O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Homofobia ou a porta de saída da cultura, Che Guevara, João Saldanha e Frias, novo secretário de Bolsonaro (Desarquivando o Brasil CLXIX)

Eu havia escrito, no ano passado, uma nota sobre a homofobia como porta de entrada do fascismo; não foi à toa que algumas das notícias falsas usadas com sucesso na campanha eleitoral de 2018 tivessem relação com a homossexualidade, tão mais difundidas quanto mais inverossímeis. Afinal, a inverossimilhança serve para reforçar o estigma na mente do preconceituoso. Com as injúrias homofóbicas, cultivadas também por políticos que fazem do cristianismo uma profissão, não se poderia deixar de esperar uma administração contrária a padrões decentes de dignidade humana. Algo parecido ocorreu com as declarações de campanha sobre mulheres, indígenas e negros.
Esta nota é derivada daquela outra, já que o governo continua e o problema não se resolveu.
O atual ocupante da presidência decidiu cortar o financiamento a filmes com temática LGBT em setembro de 2019, de acordo com Lauro Jardim. A homotransfobia não foi apenas tática de campanha, ela continua como ideologia de governo. J. Bolsonaro teria combinado o mesmo com a breve secretária especial de cultura, Regina Duarte, e com seu sucessor, Mario Frias, que nos revelou: "O patrão quer uma linha estética. E é essa linha estética que será privilegiada."
Essa afirmação, o Uol Notícias e Bruno Cavalcanti, no Observatório do Teatro, associaram à censura da temática LGBT. A ideia de que o governo federal deveria se curvar ao gosto de uma só pessoa é, por si só, abjeta e contrária à ideia de república. Que esse gosto se resuma a perseguição a minorias reitera a indignidade do governo, senão sua contrariedade ao direito, bem como sua hostilidade ao mundo da cultura.
Frias ainda não tomou posse, no momento em que escrevo; vejam o expediente do Diário Oficial do dia 2 de julho, com o indefectível erro de crase na última linha (repetido dezenas de vezes nesse dia) que cai tão bem nesta administração:


Frias há tempos tem dedicado suas redes à propaganda do governo, mas não o faz de forma realmente articulada; ao contrário do que se poderia esperar de um Secretário de Cultura, ou de um aspirante a esse cargo, ele nem mesmo escreveu um ensaio sobre a política cultural deste governo ou de qualquer outro. Por alguma razão que me escapa, ele parece ser mais eloquente com memes:


O absurdo de imaginar que o socialismo estivesse a atacar o Brasil, despautério multiplicado mil vezes pela fantasia de que o tal "President" estivesse a se sacrificar para defender a pátria brasileira (escrita com Z, claro), não parece prefigurar muita sensatez para a eventual gestão do futuro secretário. Momentos de infantilidade política como esse, que povoam as manifestações de Frias, chegam a colidir, noto aqui, com seu passado.
Relembro entrevista que o ator concedeu à revista Sui Generis, que surgiu no fim do século passado para cobrir temáticas ligadas aos homossexuais, com mais ênfase nos gays. Em 1999, o número com Cássia Eller na capa, além da matéria com a cantora, tinha outra, longa, com Mario Frias, com o singular título  "Sou espada, quer dizer, punhal!". O texto era de Heloiza Gomes com fotos do ator, algumas sem camisa, tiradas por Cecília Junqueira. Não vou reproduzi-las.
O curioso título reproduzia uma das falas do ator, que afirmou achar preconceito "uó", mas que "espada corta dos dois lados", então ele era "punhal", pois era "hetero assumido" [sic]; explicou ainda que era "cantado por homem para cacete. A bicharada me ama. E eu amo as bichas".
Outro ponto estranho para um ator: a entrevista não primou por análises da arte dramática, nem mesmo da sexualidade. Ele reclamou da barriga dos 28 anos, fez votos de ter cara de 33 aos 40 anos, e explicou que lia "bastante". Qual era seu livro de cabeceira? Che Guevara:


A homofobia de Che Guevara, ao menos, não era inteiramente compartilhada pelo jovem ator. 
A publicação citada era uma breve coletânea de pensamentos organizada por Emir Sader, e não exatamente um livro do revolucionário. Frias explicou ainda na entrevista que votou em Collor e em Fernando Henrique Cardoso duas vezes (sem saber, no entanto, se este era um bom presidente). 
Infelizmente, nada do que ele afirmou na entrevista de 1999 lograva erguer-se até o senso comum. Talvez somente uma pessoa ignorante da política, como ele mesmo se declarava, poderia combinar o amor por Che Guevara com opiniões como fazer campanha política era coisa para caras "feios, gordos e escrotos"... Guevara, um sex-symbol da revolução, provavelmente entrou como ícone jovem, uma figura de homem bonito e rebelde, como um James Dean. Ele foi consumido assim no século passado pela indústria cultural. 
Outro ponto inquietante da entrevista era a ideia de que a "revolução não se exporta". Ela teria que ser melhor explicada, imagino, levando não só em conta a biografia deste argentino que combateu em Cuba e foi executado lutando na Bolívia lutando em guerrilha, mas tendo em vista os escritos do autor; em Guerra de Guerrillas, por exemplo, temos a questão da solidariedade internacional e do exemplo de Cuba para os outros povos; e outros escritos, onde o internacionalismo aparece de forma clara, como "Mensagem aos Povos do Mundo, Através da Tricontinental" e "Criar dois, três... inúmeros Vietnams é a palavra de ordem", de 1967, que cito na tradução de Juan Martinez de la Cruz:
E é preciso desenvolver um verdadeiro internacionalismo proletário, com exército proletários internacionais, onde a bandeira sob a qual se luta se torne na causa sagrada da redenção da humanidade, de uma maneira tal que morrer sob as insígnias do Vietnam, da Venezuela, da Guatemala, do Laos, da Guiné, da Colômbia, da Bolívia, do Brasil, para não citar mais que os teatros atuais da luta armada, seja igualmente glorioso e desejável para um americano, um asiático, um africano ou até mesmo um europeu.
O texto foi recolhido em Revolução Cubana, publicado pelas Edições Populares. A formulação faz lembrar a do direito cosmopolita kantiano, porém sob bases materialistas e com a ação revolucionária no lugar dos direitos humanos. Poucos anos depois, a guerrilha urbana seria derrotada no Brasil. A rural, no Araguaia, com militantes do PCdoB, seria descoberta pela ditadura antes mesmo de começar: sua luta foi de defesa, e entre eles estão vários dos desaparecidos políticos dessa época.
Talvez o jovem Mario Frias não fosse, de fato, a pessoa que tivesse a visão mais esclarecida sobre o que aconteceu no mundo e no Brasil durante as décadas de 1960 e 1970. Deveríamos ter esperado tanto dele? Talvez não, embora tivéssemos toda a razão em esperar que as décadas que se passaram lhe tivessem trazido um melhor entendimento da história. Afinal, os atores existem na sociedade, cabe-lhes expressar, potencialmente, todas as visões de mundo existentes e até mesmo as que não foram formuladas ainda, porém se materializam diante da plateia. É uma profissão que consiste em dar sentido ao humano e, por vezes, ao não humano e, nisso, imagino que ela exija quase tanto quanto a do escritor, que deve inventar esses sentidos no texto.
Respeito muito os a(u)tores; obviamente, eles têm que ler, sentir e experimentar muito para poderem realizar com dignidade seu trabalho.
Teria a compreensão histórica de Frias se desenvolvido às vésperas de completar cinco décadas de vida? Receito que talvez não, ou não completamente. No campo do "preconceito uó", tememos que tenha piorado, em razão de sua adesão à "linha estética" do chefe. Em outros temas, é provável que também tenha regredido. Vejam a resposta do ator a esta consideração justa de Marcelo Courrege:



O antigo leitor de Che Guevara está, em radical negacionismo histórico, tentando desmentir o histórico de João Saldanha no Partido Comunista Brasileiro, o que é absurdo. Não vou falar de Bebeto de Freitas, que foi contrário ao boicote das Olimpíadas de Moscou, mas do antigo comunista.
Neste relatório do SNI sobre a "Festa do 63o. aniversário do PCB", na verdade uma série de atos, um dos personagens foi, evidentemente, João Saldanha.


Ele se apresentava como militante, por sinal. Não se tratava de segredo descoberto pelo Serviço Nacional de Informações.


