O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Don Carlo no Municipal de São Paulo sem bots, pneus, detergentes e ETs

Don Carlo (em italiano) ou Don Carlos (em francês, a versão da estreia) de Verdi é uma ópera política: livremente inspirada pelo contexto histórico do Império Espanhol na época de Felipe II, a obra mostra o conflito entre Estado e religião, o liberalismo e o antigo regime, catolicismo e protestantismo, lutas por independência (somente na Europa: o colonialismo nas Américas aparece na ópera anterior de Verdi, La forza del destino), com um trio amoroso que envolve incesto (o baixo, pai do tenor, casa com a soprano, embora tenor e soprano estejam apaixonados um pelo outro) e que, no fundo, é um quadrilha no sentido drummondiano: a meio-soprano e o barítono também amam o tenor: ela decide ir para o convento depois de trair a rainha, mas antes põe em prática um plano de sublevação popular para que Carlo consiga fugir da prisão; ele sacrifica a própria vida para libertar o príncipe com documentos que atraíam para si a responsabilidade pelo movimento contra o domínio espanhol em Flandres (Roger Parker, por sinal, escreveu como o amor de Posa por Carlo, que pode passar por fraternal, está inscrito na harmonia na primeira ária da prisão). Dito isso, Carlo não é realmente o personagem principal, ou aquele para quem Verdi escreveu as melhores árias.

Por coincidência, alguns desse temas guardam muita pertinência a esta vergonhosa campanha eleitoral no Brasil, em que concorre o filho do golpista preso, com a aliança visceral de autoridades neopentecostais com o bolsonarismo e os seus financiadores, alguns deles agora encarcerados, como o "irmão" de Flavio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro (vejam ou revejam Revelando: Grandes Empresas, Master Negócios). No entanto, se alguém fosse escrever uma ópera sobre isto, teria que ser uma tragicomédia, ou uma opereta como as de Offenbach: o tom sério como Don Carlo parece não combinar com o ridículo estético, político e moral do bolsonarismo. Em comum com a ópera de Verdi, teria que haver uma cena de auto da fé, mas com pneus (objeto de culto, mas também como instrumentos de execução), celulares chamando ETs, brindes com detergente, e a "voz celestial" para os mortos teria que contar com um coro de setecentos mil cantores. Somente a música eletrônica daria conta, bem como dos bots usados pela extrema-direita internacional, a Internacional Fascista, que tem F. Bolsonaro como candidato (assim como os teocratas neopentecostais), para interferir nas eleições da América do Sul. 

Nada da atualidade, portanto, aparece na montagem que o Theatro Municipal de São Paulo recentemente produziu. Eu a vi no dia 23 de setembro: ao contrário do desastre cênico de Tristão e Isolda, apesar de visivelmente ter sido feita com pouco dinheiro, havia uma direção de atores. Caetano Vilela, o diretor cênico, conseguiu contar a história. Pelo que a Folha de S.Paulo contou, parece que a ópera teve que ser montada para evitar multas por rompimentos contratuais. Outros espetáculos foram cancelados pela atual pessoa jurídica que comanda o Theatro, entre eles a ópera Andrea Chenier e o que era o momento mais esperado da temporada, a nova obra de Jocy de Oliveira, Medea e o direito de ser dfierente, que seria montada em programa duplo com um compositor com quem ela trabalhou: ninguém menos do que Stravinsky e o seu Édipo Rei. A compositora nem foi avisada previamente pelo Instituto Baccarelli da decisão; foi um "equívoco lamentável", escreveu Nelson Kunze para a Revista Concerto. Leiam ou releiam a carta aberta de Jocy de Oliveira, que completou 90 anos e merece mais respeito: https://www.instagram.com/p/DcZOL7ZCRd4/

Ubiratan Brasil, na Folha de S.Paulo, em 17 de setembro, criticou de maneira estranha a orquestra do teatro, antes mesmo da estreia, escrevendo que ela, "sob a regência de Roberto Minczuk, ganhou reforço do Coro Lírico Municipal, cuja presença nos quatro atos acentua a dramticidade" (são cinco atos, mas o coro só canta em quatro). Claro que não: a parte do coro já estava escrito por Verdi, ele não apareceu para "reforçar" a oequestra e encobrir as eventuais falhas dos instrumentistas. Também foi isso, contudo: o coro esteve ótimo, especialmente na cena do auto da fé. Mas a regência de Roberto Minczuk, não muito inspirada pela música de Verdi, negou fogo: por exemplo, na parte final de "O don fatale", ária de Eboli, em que a personagem tem a ideia, no dia que lhe resta, de resgatar o príncipe da prisão, não houve a necessária mudança de clima após a parte central, lamentosa, em que a personagem decide ir para um convento. Ana Lúcia Benedetti teve que fazer o trabalho sem apoio da regência, que parecia puxar para trás o tempo. Mesmo assim, recebeu uma ovação do público.

