O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Ditadura e golpe, Dmitri Hvorostovsky, Ogum, Angélica Freitas, Alberto Pimenta e outros na retrospectiva de 2024 à luz dos leitores

Sempre faço uma retrospectiva anual neste blogue: o exercício de memória do passado recente permite compreender melhor o presente. De alguns tempos para cá, sempre espero que os doze meses terminem, que é o que faz sentido, ao contrário do que estipula a temporalidade jornalística. Imaginem que no jornalismo cultural há até veículos que pedem que se escolha em outubro as melhores produções do ano!

Ademais, em certo sentido, nunca sabemos quando um ano realmente termina. Alguns ferem a cronologia e demoram mais para terminar, o que deve ser a razão pela qual o governo Lula não mencionou no primeiro de abril passado os sessenta anos do golpe de 1964.

Sempre mudo o critério da retrospectiva. Em 2017, quando ainda fazia essas coisas no último dia do ano, resolvi escolher  textos interessantes dos blogues que seguia. Entre eles, dois caíram.

Os blogues perderam audiência para as redes de fotos e as de vídeos que duram alguns segundos. No entanto, de 2023 para cá, vejo pessoas que afirmam desejar ler textos na internet, e não ver esses flashes que não convidam exatamente à reflexão. Notei também que blogues novos foram criados, o que é um movimento interessante.

Eu mantive este porque ele serve como um grande rascunhão de textos. Resolvi, então adotar o procedimento que muitos seguem: simplesmente listar as doze entradas mais lidas no blogue durante 2024, a começar da que teve mais visualizações. Eu não tinha a ideia de quais eram, surpreendi-me porque algumas são antigas, chegando a 2010. Imagino, portanto, que o interessante desta lista seja indicar temas que alguns leitores em português na internet acharam sensíveis.

Não que O palco e o mundo tenha sido muito lido: ele teve 45 mil e oitocentas visualizações no ano, o que não é muito para um blogue; ademais, pelo menos metade desse público deve ter chegado aqui por acaso e não por causa dos textos. No entanto, mesmo reduzindo a, talvez, dez por cento das visualizações, trata-se certamente de mais gente do que leu meus livros no mesmo período.

Curiosamente, os dois primeiros textos têm relação com música. Sou tenor e canto na Associação Coral de São Paulo, porém não tenho formação alguma nessa área, em que sou apenas um amador anônimo, apesar de participar de produções profissionais. Imagino que o assunto dos textos tenha sido o que chamou a atenção das pessoas ao ponto de lerem até mesmo algo que escrevi.



Dmitri Hvorostovsky (1962-2017), o cantor do mundo, a voz da Rússia e da Itália (22 de novembro de 2017). O texto conta minha experiência, apesar de limitada, com o célebre cantor russo, que morreu depois de uma batalha contra o câncer quando ainda estava senhor de sua voz e a carreira continuava a se desenvolver nos grandes palcos do mundo.

Tive a sorte de vê-lo duas vezes. Reproduzi no texto o programa de seu concerto no Rio de Janeiro (vazio de público, para a vergonha dos cariocas), falei de algumas gravações e lembrei da última vez que o vi, no ano em que descobriu a doença.

Escrevi um texto bem simples; o fato de ele ser lido mostra como Hvorostovsky continua a ser ouvido e amado graças às gravações e à memória que deixou no público. Imagino que continue criando memórias, pois leio nos comentários sobre as pessoas que o descobriram depois que morreu. De certa forma, um grande artista não morre.


30 dias de canções: O céu, o mar, a umbanda (31 de janeiro de 2017). Ousei, no início de 2017, produzir trechos para essa série, que outros blogues adotaram. Modifiquei algumas entradas, que não faziam sentido para mim, porém mantive a estrutura dos trinta dias. Comecei dia 28 de janeiro e só consegui encerrá-la no 25 de março, pois não consegui (nem imaginei que o faria) escrever um texto por dia. Em 2024, no entanto, publiquei aqui menos de trinta textos em um ano!

Na série, escolhi música de Guiraut de Borneilh a Tiganá Santana, passando por Beth Amin e Schumann. Também selecionei um ponto de Ogum que me foi ensinado por minha madrasta (por sinal, ela morreu há pouco mais de um mês; talvez tivesse gostado de saber disto).

"Se o céu é lindo" foi o tema do despretensioso texto que, sete anos depois, continua sendo lido, não sei por que razão. Talvez isso aconteça por causa da continuidade dos ataques racistas de terroristas cristãos às religiões afro-brasileiras, bem como dos chamados narcocrentes: lembro aqui do famigerado Complexo de Israel, no Rio de Janeiro, região em que os traficantes evangélicos expulsaram os terreiros, o que é outro dos crimes (além da venda de drogas) que são cometidos sistematicamente naquele Estado, tendo em vista a inoperância das forças de segurança e do Judiciário.


Desarquivando o Brasil CCVI: Jair Bolsonaro, Carlos Alberto Brilhante Ustra e outros militares (25 de novembro de 2024). Trata-se do mais lido entre os textos que escrevi neste ano, provavelmente por causa da urgência do tema: a descoberta do plano militar de assassinato de pelo menos Lula, Alckmin, Alexandre de Morais em 2022. 

Nele, lembrei dos trechos de meu livro mais novo, Ilícito absoluto: a família Almeida Teles, o coronel C. A. Brilhante Ustra e a tortura, sobre a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.

Quis contrastar o texto com a  aparente leveza ou até leviandade de certos meios de comunicação no tratamento do assunto, que diz respeito diretamente à continuidade da democracia no Brasil. O mais curioso foi ver bolsonaristas reagindo assumindo tudo ou quase tudo do que foi investigado pela Polícia Federal e alegando, mesmo assim, perseguição política: a impunidade é seu lar e, por isso, estranham quando algo diferente ameaça surgir no horizonte. 


Angélica Freitas e o tamanho da insurgência (10 de outubro de 2012). Aqui, além de reproduzir um texto que publiquei em 2007 sobre a estreia em livro da autor, Rilke Shake, em um extinto jornal impresso de crítica literária, o K., escrevi minhas impressões sobre Um útero é do tamanho de um punho, que comprei e li antes do lançamento em São Paulo. 

Publiquei-o em 2012 justamente para fazer propaganda da poeta, que (devo dizer aqui, por causa da maledicência desse meio) não é minha amiga pessoal. Simplesmente entendi que o livro era importante. Destaquei nele o caráter de contestação à ordem patriarcal, bem como a insurgência do feminino. Cheguei na época a discutir com uma professora de literatura que afirmou que ele não era poético porque "um útero é realmente do tamanho de um punho". Ai.

Creio que ainda é a melhor obra de Angélica Freitas. Poucos anos depois, vi uma jovem com veleidades críticas escrever que nunca viu os homens destacaram essas mesmas qualidades desse livro. É triste que os jovens tantas vezes usem na internet sua própria ignorância (nunca viram nem leram nem ouviram...) como argumento de autoridade. A poeta é muito maior do que isso.


Desarquivando o Brasil CXCVII: "O intento golpista e, portanto, criminoso": minutas de golpes e atos institucionais (21 de fevereiro de 2024). Escrevi este sobre as minutas de golpe encontradas pela Polícia Federal com Anderson Torres. Resolvi elaborar um paralelo, do tipo que costumo fazer neste blogue na série Desarquivando o Brasil, com os antigos atos institucionais da ditadura militar.

O golpe, felizmente mal sucedido, era retrô também nesse aspecto. Ademais, sua base teórica era péssima (foi um caso de inteligência militar como deux mots qui hurlent de se trouver ensemble), precário até mesmo para os juristas que o inspiraram, conforme destaquei.


Desarquivando o Brasil CCIII: Onde está o relatório da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva" (16 de setembro de 2024). Eu estava há muito tempo para escrever esse texto. O que finalmente me moveu foi ter lido um livro cheio de equívocos que venceu a primeira edição do Jabuti Acadêmico; entre os erros, estavam afirmações sobre o relatório mencionado. 

A Comissão "Rubens Paiva", criada pelo Legislativo estadual por iniciativa de Adriano Diogo, foi interessante já pelo fato de ela ter surgido antes da Nacional e, com isso, ter despertado a fundação das outras: estaduais, municipais, sindicais, universitárias, a Camponesa etc. 

Era uma pena que a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo não estivesse tratando bem do relatório, que jamais foi impresso e só existe on-line. Não sei se o meu texto teve alguma influência nisto, mas algumas semanas depois, não tive mais problema para acessá-lo.


Alberto Pimenta e o Discurso sobre o filho-da-puta de volta, em tempos muito apropriados, ao Brasil (16 de dezembro de 2020). O maior poeta vivo da língua portuguesa, Alberto Pimenta, é uma das principais razões por que as pessoas vêm parar neste blogue. Quatro anos depois, o texto de 2020 sobre a publicação na Serrote do célebre Discurso, que é seu livro mais traduzido, foi o mais lido dos vários que já escrevi sobre ele.

Evidentemente, além da genialidade de Pimenta, o assunto de que ele trata é sempre atual, o que deve ter chamado a atenção de quem leu o meu texto.


Subterrâneo do anjo e aniversário do Walter Benjamin (15 de julho de 2024). Este foi uma surpresa porque é um poema meu, ainda não recolhido em livro, publicado em um periódico de poesia, Ouriço, que o pediu. Eu o li com Fabio Weintraub no lançamento paulista da revista. Achei que a reação foi meio gélida, com exceção de Matheus Guménin, que foi a pessoa que estava lá e disse que gostou do poema. Acho que o problema foi tê-lo escrito com um tema (poesia e história), que foi alterado depois, o que me deixou meio fora do lugar naquele contexto. No blogue, porém, algumas pessoas talvez o tenham lido porque nele viro Walter Benjamin de pernas para o ar, o que não é tão comum.


Desarquivando o Brasil LXVII: Polícia e direito de manifestação (23 de agosto de 2013). Aqui tratei de alguma falas minhas no ano difícil de 2013, com destaque para a que fiz em uma iniciativa de esquerda de que morreu logo depois. Luka França também lá estava para tratar do caso Carandiru.

