O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Annita Costa Malufe e Angélica Freitas: Ana C. e a poesia contemporânea brasileira

Neste último sábado, na estranhíssima Biblioteca São Paulo, projetada de forma que não haja silêncio para leitura (fazem parte de sua programação ruidosos eventos de música), consegui ouvir dois dos mais interessantes poetas contemporâneos brasileiros na série apresentada pela jornalista Mona Dorf, "Autores e ideias": http://autoreseideias.wordpress.com/2013/05/07/sabado-11-e-dia-de-falar-sobre-a-poesia-contemporanea/
Angélica Freitas e Annita Costa Malufe leram poemas e responderam a perguntas da conhecida jornalista, do público e do professor Ivan Marques (que também fez um trabalho marcante no jornalismo literário no programa Entrelinhas da TV Cultura), que expôs uma panorama da poesia brasileira do século XX e comentou poemas das autoras.
Um dos vídeos exibidos trazia parte do trabalho de Annita Costa Malufe com seu esposo, o compositor Silvio Ferraz. Este é um exemplo: https://www.youtube.com/watch?v=ewsHPnuYRlo
Já escrevi como Ferraz é um compositor altamente inspirado pela literatura (http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2011/11/desenhar-um-lugar-tropico-das.html). Com sua música, temos a exacerbação do inarticulado no texto poético dessa autora. Muito apropriadamente, além da deformação sofrida por sua voz pelos meios eletrônicos, ela sussurra algumas passagens de seu poema, com momentos de ininteligibilidade.
Penso que a aspiração à música, tão presente nos três livros de poesia da autora, Fundos para dias de chuva, Como se caísse devagar e Quando não estou por perto, encontra nessa parceria uma deriva interessante, pois sua poética tem origem, creio, na imagem de "jazz do coração" que Ana Cristina Cesar emprega no poema "Este livro", de A teus pés. Annita Costa Malufe estudou essa poeta, devemos lembrar, no mestrado e no doutorado, e sua dissertação foi publicada: Territórios dispersos: A poética de Ana Cristina Cesar (São Paulo: AnnaBlume; Fapesp, 2006). Creio que o que ela vê nesta poeta é o que deseja para sua própria poesia:
Não busquemos o que está oculto nas palavras, no sentido de um significado fixo, escondido entre as linhas, codificado. O poeta não busca colocar símbolos no papel, como sinais nas placas de trânsito: uma coisa substituindo a outra, uma coisa remetendo a outra especificamente determinada. Não é mais de um senso comum de que se fala, mas antes, de um senso múltiplo a ser construído, sentido sempre por se fazer e que não é único e nem unificável, mas sempre uma multiplicidade. [p. 107]

Em que sentido esta poesia poderia aludir ao que ouvimos no jazz? A pergunta impõe-se também quando lembramos que ele não é o idioma musical que Silvio Ferraz emprega nas parcerias com a poeta. Creio que uma resposta plausível estaria na estrutura dos poemas, que tantas vezes parecem com um improviso sobre certas palavras. Vejam, por exemplo, o início deste poema da parte VII de Quando não estou por perto (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012):
só aquela cidade poderia me curar os passos
de um gato no escuro o gato preto só aquela
cidade o cheiro da boca do metrô eu estaria então
doente de uma espera sem nome um objeto
não identificado só aquela cidade o cheiro a
espera por um esquecimento buscar loucamente um [p. 150]

O fluxo poderia continuar indefinidamente, e o poema continuaria sendo uma "espera sem nome" pelo objeto que ele não agarrará, como outros poemas dessa autora que se interrompem em pleno fôlego. Quem procura objetos formais fechados não apreciará esta poesia, que nos convida a conhecer a voz do poeta no meio do processo do poema, que começou antes do primeiro verso e terminará adiante, quando não estivermos por perto.
Não se trata de qualquer jazz, portanto; talvez o que estes grandes músicos agrupados em torno de Miles Davis fizeram com Les feuilles mortes (a clássica canção de Kosma e Prevert) seja algo comparável: https://www.youtube.com/watch?v=SX4i9CieZYk. Os ouvintes que procuram o tema da música ficam perplexos...
Uma poética muito diferente é a de Angélica Freitas, sobre quem já escrevi (http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/10/angelica-freitas-e-o-tamanho-da.html) que também, no sábado, falou do impacto que lhe trouxe a leitura de Ana Cristina Cesar, ainda na adolescência. Espantou-se com o fato de que poderia se escrever "assim".
Imagino, porém, que a Ana Cristina presente na obra de Angélica Freitas não é a de Annita Costa Malufe. Para esta, A teus pés; para aquela, Cenas de abril, com seus poemas de caráter eticamente mais desafiador e de conteúdo menos deslizante. Lembremos, por exemplo, do início da primeira parte de "Arpejos", que foi publicado na célebre antologia que Heloísa Buarque de Holanda fez nos anos 1970: "Acordei com coceira no hímen. No bidê com espelhinho examinei o local. Não surpreendi indícios de moléstia."
A recusa ao sublime, ainda esperado na poesia pelo leitor médio, e a forma como o feminino aparece nesse livro de Ana Cristina Cesar ainda podem incomodar. A poesia de Angélica Freitas, em vários aspectos tão diferente dessa outra autora, gera incômodos semelhantes em leitores eticamente e/ou poeticamente conservadores, isto é, aqueles que desejam um papel de gênero tradicional para o feminino, bem como os que adotam uma visão tradicionalista do gênero poético.
Ivan Marques comparou um poema do primeiro livro de Angélica Freitas, Rilke Shake (São Paulo: Cosac Naify, 2007), com seu modelo: "O grande desastre aéreo de ontem", de Jorge de Lima. Angélica já contou a histórias várias vezes e voltou a fazê-lo para aquela plateia do sábado: em uma oficina de poesia, Carlito Azevedo propôs como exercício escrever um poema a partir da visão de um dos personagens desse poema de Jorge de Lima. Ela escolheu o violinista. Escrito o poema, "o que passou pela cabeça do violinista em que a morte acentuou a palidez ao despenhar-se com sua cabeleira negra & seu stradivárius no grande desastre aéreo de ontem", que ela, inicialmente, não queria apresentar, Carlito Azevedo percebeu que estava diante de um grande talento e deu-lhe o incentivo e a oportunidade de publicar o livro de estreia.
Bartók, Rita Lee, Stravinsky, notas musicais e outras coisas passam pela mente do músico (pela enumeração, sabemos que certamente não era a grande Ginette Neveu - http://www.youtube.com/watch?v=ThHPPOoSAwQ, morta em um acidente do mesmo tipo, quem inspirou a poeta) antes da morte, anunciada com humor: "que o chão é lindo & já vem vindo/ one/ two/ three".
No sábado, ouvimos o desabafo de Angélica Freitas de que não seria cobrada da mesma forma se escrevesse contos: "Por que em um poema não pode entrar Rita Lee?"
Compreendo perfeitamente a autora. Há fiscais da alfândega que querem determinar o que pode entrar no território poético. Trata-se de burocratas que querem passar por poetas ou críticos.
Com esse tipo de reação, entende-se que professores de literatura (digamos) que já escreveram coisas inteligentes possam falar que o próprio título do segundo livro de Angélica Freitas, “Um útero é do tamanho de um punho”, não é poesia, pois um útero é mesmo desse tamanho!
Contudo, precisamente esta é a força de Angélica Freitas: da mera constatação biológica, retirar, pela simples transformação do contexto (em um texto médico e em um livro de poesia, a frase não possui o mesmo sentido, óbvio), em imagem de um feminino pronto para o combate, nem que seja apenas para um murro no nariz desses burocratas.
Veja-se também a força de Ana Cristina Cesar, que informa tantas poéticas diferentes de hoje, como as de Annita Costa Malufe e Angélica Freitas que, devo ressaltar, não imitam esta autora, possuem voz própria. Elas tampouco esgotam o rol de poetas influenciados, que inclui autores homens.
Veja-se como Ana C., ela mesma, é vária, não se limitando à imagem redutora que Luciana di Leone descreveu e criticou como "o mito que proliferou na academia e na crítica, o sujeito inapreensível mascarado nos diferentes eus do texto, a significação aberta, a voz em permanente devir e a autora - genial - que consegue deslizar de qualquer definição." (Ana C.: As tramas da consagração. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008, p. 92).

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Vídeos da Voz do Escritor, com Eduardo Sterzi

Já escrevi sobre Eduardo Sterzi por ocasião da participação dele (e minha) no evento Voz do Escritor em 14 de junho de 2011.
O evento é organizado pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Nele, já vi, sempre em duplas, Waldo Motta e Ricardo Aleixo, João Gilberto Noll e Cristovão Tezza, Francisco Alvim e Chacal... E gostei de ouvir os escritores em uma conversa com os professores e o público.
Em razão da relevância dos autores que são chamados para falar, não esperava que eu fosse participar dessas conversas, pelo menos não já em 2011. Naquela ocasião, compuseram a mesa os professores (a quem agradeço pela confiança no que escrevo) Jorge de Almeida, Roberto Zular e Fábio de Souza Andrade (que me convidou pessoalmente). Quanto a Eduardo, é evidente que ele tem muito a dizer e que sua fala foi enriquecedora para o público - e para mim.
Fabio Weintraub filmou os trabalhos, mas a bateria caiu. Infelizmente, a câmera já tinha entrado em coma quando vieram as perguntas do público. A pergunta de Fábio de Souza Andrade não foi gravada, mas as respostas sim. Eduardo leu e comentou Borges, o que também foi perdido. E acho que o que fiz melhor foi a leitura de trechos de meu poema hidrelétrico, que também não foi captada.
Há, porém, mais de uma hora para se ver, que dividi, em minha edição, em nove partes. Basta clicar nelas que se abrirá o vídeo no YouTube.



Parte I: Abertura por Jorge de Almeida; apresentação de Eduardo Sterzi por Roberto Zular; Eduardo Sterzi lê "Pássaro-de-ouro" do livro "Prosa".
Jorge de Almeida abre os trabalhos ressaltando a proximidade entre os dois convidados. Zular acentua a variedade na obra de Eduardo Sterzi, que também é crítico, e o autor fala do caráter de coletânea do primeiro livro, "Prosa".



Parte II: Eduardo Sterzi lê "Outro cacto" de "Prosa" e "Personagens" de "O aleijão".
Trata-se de dois momentos e estilos bem distintos da poética de Eduardo.

Parte III: Apresentação de Pádua Fernandes por Fábio de Souza Andrade.
O professor Fábio de Souza Andrade ganha o "O palco e o mundo", que está segurando na foto e lê a generosa resenha que escreveu sobre "Cinco lugares da fúria".




Parte IV: Pádua Fernandes lê poemas de "O palco e o mundo" e "Cinco lugares da fúria" com Eduardo Sterzi.
Parceria improvisada para o segundo poema. Meus textos estão incluídos na descrição do vídeo.

Parte V: Roberto Zular pergunta a Pádua Fernandes e Eduardo Sterzi.
Momento em que se descobre que um dos convidados está mais para Mahler e, o outro, para Webern.

Parte VI: Eduardo Sterzi responde a Fábio de Souza Andrade sobre Dante e o sujeito poético; leitura de Francisco Alvim e de "Jogo" e "1º. de janeiro" de "O aleijão".
Veem-se aqui o Sterzi teórico da literatura e o poeta, talentos que raramente se encontram combinados.

Parte VII: Eduardo Sterzi lê "Escada" de Carlos Drummond de Andrade
Nada menos do que um dos grandes momentos da poesia brasileira, e da poesia do século XX, lido por Eduardo Sterzi.

Parte VIII: Pádua Fernandes responde a Fábio de Souza Andrade e lê Murilo Mendes e Ana Cristina Cesar.
O que falei sobre Ana Cristina Cesar, escrevi no blogue, e trouxe para este espaço um textinho sobre Murilo Mendes, escrito há tempos.

Parte IX: Pádua Fernandes lê Alberto Pimenta, Fabio Weintraub, Eduardo Sterzi e Julián Axat.
A inexistência de Alberto Pimenta, em sua primeira versão, foi a segunda nota deste blogue. E a primeira foi uma entrevista, em vídeo, que fiz com Axat, com a tradução do poema que li nesse dia.

Digo isto ainda: faço uma declaração sobre São Paulo no quarto vídeo. As bombas e os tiros que passaram a assumir o papel de políticas públicas no Estado de São Paulo fazem-me, infelizmente, corroborá-la.

domingo, 16 de outubro de 2011

30 dias de leituras: Desejando Whitman

30 livros em um mês

Dia 27: História de amor favorita

"I stop somewhere waiting for you" - Um autor que se oferece como se a um amante, e escreve um livro que é um corpo desejante. Um autor que faz explicitamente da literatura um ato de amor a todos, democraticamente. Essa foi uma das ambições de Walt Whitman em Leaves of grass (Folhas de relva).
O impacto de Whitman na poesia ocidental foi enorme: Pessoa, Maiakóvski, Garcia Lorca e vários outros homenagearam-no em seus poemas. Pound, que chegou a dizer que só havia encontrado trinta páginas bem escritas em Leaves of Grass, porém já não mais as achava, reconciliou-se com Whitman no poema "A Pact".
Ana Cristina Cesar, sobre quem escrevi há pouco, na conversa que teve com alunos de Beatriz Rezende, publicada em Crítica e tradução, traduziu alguns versos de Whitman e comentou: "Olha só, 'eu caio das páginas nos teus braços', é um homem que, de repente, ele assume esse desejo de que o texto não seja meramente texto."
Visto que a literatura, assim como os corpos, tem o poder de despertar desejos, de fato um poema não é só texto... A poesia de Whitman diversas vezes celebra os corpos - ele escreve que prefere um belo corpo a um belo rosto. Também na prosa encontramos passagens como esta, de Specimen Days: "Doce, sã, calma Nudez na Natureza! - ah se a pobre, doente, lasciva humanidade nas cidades pudesse realmente conhecer-te uma vez mais! Não é, então, a nudez indecente? Não, não inerentemente. É o seu pensamento, sua sofisticação, seu medo, sua respeitabilidade que é indecente."
A primeira edição de Folhas de Relva, por sinal, não trazia o nome do autor, mas a imagem do seu corpo (a assinatura...) no frontispício - a que incluí nesta nota.
Para Whitman, o amor era um laço cívico, mas também podia ser uma relação de natureza sexual entre duas pessoas. Manifesta-se aí mais um elemento heterodoxo da poesia de Whitman (seu verso longo e livre já o tornava distinto do que geralmente se fazia em língua inglesa), pois há uma seção de Leaves of grass dedicada a esse tipo de amor, e que se dá entre homens – um amor entre camaradas, o que se torna claro em Calamus. Algo bastante ousado para o século XIX, e de que Oscar Wilde, mais tarde, não foi capaz com essa franqueza (o processo teria vindo antes, certamente, se o tivesse feito).
As duas facetas do amor se unem nessa obra; concordo com Roy Harvey Pearce "for as their function in the 1860 volume shows, the "Calamus" poems were to carry through to completion the poet's conception of his painfully loving relation with his readers" (em Whitman: A collection of critical essays).
Essa junção de erótica com política e poética é notável; creio que Allen Ginsberg foi especialmente inspirado por essa conjunção - ele, que chamou o poeta do século XIX "pai" mais de uma vez na sua poesia. Em uma célebre carta de Ginsberg, escrita em 18 de maio de 1956 a Richard Eberhart (publicada em The letters of Allen Ginsberg, livro organizado por Bill Morgan para Da Capo Press), temos a explicação da gênese de seu livro Howl. Nele, há um poema para Whitman, "Supermarket in California"; na carta, Ginsberg afirma que aquele autor foi o primeiro grande poeta dos EUA a reconhecer a própria individualidade, perdoando e aceitando a "Si Mesmo", e estendendo esse reconhecimento e essa aceitação para todos, definido assim a democracia.
Muito mais tarde, em 1984, Ginsberg escreveu um poema com o revelador título "I Love Old Whitman So" (publicado em White Shroud), em que se diz emocionado pelo verso "Quem toca este livro toca um homem".
No Brasil, Geir Campos publicou uma antologia que não é boa, pois corta o fôlego dos versos de Whitman. Rodrigo Garcia Lopes, respeitando a poética original, publicou pela Iluminuras uma tradução - com um alentado posfácio - da primeira edição de Leaves of Grass, de 1855. "Cálamo" veio depois, em 1860 - Leaves of Grass, como um organismo, foi sendo aumentado até a chamada edição do leito de morte, que Bruno Gambarotto traduziu e lançou neste ano pela Hedra.
Gosto muito deste poema de "Cálamo", "When I Heard at the Close of the Day", uma das histórias de amor do livro que é todo um corpo desejante, e discordo um pouco da tradução de Gambarotto neste ponto. Faço a minha para que possam dela discordar também.
Advirto que os versos começam com as maiúsculas de início de linha - as linhas que começam com minúsculas são, na verdade, continuação de um verso (não consigo indicar a quebra deles aqui):

Quando ouvi no fim do dia como meu nome havia sido recebido com aplausos no capitólio, mesmo assim para mim não foi uma noite feliz a que se seguiu,
E mais, quando eu festejava, ou quando meus planos se realizavam, mesmo assim eu não estava feliz,
Porém no dia em que levantei na alvorada com saúde perfeita, refeito, cantando, inalando o sopro maduro do outono,
Quando vi a lua cheia no oeste empalidecer e sumir na luz da manhã,
Quando perambulei sozinho pela praia, e me banhei despido, rindo com as águas frias, e vi o sol se levantar,
E quando pensei que meu querido amigo meu amado estava a caminho, Oh então fiquei feliz,
Oh então cada respiração era mais doce, e durante todo aquele dia a comida alimentava-me mais, e o belo dia passava bem,
E o seguinte veio com igual alegria, e com o próximo, no entardecer, chegou meu amigo,
E naquela noite enquanto tudo estava calmo eu ouvia as águas fluírem lentamente até a costa,
Ouvi o murmúrio sibilante do líquido e da areia como se dirigido para mim, sussurrando para me congratular,
Pois aquele que mais amo dormia ao meu lado sob a mesma coberta na cálida noite,
Na calma no luar de outono a face dele estava inclinada para mim,
E seu braço repousava suavemente sobre meu peito - e naquela noite fui feliz.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

30 dias de leituras: Carta sobre Ana Cristina Cesar

30 livros em um mês

Dia 25: Um livro de que você não gostava e agora ama.

