O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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domingo, 4 de maio de 2025

Inanição, mudez e o inarticulado: Escrevo seu nome no arroz, de Caetano Romão

Nós que lemos Um nome inteiro disposto à montaria (7 Letras, 2021), poemas que formam uma história de amor entre dois homens, imaginávamos que Caetano Romão poderia escrever um romance. Quem ler Escrevo seu nome no arroz (Fósforo, 2025) logo perceberá que é obra de um poeta, pelo que faz com o estilo ("Meu coração está com dor de garganta", por exemplo). Por sinal, um dos poucos momentos não verossímeis do livro ocorre quando o narrador/protagonista diz que "Só temos palavras cruzadas em casa", e não livros.


O autor no lançamento na Livraria Simples, em São Paulo. 

Mencionamos o gênero do primeiro livro não para insinuar que o autor entrou como um peixe fora d'água no campo da prosa de ficção, mas para afirmar que ele é uma das comprovações do que Fernando Pessoa dizia: é preciso ser poeta para escrever bem. 

Os fatos da história são simples: dois irmãos enterram a mãe no quintal da casa logo no início do livro. Depois disso, vão degringolando mentalmente, especialmente o mais velho, que deixa de falar. A terra murmura, coisas mudam de lugar, eles ainda ouvem a mãe. O mais jovem ainda é capaz de sair da casa, falar com estranhos com quem tem encontros fugazes (um especialista em lepidópteros, uma artista em fase de autorretratos). Nenhum encontro amoroso acontece. O mais velho surta mais seriamente e não recebe ajuda, o que precipita o final.

Há outras questões no livro. Ele é quase um romance de tese sobre a voz: os dois jovens ouvem vozes além do murmúrio da terra. O protagonista, que é gago, reclama que a dentadura da mãe já não diz nada. Porém diversas coisas se manifestam em linguagens não articuladas, que são apreciadas porque "um alfabeto é rasgo que jamais cicatriza". Quando finalmente surge um assobio, ele comenta: "Tenho escutado murmúrio, sussurro, gemido. Agora, assobio, nunca. Pelo jeito, a terra anda mais cheia de fôlego.". O irmão quer saber o que as vozes falam; o protagonista responde: "Dizer não necessariamente é dizer alguma coisa.". Há uma busca interessante pelo inarticulado nesta obra.

Parece-me que hoje há mais casos na literatura brasileira de tentar dar a voz aos seres não humanos, inclusive a elementos geológicos, como é o caso de Krakatoa de Veronica Stigger. Na primeira parte desse último livro, a voz de vulcões, do carvão, da água, do gelo, do fogo e outras ressoam depois do fim do mundo. Na obra de Stigger, a questão do Antropoceno é central: o quanto a crise trazida pelos humanos reverte em catástrofe para eles (nós) mesmos.

A proliferação de vozes no livro de Caetano Romão, embora seu cenário seja o meio rural, não se origina disso nem mesmo da devastação produzida pelo latifúndio (hoje chamado de "agronegócio"). Há uma crise do humano aqui, no entanto ela ocorre em escala individual, doméstica. Quando o irmão deixa de falar, o protagonista se pergunta se "por acaso cresceu grama sobre o seu vocabulário". 

Doméstica, talvez uterina. A crise é desencadeada pela morte da mãe, que é enterrada onde moram. De veze em quando, eles vão ao "buraco de mamãe" para varrer as folhas. O quarto dela fica intocado: o jovem gato, trazido pelo irmão mais velho, pega a dentadura da falecida e gera um pequeno incidente (curiosamente, é ele quem ganha a capa do livro). Em princípio, é a morta, e não o gato quem faz imperar a desordem:


Mamãe está tão real que até faz tremer os copos sobre a mesa. Tento fazer alguma piada para desviar a atenção, mas não dá muito certo. Simão rosna para mim e dá uma mordida no seu pão com cebola, depois de encharcar ele na canja.

Hoje ela está impossível: a louça inteira se sacode fazendo pirraça, como se houvesse um terremoto debaixo da terra.


A casa acaba se tornando um grande útero da mãe morta onde os irmãos vão regredindo, um mais seriamente do que o outro. Além disso, o irmão mais jovem deixa transparecer uma atração homoafetiva pelo mais velho (Simão), que deixa de falar e de comer. Procurando-o, depois que foge de casa, ele vai encontrando as roupas jogadas no caminho e faz este comentário: "A cueca, amassada rente à cerca, sorriu para mim fazendo promessas". O que é feito com o grão de arroz onde foi escrito o nome do protagonista (o título do livro, note-se) confirma o erotismo subjacente.

Este é um romance do incesto, mais sutil na abordagem no tema do que Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, por apostar no inarticulado para revelá-lo. Tema tabu, os textos da orelha e da quarta capa sequer o mencionam.

No útero, os dois irmãos disputam pela mãe. Quando o mais velho adoece, o protagonista, embora saiba que "só um doutor para vasculhar Simão e dizer se ele tem voz alojada no fígado", não chama ninguém e assume os cuidados paliativos.

Em certo momento, ele diz que traria, entre outras coisas improváveis, inseticidas, ratoeiras, pastas de naftalina para o irmão, doente, já "inerte no sofá", sentir-se "próspero". É evidente que ele deseja destruí-lo. A curiosa escolha do adjetivo é bastante reveladora: como se sabe, o personagem homônimo de Shakespeare em A tempestade foi destronado e exilado pelo irmão.

Um dos dados mais interessantes do romance é que essas ações monstruosas contrastam com a permanente delicadeza da linguagem do protagonista. Ele se apresenta como um jovem frágil e conta de uma festa em que sofreu deboche e foi o irmão que teve de apanhar de vários para defendê-lo. 

Um monstro sutil. No final, o delicado é que obtém a vitória de ficar sozinho na casa/útero, o que se reflete na voz: o mais difícil trava-língua é enfim dito sem gagueira nenhuma. Como este romance.


quarta-feira, 14 de julho de 2021

Contra o fascismo, as poéticas da memória: a Ilhíada, de Alberto Pimenta


 

Após os oitenta anos, Alberto Pimenta continua a se reinventar a cada livro novo. Ilhíada (Lisboa: Edições do Saguão, 2021) difere de todos as outras obras de Pimenta pela estrutura e pela forma como cruza memória e política.
Estive no Porto apenas em 2007. Conheci, naquela ocasião, o grande Manuel António Pina. Não soube, porém, da existência das ilhas, que me foram apresentadas agora por Alberto Pimenta, a tripla distância: a do Oceano, pois estou no Brasil; do passado (o livro traz memórias de infância e de juventude do autor) e a do texto.
O texto, distância efetiva, consiste também na única proximidade possível. Ele cria novas vizinhanças. Pimenta cria a inesperada e bem sucedida vizinhança das ilhas do Porto com Tróia. O trocadilho do título é mais do que divertido, ele estabelece o sentido do poema, desde sua estrutura. Hugo Pinto Santos, para O Público, e Teresa Carvalho, em o Jornal i, destacaram que o livro se divide em 24 unidades, o mesmo número de livros de A Ilíada, esclarecendo, claro, que não se trata de emular Homero. Pimenta há décadas refere-se à literatura clássica, seja como poeta, seja como ensaísta.
Há alguns pontos de contato: Teresa Carvalho escreve que o personagem de Rodrigo, que foge da polícia e recebe um tiro no tornozelo, não deixa de lembrar, em registro bem diferente, o destino de Aquiles. Para mim, no entanto, o principal paralelo é o de que estas ilhas também estavam sitiadas, e este poema longo de Pimenta (o livro tem 184 páginas) corresponde à memória desse sítio, desta singular forma de guerra, que é a do fascismo contra sua própria população, com alusões à Segunda Guerra Mundial. Aqui, até mesmo o câncer ("cancro") é descrito em linguagem de guerra (na seção com o mesmo número do Arcano da Morte do Tarô, o décimo terceiro).
Por sinal, na discussão que abre o livro ("Átrio"), o autor esclarece o seu lado: "as ilhas em que se habita, como são as da cidade do Porto, não são um tema bizarro, senhor Professor; são como os honestos troianos, acossados por hordas de pretensiosos gregos". Talvez a forma do diálogo já sirva para lembrar a literatura clássica, com uma ironia que é toda de Pimenta, bem como as alusões que se seguem. A primeira seção da "Ilhíada: versão integral" (subtítulo que vem do autor da Obra quase incompleta), intitula-se "musa, dá-me só uma"; a última trata da "Ilha da Travessa das Musas"; no final, ela é posta a descansar.
No poema, em vez de heróis, temos, em um registro antimonumentalizante, pessoas comuns: pescadores, prostitutas, vendedores, padeiros, pequenos golpistas, formando um panorama social cuja riqueza é sugerida pela variedade impressionante dos registros da poética de Pimenta. Destaco a felicidade das transições entre as passagens prosaicas e as líricas; todas elas cabem muito bem na variedade do verso deste autor.
Trata-se, como dizia, da memória de uma "guerra" do Estado fascista contra a população local, com episódios de remoções forçadas, torturas, execuções (extra)judiciais. No Fascismo, polícia e justiça confundem-se. A Pide lá está ("não é pide, mas pode", escreve na décima primeira seção), a censura também ("já lhe passaram pelas mãos imensas/ edições clandestinas", na vigésima parte), e o povo daquelas ilhas é tratado como inimigo interno (faço uma nota: no Brasil, o paralelo atual seria a polícia militar, que também trata a população, especialmente a periférica, dessa forma), o que diz respeito ao momento da Guerra Fria em que se passam as histórias do poema.
Já na primeira seção, um Cipriano, que gostava de falar com as crianças, é subitamente preso pela "polícia de defesa", que o acusa de "sedução de menores", e não retorna jamais.

