O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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quinta-feira, 16 de maio de 2024

Toda poesía es hostil al anarcocapitalismo, antologia organizada por Julián Axat



Julián Axat organizou a recente antologia Toda poesía es hostil al anarcocapitalismo (La Plata, Argentina: Pixel/ Chile: Askasis, 2024), com poetas argentinos e de outros países e regiões das Américas.

Na apresentação, ele fala que reuniu uma "assembleia de poetas", no sentido de Alberto Szpunberg, que busca representar a "urgente situação" por que passa grande parte da população argentina:


Desde la llegada al poder de La Libertad Avanza (LLA), en diciembre de 2023, todos los espacios y universos culturales se encuentran amenazados. En esta era neo oscurantista, el mundo de la poesía tiene el revolver de Goebbels apuntando a su cabeza.

Por eso, por una cuestión de supervivencia, la poesía se pone en guardia.


A maioria dos poemas trata criticamente do anarcocapitalismo ou do capitalismo tout court: o título, claro, inspira-se em Juan Gelman, que escreveu que toda poesia é hostil a esse modo de produção econômica.

A foto acima é de Axat e mostra a expressiva arte de Richard Somonte usada na capa. O arquivo do livro pode ser baixado por meio desta ligação: https://elniniorizoma.wordpress.com/wp-content/uploads/2024/04/toda-poesia-es-hostil-al-anarcocapitalismo.verson.final_.pdf

Estes são os autores:


ARGENTINA:

Alberto Cisnero (La Matanza, 1975)

Alicia Vicenzini (Santa Fe, 1967)

Ana Barral (Bahía Blanca, 1962)

Ana Caligaris (Clorinda, Formosa, 1957)

Analía Leonor Contini (Buenos Aires, 1955)

Andrea Edith Homene (Morón, 1967)

Antonio Ramos (Rosario 1950)

Ariel Montesinos (Quilmes, 1974)

Bernabé de Vinsenci (Saladillo, 1993)

Bernardo Carretoni (Alberti, 1992)

Carla Bianco (San Rafael, Mendoza, 1975)

Carlos Aprea (La Plata, 1955)

Carlos J. Aldazábal (Salta, 1974)

Carmen Losardo (Buenos Aires, 1983)

Cecilia Pontorno (La Plata, 1979)

César Beltrán Surigaray (Chascomús, 1952)

Conrado Yasenza (Lanús, 1967)

Coti López (General Belgrano, 1980)

Dafne Pidemunt (Buenos Aires, 1977)

Daniel Ballester (Buenos Aires, 1955)

Daniel Freidemberg (Resistencia, Chaco, 1945)

Daniel Gómez (La Matanza, 1968)

Daniel Krupa (Berisso, 1977)

Daniel Quintero (Buenos Aires, 1959)

Daniel Rotelle (Pergamino, 1956)

Dante Sepúlveda (Villalonga, 1986)

Darío Ledesma (“Palito”) (Tandil, 1987)

Demetrio Iramain (Buenos Aires, 1973)

Diana Szarazgat (Buenos Aires, 1959)

Diego L. García (Berazategui, 1983)

Eduardo Alberto Nico (Eduardo Magoo) (Lomas de Zamora, 1956)

Eduardo Rubinschik (Buenos Aires, 1967)

Enrique Schmukler (La Plata, 1976)

Erika Lederer (Salta, 1976)

Ernestina Elorriaga (Darregueira, 1954)

Esteban Leyes (Quilmes, 1985)

Eugenia Straccali (La Plata, 1970)

Fedra Spinelli (Buenos Aires, 1970)

Fela Tylbor (Puerto Madryn, 1961).

Fernanda Maciorowski (Puerto Madryn, 1982)

Fidel Maguna (Rosario, 1993)

Gito Minore (Buenos Aires, 1976)

Graciela Cros (Carlos Casares, 1945)

Guido Croxatto (Buenos Aires, 1982)

Guillermo Bianchi (Buenos Aires, 1970)

Guillermo Saavedra (Buenos Aires, 1960)

Gustavo M. Luján (Chilecito, La Rioja. 1974)

Hernán Minardi (Carmen de Areco, 1972)

Hernán Nemi (Buenos Aires, 1972)

Horacio Fiebelkorn (La Plata, 1958)

Jerónimo Corregido (La Plata, 1990)

Jorge Felippa (Córdoba, 1949)

José Supera (La Plata, 1981)

Josefina Oliva (La Plata, 1980)

Juan López (Mendoza, 1962)

Julia Dron (La Plata 1979)

Julián Axat (La Plata, 1976)

Julio César Ciccone (Buenos Aires, 1957)

Laura Forchetti (Coronel Dorrego, 1964)

Lautaro Virgilio (Avellaneda, 1989)

Leandro Alva (Temperley, 1975)

Leandro Daniel Barret (Rosario, 1977)

Liliana m. Majic (Buenos Aires, Argentina.1964)

Luciana Cano (Santiago del Estero, 1989).

Mara Oviedo (Villa 21/24, 1990)

Marcos Herrera (Buenos Aires, 1966)

Márgara Averbach (Buenos Aires, 1957)

María Belgrano (San Luis, 1979)

María Belgrano (San Luis, 1979)

María del Pedro (La Plata, 1971)

María Malusardi (Buenos Aires, 1966)

María Manuela Corral (Córdoba, 1980)

María Rosa Montes (Santa Fe, 1952)

María Urrutia (La Plata, 1945)

María Verónica Llull (San Martín, 1975)

María Victoria Fabre (Buenos Aires, 1968)

Mariana Agustina Romano (San Miguel de Tucumán, 1992)

Mariana Finochietto (General Belgrano, 1971)

Marina Arias (Haedo, 1973)

Mario Goloboff (Carlos Casares, 1939)

Martín Pucheta (Gualeguaychú, 1981)

Martín Raninqueo (La Plata, 1962)

Marx Bauzá (San Miguel de Tucumán, 1980)

Matías Fittipaldi (Mar del Plata, 1977)

Mauro Spinelli (La Plata, 1986)

Maximiliano Spreaf (Capital Federal, 1975)

Melina Gigli (Rosario, 1976)

Miguel Martínez Naón (California, Estados Unidos, 1976)

Natalia Notari (Concepción del Uruguay, 1974)

Natalia Pascua Lagostena (Villa Constitución, Santa Fe, 1987)

Nicol Signorini (Río Cuarto, 1993)

Nicolás Aused (Santa Fe, 1977)

Nicolás Prividera (Buenos Aires, 1970)

Nilda Bulzomi (Buenos Aires, 1958)

Ohuanta Salazar (San Miguel de Tucumán, 1975)

Oliverio Saudade (Mateo Fernández) (Embalse, Córdoba, 2000)

Pablo Bilsky (Rosario, 1963)

Pablo Campos (Buenos Aires, 1977)

Pablo Jacinto (Buenos Aires, 1992)

Paula Nogueira (La Plata, 1975)

Pilar Alí Brouchoud (La Plata, 1987)

Ramón Inama (La Plata, 1971)

Ricardo Algranati (Buenos Aires, 1951)

Ricardo Bizzarra (La Plata,1960)

Ricardo Luis Plaul (Tandil, 1948)

Ricardo Rojas Ayrala (Buenos Aires, 1963)

Ricardo Ruiz (Buenos Aires, 1953)

Rodrigo Zubiría (Buenos Aires, 1976)

Romina Freschi (Buenos Aires, 1974)

Sandra Gudiño (Santa Fe, 1966)

Santiago Featherston (La Plata, 1988)

Santiago Rebasa (Buenos Aires, 1972)

Sebastián Jorgi (Lanús, 1942)

Sebastián Pelayo Murray (La Plata, 1972)

Sebastián Russo Bautista (La Plata, 1973)

Sergio Marelli (La Plata, 1962)

Sergio Morán (Mendoza, 1979)

Silvana Melo (Olavarría, 1961)

Silvia Hedman (Oberá, Misiones, 1968) 

Silvina Melone (La Plata, 1974)

Sol Mircovich (La Plata, 1990)

Soledad Rodríguez Sabater (Posadas, Misiones, 1978)

Susana Cella (Buenos Aires, 1954)

Tomás Rosner (Buenos Aires, 1986)

Tomás Watkins (Neuquén, 1978)

Verona Demaestri (La Plata, 1976)

Víctor Cuello (“Pajarito”) (La Matanza, 1976)

Vladimir Jantus Castelli (La Plata, 1975)


ARUBA (PAÍSES BAIXOS)/ ARGENTINA

Arturo Desimone (Aruba, 1984)


BRASIL:

Pádua Fernandes (Rio de Janeiro, 1971)


CHILE

Absalón Opazo Moreno (Valparaíso, Chile, 1978)

Adrián Barahona (Chile, 1973)

Nibaldo Acero (Santiago, Chile, 1975)


EL SALVADOR

César Saravia (San Salvador, 1989)


PARAGUAI

Mireya Ribas Medal (Asunción, Paraguay, 1958)


PERU:

Tamara Padrón Abreu (Lima, 1980)


URUGUAI:

Paula Simonetti (Montevideo, 1989)


VENEZUELA

María Carolina Marschoff (Mérida, Venezuela, 1973)



Além de ter escrito poemas sob dois heterônimos seus acima listados, Julián Axat elaborou outro com  o uso de inteligência artificial (Chat GPT), "cruzando los conceptos Dengue y Virus neoliberal, al estilo poesía beat". Ficou interessante.