Eu não gostava porque não tinha lido, simplesmente por isso; conhecia apenas alguns trechos publicados em antologias. Por estupidez minha, também. Não me lembro quando, aos vinte e tantos anos, é que percebi que se tratava de uma autora genial e passei a caçar o livro, que não estava em catálogo porque a editora, que tinha sido importante nos anos 1980, havia sofrido muito com a morte inesperada de seu dono.
Achei-o na capa original, de Waltercio Caldas. Depois, o Instituto Moreira Sales e a Ática, em conjunto, relançaram-no com outro projeto gráfico. Trata-se de A teus pés, de Ana Cristina Cesar.
Já escrevi que a considerava uma poeta política - expliquei-o quando estive no evento Voz do Autor da USP, aliás. E disse que fui influenciado por ela, que não tem culpa disso.
É interessante, para relê-la, perceber o complexo jogo intertextual da autora; perceber como ela se apropria criticamente de textos alheios, em vez de, como fazem certos poetas brasileiros, citar versos alheios para ficar bonitinho, para parecer erudito, por esnobismo, para dar menos trabalho ao eventual tradutor. Aconselho, já que a tese de Michel Riaudel não foi publicada, a assistir à conferência de Riaudel, em ótimo português, na USP, e que menciona o trabalho de tradução e os diversos erros nas edições póstumas da poeta. Estranhamente, pouca gente o viu no YouTube; estudantes de Letras, cadê vocês?
Outro problema é que nas partes 5 e 6 repetiram o mesmo vídeo...
Riaudel é o seu tradutor na França. Em francês, pode-se ler este artigo sobre o mesmo assunto: Cesar como tradutora.
Nos idos de 1998, certo escritor, Bruno Tolentino, assinou em uma revista de variedades mensal resenha da reedição de A teus pés, indignadíssimo com o cuidado projeto gráfico do IMS e da Ática, que estaria a vestir uma poesia indigna. O título da resenha bem condizia com a falta de sutileza do poetastro: "A lorota de Ipanema".
A resenha tinha vários erros (e mostrava que o Tolentino nem tinha lido de verdade o livro, que ele achou que era a "obra completa" da autora). Escrevi uma carta impublicável em resposta. A revista não o fez, publico-a agora, achando engraçado o modo como eu escrevia antes dos trinta anos:


[...] espantei-me de encontrar um artigo sobre anedotas no número 11 da revista: "a lorota de Ipanema" (p. 64). Título enganador, porém: o artigo não é sobre anedotas de bairro, é apenas anedótico: uma tentativa de resenha, fracassada em quase todos os pontos, como se verá adiante. Não se discute, é claro, a opinião do resenhista, que é assunto subjetivo; o que se deseja apontar é o seu desconhecimento da poesia em geral e sua leitura escandalosamente epidérmica da obra em questão, A teus pés, de ana Cristina Cesar.

1. Desinformação:
1.1 A teus pés, ao contrário do que pretende o resenhista, não é a obra póética completa; quantidade maior que a publicada ficou inédita à época da morte da poeta, e foi lançada pela Brasiliense. Ivan Junqueira, poeta, tradutor e intelectual admirado pelo resenhista (mas não muito lido, provavelmente) escreveu emocionado ensaio sobre Inéditos e dispersos (In Memoriam, O Encantador de Serpentes, Rio de Janeiro: Alhambra, p. 199-210, 1985).
1.2 Entre os versos destacados como "amostras grátis" da "versão canônica do banal e do gratuito", está, muito curiosamente, uma passagem de Drummond que foi objeto da "cleptomania estilística" (na expressão do prefaciador) da autora; Drummond, poeta em que o resenhista ainda não tinha reconhecido "inconsequências travestidas de incompletude". Nunca é tarde para começar uma revisão crítica.
1.3 É evidentemente despropositado tentar impingir uma imagem de imaturidade poética a uma "artesã" (já que o resenhista prefere o léxico parnasiano) do verso que dialoga com Drummond, Eliot, Baudelaire, Mallarmé e vários outros, como Jorge de Lima, Whitman, Bandeira, Kerouac. Trata-se de autêntico diálogo: Ana Cristina Cesar jamais professou o verso servil e laudatório como estes: "Emily que conheces o preço,/ o ganho e o risco,/ Emily Dickinson." ("As espécies menores"), "Ó Merquior,/ meu velho amigo/ prefaciado", "por mais que imite/ Carlos Drummond/ Dona Cecília/ e Rainer Maria,/ perdi na rifa", "Murilo Mendes,/ Drummond, Vinicius,/ Cecília e Jorge/ tiram do alforje/ ou das algibeiras/ ritmo, rima" ("Uma romã para 1997), todos do último/primeiro livro do resenhista, Anulação e outros reparos.
Ana C., muito pelo contrário, não precisa imitar ninguém nem pedir licença para compor: desmistifica Bandeira e Baudelaire e, num poema cuja aparente simplicidade é das mais capciosas, vira de pernas para o ar a poética de Mallarmé como exposta em "Salut": "Nada, esta espuma" (p. 97) - o título, apenas, já é extraordinário por dar sentido completamente outro a "Rien, cette écume": à abstração, à "espuma" mallarmaica, a poeta prefere a materialidade da escrita.[...]

2. A epiderme alfabetizanda:
2.1 Um dos trechos destacados pelo resenhista do que ele chamou "diário juvenil de óculos Ray Ban" é uma leitura feminista de um conhecido poema de Manuel Bandeira, "Irene no céu", que a autora recebeu autografado do próprio poeta. Pela escolha dos trechos que mais causaram enfado ao resenhista, vê-se que é a voz feminina que lhe causa repugnância. Sabe-se da admiração dele por Cecília Meireles, mas esta grande escritora representa um lirismo tradicional [...] Já Ana Cristina é claramente a mulher após a revolução sexual, que refuta a visão tradicional do feminino. Dessa forma, ela vira ao avesso a Irene que Bandeira tornou imaculada (a mulher, em Ana, recusa-se a ter o seu desejo domesticado pelo homem) e abomina os versos lésbicos de Baudelaire (ousados para a época, não deixam de cair no estereótipo) num poema que é dos mais originais da língua, "21 de fevereiro"(p. 106) e recebeu apreciação de Ivan Junqueira (À sombra de Orfeu, Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, p. 190-191, 1984). Não perceber a radicalidade da questão do gênero na poesia de Ana Cristina ("Posso ouvir minha voz feminina: estou cansada de ser homem.") é professar uma evidente desleitura. Ou, simplesmente, machismo.
2.2 O resenhista caiu como um pato (respeitosamente emprego um significante muito repetido em Luvas de pelica de Ana C.) no conto da confissão; Caio Fernando Abreu também caiu nessa, na antiga contracapa de A teus pés. O verso de Ana não confessa nada, ou melhor, não mais do que qualquer outra poesia legítima, pois, se a poesia é fingimento, é fingimento do que se sente (a lição pessoana). A poeta não revela nada diretamente: ela desconstrói noção de confessionalismo, subverte a questão da intimidade para repensar a própria linguagem poética, como brilhantemente percebeu Silviano Santiago na conferência "Singular e anônimo" (Nas malhas da letra, São Paulo: Companhia das Letras, p. 53-61, 1984).
2.3 À questão da transitividade da linguagem poética, acrescento que Ana Cristina, com sua armadilha do aparente confessionalismo, lida novamente com o gênero. A própria autora dá a pista para essa leitura, em depoimento na Faculdade da Cidade, quando lembra que historicamente a escrita da mulher surgiu da intimidade: cartas, diários. Ana se posiciona historicamente como voz feminina.
O resenhista não percebeu nada disso, mas acertou onde não viu: a incompletude da poesia de Ana. Acertou, é bom dizer, muito de longe: pois essa incompletude não advém apenas do desaparecimento prematuro da autora e não significa uma "inconsequência carioca". A incompletude decorre do caráter experimental de sua poesia, que, ao contrário da de autores que só fazem modular, com rimas mais ou menos pobres, metros do passado numa sensibilidade ainda sub-rilkiana (sim, é uma referência ao resenhista), experimenta formas diversas [...] e, principalmente, é portadora de uma nova poética que não se fechou sobre si mesma. Ela aponta para o futuro e, provavelmente, inspirará escritores mais jovens.
Não se deve culpar o resenhista por não ter entendido nada: ele já pertence a outra época. Sua alta reside em outro lugar, que não é a poesia.
Que o resenhista, em uma comparação sórdida, queira contrapor Cruz e Sousa a Ana Cristina Cesar é, em princípio, despropositado pois suas obras não guardam semelhança alguma. O fim de Bruno Tolentino, contudo, é bem outro: comparar a morte de ambos, ressaltando o caráter voluntário da de Ana Cristina Cesar para ridicularizar a poeta, assimilando a sua queda fatal à "dos critérios" e ousando uma alusão irônica ao poema "18 de fevereiro" (p. 103).
Como dizia Fernando Pessoa, brincar com os deuses, a morte e a loucura é próprio da baixeza de alma; e só quem está abaixo da última canalha das ruas é capaz de fazê-lo sabendo que mente.
Não é o caso do resenhista, pois, como já vimos, ele manifestamente não sabe.

P.S.: Escrevo também que, nessa fase em que passei a ler Ana Cristina Cesar, vi duas vezes o espetáculo de dança de Marcia Rubin, Tudo que eu nunca te disse, de 1997. Desde o título, baseava-se na obra da escritora, e era de uma grande inteligência dramática e profundo entendimento dessa poesia. Seria bom que fosse remontado.

sábado, 18 de junho de 2011

Desbloqueando a cidade II: Marchando com Ana C.

Neste sábado haverá uma Marcha Nacional pela Liberdade em várias cidades brasileiras: Rio de Janeiro, Fortaleza, Belo Horizonte, São Paulo, São Carlos... Trata-se de um processo desde a proibição (em algumas cidades) da Marcha da Maconha e a repressão policial em São Paulo em 21 de maio, com a subsequente realização da Marcha da Liberdade, sobre que escrevi há poucos dias.
Talvez eu não tenha ressaltado devidamente o caráter multifacetado da manifestação. Abaixo, vê-se cartaz no metrô de Santa Cecília, em que se anunciava a "Marcha das marchas", uma espécie de direito à política.






Participei da Marcha, assim como Fabio Weintraub, com o símbolo do #desarquivandoBR. Na nota que escrevi na ocasião, destaquei a questão dos crimes da ditadura militar. Muitas outras demandas, porém, estavam presentes, como o protesto contra o assassinato dos castanheiros e defensores da Floresta Amazônica José Cláudio e Maria do Espírito Santo. A Marcha fez um minuto de silêncio diante do Cemitério da Consolação em homenagem aos mortos. Abaixo, cartaz pela liberdade de expressão e contra a criminalização dos movimentos sociais. Um rapaz segura um cartaz "Planet Hemp".
A Marcha desceu, alcançou o Teatro Municipal de São Paulo (teria sido interessante que os corpos artísticos do Teatro, ainda antes da reinauguração, tivessem preparado algo para celebrar a Marcha, mas nada foi feito nesse sentido). Entrou na Barão de Itapetininga, sempre acompanhada por um grande efetivo policial, até chegar à Praça da República, onde se dissolveu sob a noite. Veja a bicicleta na Praça - os ciclistas também compareceram com suas demandas por uma outra cidade.









































































