O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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sábado, 18 de dezembro de 2021

Jukebox, de Manuel de Freitas, publicado no Brasil

Foi publicado mais um livro no Brasil do poeta português Manuel de Freitas, Jukebox, desta vez pela Corsário-Satã. O autor me pediu uma orelha, que transcrevo abaixo.



Um dos maiores poetas vivos da língua portuguesa tem mais um livro publicado no Brasil. Este seria um motivo suficiente para recomendar Jukebox, porém há outros. Um deles é o tema: os poemas tratam de música ou de músicos de estilos tão diversos quanto Amália Rodrigues, Lou Reed, Jordi Savall e Dolores Duran. Não é comum poetas ouvirem com tanta acuidade.
Na poesia portuguesa, Arte da música, de Jorge de Sena, talvez possa ser visto como um precedente. Estes poemas de Manuel de Freitas, no entanto, distinguem-se por serem tolhidos de qualquer didatismo e se formarem a partir de uma dialética entre esquecimento e memória, típica deste autor, enunciada no poema dedicado à dupla Milva/Piazzolla: “Muitos anos depois,/ encontrei o disco e assustou-me/ a perfeição, a certeza/ de ter ganhado tudo aquilo que perdi.”
O disco é um registro da música; nele, algo se perde da execução. O poema sobre o disco corresponde a novo registro, a representar aquela perda e acrescentar-lhe outra. Este é o seu ganho, uma consciência aguda da despossessão: “perceber que a luz esmorece/ e que não há ninguém na sala, no abandonado castelo/ onde o corpo foi apenas uma hipótese de ruína.” (“1992, Von Magnet”).
O poema, ou a luz que esmorece para dar a ver que nada havia.
A geografia íntima de certa vida noturna de Lisboa, presente em outras obras de Manuel de Freitas, também ressoa neste espaço: “só ressuscitei,/ muitas tequilas depois, num bar exíguo/ que confundi com o amor”, diz em “Ron Athey”, que se revela, no final, outro poema sobre a morte.
No entanto, Jukebox ecoa um senso de júbilo; afinal, “Nada deveria ser tão triste,/ até porque nada deveria ser.” (“1988, Chet Baker”).


domingo, 5 de março de 2017

Circulação do livro e estreitamento da literatura

Escrevi há poucos meses um texto sobre o fim de boa parte dos cadernos literários ou de resenhas na grande imprensa, especialmente por ver que esse tema não era considerado importante por pessoas que se apresentam publicamente como escritores. Perguntava-me se isso não era sinal de um estreitamento público da literatura, seu abandono, parcial ou total, pelo jornalismo brasileiro.
A questão é parte de um problema bem mais vasto, que inclui o estreitamento do próprio jornalismo, que vem reagindo com uma estratégia, a meu ver suicida, de dumbing down.
No tocante à literatura, outra questão é a da circulação dos livros. Com as grandes redes destruindo as livrarias menores (em tamanho, não em qualidade), à falta de uma lei do livro, a tendência é a sobrevivência apenas de alguns livros que se encaixam no formato do best seller.
Em relação a livros universitários, proliferam os manuais para estudantes com analfabetismo funcional, que são boa parte do público universitário de hoje; na literatura, alguns poucos títulos de certos autores, alguns com qualidade. Essa concentração não é sustentável e sufoca a literatura (o mesmo ocorre em relação aos livros técnicos), que só poderá aparecer segundo determinadas modas do momento, segundo um regime de celebridades, seja de autores que se comportam publicamente como tais, seja de, por exemplo, coletâneas selecionadas por gente famosa fora da literatura, que não logram apresentar nenhum critério de seleção, nenhum pensamento sobre suas escolhas e até escolhem, aparentemente sem saber, autores que não existem em carne e osso.
Vejo escritores jovens, ou não tanto, querendo "reagir" a isso simplesmente entrando no jogo, tentando entrar na lógica das celebridades (fazendo anúncio de material esportivo, por exemplo), mas com uma "pose" crítica. Vejo como sinal inquietante desse estreitamento crítico, ou até de reflexão, que se considerem importantes textos que não passam de celebrações superficiais de que os livros estão sendo editados e estão à venda, e talvez, daqui a quatro décadas, poderão estar em exposição em algum museu.
O caráter superficial dessas manifestações celebratórias decorre de não ver os problemas sociais relativos ao público leitor, à circulação dos livros, e até mesmo à edição.
Em relação à circulação, há o problema da venda. Na semana passada, li alguns textos sobre a rede FNAC, que anunciou e depois desmentiu que deixaria o Brasil. Quero destacar dois editores, um do Brasil, outro de Portugal. A ameaça que ronda a Fnac é a da Amazon e seus descontos, que tem usado contra outras redes, que estão em crise (como a Saraiva), as mesmas armas que elas usaram contra as livrarias menores.
Haroldo Ceravolo, um dos editores da Alameda, com muita propriedade iniciou o artigo "Crise nas livrarias: Insistindo no erro até encontrar o fracasso", publicado em 2 de março no Publishnews, tratando do jornalismo para depois falar das livrarias Cultura e Fnac. Ele bem sabe das relações entre esses dois exercícios públicos da palavra.
A maior parte do texto é dedicada à Livraria Cultura e aos erros estratégicos que a fizeram entrar em crise. Ele a diferencia da Fnac, que há muito havia se entregue à lógica do best seller, que não é sustentável nem para a literatura (pois aniquila a diversidade) nem, ao que parece, para os negócios:
Ainda não falei sobre a Fnac, talvez porque seja muito difícil pensar a Fnac hoje como uma livraria. A livraria era apenas um puxadinho num negócio de venda de aparelhos eletrônicos a preços altos e qualidade média. Como livraria, que é o que nos interessa, a Fnac sequer era um negócio: os livros estavam lá talvez por tradição, talvez porque o modelo foi pensado ou adaptado unindo as duas pontas. Mesmo as iniciativas culturais, como o prêmio Fnac-Maison de France, foram escasseando. Assim, a Fnac há muito tempo não era um local de venda a sério de livros.
As condições impostas pelas grandes redes (centralização das compras, os prazos para pagamento, a venda de espaços de exposição etc.) em geral cerceiam a circulação dos livros das editoras menores, como a própria Alameda, que possui títulos excelentes, que já citei mais de uma vez. Tal política afasta o público leitor, por isso é uma estratégia suicida, assim como o dumbing down dos jornais.
Não vou para a Fnac e cada vez menos visito a Cultura; lembro que desejava comprar um livro da Revan, Voz humana: a defesa perante os tribunais da república, de Fernando Augusto Fernandes. Nessa livraria, informaram-me que estava esgotado. Adquiri-o depois na Primavera Literária, no estande da Revan, que me disse que não só o livro estava em catálogo, como a Cultura simplesmente evitava comprar os livros da editora.

Experiências semelhantes são contadas do outro lado do Atlântico. Afinal, trata-se de um processo global do capitalismo com suas fusões e monopólios.
Recebi semana passada o número 10 da Cão Celeste, de dezembro de 2016, publicada pela editora portuguesa Averno. Para quem não é do campo da literatura, informo que ela é uma das principais revistas literárias da língua portuguesa, responsável pelo Prêmio Diógenes de poesia (vejam seu sucinto blogue: http://ocaoceleste.blogspot.com.br/).
Tenho um artigo nesse número, mas os outros artigos e poemas, e também desenhos (como o da capa, de Daniela Gomes), são excelentes. Mais abaixo, podem ver o sumário, que o blogue não traz.
Um dos editores, o poeta e crítico Manuel de Freitas, conta em "as coordenadas líricas" sua experiência com a Fnac. Anos atrás, ele comprava música barroca e também literatura na loja, que tinha uma "oferta inaudita" de bens culturais. No entanto...
[...] a Fnac, que depressa se tornou vigorosa e tentacular, asfixiou todas as livrarias e lojas de discos que havia à sua volta. Praticado o extermínio, que foi extremamente eficaz, a Fnac logo se furtou à sua pretensa vocação cultural, transformando-se numa cadeia de computadores, aparelhagens, utensílios tecnológicos de todo gênero. Admito até, e por experiência própria, que a Fnac seja bastante competente nessa área.
Há algumas poucas diferenças em relação ao Brasil. O sucesso do extermínio de lojas menores variou de acordo com o local: no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca (um bairro, aliás, pouco amigo de livrarias) isso aconteceu. Em outras lojas, não sei: acho que a loja da Paulista não conseguiu ter a mesma força. A competência das seções de informática e de outros produtos tecnológicos, no entanto, difere em Portugal, pois no Brasil elas são como Ceravolo diz: preço alto e qualidade média.
dumbing down da rede aconteceu de forma bem parecida no Brasil. Manuel de Freitas, em seu texto, conta que os livros eram devolvidos pela Fnac com avarias, com adesivos que não se desgrudavam, ou seja, voltavam "em estado de lixo". O que o levou a não deixar mais os livros nessa rede. O público de literatura, pelo menos em Lisboa, vai para outros lugares, como a Paralelo W, a Letra Livre (que vende para o Brasil), a Ler Devagar...
O resultado foi a descoberta de que a Averno não precisava da Fnac para distribuir seus livros.
Ceravolo afirma, no seu texto, que os pequenos editores precisam encontrar outros meios para a circulação. Creio que ele está correto, e que as editoras pequenas, no Brasil, devem procurar saídas criativas, como a Averno tem feito.
A esse respeito, aproveito e lembro que, nos dias 24 e 25 de março, ocorrerá uma feira de livros de poesia, "Desvairada", organizada por Marília Garcia, Fabiano Calixto, Leonardo Gandolfi e Tiago Marchesano, com 24 editoras. Vejam aqui: https://www.facebook.com/events/155136481644008. Certamente será um evento muito criativo, pois incluirá atividades culturais.
Para o Brasil (conheço pouco a situação portuguesa), imagino que essas saídas têm que incluir a educação, tendo em vista as furiosas políticas de iletramento implementadas ou projetadas pelos diversos níveis do Estado brasileiro, o que inclui os variados ataques à docência.
As escolas e as bibliotecas, escolares ou não, com programas de leituras e outras iniciativas, são uma dimensão importantíssima da circulação do livro. Não por acaso, ambas (escolas e bibliotecas) continuam sob ataque no Brasil. Em São Paulo, no dia de aniversário da cidade, 25 de janeiro de 2017, foi programado pela sociedade civil (especialmente as associações dos bibliotecários) um Abraço do Centro Cultural São Paulo, ameaçado de "desestatização" pelo prefeito João Doria (analisei, por sinal, alguns dos enormes erros de direito administrativo do prefeito em um texto de fevereiro).


Estive no Abraço. Acima, uma das fotos que tirei na ocasião, destacando a faixa do Sinbiesp, que era umas entidades organizadoras. O CRB também estava em peso. Abaixo, alguma das faixas, que foram deixadas no chão durante os discursos.

Uma das fotos que vi dos protestos contra Trump nos Estados Unidos neste ano mostrava uma bibliotecária com um cartaz afirmando que a a situação estava tão grave que até os bibliotecários tinham que ir às ruas protestar. Achei curiosa a ironia em relação à categoria, como se ela fosse a última de todas para mobilizar-se... No Brasil, isso não é verdade.
As bibliotecas são importantíssimas para a circulação do livro, e fundamentais para o direito à literatura, como direito cultural. Haroldo Ceravolo lá estava. Também vi Marcelo Zelic e Maria Rita Kehl. Afora Kehl e Rodrigo Ciríaco, não vi, no entanto, mais nenhum escritor no Abraço. Provavelmente havia mais alguns, mas certamente eram poucos, como também não eram numerosos os participantes, embora houvesse muita gente dentro do Centro Cultural engajada em outras atividades. Ele é um sucesso de público e de atividades culturais, e exatamente por isso deve estar sob ameaça.
Uma das formas superficiais de tratar da circulação dos livros consiste em ignorar as políticas de leituras e de bibliotecas. Seria importante que mais escritores se engajassem nisso, tanto nos seus textos quanto na sua ação. A ação pública também pode ser uma forma de circulação de literatura.



domingo, 13 de julho de 2014

Antologia de viagem: Portugal, 2014

Estou em Portugal e estou lendo um pouco da poesia portuguesa contemporânea, que tão raramente chega ao Brasil. Escolhi trechos apenas de livros (no caso de Fernando Guerreiro, uma plaquete), e publicados neste ano e em 2013. Tive de descartar a poesia visual, tendo em vista as limitações de formatação.
Os dados de nascimento dos autores, quando disponíveis, tirei-os da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores.aspx).

Alberto Pimenta (Porto, 1937), Autocataclismos (Lisboa: Pianola, 2014)
48


Jack Sparrow                        o pirata das Caraíbas disse
com a chave na mão             nem todo o tesouro é ouro e prata
avançou                                o cinto de castidade era de ferro



Fernando Guerreiro (Lisboa, 1950), (quase) Anjos (Grisu: Guimarães, 2014)
(fragmento)


Não bastava uma, teria
de morrer repetidamente
para que, pelas palavras,
os cotos se tornassem asas
e ainda sangrentos, com
o osso à vista, arfassem
por guelras que só
uma longa visão do horror
prepara para o inferno
convulso dos sentidos.



Manuel de Freitas (Vale de Santarém, 1972), Ubi Sunt (Lisboa: Averno, 2014)
La Rêveuse

para a Adília Lopes


Houve um tempo em que me apetecia escrever bem, enaltecer a dor.

Depois, fui-me esquecendo da dor e das palavras certas.

Agora é mais simples: despeço-me.




Miguel Cardoso, Os engenhos necessários (Lisbos: &etc, 2014)
Com um ligeiro clic de chaufagem aberta (excerto)


tal como Paul Klee recordava
como a avó esmagava
as maçãs lembrando
a cadência do hálito
ou Thoreau percorrendo os campos
da Nova Inglaterra e anotando os fenómenos
na ordem em que pela
primeira vez são observados,
escrevendo por exemplo os dias
exatos da floração
como lâminas em sequência magnética

Poderia tentar algo assim
com os castanhos em flor da ferrugem
mas perderia as contas ouviria vozes
e mastigaria por certo demais
as maçãs lembradas
até chegar ao ponto de papa



Rosa Maria Martelo (Vila Nova de Gaia, 1957), Matéria (Lisboa: Averno, 2014)
Branco


Interessa-me o inconcreto branquejar
da roupa no estendal (o branco, não)
mais do que o peso da água, ver
que o nada não se vê na água a evaporar

na luz do tecido em contraluz interessa-me
o vazio suspenso do vazio
quando a roupa enforma ao vento e sobe
no arame, interessa o risco que sustém a louca nave,
os voos desabitados e a pequena hora de ninguém.



Rui Caeiro, Sobre a nossa morte bem muito obrigado (Alambique, 2014)
Moribunda


Deitada imóvel de olhos muito abertos
a suar o pavor de ter existido




Rui Nunes (Lisboa, 1945), Uma viagem ao outono (Lisboa: Relógio D'Água, 2013)
(fragmento)


O Reno é um rio que não acaba,
segrega o medo, segreda-o,
na tua insônia, a voz da mãe
é uma paisagem desolada.
:
De alguns rios saem mundos, dizem,
de outros, espessas fronteiras. Casamatas e baterias. Ou homens infestados de piolhos. As pontes são projectos de uma intensa vigilância, e geram tantos heróis que basta a falta de um nome para os acolher, uma laje de mármore, o fingimento de uma candeia de azeite, alguns pardais que saltitam frenéticos e deixam os excrementos na pedra luzidia. Um hino torna as bocas uníssonas. Horst-Wessel-Lied.
Inacabadas



Tiago Araújo, Respirar debaixo d'água (Lisboa: Averno, 2013)
Os números


este é o livro de minha descendência:
adelino gerou armindo que gerou adão que gerou
tiago que gerou três. dois deles correm agora pela sala em
perseguições alternadas. o terceiro cresce sem que o
vejamos ainda. somos cada vez mais, embora insuficientes
para substituir os mortos que colecionamos em álbuns de
família, e por motivos práticos vivemos quase isolados na nossa
felicidade doméstica, um sentimento mal recebido pela crítica.
durante a infância ninguém morreu. os corpos
eram retirados do olhar das crianças de forma subtil e
eficaz. chegou por fim o momento de consultar
a conta-corrente, de avaliar os ganhos e as perdas.
um nome por cada nome, numa família em que o
que passou é quase tão desconhecido como o futuro.
fomos trazidos até aqui por uma paixão
quase constante entre os sexos, ao longo de séculos.
e agora, na idade adulta, é a cada dia
que nos vamos aproximando do passado.
pode ter sido muito diferente em outras épocas, mas
hoje é saturno que é devorado pelos filhos enquanto vê
televisão, numa tarde de sábado.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Cão Celeste e Telhados de Vidro: lançamentos em Portugal