O vídeo caiu, mas os textos que apontei estão aqui: https://web.archive.org/web/20130811025608/http://vandaleando.laboratorio.us/. Como sempre, fiz o exercício de comparar o presente e o passado, dessa vez desde os anos 1950. 

Por que esse texto continua a ser lido, mais do que outros bem mais recentes? Imagino que a persistência do problema, com os casos diários de arbitrariedade policial, seja a razão.


Impressões europeias: a sombra do continente (21 de setembro de 2010). Trata-se de 355 caracteres (com espaços) e uma foto, que eu tirei, de xenofobia e racismo no Aeroporto de Madri. Zapatero e Sarkozy ainda estavam no poder.


Ele cala: a poesia de Nuno Ramos (20 de setembro de 2010). É o mais antigo dos textos, publicado na véspera do anterior. Trata-se de um dos artigos que escrevi sobre a obra literária de Nuno Ramos; este saiu na extinta revista Rodapé, que não foi publicada na internet.


Desarquivando o Brasil CCIV: Ciclo no SESC-SP de pesquisas acadêmicas e jornalísticas sobre a ditadura (16 de setembro de 2024). Eu não iria ficar, como o governo federal (já que habito em São Paulo, digo o mesmo do estadual e do municipal), calado sobre os sessenta anos do golpe de 1964. Uma das ocasiões em que falei em público sobre a triste efeméride foi nesse ciclo do Centro de Pesquisa e Formação do SESC-SP, para o qual fui chamado em razão de meu livro de 2023,  Ilícito absoluto: a família Almeida Teles, o coronel C. A. Brilhante Ustra e a tortura.

Também no livro não me calei sobre a problemática da ditadura, por sinal. Para quem ainda não o leu, aqui está a introdução: https://www.editorapatua.com.br/ilicito-absoluto-a-familia-almeida-teles-o-coronel-c-a-brilhante-ustra-e-a-tortura-ensaios-de-padua-fernandes/p


segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Desarquivando o Brasil CCVI: Jair Bolsonaro, Carlos Alberto Brilhante Ustra e outros militares

Esboço esta nota por causa da trama recentemente descoberta de militares que conspiraram em 2022 para matar Lula e Alckmin, depois de eleitos em 2022, e o Ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes.

Quando resolvi escrever um livro sobre o processo em que a família Almeida Teles conseguiu o reconhecimento judicial, o Ilícito absoluto, não imaginava o quanto teria mencionar Jair Bolsonaro. São mais de noventa menções no texto. É claro que eu sabia que citaria o voto que ele proferiu em 2016, humilhando o país diante do mundo por homenagear um torturador no parlamento contra a presidenta eleita, Dilma Rousseff. 

Esse voto ignominioso, lido no plenário sem que nenhum deputado lembrasse que Carlos Alberto Brilhante Ustra já tinha sido declarado torturador pelo Judiciário brasileiro, aparece na introdução do livro; chamei-o de "elogio fúnebre" que "veio atrasado", pois o outro militar havia sido enterrado meses antes após uma longa doença (não, ele não foi assassinado).

Ele apareceu em parte por causa de Olavo de Carvalho, admirado tanto por Brilhante Ustra quanto por Bolsonaro; ele representou uma conexão entre ambos no soi-disant pensamento da extrema-direita brasileira, embora aquele ideólogo concedesse que a família Almeida Teles poderia ter razão no processo contra o coronel reformado.

Bolsonaro, quando subiu à presidência da república, chamou o falecido militar de herói nacional e convidou a viúva, Joseíta Brilhante Ustra, para trabalhar em sua equipe; ela recusou, mas ele a recebeu no Planalto algumas vezes.

Bolsonaro cortejou a extrema-direita militar e louvou os crimes de lesa-humanidade da ditadura mais de uma vez durante sua carreira política. Depois de Brilhante Ustra ter sido citado judicialmente pela família Almeida Teles, aconteceu um tumulto nos meios militares, que chegou ao governo federal e, em 2007, o Clube Militar no Rio de Janeiro fez um evento em defesa da extensão dos efeitos da Lei de Anistia aos agentes da repressão.

Militantes contra a violência do Estado e por memória, verdade e justiça protestaram; Brilhante Ustra saiu pela porta dos fundos e Bolsonaro soltou uma de suas frases emblemática: o "erro foi torturar e não matar", como se a ditadura não tivesse também matado. É um dos eventos em que os dois se cruzaram e que menciono no Ilícito absoluto:



Os dois se cruzaram no âmbito da extrema-direita militar e sua indisposição com o regime democrático. Não à toa, Bolsonaro passou a citar como seu livro de cabeceira A verdade sufocada, o compêndio de inverdades históricas de defesa da ditadura e ataque à esquerda e à democracia (nele, Vladimir Herzog é considerado suicida) que Brilhante Ustra publicou na época da propositura da ação pela família Almeida Teles.

Citei no livro trabalhos de Piero Leirner e de Marcelo Pimentel sobre como Bolsonaro foi escolhido informalmente como o candidato das Forças Armadas depois da reeleição de Dilma Rousseff em 2014. Na minha pesquisa, achei mais uma coisa: o apoio de Brilhante Ustra desde 2005 (uma carta aberta de Joseíta) a Bolsonaro como único representante das Forças Armadas no Congresso Nacional:




Aparentemente, Bolsonaro foi grato a esse apoio em uma época em que ele não detinha tanto prestígio, e em que outros colegas provavelmente não partiriam para o banditismo político para protegê-lo.
Anos depois, Amelinha e Janaína Teles gravaram depoimentos sobre a tortura no DOI-Codi chefiado por Carlos Alberto Brilhante Ustra para o programa eleitoral de Fernando Haddad em 2018; o programa gerou repercussão e logo foi tirado do ar pela Justiça Eleitoral a pedido da campanha de Bolsonaro. Ambas receberam ameaças anônimas.
O governo de Bolsonaro repetiu várias características da ditadura militar, algumas das quais listei no trecho abaixo, e marcou-se pelo negacionismo da ciência e da história.




Não por acaso, também dois órgãos que se ocupavam da justiça de transição, tentando remediar graves violações de direitos humanos da ditadura, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e a Comissão de Anistia, foram extintos pelo governo de Bolsonaro. Escrevei que isso parecia dizer algo sobre as Forças Armadas de hoje; copio o trecho, pois já disse isto tantas vezes:

[...] o engavetamento das recomendações da CNV, o golpe de 2016 e a eleição de Bolsonaro em 2018 parecem indicar algo além disso: a batalha continua, e as Forças Armadas mantêm seu ativismo pelo negacionismo histórico, isto é, pela negação dos crimes de lesa-humanidade da ditadura que comandaram.

Exatamente por isso, Bolsonaro continuava a ser uma ameaça à democracia. Francisco Assis, em 2018, na crônica para o jornal português O Público "Um canalha à porta do planalto", falou do caso da família Almeida Teles e do escândalo (ao menos para pessoas não fascistas) de o ídolo de Bolsonaro ser um torturador, um torcionário. Quatro anos depois, na campanha de 2022, Antonio Prata fez algo parecido lembrando de Janaína e Edson Teles, crianças diante dos pais torturados, em crônica publicada na Folha de S.Paulo. Escrevi no Ilícito absoluto que a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 parecia indicar que o "risco era muito real":




A tentativa de golpe de 2023 foi precedida pelo malogro em 2022 dos atentados planejados, agora sabemos. Os preparativos e a tentativa de assassinar o presidente e o vice presidente eleitos, Lula e Alckmin, e o Ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, seriam evidentemente apenas o começo: não é verossímil que o banditismo golpista parasse aí, pois já começaria em um patamar acima do primeiro de abril de 1964, que não buscou inicialmente assassinar João Goulart.
Viria enfim o trabalho "que a ditadura não fez", de matar trinta mil, segundo as palavras do Bolsonaro mais jovem, e provavelmente enganosas, pois o assassinato de indígenas bem pode ter chegado a essa cifra? 
É hora de tratar essa gente e os seus aliados, eleitos ou não, financiadores e/ou propagandistas como os inimigos da democracia que são. Falta saber se o país já possui instituições para isso, o que seria, de fato, uma novidade histórica, ao contrário de golpes de Estado, tentados ou efetivados.

sábado, 21 de setembro de 2024

Teoria jurídica do exorcismo ou ufologia intestinal

 

A Justiça condenou cientistas que desmentiram que os vermes fossem transmitidos por ETs.

Maurina morreu porque os vermes bloquearam seu intestino por ela ter trocado o tratamento médico pelo exorcismo de ETs.

Os exorcistas de ETs ganharam indenização milionária pela angústia e pelas lágrimas derramadas após terem sido denunciados por cientistas.

Milhares de pacotes de exorcismo foram vendidos depois da notícia de que a Justiça condenou cientistas que desmentiram que os vermes fossem transmitidos por ETs.


Os cientistas que desmentiram os vermes foram condenados pela Justiça e transmitidos para os ETs.

Maurina morreu porque seu intestino foi contrário aos vermes que bloquearam os cientistas.

Os exorcistas de ETs denunciaram que a indenização gerou angústia e lágrimas porque os cientistas morreram no cárcere sem pagar nada.

Milhares de pacotes de Justiça foram vendidos depois da notícia de que os exorcistas condenaram cientistas que desmentiram que os ETs fossem transmitidos por vermes.


Os ETs condenaram cientistas que provaram que a Justiça era transmitida por vermes.

Maurina morreu porque a Justiça bloqueou seu intestino quando ela abandonou o tratamento médico pelos cultos religiosos interplanetários.

A Justiça ganhou indenização milionária dos cientistas pela angústia e pelas lágrimas que derramou em solidariedade aos ETs e exorcistas.

Milhares de pacotes de vermes foram vendidos depois da notícia de que os ETs condenaram cientistas que desmentiram que a Justiça fosse transmitida por exorcistas.


