O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Murilo Mendes na Companhia das Letras: a laceração de Orfeu

"Interpreta as lições dos poetas contemporâneos, Ungaretti, Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto; [...] Poder-se-ia discorrer longamente sobre Luciana; mas seria necessária a técnica de Shahrazàd.", escreveu Murilo Mendes sobre Luciana Stegagno Picchio em Retratos-Relâmpago.

A filóloga e crítica teve uma grande importância para a divulgação das literaturas brasileira e portuguesa na Itália. Alberto Pimenta dedicou a ela O silêncio dos poetas. Como faleceu em 2008, não pôde ver que a Companhia das Letras usou a técnica de Armando Falcão para não falar dela. 

Murilo tinha organizado uma reunião de seus livros em 1959, embora parcial, pois ele decidira deixar de lado o divertido e bem modernista História do Brasil. Ele faleceu em 1975; dezenove anos depois, sua amiga Luciana Stegagno Picchio organizou para a Nova Aguilar uma edição da Poesia completa e prosa, com inéditos. Talvez alguns leitores atentos às novidades do mercado editorial duvidem que o livro exista; trago fotos:




As imagens não foram inventadas por meio de Inteligência Artificial. 

O volume de quase 1790 páginas continha alguns erros. Neste século, a Cosac Naify estava reeditando a obra, livro por livro, com edições revistas. O dono da empresa resolveu "descontinuar" a editora (que retornou, felizmente, há pouco tempo), o que interrompeu esse importante projeto. Murilo Mendes, sabe-se, é genial e o público precisa ter seus livros disponíveis novamente. Os poetas continuam lendo sua obra, que continua a inaugurar o futuro. Faço lembrar, entre os contemporâneos, do ensaio de Ricardo Domeneck que o chama de "mestre supremo e indispensável". 

Em 2025, contudo, veio a Companhia das Letras anunciar que estava publicando a primeira reunião da poesia completa de Murilo Mendes: https://web.archive.org/web/20251231160006/https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535934380/poesia-completa. Fez propaganda do livro com base nessa inverdade, obviamente negacionista em termos de história editorial: https://www.instagram.com/p/DMaFkfQyJaO/.

A informação falsa foi para a contracapa do livro. Os textos dos organizadores, porém, fazem referência à edição de 1994...

Esse desastre ético-editorial, que Murilo jamais teria aprovado, fez-me lembrar do malogro da tentativa de edição da poesia completa de Roberto Piva por essa mesma editora. Cito Fabio Weintraub sobre a dificuldade dessa empresa de citar o trabalho dos outros:


Os selecionadores não esclarecem qual a fonte de que se serviram para escolher e ordenar os poemas póstumos, sendo todos eles retirados do livro Antropofagias e outros escritos, organizado e publicado por Gabriel Kolyniak, poeta, amigo do Piva e um dos responsáveis pelo projeto de catalogação e conservação de seu acervo, que se encontra em processo de transferência para o Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio (CEDAE), da Unicamp. A sequência dos poemas também é a mesma adotada na antologia-fonte.
Pécora expõe sua dúvida quanto ao fato de se Piva daria esses poemas como finalizados, o que parece justo. Mas, ao mesmo tempo, não menciona nem inclui na reunião livros organizados por Piva e ainda inéditos, como Corações de hot dog e Outdoors, donde a impressão, para voltar ao início deste texto, de que a organização levou pouco em conta a pesquisa sobre a obra do autor realizada na última década e meia.

Uma edição completa que deixa de lado livros organizados pelo autor: critérios editoriais realmente originais da Companhia das Letras, que outras editoras não adotariam. No caso de Murilo, fez-se algo diferente: foram retirados do livro Papiers textos que aos organizadores pareceram poemas: escolheram pelo autor, portanto. 

O critério é questionável pelo desmembramento do livro e pelo caráter poético da prosa de Murilo; como ele mesmo escreveu em Poliedro, "A prosa provém da digestão de Orfeu.". Mais valia publicá-los separadamente os livros (como essa editora parece estar a fazer com a obra em prosa), como a Cosac estava a fazer, já que o gênero não consegue capturar parte desta obra. 