No Municipal do Rio de Janeiro, em 1998, vi Don Carlo com grandes artistas, que estiveram à altura de sua reputação: James Morris interpretando Filippo II, Leona Mitchell como Elisabetta e Giovana Casolla no papel de Eboli. Mas o elenco de 2026 foi o elenco mais homogêneo que vi, sem nenhum ponto fraco, bem diferente da lamentável montagem de 2004 no Municipal de São Paulo. Pena que só consegui ver um dos elencos. Atalla Ayan, imagino, ainda vai crescer dentro do papel título, para o qual ele tem a voz certa: no segundo dueto com a Rainha, por exemplo, ele não fez contraste entre o tom formal do início ("Io vengo a domandar grazia alla mia Regina") e o desabafo de "Quest'aura m'è fatale". A interpretação não teve profundidade e o artista ainda não é realmente um bom ator. A voz possui a robustez necessária para este Verdi: o si agudo do desafio ao Imperador na cena do auto da fé soou realmente desafiador; fiquei imaginando-o em outro papel de tenor spinto, La forza del destino; certamente ele teria se dado muito bem no Chenier que o Municipal cancelou. No dueto final, ele e Aylin Pérez foram sublimes. 

Pérez é uma grande artista: ela não é uma soprano falcon, porém canta belamente o papel (a frase "La pace dell'avel", da última ária, claro, é grave demais para ela, que sabiamente apenas marcou as notas nesse ponto). Sua réplica a Carlo no final de "Io vengo a domandar grazia" foi realmente imperial. Pena que foi cortada metade de sua primeira ária, "Non pianger, mia compagna", em que ela mostrou a beleza de seu agudo piano. 

Esse foi um problema geral: montaram um Don Carlo em cinco atos, em vez de quatro (também uma versão do próprio compositor), no entanto, com cortes: além dessa ária da Elisabetta, foram cortadas pela metade as árias "Nel giardin del bello", da Eboli, e "Carlo ch'è sol il nostro amore", de Posa (no libreto vendido no saguão, os textos foram impressos integralmente). Uma pena, pois ambos teriam cantado muito bem: Benedetti e Paulo Szot foram muito aplaudidos, com justiça. No plano cênico, Szot talvez tenha sido o melhor dos artistas, especialmente no complexo dueto com o rei, em que apresentou suas reivindicações de liberdade contra a "paz dos sepulcros". O trecho "Inaspettata aurora in ciel appar", que pode fazer os barítinos sofrerem ao vivo, foi muito bem cantado. Pena que Szot compartilhe com Aylan a ausência de trinados.

Robert Craft contou no seu Diário (publicado no Brasil pela Difel) como foi ver uma apresentação de Don Carlo com Stravinsky: o gênio russo entusiasmou-se com a obra de Verdi: "Era seu o autêntico espírito de libertà, e ele, não Wagner, foi o verdadeiro progressista, não o Verdi do Risorgimento e do Parlamento de Cavour, mas o compositor do dueto de Don Carlos, que é tão mais palatável do que aquela música Blütbruderschaft, que pessoas gordas, com capacetes de chifres e capas de pele, ficam horas uivando umas para as outras." 

Stravinsky referia-se pouco sutilmente a Wagner e sua música interminável de irmandade de sangue em alemão. Os duetos, em Verdi, são mais ágeis e fazem a história avançar: o confronto entre Abigail e Nabucco, entre Violetta Valéry e Giorgio Germont, Aida e Amonasro, Iago e Otello, Falstaff e Ford... O poder dialógico da música de Verdi apoiava-se no seu poder de caracterizar e diferenciar os personagens musicalmente. Don Carlo é cheio deles; provavelmente Stravinsky referia-se ao dueto que Craft antes menciona, entre o Rei e o Grande Inquisidor, duas vozes de baixo, lamentando que o cantor que cantou esse último fosse fraco.

