O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Desarquivando o Brasil CXC: Um discurso de Hebe de Bonafini

A Mãe da Praça de Maio Hebe de Bonafini, que morreu em 20 de novembro de 2022 com 93 anos, sobreviveu a seus três filhos, que a última ditadura na Argentina lhe tirou, mas também a companheiras como Azucena Villaflor de Vicenti, sequestrada e morta pela repressão em 1977.

Ela esteve no Brasil algumas vezes, antes e depois do fim das ditaduras na Argentina e no Brasil. Este documento das Mães da Praça de Maio está no acervo da polícia política de São Paulo, o DEOPS/SP, atualmente no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Nele vemos a assinatura de Hebe de Bonafini, no quarto ano da organização. Ele seria lido em São Paulo na comemoração do Primeiro de Maio de 1981:



No Brasil, estávamos no fim prolongado fim da ditadura militar, sob o General Figueiredo. O fim das gestões encabeçadas por militares não significou, contudo, que o Estado brasileiro tivesse terminado de vigiar os movimentos sociais. Esta continuidade da ditadura lembra-nos que, afinal, um governo como o de Jair Bolsonaro não foi gestado somente desde 2014.

Data do curto governo Collor este outro documento. Entre 21 e 23 de junho de 1991, aconteceu em São Paulo o III Encontro Latino-Americano e do Caribe pela Solidariedade, Soberania, Autodeterminação e Vida de Nossos Povos. Bonafini representou as Mães da Praça de Maio. Em documento confidencial da Secretaria de Assuntos Especiais da Presidência, hoje no acervo do Arquivo Nacional, temos um relatório do Encontro com o que me pareceu ser uma cópia traduzida do discurso dela. Como sempre, cliquem sobre a imagem para ampliá-la:




Não me recordo de ter visto este discurso publicado, ao menos em português, por isso o faço aqui. Acho notável a perspectiva latino-americana, "A América Latina deve se unir", que engloba o Brasil, o que não é tão comum assim quando tratamos da América de fala hispânica.
Mais interessante ainda é esta observação, que transcrevo:

Estamos numa batalha muito pura, esta batalha significa resistir e combater. Se não formos capazes de enfrentar estes 500 anos com muita força, repudiando e protestando todos os massacres, dos negros e dos índios e aos que eles chamaram de subversivos e terroristas, que com a mesma força que assassinaram os negros e os índios, assassinaram nossos filhos acusando-os de terroristas.
Os homens dessa terra, os que querem um mundo melhor, estamos aqui e em todos os lugares para dizer-lhes, 500 anos de nepotismo vamos enfrentar com força.

Já vi certos acadêmicos insistirem em procurar ou estabelecer uma oposição entre os militantes de movimentos no campo da justiça de transição e os de outros movimentos sociais. Na minha experiência, têm-me antes impressionado as convergências entre aqueles que lutam contra a ditadura e contra outras violências, atuais e pretéritas. É o caso, no Brasil, das ações da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.
Faço notar que, para a extrema-direita bolsonarista, estas questões estão intrinsecamente ligadas, para ela todos aqueles movimentos devem ser combatidos em nome de uma teleologia reacionária do progresso e/ou do cristianismo. 
Bonafini falou no contexto dos 500 anos da invasão dos espanhóis no continente, mencionando o genocídio indígena e negro, inserindo o genocídio da última ditadura argentina dentro dessa lógica do Estado colonial. Para fazer frente à extrema-direita, essa perspectiva e as alianças entre esses diferentes movimentos não devem ser perdidas.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Dia dos Finados, ou como o bolsonarismo queria a política

Eu ouvia no Dia dos Finados a Rádio Cultura, o programa Conexão Europa, que transmite concertos que foram gravados ao vivo para União Europeia de Rádio e TV (EBU). O programa incluiu o concerto para piano n. 24 de Mozart com Lars Vogt como solista. Foi uma apresentação de 2021. Na nota biográfica sobre o músico, foi omitido que ele está morto.

Provavelmente os responsáveis na Rádio não sabiam. Haveria, no entanto, alguma uma justiça poética em tocar um morto no 2 de novembro em um programa dedicado a músicos contemporâneos (refiro-me aos intérpretes, não aos compositores)? Creio que não, pois os mortos devem ser nomeados: esta é que é uma forma de fazer-lhes justiça.