"Orfeu Orftu Orfele/ Orfnós Orfvós Orfeles", claro, mas não esta editora, que escolheu a laceração do poeta.

domingo, 2 de novembro de 2025

Nuno Rau, a Prosa da cidade e a memória dos estilhaços

Prosa da cidade (São Paulo: Patuá, 2025) é um interessante livro que trata, à primeira vista, do Rio de Janeiro, mas também da poesia e do corpo em tempos de crise e descarte do urbano, do poético e dos corpos daqueles a quem, se o chão desaparecer, só lhes restará "agarrar-se pelo pescoço à corda das certezas". 

O interessante projeto gráfico de Alessandro Romio inverte a posição da orelha, escrita por Afonso Henriques Netto. O livro ainda conta com quarta capa de Mar Becker e um ensaio de Leonardo Almeida Filho, além de uma "(quase) advertência" do autor no início e um pedido aos leitores no final a respeito das obras retratadas nas fotos.



No entanto, ainda há o que falar sobre Prosa da cidade. Em primeiro lugar, quero concordar com o autor e discordar da recensão de Eduardo Sinquevisque, que considera que as fotos do livro são poemas. Trata-se, em vez disso, de um livro de poemas com fotos do próprio poeta, mas não de algo como a edição original de Paranoia, com poemas de Roberto Piva e fotos de Wesley Duke Lee. Nela, poesia e fotografia estão em relação intersemiótica e ambos são autores do fotolivro; os poemas e as fotos, ademais, têm a força e a autonomia para serem publicados separadamente.

Prova-o o desastre da edição nova do Piva pela Companhia das Letras (sigo aqui a recensão de Fabio Weintraub, "Um coração que não para de crescer"): ela escolheu, e fora de ordem, somente algumas das fotografias: tratou-as como mera ilustração, banalizando a proposta original. Mais valia ter publicado apenas os poemas, como fez a editora Globo no início deste século. O IMS, lembro, respeitou-a quando publicou neste século Paranoia.

As fotos de Nuno Rau não têm o mesmo propósito (de qualquer forma, a qualidade da impressão não permitira aquela relação intersemiótica: teríamos que ter as condições gráficas de um livro de arte): elas estão lá com um papel de arqueologia da escrita: aquelas paisagens urbanas são parte do que animou esta poética.

Em segundo lugar, o título: de vez em quando, um livro de poemas recebe a palavra prosa no título: Prosas seguidas de odes minimas, de José Paulo Paes, de José Paulo Paes, e Prosa, de Eduardo Sterzi, são exemplos das últimas décadas da poesia brasileira.

João Alexandre Barbosa, na apresentação do livro de Sterzi, compreendeu que o título era uma referência à Estética de Hegel: o confronto entre a idade da poesia dos antigos e a idade da prosa dos modernos; daí, segundo Erich Heller, também citado, a marginalidade do poeta na Era Moderna. Sterzi, nas suas notas de autor, aposta que teremos lido nessa sua estreia "aquilo que é vulgar, trivial,/ positivo ou material". Essa proposta, evidentemente, não é nova, mas moderna.

Parece-me que Prosa da cidade aposta nisto, no vulgar, no trivial, que é o que ele busca dizer; para isso, ele não se detém no Rio de Janeiro (Mar Becker, na contracapa, chega a dizer que este Rio é também "todas as cidades do mundo"). O objetivo não se limita a fixar paisagens nem momentos pitorescos da cidade. Trata-se da aposta de que é urbano o espaço criado pela escrita, por ser público e aberto às dissemelhanças. O primeiro poema, "Paisagem de cidades imaginárias", da seção "Marco zero" (revela-se que é um livro de arquiteto), destaca essa questão:


e você aí nessa cidade-fantasma
com o braço erguido
em frente ao muro, no espaço
do instante em que o grafite
incompreensível que sua mão
projeta é toda a sua
vida.


No ensaio que cumpre o papel de posfácio, Leonardo Almeida Filho destaca as várias referências ao Modernismo brasileiro (por exemplo, entre as cidades listadas no poema que citei, está Pasárgada), porém essa não me parece ser uma novidade, ou o que há de mais interessante no livro: a "pós-política literária", mera paródia de Drummond inserida após esse texto, confirma que o essencial do livro aconteceu em outro lugar.