Deixo por último a menção a um poeta e músico desaparecido pela última ditadura na Argentina, Daniel Omar Favero (La Plata, 1957), incluído nesta antologia. Sua obra somente foi publicada durante a democracia.

Este é um livro em defesa da democracia.


P.S. Este é meu poema incluído na antologia.


Presidente e excrementos caninos
Pádua Fernandes


Já está pronto para download o aplicativo que permite descobrir entre os excrementos caninos pisados na rua qual deles é o presidente do país.

Não, enganei-me: o aplicativo que merece o seu download, gratuito enquanto não é pago, aplicativo enquanto funciona, para todos enquanto não surge outra forma de vigilância, o aplicativo dá a forma do país aos excrementos, ou dá a forma de fezes para o país, não sabemos ao certo, ainda está em fase de testes, assim como o presidente.

Na verdade, o aplicativo que está pronto é o que descobre o caminho para o país passando pelos excrementos presidenciais evitados pelos cães.

Parece que a versão gratuita do aplicativo não inclui a carta de admiração presidencial para Thatcher, que, até o momento, matou mais argentinos do que ele. O upgrade nível prata inclui campos de concentração para trinta mil debaixo das águas; nível ouro, vem com a reforma administrativa que incorpora as pensões aos campos.

A versão paga do aplicativo oferece a opção reajuste de 1000% de impostos, mas com algarismos ancap, completamente capados; o modelo Empreendedor do Caralho traz buracos nas calçadas tapados com as quedas dos manifestantes; a cor Estado Mínimo mostra o Tanque Máximo com que as forças de segurança patrulham os famintos; a versão Thatcher foi concebida para os órfãos das Malvinas; a cor Valas Anônimas é muito usada em games que treinam para o mercado de criptomoedas; o formato Fome é empreendedor, flexível, resiliente e pode ser aumentado em 100%, 200% ou mais, a depender do preço do voo das contas públicas nacionais para as ilhas do Caribe.

Caribe, Panamá e outros destinos, pois não há mais desabrigo sobre o país, mas apenas superávits crescentes do sol, da lua e dos outros astros sobre os corpos humanos. Bem como da chuva. E dos tiros.

Baixei! Mas não consegui chegar a lugar nenhum… Segundo o aplicativo, acabaram as ruas, enterradas pelos excrementos. De quem? Não se sabe, com esta presidência não há mais diferença entre decretos e latidos.

Quantos presidentes
na história do mundo
vieram dos latidos?
Ele aprendeu
a cagar e mijar
somente nas ruas
hoje interditadas 
por insalubridade geral,
por isso faz do palácio
sua latrina armada,
e ao trânsito dos coliformes
sobre a rua e os corpos
chama de liberdade.
Quando os latidos
se tornam presidentes
e saem às ruas
a que hora
tudo se torna
excremento?
……………………………………………………….

Vocês baixaram o aplicativo? Imbecis. Ele rouba todos os dados.
Não adianta reclamar: não há mais governo, só há os que governam.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Interestelaria: uma antologia, por Julián Axat, de poemas de ficção científica



Interestelaria: Cosmos y Ciencia ficción (Buenos Aires: Ediziones en Danza, 2022) é uma antologia de poesia, organizada por Julián Axat, que realiza encontros improváveis, que podem atravessar continentes e/ou séculos e/ou idiomas: Píndaro e Severo Sarduy,  Giordano Bruno e Enzensberger, Safo e Lorca, Murilo Mendes e Maiakóvski, Blake e Alejandra Pizarnik, o próprio Axat e Baudelaire, Violeta Parra e Ray Bradbury, com Freddie Mercury ao fim. A lista dos autores inclui Szymborska, Luciano de Samósata, Julio Torri, Cyrano de Bergerac, Ginsberg, o Popol Vuh, Olavo Bilac entre muitos outros. 

Talvez seja a primeira antologia de poesia de ficção científica em língua espanhola, informa Axat no prólogo. Não conheça uma equivalente no idioma português. A galáxia criada por Axat é tão inclusiva que estou nela (meu poema sobre as baratas como nova humanidade, que alguns podem achar distópico e/ou fantástico, embora eu pense o oposto).

Como fui incluído, não me cabe resenhar este volume, lançado em edição fora do comércio. Mas posso dar notícia dele, através de um telescópio particular. Divide-se nas seguintes seções: Cosmogonías (Big bang, universo y panspermia), Los astrónomos, Planetas, Lunas y cometas, Constelaciones (Estrellas, galaxias y supernovas), Viajes más allá del tiempo (profecías, distopías, alucinación y sueños, Seres de otros mondos (Robots, superhombres, mutantes, aliens), La carrera espacial (Astronautas, cosmonautas y cohetes), Rock, poesía y ciencia ficción. 

A capa e as ilustrações foram feitas por ninguém menos do que o notável Emiliano Bustos (a lista de obras consultadas para realizar as ilustrações está no fim e representa um outro sistema dentro desta galáxia), também presente como poeta, assim como seu pai, Miguel Ángel Bustos, que é uma das vítimas do terror de Estado na Argentina.

Como ele é um desaparecido da última ditadura naquele país, ecoemos a pergunta que feita no início de seu poema "Celestial", incluído em Interestelaria:


Dónde ha ido el celeste de um cielo
de clara llama?
[...]
Solo quedò el hombre
entre los planetas de hierro y espuma
que van oscuros e gimen.


P.S.: Talvez não seja inoportuno lembrar que Axat publicou em 2021 um impressionante livro de poesia sobre viagens espaciais, Perros del cosmos, também pela Ediziones en Danza, que é uma obra realmente única.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Dez anos do blogue, um cantinho para leituras