Os vermes condenaram cientistas que desmentiram que o Sol girasse em torno da Justiça e dos ETs.

Maurina morreu porque exorcistas e vermes bloquearam a translação da Terra em torno do Sol.

Os exorcistas de ETs decretaram a paralisia da Terra diante do Sol e ganharam dos cientistas uma indenização milionária na Justiça.

Milhares de pacotes de viagem ao Sol foram vendidos depois que os cientistas abandonaram a profissão porque as verbas dos magistrados são avistadas além da Terra.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

Desarquivando o Brasil CXCIX: O governo federal arquivando a ditadura

Perguntaram-me se Lula tinha proibido que se falasse sobre os 60 anos do golpe de 1964. Expliquei para a pessoa, que tinha curso superior, que o presidente da república só podia exercer esse poder hierárquico sobre seus subordinados no governo federal, não sobre a sociedade civil, ou sobre outras esferas do poder institucional.

As pessoas não se calaram; na época, Evandro Éboli, no Correio Braziliense, fez um levantamento de 113 atos. 

Entendi que a estranha dúvida era sintoma corrente de uma sociedade autoritária. Eu não me calei: em março, dei um breve curso de título "60 anos do golpe de 1964, 10 anos do relatório da CNV" no Centro de Pesquisa e Formação do SESC-SP e falei sobre a ditadura na Unesp de São José do Rio Preto.

Que Lula III tenha proibido atos da administração federal sobre os 60 anos do Golpe de 1964 é certamente lamentável, mas infelizmente previsível. Nos governos Lula I e II os familiares de mortos e desaparecidos políticos também não foram recebidos pelo presidente da república. Naqueles anos, houve reiteração por lei do sigilo eterno dos documentos decretado por Fernando Henrique Cardoso (o inconstitucional sigilo eterno cessou apenas com a Lei de Acesso a Informações em 2011), o governo federal judicialmente posicionou-se ao lado do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra contra o pedido do Ministério Público que ele ressarcisse os cofres públicos em razão das indenizações que a União pagava por causa dos crimes de lesa-humanidade cometidos no DOI-Codi durante sua chefia; ademais, declarou-se judicialmente a favor da anistia para os autores de crimes de lesa-humanidade da ditadura etc. 

Contei essas coisas e outras no meu livro mais recente, Ilícito absoluto. Também contei que todos os avanços em matéria de memória, verdade e justiça vieram dos militantes e dos movimentos sociais organizados, apesar do que pretende certa literatura dominante no direito brasileiro na área de justiça de transição, que prefere tecer fábulas triunfalistas do Estado. 

O governo federal por meio da nova direção do Arquivo Nacional, abandonou o projeto Memórias Reveladas, o que levou os servidores a organizarem protesto no aniversário do golpe, em Primeiro de Abril. Esse projeto de digitalização e disponibilização dos documentos da ditadura foi muito importante.

Depois de muita pressão, o governo federal reativou o projeto em 8 de maio, mas seu destino ainda é incerto: vejam o texto no Gira da Arquivo, que põe em dúvida também o acerto na escolha dos especialistas na Comissão de Altos Estudos do Memórias Reveladas, que deixa de lado os especialistas da Arquivologia. Outra notícia é que o portal não é atualizado desde outubro de 2022: o governo Lula III, até agora, paralisou a disponibilização de arquivos da ditadura.

Inês Stampa, que estava à frente do projeto e foi investigada pelo ex-magistrado e ex-professor de Direitos da UFPR Sergio Moro na passagem dele pelo Ministério da Justiça do recente governo da extrema-dreita militar, pediu aposentadoria. Ela adoeceu depois de ver que o desmonte do projeto prosseguiu com o atual governo, segundo esta entrevista dada a Carlos Tautz e publicada pelo The Intercept

Suzana Lisboa, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos falou para o ICL Notícias em 12 de março: https://www.youtube.com/live/w1pWWJ1BUrk?si=WM7I3KfcINibovdL&t=2079

Nunca imaginei que ele chegaria tão baixo, apesar de ele nunca ter recebido os familiares. Este é o terceiro ano do governo dele e o presidente  Lula, com todas as agendas que fez, nunca recebeu os familiares de mortos e desaparecidos políticos. Tenho certeza que as Abuelas da Plaza de Mayo, os familiares uruguaios se soubessem,  não teriam dado a ele o carinho que deram, pelo contrário, teriam reivindicado que ele se posicionasse no Brasil porque essa não é só uma questão do Brasil, essa é uma questão da América Latina, do mundo, da nossa história.

O argumento do governo federal é típico da ideologia autoritária: sua base é a "teoria dos dois demônios". Explico: quem defende o legado da ditadura em geral busca equalizar os crimes da lesa-humanidade da repressão com as ações de resistência da oposição. Proibir tanto manifestações "contra" e "a favor" do golpe de 1964 é, por si, tomar um lado; pois, quem não se posiciona favoravelmente à dignidade humana e à democracia escolheu o oposto disso.

Não há neutralidade nenhuma em manter-se isento entre democracia e ditadura. Os governistas deveriam saber disso.


P.S.: Há uma petição, "Solidariedade à professora Inez Stampa e pela reconstrução do MR e do Arquivo Nacional", aberta publicamente para assinatura: https://www.change.org/p/solidariedade-%C3%A0-professora-inez-stampa-e-pela-reconstru%C3%A7%C3%A3o-do-mr-e-do-arquivo-nacional

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Desarquivando o Brasil CXCVI: Imprensa e ditadura, arquivo (inverso) do esquecimento

Terminei um livro neste ano, o que me tomou muito tempo: Ilícito absoluto: a família Almeida Teles, o coronel C. A. Brilhante Ustra e a tortura, publicado pela Patuá. Por essa razão, escrevi pouco aqui e alhures. A obra lida muito com a repercussão do caso na imprensa: a maior parte das fontes são jornalísticas, o que me fez perceber que o caso que estudei, a partir de certa altura, deixou de ser noticiado.

Trata-se de um processo sobre crimes de lesa-humanidade da ditadura militar, que não deixam de ter continuidades nos dias de hoje, inclusive em termos de exploração eleitoral: a apologia aos crimes do Estado continua a dar votos. Por isso, era tão politicamente sensível e conveniente calar a denúncia desses crimes em momentos de golpe, como o de 2016, ou de apoio à volta ostensiva dos militares ao poder. A pauta jornalística havia mudado, pois guinou para a direita.

Dessa forma, pensei que o súbito vazio de notícias sobre um caso de reconhecimento judicial de tortura também presentava uma fonte de pesquisa, porém ao inverso: a ausência de fontes jornalísticas documentava algo: uma tomada de atitude da imprensa, que, aparentemente, havia decidido esquecer a pauta politicamente sensível para a direita. Mesmo na morte do coronel, boa parte da imprensa resolveu ignorar o caso e dizer que ele foi "acusado de torturas" ou algo parecido, e não que a tortura no DOI-Codi de São Paulo tinha sido judicialmente reconhecida em primeira instância, no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e no Superior Tribunal de Justiça, nada menos.

Pesquisei e citei de periódicos dedicados aos militares até veículos identificados com pautas de esquerda, como o Brasil De Fato. Meios de comunicação de esquerda em geral eram mais enfáticos contra agentes da ditadura. Mas um problema que atravessa todo o espectro ideológico é a falta de acúmulo: tudo é uma novidade permanente, o que é um problema tanto da imprensa e de seus profissionais, como dos leitores e dos semi-leitores, que devem ser a maioria, se excluirmos os não leitores. Poucos poderão ler um texto além das manchetes. 

Conto uma anedota pessoal. Na época em que eu lecionava, uma colega, que tinha outra formação, estava preocupada com uma disciplina que passaria a lecionar em pós-graduação de Direito lato sensu. Busquei tranquilizá-la afirmando que não se tratava de assunto de "dogmática jurídica" (nome curioso que os advogados atribuem a seus assuntos técnicos), portanto a formação dela era adequada para o tema específico, e que a matéria era ensinada no primeiro ano de graduação e "todas as turmas são de primeiro ano", mesmo as de pós-graduação. Uma semana depois, ela confirmou que eu estava certo...

Em larga escala, trata-se de como funciona o país. Dessa forma, tudo se torna "um museu de grandes novidades", para citar "O tempo não para", de Cazuza e Arnaldo Brandão.

Escrevi aqui em 2022 como os áudios de julgamentos do Superior Tribunal Militar na época da ditadura foram liberados judicialmente por iniciativa do advogado e pesquisador Fernando Augusto Fernandes, que já os publicou parcialmente, para que anos depois a imprensa grande tratasse o material publicado anos atrás como "inédito", e que teria sido descoberto recentemente por certo historiador.

A imprensa grande, em vez de grande imprensa. Contudo, o problema ocorre também com periódicos de esquerda que desejam cobrir pautas que tendem a ser ignoradas pelos grandes meios de comunicação. A Agência Pública, por exemplo, fez uma interessante série de matérias sobre as dez empresas investigadas por equipes escolhidas pelo Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp, a partir de recursos advindos do termo de ajuste de conduta da Volkswagen (denunciada por sua cumplicidade com a repressão política durante a ditadura militar) com o Ministério Público Federal.

Essas equipes deveriam investigar crimes de lesa-humanidade (imprescritíveis) que pudessem suscitar novas ações do Ministério Público. O resultado gerou um informe público, que pode ser consultado por todos, e, outro, mais completo, que está com as autoridades, para que elas estudem a instauração de inquéritos.

A Agência Pública teve acesso a todo esse material e publicou matérias. Sobre a Folha de S.Paulo, uma das empresas investigadas, lemos que os documentos "indicam que a colaboração" do jornal "com a ditadura foi mais profunda do que se sabia". Lemos que, "segundo a pesquisa o grupo Folha teria emprestado carros de distribuição de jornais para que agentes da repressão os usassem". 