Um terceiro ponto que gostaria de destacar é o verso de Nuno Rau: em geral, os poemas foram escritos em verso branco e livre, com um uso de enjambement que se combina ao procedimento de começar sentenças com maiúscula no interior do verso sem nenhum ponto final que as preceda. Transcrevo, como exemplo, o final de "um artefato acende os edifícios da praça quando explode":


tudo parece explodir Não: não parece Tudo
explode e voam estilhaços que são lâminas no céu
das suas certezas Sim, agora você já pode se perder
de si pela cidade - essa antologia
infinita, sem fronteiras
nem bunkers

Ocorre aí uma pausa, mas não a do ponto final: às vezes, elas parecem sugerir que a frase anterior continua, mas sem ser ouvida. Em outros momentos, elas parecem introduzir novas vozes e quebrar o caráter em geral monológico dos poemas. Acentua-se, dessa forma, também o caráter fragmentário do discurso.

Este poema, da seção "uma cidade, as cidades todas", e o primeiro parecem delimitar o campo do livro, entre o grafito que constrói o urbano e a cidade que cria antologias das coisas ao explodi-las. Um dos poemas traz a visão de um anjo arrastando-se na cidade, "aqueles tijolos de um vermelho antigo sangram no bairro industrial". Esta é a cidade:


[...] Entre
despejos, catástrofes e flores febris, a asa
é um aleijão, inútil
como um poema que cicatriza
na pele da memória enquanto
anoitece, [...]

Já estamos no quarto e último ponto: a memória, que aparece aqui na dimensão da ferida (lembrança do corpo) e dos fragmentos (lembrança da matéria em geral), na sua dialética com a morte e o esquecimento. Das coisas e da história sobram os vestígios: "a história narrada no vazio vertical/ de quem foi triturada pelos dentes rudes/ das britadeiras e contabilizada em vagões/ lentos como lotes de vestígios [...]" no belo "uma pedreira".

Essa energia de destruição e desagregação decorre do capital. Este livro é abertamente anticapitalista e, no irônico "neolib", trata da repressão e dos massacres de hoje, feitos em nome da ordem vigente: 


pelo diálogo armado de valores éticos e cristãos
que estão aí para combater a intolerância de quem
se manifesta contra o massacre da educação
dos garotos da esquina que meus projetos
de classe querem mandar mais cedo para trás
das grades que protegem meus melhores
anseios democráticos.

a noite alcança a cidade maravilhosa.


Nuno Rau explicita a posição de classe do eu lírico desse poema: é daqueles que desejam a prisão ou a morte desses meninos (noto, por sinal, que a recente chacina no Alemão e na Penha confirma a atualidade da questão). 

Cidade maravilhosa, provavelmente devo explicar, é um velho epíteto do Rio de Janeiro, que recebe, com sua douta classe média, outro poema especialmente dedicado: "nênia para a classe média brasileira":


Copacabana não tem mais nenhuma livraria. [...] Há trinta anos eram quatro ou cinco, sem contar um ou dois sebos. O bairro de classe média mais adensado do Brasil não tem nenhuma livraria. [...] Seis igrejas católicas, duas igrejas messiânicas, duas igrejas batistas, três sinagogas e nenhuma livraria. Quatorze escolas municipais, onze escolas estaduais e vinte e cinco escolas particulares pontuam ruas e praças, mas nenhuma livraria. [...]

 

Nênia, evidentemente. Devo dizer que, na última vez em que fui a Copacabana, encontrei duas livrarias, inclusive o ótimo sebo Mar de Histórias, mas, de qualquer forma, o número seria ridiculamente pequeno para o tamanho do bairro e não daria conta de um quarteirão da calle Corrientes em Buenos Aires. 

O poema menciona templos das chamadas religiões do Livro, que congregam fiéis que... não leem. E a educação? Rau nem menciona o campus da Universidade Estácio de Sá: o chamado ensino superior não logrou entrar no poema.