Em junho de 2020, dei uma olhada na coluna à direita e me deparei com o fato desolador de que comecei este blogue em 2010, em 10 de julho, com uma nota sobre o poeta e jurista Julián Axat (um belo início, Axat é genial). Dez anos a completar. Por que continuei com isto?
Eu tive de ser convencido por gente muito próxima a iniciar um; eu não cogitava entrar neste exercício de escrita em razão, francamente, da preguiça: se ninguém iria ler, por que se dar ao trabalho de criar uma coisa dessas? O mesmo raciocínio que me levou a adiar a escrita de um romance até 2017 (publiquei-o em 2019).
A premissa do raciocínio não estava errada, claro. Mesmo assim, eu me enganava: não importa realmente que as pessoas não leiam, elas façam o que quiserem; o que importa é se ainda quero escrever algo neste veículo, que é útil para mim: o blogue serve para, na luta com a forma, pensar um pouco e para rascunhar textos. Trata-se um pouco da experiência de pensar com os outros, o exercício de escrever para um auditório potencial (nem precisamos pensar na teoria da retórica para sentir isso). Nisso, pode haver alguma alegria.
O blogue serviu até mesmo de rascunho para textos alheios, como as referências a documentos sigilosos da ditadura que fiz aqui e levei depois para os relatórios das Comissões da Verdade do Estado de São Paulo e da Prefeitura de São Paulo. Muitas vezes, porém, não consigo melhorar o que esbocei aqui, como o provaram Canção de ninar com fuzis e, em menor escala, pois tinha bem mais material inédito, O desvio das gentes. Evidente que, para ficar muito melhor, precisaríamos de outro escritor...
Acho improvável que o blogue sobreviva a mais dez anos, mesmo que, nesse tempo, eu mesmo não desapareça e que, ademais, continue apto para escrita, porque as virtualidades são muito efêmeras. Como o século XXI já é o das calamidades e dos acidentes globais (Virilio ainda será repensado, imagino), nem mesmo vejo como contar que essas coisas não se percam completamente ou não sejam apagadas, ou que alguma alteração no modelo de negócios na internet decrete o fim destes cantinhos para a leitura. O espaço da internet é o da amnésia, ou, melhor, do apagamento. Também o da censura, seja do capital, seja do Estado, que provavelmente encontra um meio muito mais propício na internet do que nas bibliotecas e discotecas físicas.
Um cantinho para... leitura? Sim, apesar da estupidez militante e/ou institucional do meu país; não precisamos nem lembrar desta nova temporada da série violenta e fracassada dos militares no poder, com o espetáculo de sandices que, no entanto, é tão representativo do Brasil. Nem mesmo é possível publicar algo como um Febeapá ("Festival de Besteira que Assola o País"), nos moldes do que Sérgio Porto criou, com três volumes de crônicas assinados como Stanislaw Ponte Preta, sobre o estado de coisas sob a ditadura militar. No bolsonarismo, o caráter enciclopédico de uma tal empreitada exigiria uma equipe numerosa. De 1964 para cá, muita coisa se degradou, até mesmo a instituição que produz generais que não sabem o tamanho do Brasil e da Europa, tampouco onde é traçada a linha do Equador. Isso, lamenta-se, foi o melhor do que a direita e o capital conseguiram produzir neste anão diplomático em que eles transformaram o país. 
Em termos de registro do "Febolsoapá", que exigiria uma biblioteca infinita, minha última contribuição foi a nota sobre o secretário nacional de cultura: "Homofobia ou a porta de saída da cultura, Che Guevara, João Saldanha e Frias, novo secretário de Bolsonaro (Desarquivando o Brasil CLXIX)".
Não sei se este blogue consegue refletir sobre esta nova barbárie, ou se é apenas o reflexo dela. Gostaria de que fosse o primeiro caso. Mas cabe aos leitores julgar, e não os conheço. Quem lerá? Isso é um mistério. Muitas vezes a maior parte das visualizações deste blogue vem dos EUA; talvez nem todas sejam por acidente, pois há brasileiros, muitos, naquele país.
Sempre há alguém que dê uma olhada no que escrevemos, o que traz responsabilidade, embora não imaginemos quem o seja, o que gera surpresas. Tive vários exemplos que mo confirmaram, como o de uma nota que escrevi sobre o recital da obra de um(a) certo(a) autor(a). "Postei" a ligação em certa rede social e a pessoa envolvida apôs um coraçãozinho. Era algo completamente excepcional, ter recebido essa atenção; não foi isso que me espantou, porém, pois em geral os autores só divulgam ou gostam de algo daqui quando trato deles mesmos (não posso pretender que as resenhas que rascunho gerem muito interesse crítico). A revelação para mim, aconteceu depois, quando descobri, em conversa pessoal, que a pessoa não sabia que eu tinha mencionado na nota os poemas apresentados (nem mesmo os recordava, algo realmente notável). Embora a tivesse marcado na rede social, não leu a nota que escrevi (que ainda vale, creio, para documentar aquele ponto da obra).
As redes sociais servem para isso também, fingir leitura; engana-se quem pensa que se limitam a veículos de disseminação de discursos de ódio e notícias falsas.
No entanto, outras pessoas realmente tomaram conhecimento daquela nota que fiz, e a finalidade de divulgar a poesia brasileira foi cumprida, dentro dos limites do alcance do que escrevo. O procedimento de jogar nas ondas garrafas com mensagens, se levar a alguma comunicação, será com terras desconhecidas. Isso me agrada.
Um cantinho; como isto é quase invisível, efêmero e, enfim, pequeno, merece respeito; por essa razão, convenci-me a escrever esta nota, apesar da imodéstia um pouco ridícula de pensar no aniversário de algo que nós mesmos fazemos.
O blogue acabou não tendo realmente um foco temático, seguindo o que desde o início avisei; afinal, ele não espelha meus conhecimentos, e sim minha curiosidade; há coisas sobre música (que só posso escrever na minha condição de ouvinte e, talvez, de tenor de coro). Algumas receberam atenção, como a homenagem póstuma que escrevi ao barítono russo Dmitri Hvorostovsky; claro que foi bastante lida por causa do renome mundial do grande cantor, que tive a sorte de ver ao vivo duas vezes. Há notas sobre literatura, evidentemente; algumas delas estão entre as mais lidas, com destaque para a entrevista que eu e Fabio Weintraub fizemos com Vitor Silva Tavares, o grande editor português, responsável, com Alberto Pimenta, pela minha estreia em livro (O palco e o mundo, claro). Nós a fizemos em 2007, eu a publiquei aqui em 2012. O veículo onde ela saiu originalmente desapareceu, exemplo da efemeridade das coisas virtuais. 
No blogue, claro, estão diversos diversos textos sobre Alberto Pimenta, o maior poeta vivo da língua portuguesa, inclusive o ensaio sobre a inexistência desse autor, publicado pela primeira vez em 2002 em outra revista on line que desapareceu. Resgatei o texto em 2010 para o blogue; em 2004, publiquei-o em versão ampliada na antologia A encomenda do silêncio, ainda a única da poesia de Pimenta publicada no Brasil. Dos vários escritores brasileiros, o texto que escrevi sobre o poeta Zeh Gustavo é o mais consultado.
No campo do direito, há várias notas, sempre sobre aqueles campos ou temas que foram alvo de minha escrita acadêmica: direito urbano, teoria do direito, direito internacional público e justiça de transição e, sempre, direitos humanos, que foi a via que encontrei para entrar no assunto dos direitos dos povos indígenas, a quem o governo Bolsonaro resolveu negar até mesmo a água potável, enquanto o genocídio se acelera com a invasão de vírus, mineradoras e grileiros. 
Sobre o último tema, recordo especialmente a palestra que dei em um seminário, "Memória, Verdade e Justiça: Passado e Presente na América Latina", organizado em contraponto ao convite que a FFLCH/USP fez a a um político que os movimentos indígenas já haviam chamado de genocida, e que deu assessoria na construção da nefasta Usina de Belo Monte: "Desarquivando o Brasil CXXXVIII: Ações anti-indígenas de Delfim Netto". O evento do poderoso personagem tinha muito mais público, evidentemente, apesar da presença de nomes como Amelinha Teles e Adriano Diogo, militantes históricos da esquerda brasileira, no seminário de que participei.
Essas notas de ordem jurídica, não as concebo para o público especializado. Outra recordação, a propósito, da imprevisibilidade do público: fiz com Joana Brasileiro a curadoria de uma exposição sobre documentos da campanha da anistia dos anos 1970. Um(a) professor(a) especialista no tema de justiça de transição ficou muito intrigado(a): como é que eu teria conseguido encontrar aqueles documentos? Euzinho? Bem, essa pessoa seria o público especializado e, como escrevi artigos acadêmicos a partir desses documentos, essa fala me alertou para a possível irrelevância da minha pesquisa; tenho refletido nisso.
Porém, com o público geral, para quem escrevo estas notas, talvez haja, de fato, alguma circulação desses textos, e certamente essas pessoas já notaram que comentei e/ou reproduzi centenas desses documentos, que, em regra, não foram analisados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV): tanta coisa ficou de fora, prefiro me concentrar nas lacunas. Na verdade, o trabalho das comissões da verdade, iniciado tão tardiamente no Brasil, NUNCA foi devidamente concluído; há muito ainda a investigar e descobrir embora o governo federal e os estaduais e municipais não tenham, em regra, criado órgãos para a continuidade das pesquisa. Nessa omissão, muitas vezes violaram recomendações de suas próprias comissões, como é o caso do governo federal. A recomendação 26 do tomo I do relatório da CNV previu, com propriedade, o "Estabelecimento de órgão permanente com atribuição de dar seguimento às ações e recomendações da CNV", que teria, entre outros poderes, o de "monitorar o cumprimento das recomendações da CNV, com acesso ilimitado e poderes para requisitar informações, dados e documentos de órgãos e entidades do poder público, ainda que classificados em qualquer grau de sigilo, constituindo grupos de trabalho e pesquisa e instalando escritórios nas unidades federadas onde forem necessários". Nada disso foi criado, e Bolsonaro tem violado várias das recomendações do relatório. A Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva", na segunda das recomendações de "medidas de memória e verdade", recomendou a "Criação da Comissão Permanente de Investigação dos Crimes da ditadura militar e suas consequências nas políticas atuais do Estado e na vida social". João Doria não realizou nada a respeito, Alckmin tampouco o fizera.
Boa parte desses textos sobre documentos que encontrei foi inspirada por algum assunto do momento. Provavelmente por essa razão, a maioria do material do blogue que jornalistas copiaram ou em que se inspiraram fortemente tratava de temas da ditadura.
Curiosamente, a nota que mais foi lida, a única com quase quinze mil visualizações (creio que a maior parte das visualizações seja meramente acidental; estimo que pelo menos um décimo desse número leu, porém, o texto) foi uma das que cruzava literatura com justiça de transição: "Desarquivando o Brasil CXXXIII: Raduan Nassar e a ditadura militar". Esse tipo de encontro de áreas é uma das coisas que sempre suscitaram asco em vários ex-colegas na academia (e eles venceram, devo reconhecer), mas continuo persuadido de que é necessário tratar do palco no mundo, e do mundo no palco. Não foi à toa que fui fazer o pós-doutorado em Teoria Literária na Unicamp (com a supervisão de Eduardo Sterzi, um dos maiores poetas brasileiros) para tratar de justiça de transição.
Ler, contudo, é realmente mais importante do que escrever, e um blogue também serve para ler os outros; não exatamente os comentários a meus textos, que não são frequentes, o que deve ser o resultado da necessidade de minha aprovação para que o comentário seja publicado (publico quase todos, inclusive os que me xingam; apago só os que conclamam ao extermínio de minorias e à pratica de chacinas, infelizmente não incomuns, tendo em vista a extrema-direita no poder) e das instabilidades do blogspot. O blogue representa uma oportunidade especial para ler outros; por isso, à direita, está a lista deles, configurada de forma que o último a ser atualizado apareça primeiro. A seleção que fiz apresenta blogues são de natureza diversa: alguns publicam textos com caráter de crônica; outros, de ensaios; alguns são de divulgação científica; há os literários... Esta modalidade de plataforma pode abrigar tudo isso, ela não se restringe a um gênero específico.
Desde 2013, dou-me o trabalho de fazer uma retrospectiva anual, sempre com um tema diferente. Claro que nunca faço algo ensimesmado como uma antologia dos textos do próprio blogue; em 2017, tive a ideia de fazer uma com referências aos textos de outros blogues, apresentados pelos meus breves comentários. Foi divertido fazer e pensar numa ideia de rede desses veículos - que, reconheço, é algo mais potencial do que efetivo, tendo em vista que prevalece, mesmo em autores que se dizem de esquerda (falsamente, claro), a cultura neoliberal de escrever como um "empreendedor", produzindo produtos para o mercado em concorrência com os outros. Gente assim não vai entrar em rede, salvo no espírito de oligopólios... Ou, quem sabe, no de "capital social"...
Algumas das notas deste blogue que pretendiam participar de alguma intervenção talvez tenham efetivamente ajudado na divulgação dos problemas concernentes, como uma das que escrevi sobre o Teatro Oficina e sua luta contra a sanha antiteatro e antiurbanística do grupo S. Santos: "O Teatro Oficina vs. o reino da Devastação: O Rei da Vela de Oswald de Andrade e o Condephaat". Felizmente, a mobilização do Teatro, que encontrou grande respaldo social, encontrou êxito. Não foi o caso de outras, como a de Pinheirinho, Aldeia Maracanã, da campanha contra Belo Monte... No entanto, creio que em todas estive no melhor lado. Pena que minha contribuição não pudesse ser maior do que eu mesmo.
Não sei se me surpreendeu em algum momento que, das séries que fiz aqui, como sobre educação, sobre direito urbano (a última foi em 2019, "Desbloqueando a cidade XII: O direito à cidade e a imaginação jurídica", com dois temas que me interessam provocar no direito, o da imaginação e o da cidade), aquela em que mais perseverei tenha sido a "Desarquivando o Brasil". Este nome foi dado a uma campanha de anos atrás de que participava, entre outros, a historiadora Janaína Teles; mais recentemente, foi o título de uma campanha virtual sobre justiça de transição, coordenada pela jornalista Niara de Oliveira, e a que resolvi aderir. Por causa desse campo, tive de criar a página no blogue sobre justiça de transição, que organiza um pouco os assuntos e indica os documentos em ordem cronológica. A série chegou em 3 de julho ao número 169, com o texto sobre a Secretaria Nacional de Cultura.
Continuo persuadido de que a questão do legado da ditadura é central para a sociedade brasileira. É claro que fracassamos redondamente nessas campanhas, a eleição de Bolsonaros, bolsobíblicos, bolsoliberais, bolsopistolas, bolsocítricos, bolsomotosserras e bolsogenéricos comprova-o. Nesse assunto como em outros, fiz neste blogue e alhures o papel de Cassandra. Lembrem que a primeira crítica ao 00 feita aqui data de 2011: "Sexualidades que se desviam da direita: Bolsonaro e a Medicina Legal". No fim de 2017, falei das consequências para a política e para a esfera pública dos bots, que foram tão importantes para as eleições do ano seguinte: "Filosofia política e robôs na internet: uma nota sobre democracia, notícias falsas, ilusões e políticas grosseiras".
Não estou sozinho, contudo, nessas críticas.
Enfim, é necessário tentar de novo para fracassar melhor... Não há como escapar de Beckett, se lidamos com literatura! E, provavelmente, também com a justiça. 
Lembro de uma carta da época do Nobel de Literatura para Beckett. Em 14 de novembro de 1969, ele escreveu a Stuart Maguiness (que havia indicado sua candidatura à Academia sueca) sobre o prêmio: "Tentei não ganhá-lo & falhei." Em ganhar há também um fracasso, naturalmente. No entanto, o oposto seria melhor? Ele continua: "Não sei se era certo aceitar. Provavelmente não existe certo nesta situação." É mais ou menos o que penso sobre continuar escrevendo, aqui ou alhures: não se devem superestimar fracasso e sucesso que, ademais, nem sabemos no que realmente consistem.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O tópico dos "5 fatos literários sobre mim"