Algumas das demandas eram as de caráter especificamente feminino, como os chamados direitos reprodutivos. Depois, em junho, contra o machismo, veio a Marcha das Vadias. Não pude vê-la, mas, talvez inspirado por ela e por outras manifestações, aqui, no Marrocos, na Síria, na Espanha, falei de certa marcha em um dos poemas políticos mais surpreendentes da literatura brasileira: "21 de fevereiro" (leiam-no) de Cenas de Abril (livro recolhido a A teus pés) de Ana Cristina Cesar.
Quando estive no Voz do Autor no último dia 14, Fábio de Souza Andrade fez uma pergunta complexa a mim e a Eduardo Sterzi sobre o eu lírico. Respondi com Murilo Mendes ("A marcha das constelações me segue até no lodo") e Ana Cristina Cesar, a quem atribuí a qualificação de "poeta política", talvez para o escândalo de alguns presentes.
Esse poema, a que já me referi neste blogue - mas somente em sua dimensão lírica, da poeta dirigindo-se à sua "querida" - também apresenta uma marcha pública. Não é difícil perceber do que se trata, embora várias análises prefiram ignorá-lo, cedendo à heteronormatividade: ela entra na "sapataria popular", procura "na vitrina um modelo brutal"; antes, ela "era 36, gata borralheira, pé ante pé, pequeno polegar, pagar na caixa, receber na frente". Trata-se do estigma da sapatão, desafiado aqui: "As alemãs marchando que nem homem."
A poeta desafia o estigma popular e confronta valentemente também seus companheiros de ofício, de quem criticou, mais de uma vez, as representações femininas. Baudelaire ("Abomino Baudelaire querido") tem poemas sobre lésbicas, em que as mulheres que amam mulheres não se podem reconhecer. Ana Cristina apodera-se do grande soneto "Recueillement", que começa com "Sois sage, ô ma Douleur"; esse primeiro trecho torna-se "Fica boazinha, dor; sábia como deve ser", pois é da dor que se fala. Entra Bandeira, com sua visão patriarcal da mulher (que ela critica em outros poemas, como o do Irene no céu), que ela revira ao avesso: em vez de "Belo belo belo,/ Tenho tudo quanto quero", lemos em Ana Cristina "Belo belo. Tenho tudo que fere".
O que ela quer é o que a fere, sob os estigmas populares e os da alta cultura. Um amor que reivindica participar da esfera pública, ser reconhecido como tal: "As cenas mais belas do romance o autor não soube comentar."
Nessa briga pela palavra pública, o poema ainda apresenta mais uma genial intertextualidade. De Bandeira, "Bandeira do Brasil" segundo Drummond, passa-se para um outro símbolo nacional: há algo que possa ser mais oficial do que um Hino à Bandeira? E um Hino cuja letra foi escrita pelo antigo Príncipe dos Poetas, Olavo Bilac? Ana Cristina Cesar subverteu o oficialismo transformando "Recebe o afeto que se encerra no meu peito." em uma fala de amor para outra mulher - o peito "varonil", que rima com "Brasil" no oficialismo bilaquiano, é cortado.
Ela quer, portanto, construir outro país, onde esse amor seja possível. Essa tarefa é política. Novamente, aqui, a apropriação que ela faz de Baudelaire é subversiva.
No dia da palestra, a professora Viviana Bosi, que muito escreveu sobre a poeta e organizou o Antigos e Soltos para o IMS, insistiu no soneto. Eu não estava com ele nessa ocasião. Reli-o e pensei em várias coisas; o trecho "Ma Douleur, donne-moi la main; viens par ici,/ Loin d'eux. Vois se pencher les défuntes Années," e o final "Entends, ma chère, entends la douce Nuit qui marche." também são parodiados por Ana Cristina Cesar e transformados para outros fins: "Minha dor. Me dá a mão. Vem por aqui, longe deles. Escuta, querida, escuta. A marcha desta noite. Se debruça sobre os anos neste pulso." As alegorias do poeta francês são substituídas por algo mais carnal e próximo. A marcha desta noite é também a das alemãs, que querem abrir espaço com seus próprios pés, e esse desbravamento é escrito com o pulso da poeta, enquanto ela se dirige para a sua "querida".
Talvez o mais irônico, porém, seja o fato de que o soneto de Baudelaire tem por título "Recolhimento". Ele foi subvertido para se transformar em parte da argamassa que celebra uma marcha de lésbicas.
O que dizer para uma poeta como essa? O mesmo que ela diz para sua dor: "Não me deixa agora, fera."