Nesse poema, a destruição da cultura do livro é um tema, não uma forma. Mas a fragmentação e o estilhaçamento podem ter esse papel, quando o poeta é habilidoso. Vemos isso acontecer nas anamorfoses da seção com o simpático título "chapa quente". Elas já haviam sido publicadas com outro projeto gráfico: https://www.instagram.com/p/CIyVPNYnV4K/?img_index=2

Sandro Ornellas destacou os sonetos dessa seção como o ponto mais forte de Prosa da cidade. Penso, porém, que o procedimento de despedaçá-los em fragmentos seja o que lhes concda, paradoxalmente, sua força.

Uma poesia que se alimenta de sua própria destruição. Naturalmente, o tema da morte pulsa na Prosa da cidade, como na curiosa oração ao suicídio de "paradise park prayer": "se o chão desaparecer agarrar-se pelo pescoço à corda das certezas". É o trecho que citei no começo desta nota. A palavra suicídio não aparece, salvo como "centro oculto" ou resposta de um poema como "o que você faria se não tivesse medo?":


até o centro oculto, ali
onde o segredo pode
ser o não haver nada

Ou esta paisagem: "do oitavo andar à frente/ [...]/ desejava o salto até perder de vez/ o que fosse", de "vista sobre a cidade sem horizonte". Ou este mergulho adiado: "[...] das conversas que você trava/ com o mar, todas falando da morte [...]" ("respire fundo e conte até dez").

O que me conduz a um curioso poema, um dos primeiros, em que o verbo suicidar aparece em nota: "uns tragos com j. de souza". O título parece indicar um momento alegre num bar, no entanto o poema começa desta forma: "Vou para um mundo negro/ feito um cego". A sequência de versos não esclarece realmente do que se trata, e os tragos alcoólicos nunca aparecem até o verso final, em caixa alta: "PRIVADO DA MEMÓRIA ESTOU FELIZ".

A perplexidade do leitor não dura muito, pois o poema é composto dos versos livres e uma nota de rodapé, que é uma citação direta de matéria do jornal The Intercept brasileiro sobre um dos antigos centros de tortura, execução extrajudicial e desaparecimento de corpos da ditadura militar: o DOPS do Rio de Janeiro. Escrevi há poucos dias que esse local continua ainda tão, digamos, simbólico para as autoridades brasileiras que Bernard Duhaime, relator da ONU, foi impedido em abril de 2025 de visitá-lo.

A sociedade civil quer devidamente torná-lo um local de memória. O Estado quer trancá-lo no esquecimento e viola seus compromissos internacionais para tentar manter a desmemória. 

A nota do poema de Nuno Rau cita o assassinato de José de Souza, um homem negro, ferroviário e sindicalista, que teria se atirado da janela do DOPS, "suicidando-se" segundo a versão oficial da ditadura, depois de ter sido sequestrado pelos agentes da repressão dias depois do golpe de 1964. 

Seu caso foi denunciado já nos anos 1960 por Marcio Moreira Alves no livro de 1966 Torturas e torturados:




Marcio Moreira Alves seria cassado poucos anos depois, com o AI-5, e teve de deixar o país. O outro sindicalista mencionado chama-se, na verdade, Antogildo Pascoal Viana. José de Souza foi incluído, décadas depois, no Dossiê Ditadura da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos; este é o começo da seção sobre o sindicalista:



Naturalmente, o caso de José de Souza  foi analisado no volume III do Relatório da Comissão Nacional da Verdade (Antogildo também está relacionado nas duas obras). A nota no poema de Nuno Rau não cita essas referências, mas corretamente lembra que, em 1996, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reconheceu a responsabilidade do Estado pela morte.

O poema, assim, relembra o "J. de Souza" sem deixar, paradoxalmente, de usar procedimentos de desmemória, pois o texto principal, digamos assim, nada menciona, louva o esquecimento e o que ocorreu é empurrado... para a nota. 

A estratégia de incorporar esses procedimentos é de uma grande astúcia poética, bem mais original do que um diálogo imaginário com o sindicalista morto no DOPS. A astúcia também possui caráter político, por chamar atenção para a força social do esquecimento - o que alguns chamam de uma persistente amnésia coletiva a respeito dos crimes de lesa-humanidade (usei essa expressão em meu Ilícito absoluto). É interessante que Nuno Rau o faça com uma citação literal de matéria jornalística: o ready-made, neste caso, é um contraponto a fake news.