Ficou ontem em primeiro lugar nas discussões do twitter no Brasil o tópico #5FatosLiteráriosSobreMim, e as mensagens continuam acontecendo. Não consegui ainda entender como ele começou. É interessante que ele tenha ganhado adesão, apesar dos baixos números da leitura e do letramento no Brasil.
Pessoas físicas como eu responderam, mas também jurídicas, como O Estado de S.Paulo, que destacou os grandes escritores brasileiros que trabalharam para o jornal no passado: Euclides da Cunha, Monteiro Lobato e, hoje,  Luis Fernando Verissimo, Ignácio de Loyola Brandão e Mario Vargas Llosa. O jornal mencionou a notícia recente, nele publicada, de poema inédito de João Cabral de Melo Neto.
Entre pessoas físicas não como eu, políticos, vi Lula (claro que do atual ocupante da presidência nada veio sobre artes, exceto insultos a filme que não viu), que menciona livros que leu na prisão e revela que a biografia dele está prevista para ser lançada neste ano por Fernando Morais. Como autor, lembra de seu livro, A verdade vencerá, publicado pela Boitempo.
De escritores, vi a lista do jovem professor Luiz Guilherme Barbosa, que menciona suas visitas a Antonio Candido, a importância de certo romance de Machado de Assis para sua vida, suas publicações sobre ensinar literatura, sua coleção de poesia e o aprendizado de falar em público.
Achei tudo isso tão simpático que faço minha tentativa, também em parágrafos curtos:

Como leitor: Não vou mencionar o primeiro livro que li, escolha que a maior parte das pessoas parece ter feito. O assunto foi um dos tópicos do "30 livros em um mês", uma "blogagem" de que vários participaram em 2011. Lá estão Hilda Hilst, Apuleio, Fernando Pessoa, Dante, Virgilio Piñera, Stravinsky, Cecília Meireles... Mais genericamente, posso dizer que um dos autores mais importantes para mim continua a ser Machado de Assis. Estou sempre (re)lendo crônicas, um imenso universo que a todo momento se amplia, em razão de ainda estarem sendo descobertos textos para jornal ainda inéditos em livro. Uma vez, dei um curso sobre a formação social brasileira em que, para todas as aulas, pude designar um conto desse autor para uma atividade com os alunos. Há uma dolorosa atualidade da matéria dessa literatura: parece-me que não resolvemos os problemas que Machado identificava no fim do século XIX e no início do XX. Escrevi a partir dele este pequeno artigo sobre bacharelismo.

Como autor: Escrevo uns livros desde 2002, três deles em 2019, incluindo meu primeiro romance, Gravata lavada, e meu único livro que teve de nascer como blogue, O desvio das gentes, no gênero poesia, ambos pela editora Patuá. Apesar da diferença de gênero, ambos têm em comum a questão da transexualidade (que é central no romance, pois o protagonista é um homem trans) e o neoliberalismo (tema fulcral das duas obras).

Como tradutor: Entre outras coisas, já selecionei e traduzi poemas de Federico García Lorca para o público infantil, Meu coração é tua casa.

