O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Coragem e memória: Amelinha Teles (1944-2026)

Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha, era genial. Eu a vi pessoalmente pela primeira vez no lançamento de O que resta da ditadura, em 2010, uma obra coletiva organizada por Edson Teles e Vladimir Safatle com capítulos de, entre outros autores, seus dois filhos, Edson e Janaína (dois dos maiores especialistas na questão), porém não dela mesma.


Ela, porém, era a escritora mais prolífica da família. Vi de perto essa vocação quatro anos depois, quando a conheci na Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva", presidida por Adriano Diogo. Ela entrou como assessora, criou um plano de trabalho e terminou coordenadora da Comissão, que foi a primeira criada no país.

Além de planejar as atividades, coordenar audiências públicas, convidar testemunhas e depoentes, supervisionar os trabalhos, ela escreveu boa parte do relatório. Eu sempre fiquei impressionado com sua capacidade de trabalho. Amelinha pertencia à geração que viveu a ditadura militar desde o início, 1964, ano em que seu pai e ela mesma foram presos (por isso, dizia que não era da "geração 1968").

A Comissão "Rubens Paiva" era, em alguns sentidos, o contrário da Comissão Nacional pois sua equipe incluía ex-presos políticos: ela e Ivan Seixas, além de Adriano Diogo na presidência: pessoas que não haviam parado de militar depois da ditadura.

Ela foi homenageada diversas vezes durante a vida; assisti à cerimônia de seu título de Doutora Honoris Causa, outorgado pela Unifesp em 2023, o mérito legislativo entregue pela deputada estadual Isa Penna na Alesp no mesmo ano; um inventário de honrarias seria extenso: recebeu a medalha Pedro Ernesto pela então vereadora Luciana Boiteux, do Rio de Janeiro, foi homenageada na Câmara em São Paulo etc.

Muitas eram as razões para homenagem, porque várias eram as batalhas de Amelinha e grande a sua coragem. Ela engajou-se na luta pela anistia, na luta pelas creches, nas Diretas Já, na campanha pela Constituinte, na imprensa feminista, tudo isso ainda durante a ditadura militar, depois de ter saído da prisão em 1973. Ela foi uma das fundadoras da União das Mulheres de São Paulo e da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Pollíticos, bem como do projeto Promotoras Legais Populares, em que ela continuava a lecionar. 

Toda sua militância respeitava a transversalidade das questões de gênero. Ela militou indo agir e falar com as mulheres, especialmente nas perifeirias (ela se considerava periférica, por sinal). 

Ela não foi guerrilheira, ao contrário do que afirmam matérias equivocadas sobre sua morte publicadas pelo ICL e pelo Brasil De Fato (eu a vi lembrar algumas vezes que sua irmã, Criméia, é que foi guerrilheira no Araguaia; Amelinha era da imprensa do partido). Dito isso, ela conheceu várias guerrilheiras e escreveu, com Rosalina Santa Cruz, este livro de 2013, Da guerrilha à imprensa feminista: a construção do feminismo pós-luta armada no Brasil (1975-1980), em que temos uma espécie de biografia de uma geração de mulheres militantes.

Como sempre, a memória das lutas contra a ditadura convocada por Amelinha servia de orientação para o futuro: para a Comissão Nacional da Verdade, claro, e para a criação de grupos autônomos de mulheres dentor da compreensão de que o feminismo deve ser "anticapitalista, antirracista, anti-homofóbico/lesbofóbico, ampliando as articulações políticas, solidárias e integradas de todos os segmentos oprimidos no campo nacional e internacional":


Memória, verdade e justiça. Ela foi fundamental para o pouco de jusitça de transição que o país conseguiu alcançar. Um dos focos de tensão com a Comissão Nacional da Verdade, ela mesma contou diversas vezes, foi tentar convencer a CNV da importância da pesquisa sobre ditadura e gênero, que, inicialmente, não estava na pauta da Comissão Nacional. O tema das crianças, tampouco, e a Comissão "Rubens Paiva" abordou ambos. O clássico livro Infância roubada: crianças atingidas pela ditadura não teria existido sem Amelinha.
Em 1993, ela publicou a Breve história do feminismo no Brasil; não tenho essa edição, mas a de 2017, que foi ampliada com ensaios mais novos.