Este é um exemplo de falta de acúmulo: a tese de Beatriz Kushnir que trata desse empréstimo foi publicada em 2004 (Cães de guarda: jornalistas e censores) e foi citada pela Comissão Nacional da Verdade. A pesquisa, no que foi mostrado no relatório aberto, confirma o que já estava em Kushnir e na CNV, e traz novas entrevistas, que Marina Amaral destaca no Jornal do Brasil.

Outro caso foi a Petrobras: a matéria que a Agência Pública publicou em 30 de maio de 2023 anunciava que "Petrobras participou de tortura e monitorou orientação sexual de funcionários na ditadura". Também não era novidade, claro: em 2022, apresentei trabalho a seis mãos, meu, de Janaína de Almeida Teles e Bruno Boti Bernardi no Seminário Internacional de Políticas da Memória, em Buenos Aires, onde, aliás, estava boa parte da equipe do projeto CAAF que pesquisou a Petrobras. Essa equipe ainda não tinha pesquisado o assunto da orientação sexual dos empregados. Para quem quiser consultar os trabalhos, eles são as da mesa 15 do seminário de 2022, coordenada por Vitoria Basualdo e Andrea Copani: http://conti.derhuman.jus.gov.ar/2021/08/seminario-xiii-ponencias.php

Nosso título era "Responsabilidad empresarial: violaciones de derechos humanos cometidaspor Petrobras durante la dictadura militar brasileña" Eu falei, entre outros temas, como tortura, violação de direitos dos povos indígenas, a sala secreta de espionagem, a DIVIN etc., dos documentos que indicavam que a Petrobras monitorava a orientação sexual dos empregados seus e das empresas contratadas:


Entre as informações coletadas sobre funcionários estavam dados sobre “comunismo” e “homossexualismo”. Nas fichas ISF (“investigação socio-funcional”), referente aos candidatos a trabalhar nas empresas do grupo Petrobras, encontramos anotações sobre “homossexualismo”, como problema, em relação à Refinaria Paulínia; como motivo de demissão, a empregado de empresa que prestava serviços à Fronape (Frota Nacional de Petroleiros); como “restrição grave” para empregado contratado na própria Petrobrás, entre outros. As fichas “de informação confidencial” dos empregados incluíam quesitos como “Pratica atos de homossexualismo?”.

Renan Quinalha havia localizado alguns desses casos em sua tese sobre a “política sexual da ditadura brasileira”, destacando que “Empresas públicas, como a Petrobrás, foram especialmente influenciadas pela paranoia homofóbica dos órgãos de informação. A orientação sexual dos funcionários aparecia como um dado fundamental para a decisão de dispensar ou mantê-los no emprego.” (Quinalha, 2017: 235).


Ressaltei, tanto no texto quanto na exposição, que quem havia descoberto a questão era Renan Quinalha, professor de Direito da Unifesp e conhecido pesquisador da história e dos direitos da população LGBTQIA+ no Brasil. Por isso, não se tratava de uma descoberta nossa ou mesmo, depois, da equipe do CAAF. O nome de Quinalha, porém, não é citado na matéria da Agência.

Dei alguns poucos exemplos nessas questões ligadas ao passado recente, da ditadura militar, mas é evidente que o problema é mais amplo. Essa falta de acúmulo prejudica a discussão na esfera pública: tudo parece sempre voltar ao ponto zero. Assim, talvez diriam alguns, os velhos invasores podem camuflar-se de novos "descobridores" das Américas.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

O bolsonarismo como golpe de Estado permanente: Uma retrospectiva de 2022 no Twitter

O bolsonarismo elegeu-se ameaçando a democracia: em 2018, no Twitter e em outras redes, os eleitores de outros candidatos (em geral, do PT) criaram o slogan "seu voto me põe em risco", que foi, no entanto, bem recebido pelos bolsonaristas, que desejavam realmente "isso mesmo". Logo depois da vitória no segundo turno, eles cunharam "votei nele pra isso mesmo", comemorando cada medida anunciada do futuro governo e, durante o mandato, as poucas façanhas hercúleas, como esta: 


Somente este tweet teve mais de seis mil "curtidas". As centenas de milhares de mortos durante a pandemia também receberam, não raro, a confirmação do voto "pra isso mesmo", o que seria de esperar em um país que vê na chacina uma técnica de governo e, no genocídio, um mecanismo eficaz de ampliação da fronteira agrícola. Nesse sentido, o bolsonarismo funcionou em regime de golpe de Estado permanente, no que certamente cumpriu os objetivos do Partido Militar: manter a tutela fardada sobre a república brasileira.

Tentou-se dar um golpe de Estado mais uma vez no Brasil; formulo a frase com sujeito indeterminado porque as investigações prosseguem. Em 18 de novembro, matéria de Rodrigo Rangel indicou a existência de um "QG do Golpe" no comitê de Bolsonaro em Brasília. Em 12 de dezembro, tentaram invadir a Polícia Federal em Brasília e incendiaram carros. Em 30 de dezembro, a Operação Nero, da Polícia Federal, prendeu suspeitos de participar de atos antidemocráticos. Em oito de janeiro de 2023, os bolsoterroristas, cumprindo o que tinham anunciado e planejavam abertamente, invadiram, saquearam e danificaram imóveis dos três Poderes em Brasília.

Essas movimentações eram muito visíveis no Twitter, uma rede social em que os perfis participantes escreviam mensagens breves, que continua a existir no momento em que escrevo, apesar de sua sobrevivência ter sido colocada em questão por causa da sua compra por Elon Musk. Por meio dos tópicos ou palavras mais discutidas ou repetidas (hashtags), essa rede mostra ou influencia com muito dinamismo a agenda de debates: um político como Trump usava-a como instrumento de poder.

Por causa desse dinamismo e de sua repercussão na discussão pública, grassam nela perfis automatizados e os perfis falsos, para os mais variados fins: de pesquisa acadêmica, de apoio político e  até de supostos fãs de times de futebol e participantes de reality show. Eles são usados, não raro, para direcionar o debate para seus fins particulares e praticar assédios de toda sorte. Serviram também para replicar nas redes os ataques a opositores e à imprensa. Jair Bolsonaro teve um surto misógino em debate presidencial durante o primeiro turno e atacou uma jornalista da TV Cultura, Vera Magalhães, que, em debate posterior, ainda foi assediada por um deputado estadual bolsonarista que não lograria reeleger-se em São Paulo. Nas duas ocasiões, milhares de tweets atacaram-na.

Por vezes, o uso dos tópicos tinha finalidade diversionista: aparecia uma denúncia contra o governo de Bolsonaro, os perfis requentavam os mesmos temas contra o PT ou Lula. Nesses momentos, podia-se ver perfis mais identificados com a esquerda reverberando o alcance desses tópicos, simplesmente comentando-os, o que é um erro estratégico neste mundo de algoritmos:


Também aí ocorre uma reprodução de táticas usadas por Trump nos Estados Unidos. Quando o bolsonarista Roberto Jefferson atirou em agentes da Polícia Federal em 23 de outubro de 2022, resistindo a uma ordem de prisão, houve quem falasse em "Capitólio Tabajara" (cito a revista Fórum). Piero Leirner usou a mesma expressão para os atentados de 8 de janeiro de 2023, acentuando a responsabilidade dos militares no emprego da guerra híbrida, que se trava marcadamente no campo da contrainformação:


Faço a nota de que a expressão, certamente inadequada, como lembra este tweet, foi usada no sentido de cópia brasileira de original estrangeiro:


O original vem dos EUA. O 8 de janeiro de 2023 em Brasília é cópia do 6 de janeiro de 2021 em Washington, ocasião em que apoiadores de Trump tentaram impedir a posse do governo vitorioso. A diferença é que os brasileiros golpistas vieram depois da posse: certamente os organizadores imaginavam que não fariam frente ao esquema de segurança e à multidão, muito superior em termos numéricos, de pessoas que foram assistir à posse de Lula.

O Twitter foi um campo importante para a "guerra híbrida". Dito isso, os perfis de esquerda, ou simplesmente do campo democrático, várias vezes conseguiram emplacar tópicos críticos a Bolsonaro. No 7 de setembro, a comemoração dos duzentos anos da Independência virou um ato de campanha de Bolsonaro que, com todo o ridículo de sua oratória claudicante, tentou puxar um coro de que era "imbrochável" (contudo, ele não conseguiu realmente levantar as vozes). No Twitter, prevaleceram as mensagens que tratavam da suposta impotência do presidente da república.

Em junho de 2022, em razão de matéria que afirmava que Bolsonaro teria pedido ajuda dos presidente dos EUA contra Lula, o tópico BOLSONARO LESA PÁTRIA ficou em primeiro lugar entre as mensagens da rede social no Brasil:


Com efeito, em 2022, os perfis bolsonaristas passaram a ficar cada vez mais isolados no Twitter, falando apenas entre si. Não obstante esse isolamento gradativo, eles tentaram arduamente fazer campanha ameaçando gople caso seu candidato não saísse vitorioso. Como aconteceu a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, resolvi escrever esta minirretrospectiva tendo a tuitosfera bolsonarista como guia, bem como as reações a ela.

Em janeiro de 2022, publicaram-se tweets exigindo a repetição da tática, vitoriosa em 2018, de prender o candidato líder das pesquisas com o fim de de eleger novamente a extrema-direita:


Eu avistei diversos desta natureza, mas preferi separar este por ser uma resposta ao Instituto Lula, talvez confundido com o próprio presidenciável.

Dando o tom da violência política da campanha, em fevereiro o então presidente da república sugeriu que "não ficaria tão difícil acertar" "um gordinho", em resposta a um perfil que comentou zombeteiramente um vídeo que mostrou Bolsonaro com muita dificuldade em fazer uma arma funcionar. Bem de acordo com o decoro do cargo para os padrões da direita.


Além da violência, que gerou assassinatos políticos também em 2022 e uso de drones para lançar fezes e veneno em eventos da oposição, grassaram as informações falsas de toda sorte: bolsonaristas quiseram até ver em um velho senhor em iate a figura de Lula. Em fevereiro, outra inverdade desse tipo surgiu: um perfil que assumiu a imagem do Anonymous publicou que Adélio bispo teria dado novo depoimento à Polícia Federal, o que era falso, mas descambou para perfis bolsonaristas publicarem que Adélio teria confessado que agiu a mando do PT; Jair Bolsonaro soltou pequeno vídeo relembrando o evento em 2018. A Polícia Federal ignorou a princípio os pedidos de esclarecimento, o que enseja a propagação da notícia mais tempo. Finalmente, Rubens Valente conseguiu o desmentido da Polícia. O jornalista Paulo Motoryn sintetizou o mecanismo das informações falsas desta forma:


No entanto, a notícia existiu por tempo suficiente para ser repassada em vários grupos de mensagem e o desmentido, tantas vezes, gera efeito de convencimento menor do que a calúnia.

Lula, consistentemente, esteve na frente das pesquisas eleitorais para a presidência. Além de incontáveis tweets exigindo nova prisão do político, bem como a miríade de insultos que lhe eram feitos (não os reproduzo aqui), a tática de atacar a Justiça Eleitoral pareceu ser usada de forma regular, como se quisessem justificar um golpe em caso de derrota.


A derrota só poderia, para esses perfis, derivar da suposta fraude eleitoral comandada por aqueles Ministros do STF, Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso (atacados por esses perfis ao longo de quase todo o governo de Bolsonaro), o que justificaria o que alguns chamaram de "contra-golpe" (é óbvio que se escreve "contragolpe", mas reproduzo a curiosa ortografia desses bolsonaristas). Veja-se que, neste tweet de março que selecionei, a invocação do fantasma do comunismo, inexistente porém muito eficiente para mobilizar os mais loucos e fanáticos, ou seja, aqueles que irão questionar menos as ordens do líder.

O fantasma voltou não como o espectro do famoso Manifesto, mas em um texto muito menos bem escrito: a celebração antidemocrática do golpe de 1964 pelo governo federal, que parecia desejar a instalação de uma atmosfera de golpismo festivo.


Os militares comemoram esse ataque à democracia no país com antecipação, no fim de março, em vez do primeiro de abril do golpe. Por isso o tweet do Ministério da Defesa é de 30 de março, bem como a crítica do Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais: ódio e nojo é uma citação de Ulysses Guimarães, referindo-se à ditadura militar.

Em abril, o deputado federal filho do presidente da república resolveu retomar uma tática do pai para projetar-se ainda mais no cenário político: Bolsonaro, na votação do golpe de 2016 na Câmara, fez uma apologia à tortura e à ditadura contra a presidenta Dilma Rousseff. O filho fez o mesmo, porém com ainda menor eloquência, usando um emoji contra uma jornalista, Míriam Leitão, que foi presa política durante a ditadura militar e era crítica contumaz do então governo. Não reproduzo o tweet aqui, mas a reação de Guilherme Boulos, que seria, meses depois, o deputado federal eleito com o maior número de votos em São Paulo:


É claro que ele não foi cassado. Imagine se a defesa da tortura fosse incompatível com a efetiva ética parlamentar brasileira; difícil conceber algo assim, tão divorciado dos costumes nacionais.

Os bolsonaristas ameaçavam repetidamente a Justiça Eleitoral, embora não tivessem tantas razões para isso. Neste tweet de abril, vemos o então presidente fazendo propaganda eleitoral meses antes do prazo determinado pela legislação. A tática da motociata parecia flagrantemente copiada de Mussolini (um dos modelos políticos do agora ex-presidente). Ela permitia aproveitar o máximo de espaço com um número menor de gente do que seria necessário se estivessem a pé, além de causar mais transtorno ao trânsito do que causariam os pedestres.


Esses eventos geraram muito mais tweets do que motos nas ruas, muitas vezes no tom mais ou menos velado de ameaça à Justiça Eleitoral: bolsonaristas só aceitariam o resultado das eleições se ele andasse em duas rodas. Aproveito e registro que, não raro, nestas exibições públicas sobre duas rodas, Bolsonaro exibia seu desapego não só em relação ao direito eleitoral mas também às normas de trânsito, andando sem capacete:



O tweet evoca Genivaldo de Jesus Santos, assassinado por agentes da Polícia Rodoviária Federal em Sergipe, que usaram a viatura como câmara de gás. Ele foi abordado porque estava sem capacete. O atual Ministro da Justiça, Flávio Dino, determinou em 6 de janeiro de 2023 que a família fosse indenizada.
Rodrigo Haidar comentou a evidente inconsistência do Judiciário no trato destas propagandas antecipadas de Bolsonaro. 


A cantora referida é Pabllo Vitar, que levantou a toalha com o rosto de Lula em um festival de música; por essa razão, o partido de Bolsonaro conseguiu a proibição de manifestações políticas no evento. Quando ela, em primeiro de janeiro de 2023, encerrou as apresentações musicais da posse do presidente Lula, relembrou o incidente.
Um dos juristas diletos do bolsonarismo é Ives Gandra da Silva Martins. Seu nome virou tópico no Twitter algumas vezes. Em abril, ele voltou a declarar que as Forças Armadas estariam acima dos três Poderes constitucionais, gerando um aluvião de tweets bolsonaristas. Cito as ponderações contrárias de Wellington Saraiva, com as quais concordo:


De fato, somada à reverberação múltipla dos bolsonaristas no Twitter e em outras redes sociais, a declaração contrária à Constituição parecia soar como ameaça ao Supremo Tribunal Federal. Como, em geral, os bolsonaristas não tinham passado pela formação jurídica, tiveram a inteligência suficiente para perceber logo que a desleitura constitucional de Ives Gandra, pretendendo achar um "árbitro" entre os Poderes fora do sistema de freios e contrapesos e escolhendo-o entre os militares, favorecia evidentemente o militar Bolsonaro:



Não apenas Ives Gandra da Silva Martins apresentou concepções inovadoras (em relação à Constituição; em si, eram posições arcaicas) sobre o papel dos militares. O Ministro Barroso teve a ideia, estranha para alguém que é por tantos considerado como um constitucionalista, de chamar as Forças Armadas para o processo eleitoral. Sem a mínima condição técnica de colaborar efetivamente, elas passaram o ano com relatório desta qualidade, em meio, como diz esta notícia, da "pressão de Bolsonaro e do ministro da Defesa":


Milhares de tweets bolsonaristas, que não reproduzo aqui, atacaram a Justiça Eleitoral em cada um desses momentos de tensão institucional.
Ao longo de todo ano, mas, na verdade, desde pelo menos desde 2017, como já escrevi aqui, os perfis bolsonaristas fazem analogias com o processo eleitoral dos EUA adotando as posições do Partido Republicano e de Trump. Selecionei este tweet do fim de maio como amostra dos que já faziam questão de deslegitimar uma vitória da esquerda: ela seria tão fruto de fraude quanto a de Biden em 2020...


Era previsível que tentariam repetir o atentado do Capitólio aqui. Adriana Carranca, no fim de junho, fez comentário semelhante porque o filho senador de Bolsonaro recusou-se a responder se o pai aceitaria a derrota para Lula (que continuava à frente nas pesquisas eleitorais), mas afirmou que a reação dos apoiadores seria imprevisível:



A posição parecia-se com a terceirização do golpe, com a tentativa de elidir a responsabilidade, que é um dos objetivos de toda terceirização: deixa-se que os apoiadores façam o trabalho sujo pelo líder. 

Em 10 de julho, em Foz do Iguaçu, o policial federal bolsonarista Jorge José da Rocha Guaranho invadiu a festa de aniversário do guarda municipal e tesoureiro do PT Marcelo Arruda. Assassinou-o, mas Arruda ainda logrou atirar nele, tentando defender a si e aos seus. A polícia prendeu-o e divulgou, em um primeiro momento, que ele teria morrido. Parte da imprensa, fiel à teoria dos dois demônios, que certamente deve constar em manuais de redação ocultos, logo partiu para igualar agressor e vítima. Até mesmo a imprensa especializada:

Marcelo Arruda teria gostado de ver, certamente, que Lula e seus apoiadores conseguiram superar o ódio e a violência bolsonaristas, bem como a teoria dos dois demônios cultivada pela imprensa burguesa.

Li diversos tweets de pessoas que não ousam usar, por exemplo, broches ou adesivos de candidatos não bolsonaristas (não só de Lula ou do PT) com medo de serem atacadas na rua. O bolsonarismo, com seu uso eficaz da violência política, teve certo sucesso em constranger os eleitores de outros partidos. 

Outra fonte de constrangimento eleitoral que surgiria se fosse aprovada foi a proposta do Ministério da Defesa de criar uma votação paralela em papel:



Esta recebeu também vários tweets de apoio, como se viessem de um Estado paralelo. No dia 18, pouco depois, Bolsonaro atacaria o sistema eleitoral brasileiro em uma exposição para a qual foram convidados embaixadores estrangeiros, o que gerou tanto a reação da sociedade civil quanto a inação do presidente do Congresso Nacional e do procurador-geral da república. Os perfis bolsonaristas apoiaram massivamente o então presidente, porém cito aqui a jornalista Flávia Oliveira mencionando a atuação do "Pacto pela Democracia":


No mesmo dia 19, a Embaixada dos EUA no Brasil declarou que as eleições no Brasil são um "modelo" para o mundo.
O lançamento da candidatura de Bolsonaro seguiu a  estratégia de comunicação ambígua adotada pelo bolsonarismo, dando sinais tanto de institucionalidade quanto de golpismo. 