Pensei, em seguida, na tentativa de prorrogação da campanha eleitoral de 2022: os zumbis que fecham estradas sem saber a razão, apenas atendendo a um comando do grupo, em um mundo paralelo em que os mortos ainda operam. De certa forma, estão mortos, especialmente quando desejam o falecimento do candidato vitorioso, como o fez ontem um ex-motorista, que ainda dirige ocasionalmente para o derrotado.

Não estaria também seu Líder (traduzo do alemão) morto em algum sentido? Parte de seus idólatras vê, na visível diminuição da vitalidade, um sinal de que não seria ele mesmo nos últimos vídeos, em que pede para que desbloqueiem as estradas. Enganam-se, claro, porque não reconhecem mais no Líder (traduzo do alemão) o próprio desejo.

A morte, contudo, tem sua atualidade e sua efetividade. Esses bloqueios e outras manifestações contra o resultado das eleições, contra a democracia, são cerimônias da morte, como é da essência do fascismo. Esses mortos, não os homenageamos, mas combatemos.

Falando de vida e de combate, no dia 29 de outubro, tive ensaio (o Coral da Cidade de São Paulo apresentaria o Dixit Dominus do Haendel, regido por Luciano Camargo, na segunda-feira) justamente no horário em que Lula falou na Paulista. Saindo do ensaio, ainda pude descer a Consolação com os manifestantes.



O entusiasmo era grande. Havia um grande otimismo em relação à vitória de Lula, pois o adversário nunca chegara a ultrapassá-lo em pesquisas sérias. Os episódios dos políticos bolsonaristas armados com fuzis, pistolas e bombas (algo normalizado para a direita, que tem o desplante de chamar um movimento social como o MST de... terrorista) certamente não conquistariam indecisos.


O dia da eleição, nas minhas redondezas em São Paulo, também foi feliz. As pessoas estavam celebrando nos bares e restaurantes já antes de acabar o horário de votação. Neste vídeo, flagrei o momento em que a rua comemorava que Lula estava matematicamente eleito:



Não sei se saberemos um dia a dimensão (se regional, nacional ou maior ainda) dos esquemas de persuasão alternativa de votos no governo, como este que Caco Barcellos flagrou. Imagino que somente Lula, o maior presidente da história brasileira, teria sido capaz de enfrentar algo desta natureza e enormidade, fruto da leniência estrutural das instituições com a direita no país.

Contra esse tipo de leniência, era importante dar visibilidade à oposição. Fiz o pouco que pude. Durante a campanha, todo dia eu saía com adesivos e/ou broches, andando a pé no Centro de São Paulo, ou pegando ônibus e metrô.




Não tive realmente incidentes por causa disso. Antes do primeiro turno, andava com meu esposo, um cara olhou-nos e disse "demônios". Antes do segundo, um jovem alto que parecia estar em situação de rua e alcoolizado acordou outro jovem que estava dormindo na rua, na minha frente, passou por mim, olhou e disse: "Sou Bolsonaro, seu cu", no mais puro estilo do filho vereador do candidato derrotado. Eu o olhei nos olhos. E seguiu adiante.

Certo dia, almoçava em um restaurante e um homem estava a dizer que Lula nunca poderia ter sido presidente porque tinha se aposentado por causa da mutilação do dedo, "um advogado" lhe contou. Sem ignorância, não há bolsonarismo. Ouvi aquilo e ri, dizendo que Lula provou que o dedo mindinho não era necessário para governar o país.

Os adesivos suscitaram muitas conversas e pedidos de adesivos (passei a andar com extras para dar). Panfletagem, porém, só fiz para a Vivian Mendes, da UP, que conseguiu mais de duzentos e oitenta mil votos sem aparecer no horário eleitoral.

Aqui também temos uma questão importante: faz parte do ódio classista, tão forte no Brasil, o deboche dos trabalhadores manuais mutilados. Esse deboche integra o catálogo de insultos contra Lula, mas na verdade é mais amplo e indica o ódio aos trabalhadores. Como se sabe, a ditadura militar (com seu soi-disant "milagre") não gerou uma enorme concentração de renda, prejudicando os trabalhadores; ela também alçou o Brasil a campeão mundial de acidentes do trabalho. Nesse campo também, a ditadura foi assassina.