Evidentemente, quando, na volta das eleições diretas para prefeito das capitais, João Saldanha foi o vice da chapa encabeçada por Marcelo Cerqueira, seu nome foi uma escolha do PCB; agora, um documento do Centro de Informações da Aeronáutica:


Trata-se do ano, 1985, em que ele o PCB voltara à legalidade; seu programa pudera ser registrado novamente, depois de o Supremo Tribunal Federal tê-lo cassado em 1947. O SNI deu-se o trabalho de fazer um relatório com estes documentos públicos do Partido para fichar todos os signatários:


João Saldanha, claro, estava entre seus (re)fundadores:


Saldanha, porém, estava entre os militantes comunistas desde os anos 1940. Ele havia ingressado no PCB em julho de 1945, segundo esta informação do SNI de 1970, ano da Copa do Mundo de futebol masculino em que a seleção do Brasil, cujo time fora formado por Saldanha, chegou ao tricampeonato.


A vitória no futebol em 1970 foi usada politicamente pela ditadura militar, como se sabe. 
Está esgotada, infelizmente, a biografia João Saldanha: Uma Vida em Jogo, de André Iki Siqueira. Nela se conta que sua demissão da Copa de 1970 teve relação com a militância política do treinador de futebol, o que incluía a denúncia internacional das torturas e das prisões políticas. João considerava o ditador Médici "o maior assassino da história do Brasil", lembra o biógrafo, autor também de documentário.
Estivera vivo Saldanha, é possível que estivesse a denunciar o governo a que tanto quer pertencer seu sobrinho-neto, algo muito pior do que um time de pernas de pau.


Nota: Os documentos reproduzidos foram consultados no acervo do Arquivo Nacional, mais especificamente nos Fundos do SNI e do CISA.

terça-feira, 30 de junho de 2020

O demoníaco de dizer oportunamente o que ninguém ousava abertamente

Trata-se de carta de Carl Gustav Jung a Horst Scharschuch, escrita em 1952. O texto repete os costumeiros ataques do psicólogo ao comunismo e à arte moderna, porém traz esta observação interessante, que não encontrei no restante da correspondência:
O demoníaco [...] baseia-se no fato de que há forças inconscientes de negação e destruição e de que o mal é real. [...] A magia de Hitler, por exemplo, consistia em dizer oportunamente o que ninguém queria expressar abertamente, porque o considerava de qualidade duvidosa e inferior (o ressentimento contra os judeus, por exemplo). O demoníaco de Hitler estava no fato de que seu método era de uma eficácia medonha e de que ele mesmo se tornou vítima clara do demônio, que tomou posse total dele.
Posse total até, enfim, a própria destruição final. O trecho citado está na coleção Cartas, organizada por Aniella Jaffé e Gerhard Adler, publicada em três volumes pela Vozes no Brasil, em tradução de Edgard Orth. 

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Educação e ética públicas: Decotelli da Silva, novo ministro, e um título de doutorado

O nome que as Forças Armadas desejavam emplacar à frente da educação brasileira desde, pelo menos, março de 2019 (como lembrou Cyrus Afshar), Carlos Alberto Decotelli da Silva, foi apontado como ministro e recebeu muitos elogios em certa imprensa, tendo recebido matérias de capa do Estado de S.Paulo e d'O Globo no dia em que escrevo estas linhas.
No entanto, ele apresenta-se como doutor sem ter o título, segundo o próprio reitor da Universidade de Rosário, Franco Bartolacci, instituição argentina em que declarou ter cursado o doutorado:


Seria mais um exemplo de título acadêmico imaginário na atual administração? Os outros casos de títulos fictícios, no previsível exercício da ética pública própria do governo Bolsonaro, não suscitaram nenhuma consequência institucional (um exemplo é o do ministro condenado por improbidade administrativa). Desta vez a questão seria ainda mais séria, em princípio, por envolver o próprio Ministério da Educação. Vejam como se iniciava o currículo em uma primeira versão do dia 26 de junho, especialmente em "Formação acadêmica":



O ministro informava que havia concluído o doutorado em 2009 na Universidade de Rosário sob a orientação de um professor brasileiro, Antônio de Araujo Freitas Junior, com a tese "Gestão de Riscos na Modelagem dos Preços da Soja".
No mesmo dia, após a manifestação do reitor da Universidade de Rosário, ele alterou o currículo para criar uma categoria inexistente na legislação brasileira, a do doutorado sem tese e sem orientador:


Quem não defende tese não é doutor, simples assim (e não se trata, no caso, de um título por notório saber, até por falta de motivo para tanto). A jornalista Mônica Bergamo informou que a tese de Decotelli teria sido reprovada (algo relativamente raro no doutorado).
O currículo lattes corresponde ao cerne de uma plataforma dos pesquisadores nacionais alimentada por nós mesmos; quando o publicamos nessa plataforma gratuita, fazemos uma declaração pública de que os dados são verdadeiros, "em observância aos artigos 297-299 do Código Penal Brasileiro":



Trata-se, nada menos, dos crimes de falsificação de documento público, falsificação de documento particular e falsidade ideológica.
Um jornalismo de qualidade menos intensa simplesmente se preocupou em reproduzir declarações do próprio ministério sobre o assunto, o de que o ministro "concluiu créditos" do curso. Isso não significa ter concluído o doutorado - para tanto, é necessário defender (com sucesso) uma tese diante de uma banca de professores internos e externos à instituição.
Entretanto, outra simples averiguação do próprio currículo lattes parece apontar que talvez a  declaração do ministro seja realmente falsa: o currículo do professor que era indicado como seu orientador, Antonio de Araujo Freitas Junior, NÃO INCLUI Decotelli entre suas orientações de doutorado:


O currículo foi atualizado em maio de 2020. Esta ausência é estranhíssima e corresponde a mais um indício de que o título de doutorado do novo ministro da educação do governo Bolsonaro não existiria.
O ministro anterior, que saiu às pressas do Brasil para os Estados Unidos, não tinha doutorado e não pretendeu fingir o oposto; como expliquei no ano passado, o conselho universitário da Unifesp resolveu autorizar excepcionalmente um concurso que não exigisse doutorado para o cargo para o qual Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub acabou passando.
Um detalhe inquietante: tanto Decotelli da Silva quanto Araujo Junior, que foi apontado como seu orientador na versão anterior do currículo, trabalham na mesma instituição, a Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro; seria possível que ela não desconhecesse até este momento, em 26 de junho, que o doutorado não existiu, ou não com este orientador (que é a versão que Decotelli passou a dar nesse mesmo dia)? Os currículos lattes são coletados pelas instituições de ensino todo semestre.
Como ela poderia ter aceito essa informação se um membro da própria Diretoria Acadêmica, o professor Araujo Junior, poderia facilmente desmenti-la?
Outra questão é o pós-doutorado na Bergische Universität Wuppertal. Curiosamente, o nome de Decotelli da Silva realmente aparece no sítio da instituição, porém nenhuma das ligações correspondentes está a funcionar, como esta entrevista sobre suas atividades de pesquisa:
Archiv - UWID (https://www.uwid.uni-wuppertal.de/nc/de/news/archiv/blaettern/6.html)
erfüllen muss:- Es soll zum einen verschi... mehr Interview mit Prof. Carlos Alberto Decotelli über seine Forschungsaktivitäten. 1. Wie war Ihr erster Eindruck einer deutschen Universität? Einhergehend mit der Frage
nach dem
https://www.uwid.uni-wuppertal.de/nc/de/news/archiv/blaettern/6.html (https://www.uwid.uni-wuppertal.de/nc/de/news/archiv/blaettern/6.html)
20 Feb 2019
Quem sabe poderemos consultar depois? De qualquer forma, um não doutor não pode fazer pesquisa de pós-doutorado.
As pessoas que não pertencem ao meio acadêmico provavelmente não poderão entender bem as implicações de uma eventual declaração falsa de título acadêmico de um ministro da educação (embora, para os padrões éticos deste governo, não haja problema em um ministro atuar na área em que já foi condenado por improbidade administrativa). O doutorado, para um pesquisador, confere um grau de autonomia que os outros títulos, com menos valor (graduação, especialização, mestrado), não possuem, como de pedir financiamentos, liderar grupos de pesquisa, ascender a cargos mais altos na máquina universitária.
A se confirmar que o título realmente não existe, veremos a que ponto chegaram a educação e a ética pública neste novo governo militar, que já prestigiou Decotelli com a presidência do Fundo Nacional da Educação.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Desarquivando o Brasil CLXVIII: Uma revisão coletiva de anistias no bolsonarismo

Pessoas me perguntaram sobre o cancelamento de anistias publicado no dia nove de junho. Perfis de difamação da rede bolsonarista estão a parabenizar a Ministra Damares Alves por supostamente ter cancelado a "mamata" de alegados "comunistas". Trata-se de "fake news" dessa rede, evidentemente: não se trata de mamata, e sim de cumprimento de uma determinação constitucional. A ditadura militar atingiu milhares - muito mais do que os mortos e desaparecidos políticos que alcançaram menos invisibilidade pública - e por isso, o artigo oitavo do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias determinou que se concedesse "anistia aos que, no período de 18 de setembro de 1946 até a data da promulgação da Constituição, foram atingidos, em decorrência de motivação exclusivamente política, por atos de exceção, institucionais ou complementares". Veja-se que o período inclui da presidência de Dutra até 1988, pois atos de perseguição política ocorreram em todos os governos envolvidos.
Somente no século XXI, no entanto, o regime do anistiado foi regulamentado, pela lei federal n.º 10.559, de 13 de novembro de 2002, o que mostrou a pouca urgência que o Estado brasileiro teve em regularizar a dívida da repressão política. 
Pelo que pude averiguar, os casos agora cancelados dizem respeito a anistias concedidas em razão da Portaria 1.104 da Aeronáutica. Antes do golpe de 1964, foi criada a Associação de Cabos da Força Aérea Brasileira (Acafab), que defendia o direito de voto e o de contrair matrimônio a esses profissionais - a FAB os impedia de casar.
A Comissão de Anistia, antes do atual governo civil-militar, apreciou o problema e verificou que a ditadura temia que a Associação agisse contra o governo e decidiu afastar as regras legais que "asseguravam aos cabos e praças os direitos à prorrogação do tempo de serviço e ao licenciamento" (cito o caso do requerimento de anistia n. 2001.01.01474); dessa forma, a Comissão entendeu que a Portaria "atingiu 'de maneira drástica', as praças e cabos, vez que limitava seu direito aos engajamentos anteriormente previstos na Portaria n. 570/54, retirando sua possibilidade de alcançar os anos exigidos para a estabilidade". No caso deste requerimento, decidido em 2002, reconheceu-se a condição de anistiado para militar que entrou a cabo "incorporado após a Portaria", pois a vigência da norma de exceção bastaria para definir a motivação exclusivamente política do desligamento. Após a revogação da Portaria, em 1971, a situação juridicamente mudaria de figura: 
I - [...] Aqueles incorporados após julho de 1971, com a revogação da referida Portaria, terão que comprovar a motivação exclusivamente política de seu desligamento.
II - Considerando os prazos de permanência nas graduações respectivas, referidos cabos alcançariam as promoções até a graduação de Suboficial e com os proventos de Segundo Tenente, com as vantagens inerentes ao respectivo posto.
O relatório da Comissão Nacional da Verdade explicou que a situação desses militares suscitava muita discussão. Cito, do volume II, o capítulo "Violações de direitos humanos no meio militar": "Mesmo entre os militares perseguidos, de diversas categorias, não há entendimento sobre essa questão: há associações de militares que defendem os direitos dos cabos, relacionando-os aos dos grupos militares vitimados por perseguição política, e outras que acreditam tratar-se de um grupo específico, cujos direitos devem ser reconhecidos apenas na esfera administrativa."
Após o golpe de 1964, a Associação foi extinta: 
[...] o Ofício Reservado no 04, do comando da Força Aérea, determinou o fechamento sumário da entidade, sob a alegação de supostas atividades subversivas. Outras medidas administrativas, de caráter preventivo, seguiram-se, como a Exposição de Motivos n.º 138, de agosto de 1964. A principal medida promulgada pela Força Aérea, a Portaria 1.104/GM – cujo objetivo seria, em tese, disciplinar administrativamente o quadro de pessoal – pretendia de fato abortar futuras manifestações políticas ou corporativas, particularmente no momento de exceção em que fora editada."
Em 2002, com a da [sic] Súmula Administrativa no 2002.07.0003, a Comissão da Anistia teve o mesmo entendimento, assim exposto: “A Portaria no 1.104, de 12 de outubro de 1964, expedida pelo senhor ministro de estado da Aeronáutica, é ato de exceção de natureza exclusivamente política.” Com a promulgação da Lei no 10.559/2002, os cabos começaram a ser anistiados – geralmente com sentenças julgadas em bloco –, pautados nessa interpretação. Um documento do Comando da Aeronáutica, de 2006, indicava que havia 2.182 praças anistiados. Após essa data, outros praças da FAB obtiveram deferimento em seus processos.
Nessa época, 2014, a questão estava sub judice no Supremo Tribunal Federal. A CNV, embora reconhecesse a polêmica, decidiu, por não poder analisar individualmente os casos, contar todos os atingidos como perseguidos políticos: "Dadas a polêmica e a impossibilidade de avaliar e distinguir caso a caso, entre os cabos, aqueles que, de fato, haviam sido objeto de perseguição por razões políticas e aqueles que buscam direitos reparatórios sob tal alegação, optamos por incluir os cabos no cômputo total de militares perseguidos pelo levantamento da CNV."
Em 2019, o Supremo Tribunal Federal finalmente decidiu o processo, que foi ganhou Repercussão Geral (https://jurisprudencia.stf.jus.br/pages/search/repercussao-geral7821/false), no Recurso Extraordinário n. 817.338, em julgamento que acabou em 10 de outubro de 2019, e firmou a seguinte posição:
No exercício do seu poder de autotutela, poderá a Administração Pública rever os atos de concessão de anistia a cabos da Aeronáutica com fundamento na Portaria nº 1.104/1964, quando se comprovar a ausência de ato com motivação exclusivamente política, assegurando-se ao anistiado, em procedimento administrativo, o devido processo legal e a não devolução das verbas já recebidas.
Não sei se a Comissão de Anistia do atual governo civil-militar cumpriu as exigências do Supremo Tribunal Federal em relação a cada um daqueles casos; certo é que ela usou essa possibilidade de revisão individualizada dos casos, autorizada judicialmente, e que certamente aprovaria, depois da modificação da Comissão, realizada para aumentar o número de membros do governo.
Antes de 1964, não só o movimento dos sargentos, mas também o dos cabos era visto como de esquerda. Por exemplo, nesta informação reservada do Serviço Secreto do DEOPS-SP (guardada no acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo), de 26 de junho de 1963, um informante traria informações de simpatia do PCB ao "movimento dos sargentos, cabos e soldados":