Nesse momento, irromperam tweets sobre as comemorações de 7 de setembro na linha de que, em 2021 o golpe não havia sido dado, mas em 2022 ocorreria, porque "a corda" tinha sido "esticada demais", os "generais melancias" seriam presos (melancia, por ser verde por fora e vermelha por dentro, virou metáfora para comunistas dissimulados), assim como Lula, o MST, Anitta, o STF e Pabllo Vitar, e o "reino de Cristo" venceria junto com o "agro" e o Neymar, garantindo a permanência de Gusttavo Lima no Brasil, talvez (esta parte não me ficou clara) participando das novelas de Glória Perez. Parece confuso, mas tentei resumir a linha de pensamento bolsonarista no Twitter.
Reproduzi antes um tweet de Leonardo Sakamoto; na imprensa, ele fazia apreciações muito críticas de Bolsonaro e seu governo, o que gerou diversos ataques na rede social; em algumas vezes, pelo efeito de rebanho típico das redes sociais, esses perfis conseguiam suspender do Twitter algum jornalista. Os políticos de oposição sofreram e sofrem ataques coletivos semelhantes (alguns chegaram a fechar seus perfis, salvo para seguidores, como o presidente do Senado); contra as mulheres, os insultos eram em geral mais duros, tendo em vista que a misoginia é um dos fundamentos do bolsonarismo. Os bons jornalistas e estas mulheres na oposição sofreram muitos obstáculos em seu trabalho. Aqui reproduzo um tweet de agosto da deputada federal, reeleita, Sâmia Bomfim que indicava matéria do Metrópoles sobre empresários bolsonaristas que teriam defendido golpe de Estado para impedir a posse de Lula:


Não reproduzo os diversos xingamentos e ameaças à deputada e ao jornal, contribuição típica do bolsonarismo à esfera pública. Outros perfis replicaram a matéria, como JairMeArrependi e o Sleeping Giants Brasil que, replicando seu modelo nos EUA, buscou combater os discursos de ódio por meio do ativismo digital:



No STF, em geral não eram atacados os dois Ministros indicados por Bolsonaro e aprovados pelo Senado Federal. Os perfis bolsonaristas em geral atuavam como se os dois não fossem magistrados, e sim advogados do então presidente da república no Tribunal (o que, claro, se correspondesse à verdade e fosse aprovado, seria atentatório ao Estado de direito e deveria gerar o impeachment de ambos), e nesses termos os defendiam. Também por essa razão, atacavam os outros Ministros.


O professor Conrado Hübner Mendes já escreveu diversas vezes sobre a estratégia de magistrados em tribunais superiores paralisarem o julgamento por meio de pedido de vista quando a posição contrária vai prevalecer. Os novos Ministros do STF não representaram novidade alguma nessa questão. No caso dos decretos de Bolsonaro de descontrole do uso das armas, que poderiam ensejar mais violência política (ou depois: imaginem os golpistas de 8 de janeiro todos armados), o pedido de vista de Kassio Nunes Marques interrompeu um julgamento que já estava definido contra o governo federal: 


André Mendonça fez o mesmo em outro julgamento importante, o da Pauta Verde, o mais importante julgamento de Direito Ambiental no ano; com isso, também evitou uma derrota do governo que fazia reuniões com criminosos ambientais. Mauricio Guetta, um dos advogados do Instituto Socio-Ambiental (ISA), fez notar a identidade de táticas nos dois julgamentos e chamou-a de "tônica atual":



Lembro deste caso porque a erosão ou implosão das instituições democráticas promovida pelo bolsonarismo foi mais efetiva no campo da "Pauta Verde", com a explosão de desmatamento, de assassinato de indígenas, camponeses e ambientalistas. Aqui também temos o golpismo e o uso das instituições contra o chamado Estado de Direito.

Os debates na televisão geraram muita movimentação no Twitter. Não vou reproduzi-los, tampouco os que gritavam fraude eleitoral quando os resultados confirmaram que haveria segundo turno, e com Lula na frente. Salvo por este tweet dos Judeus pela Democracia, com o qual concordo:


A campanha do candidato do Partido Liberal tinha resolvido incorporar, zombeteiramente, a referência que Lula fez a esse grupo racista de extrema-direita dos Estados Unidos. Virou até tópico bolsonarista no Twitter, mas não sem razão: já em 2018, David Duke, da Ku Klux Klan, elogiou Bolsonaro afirmando "ele soa como um de nós". É claro que o racismo é um dos núcleos do bolsonarismo, e a apropriação jocosa do grupo promovedor de linchamentos de negros nos EUA deve ter dado ao candidato um ar ainda mais simpático para o eleitor de extrema-direita.

Muito ódio, pois, inclusive religioso - dimensão fundamental do bolsonarismo, que contou com o auxílio providencial do discurso de ódio tanto de pastores famosos quanto de obscuros contra a esquerda e as minorias. Houve vários tweets de demonização de Janja, a esposa de Lula, com o racismo religioso que ataca os cultos afro-brasileiros. Não reproduzo os criminosos racistas aqui. Eles não odeiam apenas o Candomblé e a Umbanda, resalto. 
Como o bolsonarismo é um movimento predominantemente neopentecostal, não me surpreendeu que, em 12 de outubro, os bolsonaristas xingassem o Arcebispo durante a missa e atacassem fiéis durante a celebração de Nossa Senhora da Aparecida. Bolsonaro, batizado há poucos anos pelo pastor Silas Malafaia, foi fazer campanha explorando a festividade católica, porém ao menos teve a decência de não comungar, tampouco rezar.
O assassinato de indígenas não teve trégua durante a campanha. Para os povos originários, que viram o eleitorado brasileiro eleger em 2018 um candidato que prometeu descumprir o capítulo da Constituição da República sobre os indígenas (e cumpriu a promessa!), o resultado da eleição era literalmente uma questão de vida ou morte. Lula, por sua vez, havia prometido criar o Ministério dos Povos Indígenas, inédito no Brasil. Ele também cumpriu a promessa, com a nomeação de Sônia Guajajara, que havia sido eleita deputada federal. Assim é a vida: em 2021, intimada pela polícia de um governo anti-indígena:


Em 2023, já escolhida como Ministra do governo democrático, com a posse adiada por causa da tentativa de golpe dos apoiadores do governo anti-indígena passado:


Precisamos que ela assuma, como Joênia Wapichana já conseguiu na presidência da Funai. Reproduzo um tweet de Beto Marubo sobre o assassinato de mais um Yanomami, em outubro de 2022; notícia típica do governo passado:


A campanha no Twitter retomou as mentiras contra Lula e as ameaças de execução deste candidato.  A rede social tinha passado a etiquetar as mensagens que eram informações falsas; muitas delas foram produzidas por causa dos números do primeiro turno, que não agradaram os bolsonaristas: 



O candidato Bolsonaro, usando o patrimônio público em sua candidatura, mobilizou o genro de Sílvio Santos e então Ministro das Comunicações para anunciar que sua chapa do PL teria tido tempo de propaganda subtraído por veículos de comunicação e pela Justiça Eleitoral. Mas não havia provas. Tampouco subtração.


Os tópicos bolsonaristas de fraude eleitoral foram sobrepujados por "cadê as provas gigolô", que tomou o Twitter no Brasil, um apelido afetivamente dado pelo deputado (reeleito) André Janones ao genro de Sílvio Santos.


Para entender esse tipo de disputa, lembro, neste momento, da matéria de Breno Pires, "'O show de Jair': Como o PT enfrentou a milícia bolsonarista", publicada na revista Piauí em dezembro de 2022. O bolsonarismo criou um "ecossistema de desinformação" que o PT conseguiu enfrentar graças a suas estratégias nos campos digital e jurídico, que incomodaram "algumas das vozes mais influentes do show do Jair", como Eduardo Bolsonaro, que teve de apagar posts, Bernardo Küstler e outros nomes que tiveram suas contas banidas no Brasil. 

O sucesso judicial do PT, bem como a atuação do TSE incomodaram os governistas. A Procuradoria-Geral da República, que se manteve virtualmente inerte diante de denúncias contra Jair Bolsonaro (Vladimir Aras, o Procurador-Geral da República, por alguma razão, é quase tão admirado pelos perfis bolsonaristas quanto Ives Gandra da Silva Martins), resolveu propor ação direta de inconstitucionalidade questionado a resolução do TSE contrária à desinformação no processo eleitoral.

A resolução, cito o texto da Comunicação do STF, "proíbe a divulgação ou o compartilhamento de fatos inverídicos ou gravemente descontextualizados que atinjam a integridade do processo eleitoral e autoriza o TSE a determinar às plataformas digitais a remoção imediata (em até duas horas) do conteúdo, sob pena de multa de R$ 100 mil a R$ 150 mil por hora de descumprimento." Ela permite também suspender perfis em redes sociais, o que muito incomodou os bolsonaristas. A argumentação de Aras não convenceu e ela foi mantida pelo STF em 25 de outubro com apenas dois votos vencidos: os Ministros indicados por Bolsonaro.

A violência nas ruas continuou, alimentando o clima golpista. No último dia de campanha, 29 de novembro, a deputada bolsonarista Carla Zambelli, reeleita, saiu correndo, com arma na mão e auxiliares ao redor, atrás de um apoiador do PT que a xingou.

A perseguição armada ocorreu em São Paulo, à revelia da proibição legal de porte de arma nas 24 horas que antecedem a eleição. É claro que a possível prática de crime eleitoral não muda o voto de um bolsonarista, porém. Nesse momento, os tweets de apoio à deputada não lograram dominar a rede.

A Polícia Rodoviária Federal, cujo diretor era bolsonarista, descumpriu ordem do Supremo Tribunal Federal no dia do segundo turno da eleição, 30 de outubro, e fez blitze bloqueando estradas e parando ônibus nos Estados em que, coincidentemente, Lula estava na frente nas pesquisas. A tuitosfera bolsonarista apoiou intensamente a medida nesse dia, afirmando que se tratava de ação contra a "fraude eleitoral". 

Mesmo assim, apesar dessas ações, da compra de votos legitimada por emenda constitucional, de pressões oficiais e oficiosas, da campanha  massiva de informações falsas etc., o candidato deles foi derrotado.