Lula vem dessa época. Os zumbis que tentam dar sobrevida ao derrotado parecem ter sido transplantados diretamente desse tempo, em seu culto da morte, não apenas os militares que escolheram o derrotado como sua faceta mais pública, e tem, como instituição, milhares de esqueletos mal ocultados, entre eles os milhares de indígenas mortos e desaparecidos (8.350 para apenas dez etnias, segundo a Comissão Nacional da Verdade). Esses também não foram nomeados.

Lembrando do Mozart: aquele concerto é um dos raros deste compositor em tonalidade menor e tem uma força que se pode chamar de trágica. No entanto, também ele é uma afirmação da vida e da criação.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

"Desde quando governar foi algo mais do que comer carne humana?"




Os advogados da União
lograram impedir
que se chamasse o presidente de pedófilo

com várias liminares, e em nenhuma delas
encontrávamos um país.

"Não fui eu que matei, eu não conhecia a mulher, eu nem sabia do meu vizinho que a matou e da filha dele que namorou meu filho, nem da casa minha que ele visitou antes da execução!"

Os advogados da União
tinham se dedicado a impedir
que o presidente a dizer que tentara comer carne humana
não fosse ouvido a dizer que tentara comer carne humana,

eis que havia o risco jurídico de os eleitores do presidente
acreditarem no que ele diz.

"Eu já me preparava para a presidência! Desde quando governar foi algo mais do que comer carne humana? É por isso que não existe fome no país."

Os ministros da União correram para socorrer a campanha do presidente
alegando que as emissoras que não existiam mais
e aquelas que nunca existiram
deixaram de veicular propaganda do presidente,
razão pela qual deveriam ser fechadas
e obrigadas a distribuir a aludida propaganda.

"Eu não matei ninguém, eu só regulamentei o acesso às vias atmosféricas para quem preenchesse os requisitos."

Os ministros da União apressaram-se para auxiliar
os coordenadores da campanha do presidente
que balearam a polícia e jogaram bombas

limpas, honestas, completamente éticas
como todos os ralos da presidência.

"Por que não votam em mim, eu que levei água para salvar aquela gente dos rincões dos grotões daqueles locais de onde nada de bom poderia sair."

Os empresários da União financiaram
a compra de outro povo para o presidente
a ser entregue digitalmente durante os turnos das eleições

e, se necessário, de um fundo falso
em caminhão de carga internacional.

"Nesses merdas só atirando, esperem só eu aprender a destravar a arma, enquanto isso mando chutar, fazer feitiço, sei lá, vou arrebentar essa gente sem família e sem pudor, quero ver quem diz no pau-de-arara que não sou cristão."

Os promotores da União
não viram problema no fato de que o vídeo do atentado
já estava pronto na antevéspera dos tiros
uma vez que esses tristes eventos repetem-se amiúde na cidade.

"A justiça proibiu que digam que o assassino tem fotos e filmes comigo! Porque é mentira! A justiça proibiu também que divulguem as fotos e filmes do assassino comigo! Porque nosso compromisso é com a verdade, mas não com qualquer uma!"

Os médicos da União
receitaram o genocídio
para curar o país da infecção chamada povo

que insistia em respirar
apesar das vedações militares aos pulmões,
órgãos subversivos para a segurança nacional.

"Eu não escondi nada, em cem anos você vai saber quem eu comprei para comer no dia 13 de maio, em cem anos você vai saber quanto custou a maquiagem do pastor e quais são os preços da quimioterapia, a gente está numa democracia, todo mundo tem que ter paciência."

Os juízes da União
proibiram o país
eis que ele causava efeitos psicológicos negativos para o presidente,

criava inverdades e suposições 
de que o país realmente existisse
e não pudesse ser carregado na garupa da moto.

"Eu ando mesmo de jet-ski porque eu já disse que não matei aquela mulher nem fico mostrando minha hemorroida para qualquer um, assim você me ferra, não faz pergunta difícil, no quartel a gente corta a grama, não corta as cabeças, no país é diferente."

Os advogados da União
lograram pedir
que se chamasse o pedófilo de presidente

eis que a presidência
tão pequena
cabia dentro da medida liminar

pequena
ainda menor do que aquelas
que o coração do presidente
desejava depois dos tiros

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Fazer o L com Livros

A cadeia do livro envolve diversos trabalhadores. A ascensão da extrema-direita ao poder no Brasil prejudicou-a bastante, seja diminuindo as compras governamentais, seja arrasando os investimentos em cultura e educação, seja perseguindo os profissionais envolvidos.