O assunto "mulher", como ela explica, era proibido: quando se tratava de temas como parto, desquite, trabalho, a censura entrava em ação:


O livro acabou no dia do lançamento, realizado na União de Mulheres. Poucas vezes vi uma fila tão grande para um autor (maior do que a dela, lembro apenas de uma de Adélia Prado). Quem chegou depois, ficou sem exemplar. Amelinha autografou em uma mesa coberta por uma toalha do MST:



Ela escreveu em 2023 um livro sobre feminismo para jovens, Feminismos: Ações e histórias de mulheres (eu a gravei falando da obra no lançamento): 



É um livro fascinante, encomendado e recusado por uma grande editora que hoje vive do passado, em que ela dá conta da pluralidade do feminismo e de suas práticas. Amelinha não tinha um espírito dogmático.
Amelinha escreveu muito mais coisas. Quero lembrar ainda nesta nota só do último livro que publicou. Ele se destaca por ser a única obra de ficção e a única escrita para crianças:


Contos da cela três é fortemente enraizado na biografia da autora: Amelinha esteve nessa cela, a Lagartixa que é personagem existia na prisão e, principalmente, as histórias do livro foram escritas enquanto ela esteve presa. Ela o fez para divertir e consolar os colegas de prisão. É significativo que o seu livro que está mais próximo da autobiografia (não é, porém) tenha sido, na verdade, criado para confortar os outros, e não como exercício de autorreferência. O livro gerou uma resposta muito positiva nas escolas, o que deu uma grande alegria para a autora, que descobriu que a ficção chega a lugares que ela ainda não havia frequentado.

Em 2026, o livro foi lançado novamente no Instituto de Psicologia da USP, em evento que a psicóloga Bruna Borba, que a entrevistou para sua tese de doutorado, ajudou a organizar.

Janaína, Amelinha e Criméia no Instituto de Psicologia da USP.

Embora se trata de ficção, o livro fo fortemente inspirado em dados reais. Pois ela foi uma presa política e ficou na "cela três". 

Trata-se do que as matérias sobre Amelinha mais lembraram: ela e o marido César Augusto Teles (falecido em 2015) faziam o jornal clandestino do PCdoB. Foram sequestrados pela equipe do DOI-Codi/SP, liderada por Carlos Alberto Brilhante Ustra, em 28 de dezembro de 1972. Também o foi Carlos Nicolau Danielli, dirigente do Partido cuja tortura e assassinato eles testemunharam e denunciaram. No dia seguinte, levaram a irmã, Criméia Alice Schmidt de Almeida (que foi torturada grávida e teve seu filho, João Carlos, enquanto estava presa) e os dois filhos, Janaína e Edson, com 5 e 4 anos, respectivamente, que tiveram de ver os pais torturados.

Contei essa história e a do processo que a família propôs contra Brilhante Ustra, o "escritor" preferido dos bolsonaristas, no livro Ilícito absoluto: a família Almeida Teles, o coronel C. A. Brilhante Ustra e a tortura, publicado pela Patuá em 2023.

Amelinha Teles, Carla Osmo, Crimeia Almeida
e o autor na Livraria Patuscada.

Adriano Diogo, Criméia Almeida, Amelinha Teles, o autor,
Janaina Teles e Carla Osmo na Casa das Rosas.

Sua história durante a ditadura militar é pungente. Não obstante, de forma alguma ela se restringiu a denunciar o que aconteceu com sua família. Amelinha passou a maior parte de sua vida procurando desaparecidos políticos, como falou em 16 de abril de 2025 no evento na Reitoria da Unifesp sobre a identificação, após o trabalho do CAAF, de Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva, que haviam sido ocultados na Vala de Perus, uma das maiores provas dos crimes da ditadura militar. Nessa ocasião, ela cobrou, na presença da presidenta de Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (Eugênia Gonzaga), a análise dos remanescentes ósseos que podem pertencer a guerrilheiros do Araguaia e estão parados há anos na Universidade de Brasília. 