Como organizador: Organizei a única antologia no Brasil, até hoje, da poesia do maior de todos, Alberto Pimenta: A encomenda do silêncio, de 2004. Recentemente, dei uma aula sobre ela na Unicamp em um curso de Eduardo Sterzi sobre poesia portuguesa.

Como editor: Só trabalhei como editor, anos atrás, em uma revista acadêmica de teoria do direito. Além de publicar Heine e Alberto Pimenta (com um texto teórico), pude entrevistar um dos maiores poetas da América Latina, Julián Axat (que é também jurista): "A desobediência biopoética e o direito de resistência". Cito um trecho:
La desobediencia-biopoética, implica lograr un tipo de acción resistente: incidir y contrarrestar el gobierno del residuo-excedencia de las masas marginales en vertederos, por medio de actores que alcanzan a ocupar espacios de poder estatal que a la vez que intentan democratizar al máximo el sistema policial-penal-militar, ingenian políticas sociales populares para devolver espacios de “civilidad” y “vida”, que dotan de herramientas para la recomposición comunitarias, ajenas a las formas típicas del clientelismo político o la reproducción de la desigualdad de clase [...]
Quem ainda não o conhece (sei que a poesia contemporânea argentina não é exatamente a literatura mais divulgada no Brasil), escrevi algumas coisas sobre Axat (por exemplo, sobre poesia e genocídio), traduzi outras (neste blogue, claro, mas também alhures) e ele mantém um blogue bem ativo com seus textos e notícias de suas atividades, El niño rizoma.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Retrospectiva 2017: palavras alheias e a rede comum


Uma das tiras de André Dahmer mostra alguém preocupado com o povo sair às ruas por causa do desvio de verbas. Seu interlocutor prova que a preocupação é infundada: pela janela, veem um cara solitário com o cartaz "entre no meu blog".
A ironia de se imaginar alguém na rua com esse tipo de apelo ao virtual, bem como sua solidão, e a contraposição disso com a mobilização política, encontram paralelo na tira em que um blogueiro confessa: "escrevo sobre coisas que não entendo, para pessoas incapazes de aprender" (ambas podem ser vistas nesta dissertação de Rodrigo Otávio dos Santos, às páginas 228 e 218).
Reconheço minhas limitações em aprender; no entanto, gosto de ler blogues pela informação e pelo estilo: em alguns casos, eles cumprem o papel deste gênero literário que está a ser gradativamente expulso do jornalismo, que é a crônica.
Já organizei retrospectivas por frases da época da ditaduraapresentações musicaisgraffiti e cartazesdireitos sabotados e perdidos; desta vez, decidi por textos de outros blogues, entre os que sigo e estão indicados à direita. Não incluí aqueles que servem de simples divulgação de artigos (como os do Murilo Duarte e do Marcelo Ribeiro), ou que se compõem de curtas resenhas, por não atenderem àquele requisito de gênero que mencionei, bem como aqueles em que assino textos (o Escamandro). 
Escolhi apenas um exemplo de cada blogue. A lista, como sempre, é estritamente pessoal e não pretende dar conta do ano, do tempo, do mundo, mas simplesmente estar de acordo com a ideia de rede que sempre me atraiu na internet, isto é, de que de um texto se possa passar para outro, como uma espécie de biblioteca de Borges. Correntes em aplicativos de mensagem e o que chamam de "threads" em redes sociais, claro, não podem, em razão de sua menor exuberância textual, cumprir esse papel, embora reconheça sua utilidade em uma sociedade estruturalmente iletrada.
Pensei em fazer uma retrospectiva das imagens "Fora Temer" que vi em diversas ocasiões; no entanto, como a foto acima foi uma das mais esperançosas que encontrei, desisti de fazê-lo. 


Janeiro:
Para ler sem olhar: de Diego Viana, "Imagens que não fizeram história (4): a Brasília estourada". Viana, que já citei aqui algumas vezes, voltou a fazer um close seeing com far reaching, desta vez a partir de uma foto de René Burri tirada em Brasília, de uma "família humilde" com sua "roupa de domingo". A luz estourada da foto suscita diversas reflexões, até chegar, depois de um paralelo com Portinari ao rombo de orçamentos públicos. Quanto a mim, que sou da geração das crianças na foto, cujo nome desconhecemos, noto que elas estão mais nítidas do que os monumentos do poder, e que talvez fosse uma ação estética e política emancipadora aumentar a nitidez dos corpos contra aqueles espaços.

Fevereiro:
Seminario de Teoría Constitucional y Filosofía Política: de Roberto Gargarella, "La Corte Suprema y los alcances de las decisiones de la Corte Interamericana". Ao contrário da maioria dos constitucionalistas brasileiros, Gargarella preocupa-se com o Direito Internacional e não é isolacionista. Em 14 de fevereiro deste ano, a Suprema Corte argentina, a respeito do conhecido caso "Fontevecchia e outros contra a República Argentina", decidiu que seus acórdãos não podem ser "revogados" pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. Houve muita polêmica na época, mas, em dezembro, a Suprema Corte assentiu que a decisão atacada pela Corte Interamericana fosse declarada incompatível com a Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Faço notar que, no caso brasileiro da ADPF 153, há uma questão parecida: o Supremo Tribunal Federal decidiu com base no ordenamento da ditadura, contra a Constituição de 1988, validar a lei de anistia do tempo do Figueiredo. Meses depois, a Corte Interamericana decidiu o oposto com base na Convenção Americana. Ainda não foram julgados pelo STF os embargos de declaração interpostos na ADPF, e que se referem a essa decisão internacional. Fux, em mais uma prática de violação do regimento do Tribunal, não leva o recurso a plenário, impedindo que se aprecie a divergência entre as duas cortes.

Março:
Gaveta do Ivo: de Ivo Barroso, "Consoante de apoio - a propósito de um poema de Charles Baudelaire". É um blogue recente, em que o poeta e tradutor publica textos antigos (por exemplo, a "Antiga palestra sobre Drummond") e novos, como esta análise de traduções de um dos mais célebres poemas de todos os tempos, "Spleen LXXVII", que começa com o verso "Je suis comme le roi d’un pays pluvieux". Analisa as soluções de Guilherme de Almeida, Jamil Almansur Haddad e Ivan Junqueira, que ele considera os que se saíram mais felizes no enfrentamento desse poema, preferindo a de Junqueira. Questões de métrica, rima, cesura, aliterações e figuras de linguagem são discutidas, o que é um alívio diante do desleixo com a forma hoje em moda em certos círculos que se bastam com um verso sem novidade e frouxo, desde que o poema termine com uma coroa de flores ou qualquer outro efeito lacrimejante ou de autocomiseração. Barroso inclui a própria tradução e a critica, e faz o mesmo com a de Wladimir Saldanha, que comentou o texto (uma oportunidade que os blogues proporcionam) e incluiu a dele para comentários.

Abril:
Desigualdades espaciais: de Hugo Nicolau Barbosa de Gusmão, "Não vai dar tempo… a morte chega antes que a aposentadoria para a população negra em São Paulo". São Paulo não é a cidade mais pobre do Brasil, tampouco a mais desigual. No entanto, nela, como a maioria das pessoas negras morre antes dos 65 anos, elas não chegariam a aposentar-se segundo a proposta de reforma da previdência que se discutia (o projeto foi alterado, e a "discussão" continua a ser liberação de verbas e cargos para os que votarão contra o povo). O trabalho do geógrafo, decifrando os distritos da cidade, mostra que os brancos vivem mais que os negros em todos, e que "Quando olhamos os distritos onde a média é superior a 65 anos anos a situação se torna mais grave, em apenas 10 distritos o tempo média de vida dos negros é superior a 65 anos". Um jornal nessa cidade depois usou esses dados. Ao ver a quantidade de dinheiro que Temer vem gastando para promover essa reforma, não conseguimos deixar de pensar que o neoliberalismo esconde um projeto de extermínio.

Site personel de Didier Eribon: de Didier Eribon, "Demain, je voterai pour Jean-Luc Melenchon". Macron venceu as eleições de 23 de abril na França. Melenchon, o conhecido político de esquerda, cresceu eleitoralmente. Destaco o texto não em razão dele, mas por causa da análise política do sociólogo. Eribon explica sua opção eleitoral, apesar de não concordar com todas as propostas do candidato, tendo em vista o "deslizamento espetacular da vida política e intelectual em direção à direita na Franca ao longo dos últimos trinta anos" ("glissement spectaculaire de la vie politique et intellectuelle vers la droite en France au cours des trente dernières années"), operada "principalmente no e em torno do Partido Socialista". Ele dá uma tremenda indireta a certo filósofo do consenso: "Qu’on ne se laisse pas abuser par les sermons de tel philosophe allemand qui a oublié depuis fort longtemps l’héritage de la théorie critique de l’Ecole de Francfort à laquelle on le rattache encore abusivement." e afirma que, se Macron ganhar, como aconteceu, e aplicar seu programa, o Front national, de extrema direita, terá 40% de votos no primeiro turno na próxima eleição.