Neste dia primeiro de agosto, serão lançados os novos números de Cão celeste e de Telhados de vidro em Guimarães (e não em Lisboa, como eu havia escrito antes). As duas revistas são publicações da editora Averno.
Eu não conhecia a primeira, que chega ao terceiro latido, e traz principalmente crítica e ensaio. Manuel de Freitas, o poeta português, e editor de ambas revistas, pediu-me um artigo a partir da nota que fiz sobre a recusa de Vitor Silva Tavares ao prêmio Ler/Booktailors na categoria "carreira": http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2013/03/uma-nota-sobre-vitor-silva-tavares-e.html
A imprensa portuguesa, que tem suas ligações com o complexo editorial por trás do prêmio, não noticiou a recusa do editor. Parece que se trata de uma das dificuldades do direito à informação no capitalismo, de que os sucessivos escândalos do metrô de São Paulo, subnoticiados no Brasil, são outro exemplo recente: http://www.dw.de/esc%C3%A2ndalo-no-brasil-p%C3%B5e-em-d%C3%BAvida-esfor%C3%A7os-anticorrup%C3%A7%C3%A3o-da-siemens/a-16961389
A revista, de que li apenas o começo, traz instrutivo e crítico texto de Manuel de Freitas sobre a crítica literária portuguesa (ele menciona que se chegou ao nível, já conhecido no Brasil, das resenhinhas com estrelinhas). Há outro autor brasileiro, Fabiano Calixto. Jorge Roque, um dos escritores contemporâneos portugueses de que mais gosto, também está nela (e em Telhados de vidro).
Uma revista valente, a desafiar o meio literário português. Valentes também o casal de editores e poetas; sugiro que leiam esta entrevista dada por Freitas e Inês Dias: http://tantaspaginas.wordpress.com/2012/02/01/averno-nos-ultimos-anos-a-poesia-e-a-literatura-perderam-terreno-isso-nao-e-uma-catastrofe-a-poesia-da-se-bem-em-condicoes-adversas/
Há valentia de Telhados de vidro (http://editora-averno.blogspot.com.br/2013/07/telhados-de-vidro-n-18.html) já, simplesmente, em existir: não é toda a revista de poesia que chega ao décimo oitavo número sem apoio institucional. No Brasil, com esse tipo de apoio, lembro da Poesia sempre, que continua a ser um projeto da Biblioteca Nacional, mas sua distribuição é inexistente. De revistas que deixaram de ser publicadas, que não possuíam tal suporte, basta mencionar Inimigo rumor (que passou por uma fase luso-brasileira) e Dimensão.
Estou nesse novo número com uma série (incompleta, pretendo), para um livro futuro, sobre o poder judiciário. Um singelo trecho: "[...] após o furto/ de todo um refrigerante,/ condenada por arguto/ magistrado, a meliante// na prisão sofreu insultos,/ ficou cega e delirante,/ mas, para encerrar o assunto,/ já não furta como antes", em poema que, pelo menos, trata de assunto sempre atual, confirma-o esta reportagem de Altino Machado sobre preso que ficou cego e tetraplégico sob a responsabilidade de agentes penitenciários: http://terramagazine.terra.com.br/blogdaamazonia/blog/2013/07/31/preso-fica-cego-e-tetraplegico-apos-tortura-por-agentes-penitenciarios/
Há outro autor brasileiro, Fabio Weintraub, com poemas de sua próxima obra, cujo projeto recebeu neste ano apoio da Petrobrás. Já li também o forte ensaio de Fernando Curopos sobre Al Berto, que muito interessará aos vários leitores desse poeta e a quem se dedica às questões de gênero na literatura.
Um dos poetas portugueses contemporâneos que acompanho é Vítor Nogueira. Ele está na revista com seu costumeiro tom próximo da prosa e, tantas vezes, irônico. Gostaria de terminar esta nota lembrando de um livro desse autor, Comércio tradicional, que a Averno lançou em 2008. Bastante da atual crise portuguesa está nele. As próprias dificuldades desse local de sociabilidade que é o comércio tradicional são um dos principais temas do livro e indicam outros modos de vida que estão ameaçados pelo que se chama de progresso: "Restos de grandes fogueiras./ É para isso que as pessoas vivem." ("Cruzes", p. 7), em confrontos às vezes brutalmente diretos:
Outra vez o argumento do progresso.
Uma excelente demonstração de artilharia.
Os aviões desapareceram do radar, logo após
aquela linha de destroços. Estamos prestes
a aterrar, é melhor pormos o cinto.
Vai cair um café dos anos vinte.
("Queda", p. 39)
A referência aos lugares que se fecham ou entram em crise vai de par com retratos, que podem ser patéticos, como este:
É aqui que os sonhos vêm morrer. Ao balcão,
ele e o copo, apenas os dois contra o mundo.
Temos de admitir que por vezes
conhecer uma pessoa é desumano.
("Cervejaria", p. 31)
A cidade abandona-se a si mesma, no seu chão vê-se "a pele escamosa de um animal extinto,/ um esqueleto completo e articulado,/ apenas reconhecível através do tamanho/ e da forma dos ossos." ("Vestígios, p. 34). Nesta geografia sentimental da crise, a ironia é, em alguns poemas, cortante. O último verso do poema final, "Ninguém sabe o que vão ser as cidades amanhã." poderia ser apenas mais um exemplo da mutabilidade do espaço urbano, presente na poesia moderna ao menos desde Baudelaire. Mas o título do poema é "Franchising"... eis a resposta que se divisa para o retrato das cidades futuras! Serem não um original, mas uma réplica licenciada de outro espaço, um não lugar dedicado ao consumo? Réplicas da revista Ler?