O próprio Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp, que ainda é único no país (coordenado hoje por Joana Barros e Edson Teles), foi criado com a missão inicial de identificar os remanescentes ósseos da Vala de Perus, a partir de articulação de Amelinha (por sugestão de Adriano Diogo) com Eleonora Menicucci (então Ministra das Mulheres), que envolveu a Presidenta da República Dilma Rousseff e a Reitora da Unifesp Soraya Smaili.

O Memorial da Vala de Perus, uma reivindicação do movimento de familiares e da comunidade de Perus, foi também pauta de Amelinha diversas vezes: aqui, nós a vemos no aniversário de 34 anos de abertura da Vala ao lado de Aline Oliveira do CAAF: https://youtu.be/240NeqBfGU0?si=2RdEECT08GMmpA5V

Ela conhecia profundamente a questão: muito antes da criação do CAAF em 2014, ela trabalhou na Prefeitura de Luiz Erundina na investigação sobre a Vala, que foi aberta no governo da primeira mulher Prefeita de São Paulo.

Inês Etienne Romeu, Luiza Erundina e Amelinha.
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Na idade das trevas do bolsonarismo na presidência da república, Amelinha não deixou de destacar como a questão dos desaparecidos tinha sua atualidade reforçada pelo hoje presidiário, cujo filho atualmente candidato à presidência quer indultar o pai e os outros criminosos que tentaram dar um golpe de Estado no 8 de janeiro de 2023. Em Seminário sobre a Lei de Anistia em 2019, ela bem comentou: "Quem é que traz o tema à pauta o tempo todo? É esse presidente que está aí. Primeiro que o guru dele é o Ustra. Depois ele fala que Fernando Santa Cruz, ele sabe como é que foi morto". Fernando Augusto de Santa Cruz, irmão de Rosalina Santa Cruz (outra ex-presa política), continua desaparecido.

Na campanha de 2018, ela e Janaína de Almeida Teles gravaram um depoimento para o programa de Fernando Haddad, candidato do PT à Presidência da República, quando Lula foi impedido de candidatar-se dentro da conspiração pós-golpe de 2016. Elas falavam do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra e da tortura. Não só ambas foram ameaçadas por bolsonaristas e foram alvo de fake news, como o vídeo foi censurado pela Justiça Eleitoral. Amelinha era corajosa. 

Seu falecimento gerou notícias de veículos tão diferentes quanto o G1, TVT, a Veja, Opera Mundi, Marie Claire, Correio Braziliense, SBT, da EBC... Destaco a manifestação da Associação Brasileira de Imprensa, que transcreveu no final a nota autobiográfica que aparece em Contas da cela trêshttps://www.abi.org.br/amelinha-teles-uma-vida-contra-o-esquecimento/

As manifestações de políticos vieram da esquerda, inclusive Dilma Rousseff no Instagram. Ela detinha o dom do diálogo e não o exercia somente com quem pensava como ela: nesse sentido, foi uma das pessoas mais políticas que conheci, embora nunca tivesse desejado entrar no sistema político formal. 

Outra característica era sua integridade: explicava que a força dos familiares de mortos e desaparecidos era dizer a verdade: o Dossiê Ditadura (1964-1985), obra que serviu de base para a Comissão Nacional da Verdade, nunca foi desmentido porque partia dessa integridade do movimento dos familiares. Era também uma característica pessoal dela.

Prefiro terminar lembrando da sua impressionante memória: ela carregava consigo os momentos históricos por que passou. O quanto perdemos, agora que não podemos mais ouvi-la?

Amelinha nunca abandonou suas lutas. No enterro de Grenaldo de Jesus Silva em 26 de junho de 2026, ela rememorou as companheiras: "quantas mães que a gente encontrou aqui, conheceu, e que lutaram com a gente, porque perderam seus filhos, suas filhas, então é um momento de gratidão [...] se essas pessoas não tivessem existido, nós não chegávamos aqui, se não tivessem lutado e resistido". 

Essas palavras hoje, nós a devolvemos para ela, com sua coragem e memória.

domingo, 13 de setembro de 2026

Não me sepulte antes da morte

Não me sepulte antes da morte,
é inútil;
o sopro continua
e pode mover a terra.

Adie o réquiem para depois do fim,
esta música para ser vivida 
com olhos fechados.
Os meus estão abertos.