Mobilização Nacional Indígena: "O maior Acampamento Terra Livre da História!".  Trata-se de matéria sobre o último ATL. O Acampamento ocorre anualmente, e a presença dos povos indígenas na capital é estratégica. Vi Ailton Krenak, mais de uma vez, dizer que cada tiro disparado contra os povos indígenas tem sua origem no Congresso Nacional. Ademais, agravou-se a conjuntura política, já desfavorável a esses povos no governo de Rousseff; desta vez, "O ATL também deu uma aula de democracia ao governo Temer. Na terça (25/4), na primeira marcha da semana, os indígenas foram recebidos com gás lacrimogêneo e balas de borracha na frente do Congresso. No dia seguinte, foram impedidos de entrar no Senado para assistir a uma audiência pública previamente marcada e foram intimidados pela polícia no caminho de ida e de volta ao acampamento."

Euterpe: de Frederico Toscano, "Rinaldo em Londres". Não sei se o blogue terminou, seu último texto é de maio. Eu escrevi mais sobre música do que o Euterpe este ano, porém, claro, nunca cheguei ao nível do que a equipe desse blogue fazia. Para chegar a uma das óperas mais conhecidas de Händel, Rinaldo, Toscano parte de Cavalli e faz um percurso pela ópera barroca, o que inclui a figura do castrato e as razões do sucesso da "opera seria" e sua estrutura formal fundamentada na profusão de árias, solos para os cantores brilharem. Como sempre no Euterpe, há diversos exemplos musicais, e talvez o mais interessante seja a sequência das três encarnações que a música de "Lascia ch'io pianga" (uma das árias operísticas mais conhecidas, gravada até por cantoras populares como Barbra Streisand) teve na obra de Händel. Minha ária preferida dessa obra, no entanto, é "Cara sposa"; Toscano escolheu o grande contratenor Philippe Jaroussky, proponho ouvir também a fenomenal Ewa Podles.

Maio:
Transe: de Moysés Pinto Neto, "Vivemos um momento extraordinário". O jurista trata do que chama de "um grande bloco no poder — o 'condomínio pemedebista' — cuja gestão era disputada pelos petistas e tucanos" e das configurações da plutocracia na última década, de 2013 como catalisador da indignação contra esses "arranjos", com esta observação ótima sobre o antigo governo: "O compromisso com a manutenção do governo paralisa a radicalidade do pensamento, tornando a crítica refém do dogmatismo esquerdista, fazendo com que as perspectivas radicais fossem engolidas pela defesa do indefensável. A perspectiva de futuro encurta-se drasticamente — e esse encurtamento mostra-se bem quanto a questão procedimental começa a tomar a frente dos debates políticos, numa redução do político ao jurídico." Quanto ao governo atual, é claro que a única perspectiva do futuro em que se interessa é a manutenção do passado. Moysés, apesar de tudo, mostra-se otimista e julga o momento extraordinário porque "ao mesmo tempo em desaba o patrimonialismo, se abre uma janela histórica para formular novos projetos". Como ele é um dos poucos juristas brasileiros capazes de pensar politicamente, espero que participe bastante dessas formulações.

Junho:
El niño rizoma: de Julián Axat, "Tiempo futuro pos-memoria, poesía y justicia". O poeta, editor e jurista publicou originalmente este texto no blogue, que trata dos rituais judiciais da chamada pós-memória e o testemunho de pessoas como ele, filhos de desaparecidos. A figura do filho detetive da história, em analogia aos detetives selvagens de Bolaño, traz diversos relatos, que ele analisa, classifica, nesta referência a Foucault: "Cierta “enciclopedia china de la memoria” de las víctimas del terrorismo de Estado argentino, que implica -a su vez- formas inéditas, exóticas y hasta maneras estandarizadas o normalizadas de decir la catástrofe." Entre outras referências do artigos, está o interessante filme “Tierra de los Padres” (Fatherland, 2011) de Nicolás Prividera, todo filmado no Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, e composto de fragmentos da fala de mortos, numa aposta estética radicalmente benjaminiana. Note-se que a Argentina, com Macri, está num momento adverso para a justiça de transição, ou para a justiça tout court.

Julho:
Índio É Nós: "Michel Temer, a AGU e a legitimação do genocídio dos povos indígenas". Análise da opção de Temer pelo etnocídio e pelo genocídio dos povos indígenas, oficializando a "tese do “marco temporal”,  "por meio de um Parecer vinculante da Advocacia Geral da União (Parecer n. 001/2017/GAB/CGU/AGU), com a finalidade de paralisar processos de demarcação de terras indígenas no Brasil, bem como de anular demarcações já realizadas.Mais um exemplo de como o Brasil se degrada, e um prenúncio de que 2018 será um ano de ainda mais crimes e golpes, eis que 2017 mostrou que o crime, mesmo desvelado, não só compensa como pode governar sem maiores sustos, bastando dividir o saque com mais instituições, veículos de imprensa e assemelhados.

Agosto:
Rio on Watch: de Lucas Smolcic Larson, "Três razões pelas quais Charlottesville poderia acontecer no Brasil". O autor busca fazer um paralelo entre a marcha neonazista naquela cidade dos Estados Unidos, suscitada pela conjuntura política favorável a esse tipo de violência, organizada contra a retirada dos monumentos aos racistas e escravistas, com certos temas no Brasil, como o repúdio indígenas aos monumentos pelos bandeirantes (ele inclui uma foto desta manifestação de 2013 em São Paulo, com o sangue simbólico escorrendo), bem como aos crimes de ódio contra as religiões afro-brasileiras e a violência policial; o texto não se aprofunda, infelizmente, nos esforços de normalização do fascismo realizados pelos meios de comunicação.

Setembro:
Reinventando Santa Maria: de Leonardo Bernardes, "Podemos: relato de uma experiência e de um juízo". O autor, filiado do partido, conheceu membros do Podemos na Espanha e analisa as virtudes e limitações desse projeto político, bem como a "tendência a trazer a política de volta a la calle", o que é importante para o Brasil também, neste momento em que parte significativa da esquerda quer que Temer fique e faça seus horrores, pois ele é um grande trunfo eleitoral para a oposição. Ele deixa de se referir às questões relativas à unidade da Espanha como Estado, que há pouco emergiram mais fortemente, porém, com a declaração de independência da Catalunha, que trouxe as pessoas de volta para a rua. Seria interessante ele retomar a análise a partir disso.

Outubro:
Twilight Beasts: de Jan Freedman, "Walking on thin ice". Embora o blogue em geral se concentre em espécies extintas, o texto dedica-se aos ursos polares e uma foto de um desses animais, bastante emagrecido, andando sobre uma camada de gelo igualmente reduzida. Esses animais têm sofrido desde as últimas glaciações, mas o aquecimento global, provocado pela ação humana, tornou a situação mais dramática. Os fanáticos de Trump (que adoram tweets como este), presentes também no Brasil, onde se somam a outros grupos, mais ou menos convergentes, como admiradores das linhas de Olavo de Carvalho e aldorebelistas, negam esses outros efeitos de extermínio do neoliberalismo. A bibliografia indicada por Freedman pode ajudar aqueles que, desses grupos, souberem ler. 

Novembro:
EJIL: Talk!: de Philip Leach, "The Continuing Utility of International Human Rights Mechanisms?". Trata-se de outro texto sobre as questões envolvidas na internacionalização dos direitos humanos. O internacionalista analisa pesquisas recentes que apontam para a eficácia dos mecanismos internacionais, trabalhos de Kathryn Sikkink, Gráinne de Búrca, Jérémie Gilbert, Ann Skelton. Ele mesmo procura pensar a questão, no âmbito do European Human Rights Advocacy Centre, e reflete sobre as possibilidades de fortalecimento  daqueles mecanismos, sabendo que o "contexto local" será o elemento mais importante ("the domestic context will remain the most significant element"). Para o Brasil, trata-se de questão vital, especialmente levando em conta o caráter isolacionista do Judiciário nessas questões, e que tem levado grupos historicamente discriminados por esse Poder a buscar os mecanismos internacionais, como os povos indígenas.