Ocorreu algo bem diferente no Municipal de São Paulo: Solomon Howard, o Inquisidor deste elenco, tinha a voz mais volumosa do palco e, como é para acontecer, dominou o rei, interpretado por Luiz-Ottavio Faria, no enfrentamento dos personagens no quarto ato, talvez o ponto mais alto da obra, e uma das maiores cenas de todas as óperas. Não uma das mais longas, ressalte-se: no estranho texto de Ubiratan Brasil que mencionei antes, ele acusou o dueto de durar "40 minutos". Em geral, não dura nem dez. a primeira gravação integral da ópera em estúdio, em quatro atos, em 1954, a do regente Gabriele Santini com os baixos Boris Cristoff e Giulio Neri, durou nove minutos e quinze segundos, o mesmo que a primeira gravação em cinco atos, a de Georg Solti, com Nicolai Ghiaurov e Martti Talvela (1965). Décadas depois, em 1996, Bernard Haitink, na gravação da ópera com os baixos Roberto Scandiuzzi e Robert Lloyd, gravou a cena em 9 minutos e dez segundos, a mesma duração da gravação de Karajan com Nicolai Ghiaurov e Ruggero Raimondi (1978); Antonio Pappano, com José van Dam e Eric Halfvarson, 9 minutos e 30 segundos (1996).

Poderia citar outras, inclsuive ao vivo, que seguem o mesmo padrão. Certamente ninguém na história da ópera ousou executar Verdi demorando quatro vezes mais tempo nesse trecho, os músicos (cantores e instrumentistas) fisicamente não conseguiriam. Minczuk não o fez e jamais teria cometido algo assim, grotesco.

Esse dueto, em que se enfrentam Igreja e Estado, termina com a famosa frase de duas oitavas, de fá agudo a fá grave, em que Filippo queixa-se de que o trono deverá sempre dobrar-se ao altar. Luiz Ottavio Faria, claro, esteve à altura desses desafios do papel e da ária que precede o dueto, "Ella giammai m'amò". Sua interpretação deu um toque melancólico bem pessoal para o rei.

Savio Sperandio, Filippo II no elenco par, cantou esplendidamente o Frade/Carlo Quinto no elenco ímpar. Foi um prazer para quem aprecia essa categoria vocal, ver e ouvir tantos baixos excelentes, o que inspirou este vídeo divertido com os cinco desta produção: https://www.instagram.com/p/DdRTBABzHWA/. 

sábado, 26 de setembro de 2026

Alguns oram às milícias; outros, à Nossa Senhora Aparecida


Corpos em pneus
pneus em chamas
chamas em preces
por mais incêndios
assim milicianos fazem desaparecer

Depois de setecentos mil mortos
chegou a vez de Nossa Senhora Aparecida

Corpos em cinzas
cinzas em votos
votos no país
de desaparecidos
assim milicianos fazem política

Botas nas gargantas
chegaram à voz de Nossa Senhora Aparecida

Protejamos as Águas
do mercúrio e do
data center
do latifúndio e da milícia
elas não cabem nas lagoas mínimas
dos brindes ao crime
que pastores e juízes
derramam em campanhas eleitorais

Protejamos a Senhora
ela é Nossa
não dos ianques
ídolos dos que vendem o país
traficando o corpo de mulheres negras

Milicianos brindam e quebram taças
querem catar os cacos
acham que se os enfiarem nas gargantas
das orações à Nossa Senhora Aparecida
finalmente transformarão a hemorragia
em hino nacional

Mas estão embriagados
cairão sobre os cacos

o vermelho de seu sangue
imprestável para a aurora

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Coragem e memória: Amelinha Teles (1944-2026)

Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha, era genial. Eu a vi pessoalmente pela primeira vez no lançamento de O que resta da ditadura, em 2010, uma obra coletiva organizada por Edson Teles e Vladimir Safatle com capítulos de, entre outros autores, seus dois filhos, Edson e Janaína (dois dos maiores especialistas na questão), porém não dela mesma.


Ela, porém, era a escritora mais prolífica da família. Vi de perto essa vocação quatro anos depois, quando a conheci na Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva", presidida por Adriano Diogo. Ela entrou como assessora, criou um plano de trabalho e terminou coordenadora da Comissão, que foi a primeira criada no país.