[...] e todos foram a repetir: – quando 
alguém vai preso, quando é que sai? o Tiago perguntou 
ao pai: – por que é que queres saber isso? perguntou por 
sua vez o pai. –  levaram alguém preso agora ali em baixo! 
– sei lá.... e que é que te importa? vai mais é jogar tu e o 
com a tua pistola d'água, vai! [...]

Os adultos preferem não tratar do assunto. Depois vemos uma florista presa e as especulações no primeiro AD L....:

seria por estar a
incomodar
ou
por vender
sem licença,
ou
por ser comunista,
hipótese apurada
pelos mestres das devassas...
ou por tudo isso?
era sabido que
da cela de castigo
mal se saía,
ou saía-se mal.

Um exemplo de sair-se mal, da seção da ilha "que havia nos Lóios":

o Beto perguntou ao pai se sabia que ele,
o Feliciano, tinha um olho de vidro; o pai
ficou calado. e o Beto contou como pôde o que
ele tinha dito: – foi há muitos anos, foi num
interrogatório da polícia, o nome então era pide
;
o Beto não sabia o que era, e o Feliciano explicou
que era uma polícia à paisana, apanhava melhor
quem não estava a dizer o que devia; [...]
Os mais velhos, de novo, preferem não falar do assunto. A sombra da censura é longa.
A respeito das licenças, a décima seção, sobre a ilha do Pé Descalço, contém uma das histórias mais terríveis: o engraxador Eliseu tem seus instrumentos de trabalho confiscados por um policial, por falta de autorização (segundo as categorias de O discurso sobre o filho-da-puta, trata-se de um exemplo daquele especializado em não deixar fazer). Eliseu, para pagar a multa, precisou vender os próprios sapatos e ficou descalço: a caixa confiscada, porém, nunca aparecia no posto. Fica doente, pois descalço; no hospital, deixam-no cair; é transferido e perdido na burocracia do sistema de saúde; enfim conseguem achar a certidão de óbito.
O caráter arbitrário das prisões, na verdade sequestros em que está presente a possibilidade do desaparecimento forçado, corresponde, no plano do indivíduo, às remoções forçadas que as coletividades dessas ilhas sofrem. Na nona seção: "desmantelada a ilha, aí estava o lugar/ que há muito tempo era ambicionado:/ o espaço ideal para os carros oficiais." O estigma que lhes é lançado serve a justificar tais operações: "e pense como quiser que falo da cidade/ ou só das ilhas, todos julgam que isto/ são antros à beira da miséria, doença,/ e crime, e não é bem assim", lemos na vigésima parte. Ou, na vigésima terceira, "há buracos escavados na/ rocha, é muitas vezes o refúgio dos que/ não têm casa, ou a humedecida palha de/ estábulos sem gado, sem falar de sótãos,/ e caves abaixo do nível do chão". Tais são as condições do desabrigo, que não deve ser divulgado, sob pena de prisão:
às vezes a mãe decidia aliviar, 
dizia: – olha que algemado 
não tem nada que ver com gema, 
de que tu tanto gostas 
nas conchinhas que a madrinha traz!
Nesse contexto, a tevê é chamada de "Tudo Vê" e integra o sistema com sua função de impor as versões da polícia. Esta ocorre na décima nona seção do poema:
[...] à frente, lá ia a Renata, e
empunhava como A Liberdade condutora do
Povo
na pintura de Delacroix, a bandeira;
mas não foi ela que empurrou o polícia com
o pau da bandeira, como alegou a Tudo Vê,
cumprindo o dever: não viu, viu o que devia;
pois foi o polícia que viu-a tropeçar, e ir só
com a mão livre ao chão, ergueu a biqueira
da bota e deu-lhe com ela na barriga [...]

A repressão à manifestação, a recusa ao atendimento médico e a morte causada pelo Estado fascista em sua dupla face do poder policial e do poder médico são coroadas pela requisição das joias da defunta. 
Hugo Pinto Santos e Teresa Carvalho destacam os interlúdios entre as seções, intitulados inicialmente AD LITTERAM e AD LIBITUM, e depois apenas AD L.......... (creio que os dois sentidos estão presentes). Todas essas partes intermediárias, menos a última, terminam com a palavra "fim" (neste, a palavra vem separada, mas Ilhíada ainda oferece um "quolibet" para repouso da musa).
Trata-se de um poema longo. A divisão em histórias, confere, no entanto, certa autonomia às partes. Na vigésima seção, que já citei, temos os "vinte anos começados" do eu lírico e uma história impressionante pela maneira como Pimenta combina amor, miséria, referências da arte ocidental (Bocage, Leonardo da Vinci, Petrarca, A Dama das Camélias...), doença e morte. Não sei se é o ponto mais alto do livro que, de qualquer forma, sustenta-se em seu conjunto. A vigésima segunda distingue-se das outras por ser mais leve e engraçada: na ilha de Cedofeita, o menino Tiago quer saber do que é feito o nevoeiro: pai, mãe e professora ignoram-no, mas o padre não tem dúvidas de que Deus fez todas as coisas! O menino conjectura se não poderia ser "obra do mal"... No fim, Tiago está na posição divina de descansar e ver "que era bom".
O nevoeiro pode ser na Ilíada uma imagem da morte, ou até um recurso dos deuses para intervir disfarçados (Apolo disfarça-se assim). Podemos pensar nele como uma imagem que indica como as pessoas não estão a ver bem (o que é o caso de todos aqueles personagens menos do menino, que percebe a ambiguidade do fenômeno). No entanto, como se trata de um poeta português, lembramos antes do "Nevoeiro" de Fernando Pessoa, um poema da crise do país ("Tudo é incerto e derradeiro./ Tudo é disperso, nada é inteiro./ Ó Portugal, hoje és nevoeiro...") e a contribuição do cristianismo para o enevoado obscurantismo satirizado no poema de Pimenta.
É claro que Ilhíada nada tem de sebastianismo místico, ao contrário de Mensagem. No entanto, talvez não seja abusivo lembrar que "Nevoeiro" relaciona-se com a decepção de Pessoa em relação à situação política de Portugal, recém-desabado no fascismo de Salazar. Para Pimenta, décadas depois, o regime é principalmente matéria da memória; para o outro poeta, na primeira metade da década de 1930, trata-se da atualidade que inspira o desencanto do livro e do país.
Muito haveria a falar sobre este poema, porém não me visitaram as Musas. Termino, pois, com este trecho da parte final desta obra que faz lembrar, a todo momento, que elas eram filhas da Mnemósine:

as musas não falam, como poderiam dar
o que dão em tantas e tão diversas línguas;
não falam, põem a falar, mas fogem à fala
que não foi obra delas; passar sim passam,
como eu comecei por sentir, mas só elas o
sabem fazer, pondo a falar quem as sentiu.