Não chore a perda ainda,
enquanto as mãos podem ser dadas
elas não ficarão vazias.

Sei: o preparo da alma
é mais pesado do que o do corpo.

Não sucumba ao peso.
A alma se ergue
por seus próprios meios,
o ar sujeito a terremotos.

Não me sepulte antes da morte,
o sopro continuará
e sobre ele, nova terra,
os seus passos futuros.


terça-feira, 1 de setembro de 2026

Eventos na Bienal do Livro de São Paulo: "Quem tem medo da liberdade?" e autógrafos para "Ilícito absoluto"

 



Participarei com Juliana Monteiro, Maria Fernanda Maglio e Vilmar Debona da programação da Editora Patuá na 28a Bienal do Livro de São Paulo, que ocorrerá no Distrito Anhembi. 
No sábado, dia 5 de setembro de 2026, das 10 às 12 horas, estaremos no bate-papo "Quem tem medo da liberdade? Literatura, conservadorismo e os conflitos morais do nosso tempo na literatura".
Esta é a descrição do evento:

Uma conversa sobre como a literatura enfrenta, registra e tensiona os conflitos morais do nosso tempo. Liberdade, conservadorismo, gênero, sexualidade, desigualdade, violência e os limites impostos às diferentes formas de existir atravessam obras e experiências dos quatro participantes.

Faço notar que o bate-papo ocorre um dia depois do aniversário de 36 anos da abertura da Vala de Perus, vala clandestina no Cemitério Dom Bosco, em São Paulo, onde a ditadura militar ocultou mais de mil corpos. Até hoje, só uma parcela mínima desses desaparecidos foi identiifcada, e o governo de Jailed Bolsonaro conseguiu paralisar os trabalhos de identificação, que passaram pela Unicamp, pela USP, pela UFMG, mas só conseguiram avançar com o CAAF (Centro de Antropologia e Arqueologia Forense) da Unifesp.

Falando nos desaparecidos da ditadura, ainda no dia 5 de junho, logo depois do bate-papo, às quatorze horas, darei autógrafos para o Ilícito absoluto, meu livro sobre o reconhecimento judicial de Carlos Alberto Brilhante Ustra como torturador da família Almeida Teles.



Este livro de não-ficção trata, evidentemente, de violência, cosnervadorismo, liberdade e gênero, mas também da literatura de ficção que aborda esses assuntos: entre as fontes que consultei, estão livros de Vilma Arêas e Roberto Bolaño.

As atividades ocorrerão no estande K45, da Patuá

Vejam como chegar: https://www.bienaldolivrosp.com.br/pt-br/visitar.html


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Ditaduras e responsabilização de empresas: Chamada de artigos e resumos para o XI Seminário do IPDMS




Em João Pessoa, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), será realizado o  XI Seminário do Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais (IPDMS), “Venas abiertas: pesquisas e insurgências na América Latina”, entre 11 e 14 de novembro de 2026. O evento ocorrerá concomitantemente com o Encontro Nacional da Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares – RENAP e Encontro Nacional das Assessorias Jurídicas Universitárias – ERENAJU. Haverá programação em comum, que está sendo construída. Acompanhem as notícias na página do evento, local onde copiei a imagem acima: https://www.ipdms.org.br/xi-sn-ipdms/

Coordenarei com a bistoriadora e integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos Janaina de Almeida Teles e o cientista politico Bruno Boti Bernardi um Grupo de Discussão sobre ditaduras e responsabilização de empresas. Estamos esperando artigos e resumos expandidos sobre o tema até 23 de agosto 8 de setembro, último dia do prazo.

As regras para a elaboração dos textos podem ser lidas através desta ligação: https://www.ipdms.org.br/xi-sn-ipdms/xi-sn-trabalhos/

O IPDMS continua a ser um local de encontro único de diferentes saberes: acadêmicos (da Sociologia, da História, da Antropologia, da Filosofia e outros campos, até do Direito) e não acadêmicos, em conjunto com os militantes e os movimentos sociais. Trata-se de saberes que caminham rente à militância e à ação. 