Além de planejar as atividades, coordenar audiências públicas, convidar testemunhas e depoentes, supervisionar os trabalhos, ela escreveu boa parte do relatório. Eu sempre fiquei impressionado com sua capacidade de trabalho. Amelinha pertencia à geração que viveu a ditadura militar desde o início, 1964, ano em que seu pai e ela mesma foram presos (por isso, dizia que não era da "geração 1968").

A Comissão "Rubens Paiva" era, em alguns sentidos, o contrário da Comissão Nacional pois sua equipe incluía ex-presos políticos: ela e Ivan Seixas, além de Adriano Diogo na presidência: pessoas que não haviam parado de militar depois da ditadura.

Ela foi homenageada diversas vezes durante a vida; assisti à cerimônia de seu título de Doutora Honoris Causa, outorgado pela Unifesp em 2023, o mérito legislativo entregue pela deputada estadual Isa Penna na Alesp no mesmo ano; um inventário de honrarias seria extenso: recebeu a medalha Pedro Ernesto pela então vereadora Luciana Boiteux, do Rio de Janeiro, foi homenageada na Câmara em São Paulo etc.

Muitas eram as razões para homenagem, porque várias eram as batalhas de Amelinha e grande a sua coragem. Ela engajou-se na luta pela anistia, na luta pelas creches, nas Diretas Já, na campanha pela Constituinte, na imprensa feminista, tudo isso ainda durante a ditadura militar, depois de ter saído da prisão em 1973. Ela foi uma das fundadoras da União das Mulheres de São Paulo e da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Pollíticos, bem como do projeto Promotoras Legais Populares, em que ela continuava a lecionar. 

Toda sua militância respeitava a transversalidade das questões de gênero. Ela militou indo agir e falar com as mulheres, especialmente nas periferias (ela se considerava periférica, por sinal). 

Ela não foi guerrilheira, ao contrário do que afirmam matérias equivocadas sobre sua morte publicadas pelo ICL e pelo Brasil De Fato (eu a vi lembrar algumas vezes que sua irmã, Criméia, é que foi guerrilheira no Araguaia; Amelinha era da imprensa do partido). Dito isso, ela conheceu várias guerrilheiras e escreveu, com Rosalina Santa Cruz, este livro de 2013, Da guerrilha à imprensa feminista: a construção do feminismo pós-luta armada no Brasil (1975-1980), em que temos uma espécie de biografia de uma geração de mulheres militantes.

Como sempre, a memória das lutas contra a ditadura convocada por Amelinha servia de orientação para o futuro: para a Comissão Nacional da Verdade, claro, e para a criação de grupos autônomos de mulheres dentro da compreensão de que o feminismo deve ser "anticapitalista, antirracista, anti-homofóbico/lesbofóbico, ampliando as articulações políticas, solidárias e integradas de todos os segmentos oprimidos no campo nacional e internacional":


Memória, verdade e justiça. Ela foi fundamental para o pouco de jusitça de transição que o país conseguiu alcançar. Um dos focos de tensão com a Comissão Nacional da Verdade, ela mesma contou diversas vezes, foi tentar convencer a CNV da importância da pesquisa sobre ditadura e gênero, que, inicialmente, não estava na pauta da Comissão Nacional. O tema das crianças, tampouco, e a Comissão "Rubens Paiva" abordou ambos. O clássico livro Infância roubada: crianças atingidas pela ditadura não teria existido sem Amelinha.
Em 1993, ela publicou a Breve história do feminismo no Brasil; não tenho essa edição, mas a de 2017, que foi ampliada com ensaios mais novos.


O assunto "mulher", como ela explica, era proibido: quando se tratava de temas como parto, desquite, trabalho, a censura entrava em ação:


O livro acabou no dia do lançamento, realizado na União de Mulheres. Poucas vezes vi uma fila tão grande para um autor (maior do que a dela, lembro apenas de uma de Adélia Prado). Quem chegou depois, ficou sem exemplar. Amelinha autografou em uma mesa coberta por uma toalha do MST:



Ela escreveu em 2023 um livro sobre feminismo para jovens, Feminismos: Ações e histórias de mulheres (eu a gravei falando da obra no lançamento): 



É um livro fascinante, encomendado e recusado por uma grande editora que hoje vive do passado, em que ela dá conta da pluralidade do feminismo e de suas práticas. Amelinha não tinha um espírito dogmático.
Amelinha escreveu muito mais coisas. Quero lembrar ainda nesta nota só do último livro que publicou. Ele se destaca por ser a única obra de ficção e a única escrita para crianças:


Contos da cela três é fortemente enraizado na biografia da autora: Amelinha esteve nessa cela, a Lagartixa que é personagem existia na prisão e, principalmente, as histórias do livro foram escritas enquanto ela esteve presa. Ela o fez para divertir e consolar os colegas de prisão. É significativo que o seu livro que está mais próximo da autobiografia (não é, porém) tenha sido, na verdade, criado para confortar os outros, e não como exercício de autorreferência. O livro gerou uma resposta muito positiva nas escolas, o que deu uma grande alegria para a autora, que descobriu que a ficção chega a lugares que ela ainda não havia frequentado.