Sem a memória. não temos a poesia e a história (e nenhum outro dos domínios das Musas), como os gregos bem sabiam, mas tampouco uma política antifascista, que não pode ser feita com o esquecimento ou o apagamento dos crimes do passado. É disto que Pimenta nos recorda sempre, em lição sempre atual: os fascismos de hoje, no Brasil e alhures, necessitam da falsificação do passado para oprimir no presente.


domingo, 21 de abril de 2013

"Andei na rua e fiquei com farrapos do que vi": Alberto Pimenta, poesia e política


Eduardo Pitta, em recente coluna, perguntou sobre a "aparente abulia política dos novos escritores" portugueses, como Rui Cardoso Martins, Gonçalo M. Tavares, Afonso Cruz, Alexandre Andrade, Valter Hugo Mãe e outros, que não estão a tratar da "falácia europeia, do desemprego sem freio, do empobrecimento geral, dos direitos das minorias, do arbítrio das agências de notação financeira": http://daliteratura.blogspot.com.br/2013/04/o-sexo-dos-anjos.html
Talvez seja um problema geral dos ficcionistas. Em certa poesia portuguesa, temos outra coisa. Alberto Pimenta trata desses temas há muito. Seu primeiro livro, O labirintodonte (1970), já o fazia com humor - veja-se o poema "a individualidade de meu general", em que os generais e as moscas são igualmente determinantes para o deflagrar das armas.
Recentemente, em razão de seu último livro, De nada (http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2013/02/alberto-pimenta-e-de-nada-ou-revolucao.html), concedeu longa entrevista ao Jornal de Letras, Artes e Ideias (ano XXXIII, número 1108, 20 de março a 2 de abril de 2013), em que afirmou: "Não consigo ver as atividades dos poderosos sem uma ponta de farsa. São uma ópera bufa, faz-me rir." Indagado se sua poesia é tragicômica, responde que "Na maior parte dos poemas que tenho feito começamos por rir imenso e terminamos com um nó na garganta." É verdade.
Em vários trechos da entrevista, como no livro, ele trata da crise europeia e do empobrecimento:
É mais frequente a minha poesia ocupar-se de assuntos que me são 'exteriores'. Neste caso, posso dizer que este livro foi feito na rua, com os farrapos do que se ouve em certos barros, como este onde morro, do que vejo e do que leio nos títulos de jornais. Não tenho televisão.

Estive no Porto, no "Gato Vadio", a falar sobre o livro e disse precisamente que estamos num momento histórico, porque é a primeira vez, na História da Humanidade, que há uma revolução dos ricos contra os pobres.

[...] o dinheiro é sempre obscuro, como o enriquecimento é sempre ilícito. Dantes, dizia-se que a aristocracia era de sangue azul, agora é monetária. Aquele senhor banqueiro que disse que era preciso aguentar como os sem-abrigo, merecia uma medalha de sinceridade.
Escrevi um poema, que publiquei n'As moscas de Pégaso, em 1998, ainda o euro não existia, mas já se falava dele. E concluía. "Mais fácil do que Hitler pensava".


Voltou a escrevê-lo em De nada, no poema sete da segunda sequência do livro:
as graças do poeta Oskar Panizza
foram a sua desgraça
por causa dum Concílio de amor
esteve um ano na prisão
não voltou o mesmo

mas isso
foi ainda no Iº Reich
para mais na Baviera
depois veio o IIº Reich
e depois o IIIº
e agora o IVº
chamado Europa [p. 81]


No Jornal de Letras, logo após a entrevista, há um texto de Maria Irene Ramalho, professora e ensaísta que há muito escreve sobre o autor. Em "Não é preciso inventar", lemos estas graves palavras: "A poesia não é invenção. A poesia é descoberta, e descobrir é que dá trabalho: não se descobre sem aprender a aprender. A arte do poeta assenta na assumpção plena da vida [...]"
Em sua produção ensaística, Pimenta afirma algo semelhante, na possibilidade de criar novas vivências por meio da arte:
A vivência, a experiência, eis o único delgado fio concreto que liga o sujeito com o objecto de seu conhecimento. O significado é a experiência, e significar (ou concretizar o símbolo) é fazer experimentar, ou dar vida, criar: sentir e fazer sentir. Para o crucificado a cruz não é símbolo, diz lapidarmente Julián Rios. A arte literária (como toda a arte) é a tentativa eternamente arruinada pelos hermeneutas e pelos semióticos, e eternamente recomeçada, de criar possibilidades de vivência nova através da criação de símbolos novos. É por isso que há maior afinidade entre um poema e um trecho musical que entre o mesmo poema e um trecho do código civil, sendo por isso também que a redução da análise literária à análise linguística do texto é um abuso insolente. (Cinco teses para uma determinação do simbólico. In: PMENTA, A.; BARROS, E; BARRENTO, J.; CENTENO, Y. K. A (más)cara diante da cara: dos símbolos do homem e do homem como símbolo. Lisboa: Editorial Presença, 1982, p. 52)
Os happenings que tem feito são um exemplo dessa ética, que ele voltou a explicar aqui:

Creio que a ética do artista só poderá ser no mais alto grau possível a ética do indivíduo-artista. Vale para Céline e para Picasso. O resultado da qualidade estética pode ser independente da ética, mas não o é do lugar que desempenha na história da escrita humana. Dificilmente se poderá aceitar uma escrita pública que não incite cada um a procurar o espaço de liberdade que lhe cabe sem qualquer espécie de impedimento. (http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2010/10/alberto-pimenta-tortura-e-metafisica.html)

Um dos livros de Pimenta trata desta descoberta no tom mais autobiográfico a que ele chegou - tom raro, pois, de fato, ele se ocupa principalmente de assuntos "exteriores" a sua personalidade (trata-se de uma de suas marcas pessoais): Repetição do caos (Lisboa: &etc, 1997). Escolhi trechos desse livro para começar seções da antologia A encomenda do silêncio (São Paulo: Odradek, 2004).
Em um dos que não incluí, Pimenta conta uma brincadeira, feita entre os oito aos nove anos, com o pai e o tio, o jogo da Glória. Era mais um jogo com casas que deveriam ser percorridas segundo os lances de dados.
O problema é que eles tinham instituído cálices de bebidas alcoólicas para o vencedor: a glória devia inebriar mesmo. De modo que precisavam de mim para aquecer o jogo, mas trapaceavam quando fosse necessário para eu não ganhar. Eu percebia, amargurava-me, reclamava, tudo em vão. Eles eram a autoridade, e eram dois a afirmar que eu não estava naquela casa em que estava, mas na outra ao lado.
A minha mãe indignava-se: Arranjem outro prêmio para ele, mas não façam uma coisa dessas. Eles riam-se.
O caso é que eu, como todo cidadão miúdo, achava-me também com direito ao bagaço dos grandes, e eles fingiam que sim: daí a necessidade de todas as trapaças por parte deles.
É capaz de explicar muito, ou quem sabe se tudo, daquela confusão que impingem nas aulas de História.
Temos aí um aprendizado precoce do poder e da cidadania... Que buscou meios de expressão ainda antes da descoberta da poesia:
1956: uma noite prenderam-me por eu berrar em plena rua e a plenos pulmões que a polícia, a autoridade em geral, eram tudo filhos da puta.
É extraordinária minha precocidade: hoje não seria capaz de dizer melhor. Mas acrescentava: Os outros também.
Pimenta foi ser Leitor de Português em Heidelberg em 1960, e o choque linguístico, explica na entrevista, fez com que pouco escrevesse nessa década, e o primeiro livro somente fosse publicado em 1970. Na década de seu retorno a Portugal depois do exílio forçado pelo salazarismo, escreveu e lançou seu livro mais traduzido, Discurso sobre o Filho-da-Puta (1977), cuja última edição brasileira foi responsabilidade da Achiamé em 2003.
Para quem não o leu, um exemplo desta prosa, que repete infinita e hipnoticamente a expressão do título, representando a ubiquidade do personagem:
Há milhares e milhares de lugares que não têm outra valia senão serem lugares a que os filhos-da-puta dão valia, nem outro préstimo que não seja dar ao filho-da-puta o prestígio da sua qualidade. Há milhares e milhares de filhos-da-puta que não têm mais-valia senão ocuparem os lugares feitos para serem ocupados pelos filhos-da-puta que os ocupam, nem outro préstimo que não seja o prestígio de os ocuparem. É óbvio que o lugar do filho-da-puta ocupa é muito importante para o definir, pois quase sempre o filho-da-puta ocupa o lugar que melhor lhe assenta  e portanto mais lhe convém, ou melhor lhe convém e em que melhor se asssenta, e, conforme o lugar que ocupa, assim o filho-da-puta se comporta.  Há lugares altos e baixos, largos e estreitos, brutos e delicados; e, do mesmo modo, há filhos-da-puta altos e baixos, grandes e pequenos, ordinários e extraordinários. É extremamente raro haver altos filhos-da-puta a ocupar baixos lugares; menos raro é o caso inverso, de baixos filhos-da-puta a ocupar altos lugares [...]

Paro aqui porque lembrei de certos exemplos de presidências de comissões no Congresso Nacional brasileiro. O personagem realmente é universal, e, naquela entrevista, Pimenta diferencia esta vertente de sua literatura de outra, que tem em De nada o título mais recente:
Até há poucos anos, essa consciência social aparecia, na minha poesia e nos atos poéticos, não referida diretamente a casos contemporâneos mas transposta para uma espécie de condição humana, social, de todos os tempos. O expoente máximo é o Discurso sobre o filho da puta. Este livro não. De nada é um registo da vida contemporânea.
Nessa vida, tal figura encontra diversas encarnações, como as que aparecem no poema seis da segunda sequência em De nada:

e se o desmentido
é a presença
do passado no presente
a verdade é a presença
do presente no passado

[...]

depois
das decisões
de 25 cimeiras europeias
os que as tomaram
discutem
para saber se de facto
as tomaram

mas
os professores todos
dizem que a verdade
não é um conceito científico
assim se provando
e deus sabe
que a verdade
precisa do desmentido
para alcançar sua completude

não há excepção à regra
até a jovem e elegante deputada Fabra
que no parlamento em Madrid
disse cheia de salero
anunciavam-se então
cortes de ajudas aos desempregados
que se hodan

depois
no intervalo que logo se seguiu
carinhosa e afectuosamente
rodeada de colegas do partido
que de cabeça levemente inclinada
à altura do decote
lhe manifestavam sua compreensão
confessou
desmentindo
que se referia aos deputados da oposição
que esses sim
mereciam a foda
com o que deixou os colegas
desiludidos e desencantados

fazem falta deputadas destas
jovens elegantes
desassombradas modernas concisas
e com o pronto-a-despir
chamado desmentido
na ponta da língua [p. 78-79]
Este último livro não está nem um pouco sozinho nessa vertente que mergulha na matéria contemporânea. Indulgência plenária (2007;  http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2011/11/alberto-pimenta-tortura-estupro-e.html), sobre a tortura e assassinato da transexual brasileira Gisberta Salce por jovens católicos do Porto, e Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta (2005; http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/04/antes-das-redes-sociais-pimenta-entre.html), sobre a invasão dos EUA no Iraque, são alguns dos exemplos recentes.
A entrevista dada ao Jornal de Letras está disponível para os assinantes (http://visao.sapo.pt/gen.pl?sid=vs.sections/25193). Em outra recente, dada a Jacinto Silva Duro, no Jornal de Leiria, ele trata também do último livro e de sua trajetória artística: http://bocaaudiolivros.blogspot.com.br/2013/03/hoje-nao-nos-chamam-escravos-mas-temos.html
Nela, voltamos a ler que "Na apresentação do meu último livro, no Porto, referi que o que ele contém são poemas de rua. Andei na rua e fiquei com farrapos do que vi." E mais:
Está tudo escrito nos manuscritos histórico-filosóficos de Marx. A diferença é entre "viver do trabalho" e "viver dos rendimentos", como o capitalista. Está tudo lá. Hoje, não nos chamam escravos, mas temos dono. Todos temos dono. Mal nascemos, já somos registados.
Nessa indignação, ele se encontra com um poeta que está em posição bem diversa no espectro ideológico, o aristocrata (não em realidade...) Fernando Pessoa. Em "Lisbon revisited", de Álvaro de Campos, temos o famoso trecho: "Queriam-me casado, cotidiano, fútil e tributável?"


P.S.1 : Infelizmente ratificando minha tese sobre a "inexistência de Alberto Pimenta" (http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2010/07/ainda-inexistencia-de-alberto-pimenta.html), o poeta é chamado de Alfredo Pimenta na última entrevista...

P.S. 2: Boaventura de Sousa Santos, que é um bom poeta, também a ratifica: "Nunca fui capaz de fazer poesia política ou de combate. Pelo contrário, na poesia não procuro nada disso. Sou muito influenciado por Herberto Helder, Ramos Rosa ou Alberto Pimenta, o grande poeta esquecido. Mas tudo o que sai do cânone poético português não é divulgado."

sábado, 17 de setembro de 2011

30 dias de leituras: Sá-Carneiro, azul e aquém

30 livros em um mês
Dia 09: Um livro de autodescoberta.

Apenas um livro? Todos os grandes livros podem propiciar a autodescoberta. Na adolescência, Demian foi a primeira das traduções de Ivo Barroso que li, bem como meu primeiro Hermann Hesse. Tenho ainda essa edição, não lembro mais do ano em que a comprei – e sim do lugar, um sebo muito bom que existia na Visconde de Inhaúma, no Rio de Janeiro. “Para nascer é preciso destruir um mundo.” – gostei de ler isso, embora não me fosse claro (nem para o protagonista) que mundo novo deveria ser erigido.
No entanto, se eu já estava pronto para ler essas coisas do Hesse (principalmente Viagem ao Oriente, que achei muito superior a Sidarta), foi porque um impacto anterior já havia produzido efeito. Em uma festa na casa de um tio, subi para o cômodo vazio, o da biblioteca. Peguei um volume da coleção Nossos Clássicos da editora Agir, que se compunha de antologias em formato de bolso, em geral muito bem escolhidas. A Ediouro, que absorveu a Agir, parece querer reviver essa coleção.
No caso, peguei uma antologia organizada por Cleonice Berardinelli, cujo trabalho ainda não conhecia, de um poeta que eu ignorava completamente (no Rio de Janeiro, a literatura portuguesa já havia sido expulsa dos currículos escolares): Mário de Sá-Carneiro.

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

[...]

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Estrofes do poema “Dispersão”, do livro homônimo. A antologia era pequena, como eram os livros dessa coleção. Li-a toda nessa festa. Fiquei surpreso (tinha uns 12 anos) – então era possível escrever assim!
Havia uma liberdade no léxico que criava sentidos, possibilidades na língua que eu ainda não tinha imaginado. Essa criação de possibilidades não era exemplo de malabarismos vocabulares gratuitos, e sim estava vinculada à expressão de estados d’alma (assim escrevo, já que se trata de um autor português) de que normalmente não se fala: “É só de mim que ando delirante –/ Manhã tão forte que me anoiteceu.” (“Álcool”).
Eu ainda não tinha lido Rimbaud; foi em Sá-Carneiro que descobri que o eu é um outro; não conhecia Pessoa, foi na poesia desse seu amigo que descobri que a unidade do eu é frágil e inconstante. Saber disso me ajudou a descobrir o mundo. Logo consegui ter acesso à poesia dele completa.
No poema “Dispersão”, o primeiro que li, a repetição de palavras no fim dos versos dentro dos quartetos (isso ocorre na maior parte deles), em vez de imperícia poética, revela a escolha formal da obsessão com o “mim” e o “mesmo”. É coerente que, nesse turbilhão, o poema termine com um dístico sem rima, como se não pudesse se completar.
Ainda mais coerente é o primeiro livro terminar com um poema de suicídio, “A queda”, que continuo sabendo de cor: “Não me pude vencer, mas posso-me esmagar/ – Vencer às vezes é o mesmo que tombar –” O segundo livro, Indícios de oiro, prossegue na mesma trilha, ganhando em sarcasmo e derrisão, preparando para os impressionantes poemas finais, que ele não chegou a recolher em livro: “De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;/ E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...” (“Caranguejola”), “Quando eu morrer batam em latas,/ Rompam aos saltos e aos pinotes,/ Façam estalar no ar chicotes,/ Chamem palhaços e acrobatas!” (“Fim”).
Essa ironia permeia também a questão do gênero nesta poesia (também na prosa dele, de que não vou tratar aqui), como em "Feminina":

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -
Eu queria ser mulher pra que me fossem bem estes enleios,
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.

Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...

A alusão à própria figura com "rapaz gordo e feio" é óbvia; no soneto "Aqueloutro", autodenomina-se "o Esfinge gorda".
No segundo livro, há um poema impressionante de suicídio, “O recreio”: um menino que está num balanço à beira de um poço (dentro da "Alma" do poeta). A corda está esgarçada, e a criança irá afogar-se: “Mais vale morrer de bibe/ Que de casaca... Deixá-lo/ Balouçar-se quanto vive... // – Mudar a corda era fácil.../ Tal ideia nunca tive...” Como ele pode dizer que não teve uma ideia que ele mesmo enuncia? A incoerência do final casa-se, no entanto, perfeitamente com o poema; a questão é que a morte já ocorreu, ou já está decidida. No próprio “Dispersão”, havia escrito: “E sinto que a minha morte/ – Minha dispersão total –/ Existe lá longe, ao norte,/ Numa grande capital.”
Foi em Paris que se matou, em 1916, aos 26 anos. A perda para a poesia de nossa língua foi enorme; a reduzida obra que deixou é marcante, e a amizade com Pessoa (foram os maiores amigos um do outro, e entre si podiam falar literariamente de igual para igual) poderia ter rendido mais frutos para ambos. Em 1934, tantos anos depois, e um ano antes de morrer, Pessoa lamentou no poema “Sá-Carneiro”: “Sei que, falho de ti, estou um a sós.”
As cartas de Pessoa para ele perderam-se com a confusão que se seguiu ao suicídio – certamente foram parar no lixo. As de Sá-Carneiro, Pessoa guardou-as e estão publicadas. E foi ele mesmo quem conservou a obra do amigo e organizou a publicação dos Indícios de oiro e Últimos poemas, que A Presença lançou em 1937 (edição póstuma para os dois poetas).
O brasileiro Augusto dos Anjos morreu um pouco antes de Sá-Carneiro, em 1914, um pouco mais velho, aos 30, também tendo publicado um único livro (Eu). Diferenças poéticas à parte, uma curiosidade que jamais será satisfeita é a de saber o que esses poetas tão obcecados com o eu fariam a partir da experiência da Guerra Mundial. Augusto dos Anjos, com “Os vencidos”, por exemplo, revelou ter uma grande sensibilidade social.
Há crítica social também na obra de Sá-Carneiro; é engraçado ler, em "16", "As mesas do Café endoideceram feitas ar.../ Caiu-me agora um braço... Olha lá vai ele a valsar,/ Vestido de casaca, nos salões do Vice-Rei....". Porém, não poderemos apreender o que seria seu voo final, se não fora este:

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

terça-feira, 13 de setembro de 2011

30 dias de leituras: O Diabo em Pessoa

30 livros em um mês
Dia 06: Um livro de seu autor favorito.

A Hora do Diabo, de Fernando Pessoa, é um livro construído por Teresa Rita Lopes, reunido a partir de papéis da arca destinados ao projeto. Trata-se de um pequeno livro de prosa. No entanto, como a figura do Diabo não se limita a essas páginas de Pessoa, e nelas podem ser encontradas motivos que voltam na sua poesia e no Livro do Desassossego (nada sei em relação ao Tratado de Astrologia, que não tenho), creio que o breve conto é importante na obra do autor.
Pessoa tentou criar uma versão própria do Fausto, em poesia, de que só temos vários fragmentos, alguns de enorme beleza. A Hora do Diabo, em contrapartida, na montagem de Teresa Rita Lopes, tem começo, meio e fim. A Assírio & Alvim e a Companhia das Letras publicaram-no, e ele pode ser lido também aqui: http://lugardaspalavras.no.sapo.pt/poesia/pessoa/hora_diabo.htm (descontando os negritos introduzidos no texto).
É um "conto de raciocínio", categoria que o autor empregou para outro texto seu em prosa, O banqueiro anarquista. O Diabo, em uma festa de fantasia, dirige-se a uma mulher, mas não para falar-lhe. O que ele diz destina-se a seu filho (está grávida), pois ele será um gênio, e o gênio necessita de uma mensagem do Diabo.
A fala do Diabo é muito interessante. Pessoa discorda de Goethe, de Milton, bem como de visões tradicionais do Diabo:
Shakespeare, que inspirei muitas vezes, fez-me justiça: disse que eu era um cavalheiro. Por isso esteja descansada: em minha companhia está bem. Sou incapaz de uma palavra, de um gesto, que ofenda uma senhora. Quando assim não fosse da minha própria natureza, obrigava-me o Shakespeare a sê-lo.

O Diabo, enfim, obedece aos poetas - faz parte do seu caráter: "Sou naturalmente poeta, porque sou a verdade falando por engano". E debocha dos teósofos e de vários esotéricos: "Referia-me ao Arcano 18 do Tarot, isto é, da chave de todo o universo, como o é da Cabala, da qual os doutores da Doutrina Secreta sabem mais do que eu."
O Diabo de Pessoa confessa-se um ironista, e "todos os ironistas são inofensivos, exceto se querem usar da ironia para insinuar alguma verdade".
Ele "corrige" Goethe: o Diabo não é o espírito que nega, mas o que contraria; contrariar ideias (o que leva ao desalento), e não atos (o que estorvaria a ação e o giro do mundo). Ele é aquilo a que tudo se opõe e, fazendo isso, permite que tudo exista. E reclama que Goethe deu-lhe "um papel de alcoviteiro numa tragédia de aldeia"!
Afinal, o Diabo de Pessoa é assexuado e não gosta dos corpos:
[...]a gravidez vai por meses lunares, e eu mesmo não posso contar senão por meses de Lua que é minha filha, isto é, a minha cara vista nas águas do caos. Com a gravidez e todas as porcarias da terra não tenho nada que ver, nem sei por que graça me foram medir essas coisas pelas leis da lua que forneci. Por que não arranjaram outra bitola? Para que é que o onipotente precisava do meu trabalho?

Pessoa cria, pois, um Diabo a sua própria imagem. Isto poderia estar no Livro do Desassossego: "Corrompo, é certo, porque faço imaginar. Mas Deus é pior - num sentido, pelo menos, porque criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, ao menos, não apodrecem. Passam."
A frase final, um desabafo do Diabo, é bastante engraçada.
Penso no Arcano 18 do Tarô. O Arcano correspondente ao Diabo é o 15º. Quando os dois se associam em um jogo, isso pode ser sinal de magia que atua sobre o consulente. Invoco, pois, um poeta conhecedor desses sortilégios, Alberto Pimenta, no seu notável ensaio A magia que tira os pecados do mundo (Lisboa: Cotovia, 1995):

A lua é o lugar aonde não se vai, e aonde se quer ir; é o lugar da decepção, do perigo, do charme, da prisão. Da prisão sai-se, abandonado lá uma parte de si, como a raposa que se liberta da armadilha roendo a própria pata. Daí o descrédito da lua, a armadilha onde sempre fica uma parte de quem a contempla. [p. 252]

Essa armadilha também é a poesia, que captura o leitor - mesmo que se liberte, ao menos parte da pele permanecerá entre os dentes que o aprisionaram.
Invertendo o Diabo de Pessoa, sabemos assim por que o poeta é naturalmente demônio.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

30 dias de leituras: Pessoa e a lira de nervos

30 livros em um mês
Dia 01: Um livro favorito.

Por causa de um aniversário, ganhei de uma tia um livro de José Lins do Rego, Fogo morto. Uma vez que Menino de engenho (que minha irmã teve que ler para escola, e eu aproveitei para ler também) não me tinha estimulado, fui trocar o presente na antiga loja de departamentos chamada Mesbla. Acho que eu tinha 13 ou 14 anos.
Nela, vi uma coletânea de um autor que conhecia de nome, Fernando Pessoa. Era O eu profundo e os outros eus, que a Nova Fronteira editou. Levei-a, li Mensagem sem captar o que acontecia, até chegar ao primeiro poema do cancioneiro, "Análise".
Quando cheguei aquele jogo conceitual de paradoxos e antíteses, que eu já conhecia e amava por causa do barroco, a luz se fez (continuo sabendo de cor esse poema). Voltei, então, a Mensagem e entendi. Quando cheguei aos heterônimos, já estava conquistado por essa poesia em que tanto aparece a logopeia, como diria Pound. Uma lira de nervos? E "Tabacaria" ficou sendo meu poema favorito...
Essa antologia tornou-se logo pequena; fiquei querendo saber mais do que estava na legendária arca de Pessoa (ele foi um poeta póstumo). Fui buscar, então, a Obra poética (e, depois, a Obra em Prosa), que a Nova Aguilar (em tempos muito melhores do que os de hoje) lançou, na edição de 1986. O impressionante trabalho era de Maria Aliete Galhoz. Havia uma edição menor; essa de 1986 era grande, com mais de 770 páginas. Eu andava com ela para lá e para cá, mesmo na faculdade. Carregava mais esse livro do que o Código Civil de 1916... Escolho-o agora como favorito.
Dessa época para cá, muito mais se descobriu de Pessoa, inclusive O livro do desassossego, que é seu maior sucesso de vendas no mundo todo e só foi editado nos anos 1980. Os trechos do Desassossego que Pessoa publicou em jornais de Portugal não despertaram interesse algum, o que o teria desestimulado a organizá-los em livro, argumenta Bréchon na biografia Étrange étranger.
De fato, ele não tinha público naquele país. Não é de estranhar, pois, que sua primeira edição "completa" (hoje se sabe que algo assim jamais existirá...) tenha ocorrido no Brasil, pela Aguilar, em 1960. Robert Bréchon estranha o fato; porém, se ele conhecesse algo do meio literário brasileiro, saberia que deste lado do Atlântico o escritor já era admirado havia tempos. Cecília Meireles marcou um encontro com Pessoa em Lisboa, mas ele a deixou esperando... E ela, no livro Poetas novos de Portugal, de 1944, apesar do pouco que se conhecia dele à época, soube destacar sua importância e compreender sua poesia.
Aqui (como em todo mundo, até mesmo, enfim, em Portugal), ele encontrou um público e estudiosos.
Aquela edição da Aguilar foi sucedida por outras (antes, a portuguesa Ática, de forma pouco sistemática, tinha tentado publicar os poemas de Pessoa), mais notadamente pela edição crítica, que Teresa Rita Lopes respondeu com uma edição crítica da crítica... Temos, assim, uma obra aberta, composta essencialmente de fragmentos.
Pessoa, em seu país, de marginalizado passou a canonizado e teve seus restos transportados para o Mosteiro dos Jerônimos em 1985. Alberto Pimenta, no texto "Os 10 acontecimentos literários mais importantes em Portugal entre 1945 e 1995", satirizou essa apropriação do poeta pelo oficialismo lusitano.
Esse texto, que só foi publicado no Brasil (na revista Jandira, da Funalfa, editada por Ricardo Rizzo) era quase todo composto por efemérides! Dois desses "acontecimentos" referiam-se a Pessoa (1888-1935), o único a não ser mencionado explicitamente (um nome já inefável como o de Deus):

6. 1985 - Celebrações do quinquagésimo anno. O Espírito Santo substituiu definitivamente a Revolução dos cravos no coração dos portugueses.
7. 1988 - Celebrações do centésimo anno. Estranhamente, não chegou a bênção papal.

Porém, creio que o mal-estar que sua poesia causa no século XX português não foi apaziguado, como escrevi a respeito da antologia Século de ouro.

Aqui, pode-se ler a arca de Fernando Pessoa na internet: http://arquivopessoa.net/#. Divirtam-se com esta lira de nervos: "God made my shivering nerves His human lyre".

sábado, 20 de agosto de 2011

Portugal, Alberto Pimenta e o Desencantador


Portugal, nesta atual fase falimentar, apresenta mais um capítulo do seu abandono da nossa língua comum (não há nada de estranho que o Museu da Língua Portuguesa tenha aparecido no Brasil e não lá). Eduardo Pitta conta que seu país abandonou as cátedras de português no Canadá e nos Estados Unidos.
A ditadura salazarista usava o instrumento de demitir os Leitores de Português no exterior para pressionar aqueles que não seguiam as diretrizes do fascismo. Isso ocorreu com Alberto Pimenta (na foto abaixo), que, em Heidelberg, se recusou a fazer campanha pela guerra colonialista - porém, demitido pelo governo português em 1963, a Universidade contratou-o.
Embora as autoridades portuguesas tivessem pressionado os alemães para que demitissem Pimenta, tudo foi em vão (a tanto não chegava o colonialismo lusitano) e ele permaneceu no exílio até 1977, quando decidiu voltar para Portugal, já pós-fascista.
No entanto, o que era um instrumento de pressão política do fascismo está a virar medida generalizada decorrente da crise do capitalismo na Europa.

Pimenta lançou no início do ano Reality Show ou a Alegoria das Cavernas, livro que inclui disco com poemas do autor musicados por Alexandre Augusto, Pedro Soares e João Alves, na voz de Ana Deus.
O Desencantador, em belo projeto gráfico de Maja Marek (a sobrecapa deixa ver, do título, apenas "encanta"), foi lançado pela 7Nós.
Esse desencantador tem algo que ver com o desencantamento do mundo weberiano? De qualquer forma, os mitos são retomados segundo a visão própria de Pimenta. Ele faz este uso de Ísis e Osíris:

e então dessa vez por precaução
retalhava o corpo de Osíris
em catorze partes
que espalhadas pelas águas
haviam de formar o primeiro soneto da
história [p. 17]

Retomados para serem jogados à terra ou ao fosso da realidade de hoje:

e então na pálida claridade que se abria
ia encontrando e recolhendo
os pedaços do corpo
um braço aqui
um pé mais adiante
exactamente
como em todas as guerras [p. 18]


As oscilações da história, entre sonho e realidade, o Egito antigo e lugar nenhum, terminam em um movimento de fuga (pelo menos no meu final favorito - há dois finais diferentes, mas cada exemplar somente apresenta um deles).
Creio que o Reality Show é mais forte na sua exploração e inversão das representações de hoje. Mas O Desencantador, que deriva de uma experiência dos delicados objetos de Autobiographie Mutuelles (assim mesmo, sem concordância), que realizou com César Figueiredo em 2008, ao mesmo tempo é e não é um interlúdio lírico na imensa obra de Pimenta. É notável que nada que o comerciante (o personagem principal e narrador do livro) tente transportar e comerciar se mantenha: ou o objeto é tomado, ou some por desencantamento. Nesse aspecto, parece-me um retrato original da crise europeia e da progressiva e pesada imaterialidade do capitalismo de hoje.

Nota: As duas primeiras fotos, tirei-as em julho de 2011 na beira do Tejo.

E um adendo: os olhos de Pimenta fazem-me lembrar o primeiro poema de Mensagem, de Fernando Pessoa, que termina: "O rosto com que fita é Portugal." Aqui, bem pode ser o rosto que fita a crise.
E a crise está latente em todo Mensagem; as três primeiras palavras desse primeiro poema são "A Europa jaz", e o penúltimo verso é "O Ocidente, futuro do passado." Agora, nem mesmo o presente.
Não sei em que medida Pimenta resolveu dialogar com Pessoa em O Desencantador; mas essa ideia me vem quando lembro que Mensagem, no último poema, após a constatação da histórica ruína política do Império Português, tenta a sua ressurreição mística com símbolos como estes:

Não foi para servos que nascemos
De Grécia ou de Roma ou de ninguém.
Tudo negamos e esquecemos:
Fomos para além.

[...]

O Portugal feito Universo,
Que reúne, sob amplos céus,
O corpo anônimo e disperso
De Osíris, Deus.