Lembrem-se, por exemplo, dos ataques sofridos por Julián Fuks neste ano, que incluíram ameaça de morte (que faz parte do repertório de ação usual da direita no poder), por conta de uma de suas poéticas crônicas no Uol. Elogio o Uol, por sinal, por não ter abandonado o escritor, ao contrário da Deutsche Welle, que, em episódio semelhante sofrido por João Paulo Cuenca em 2020, cedeu às pressões bolsonaristas e rompeu o vínculo com o ficcionista, que depois sofreu assédio judicial.

Livros, já os carreguei, escrevi, revisei, traduzi, organizei, vendi. Um certo tipo de escória começou a falar mal dos trabalhadores de livro por conta de autores que resolveram "fazer o L" com suas obras, ou seja, anunciar o voto em Lula. Faz sentido que se declare voto no Partido dos Trabalhadores com seus instrumentos e/ou produtos de trabalho.

O próprio presidente Lula tem reforçado esta pauta na campanha:

Lembremos também que a extrema-direita brasileira, em seus esforços cognitivos, só tem conseguido identificar a cor da capa dos livros de seus autores preferidos, mas sem lograr decifrar ou lembrar dos títulos das obras. É verdade que nunca defenderam o direito à literatura.

Por essa razão, é interessante que as pessoas envolvidas com a produção de livros posicionem-se. No sábado, 22 de outubro de 2022, estive com Fabio Weintraub para ver uma feira de livros na Biblioteca Mário de Andrade; Cida Moreira apresentou-se no âmbito do evento com um repertório de mais de um século de música brasileira, incluindo modinhas imperiais. Fomos lá também porque a Editora Nós havia chamado para um ato de apoio a Lula do lado de fora da Biblioteca.


Não havia muita gente, de fato; falei com Fuks e Maria Rita Kehl. Fora de lá, no centro de São Paulo, no entanto, vi muito mais gente com adesivos ou bonés ou camisetas do PT do que em qualquer outro dia, afora os atos de campanha. Achei muito bom, pois continua bem vivo o medo de ser agredido ou morto por apoiar a oposição no Brasil. Trata-se do efeito da estratégia Sturmabteilung (a milícia nazi) que a extrema-direita brasileira copiou, na descentralização das funções de assédio e censura, que não precisam necessariamente ser assumidas pelas instituições do Estado pois os militantes do "líder" (traduzo do alemão) assumem-nas, seja com seus telefones celulares, seja com seus fuzis.

Todos os livros que escrevi e publiquei "fazem o L", gesto que significa não exatamente um compromisso com um partido específico ou com o presidente Lula, mas o necessário apoio à democracia no Brasil. Digo isso também das obras que não consegui publicar neste país, como este ensaio de 2009, "Para que servem os direitos humanos?". Gostaria de lembrar deste trecho:

Como sempre, cliquem na imagem para ampliá-la. Trata-se de uma das poucas referências no livro ao Brasil; eu a fiz como exemplo de uma cultura jurídica isolacionista (que me deu uma rasteira na semana passada, aliás) e contrária à dignidade humana que se fecha ao Direito Internacional dos Direitos Humanos, seja o ignorando, seja distorcendo sua aplicação. No caso, mencionei o papel do Poder Judiciário e do Ministério Público na violação da Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes. 

As duas instituições colaboraram ativamente na geração da atual crise no país. Esse tipo de provincianismo jurídico em prol dos crimes de lesa-humanidade foi eleito em 2018, logrou conferir mandatos políticos em 2022, porém deve perder no segundo turno das eleições de 2022.