Em 2026, o livro foi lançado novamente no Instituto de Psicologia da USP, em evento que a psicóloga Bruna Borba, que a entrevistou para sua tese de doutorado, ajudou a organizar.

Janaína, Amelinha e Criméia no Instituto de Psicologia da USP.

Embora se trata de ficção, o livro fo fortemente inspirado em dados reais. Pois ela foi uma presa política e ficou na "cela três". 

Trata-se do que as matérias sobre Amelinha mais lembraram: ela e o marido César Augusto Teles (falecido em 2015) faziam o jornal clandestino do PCdoB. Foram sequestrados pela equipe do DOI-Codi/SP, liderada por Carlos Alberto Brilhante Ustra, em 28 de dezembro de 1972. Também o foi Carlos Nicolau Danielli, dirigente do Partido cuja tortura e assassinato eles testemunharam e denunciaram. No dia seguinte, levaram a irmã, Criméia Alice Schmidt de Almeida (que foi torturada grávida e teve seu filho, João Carlos, enquanto estava presa) e os dois filhos, Janaína e Edson, com 5 e 4 anos, respectivamente, que tiveram de ver os pais torturados.

Contei essa história e a do processo que a família propôs contra Brilhante Ustra, o "escritor" preferido dos bolsonaristas, no livro Ilícito absoluto: a família Almeida Teles, o coronel C. A. Brilhante Ustra e a tortura, publicado pela Patuá em 2023.

Amelinha Teles, Carla Osmo, Crimeia Almeida
e o autor na Livraria Patuscada.

Adriano Diogo, Criméia Almeida, Amelinha Teles, o autor,
Janaina Teles e Carla Osmo na Casa das Rosas.

Sua história durante a ditadura militar é pungente. Não obstante, de forma alguma ela se restringiu a denunciar o que aconteceu com sua família. Amelinha passou a maior parte de sua vida procurando desaparecidos políticos, como falou em 16 de abril de 2025 no evento na Reitoria da Unifesp sobre a identificação, após o trabalho do CAAF, de Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva, que haviam sido ocultados na Vala de Perus, uma das maiores provas dos crimes da ditadura militar. Nessa ocasião, ela cobrou, na presença da presidenta de Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (Eugênia Gonzaga), a análise dos remanescentes ósseos que podem pertencer a guerrilheiros do Araguaia e estão parados há anos na Universidade de Brasília. 

O próprio Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp, que ainda é único no país (coordenado hoje por Joana Barros e Edson Teles), foi criado com a missão inicial de identificar os remanescentes ósseos da Vala de Perus, a partir de articulação de Amelinha (por sugestão de Adriano Diogo) com Eleonora Menicucci (então Ministra das Mulheres), que envolveu a Presidenta da República Dilma Rousseff e a Reitora da Unifesp Soraya Smaili.

O Memorial da Vala de Perus, uma reivindicação do movimento de familiares e da comunidade de Perus, foi também pauta de Amelinha diversas vezes: aqui, nós a vemos no aniversário de 34 anos de abertura da Vala ao lado de Aline Oliveira do CAAF: https://youtu.be/240NeqBfGU0?si=2RdEECT08GMmpA5V

Ela conhecia profundamente a questão: muito antes da criação do CAAF em 2014, ela trabalhou na Prefeitura de Luiz Erundina na investigação sobre a Vala, que foi aberta no governo da primeira mulher Prefeita de São Paulo.

Inês Etienne Romeu, Luiza Erundina e Amelinha.
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Na idade das trevas do bolsonarismo na presidência da república, Amelinha não deixou de destacar como a questão dos desaparecidos tinha sua atualidade reforçada pelo hoje presidiário, cujo filho atualmente candidato à presidência quer indultar o pai e os outros criminosos que tentaram dar um golpe de Estado no 8 de janeiro de 2023. Em Seminário sobre a Lei de Anistia em 2019, ela bem comentou: "Quem é que traz o tema à pauta o tempo todo? É esse presidente que está aí. Primeiro que o guru dele é o Ustra. Depois ele fala que Fernando Santa Cruz, ele sabe como é que foi morto". Fernando Augusto de Santa Cruz, irmão de Rosalina Santa Cruz (outra ex-presa política), continua desaparecido.

Na campanha de 2018, ela e Janaína de Almeida Teles gravaram um depoimento para o programa de Fernando Haddad, candidato do PT à Presidência da República, quando Lula foi impedido de candidatar-se dentro da conspiração pós-golpe de 2016. Elas falavam do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra e da tortura. Não só ambas foram ameaçadas por bolsonaristas e foram alvo de fake news, como o vídeo foi censurado pela Justiça Eleitoral. Amelinha era corajosa. 

Seu falecimento gerou notícias de veículos tão diferentes quanto o G1, TVT, a Veja, Opera Mundi, Marie Claire, Correio Braziliense, SBT, da EBC... Destaco a manifestação da Associação Brasileira de Imprensa, que transcreveu no final a nota autobiográfica que aparece em Contas da cela três: https://www.abi.org.br/amelinha-teles-uma-vida-contra-o-esquecimento/

As manifestações de políticos vieram da esquerda, inclusive Dilma Rousseff no Instagram. Ela detinha o dom do diálogo e não o exercia somente com quem pensava como ela: nesse sentido, foi uma das pessoas mais políticas que conheci, embora nunca tivesse desejado entrar no sistema político formal. 

Outra característica era sua integridade: explicava que a força dos familiares de mortos e desaparecidos era dizer a verdade: o Dossiê Ditadura (1964-1985), obra que serviu de base para a Comissão Nacional da Verdade, nunca foi desmentido porque partia dessa integridade do movimento dos familiares. Era também uma característica pessoal dela.

Prefiro terminar lembrando da sua impressionante memória: ela carregava consigo os momentos históricos por que passou. O quanto perdemos, agora que não podemos mais ouvi-la?

Amelinha nunca abandonou suas lutas. No enterro de Grenaldo de Jesus Silva em 26 de junho de 2026, ela rememorou as companheiras: "quantas mães que a gente encontrou aqui, conheceu, e que lutaram com a gente, porque perderam seus filhos, suas filhas, então é um momento de gratidão [...] se essas pessoas não tivessem existido, nós não chegávamos aqui, se não tivessem lutado e resistido". 

Essas palavras hoje, nós a devolvemos para ela, com sua coragem e memória.

domingo, 13 de setembro de 2026

Não me sepulte antes da morte

Não me sepulte antes da morte,
é inútil;
o sopro continua
e pode mover a terra.

Adie o réquiem para depois do fim,
esta música para ser vivida 
com olhos fechados.
Os meus estão abertos.

Não chore a perda ainda,
enquanto as mãos podem ser dadas
elas não ficarão vazias.

Sei: o preparo da alma
é mais pesado do que o do corpo.

Não sucumba ao peso.
A alma se ergue
por seus próprios meios,
o ar sujeito a terremotos.

Não me sepulte antes da morte,
o sopro continuará
e sobre ele, nova terra,
os seus passos futuros.


terça-feira, 1 de setembro de 2026

Eventos na Bienal do Livro de São Paulo: "Quem tem medo da liberdade?" e autógrafos para "Ilícito absoluto"

 



Participarei com Juliana Monteiro, Maria Fernanda Maglio e Vilmar Debona da programação da Editora Patuá na 28a Bienal do Livro de São Paulo, que ocorrerá no Distrito Anhembi. 
No sábado, dia 5 de setembro de 2026, das 10 às 12 horas, estaremos no bate-papo "Quem tem medo da liberdade? Literatura, conservadorismo e os conflitos morais do nosso tempo na literatura".
Esta é a descrição do evento:

Uma conversa sobre como a literatura enfrenta, registra e tensiona os conflitos morais do nosso tempo. Liberdade, conservadorismo, gênero, sexualidade, desigualdade, violência e os limites impostos às diferentes formas de existir atravessam obras e experiências dos quatro participantes.