A impressionante vitória de Lula contra toda essa rede acabou por ressaltar o caráter antidemocrático do bolsonarismo. O Senado dos Estados Unidos, em medida certamente facilitada pela política intervencionista daquele país, aprovou resolução no sentido de cortar relações se Bolsonaro desse um golpe de Estado. O youtuber Felipe Neto fez um comentário ironizando tanto os EUA quanto os bolsonaristas, que não gostaram do tweet (eles detestam Felipe Neto, que foi antipetista e defendeu o golpe de 2016, mas depois arrependeu-se e apoiou Lula). Entre as ameaças que recebeu, destaco esta por sua iconografia:


Bolsonaristas odeiam o meio ambiente e os ambientalistas; quando recorrem a animais, fazem-no em geral para usá-los como ameaça: "a onça vai beber água", "a cobra vai fumar" etc. Fossem mais francos, diriam: "as onças e as cobras morrerão vítimas do agrobanditismo, da mineração ilegal e de outra atividades criminosas que vicejam no governo que apoiamos".

Os neonazistas no Twitter, faziam campanha para Bolsonaro ao menos desde 2017; por algum motivo, viam nele alguém simpático às suas aspirações. O professor Michel Gherman já explicou diversas vezes que o bolsonarismo "apresenta tendências nazistas e fascistas". Autoridades do governo federal, com efeito, emularam gestos ou símbolos dos fascismos, no estilo "apito de cachorro": a população em geral não perceberá, mas os cães ouvirão e entenderão o chamado. 

Após a derrota eleitoral, o mimetismo nazista abandonou a relativa sutileza e tornou-se mais evidente, como notou este perfil:


O Instituto Brasil-Israel acusou, no 2 de novembro, a "normalização de símbolos fascistas e nazistas ao longo dos últimos anos":


Corroborando essas "tendências", nos dias 9 e 10 de janeiro de 2023, os defensores dos bolsoterroristas compararam a prisão dos golpistas em estádios e com acesso a celular (eles filmam de lá e postam nas redes sociais, é impressionante) com "Auschwitz", que virou tópico no Twitter junto com "Holocausto". "Lula vai cair", também. 


É preciso ter muito ódio aos judeus para ousar comparar essa detenção com telefone celular e acesso à internet aos campos de concentração nazistas. O "morre" como tópico se deve a uma notícia falsa de morte no "campo de concentração" de suposta idosa bolsonarista, que um pastor evangélico, Ricardo Martins (por sinal, ele fez recentemente live com Osvaldo Eustáquio, blogueiro bolsonarista que teve prisão decretada pelo Ministro Alexandre de Moraes) resolveu divulgar, embora a imagem da senhora venha de um banco de dados. O nome dele está no alto à esquerda da foto; Raull Santiago divulgou-a corretamente, com o carimbo de "FAKE":


Além do ódio aos judeus e a outras minorias, os neonazistas e alguns milhões de brasileiros compartilham o fato de que o candidato em que votaram foi derrotado em 2022. Busquem os estudiosos outras similitudes. Estaria entre elas a violência como arma política? Em novembro, bolsonaristas foram presos em Mato Grosso acusados de atear fogo em carros que tentavam passar por bloqueios nas estradas. Representantes do informal Partido Militar Brasileiro, à revelia da legislação da corporação, publicaram tweets que foram interpretados por bolsonaristas, por alguma razão, como incitação ao golpe: 


Além da derrota eleitoral e do STF, a então recentíssima condenação a 10 anos de prisão de Jeanine Añez, que tomou o poder na Bolívia depois do golpe contra Evo Morales, também parecia preocupar Bolsonaro, que havia chegado a oferecer asilo político para a golpista.

No Twitter, o que sugeria que se preparavam reações contra o resultado das eleições foi a criação de diversos perfis explicitamente bolsonaristas em novembro. Vários surgiram em outubro, o que fazia sentido, tendo em vista o segundo turno. No entanto, por que eles apareceram, com o número eleitoral de Bolsonaro ou com a imagem do derrotado, depois que as eleições terminaram?? Evidentemente, não as consideravam um assunto terminado: o golpismo multiplicava-se em perfis.



Novembro também foi o mês em que o adquirente da rede social, Elon Musk (muito admirado por bolsonaristas), começou a intervir mais fortemente no Twitter, demitindo várias pessoas (especialmente do Brasil, ferindo a moderação das mensagens), reabilitando perfis que foram banidos por discurso de ódio (Donald Trump, por exemplo, retornou) e eliminando, acrescento, a previsão explícita sobre covid-19 entre as hipóteses de denúncia por informação falsa.

Nesse mês, perfis bolsonaristas esperaram que o estranho, sem previsão legal, relatório do Ministério da Defesa sobre as eleições autorizasse o fechamento do STF e do TSE, o que garantiria a permanência de Bolsonaro no poder. Perfis apócrifos de homenagem a nomes admirados pelo bolsonarismo postaram até o suposto resultado do documento. 


Em verdade, ele não concluiu por nada disso, o que não dissuadiu perfis bolsonaristas de repetirem que teria havido fraude. Diversos tópicos surgiram para esse fim, inclusive este em inglês: BrazilWasStolen. A resposta do Twitter, em reação às denúncias que os outros usuários faziam (a precária segurança dessa rede social depende basicamente da fiscalização deles), continuou a mesma: etiquetar as mensagens com "Informe-se. Entenda por que especialistas em eleições afirmam que os processos eleitorais são seguros e protegidos. Saiba mais." 


Outra informação falsa era a da internação ou do falecimento de Lula com sua substituição por suposto sósia. Em muitas versões, ele teria morrido no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. A causa mortis variava de acordo com o perfil, que geralmente dizia possuir conexões privilegiadas com a instituição hospitalar.


Vejam no primeiro desse par de tweets o neologismo cunhado para servir de eufemismo para golpe: pretendia-se "deseleger" Lula, chamado doravante de "deseleito". A desonestidade política manifestava-se também na pobre criação lexical.

O PL ainda tentou contestar judicialmente a eleição alegando genericamente fraude nas urnas eletrônicas no segundo turno. Depois de ser obrigado a aditar a inicial para incluir as do primeiro turno (o que poderia levar à anulação da vitória de diversos candidatos bem-sucedidos do partido), o Partido acabou multado em mais de 22 milhões por litigância de má-fé:


Isto foi em 23 de novembro. O tópico no Twitter para zombar os bolsonaristas e o Partido Liberal foi "Faz o 22", que, coincidentemente, era o número do partido:

Imagino que essas movimentações do partido tenham mantida acesa a disposição dos manifestantes golpistas de bloquearem estradas ou acamparem diante de quartéis, que incluiu oração cristã para pneus e envio de sinais luminosos com os telefones celulares para os céus. No início do mês, um manifestante que tentou impedir a passagem de um caminhão e e foi transportado por quilômetros acabou virando meme.


Em 28 de novembro, outro revés: vários perfis bolsonaristas lamentaram a divulgação da notícia de que Eduardo Bolsonaro estava no Catar vendo jogos da Copa do Mundo com a esposa em área VIP com bufês de luxo. Depois, o deputado reeleito pelo Estado de São Paulo mostraria pen drives para explicar que estaria levando ao exterior denúncias sobre o Brasil, o que, até mesmo para a capacidade de percepção de bolsonaristas, pareceu um pouco inverossímil. Este perfil crítico ao bolsonarismo, Jairmearrependi, foi um dos que aproveitou para expor que os próprios Bolsonaros colocavam os bolsonaristas em papel ridículo:


O deputado federal filho do presidente derrotado não estava sozinho nessa atitude; além dos jornalistas que moravam nos Estados Unidos, havia outros apoiadores dos manifestantes golpistas que não queriam, certamente com muitas razões, com eles se misturar, como este pastor evangélico:


The Washington Post publicou em 23 de novembro que Eduardo Bolsonaro viajou aos Estados Unidos para aconselhar-se com Steve Bannon sobre as eleições, e que ele o orientou a contestar os resultados. O fato de os golpistas acampados usarem lemas em inglês (Brazil was stolen, que virou um tópico no Twitter) seria outra prova, segundo a matéria, da proximidade entre os movimentos de direita no Brasil e naquele país.

Em 29 de novembro, foi veiculado no Instagram vídeo da deputada federal (apesar de sua conta ter sido retida judicialmente), reeleita por São Paulo, Carla Zambelli pedindo golpe de Estado aos "generais quatro estrelas", que seriam os "guardiões da nossa Constituição". A mensagem antidemocrática chegou ao Twitter, mas não a reproduzo aqui.

Os golpes da realidade não cessaram, porém, para os golpistas. Em 2 de dezembro, o então vice-presidente conclamou-os a deixarem as manifestações, tendo em vista a eleição de Lula. Os tweets bolsonaristas, em geral, acusaram-no de traidor. Já este representante do monarquismo (entende-se que a ideia de "passar a faixa" lhe seja hereditariamente estranha), reeleito deputado pelo avançadíssimo Estado de São Paulo, foi um dos políticos que tuitou mensagens que foram entendidas pelos outros bolsonaristas como incitação ao golpe de Estado e ao insulto ao presidente eleito:


Reanimando os boatos golpistas de fraude eleitoral, um argentino amigo da família Bolsonaro fez alguns vídeos sem realmente sentido tentando alegar que havia falhas nas urnas eletrônicas, pelo menos as mais antigas. Houve uma intensa veiculação desses boatos, que não repito aqui, e o Ministro Alexandre de Moraes chegou a bloquear, em cinco de dezembro, a conta de uma deputada federal bolsonarista, Bia Kicis, por tê-los reiterado.

O Supremo Tribunal Federal, naturalmente, foi um alvo incessante das microvociferações golpistas no Twitter. Este perfil, que não existe mais, foi um dos que apostou que a Polícia Federal em novembro desobedeceria, criminosamente, a Corte e apoiaria os bloqueios das rodovias pelos caminhoneiros que, descontentes com a derrota de Bolsonaro nas eleições, resolveram tentar bloquear a democracia.



