrás do palco. No palco, a Musicologia não serve para quase nada.»


A música antiga já possui uma história no Brasil, mas ainda não uma tradição; para uma tradição configurar-se, é necessário desenvolver um perfil próprio, o que não se pode fazer com a simples cópia dos modelos europeus, propósito deliberado de vários músicos, nesse campo em que a "interpretação autêntica" é vista com especial prioridade.

Em sentido contrário dos demais conjuntos especializados no Brasil, o conjunto ANIMA claramente destaca-se por sua proposta de conjugar o repertório europeu, principalmente o ibérico, com a tradição oral brasileira e compositores brasileiros contemporâneos afinados com essa tradição.

Dessa forma, interpretam simultaneamente Machaut e as composições de José Eduardo Gramani (um dos fundadores do grupo, falecido em 1998), como no primeiro disco, Espiral do Tempo, de 1997. Ou, então, no segundo disco, Especiarias, combinam na mesma faixa a música italiana do século XIV (La Rotta, uma das mais belas melodias medievais) com Ó mana (também conhecida como Caicó, da tradição oral brasileira, empregada por Villa-Lobos na sua quarta Bachianas e gravada por músicos populares como Milton Nascimento e Ney Matogrosso).

Afora esses dois discos, de produção independente, Anima participou de Trilhas, de 1994, com os grupos Oficina de Cordas, Trem de Corda, Duo Bem Temperado, e de Teatro do Descobrimento, disco da meio-soprano Anna Maria Kieffer lançado em 1999.

Certos conjuntos de música antiga brasileiros demonstram uma dependência demasiadamente pronunciada dos modelos europeus. Anima possui um perfil próprio, que se reflete no repertório e nos instrumentos, combinação harmônica do europeu (cravo, flautas doces segundo modelos do século XVI) com o árabe (zarb - percussão iraniana, bendir – percussão turca, mejuez – instrumento sírio) e o brasileiro (viola brasileira, rabecas brasileiras, triângulo, pandeiro, kulutas – instrumentos de origem indígena).

Anima está na internet no endereço http://www.animamusica.art.br . Composto por Dalga Larrondo (percussão), Isa Taube (voz), Luiz Fiaminghi (rabecas brasileiras), Patricia Gatti (cravo), Paulo Freire (viola brasileira) e Valeria Bittar (flautas doces, kulutas e mejuez), foi com Valeria Bittar, em nome do grupo, que tive uma longa conversa telefônica.

 

MUSICOLOGIA E MÚSICA: CADA MACACO NO SEU GALHO

Uma das virtudes do conjunto é a de não serem acadêmicos na abordagem da música antiga. Essa ousadia pode soar estranha para expectativas já condicionadas do que deve ser a música antiga (1), razão pela qual perguntei a Valeria Bittar sobre a questão do rigor musicológico e da interpretação autêntica:

- Pelo que entendi, vocês não querem ser museológicos, nem arqueológicos, nem acadêmicos!

VB - É. A Musicologia tem que ficar atrás do palco. No palco, a Musicologia não serve para quase nada. [...] a memória auditiva, toda memória, seja tátil, visual, é uma coisa em constante transformação. Saramago fala exatamente isso [...] E essa questão de que eu estou tocando originalmente, isso é um problema do século XIX [...] a ideia de que tem que tocar a música antiga como se tocava naquela época é uma grande ilusão e é uma posição romântica.

- Na verdade, é anacrônico?

VB - É totalmente anacrônico. É uma contradição ao próprio propósito, você entende? É que essa estética de tocar [.....] é uma concepção do século XIX. Ela não resiste, acabou. Com a possibilidade da reprodução mecânica, o intérprete vai ficar muito para trás. Porque, se você tem o computador, você tem o gravador, você tem o CD, tem todas essas possibilidades tecnológicas de edição agora, então o intérprete não tem função nenhuma. Então existe hoje uma reação a essa concepção romântica. A memória musical é uma coisa muito permeável, maleável.

- O Harnoncourt foi um dos pioneiros da interpretação autêntica desse repertório. Mas hoje ele toca música barroca com instrumentos modernos, mistura os instrumentos, para ele o que importa é soar bem.