Faço notar que o bate-papo ocorre um dia depois do aniversário de 36 anos da abertura da Vala de Perus, vala clandestina no Cemitério Dom Bosco, em São Paulo, onde a ditadura militar ocultou mais de mil corpos. Até hoje, só uma parcela mínima desses desaparecidos foi identiifcada, e o governo de Jailed Bolsonaro conseguiu paralisar os trabalhos de identificação, que passaram pela Unicamp, pela USP, pela UFMG, mas só conseguiram avançar com o CAAF (Centro de Antropologia e Arqueologia Forense) da Unifesp.

Falando nos desaparecidos da ditadura, ainda no dia 5 de junho, logo depois do bate-papo, às quatorze horas, darei autógrafos para o Ilícito absoluto, meu livro sobre o reconhecimento judicial de Carlos Alberto Brilhante Ustra como torturador da família Almeida Teles.



Este livro de não-ficção trata, evidentemente, de violência, cosnervadorismo, liberdade e gênero, mas também da literatura de ficção que aborda esses assuntos: entre as fontes que consultei, estão livros de Vilma Arêas e Roberto Bolaño.

As atividades ocorrerão no estande K45, da Patuá. 

Vejam como chegar: https://www.bienaldolivrosp.com.br/pt-br/visitar.html


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Ditaduras e responsabilização de empresas: Chamada de artigos e resumos para o XI Seminário do IPDMS




Em João Pessoa, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), será realizado o  XI Seminário do Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais (IPDMS), “Venas abiertas: pesquisas e insurgências na América Latina”, entre 11 e 14 de novembro de 2026. O evento ocorrerá concomitantemente com o Encontro Nacional da Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares – RENAP e Encontro Nacional das Assessorias Jurídicas Universitárias – ERENAJU. Haverá programação em comum, que está sendo construída. Acompanhem as notícias na página do evento, local onde copiei a imagem acima: https://www.ipdms.org.br/xi-sn-ipdms/

Coordenarei com a bistoriadora e integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos Janaina de Almeida Teles e o cientista politico Bruno Boti Bernardi um Grupo de Discussão sobre ditaduras e responsabilização de empresas. Estamos esperando artigos e resumos expandidos sobre o tema até 23 de agosto 8 de setembro, último dia do prazo.

As regras para a elaboração dos textos podem ser lidas através desta ligação: https://www.ipdms.org.br/xi-sn-ipdms/xi-sn-trabalhos/

O IPDMS continua a ser um local de encontro único de diferentes saberes: acadêmicos (da Sociologia, da História, da Antropologia, da Filosofia e outros campos, até do Direito) e não acadêmicos, em conjunto com os militantes e os movimentos sociais. Trata-se de saberes que caminham rente à militância e à ação. 

O Grupo de Discussão que propomos diz respeito a uma frente nova no campo da justiça de transição e que lida com as lutas dos trabalhadores, com os direitos e territorialidades de povos indígenas e comunidades tradicionais, bem como com garantias socioambientais. Esperamos que os artigos e resumos que chegarão suscitem caminhos novos para a teoria e para os movimentos.


GD 6 – Ditaduras e empresas: a responsabilização por graves violações de direitos humanos

Ementa

A responsabilização de empresas por graves violações de direitos humanos e sua aliança com ditaduras, especialmente na América Latina, é um campo novo da justiça de transição.

No Brasil, o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), finalizado em 2014, não considerou a responsabilidade empresarial ao longo deste período. Na Argentina, o Nunca más (1984), relatório da Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas (CONADEP), tampouco o tinha feito, por ter se concentrado nas violações aos direitos civis e políticos.

A cumplicidade empresarial em graves violações de direitos humanos é um tema que tem ganhado destaque neste século: no Direito Internacional, sua iniciativa vem de movimentos, organizações não governamentais e a Organização das Nações Unidas a partir de instrumentos de soft law (Osiel, 2014). No campo da justiça de transição, ele é mais recente ainda. A Colômbia foi o primeiro país que decidiu em acordo de paz “integrar actores económicos en el componente de justicia penal de la justicia transicional” (Michalowski, 2022, p. 96).

Na Argentina, se houve uma “aliança repressiva” entre empresas e ditadura que enseja falarmos de “responsabilidade”, e não simples “cumplicidade” das empresas na repressão aos trabalhadores (Secretaría de Derechos Humanos de la Nación, Centro de Estudios Legales y Sociales y Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales, 2022, p. 66), a responsabilização no campo da justiça de transição não foi ainda realizada.