O meu próximo livro, "Assassinato e ascensão do grande escritor (seguidos de antologia completa)" (nos dois últimos dias de campanha de financiamento coletivo), também "faz o L":


quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Campanha de vinte anos de poesia: Assassinato e ascensão do grande escritor

Em algum momento de 2022, completei vinte anos de estreia em livro. Provavelmente só consegui fazê-lo naquela ocasião, e com este volume, "O palco e o mundo", porque o editor era Vitor Silva Tavares. No Brasil, certamente não teria encontrado ninguém para publicar isto naquela época. Alberto Pimenta, sobre quem eu já tinha escrito, fez a intermediação com o Vitor e a apresentação, que muito me honrou. Eis a capa de Gunilla Lervik, no formato típico da editora &etc, o quadrado:



Em geral, os poetas são afoitos e têm que esconder a estreia depois, porém não tive esse problema: felizmente, só comecei a publicar aos 31 anos. Não me envergonho deste primeiro objeto incômodo (para outros; para mim, é divertido) que publiquei.

Triste que Vitor, que tinha esse tipo de coragem editorial de lançar autores estrangeiros inéditos e obscuros (além disso, como sempre, ele não ficava com nada dos direitos autorais), tenha morrido anos depois e a editora (que era uma extensão dele, como um braço, com que agarrava objetos perdidos e os jogava na cara do mercado literário português) tenha sido fechada.

O aniversário, é claro, não tem realmente importância; mas, como Fabio Weintraub está a completar 20 anos de lançamento do seminal "Novo endereço", tive a ideia de fazermos uma campanha conjunta. Daí saiu a campanha "Vinte : Dois":



Achamos que a efeméride, bem modesta em um ano de centenário da Semana de Arte Moderna e da criação do PCB, e do bicentenário da independência do país (que se consumou poeticamente na tentativa falhada do chefe de Estado de puxar um coro de "imbrochável"), justificou chamar os leitores a participar de uma campanha de financiamento coletivo destas edições especiais: https://benfeitoria.com/projeto/vintedois

A Editora Patuá, que já nos publicou antes, aceitou levar adiante a campanha. Já temos 103 subscritores: muito obrigado a vocês e aos que ajudaram na divulgação! Os livros terão que sair, mesmo que não atinjamos a meta: quem contribuir em muito ajuda a publicação. Ainda faltam oito dias, creio que chegaremos mais perto do que os atuais setenta e nove por cento.

A reedição de "Novo endereço" trará novo aparato crítico (além da apresentação original de Priscila Figueiredo, incluir-se-ão textos de Eduardo Sterzi e Gustavo Silveira Ribeiro) e materiais artísticos produzidos para esta edição (além da foto original de Mário Rui Feliciano, teremos arte de Fernando Vilela, Renato Moriconi e Ronaldo Polito). 

Lembro quando o li pela primeira vez, antes do evento de lançamento em São Paulo, a que não fui, por sinal. Morava no Rio de Janeiro, e foi a única vez em que perdi a estação em que iria descer no trem (Madureira), pois fiquei absorto lendo os poemas, que eram realmente algo novo na poesia brasileira.

Resolvi aproveitar o aniversário da estreia para lançar um livro novo que tenho concebido há, digamos, mais de duas décadas, e a que só agora, creio, tive a capacidade de dar forma: "Assassinato e ascensão do grande escritor (seguidos de antologia completa)". Claro que é a história de um crime; afinal, trata-se de poesia. 

Falando em crimes, Fabio mostrou-me que um imbecil, em alguma rede social de que não me recordo, sentenciou que uma campanha chamada "Vinte : Dois" só poderia ter sido criada por apoiadores do chefe de Estado que está a contemplar impávido a destruição dos biomas brasileiros e a violar abertamente o artigo 231 da Constituição da República, entre muitos outros problemas jurídicos e políticos, que demandam uma enciclopédia da abjeção.

Evidentemente, uma afirmação desse tipo teria que ancorar-se firmemente na ignorância completa do que Fabio e eu fazemos e escrevemos (meu livro sobre bolsonarismo, por sinal, foi publicado em 2019; termina com uma tentativa de fuga). É certo que o modelo de argumentação nas redes sociais (na verdade, a ética das redes) é o uso da própria ignorância como fonte de autoridade ("nunca vi...", "nunca li..." e daí tenta-se provar que o objeto da ignorância do sujeito não existe; não deixa de ser filosoficamente interessante). 

No entanto, eu já tinha publicado este vídeo, que mesmo pessoas com esse estilo mais ou menos suave de analfabetismo podem entender:




sexta-feira, 30 de setembro de 2022

13 discos vermelhos em busca de companhia



Comecei a participar dos #13DiscosVermelhos no twitter, mas interrompi quando começou o último debate dos candidatos à presidência da república. Nele, Jair Bolsonaro, embora reforçado por um auxiliar contrário à lei de cotas e favorável a fechar hospitais, e pelo auxiliar aparentemente vestido para festa junina, pareceu mais fraco do que nunca e fugiu do confronto com Lula.
Assisti ao pobre espetáculo, que acabou de madrugada. Cheguei a escrever, antes disso, que tinha escolhido a Floresta do Amazonas, odiada pelos bolsonaristas (refiro-me ao objeto da inspiração, claro, mas é possível que a música também não seja apreciada), para ficar em cima da pilha de discos por motivos óbvios. A permanência da floresta (embora alguns sustentem que se trata de um bioma já irremediavelmente condenado) é uma das questões que será decidida dia 2 de outubro, uma vez que o governo do candidato à reeleição foi e continua a ser, por motivos que me escapam, uma época alvissareira para o crime ambiental.
Começo, porém, da base: o disco dedicado a Alberto Ginastera, lá embaixo, foi escolhido não só por causa do gênio deste compositor (só escolhi música boa para a pilha, claro; por sinal, o time musical que apoia Lula é muito superior ao grupo que faz arminha), mas também porque foi censurado por uma das ditaduras militares da Argentina por causa da ópera Bomarzo. O disco que tenho da ópera não é vermelho, mas como o compositor vetou a execução de toda sua obra nessa época em reação à censura, achei que poderia começar deste da Orquestra de Lancy-Genève regida por Roberto Sawicki, que ainda toca o violino solo. Ditadura, censura, essas palavras me evocaram algo do presente brasileiro.
Por causa da Argentina, lembrei de Maria Callas, que odiou Buenos Aires quando lá cantou (1949) porque, segundo contou em carta ao marido, a cidade estava cheia de fascistas. De fato, ela não voltou mais àquele país de cujo clima ela também não gostou. O disco (selo Divina) com o que restou gravado da presença da artista na Argentina não é vermelho, por isso peguei este com gravações ao vivo no México, da mesma fase da carreira, com uma voz realmente incomparável. Fica bem na pilha porque é Callas e porque, de fato, não se deve gostar do fascismo.
Como não devemos gostar desses peculiares regimes políticos europeus do século XX, resolvi incluir compositores proibidos pelos nazistas, e um deles morto em campo de concentração (Schulhoff), por marxismo e/ou modernismo e/ou em razão do antissemitismo. Entram Kurt Weill e Ernst Toch (que se exilaram) e o Berg, que morreu de doença antes de ter toda sua obra banida. Em Lulu, por sinal, a ópera que escolhi para a pilha (completada por Friedrich Cerha décadas depois, pois Alban Berg morreu antes de terminar a orquestração do último ato), a crise do capitalismo e a quebra da bolsa de Nova Iorque estão bem no centro da história. Esta gravação, regida por Jeffrey Tate, parece-me muito bem cantada, a começar por Patricia Wise no difícil papel-título, passando por Peter Straka que logra atender à tessitura do Alwa, pela encarnação que Brigitte Fassbaender nos oferece com a lésbica Condessa Geschwitz e pelo veterano Hans Hotter como Schigolch. O disco da Ebony Band,regida por Werner Herbers, inclui o "oratório-jazz" de Schulhoff, "H.M.S. Royal Oak", com texto de Otto Rombach, que conta um episódio real: uma revolta de marinheiros por causa das más condições de trabalho e da proibição de ouvir jazz, um ritmo negro (que também seria proibido pelos nazistas). A revolta vence. Os fãs do atual ocupante da presidência também têm problemas com a negritude. A revolta vencerá.
O disco das trovadoras (trobairitz), na voz de Montserrat Figueras e o grupo Hespèrion XX (quando acabou o milênio passado, Jordi Savall atualizou o nome para Hespèrion XXI), entrou para lembrar das mulheres autoras, contra a misoginia que continua no poder: Condesa de Provenza Garsenda e grande Condesa de Dia. Quase toda essa música foi perdida, mas alguns poemas ficaram e foram cantados com melodia de outros músicos. Parece-me que os fãs do atual ocupante da presidência, fiéis ao ídolo, incomodam-se com esses assuntos e o protagonismo feminino.