VB - Eu acho que o Harnoncourt é a pessoa ideal para a gente confiar. Ele tem uma experiência musical muito grande e ele fala isso baseado na experiência. Ele é um grande mestre. O Harnoncourt fez tudo. Fez tudo do Bach [.....]

 

A FORMAÇÃO EM MÚSICA ANTIGA E O BRASIL

Todos os integrantes de Anima estudaram na Europa, com exceção da cantora Isa Taube, que estudou jazz nos Estados Unidos. As diferenças na formação musical dos integrantes, segundo Valéria Bittar, eram uma "virtude do grupo".

Conversamos da dificuldade de o músico ter uma formação em música antiga no Brasil; de fato, no mundo acadêmico, ela não existe, pois "as instituições de ensino baseiam-se na música do século dezenove" e que "o músico brasileiro só era preparado para ser solista ou funcionário público".

Valéria Bittar, no entanto, entrou em contato com a música antiga no Conservatório, e sua prática com o choro muito a ajudou. Disse-lhe achar que hoje o choro é música de câmera e concordou, ressaltando como esse estilo "tem alma própria".

- Desde a sua formação, você estava em contato com a música brasileira. Isso é um dado diferencial de vocês. Porque vocês combinam a música renascentista, medieval, com a tradição oral brasileira, mas também com compositores contemporâneos brasileiros.

VB - Compositores contemporâneos que são inspirados nessa tradição brasileira.

- Dos outros grupos brasileiros, o que distingue vocês é uma proposta brasileira. Vocês até se permitem juntar a música do Caicó, "Ó mana", com "La Rotta".

VB - [........] a literatura medieval e a música medieval andam muito juntas e estão vivas, ainda hoje, em diversas manifestações da tradição oral. Principalmente aqui no Brasil.

- Se eu for comparar o trabalho de vocês, por exemplo, com o do Movimento Armorial, do Quinteto Armorial, eles tinham um trabalho muito bom, mas acho o de vocês mais livre. Vocês não são dogmáticos.

VB – É porque queremos através da música brasileira, sair do regionalismo.

 

MÚSICA ANTIGA E MERCADO FONOGRÁFICO:

 

Valeria Bittar lembra que a música antiga tornou-se "mercantil", "era um movimento" e "chegou nas grandes gravadoras, chegou no mercado". A própria proliferação de gravações, como "a mais nova gravação da Missa em Si Menor de Bach", refletiria esse quadro, o que não seria nada mais do que uma decorrência ainda do Romantismo, ao se querer sempre uma "coisa nova".

Além do rótulo "música antiga", lembramos deste, bastante infame, que é world music, nome cunhado pela ignorância geográfica e musical de estadunidenses.

- Esse próprio nome, world music, ele propriamente não é nada, é só uma marca.

VB - É, é um rótulo, que engloba tudo e não engloba nada.

- É, não quer dizer nada. No disco de vocês vem "world music", mas...

VB - Isso aí é a distribuidora.

- Explique-me: eles são gravados pela Sony, ou a Sony distribui?

VB - A Sony não distribui e não grava. Ela faz a prensagem dos discos. Mas a gente é obrigado a colocar o nome, além de pagar a conta.

- Vocês não são artistas da Sony.

VB - Não, de jeito nenhum.

- Dá para sentir. Também, se fossem, não estariam fazendo esse trabalho!

VB - Nem com aquele encarte maravilhoso.

- Seriam aqueles encartes sem informação alguma que a Sony faz no Brasil (2).

VB - Informação é o que menos interessa.

É o que menos interessa para esse sistema, é claro, em que a música é desprovida de todo valor especificamente cultural.

 

ANIMA E O MUNDO:

Perguntei sobre as apresentações do grupo, que já fez recitais na França e nos Estados Unidos; no início do ano, tocou no festival Rock’n Rio na Tenda Raízes. Em agosto de 2001, realizou uma turnê pelo Mercosul: apresentou-se na Argentina, no Uruguai e no Paraguai. Sobre este último país, que tem uma grande herança cultural indígena, Valeria Bittar afirmou que "dava um banho no Brasil em matéria de cultura e memória".