Corria entre os bolsonaristas a notícia de que Bolsonaro estava com medo, o que aparentemente gerou defecções, pelo menos no Twitter. Alguns tentavam consolar-se com a ideia de que ele poderia ainda dar um "golpe constitucionalizado" (ou seja lá o que for o que os bolsonaristas pretendem com a sua interpretação desvairada do artigo 142 da Constituição da República). Mas a bravata misturava-se a sinais de impotência, como neste pedido de socorro às Forças Armadas:



A referência era à recente deposição forçada de Pedro Castillo, presidente do Peru, de esquerda. O curioso deste tweet, além da mistura de bravata com impotência, tão típica dos personagens em questão, foi a escolha de uma foto do 7 de setembro de 2021, ocasião em que Bolsonaro tinha voltado a ameaçar o Supremo Tribunal Federal e a acenar com o golpe de Estado, procedimentos normais vindos de um representante do informal Partido Militar Brasileiro e que, portanto, não levariam a um processo de impeachment, uma vez que as regras democráticas não valem para a direita, muito menos para a extrema-direita. Em 2021, Bolsonaro já tinha encolhido. Em 2022, lembre-se, o 7 de setembro serviu como evento para discutir a supostamente declinante potência sexual do chefe de governo: o país tinha encolhido, talvez na mesma proporção.

A mistura de bravata e impotência, em verdade tão comum, voltou a aparecer por causa da diplomação de Lula: vários tweets asseguravam que ela não ocorreria. Como o desejo não se transformou em realidade, surgiu uma nova versão, visivelmente inspirada no que um blogueiro foragido falou em 2020 para alimentar a fantasia de que Trump teria vencido Biden: só teria havido a diplomação de Lula para que o "crime" se consumasse e, dessa forma, ele e o Ministro Alexandre de Moraes pudessem ser presos!


O "tic tac" é a onomatopeia favorita pelos golpistas: uma espécie de contagem regressiva para a tomada à força do poder, detenções ilegais e outros crimes porventura desejados pelos que a leem: um significante vazio, tão importante para a constituição e a aglutinação das redes da extrema-direita. No caso, ocorreu apenas a contagem regressiva para o fim de direito do mandato, que Bolsonaro acabou abandonando aos poucos; afinal, ele deixou o país antes de o governo acabar oficialmente, em gesto por muitos interpretado como uma fuga.

O bolsonarismo teria sido muito mais fraco sem o engajamento da imprensa. Em 30 de dezembro, três comentaristas da Jovem Pan, Rodrigo Constantino, Paulo Figueiredo e Fernando Conrado, tiveram suas contas em redes sociais retidas por determinação do Ministro Alexandre de Moraes. Antes disso, porém, provocações como a deste morador dos Estados Unidos não eram incomuns e incitavam os admiradores de Bolsonaro a resistirem ao resultados das eleições:


Jornalistas tentavam manter o ânimo desses coletivos declinantes, mas como animar os golpistas diante da ausência do líder? O filho vereador tentava de vez em quando, apesar de suas dificuldades com as palavras, a sintaxe e a lógica, que para alguns correspondia a um estilo literário muito pessoal. Em 13 de dezembro, ele renunciou à difícil linguagem verbal para oferecer o que os bolsonaristas viram como um sinal de esperança de que tudo, como dizem os paranoicos, está planejado e orquestrado. Um então participante do governo federal logo aderiu entusiasticamente à eloquência carluxiana no mesmo diapasão, com um emoji:


O ridículo do tweet acentua-se pelo fato de mostrar uma orquestra, formação pela qual Bolsonaro não demonstrou interesse artístico e à qual não deu atenção em matéria de políticas públicas; e de ser a Orquestra Cubatão Sinfonia, um projeto de educação musical. A foto foi capturada da divulgação do grupo no Projeto Orquestras Locomotiva. Além de se tratar de orquestra e educação, havia outro fator a desagradar bolsonaristas: ela não seguia o negacionismo científico; pelo contrário, adotava precauções contra a covid-19. Cito a matéria:

Vale lembrar que a apresentação da Orquestra cubatense contará com todos os protocolos sanitários de combate à covid-19: cada artista utilizará seu próprio instrumento musical, as cadeiras e as estantes (utilizadas para acomodar as partituras) serão higienizadas antes e após o concerto. Os músicos e musicistas contarão com placas de acrílico instaladas, garantindo uma importante proteção entre as pessoas, principalmente por conta dos instrumentos de sopro.

Para quem quiser assistir à apresentação de primeiro de setembro, regida por André Farias, sugiro vê-la por meio desta ligação: https://youtu.be/fNSQRNQN1zc?t=3214

Em 18 de dezembro de 2022, o general Augusto Heleno viu-se obrigado, diante da repercussão, a desdizer um insulto ao presidente eleito e uma ameaça golpista proferidos diante de um punhado de pessoas que queriam ouvir as indignidades. Lázaro Rosa foi um dos que notou a preocupante falibilidade da memória recente do militar idoso:


Em 2018, lembre-se, um tweet do General Villas Bôas, então comandante do Exército serviu para ameaçar de golpe de Estado o Supremo Tribunal Federal caso libertasse Lula, como confirmou Fabio Victor em seu "Poder camuflado: os militares e a política, do fim da ditadura à aliança com Bolsonaro" (São Paulo: Companhia das Letras, 2022). Outros tempos, apenas quatro anos antes.

Um momento particularmente revelador de autodecepção foi o dia em que perfis resolveram divulgar que a segunda posse de Bolsonaro foi colocada por alguém como um dos eventos do Google; portanto, ela ocorreria, no pensamento tipicamente infantil "se está na internet, é verdade".


Esse perfil homenageava o autor preferido de Bolsonaro, um dos 377 agentes de graves violações de direitos humanos durante a ditadura militar segundo a Comissão Nacional da Verdade, que morreu sob a declaração judicial de torturador. Ele desapareceu do Twitter pouco depois e mudou de nome para algo mais ameno, ligado a carros. Terá o novo governo Lula um impacto tão forte no campo da justiça de transição, fazer essa gente voltar para o esgoto?

No dia 30 de dezembro, em sua última teletransmissão aos fãs na condição de presidente da república, Bolsonaro chorou novamente, gerando mais decepções não por causa do péssimo governo, mas pela falta de... golpismo! Vejam este curioso comentário sobre as "quatro linhas":


Trata-se de como os bolsonaristas, inspirados pelo líder, passaram a se referir à "moldura constitucional" dentro da qual os atos do presidente da república deveriam se dar. O bolsonarismo alimentou-se ideologicamente da ética antideontológica de que os fins (golpistas, antidemocráticos etc.) são superiores aos meios (legais) e glorificou a violência e a ruptura institucional como novas virtudes cívicas. Ademais, é exasperante ver que uma administração que parecia tantas vezes avizinhar-se de atos ilícitos (se realmente isso aconteceu, talvez o saibamos durante o novo governo Lula) ser acusada de restringir-se aos parâmetros constitucionais!

Nem todos se desanimaram, no entanto. Como se sabe, manifestantes continuaram usando banheiros unissex diante de quartéis. Nesse momento, os bolsonaristas já tinham se convertido em uma seita messiânica a buscar sinais da Vinda do escatológico Golpe. Os sinais poderiam estar na roupa, no cenário, ou em uma palavra dita no final:


Agudo contraste entre a palavra e o semblante. Para alguns, a chorosa fala ao vivo de Jair Bolsonaro, se entendida com uma série de indícios imaginários, seria não o sinal de que o Golpe viria, mas de que ele já tinha dado certo:


Nada faz sentido; como os perfis desta natureza em geral mostram um conhecimento limitado da língua, não se saberá se era realmente "porque acredito" ou se as duas listas correspondiam aos motivos "por que" o perfil acreditava, ou acredita até hoje. 

Um candidato eleito a deputado federal tinha vivido um momento de otimismo quando o ainda presidente da república saiu do mutismo no início de dezembro e, em breve exibição de virtudes bélicas e coragem cívica, chorou diante de um bando de admiradores:


Dias depois, o deputado eleito desanimou-se diante da perspectiva da fala de fim de ano de Mourão, o vice-presidente eleito senador pelo Estado do Rio Grande do Sul. No entanto, um perfil censurou-o por adotar a atitude supostamente derrotista:



A ação aconteceu. Cito agora o livro antes referido de Fabio Victor: 

Especulava-se que, insufladas por seu líder, as milícias bolsonaristas seriam capazes de tentar sua própria invasão do Capitólio, ou um golpe à Bolívia de 2019 [...] ou mesmo uma atualização da Marcha sobre  Roma dos fascistas em 1922.

A maioria dos militares nunca levou nenhuma dessas possibilidades muito a sério. Quando o assunto vinha à tona, um general gostava de dizer que "nosso Capitólio" (o Congresso Nacional) já fora invadido em protestos de Sem-Terra, de indígenas e de movimentos, sem que houvesse comoção.

Ora, se temos ainda democracia, é justamente por causa dos povos indígenas e dos movimentos sociais, que resistem aos massacres cotidianos. Quanto a direita se mexe, temos outras coisas, como o Di Cavalcanti esfaqueado, o Victor Brecheret roubado, o relógio do século XVIII destruído entre outros danos, continuando o trabalho de destruição que o líder dela havia começado. A biblioteca do Senado Federal ficou incólume provavelmente porque os bolsonaristas, com toda sua cultura, não sabiam do que se tratava.

Jair Bolsonaro declarou não ter apoiado os golpistas de 8 de janeiro. No entanto, ele continua no Twitter a se apresentar como presidente da república e candidato à reeleição, e tem listado suas "realizações" durante o mandato, como se as eleições não tivessem ocorrido. Eis como está o perfil dele em 9 de janeiro de 2023, com o último tweet mencionando o número de escolas de doutrinação militar:


Isto envia uma mensagem de três palavras para os bolsonaristas que foram roubar, espancar, depredar e defecar em Brasília, mas também para os outros, que apoiaram, financiaram, torceram ou ficaram só assistindo os atos terroristas: golpe de Estado. Os mecanismos de justiça de transição, evitados para e pelos golpistas de 1964, não podem ser deixados de lado agora.