O Grupo de Discussão que propomos diz respeito a uma frente nova no campo da justiça de transição e que lida com as lutas dos trabalhadores, com os direitos e territorialidades de povos indígenas e comunidades tradicionais, bem como com garantias socioambientais. Esperamos que os artigos e resumos que chegarão suscitem caminhos novos para a teoria e para os movimentos.


GD 6 – Ditaduras e empresas: a responsabilização por graves violações de direitos humanos

Ementa

A responsabilização de empresas por graves violações de direitos humanos e sua aliança com ditaduras, especialmente na América Latina, é um campo novo da justiça de transição.

No Brasil, o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), finalizado em 2014, não considerou a responsabilidade empresarial ao longo deste período. Na Argentina, o Nunca más (1984), relatório da Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas (CONADEP), tampouco o tinha feito, por ter se concentrado nas violações aos direitos civis e políticos.

A cumplicidade empresarial em graves violações de direitos humanos é um tema que tem ganhado destaque neste século: no Direito Internacional, sua iniciativa vem de movimentos, organizações não governamentais e a Organização das Nações Unidas a partir de instrumentos de soft law (Osiel, 2014). No campo da justiça de transição, ele é mais recente ainda. A Colômbia foi o primeiro país que decidiu em acordo de paz “integrar actores económicos en el componente de justicia penal de la justicia transicional” (Michalowski, 2022, p. 96).

Na Argentina, se houve uma “aliança repressiva” entre empresas e ditadura que enseja falarmos de “responsabilidade”, e não simples “cumplicidade” das empresas na repressão aos trabalhadores (Secretaría de Derechos Humanos de la Nación, Centro de Estudios Legales y Sociales y Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales, 2022, p. 66), a responsabilização no campo da justiça de transição não foi ainda realizada.

No Brasil, um passo adiante foi dado com um projeto do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (CAAF/Unifesp), que coordenou diversas equipes. O financiamento veio do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Volkswagen, em razão do Inquérito Civil nº 1.34.001.006706/2015-26, que investigava a colaboração da empresa citada com a ditadura militar no Brasil. O projeto publicou em 2023 um primeiro Informe sobre dez empresas (Teles, Osmo, Calazans, 2023).

Perspectivas teóricas

A discussão partirá das concepções de justiça de transição que destacam a importância dos direitos econômicos, sociais e culturais, como de Kora Andrieu (2012), superando o paradigma liberal, centrado em direitos civis e políticos.

Outro pressuposto teórico é o da importância das iniciativas de “baixo para cima”, ou seja, dos movimentos sociais e da sociedade civil para a justiça de transição, também no campo da responsabilidade empresarial, como destacaram Payne, Pereira e Bernal-Bermúdez (2020).

A literatura latinoamericana sobre a cumplicidade das empresas com ditadura na América Latina será destacada, como é exemplo o trabalho de Victoria Basualdo (2021; Basualdo et al, 2016)

Além disso, a violação de direitos dos povos originários e comunidades tradicionais, bem como direitos socioambientais está incorporada teoricamente ao escopo do Grupo de Discussão e ás concepções de direitos humanos envolvidas, tendo em vista a atuação de empresas como a Petrobras, que afetou direitos territoriais daqueles povos e gerou degradação ambiental (Teles, Fernandes, Bernardi, 2024)

Referências bibliográficas

ANDRIEU, Kora. La justice transitionnelle. Paris: Gallimard, 2012.

BASUALDO, Victoria. Business and the Military in the Argentine Dictatorship (1976–1983): Institutional, Economic, and Repressive Relations. in: V. Basualdo et al. (eds.), Big Business and Dictatorships in Latin America, Palgrave Studies in Latin American Heterodox Economics, 2021. https://doi.org/10.1007/978-3-030-43925-5_2.

BASUALDO, Victoria et al. Responsabilidad empresarial en delitos de lesa humanidad: represión a trabajadores durante el terrorismo de Estado. Posadas : EDUNAM - Editorial Universitaria de la Universidad Nacional de Misiones ; Posadas : EdUNaM ; Ciudad Autónoma de Buenos Aires : Centro de Estudios Legales y Sociales ; Ciudad Autónoma de Buenos Aires : Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales, 2016.

COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE. Relatório. Brasília: CNV, 2014, Vol.1, 2 e 3. Disponível em http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/.