Em 2002, o grupo fará apresentações nos EUA e, depois, na Europa. Ainda no ano que vem:

VB - O Anima promove workshops em alguns festivais. A gente irá fazer de quatro a cinco workshops na Carolina do Norte. E nos apresentaremos na Universidade do Missouri, em Kansas City. De lá a gente vai para a Filadélfia e para Los Angeles. A gente vai fazer a música de peregrinos. Música de peregrinação até a luz. Música de natal, música do natal rural brasileiro, da Idade Média portuguesa e espanhola, o Cancioneiro de Upsala, as Cantigas de Santa Maria, o Llibre Vermeil.

 

A MÚSICA E O SÍMBOLO:

 

Anima distingue-se também de grupos como o Quinteto Armorial porque se propõe a, segundo Valeria Bittar, por meio da "música brasileira, sair do regionalismo". Como fazê-lo? Nesse momento, entra em cena a questão do símbolo.

Pois, se o grupo pode combinar o Ay Luna do Cancioneiro de Upsala (3) com A Lua Girou, da tradição oral brasileira (gravada também por músicos populares como Ney Matogrosso), no disco Especiarias, o faz menos por uma questão musicológica do que pela permanência do símbolo lunar na música.

VB - A gente faz uma fusão com o natal rural brasileiro, que é pouco conhecido: Bumba-meu-boi, Reisados, vamos terminar o ciclo de natal na Festa de Reis.

- É o repertório do próximo disco?

VB - Em parte, sim. Mas para o próximo disco a gente está fazendo outro trabalho.

- Mais ibérico?

VB - Sim. E com mais pé no Brasil rural, menos industrializado.

- Você acha que é um repertório que está se perdendo?

VB - Acho que sim. Principalmente com essa pós-globalização, essa tecnologia da rapidez. da informação, acho que ele está se fechando em pequenos nichos. Mas não acho que esse tipo de repertório um dia venha a se perder. Porque ele é muito intrínseco ao ser humano. Ele transcende o cultural, ele permanece instalado no homem.

- Por isso vocês se chamam Anima?

VB - Acho que sim... Então não é uma coisa somente cultural. Persiste uma necessidade do homem de ritual, de hierofanias, os mitologemas desses rituais. Mário de Andrade que sabia bem disso. Ele tinha uma visão profunda, ele ultrapassava a musicologia, ia até a psicologia. E há outros pensadores que nos inspiram: Carl Gustav Jung. Você encontra, além do Jung, o Mircea Eliade, que fala das necessidades anímicas, o Jordi Savall, Erich Neumann [........]

 

Contudo, é possível que o símbolo fale por intermédio da música? O símbolo pode falar em música, isto é, ela expressaria o que dele não podemos dizer e o faz permanente? Diante de certos trabalhos musicais, como o de Anima, respondemos sim.

Setembro, 2001.
Pádua Fernandes

 

NOTAS:

(1) Como exemplo, o interessante livro de Kristina Augustin, Um olhar sobre a música antiga: 50 anos de história no Brasil, editado no Rio de Janeiro pela autora em 1999, apresenta o grupo de forma confusa, dizendo, de forma surpreendente, que as "atividades" do grupo "ainda estão muito relacionadas com as da Música Antiga" (p. 84), o que demonstra uma clara incompreensão da proposta artística do Anima.

(2) Prática feita com a música brasileira, é claro, trata-se de uma multinacional, e também (é de pasmar) com a música estadunidense; como exemplo, foi lançada uma série "Best price gold" (embora no Brasil o idioma oficial seja o português) em que os títulos simplesmente não possuem atribuição de autoria, mesmo clássicos da canção popular dos Estados Unidos, como Just in time, Alfie...