domingo, 8 de maio de 2011

Matrimônio igualitário no Brasil? A cruzada no STF I


O Supremo Tribunal Federal, no Brasil, decidiu, nas ações ADI 4277 e ADPF 132 (que foram unificadas devido a seu objeto comum), sobre a união estável, reconhecendo que ela existe também entre casais homossexuais - ou homoafetivos, como preferiu o relator da ação, Ayres Britto.
O caso tem várias implicações - ainda mais porque a lei da união estável, no Brasil, permite a conversão em casamento, o que provavelmente gerará novas campanhas judiciais e publicitárias de ódio contra os homossexuais.
Queria apenas comentar, nesta nota, a sustentação oral dos advogados que falaram pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e pela Associação Eduardo Banks: http://www.youtube.com/watch?v=cIliHsUqwe4
As duas entidades entraram como amicus curiae, isto é, não como partes da ação, e sim para trazer contribuições ao juízo - isso no plano formal. Na prática, vieram contestar o pedido, para que as uniões estáveis (que são um pecado para os católicos, mesmo se os pares são de sexos diferentes) se mantivessem um privilégio de casais heterossexuais - o que seria o equivalente a impor a toda população os preconceitos bíblicos ou corânicos.
Aquelas duas organizações foram expor na Corte a lógica teocrática - de que a norma religiosa deve ser a norma suprema - e perderam, neste momento. Mas, certamente, continuarão sua cruzada, literalmente falando.
A felicidade alheia faz sugerir formas outras de vida (se a homossexualidade não fosse uma tentação, ela não seria combatida...), e é contra isso que combate a lógica teocrática. Essa "lógica" é uma das principais inimigas da alteridade, e, onde aplicada, gera a guerra (os confrontos fratricidas no Egito estão a estourar), o crime e a violência, o abuso e a hipocrisia.
O advogado da CNBB, Hugo José Sarubbi Cysneiros de Oliveira, começou afirmando que a pluralidade tem limites e que devemos saber disso ao nos "contratarmos socialmente" (todos sabem que o contrato social não é um fato histórico nem em Hobbes nem em Locke, mas o advogado obviamente não se refere a tais pensadores) com uma constituição política. Non sequitur: o advogado, em vez de tratar politicamente o assunto, apenas tenta reafirmar os limites religiosos contra a liberdade, e que não foram referendados na Constituição brasileira, que determina a laicidade do Estado.
Tendo em vista que a posição a ser defendida diverge dos fundamentos invocados para fundamentá-la, poderia a sustentação oral fazer algum sentido? Jamais e, nesse sentido, é interessante examiná-la rapidamente: o erro instrui a razão.
Há problemas de ignorância da realidade fática: o nobre causídico logo compara poligâmicos e incestuosos com homossexuais - mas nunca vi uma estatística mostrando que heterossexuais não sejam a maioria nessas atividades. Estranhamente, ele cala sobre pedófilos, talvez porque seja um assunto delicado para a CNBB e para o Papado.
Problemas teóricos graves voltam a aparecer depois da introdução meio contratualista, com a declaração "A constituição não é lacunosa". Na disciplina de introdução ao direito, os estudantes aprendem que nenhuma lei é completa nesse sentido: a realidade é mais "criativa" do que a norma jurídica escrita e, como a sociedade é dinâmica, vive criando situações novas, que a lei não previu - ou não quis fazê-lo. O direito ocidental sabe disso desde a Antiguidade - veja-se o que Aristóteles diz sobre a equidade em Ética a Nicômaco, no século IV a.C.: a lei, por sua própria natureza, não consegue prever todos os casos particulares que existem na realidade e, por isso, o juiz deve corrigir a lei para chegar a um resultado justo.
Essa atitude, Aristóteles bem mostra, é típica do juiz, o que torna sem sentido o argumento do nobre advogado da CNBB de que só o Congresso Nacional poderia opinar sobre a questão.
Aristóteles não é exatamente uma novidade. O esquecimento de quase todo o pensamento filosófico ocidental, e também da teoria jurídica, perpetrado naqueles argumentos da CNBB, foi completamente consumado nesta passagem sobre o fundamento das ações: "sendo filosófica, é metafísica, sendo metafísica também é religião". O absurdo merece comentário? Obviamente, há filosofia fora da metafísica, e há metafísica fora da religião...
O nobre representante da CNBB continua, bradando contra o direito natural (o que é muito surpreendente, pois a tradição católica é jusnaturalista): "nós temos uma discussão jurídica, positivada" - lembremos de Kant: uma doutrina do direito estritamente empírica pode ser bonita como uma cabeça de madeira nas fábulas de Fedro, mas não terá cérebro.
A violência de um pensamento, ou da falta dele, que decide fingir que não se pensou nada antes ou depois de Tomás de Aquino, corresponde ao encobrimento da violência contra os homossexuais, quando o nobre advogado afirma que não há exemplos de violação da segurança jurídica em razão de uniões homoafetivas! Pelo contrário, direitos básicos são negados por causa do preconceito, não apenas os que um casal heterossexual pode receber e um homossexual não, mas também direitos individuais como a igualdade de remuneração no trabalho, a integridade física, o direito à vida (o Brasil é um dos países que mais assassinam homossexuais) são diariamente negados. Vergonha.
O nobre causídico prossegue, e afirma que, dependendo da decisão, "portar" (não entendi a palavra) a Bíblia será um ato criminoso. Isto me fugiu completamente à compreensão, já que o objeto da ação não era de direito penal, e não é possível, apesar de toda boa vontade da CNBB, a união estável com a Bíblia, e sim apenas com pessoas, seja que sexo tiverem. Será que o advogado foi convencido pela campanha mentirosa contra o projeto de lei que criminaliza a homofobia, e que evidentemente não estava em discussão no caso? É necessário esclarecê-lo a respeito.
Antes de despedir-se, o nobre advogado ainda fez outra declaração discutível, desta vez sobre o suporte fático da instituição da união estável no direito de família: "afeto e existência não podem ser parâmetro fático, requisito fático, para a constituição de união estável" - ué, se isso não for requisito prático, o que vai ser? Preconceito e nonsense teórico? Isto significa que CNBB só aceita uniões que não existam e que não tenham afeto? A CNBB, contrária à cidade terrena, quer impor uma sociedade que não existe? Essa lógica metafísica é a do extermínio - imaginemos que grupos seriam alvos desse genocídio, que, à falta da inquisição (não em lugares como o Irã, onde o poder ainda é teocrático), só pode ser hoje imaginário.
De qualquer forma, é estranho que tal organização, que só reconhece o matrimônio religioso, tenha sido aceita pelo relator das ações para falar sobre uniões civis, que não são seu assunto... Se ainda tivesse aparecido para defender o direito dos padres e freiras homossexuais, faria sentido a intervenção, mesmo com uma sustentação que desafiou os sentidos lógicos e jurídicos do pensamento ocidental.
É claro que somente um grande pensador ousaria afrontar todas essas tradições do pensamento; por isso, entendo que o nobre advogado tenha-se comparado a Tomás de Aquino (o segundo mais importante comentador de Aristóteles na Idade Média - o primeiro, Averróis), afirmando que "ele também era medieval".
Não vou escrever ainda sobre os argumentos do advogado da Associação Eduardo Banks, devido a sua complexidade teórica e densidade jurídica. Merecem uma análise separada.
De qualquer forma, pelo que consegui analisar até agora, é significativo que a direita não tenha argumentos exceto o incitamento ao ódio, que tem seus representantes no Congresso Nacional, o que torna mais difícil a tarefa de Jean Wyllys, do PSOL/RJ, da introdução do casamento igualitário no Brasil.
Lembro de uma decisão que a revista The Economist divulgou. O juiz Vaughn Walker, da Califórnia, decidiu que era inconstitucional impedir que homossexuais casassem, anulando lei estadual. As razões são muito claras, e, como a revista bem escreveu, será difícil encontrar nelas uma falha lógica:

a) Não se trata da criação de direito novo, mas da simples extensão de um direito já existente para casais que eram discriminados;
b) Não se trata de assunto religioso, e sim de casamento civil, pelo que os argumentos religiosos são irrelevantes;
c) A fecundidade dos casais não é requisito para o casamento civil, o que torna irrelevante que os noivos sejam do mesmo sexo;
d) Dar às uniões de casais homossexuais um estatuto inferior aos das heterossexuais fere injustificadamente o princípio da igual proteção diante da lei;
e) Reconhecer o estatuto de casamento a esses casais também terá um bom efeito para as crianças envolvidas.