Dezembro:
Opinio Juris: de Kevin John Heller, "The Puzzling US Submission to the Assembly of States Parties". Os Estados Unidos, na 16a. Assembleia dos Estados Partes do Tribunal Penal Internacional, fez uma curiosa declaração, analisada pelo internacionalista. Se, do ponto de vista do Direito Internacional, ela é cheia de erros e absurdos, segundo o prisma do imperialismo, ela faz todo sentido... Como se sabe, o imperialismo é fundamentalmente isolacionista, e seu uso do Direito Internacional é sempre limitado e altamente instrumental. No entanto, o jurista aponta uma passagem progressista da declaração, em que há um reconhecimento formal do dever de direito internacional de "investigar e processar crimes de guerra, genocídio e crimes contra a humanidade". É possível que esse reconhecimento tenha ocorrido com surpresa para boa parte do governo daquele Estado, como faz ironicamente notar o internacionalista: "I imagine that position will come as something of a surprise to the parts of the US government that were not involved in drafting the submission…"

Eterna Cadencia
: "Toda la poesía del 2017". Parece estranho incluir um blogue de uma loja, mas este é tão bem feito, e literário, que não pude resistir a terminar esta retrospectiva com a recolha dos textos sobre poesia que essa livraria de Buenos Aires fez. Note-se a variedade, com a presença de autores tão diferentes como Gabriela Mistral, Fernando Pessoa, Leonard Cohen e Catulo, mas nenhum poeta brasileiro, o que talvez indique uma deficiência do mercado editorial argentino em relação à literatura deste país, ou, talvez, uma relevância limitada da poesia aqui produzida. Deixo os estudiosos pesquisarem a questão, que excede minhas forças.




terça-feira, 10 de novembro de 2015

Desarquivando o Brasil CVIII: A Resistência, de Julián Fuks, e a transição política no Brasil e na Argentina

Em obras de Julián Fuks, não raro a narrativa se deflagra a partir de uma descoberta, ou da busca, de um espaço privado até então desconhecido: é o caso do apartamento em Buenos Aires (e o "trouxeste a chave" drummondiano, em espanhol, também abre a literatura) em Procura do romance (Rio de Janeiro: Record, 2011); o baú escondido em casa (que guarda simultaneamente a vida e a literatura) de seu livro infantil Menina de papel (São Paulo: Iluminuras, 2013, com ilustrações de Thiago Lopes); o João Cabral confinado pela cegueira em Histórias de literatura e cegueira (Rio de Janeiro: Record, 2007); o muro que um personagem resolve construir para isolar-se e morrer dentro de um sótão em Fragmentos de  Alberto,Ulisses, Carolina e eu (Rio de Janeiro: 7Letras, 2004), sua estreia.
No romance lançado há pouco, A resistência (São Paulo: Companhia das Letras, 2015), temos algo de parecido, porém claramente vinculado à história política do continente. O personagem e narrador Sebastián é brasileiro, mas seus pais são argentinos e ele tem um irmão adotivo que nasceu naquele país. Há problemas de relacionamento desse irmão com a família; o protagonista resolve escrever sobre isso e vai fazer a viagem que o irmão não fez, para a Argentina; um dos impasses a que chega é o de entrar na sede das Mães da Praça de Maio (p. 19); seu irmão seria filho biológico de desaparecidos?
Essa questão, bem como o da fuga dos pais, militantes de esquerda, da Argentina para se estabelecerem no Brasil, enquadra esta história na história recente do Cone Sul, das ditaduras militares e da transição política.
É a primeira vez que Fuks, cuja foto vocês podem encontrar neste blogue em passeata do Cordão da Mentira, vestindo a camiseta das Mães de Maio argentinas, em protesto contra a herança da ditadura militar, escreve um romance com tema vinculado à justiça de transição, numa perspectiva em que Argentina e Brasil são comparados, o que já foi objeto, por exemplo, do muito diferente Duas praças, de Ricardo Lísias.
Já no capítulo 7 do livro de Fuks, põem-se em tensão explícita história e memória. A memória que ele detém, no entanto, não é a dos pais, nem mesmo da Argentina, onde ele não nasceu: "Tenho a idade que meu pai tinha aquela época o bastante para saber que as armas dele não são as minhas" (p. 38). Relembra das conversas entreouvidas sobre o passado militante. Esta memória dos sussurros e dos detalhes incompletos e contraditórios ("Sei e não sei que meu pai fez treinamento em Cuba, sei e não sei que jamais desferiu um tiro com alvo certo", p. 40) que ele não viveu é bem a questão do testemunho do filho.
No livro A literatura e a vida: por que pesquisar literatura?, organizado por Vitor Cei, João Guilherme Dayrell, Michel Mingote e Ferreira de Azara, que deverá sair este ano pela Praia Editora, haverá um artigo meu, "Literatura e Justiça: Julián Axat e os desaparecidos na Argentina", que escrevi a partir de palestra que proferi na UFMG no II SPLIT – Seminário de Pesquisa Discente do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários (Pós-Lit). O livro recolhe as comunicações do Seminário. Nele, trato brevemente da questão da memória de Julián Axat, membro da organização HIJOS, que congrega filhos de desaparecidos e de mortos pela última ditadura. Um hijo, como Axat, como Emiliano Bustos, que tipo de memória tem da ditadura, visto que muitos nasceram após o golpe, ou eram muito pequenos quando ele ocorreu? Cito uma passagem de meu texto:
Sarlo critica o conceito de pós-memória, afirmando que o que existem são “formas de memória que não podem ser atribuídas diretamente a uma divisão simples entre memória dos que viveram os fatos e memórias do que são seus filhos”. Se se reservasse o termo para a memória da “primeira geração depois dos fatos”, “a pós-memória é tanto um efeito do discurso como uma relação particular com os materiais da reconstituição; com os mesmos materiais se fazem relatos decepcionantes e cheios de furos ou reconstituições precárias que, no entanto, sustentam algumas certezas”.
No entanto, a obra de Julián Axat é, realmente, um exercício de pós-memória? Ele está realmente a fazer esse tipo de reconstituição da história dos pais, a tornar as difíceis e fragmentárias reconstituições do passado em poesia? Parece-me que não.
[...]
De um lado, a experiência dos hijos permite-lhes dizer que apresentam suas próprias memórias sobre o terror de Estado: o fato de terem perdido os pais e outros parentes, de terem tido, muitas vezes, sua identidade negada ou subtraída marcou-lhes a infância e representa a marca do terror de Estado em sua história pessoal, inscrita nessa história coletiva. Nesse sentido, suas subjetividades também foram configuradas pelo terror, e isso os autoriza a falar como testemunhas diretas da ditadura.


domingo, 20 de abril de 2014

La Plata Spoon River: Poesia para os mortos que o governo tentou calar

Organizada pelo poeta e jurista Julián Axat, a coletânea La Plata Spoon River compõe-se de poemas originalmente escritos para este projeto: representar poeticamente cada um dos mortos na inundação que ocorreu em 2013 na cidade argentina de La Plata.
O título, claro, se inspira no livro do poeta estadunidense Edgar Lee Masters, Spoon River Anthology, de que há uma bela antologia publicada em português pela Relógio d'Água, traduzida pelo poeta português José Miguel Silva. O livro é composto de epitáfios, na própria voz dos mortos, que constroem a vida de uma cidade imaginária nos EUA.
Em 2013, houve uma grande inundação em La Plata. Vários morreram. Um juiz e um defensor judicial (o próprio Axat) decidiram investigar o real número de mortos, curiosamente subestimado pelo governo local...
Contra esse esforço pela verdade e pelas famílias dos mortos, o governo reagiu e tentou até mesmo o impedimento de Axat. Sendo ele quem é, jurista, poeta e editor, e genial nos três campos, decidiu reagir também no plano poético. E criou este livro, para que convidou vários autores, não só da Argentina, com a tarefa de escrever sobre as vítimas do alagamento, que o governo de La Plata, incapaz de prevenir o desastre, tentou silenciar.
Leiam esta entrevista em que Julián Axat explica a origem do livro e sua concepção de poesia política:
La inquietud primero fue meramente judicial y activista. Yo abrí la causa. Interpuse la acción ante la justicia, un habeas data para que se averigüe quienes eran las personas que estaban desaparecidas, fallecidas o en ese momento se desconocía su paradero. Paralelo a la causa judicial, siguiendo mis inquietudes artísticas-literarias, se me ocurrió un proyecto distinto. Yo trabajé casi medio mes con la causa y después el poder político me sacó. Impedido de seguir con la cuestión judicial avancé con la pesquisa literaria. Había pensado en armar un antología como Masters, escribiendo las voces de las víctimas que iba encontrando. En mi propia investigación judicial, al día 5 de abril cuando se dio la nómina, ya había encontrado que existían diez casos que no estaban incluidos. Le hice saber al poder ejecutivo que estaban omitiendo personas. Como respuesta me dicen que dejara de buscar debajo de la alfombra .

Nestes vídeos, podemos ver o lançamento do livro, e a grande multidão que prestigiou o evento: http://coleccionlosdetectivessalvajes.blogspot.com.br/2014/04/cuando-un-libro-de-poemas-es-mas-que-un.html
Na apresentação, Axat explica como a obra foi concebida e realizada, e afirma, sobre a poesia hoje, que "tiendo a creer que gran parte de la poesía que se escribe en este momento ha perdido su potencia disruptiva, por ausencia de una verdadera propuesta o relato interpelativo que la contenga."
A maioria dos autores é argentina, mas há exceções. A vítima que me coube nesse livro foi uma senhora, Dora Romero, que se afogou enquanto seu cão sobreviveu: ele conseguiu subir na mobília e salvar-se, ela não.
Eis o original. Não tentei escrever em primeira pessoa; quis elaborar um texto curto. O poema foi traduzido para o espanhol para a coletânea pelo poeta argentino Anibal Cristobo, que já havia traduzido para essa língua meu livro Cálcio.

Dora Romero

Um cão, uma mulher
e as águas. Só um deles
gritaria as marés,
terra calada. Cão,
mulher e águas. Um deles
seria o mais profundo
fugindo à superfície
da vida autorizada.
Águas e cão, mulher
sob os móveis a ver
toda a casa um rio
que o negro mordia.
Ouvir quem mergulhou
e fala do naufrágio
onde o poder navega.
Ouvir quem naufragou
quando a cidade e as ondas
latiram confundidas.
Ouvir quem se calou
submerso e na justiça
conheceu o deserto.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Antologia mural de viagem: Argentina, maio de 2013

Estive em La Plata para lançar um livro com Julián Axat; fiquei apenas dois dias, e não consegui andar muito pela cidade.
Em 2012 eu havia feito uma pequena antologia mural
(http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/08/antologia-mural-de-viagem-argentina.html), agora tento outra, mais curta.
Não vi muita coisa sobre justiça de transição. O cartaz que achei mais expressivo era este, de março.


Jorge Julio Lopez foi um dos alvos de desaparecimento forçado após a democratização do país, em 2006, após ter sido testemunha no caso de Miguel Etchecolatz, ex-Diretor de Investigações da Província de Buenos Aires, responsável por torturas e assassinatos durante a última ditadura militar na Argentina (http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2010/12/brasil-argentina-e-os-desaparecimentos.html).


l

É curiosa esta imagem de Chávez mandando os gringos voltarem para casa; na assinatura, ironicamente, o termo pejorativo para sul-americanos (que vi pela primeira vez na Espanha: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2010/09/impressoes-europeias-sombra-do.html).



Um dos momentos em que o populismo penal costuma se manifestar são as campanhas para a diminuição da maioridade penal, o que se pode verificar tanto no Brasil quanto na Argentina. No caso argentino, recomendo a leitura de artigo de Julián Axat, Defensor Judicial de menores, que mostra como as autoridades de La Plata, ilegalmente, buscam burlar a inimputabilidade penal dos menores: http://elniniorizoma.wordpress.com/2011/04/26/ese-eterno-objeto-de-proteccion/




O governo de Cristina Kirchner conseguiu aprovar legislação antiterrorista, que trouxe possibilidades de criminalização de movimentos sociais, segundo outro grande jurista argentino, Roberto Gargarella, com o seguinte paradoxo: "El momento en que el Gobierno aprobó la ley antiterrorista resultó singular y curioso. Con debida obediencia, sus defensores sostuvieron que aprobaban la ley pero que nunca la aplicarían.": http://seminariogargarella.blogspot.com.br/2013/05/de-la-ley-antiterrorista-las-leyes-de.html
A hipocrisia governista é desmentida com noções muito básicas de teoria do direito: a hermenêutica jurídica, dizia Gadamer, sempre inclui a dimensão da aplicação. Ademais, até mesmo uma norma que não é efetivamente aplicada não deixa de gerar uma eficácia simbólica.
Não é necessário aplicar a lei para que ela produza, pois, certos efeitos: no caso, o de ameaçar e, assim, restringir, a ação de movimentos sociais.



No entanto, o que mais vi foram inscrições contra o femicídio, que já vi escrito, no Brasil, feminicídio.De um grupo feminista de esquerda, Las Rojas, vi inscrições sobre o caso de Mariana Condori, estrangulada, com vinte anos de idade, em 2012; ninguém foi condenado por sua morte: http://observatoriodemedios-genero.blogspot.com.br/2012/04/el-caso-de-mariana-condori-culpable_631.html e http://www.mas.org.ar/periodicos_2012/per_241_al_246/Sob-243/220213-not13.html As feministas criticam o viés patriarcal da justiça argentina, que deixa na impunidade este tipo de crime, que se repete.


Este foi outro caso que vi inscrito nas ruas. Uma jovem peruana, Sandra Ayala Gamboa, foi estuprada e morta em La Plata em 2006, em um prédio público, onde ficava o Arquivo da Secretaria de Economia da Província de Buenos Aires. No julgamento, houve uma condenação a prisão perpétua (o que não poderia ocorrer no Brasil), o que foi considerado insuficiente, pois haveria mais três criminosos, segundo os traços de DNA encontrado nas unhas da vítima, lembra o manifesto assinado pelos familiares e diversas organizações, que apontam o caráter de classe e de gênero deste crime: "El caso de Sandra es un claro ejemplo de como el Estado encubre, reproduce y legitima la violencia hacia las mujeres. El crimen fue en un edificio estatal, ninguna cerradura fue forzada. Hay claro responsables políticos. La justicia patriarcal y de clase mantiene completa impunidad." (http://www.pcr.org.ar/nota/mujer/justicia-por-sandra-ayala-gamboa-0).

 


No prédio onde ocorreu o crime, não funciona mais o arquivo, e ele foi tomado, em sua fachada, pela memória de Sandra Ayala. As autoridades são denunciadas por encobrirem responsáveis pelo crime ocorrido no prédio público.


"Si no hay justicia/ hay poesía", escreveu Julián Axat (http://librosdelatalitadorada.blogspot.com.br/2013/04/julian-axat-musulman-o-biopoetica.html) - lema que descende da divisa dos HIJOS, "se não há justiça, há escracho", encontra aplicações nestes dois casos. A morte de Mariana Condori gerou manifestações e vídeos como http://www.youtube.com/watch?v=aGyRuv02Bzg e http://www.youtube.com/watch?v=q-qjxloO6MU (com o depoimento da mãe, Alejandra Pereyra, da professora Delia Anión Suárez e um texto de Eduardo Galeano, lido pelo próprio escritor, sobre esse tipo de crime) e este, de Las Rojas, com a pintura de um painel contra a justiça patriarcal: http://www.youtube.com/watch?v=2koebT0FQHw.
No caso de Sandra Ayala, as intervenções artísticas no espaço público (http://argentina.indymedia.org/news/2013/02/832275.php) inspiraram artigo de María Eugenia Marengo na revista Aletheia, "Arte en acción y movimiento: El caso de Sandra Ayala Gamboa" (http://www.aletheia.fahce.unlp.edu.ar/numeros/numero-3/pdfs/Marengo-%20Ok.pdf).
A autora destaca que "El sentido apunta a denunciar a estos asesinatos como “femicidios”, y comenzar a instalar esta palabra para hablar de estos crímenes, mal llamados por los medios de comunicación masiva y la justicia, como 'crímenes pasionales'; o 'dramas pasionales'." A partir dessa nova categoria, instauraram-se as diferentes linguagens artísticas do escracho feminista, de que o artigo traz diversas imagens. E mais:
A su vez, considerando a la concepción franckfurtiana sobre la “Industria Cultural” como una manera totalizadora de obviar a las culturas populares y  las luchas sociales se puede observar que a contramano del concepto de mercantilización del arte y del lenguaje, en las intervenciones por la causa de Sandra la visión de arte se enmarca como parte de un lenguaje. Este lenguaje, no pierde la dimensión crítica, al imaginar la posibilidad de un mundo distinto, reconociendo en al arte como el soporte y el elemento transformador.
Trata-se do papel, que a arte pode assumir, de suscitar desejos de justiça, e também de imaginar categorias jurídicas. Papel a que muitos juristas têm faltado, por serem produtos e reprodutores de uma cultura jurídica que louva a paráfrase, a cópia e o culto do prestígio, e não a capacidade de criar - que, aliás, exige uma base teórica que, em geral, não existe para aqueles que aprenderam Direito da mesma forma como (dizia Kafka) se mastiga serragem que já passou por milhares de bocas.