(3) Cancioneiro ibérico do século XVI que teve a sua primeira gravação mundial completa em 1997, pela Camerata Antiqua de Curitiba, regida pelo pioneiro da música antiga no Brasil, Roberto de Regina.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

13 discos vermelhos em busca de companhia



Comecei a participar dos #13DiscosVermelhos no twitter, mas interrompi quando começou o último debate dos candidatos à presidência da república. Nele, Jair Bolsonaro, embora reforçado por um auxiliar contrário à lei de cotas e favorável a fechar hospitais, e pelo auxiliar aparentemente vestido para festa junina, pareceu mais fraco do que nunca e fugiu do confronto com Lula.
Assisti ao pobre espetáculo, que acabou de madrugada. Cheguei a escrever, antes disso, que tinha escolhido a Floresta do Amazonas, odiada pelos bolsonaristas (refiro-me ao objeto da inspiração, claro, mas é possível que a música também não seja apreciada), para ficar em cima da pilha de discos por motivos óbvios. A permanência da floresta (embora alguns sustentem que se trata de um bioma já irremediavelmente condenado) é uma das questões que será decidida dia 2 de outubro, uma vez que o governo do candidato à reeleição foi e continua a ser, por motivos que me escapam, uma época alvissareira para o crime ambiental.
Começo, porém, da base: o disco dedicado a Alberto Ginastera, lá embaixo, foi escolhido não só por causa do gênio deste compositor (só escolhi música boa para a pilha, claro; por sinal, o time musical que apoia Lula é muito superior ao grupo que faz arminha), mas também porque foi censurado por uma das ditaduras militares da Argentina por causa da ópera Bomarzo. O disco que tenho da ópera não é vermelho, mas como o compositor vetou a execução de toda sua obra nessa época em reação à censura, achei que poderia começar deste da Orquestra de Lancy-Genève regida por Roberto Sawicki, que ainda toca o violino solo. Ditadura, censura, essas palavras me evocaram algo do presente brasileiro.
Por causa da Argentina, lembrei de Maria Callas, que odiou Buenos Aires quando lá cantou (1949) porque, segundo contou em carta ao marido, a cidade estava cheia de fascistas. De fato, ela não voltou mais àquele país de cujo clima ela também não gostou. O disco (selo Divina) com o que restou gravado da presença da artista na Argentina não é vermelho, por isso peguei este com gravações ao vivo no México, da mesma fase da carreira, com uma voz realmente incomparável. Fica bem na pilha porque é Callas e porque, de fato, não se deve gostar do fascismo.
Como não devemos gostar desses peculiares regimes políticos europeus do século XX, resolvi incluir compositores proibidos pelos nazistas, e um deles morto em campo de concentração (Schulhoff), por marxismo e/ou modernismo e/ou em razão do antissemitismo. Entram Kurt Weill e Ernst Toch (que se exilaram) e o Berg, que morreu de doença antes de ter toda sua obra banida. Em Lulu, por sinal, a ópera que escolhi para a pilha (completada por Friedrich Cerha décadas depois, pois Alban Berg morreu antes de terminar a orquestração do último ato), a crise do capitalismo e a quebra da bolsa de Nova Iorque estão bem no centro da história. Esta gravação, regida por Jeffrey Tate, parece-me muito bem cantada, a começar por Patricia Wise no difícil papel-título, passando por Peter Straka que logra atender à tessitura do Alwa, pela encarnação que Brigitte Fassbaender nos oferece com a lésbica Condessa Geschwitz e pelo veterano Hans Hotter como Schigolch. O disco da Ebony Band,regida por Werner Herbers, inclui o "oratório-jazz" de Schulhoff, "H.M.S. Royal Oak", com texto de Otto Rombach, que conta um episódio real: uma revolta de marinheiros por causa das más condições de trabalho e da proibição de ouvir jazz, um ritmo negro (que também seria proibido pelos nazistas). A revolta vence. Os fãs do atual ocupante da presidência também têm problemas com a negritude. A revolta vencerá.
O disco das trovadoras (trobairitz), na voz de Montserrat Figueras e o grupo Hespèrion XX (quando acabou o milênio passado, Jordi Savall atualizou o nome para Hespèrion XXI), entrou para lembrar das mulheres autoras, contra a misoginia que continua no poder: Condesa de Provenza Garsenda e grande Condesa de Dia. Quase toda essa música foi perdida, mas alguns poemas ficaram e foram cantados com melodia de outros músicos. Parece-me que os fãs do atual ocupante da presidência, fiéis ao ídolo, incomodam-se com esses assuntos e o protagonismo feminino.