A felicidade alheia é deliciosamente obscena, portanto
se apelou
contra a decisão.
Na Argentina, creio, tomou-se um caminho sensato: os homossexuais não querem direitos especiais para si, mas simplesmente a igualdade. O movimento pelo fim da discriminação buscou, pois, o matrimônio igualitário, que foi aprovado em 2010. Ainda não li o livro do jornalista Roberto Bimbi sobre o tema - vou fazê-lo; aqui, podem-se ler algumas razões que impulsionaram a nova lei.

Em outra nota neste blogue, mencionei a poeta, ensaísta e tradutora Ana Cristina Cesar. Ela vivia com outra mulher, como bem lembra Luciana di Leone no seu importante livro Ana C.: as tramas da consagração (Rio de Janeiro: 7Letras, 2008).
Isso causou escândalo naquele bairro provinciano, Gávea, de uma cidade brasileira, o Rio de Janeiro. Esse foi um dos fatores que impulsionou o suicídio da autora, como conta Ítalo Moriconi no ensaio biográfico Ana Cristina César [sic]: o sangue de uma poeta, sem, no entanto, falar da natureza homoafetiva do problema.
Que essa dimensão não seja calada (o tal do extermínio no imaginário) e que casais como esses não sofram esse tipo de violência, mesmo nos locais mais provincianos do Brasil. Espero que essa decisão do STF contribua para esse caminho de justiça.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

De Zulmira RT a Ana C

Escrevi na revista Amálgama sobre o livro novo de Zulmira Ribeiro Tavares, Vesuvio (assim mesmo, em italiano).
O livro me fez reler 26 poetas hoje, a antologia que Heloísa Buarque de Holanda organizou em 1976, relançada nos anos 1990 pela Aeroplano. A organizadora dispôs na internet essa última edição. As notas biográficas sobre os poetas apresentam alguns erros; Ana Cristina Cesar, por exemplo, vira Lesar, e seu ano de morte é ignorado - e ela nunca foi como os autores que, ainda vivos, já têm livros póstumos, simplesmente porque sobreviveram à própria morte.
Ainda sobre Ana C, falei, em uma entrevista que dei ao Duanne Ribeiro da Capitu (ela ficou demasiadamente oral), que a achava a poeta mais importante de sua geração

[...] porque ela tem uma forma de ficcionalizar a intimidade, em que ela brinca com a esfera privada — ela brinca com escritos privados como diários, como cartas — só que não é confissão, há a ficcionalização dessa intimidade, e com uma indeterminação dos sujeitos e das vozes: você nunca sabe direito quem está falando no poema dela. Ela consegue fazer uma poesia que é polifônica, uma poesia que tem mais de uma voz. Do conflito e do diálogo entre vozes diferentes de um mesmo poema você pode criar um efeito que pode ser mais rico do que o de um poema monofônico, principalmente se você quer fazer a encenação de um drama íntimo ou de um drama social. A Ana Cristina César [erro na revista; o nome dela não tem acento] cria nos seus poemas um palco para esses dramas. Os temas e os motivos da poesia dela são muitos diferentes dos meus, mas algo da metodologia dela eu peguei pra mim.

Nesse sentido, creio que ela fez poesia política, o que muitas vezes é ignorado. Inclusive as políticas de gênero - Cenas de abril é seu livro mais ousado nesse aspecto, creio.
Mas, naquela antologia, já estava o célebre poema sobre coceira no hímen, que veio parar em Cenas de abril, com outros poemas terríveis: "Posso ouvir minha voz feminina: estou cansada de ser homem. Ângela nega pelos olhos: a woman left lonely. [...] Mamãe veio chorar e percebeu tudo. Mãe vê dentro dos olhos do coração mas estou cansada de ser homem.". E meu preferido, "21 de fevereiro", que começa com "Não quero mais a fúria da verdade". Nesse, ela revira Manuel Bandeira, o Hino à Bandeira (ela é tão irônica, quando pega o oficialismo da literatura!), Baudelaire, em um dos mais incríveis poemas brasileiros escritos de mulher para mulher. Termina assim:

Antes eu era 36, gata borralheira, pé ante pé, pequeno polegar, pagar na caixa, receber na frente. Minha dor. Me dá a mão. Vem por aqui, longe deles. Escuta, querida, escuta. A marcha desta noite. Se debruça sobre os anos neste pulso. Belo belo. Tenho tudo que fere. As alemãs marchando que nem homem. As cenas mais belas do romance o autor não soube comentar. Não me deixa agora, fera.

Quando a antologia 26 poetas hoje foi lançada, houve polêmica. A antiga revista José organizou uma conversa sobre o livro. A organizadora e os poetas Ana Cristina Cesar, Geraldo Carneiro e Eudoro Augusto conversaram com parte do conselho editorial da revista, Luiz Costa Lima, Sebastião Uchoa Leite e Jorge Wanderley. A conversa é antiga, alguns deles estão mortos.
Não houve propriamente um entendimento. Sebastião Uchoa Leite viu um ataque a Cabral no livro, porém Heloísa Buarque de Holanda lembrou de que ele estava muito vivo em Capinan e Zulmira Ribeiro Tavares. Ana Cristina Cesar acrescentou: "Zulmira quase que parodia Cabral e Drummond..." De fato.
Vesuvio reúne poemas escritos a partir da década de 1990, bem superiores aos que estavam naquela antologia.
Não escrevi, na resenha, que se pode ver que Zulmira Ribeiro Tavares passou por Drummond (como tantos outros) em passagens como esta:

[...] Ouça
o poema uma vez e outra

como ratos miúdos e prolíficos
sujos da miséria e de seus ventres envenenados
ao morrer.

São os ratos que roeram o século (como diz Drummond em "Edifício Esplendor") e agora expiram de terem incorporado o próprio tempo? Alguns poetas morrem disso. Ainda Drummond, nesse mesmo poema: "As complicadas instalações de gás,/ úteis para o suicídio".