Para enfatizar o caráter político deste livro, o autor deixa para perto do final a "queima de arquivo (epílogo)": 


[...] combustível
fóssil da memória
que abre
a brecha
no lacre dos
calendários por
onde os estilhaços
passam
até atingir
e incinerar
depois da implosão
a carne do seu
pensamento, [...]


Nuno Rau sela o livro com a fragmentação da matéria e da memória, que ele buscou encenar nesta poética insurgente.


terça-feira, 6 de agosto de 2019

O poeta deve aluguel ou Gilcevi versus a extrema-direita

Nesta década, alguns poetas brasileiros têm colocado o tema da falta de dinheiro, ainda mais atual com a extrema-direita no poder, no centro de seus livros. Embora a questão não seja nova na poesia deste país, nem sempre se tiram consequências formais disso. O conhecido poema de Álvares de Azevedo, "Minha desgraça", avisa que "Minha desgraça, não, não é ser poeta", e sim, revela-o no final, "É ter para escrever todo um poema/ E não ter um vintém para uma vela."
A experiência do poeta e a da precariedade material encontram-se, dessa forma, apenas acidentalmente conjugadas. Outra postura é a de ver na própria poética uma experiência de precariedade. Creio que alguns poetas que têm apontado para essa direção, como Heyk Pimenta (A serpentina nunca se desenrola até o fim, 7 Letras, 2015). Outro autor, que somente li agora, e cujo primeiro livro ainda não encontrei, é Gilcevi, com seu Retrato do poeta quando devedor de aluguel ou poeta bom é poeta morto (Letramento, 2018).
O livro começa com "exú tranca-rua", que diz "deixe a poesia a putarya de lado um tempo/ e se concentre em ganhar e guardar dinheiro" (p. 15), mas ele não fez isso e escreveu este livro... Note-se já desde esse primeiro poema um uso idiossincrático da ortografia, com y e k em algumas palavras, esse acento em Exu e até um acento nostálgico em diarreia, em outro poema. Na primeira parte, "Perypheréias (T.E.A.)", o autor parece aludir a uma ortografia antiga para sugerir o caráter histórico do racismo.
Assim, em "Linhagem", "BR/ Beira-de-estrada", o final é um canto de calango: "ele era zé pinguela"; uma outra tessitura, com esta marca de classe social, é acolhida por esta poesia. Em "retrato do poeta pardo tentando escapar do navio negreiro que ficou encalhado no subúrbio", temos a questão do racismo: "acabou de chegar mais um carregamento/ a fila começa a se formar nas bocas/ pombos e anjos com diarréia se empuleiram nos barracos/ um deus brasileiro - botokudo kaboklo yorubanto/ te dá a mão e te aponta o caminho" (p. 29, que termina com citação que já virou clichê, "o mantra roseano/ o que a vida quer da gente é coragem" (p. 30).
O clichê, porém, torna-se outra coisa nesta poesia: depois da descrição de uma família em que "seu tio está fumando crack e roubou todos os seus discos" e "o pai está desmaiado sobre o próprio vômito" (p. 29), bem como do sistema racista que leva a esses destinos individuais, a experiência periférica transforma a citação de Guimarães Rosa e a coloca sob a luz da ironia.
Creio que se pode ler nesse mesmo diapasão a paródia periférica de Drummond, o poema "um varão que acaba de nascer ou da meritocracia": "quando nasci/ um anjo brasileiro saiu da sombra/ me deu 10 reais/ um revólver/ um livro// e disse/ bicho, agora é contigo" (p. 28).
Ainda nesta primeira parte, o poema "Travessia" (p. 21), com grande economia verbal, conta uma história listando o nome de rios, do Aqueronte ao Rio das Mortes. Nela temos também uma paródia de documento oficial, "registrado em cartório", que termina inconcluso, embora notemos que se trata de uma falência de alguém que perdeu os brilhantes e os escravos "aos cinco dias de janeiro de 1884/ nesse distrito de diamantina" (p. 25).
A consciência do racismo aparece como um elemento da formação pessoal, além da coletiva, em "retrato do poeta em 1992": "precoce pária fuça afundada na zona oeste/ melhor evitar o beco dos pretos/ jurado de morte na praça do cristo/ olhos de índios/ mirando sóis noturnos no cortiço" (p. 32). Problemas dos movimentos de identidade também são aludidos nesta seção do livros: "os pretos me aceitam branco/ os brancos me tratam servo/ a certidão atesta pardo" (p. 34).
A segunda parte do livro, "A manada de búfalos", ressalta o caráter autoritário do atual momento político no Brasil: "tudo aconteceu muito rápido/ numa semana/ os fascistas tomaram o poder/ na outra ana foi embora" (p. 41, "2016"). Por sinal, a obra termina com uma "oração do cidadão de bem", que parece um texto para performance que consiste em longa invocação a epítetos de Deus até o fim em caixa alta: "VAMOS MATAR A TODOS!/ QUE ASSIM SEJA MESSIAS BOLSONARO 2018" (p. 167). Este, com outros poemas do livro, foi publicado pelo blogue Escamandro, que os chamou erroneamente de inéditos. Os comentários aos poemas são negativos - problema estético e político desses leitores daquele blogue. Outros poemas saíram na Mallarmargens.
Há muitas referências à literatura, como no poema título, que são bem divertidas: "não tinha prendas/ ouro gado fazendas/ entre a rosa/ e a promissória/ tinha 52 kilos/ (será que fui eu/ quem enterrou o/ senhorio?)/ e um velho exemplar/ de crime e castigo" (p. 42). Às vezes há um ar drummondiano: "os homens que têm fome e são mansos/ esquecidas do molotov e da pedra/ suas mãos forjam versos/ fabricam notícia/ empilham caixas" (p. 44). No entanto, a linhagem assumida é a de Roberto Piva (p. 32).
A linguagem de Gilcevi pode ser bem crua, o que talvez venha daquela poética da precariedade: "já ada gostava era de homo/ cuspia na pica e dizia/ se é cu eu arrombo" (p. 67; notem a sutileza da rima toante). Há alguns poemas curtos com título "koraçãunm", com imagens que descrevem a víscera, como "rapariga-sem-prega" (p. 70); "caixa de esgoto/ descarga estragada" (p. 87). No entanto, o lirismo não lhe é desconhecido: "um cheiro ruim que deve ser o cheiro do medo dos pássaros" (p. 66).
A terceira seção "guimbas" do livro, toda de poemas curtos, também apresenta essa linguagem, como em "muito prazer" (p. 93), praticamente um cartão de visitas do autor:

eu sou poeta
pau no seu cu
etcetera

Uma das coisas mais simpáticas neste livro é o humor: "antena da raça" que descreve um homem saindo da prisão e confirmando que o irmão é um poeta: "ele sorriu e disse sempre soube/ que você era um covarde" (p. 50); outro exemplo: "leminski cachorro louco de calças arriadas/ e penso/ agora só falta escrever uma obra-prima" (p. 60); "e troque esses lençóis/ não vou me deitar em cima do cheiro/ dessas suas vadias" (p. 65); ou a história do cara que só consegue escrever o romance depois de abandonar o casamento, mas o poema termina com o parecer de recusa da editora ("237 páginas", p. 81-85); ou, em outro momento de deboche com o meio literário, "fez uma suruba de dois dias/ com aquelas estudantes de letras que te achavam genial" (p. 89).
"Histórias de Geová" contém historias privadas de perda da fé cristã; algumas têm humor, como a lista de lembranças em "geová souvenirs II": "os duzentos prepúcios de mical/ dentro do ventre da baleia/ jonas não ouviu as sereias/ a pedra - única/ pontiaguda -/ que atingiria o rosto da puta" (p. 132).
Algumas das imagens são bem surpreendentes: "mesmo faminta/ a lagarta hesita/ ante à árvore da vida" (p. 138, "éden"), ou todo o poema "a festa", que descreve uma execução por enforcamento que faz a morte fugir dos homens "que gargalham atiram/ ovos tomates" (p. 139).
As últimas seções são curtas. "Noturno 4pontozero" compõe-se de um só poema, um "poema dos quarenta anos"; naturalmente, um quarteto. "A Rainha" compõe-se de dois poemas, que acabam se revelando de amor.
No fim, a oração do homem de bem cristão que ganhou a eleição em 2018.
Eu não gostei de tudo. Às vezes, a influência de Piva é pesada demais, como em "retrato do poeta pensando sozinho" (p. 54-56); "retrato do poeta recebendo a notícia da morte do pai" seria uma versão fraca e heterossexual daquele poeta (p. 78-79). Ademais, nem sempre o humor funciona; o poema pode ser só uma piada velha, como o do idoso que morre trepando: "mas que gozada fulminante" (p. 130).
Pequenos senões de um livro vivo como um testemunho destes tempos. Nesta entrevista dada a Jéssica Malta, Gilcevi confessa que "Achei que não estaria vivo para assistir novamente a ascensão da extrema direita e do fascismo e tem uma parte do livro que fala disso". Esta perplexidade está viva neste livro. Ela integra a precariedade que mencionei, condição necessária para que se possa reagir, na política e/ou na poética, ao estado de coisas.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