No caso, temos uma das várias disjunções entre política e direito: uma categoria considerada, coletivamente, suspeita pelo regime; no entanto, exige-se a comprovação individual da perseguição "exclusivamente política" para os efeitos do regime do anistiado político.
A ministra anunciou em 2019 que extinguiria a Comissão de Anistia em 2020, justificando com declaração absurda de que os requerentes estão com "idades muito avançadas"; com isso, ela ignora, ou finge ignorar, que os sucessores ou dependentes podem requerer, em nome do falecido, a condição de anistiado político.
Para a extinção do órgão, seria necessário mudar a lei 10.559, ou revogá-la. Neste caso, vê-se outra disjunção: a virada autoritária da política brasileira não foi acompanhada, ainda, da modificação do direito aplicável neste campo. 
Esse direito ainda remonta à Constituição de 1988, que é o grande alvo dos militares, que voltaram diretamente ao governo, e dos liberais, que viram no retorno das fardas a possibilidade de continuação do programa que passaram a implantar depois do Golpe de 2016.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

As comissões da verdade no Brasil: Encontros Literatura e Ditadura do PPG do Instituto de Letras e Artes-FURG (Desarquivando o Brasil CLXVII)




A convite da professora Luciana Paiva Coronel, participarei dos Encontros Literatura e Ditadura do Programa de Pós-Graduação em Letras do Instituto de Letras e Artes da FURG com a fala "As comissões da verdade no Brasil: avanços e impasses".
Trabalhei como pesquisador para três comissões desse tipo: a Nacional, a do Estado de São Paulo e a da Prefeitura de São Paulo. Escrevi sobre essas questões, tanto textos acadêmicos quanto para o público em geral.
O evento, como deve ser nestes dias de pandemia, acontecerá através da internet. Uma sala virtual se abrirá no momento do encontro, dia 29 de maio (sexta-feira) às 14 horas: https://abre.ai/ppgletras.