Escolhi este disco do grupo da Quixabeira de Lagoa da Camisa, além da vibrante cultura dos trabalhadores rurais, por causa do canto no verso "Essa terra é minha" em "Eu não sou daqui". Por algum motivo, podemos desconfiar que os partidários do atual ocupante da presidência não gostam muito desses trabalhadores, e a escassa simpatia diminui ainda mais quando veem que eles se organizam. No entanto, por alguma razão, esses partidários não veem problemas nas reivindicações de terra se feitas por grileiros.
Taiguara, que era comunista, entrou por causa da censura que sofreu (creio que foi o compositor brasileiro mais censurado da época) e o obrigou a deixar o país. Este era o único disco com lombada vermelha dele que tenho e cobre as músicas anteriores a seus embates mais sérios com a censura, a época em que era conhecido principalmente como cantor romântico. Já está lá, porém, a emblemática "Hoje"
Esta apresentação ao vivo de Elis Regina em 1977 foi lançada originalmente pela gravadora Velas, anos depois da morte da grande cantora. Lembro que eu o ouvi pela primeira vez em um supermercado (esse tipo de estabelecimento vendia discos no século passado) e fiquei paralisado pela voz em "Travessia", de Milton Nascimento. O disco começa e termina com canções contra a ditadura: "Como nossos pais", de Belchior, e "Cartomante", de Ivan Lins (que era o dono da Velas, aliás) e Vitor Martins. Esta, na intepretação de Elis, foi muito relembrada neste fim de mandato de J. Bolsonaro: "Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros, cai o rei de paus, cai, não fica nada!"
O show "Direitos humanos no Banquete dos Mendigos" reuniu grandes nomes no MAM, Rio de Janeiro, em 1973. Tratava-se da comemoração dos 25 anos da Declaração Universal em um tempo, no Brasil, hostil à dignidade humana. Neste terceiro disco, o único vermelho, temos Milton Nascimento, Jards Macalé, Pedro dos Santos, Dominguinhos e Gal Costa. O poeta Ivan Junqueira fez uma leitura no fim dos artigos desta Declaração das Nações Unidas, texto não amado pelos partidários do atual ocupante da presidência. Tampouco esta organização internacional costuma despertar elogios dessas pessoas.
Da GaL, que foi fotografada fazendo o L várias vezes em 2022 e sempre foi de esquerda, escolhi ainda o "Estratosférica ao vivo", disco duplo recente que combina repertório novo e canções mais antigas, como esta pérola da época da ditadura, "Como 2 e 2", de Caetano Veloso (um ex-cirista que agora faz o L). Estes baianos não são nada apreciados pelos bolsominions, que ficaram muito irritados quando Gal alegremente dançou enquanto seu público demonstrava espontaneamente afetos em relação a J. Bolsonaro.
Em "Munduê", Diogo Nogueira (que honra em vários sentidos o nome do pai, o grande João Nogueira, e também faz o L) acentuou as raízes negras de sua música com os jongueiros do Quilombo de São José da Serra. Bolsonaristas também não gostam desse tipo de repertório (mesmo no belo timbre deste cantor) e até mostram-se capazes de votar em políticos que pesam gente em arrobas.
Esta gravação de "Floresta do Amazonas" foi o último disco gravado de Bidu Sayão, que estava aposentada, mas aceitou retornar aos estúdios a pedido do compositor, Villa-Lobos, que morreria pouco depois e fez nesse momento sua última gravação. É claro que os bolsonaristas não gostam desse tema, e provavelmente também não desta música. Há até gente da música clássica que votou 17 em 2018, mas foi por muita falta, além de consciência política, de consciência de classe.
A maioria do que selecionei foi música vocal. Deixo, então, para comentar por último um item puramente instrumental destes músicos brasileiros. O flautista Francisco Luz e o violonista Fabrício Ribeiro gravaram este disco de música de câmara, "Na solidão em busca de companhia", com música de Villa-Lobos, Radamés Gnattali, Edino Krieger e outros. Escolhi-o por causa da faixa título, de Harry Crowl (um de meus compositores favoritos de hoje), que remete a um poema de Auden. Sei que muita gente não gosta dos poemas de inspiração religiosa desse autor, mas creio que é possível apreciar a simplicidade deste exemplo lírico, e este verso, presente em dois tercetos, é essencialmente antibolsonarista: "Men of their neighbours become sensible".

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

30 dias de canções: Bornelh, o amor e a alba

30 dias de canções

Dia 14: Uma canção que você gostaria de tocar (ou ter tocado) em seu casamento

"Reis glorios" (Rei glorioso), de Guiraut (ou Giraut, e ainda Guiraud) de Bornelh (ou Borneilh) que viveu aproximadamente entre os anos de 1140 e 1200. É uma das minhas músicas favoritas, e uma canção de alba. Candé, na sua História universal da música, disse que ela continuou célebre até o fim do século XIV, o que é notável para essa época sem imprensa e, muito menos, registros sonoros.
Bornelh parece ter vindo de origem modesta, porém se tornou um dos trovadores mais respeitados. 70 de seus poemas chegaram até nós, mas apenas 4 com a música.
As canções de alba tinham como tema a despedida dos amantes com o amanhecer. A primeira vez que ouvi essa música foi numa apresentação do Ars Antiqua de Paris nos anos 1990, no Rio de Janeiro. Era uma execução bastante lenta, como a que fizeram em estúdio: https://www.youtube.com/watch?v=iG7nJ6KoxCo.
O grupo La Contraclau adota uma interpretação dançante: https://www.youtube.com/watch?v=Zv_jhDNajOw.
Na voz do grande Paul Hillier, do disco Proensa, temos uma outra interpretação: https://www.youtube.com/watch?v=ccBpe0FpHr8.
Dessa música, sobreviveu apenas, e ao menos (de boa parte do repertório medieval, só restou o poema), a linha vocal. Os músicos especializados no repertório medieval veem-se obrigados a criar o acompanhamento, o que talvez já ocorresse na época, isto é, talvez o acompanhamento fosse programaticamente, ao menos em parte, improvisado.
Além disso, os músicos devem adotar suas próprias concepções sobre o ritmo, em razão da notação musical dessa época.
Na época da composição, as fronteiras entre música popular e música "clássica" não existiam e poesia e música andavam de mãos dadas. sobre o impacto decisivo da lírica trovadoresca, cito Eduardo Sterzi, Por que ler Dante (São Paulo: Globo, 2008):
[...] a canção trovadoresca pode ser vista, sem exagero, como a forma originária de toda  a lírica europeia posterior, pelo menos até meados do século XIX, quando o poema em prosa e o verso livre vêm abalar aquele esquema plurissecular (que, no entanto, não se extingue; está vivo, ainda hoje, na maioria das canções populares do Ocidente). E fecunda ainda, para além da literatura (transbordando para as outras artes, para a filosofia, para o senso comum), na medida em que a lírica dos trovadores é uma das fontes principais da imaginação ocidental, ao fornecer-lhe todo um vocabulário do amor e da subjetividade que antes não existia, ou existia apenas de modo incipiente [...]
Trata-se também de uma época em que as culturas islâmicas e cristãs se influenciavam mutuamente (afinal, essa é a própria dinâmica da cultura, e não a da polícia de costumes, hoje adotada por setores da esquerda). Na melodia de "Reis glorios", reconhecemos os gestos da vocalidade da música árabe tradicional. E talvez a própria palavra trobar venha do árabe, leio no texto de Jean-Pierre Canihac ao disco "Reis glorios: L'influence de la musique arabe dans la mythologie occitane" do grupo de Toulouse Les Sacqueboutiers (o barítono Pierre-Yves Binard canta muito bem a canção nesse disco). Segundo leio, Julian Ribera, em 1928, lançou essa hipótese a partir da palavra árabe taraba, que teria como um de seus significados "compor música, entreter por meio de música".
As duas primeiras estrofes do poema, em provençal, querem significar algo como isto:

Rei glorioso, verdadeira luz e claridade,
Deus poderoso, Senhor, se a vós aprouver
Ao meu companheiro prestai fiel ajuda,
Que eu não o vi depois que a noite chegou,
E logo virá a alba.

Belo companheiro, se dormes ou se velas,
Não mais durmas, suavemente levanta,
Que no oriente vejo ascender a estrela
Que traz o dia, eu bem a reconheci,
E logo virá a alba.

A primeira estrofe é do sentinela; a segunda, do amante, que se alternam. Não ousei rimar nem metrificar, mas o original segue o esquema de pares de versos rimados, que se chamava cobas doblas
Acho que ninguém percebeu, mas fiz uma paródia séria desse poema no meu Código negro em homenagem ao "glorioso nada".
Voltando à poesia de verdade, Bornelh é citado por Dante mais de uma vez. Na Divina Comédia, ele é referido não como o melhor poeta de sua época; ele seria mais popular, mas é preterido por Arnaut Daniel, o "miglior fabbro".
Trata-se da passagem que mais gosto na Comédia, o XXVI do Purgatório. No XXVI, temos aqueles cujo pecado foi "hermafrodito", mas se arrependeram e, por isso, não foram para o Inferno. Dante comove-se por ver lá Guido Guinizelli, que ele reconhece como mestre dele e de outros melhores. No entanto, Guinizelli aponta para um outro, superior a ele mesmo: Arnaut Daniel.
Cito essa passagem na tradução de Xavier Pinheiro (http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/divinacomedia.html):

— “O que te indico, irmão” — tornou-me terno
(E seu dedo outra sombra me apontava)
Mais primor teve no falar materno.


“Nos versos, nos romances superava
A todos: stultos só dizer ousaram
Que o Limosim aquele avantajava.

“Pelo rumor verdade desprezaram,
E, como arte e razão desconheceram,
Sem fundamento opinião formaram.

“Assim muitos outrora procederam
Com Guittone e o seu nome hão proclamado;
Mas verdade alfim todos conheceram.

“E pois que o privilégio hás alcançado
De entrar nesse mosteiro portentoso,
Por Cristo, como abade governado,

“Um Pater Noster diz por mim piedoso;
Quanto mister havemos neste mundo,
Onde ato algum não há pecaminoso.” —

“Por dar lugar ao spírito segundo,
Já próximo, no fogo desparece.
Qual peixe, quando imerge de água ao fundo.

Acerquei-me da sombra que aparece,
E disse que ao seu nome apercebia
Meu desejo o lugar que assaz merece.

Logo assim livremente me dizia:
— “Tão cortês vosso rogo é, que escutando,
Me encobrir não quisera ou poderia.

“Arnaldo sou, que choro e vou cantando,
Triste os erros passados meus lamento,
E o fausto dia estou ledo esperando.

“E peço-vos pelo alto valimento,
Que da escada a eminência ora vos guia,
Que em tempo vos lembreis do meu tormento.”

E, após, ao fogo apurador se envia.

O "Limosim" que, embora preferido por muitos, seria inferior a Daniel, era Bornelh, que nascera no castelo do Visconde de Limoges. Dante escreve em provençal a belíssima fala do espírito de Arnaut Daniel (para mim, um dos pontos mais altos da poesia), efeito que é perdido na tradução acima.
Dante à parte, leio no guia Fayard da Música Medieval, organizado por Françoise Ferrand, que Bornelh foi considerado pelos contemporâneos como o "maître des troubadours".
Na Comédia, não sabemos para onde foi Bornelh: Bertran de Born está no Inferno, Guinizelli e Daniel, no Purgatório, e Folquet de Marselha, no Paraíso. Prefiro pensar que ele permaneceu em outra esfera, a da Poesia, onde as fronteiras não são tão armadas como as daquele esquema religioso medieval, e cuja ordem não seja do julgamento, com sua tríade condenação/expiação/absolvição, mas a da beleza e de seus ritmos. 
Também prefiro pensar nestes outros termos, os da poesia, no tocante ao meu casamento.


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável
Dia 10: Manuel Falla e a dor da natureza
Dia 11: De "People" ao povo e Cauby Peixoto
Dia 13: Baudelaire, Duparc e volúpia