Quando lembramos disso, não podemos deixar de ver no livro novo de Pimenta uma mágica desencantadora dessas ilusões (que, em Pessoa, derivam do sebastianismo): o personagem principal torna-se servo, senão do rei, de suas próprias ilusões - e disso naufraga - e reunir o corpo de Osíris não impede que a ilha desapareça.
Pimenta consegue que os universos egípcio e grego do livro não constituam um refúgio no passado contra o presente. Nem mesmo o personagem do poeta, no livro, logra criar esse refúgio onírico. As "ilhas afortunadas" são mesmo, retomando Pessoa, "terras sem ter lugar". Aqui, cito Pimenta:

então a princesa dos três seios

não sei de que princesa falas
mas todas as princesas
são uma ilusão passado o primeiro dia [p. 62-63]


(os sonhos
cada vez mais me convenço disso
não têm mesmo
lógica nenhuma)
o mais provável
era ser um filme
americano [p. 52]

Em momentos como esses, temos um desencanto lúcido que no outro poeta, em Mensagem, irrompe às vezes: "Mas, se vamos despertando,/ Cala a voz, e há só o mar."
Sabemos que, em Pessoa, isso logo daria no réquiem que é "Elegia na sombra", poema de derrota de um país mergulhado no fascismo (ele era antifascista, vejam a reunião de seus textos contra Salazar).
A dimensão do nacionalismo, em contrapartida, falta inteiramente ao livro de Pimenta. E ele está certo: a crise de que ele fala não é só portuguesa, mas de um sistema.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Resenha do Século de Ouro, antologia da poesia portuguesa do século XX

Escrevi esta resenha há mais de sete anos para a antiga revista de poesia Cacto (São Paulo, n. 3, primavera 2003, p. 198-204), que era editada por Eduardo Sterzi e Tarso de Melo. Uma versão menor apareceu anteriormente em um revista de estudantes da graduação em Letras da USP, Metamorfose, editada pelos escritores, nessa época graduandos, Eduardo Lacerda e Andréa Catrópa.
Como as revistas não estão mais disponíveis, e a antologia continua sendo notável, resolvi incluir o textinho aqui.


O ouro do século: Apreciação da antologia da poesia portuguesa do século XX Século de Ouro

Pádua Fernandes

Um bom crítico, todavia, deve julgar os autores não por suas omissões, mas por seus relatos, e se achar qualquer inverdade nestes pode concluir que as omissões são devidas à ignorância; entretanto, se tudo que o autor diz é verídico o crítico deve admitir que o seu silêncio em relação a tais assuntos é deliberado e não decorrente da ignorância.
Políbio (História, Livro VI, parágrafo 11, tradução de Mário da Gama Kury)