P.S.: Acabou o encontro, deixo aqui referências do material que citei:

Relatórios e documentos:
No DHNet há uma lista com vários relatórios, nacionais e estrangeiros: http://www.dhnet.org.br/verdade/mundo/brasil/index.htm


Artigos:

Prosa de ficção e poesia:


sábado, 23 de maio de 2020

"A hemorroida governa"

I

5 merda
7 bosta
1 babaquice
8 porra
2 foder
4 putaria
1 escrota
2 puta que o pariu
2 filho da puta
1 sacanagem
1 cacete
1 trozoba

ocupando os interiores
daquele sentado na presidência

ele não sabe somar

e acha que totaliza 38
o calibre
do que engoliu
e que pensará atirar
no primeiro arroto
ou no grito de dor
de sentar sobre o país e seus mortos


II

Eu tenho certeza que vou ser condenado por homofobia
Essas frescurada toda
Mas, racista?
Vamos reagir
E ponto final!
Sem neurose da minha parte
A desgraça que a gente tiver lá na frente
Bota um nome de fantasia
A gente está sendo pautado por esses pulhas
Se puder falar zero com a imprensa, é a saída
Abrindo covas coletivas
Baseado em filigranas
Tinha... porra, o que é? - Comorbidades. - Comorbidades,
Deus, Brasil, Armamento
O terreno fértil é este
Desemprego, caos, miséria
General tá na frente, coronel tá frente, o capitão tá na frente
É uma verdade
Toca o barco
A minha imagem tá aqui
Depois que ela engravida
E isso aí não pode acontecer
Vamos se preocupar
Tem que ignorar esses cara, 100%
Esses filha de uma égua quer
Eu quero dar um puta de um recado pra esses bosta
É a nossa hemorroida é a nossa liberdade
Esculachar
Vai ser uma porrada muito grande
Depois que o moleque encheu os corno de droga
Informação é assim
Um puta de um recado pra esses bosta
Não adianta esconder mais, tapar o sol com a peneira
Se for a esquerda eu e uma porrada de vocês tem que sair do Brasil porque vamos ser preso
Tava fodido todo mundo aqui
Vocês não seriam ministro sem eu
Eu fiz a cagada
A gente vai se aproximando de quem não deve
Deu merda?
Veio pra minha retaguarda tudo, tá
Cavar no porão aqui, vai
Isso que eu apelo pra vocês
Se eu cair, cai todo mundo junto
Homem preso não vale porra nenhuma
Cocô petrificado
Se exponha
Zero


III

Os sinais clínicos de problema venoso progressivo Eu Sou Favorável À Tortura causar dilatação e o aparecimento dos sintomas uso crônico de Foder minha Família esforço evacuatório, laxativos, dores em ardência, Queimou, Quer Que Eu Faça O Quê também por causa da constipação, Quero Armar Todo Mundo outro motivo é a gestação, ou hábitos de trabalho Vamos Fuzilar o exame digital fornece informações sobre repouso e contração Fazer O Trabalho Que A Ditadura Não Fez, os sintomas mais comuns são o prolapso, Quem Gosta de Osso é Cachorro elas podem ser amarradas com bandas elásticas Matando Uns 30 Mil a tira faz com que ela seque e se desprenda Morreu, E Daí? para afastar a possibilidade de tumores Não Matei Nem Conhecia
O sangramento é o sintoma mais comum


IV

Governa todo o corpo
por meio da dor

Latejando
decide sobre a alma
e outros efeitos da pulsação

Governa também a dor
tornando-a um rio

que desce vermelho
drenando o coração

carregando-o
paulatinamente

para onde não há mais corpo
nem alma
apenas dor

que não governa, obedece


V

Cocô petrificado
de sentar sobre o país e seus mortos

O sangramento é o sintoma mais comum