MICHALOWSKI, Sabine et al. Estándares internacionales y lecciones de la experiencia internacional para la responsabilidad de los actores económicos por su participación en conflictos armados. In: SECRETARIA DE DERECHOS HUMANOS DE LA NACIÓN. Repertorios : perspectivas y debates en clave de Derechos Humanos : 3- Responsabilidad Civil en delitos de lesa humanidad. Ciudad Autónoma de Buenos Aires : Ministerio de Justicia y Derechos Humanos de la Nación, pp.95-116, 2022.

SECRETARÍA DE DERECHOS HUMANOS DE LA NACIÓN, CENTRO DE ESTUDIOS LEGALES Y SOCIALES Y FACULTAD LATINOAMERICANA DE CIENCIAS SOCIALES. Conclusiones del informen Responsabilidad empresarial en delitos de lesa humanidad. In: Secretaria de Derechos Humanos de la Nación Repertorios : perspectivas y debates en clave de Derechos Humanos : 3- Responsabilidad Civil en delitos de lesa humanidad / 1a ed. - Ciudad Autónoma de Buenos Aires : Ministerio de Justicia y Derechos Humanos de la Nación, p. 65-93, 2022.

OSIEL, Mark. The Uncertain Place of Purge Within Transitional Justice, and the Limitations of International Law in the World’s Response to Mass Atrocity. In: ISRAËL, Liora; MOURALIS, Guillaume (ed.) Dealing with Wars and Dictatorships: Legal Concepts and Categories in Action. The Hague: Asser Press, pp. 253-269, 2014.

PAYNE, Leigh A.; PEREIRA, Gabriel; BERNAL-BERMÚDEZ, Laura (ed.). Transitional Justice and Corporate Accountability from Below. Deploying Archimedes’ Lever. Cambridge: Cambridge University Press, 2020.

TELES, Edson; OSMO, Carla; CALAZANS, Marilia Oliveira (org.). Informe público: a responsabilidade de empresas por violações de direitos durante a ditadura. São Paulo: CAAF, Unifesp, 2023.

TELES, Janaína de Almeida; FERNANDES, Pádua; BERNARDI, Bruno Boti. A Petrobras e as graves violações aos direitos humanos cometidas durante a ditadura militar. Revista Brasileira de História. 44 (97), 2024. https://doi.org/10.1590/1806-93472024v44n97-05


P.S.: Foram muitos os pedidos e o prazo foi ampliado; transcrevo a mensagem da organização: 

🚨 PRAZO PRORROGADO! 🚨

As submissões de Oficinas, Mini Cursos e Apresentação de Trabalhos do XI Seminário Nacional do IPDMS vão até 08/09 ✍️

📤 Envie pelo site oficial do evento — https://ipdms.org.br/xi-sn-ipdms/xi-sn-trabalhos/ 🔗

📅 Evento: 11 a 14/11 • UFPB • João Pessoa/PB

Não fique de fora. Submeta seu trabalho! ✊

#XI SNIPDMS #IPDMS #RENAP #RENAJU #DireitosHumanos #MovimentosSociais

https://www.instagram.com/p/DcWsi_7hyjD/?igsi=amhhN2s4dno5Z3Rt

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Tristão e Isolda no Municipal de São Paulo: grandes cantores vs. Excalibur para "dummies"

Vi Tristão e Isolda, ópera de Richard Wagner, na estreia paulistana de uma produção importada da Espanha. O Theatro Municipal de São Paulo está sob a gestão de uma nova organização, que decidiu cancelar a montagem que Daniela Thomas criaria, o que decepcionou o meio teatral. 

Talvez tivesse sido justo assim; São Paulo não vê uma produção dessa ópera desde 1978, mas como teria conseguido montar algo original neste mau momento da cidade, em que a arte teatral é atacada pelas autoridades e os trabalhadores da cultura convocam atos por causa do desmanche do setor e das acusações de corrupção e de irregularidades em shows?