Histórica, inafastável, antológica – e neste adjetivo, aparentemente tautológico, poder-se-iam resumir as qualidades de Século de Ouro: Antologia crítica da poesia portuguesa do século XX, organizada por Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra (Braga/Coimbra/Lisboa: Angelus Novus; Cotovia, 2002).
O que torna tão especial esta antologia? Em primeiro lugar, a sua estrutura: a cada poema corresponde um ensaio, explicitando que, por trás de toda antologia, existe (ou deveria existir) pensamento crítico.[1] Em segundo lugar, os antologistas sabem que uma antologia é um livro de história.
Devo, porém, precisar o que digo: na medida em que uma antologia corresponde a uma leitura de um período histórico, ela é um livro de história. Nos casos de antologias de literatura contemporânea, podemos comparar os seus riscos (sempre maiores) aos estudos de história contemporânea.
E a ignorância ou o menosprezo desse componente histórico presente em qualquer antologia explica o constrangimento de certos esforços, como o da Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea: Um panorama, organizada por Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno (Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1999).
Essa antologia feita no Brasil, embora apresente (mal) 72 poetas, é menos representativa do que Século de Ouro. O critério de contemporaneidade correspondeu a simplesmente escolher autores que tivessem nascido a partir do último ano do século XIX, 1900 - isto é, substituiu-se a história pelo calendário. Tal corte levou a exclusão de poetas como Fernando Pessoa, que, todavia, lançou sua sombra sobre toda poesia portuguesa do século XX - ele só passou a intervir na esfera pública com força após a sua morte. Poetas nascidos no século XX, mas não afinados com o tradicional lirismo português, como Alberto Pimenta,[2] também foram cortados – novamente, creio, por um repúdio à história, eis que ela é uma constante interlocutora do autor de Ode pós-moderna.
Posição oposta, deve-se lembrar, teve a histórica antologia organizada por Cecília Meireles, Poetas Novos de Portugal (Rio de Janeiro: Dois Mundos Editora, 1944). Ela foi o primeiro autor no Brasil a escrever sobre Fernando Pessoa. Viajou a Portugal para conhecer “o caso mais extraordinário das letras portuguesas” (p. 38), mas ele, simplesmente, não apareceu ao encontro marcado. Deixou, porém, um exemplar de Mensagem autografado. Esse grande desencontro da literatura de língua portuguesa por vezes é atribuído a incompatibilidades astrológicas entre os dois autores; mas talvez seja explicado pela solidão imensa que Pessoa havia conquistado nos seus últimos momentos de morte adiada.
Cecília estava plenamente consciente das questões do tempo na poesia e explicou, na antologia, que não escolheu poetas contemporâneos, e sim novos: “Pelos nomes incluídos, ver-se-á que são considerados “novos” ou seus precursores muitos poetas já não contemporâneos.” (p. 18). Dessa forma, Ângelo de Lima e Camilo Pessanha incluíram-se na antologia e contemporâneos “não novos” foram excluídos, coerentemente com um critério que não se resume à consulta do calendário.
Retornando ao Século de Ouro: não se trata – é preciso ressaltar – de um história da poesia portuguesa do século XX, nem de uma coletânea de micro-histórias, como os próprios antologistas deixam claro (p. 45 e 57). No formidável estudo que introduz a antologia, “Desaprender (com) a História”, Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra demonstram que, em primeiro lugar, o recorte temporal do século XX exige uma determinada concepção historiográfica: discutem Hobsbawn e o seu “curto século” e acabam por adotar um lapso temporal maior. Em segundo lugar, afirmam que uma antologia normalmente envolve a concepção de “história monumental”, no sentido dado por Nietzsche – e dessa vontade monumentalizante, normalmente implícita em todas as obras deste tipo, é que os antologistas buscaram fugir.
A estratégia de fuga à história monumental para se criar uma antologia verdadeiramente crítica está presente em várias táticas: uma delas é a ausência de uma autoridade interpretativa única: o livro compõe-se de 73 poemas escolhidos por 73 ensaístas (número a que se chegou por acaso, eis que 87 era a quantidade original de escritores) representando 47 poetas. Cada ensaísta escolheu uma lista tríplice de poemas; o trabalho dos antologistas foi o de escolher um poema dessa lista para cada um dos ensaístas. Daí a constelação de diferenças críticas: frankfurtianos, fractais, estudos culturais, marxismo, por vezes em luta direta.
Não seria o caso de comentar os ensaios neste breve texto, embora eu não me furte a destacar o estudo "arqueológico" de Miguel Tamen sobre "Soneto já antigo" de Álvaro de Campos. ("um crítico é alguém que lembra dolorosamente a terceiros que um casaco que viram de passagem numa montra e por que se apaixonaram [...] é afinal feito de um material pouco nobre", p. 156) e o de Pedro Serra sobre as metamorfoses galináceas de "Os ovos d'oiro" de Armando Silva Carvalho ("Um dos mijados pelo cão do tempo é a Poesia, com uma história de resto muito cara aos voos", p. 313).
Além da heterogeneidade crítica, outro fator que faz o livro escapar à tentação totalizante e tradicionalista própria das antologias é a ordem dos poemas: completamente casual, foi escolhida por um programa de computador!
A originalidade de Século de Ouro, pois, decorreu da consciência de que “a prática antológica não é possível fora de um horizonte crítico” (p. 39) e da adoção de uma perspectiva pós-histórica de sincronização de diversas contemporaneidades do século passado.
Não por acaso, a epígrafe da obra veio de Drummond: os ratos roendo o edifício do século. Assim termina a introdução: “Não somos os pósteros do século XX, não somos os executores testamentários do século XX, que, mais uma vez, no caso da poesia portuguesa, não acabou: Século de Ouro é meramente o nome de mais um dos seus recomeços.” (p. 65).
Lamentavelmente, a recepção crítica em Portugal tem muitas vezes ignorado o estudo introdutório – que, por sinal, responde às objeções levantadas por essa mesma crítica – e limitou a dedicar-se a lamentar a ausência deste ou daquele poeta. E, numa demonstração da trans-histórica estupidez da retórica dos políticos, deputados do Partido Socialista eleitos por Coimbra decidiram protestar publicamente contra a exclusão de Miguel Torga e Manuel Alegre (autores ligados aos socialistas)!
Não por outra razão, pois, escolhi Políbio para epígrafe desta resenha sobre uma antologia que tem como referência teórica autores como Derrida e Nietzsche: as ausências da antologia também possuem um sentido, pois compõem um perfil possível para o que a poesia portuguesa do século XX significou.
Mas Século de Ouro cria mesmo um perfil? Atrevo-me a dizer que sim; conquanto os antologistas tenham rejeitado, em nome de uma concepção pós-histórica, a busca da verdade da poesia portuguesa, parece-me defensável dizer que, no seu estudo introdutório, Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra tentaram fixar uma verdade sobre essa antologia. E é certo que buscaram fixar um método a todos os ensaístas: o modelo da close reading. Além do método, os organizadores fizeram a escolha a partir das listas tríplices - e não se deve diminuir a influência disso. Senão, o governo brasileiro não faria questão de intervir nas universidades públicas reservando-se o direito de escolher o reitor a partir dessas listas, não raramente o candidato menos votado!
Talvez mais importante do que a opção por essa leitura imanentista, os organizadores escolheram os ensaístas – e seria de esperar que Robert Bréchon, por exemplo, autor da bela biografia de Pessoa, Étrange étranger, escolhesse poemas do biografado. De fato, seu ensaio sobre “Magnificat”, de Álvaro de Campos, é um dos mais belos da antologia – e repete a história do gato materializado pela leitura, contada na biografia.
Creio apropriado, portanto, tentar interpretar o perfil da antologia e considerá-la um trabalho autoral, já que “nenhum poeta, nenhum poema ou nenhum leitor pode chegar a ter uma absoluta consciência de si” (p. 26). Ademais, a própria ordem casual deve ser interpretada, pois o acaso (já se sabe muito antes de Mallarmé) produz significado – para o confirmar, basta recorrer a um livro milenar como I Ching.
Gostaria de referir-me tão-somente a três pontos de leitura: o título; que conduz para o segundo, que é Pessoa; o terceiro, que é a esfera pública, que reconduzirá para o segundo.
O ruído do título: Século de Ouro é um título de ouro? E, se for, não desmentiria o intento pós-histórico dos antologistas? Trata-se de uma direta referência ao Siglo d’oro espanhol, sim, mas essa referência é positiva? Servirá para a confissão de um “atraso” da literatura portuguesa, já que foi no século XX que “tudo” em Portugal “começou” (p. 47), e que Portugal foi, como no soneto de Quevedo, “Avaro y rico, y pobre en el tesoro”?
O caso Pessoa: a “metáfora” século de ouro sustenta-se, bem dizem os antologistas, porque houve Fernando Pessoa (p. 37); no entanto, é de notar-se a ausência de Alberto Caeiro, justamente um dos heterônimos mais populares, e mestre dos demais.
É verdade que o século em Portugal começou ignorando Pessoa (autor por excelência póstumo); depois de morto, depois de o mundo tê-lo descoberto (e foi natural que a primeira edição “completa” – tanto se achou depois - tivesse sido lançada no Brasil), Portugal dedicou-se a glorificar Pessoa; e o século terminou, e o XXI se inicia, na tentativa de repudiá-lo. Nesse sentido, é interessante que o fim da antologia, que se dá com o poema “Elegia do amor”, de Teixeira de Pascoaes, comentado por António Cândido Franco, haja uma defesa de Pascoaes como o verdadeiro centro da poesia portuguesa do século,[3] e não Pessoa.
Não menos sintomático é o ensaio de Peter Sanmartinho, julgando irônico que a poesia de Pessoa, que já nada mais teria a dizer desde os anos setenta para a moderna crítica (!), esteja sendo recuperada por estudiosos ligados aos estudos culturais, tendo em vista os poemas de temática homossexual que estão sendo resgatados do fundo da arca.
Outro ponto é o da esfera pública e o lirismo. É interessante notar que os poemas de teor mais explicitamente político foram escolhidos por ensaístas estrangeiros, isto é, por não portugueses – como “Em Creta, com o Minotauro”, de Jorge de Sena, comentado por K. David Jackson; “You are welcome to Elsinore”, de Mário Cesariny, comentado por Perfecto E. Cuadrado Fernández; “As cinzas de Lenine”, de Fernando Guerreiro, comentado por Peter Sanmartinho; “Um adeus português”, de Alexandre O’Neill, por Luciana Stegagno Picchio; “Quase 3 discursos quase veementes” de António José Fortes, por Ruy Duarte de Carvalho.[4]
Como se sabe, a tradição democrática em Portugal, assim como no Brasil, é recente demais para ser chamada de tradição. E os longos anos de salazarismo levaram inevitavelmente a uma sensível degradação da esfera pública, marcando poetas como Jorge de Sena com o signo do exílio.
Nada menos natural, pois, que Eduardo Pitta afirme que "a guerra colonial praticamente não tem projecção ao nível da melhor poesia portuguesa" (p. 234). Os próprios antologistas, com a repercussão do livros, verificaram a não existência de "crítica pública" portuguesa.[5] Deve-se, porém, dizer mais: a própria antologia é um sintoma não só da falta de crítica pública, como da precariedade do espaço público. Não por acaso, convocou-se o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, e não um autor português, para definir o século na epígrafe do estudo introdutório. Afinal, a poesia portuguesa, mostra-nos esta antologia, em boa parte viveu um imaginário século dourado, e não o século XX.
Cabral, quando diplomata brasileiro na Espanha, costumava menosprezar a poesia lírica espanhola que podia ser publicada abertamente durante o franquismo por condescendência com o regime político. Estou longe de possuir os (inconsistentes) furores antilíricos de João Cabral de Melo Neto; muito menos acusaria o lirismo de inevitável complacência com o autoritarismo. Mas não me furto a notar que a poesia comentada pela maioria dos ensaístas portugueses representa antes de tudo um grande cancioneiro com crítica,[6] apesar da heterogeneidade – motivo por que se entende a exclusão de Alberto Caeiro, o mais antilírico dos heterônimos de Pessoa.
Na verdade Caeiro, com sua antimetafísica e sua recusa à mistificação, como lembra Sérgio Alcides, é a antítese de grande parte da poesia portuguesa contemporânea, inclusive Herberto Helder. Nesse quadro, Alberto Pimenta é uma das exceções, bem como António Franco Alexandre.
A ausência de Caeiro talvez seja um sinal de que a presença de Pessoa e, mais ainda, do seu “lirismo crítico”, crítico não só do lirismo como também do sujeito, ainda é perturbadora em Portugal - e, por isso, continua atual, como o ouro do século.


Notas
[1] Deve-se lembrar que recente dossiê sobre Drummond publicado pela Inimigo Rumor em 2002, elaborado por autores portugueses, entre eles Silvestre e Serra, adotou a mesma estrutura da antologia que nascia.
[2] Sua "Canção cuneiforme (antes e depois de dar o bicho)" é analisada por Maria Irene Ramalho em Século de Ouro.
[3] Defesa, é de lembrar, não criada pelo ensaísta, e sim por Cesariny.
[4] Uma exceção foi Vítor Manuel de Aguiar e Silva, que escolheu "Morte ao meio dia", poema político de Ruy Belo, e afirmou: "A naturalização da morte 'no meu país' exclui a ordem da violência" (p. 255). Note-se, por outro lado, que "O preto no branco", de Rui Knopli (que nasceu, deve-se lembrar, em Moçambique, e também foi marcado pelo exílio), embora sua imagética relacione-se com a guerra, pode, paradoxalmente, ser lido como um poema de amor: "Da granada deflagrada no meio/ de nós" (p. 233).
[5] Após uma falsa partida ou para reiniciar o debate sobre Século de Ouro, Inimigo Rumor, n. 14, 2003, p. 196-198.
[6] Lembre-se, por exemplo, de Eduardo Lourenço louvando Ruy Belo por ser um poeta de amores e desamores (p. 216); ou Fernando J. B. Martinho sobre Cristovam Paiva: "É, pois, a emotividade do poeta que ocupa, agora, o lugar central." (p. 296).