Escolhi este disco do grupo da Quixabeira de Lagoa da Camisa, além da vibrante cultura dos trabalhadores rurais, por causa do canto no verso "Essa terra é minha" em "Eu não sou daqui". Por algum motivo, podemos desconfiar que os partidários do atual ocupante da presidência não gostam muito desses trabalhadores, e a escassa simpatia diminui ainda mais quando veem que eles se organizam. No entanto, por alguma razão, esses partidários não veem problemas nas reivindicações de terra se feitas por grileiros.
Taiguara, que era comunista, entrou por causa da censura que sofreu (creio que foi o compositor brasileiro mais censurado da época) e o obrigou a deixar o país. Este era o único disco com lombada vermelha dele que tenho e cobre as músicas anteriores a seus embates mais sérios com a censura, a época em que era conhecido principalmente como cantor romântico. Já está lá, porém, a emblemática "Hoje"
Esta apresentação ao vivo de Elis Regina em 1977 foi lançada originalmente pela gravadora Velas, anos depois da morte da grande cantora. Lembro que eu o ouvi pela primeira vez em um supermercado (esse tipo de estabelecimento vendia discos no século passado) e fiquei paralisado pela voz em "Travessia", de Milton Nascimento. O disco começa e termina com canções contra a ditadura: "Como nossos pais", de Belchior, e "Cartomante", de Ivan Lins (que era o dono da Velas, aliás) e Vitor Martins. Esta, na intepretação de Elis, foi muito relembrada neste fim de mandato de J. Bolsonaro: "Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros, cai o rei de paus, cai, não fica nada!"
O show "Direitos humanos no Banquete dos Mendigos" reuniu grandes nomes no MAM, Rio de Janeiro, em 1973. Tratava-se da comemoração dos 25 anos da Declaração Universal em um tempo, no Brasil, hostil à dignidade humana. Neste terceiro disco, o único vermelho, temos Milton Nascimento, Jards Macalé, Pedro dos Santos, Dominguinhos e Gal Costa. O poeta Ivan Junqueira fez uma leitura no fim dos artigos desta Declaração das Nações Unidas, texto não amado pelos partidários do atual ocupante da presidência. Tampouco esta organização internacional costuma despertar elogios dessas pessoas.
Da GaL, que foi fotografada fazendo o L várias vezes em 2022 e sempre foi de esquerda, escolhi ainda o "Estratosférica ao vivo", disco duplo recente que combina repertório novo e canções mais antigas, como esta pérola da época da ditadura, "Como 2 e 2", de Caetano Veloso (um ex-cirista que agora faz o L). Estes baianos não são nada apreciados pelos bolsominions, que ficaram muito irritados quando Gal alegremente dançou enquanto seu público demonstrava espontaneamente afetos em relação a J. Bolsonaro.
Em "Munduê", Diogo Nogueira (que honra em vários sentidos o nome do pai, o grande João Nogueira, e também faz o L) acentuou as raízes negras de sua música com os jongueiros do Quilombo de São José da Serra. Bolsonaristas também não gostam desse tipo de repertório (mesmo no belo timbre deste cantor) e até mostram-se capazes de votar em políticos que pesam gente em arrobas.
Esta gravação de "Floresta do Amazonas" foi o último disco gravado de Bidu Sayão, que estava aposentada, mas aceitou retornar aos estúdios a pedido do compositor, Villa-Lobos, que morreria pouco depois e fez nesse momento sua última gravação. É claro que os bolsonaristas não gostam desse tema, e provavelmente também não desta música. Há até gente da música clássica que votou 17 em 2018, mas foi por muita falta, além de consciência política, de consciência de classe.
A maioria do que selecionei foi música vocal. Deixo, então, para comentar por último um item puramente instrumental destes músicos brasileiros. O flautista Francisco Luz e o violonista Fabrício Ribeiro gravaram este disco de música de câmara, "Na solidão em busca de companhia", com música de Villa-Lobos, Radamés Gnattali, Edino Krieger e outros. Escolhi-o por causa da faixa título, de Harry Crowl (um de meus compositores favoritos de hoje), que remete a um poema de Auden. Sei que muita gente não gosta dos poemas de inspiração religiosa desse autor, mas creio que é possível apreciar a simplicidade deste exemplo lírico, e este verso, presente em dois tercetos, é essencialmente antibolsonarista: "Men of their neighbours become sensible".