Talento existe (ele não vem das autoridades), mas não vontade política de aproveitá-lo. A montagem de Allex Aguillera, que substituiu Daniela Thomas, não era nova: veio de Sevilha e não apresentava realmente uma concepção; destacam-se nela a cegueira momentânea do casal de protagonistas, que não vê uma coroa gigante caindo sobre eles no segundo ato, e o piso de madeira do teatro, velho conhecido de outras montagens em que o palco cênico ficou quase nu.

O terceiro ato foi o melhor? Provavelmente, pois era o ponto em que a coleção de elementos cênicos ficava mais disparatada. Tivemos um dançarino de butô transplantado para o palco, o que certamente indica que foi uma longa viagem para Tristão e que o protagonista ferido não estava tão mal assim, já que conseguiu, inesperado pioneiro das grandes navegações do colonialismo, chegar vivo ao Extremo Oriente. Vimos a licença poética de Kurwenal morrer não por causa da luta com Melot, e sim suicidar-se por amor a Tristão; achei bonito, quase uma releitura LGBT, bem inesperada porque vinda de uma gestão que anunciou que o gênero operístico não é político. No entanto, não gostei das lâmpadas acesas formando a palavra "und", para as quais Isolda caminha depois de cantar sua última linha: visualmente, parecia um painel de teatro de revista e ficou bem deslocado. Felizmente, quem estava nos lugares mais altos do teatro não podia vê-lo, pois as lâmpadas ficavam estrategicamente bem no fundo do palco. Höchste Licht? Claro que não.

O público era preparado para o tom geral do espetáculo desde o prelúdio: cada ato começava com projeções de gosto duvidoso, cujo paralelo seria o de uma criança sem gosto artístico pedindo para algum aplicativo de inteligência artifical refazer o filme Excalibur numa versão para dummies.

José Amador Morales, na Codalario, gostou mais dessa montagem do que eu; ele a viu em Sevilha em 2023 e reconheceu estes pontos fracos, que se repetiram em São Paulo: "la propuesta de Allex Aguilera acusó un déficit de creatividad en el movimiento de personajes y en una dirección de actores claramente limitada que dio lugar a demasiados vacíos y dejó a los solistas un tanto abandonados a sus arcaicas gesticulaciones". Não só os solistas ficaram abandonados, mas os cantores do coro, acrescento.

Na estreia, o regente, Roberto Minczuk, estava antes de tudo prudente: não se ouvia uma interpretação, mas uma leitura cautelosa da partitura numa tentativa de manter os instrumentistas juntos, o que nem sempre aconteceu, especialmente no primeiro ato. A sensação era a de que estávamos assistindo a um ensaio geral. Um sinal disso foi o momento em que Tristão passou praticamente a reger para que o andamento da sua cena de morte se acelerasse. No segundo ato, o dueto do segundo ato sofreu um corte, tradicional mas decepcionante. Não obstante essas carências, a partitura foi mais respeitada do que na famigerada montagem de Gerald Thomas no Rio de Janeiro em 2003, regida pelo falecido Silvio Barbato, em que se cortou até a cena de chegada, luta e morte de Melot no terceiro ato.

Tristão, por sinal, desde a sua entrada firmou-se pelo metal de sua voz, muito mais cortante e brilhante do que o das espadas das projeções ridículas do início do ato: Simon O'Neill não só se mostrou digno deste papel, que é um dos mais difíceis da literatura operística para tenor, como resolveu deixar bem claro como estava vocalmente confortável em dois momentos de fermata, "Verflucht!" e "Verloren!", duas exclamações no terceiro ato que ele sustentou com facilidade. Tantos tenores ficam exaustos nesse ato, em que o personagem agoniza por uns quarenta minutos, mas Simon O'Neill chegou a ele com reservas. Dito isso, o tenor não se resumiu às nuances forte e fortissimo, longe disso. No dueto do segundo ato, na primeira vez em que canta "Die Liebe nur zu lieben", ele cantou o agudo em voz de cabeça, como se fosse Jon Vickers, um dos grandes expoentes desse papel no século passado. Foi uma surpresa ouvir essa passagem assim. Na segunda vez, cantou-a forte, sem precisar alterar o som da vogal "i". É um tenor dramático de verdade, bem diferente do Mitridate que cantou esse mesmo papel na última produção do Metropolitan Opera House.

Leonardo Neiva interpetou Kurwenal com um belo legato e jamais foi ultrapassado pelo peso da partitura. Ele atuou muito bem: pena que teve que levar um joelhaço da Isolda no primeiro ato, em outro dos momentos pouco sutis da concepção cênica de Aguilera. O Rei Marke coube a Hernan Iturralde, que soube extrair a variedade musical e dramática em seu longo monólogo do segundo ato, que pode parecer tedioso na voz de cantores menos talentosos. Ambos, assim como O'Neill, foram vocalmente superiores aos artistas que interpretaram recentemente esses papéis no Met.

Annemerie Kremer continua a ser a grande atriz que interpretou Salome em São Paulo em 2014; a voz parece ter ganhado peso com os anos: não é toda intérprete de Salomé que pode enfrentar a Isolda. Dito isso, ela cantou a passagem da vingança (de "Mir lacht das Abenteuer" até "Tod uns beiden!") com suas próprias notas, que coincidiam muitas vezes com as de Wagner. É o trecho que, aparentemente, fez Jessye Norman, que não podia cantar essa partitura ao vivo, desistir de concluir a gravação de estúdio dessa ópera; os trechos que ela conseguiu terminar só foram lançados postumamente. Afora essa passagem, Kremer dominou o papel e chegou muito bem até o fim: o pianíssimo final em "höchste Lust" foi seguro.

Brangäne soou pesada demais algumas vezes para Luisa Francesconi (além disso, é uma pena que o seu alemão não seja bom) e Melot foi um fardo para Jessé Vieira, não só para o personagem de Tristan. Ambos avizinharam-se do grito, ele mais do que ela, apesar de o barítono ter um papel mais curto. Lembrei das famosas três palavras de Kirsten Flagstad, "Leave Wagner alone".

Esta é a primeira produção sob a vigência do contrato com o Instituto Baccarelli. Jorge Takla, que era o novo diretor artístico quando escreveu o texto de três parágrafos do livretinho vendido na entrada do teatro sobre Tristão, por algum motivo não revelado em público já não estava mais no cargo quando a ópera estreou. O texto intitula-se "Um novo ciclo com Tristão e Isolda". 

Não começou realmente um novo ciclo para ele, mas certamente para o público, embora de qualidade ainda a se comprovar, tendo em vista o nível desta produção cênica. O padrão do programa (agora, um mero livretinho) também caiu: na época da concessionária anterior do Teatro, a Sustenidos, ele incluía sempre o libreto da ópera com a tradução para o português. Agora, com o Instituto Baccarelli, nem o texto original do libreto aparece.


domingo, 7 de junho de 2026

"O fascista em comunidade com as pulgas"

Para meu amigo Eduardo



I

O fascista em comunidade com as pulgas:
comunhão de apetites.

O internacionalismo fascista 
ou a hemorragia viaja no mesmo sentido
para fora dos corpos
na diplomacia da bomba.

Feixes unidos por amor ao sangue:
empilhados, formam uma cratera
que se eleva até a tempestade.

A identidade fascista ou o espelho, 
na mão direita ou na esquerda,
revelando a cara da mercadoria.

Os fascistas têm fé em deus assim como as pulgas acreditam no calor
e abandonam os corpos mortos.

Ao contrário das pulgas, quando eles saltam, é para cair.

Ao contrário de muitas pulgas, os fascistas
são muito específicos em relação às raças que sugam.

Dizem que existiu poesia fascista,
porém ela foi esquecida
na programação da alucinação artificial,
que substituiu a imbecilidade natural.

Os fascistas querem a política no estilo das pulgas.
Elas também vivem do sangue alheio,
contudo, são mais inteligentes
e sabem que o inseticida é mais político do que elas.


II

A quantidade de fascistas (tipicamente larvas ou pupas) que chegam à maturidade é muito pequena quando comparada â grande quantidade de hospedeiros que eles parasitam. Populações de fascistas apenas sobrevivem em razão da capacidade publicitária e da lucrativa relação com o ambiente que destroem. Contudo, se os desastres ambientais forem favoráveis, mais fascistas chegarão à idade adulta. Uma infestação poderá ocorrer com as doenças de que são vetores e o canibalismo tipico dessas espécies introduzidas.