No Brasil, um passo adiante foi dado com um projeto do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (CAAF/Unifesp), que coordenou diversas equipes. O financiamento veio do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Volkswagen, em razão do Inquérito Civil nº 1.34.001.006706/2015-26, que investigava a colaboração da empresa citada com a ditadura militar no Brasil. O projeto publicou em 2023 um primeiro Informe sobre dez empresas (Teles, Osmo, Calazans, 2023).

Perspectivas teóricas

A discussão partirá das concepções de justiça de transição que destacam a importância dos direitos econômicos, sociais e culturais, como de Kora Andrieu (2012), superando o paradigma liberal, centrado em direitos civis e políticos.

Outro pressuposto teórico é o da importância das iniciativas de “baixo para cima”, ou seja, dos movimentos sociais e da sociedade civil para a justiça de transição, também no campo da responsabilidade empresarial, como destacaram Payne, Pereira e Bernal-Bermúdez (2020).

A literatura latinoamericana sobre a cumplicidade das empresas com ditadura na América Latina será destacada, como é exemplo o trabalho de Victoria Basualdo (2021; Basualdo et al, 2016)

Além disso, a violação de direitos dos povos originários e comunidades tradicionais, bem como direitos socioambientais está incorporada teoricamente ao escopo do Grupo de Discussão e ás concepções de direitos humanos envolvidas, tendo em vista a atuação de empresas como a Petrobras, que afetou direitos territoriais daqueles povos e gerou degradação ambiental (Teles, Fernandes, Bernardi, 2024)

Referências bibliográficas

ANDRIEU, Kora. La justice transitionnelle. Paris: Gallimard, 2012.

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BASUALDO, Victoria et al. Responsabilidad empresarial en delitos de lesa humanidad: represión a trabajadores durante el terrorismo de Estado. Posadas : EDUNAM - Editorial Universitaria de la Universidad Nacional de Misiones ; Posadas : EdUNaM ; Ciudad Autónoma de Buenos Aires : Centro de Estudios Legales y Sociales ; Ciudad Autónoma de Buenos Aires : Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales, 2016.

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MICHALOWSKI, Sabine et al. Estándares internacionales y lecciones de la experiencia internacional para la responsabilidad de los actores económicos por su participación en conflictos armados. In: SECRETARIA DE DERECHOS HUMANOS DE LA NACIÓN. Repertorios : perspectivas y debates en clave de Derechos Humanos : 3- Responsabilidad Civil en delitos de lesa humanidad. Ciudad Autónoma de Buenos Aires : Ministerio de Justicia y Derechos Humanos de la Nación, pp.95-116, 2022.

SECRETARÍA DE DERECHOS HUMANOS DE LA NACIÓN, CENTRO DE ESTUDIOS LEGALES Y SOCIALES Y FACULTAD LATINOAMERICANA DE CIENCIAS SOCIALES. Conclusiones del informen Responsabilidad empresarial en delitos de lesa humanidad. In: Secretaria de Derechos Humanos de la Nación Repertorios : perspectivas y debates en clave de Derechos Humanos : 3- Responsabilidad Civil en delitos de lesa humanidad / 1a ed. - Ciudad Autónoma de Buenos Aires : Ministerio de Justicia y Derechos Humanos de la Nación, p. 65-93, 2022.

OSIEL, Mark. The Uncertain Place of Purge Within Transitional Justice, and the Limitations of International Law in the World’s Response to Mass Atrocity. In: ISRAËL, Liora; MOURALIS, Guillaume (ed.) Dealing with Wars and Dictatorships: Legal Concepts and Categories in Action. The Hague: Asser Press, pp. 253-269, 2014.

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P.S.: Foram muitos os pedidos e o prazo foi ampliado; transcrevo a mensagem da organização: 

🚨 PRAZO PRORROGADO! 🚨

As submissões de Oficinas, Mini Cursos e Apresentação de Trabalhos do XI Seminário Nacional do IPDMS vão até 08/09 ✍️

📤 Envie pelo site oficial do evento — https://ipdms.org.br/xi-sn-ipdms/xi-sn-trabalhos/ 🔗

📅 Evento: 11 a 14/11 • UFPB • João Pessoa/PB

Não fique de fora. Submeta seu trabalho! ✊

#XI SNIPDMS #IPDMS #RENAP #RENAJU #DireitosHumanos #MovimentosSociais

https://www.instagram.com/p/DcWsi_7hyjD/?igsi=amhhN2s4dno5Z3Rt