30 dias de canções: O céu, o mar, a umbanda

30 dias de canções
Dia 3: Uma canção que faz lembrar a natureza

Um ponto de Ogum, "Se o céu é lindo", de autor anônimo. 
Nunca ouvi este ponto em terreiro (um lugar que poucas vezes estive), e sim em casa. Aprendi-o com esta letra: "Se o céu é lindo/ O mar também é/ Aonde vais cachoeira/ Vou derramar/ Toda esta mironga/ Nas ondas do mar." A mironga (palavra que vem do quibundo, um dos idiomas bantos), no caso, é o feitiço.
Como se trata de música da tradição oral, há mais de uma versão. Encontrei outra letra neste outro blogue, que menciona explicitamente o Beira Mar e a Rainha do Mar (Iemanjá, evidentemente): http://reidospontos.blogspot.com.br/p/pontos-de-ogum.html
Ogum, o orixá guerreiro, ligado ao ferro e às ferramentas, comanda, na tradição da umbanda, a chamada Linha de Ogum, que é, segundo o livro Cantigas de umbanda e candomblé (Pallas Editora: São Paulo, 2008), "constituída por espíritos guerreiros que defendem os filhos-de-fé contra lutas e demandas".
Uma das sete legiões em que se organizam esses espíritos, segundo a mesma obra, é a "Legião do Povo do Mar, chefiada por Ogum Beira-Mar e relacionada à linha de Iemanjá". Este ponto está ligado a Ogum Beira-Mar.
A umbanda, que completará 110 anos em 2018, além de se reivindicar "mestiça como o povo brasileiro", combinando elementos de religiões africanas, ameríndias e do cristianismo, herdou das duas primeiras tradições uma profunda ligação com a natureza. 
Em muitos dos pontos de umbanda, não se trata, na verdade, apenas de mera lembrança da natureza, mas de afirmação de pertencimento.
Lembro Roberto Piva e o contraponto que ele fazia entre as religiões do deserto, que era como chamava o judaísmo e as que dele vieram (as tradições cristãs e islâmicas), e as religiões da floresta. Como poeta-xamã, ele preferia as da floresta e combatia as moralidades do deserto.
O volume Roberto Piva da Coleção Postal das editoras Azougue Editorial e Cozinha Experimental, publicado em 2016, inclui um poema, "Meditações de emergência 1", em que alerta, bem de acordo com aquela dicotomia, contra o deserto: "África prepara o batuque das auroras/ África prepara as zagaias da poesia/ as ruas asfaltadas do fim do mundo/ os escorpiões aninhando-se na palma da mão/ como nuvens/ você que vai me amar neste ano de 1979/ cuidado com os inventores do deserto".
Li, por causa, desta nota, um artigo de Diamantino Fernandes Trindade, "O uso indevido dos pontos cantados de umbanda" (no livro organizado por ele e Ronaldo Antonio Linares, Memórias da Umbanda do Brasil, editado pela Ícone em 2011; a maior parte desse capítulo está nesta ligação). As gravações para divulgação da umbanda são elogiadas; nessa categoria, o autor destaca Martinho da Vila, Noriel Vilela e Ronnie Von. Ele critica os que usaram melodias dos pontos para compor canções com outros fins, como Lamartine Babo teria feito.
Para ouvir o ponto, portanto, pode-se, espero que devidamente, clicar nesta ligação.

Dia 1: Um retrato à beira da razão, de Tom e Chico
Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza