O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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sábado, 25 de outubro de 2025

Adrenalina e o coração com fios de Filipa Leal

Li Adrenalina (Assírio & Alvim, 2024), de Filipa Leal e, apesar de reconhecer o humor das obras anteriores ("Quando cheguei ao carro, estava multada.", p. 69), e as mesmas características do verso, percebi diferenças deste novo desde a estrutura. Ele não tem o tipo de unidade de Fósforos e metal sobre imitação de ser humano, de 2019, produto de uma concepção muito interessante de livro, que incorporava a própria crítica a seu texto. 



Adrenalina realiza outra configuração de livro: boa parte de sua unidade vem do trabalho com imagens recorrentes, como o unicórnio que ela encontra em um guardanapo ("Meu guardanapo de papel") e na canção de Silvio Rodríguez ("Biblioteca Gabriel García Márquez"), em que ele é azul, a mesma cor do guardanapo; a própria poeta é pintada de azul por Isabel Lhano ("Amigos coloridos"), que é a cor da guitarra que origina miticamente a música ("A mulher da guitarra azul"). 

A trama de imagens tem várias recorrências, que estabelecem ligações inesperadas: a casa é do amor ("O amor é uma casa interrompida", mas também "uma casa cheia/ de janelas sobrepostas"), é da Rosa (que "fica lá dentro, a espiar sua própria casa") e há outras casas, que pertencem às avós - e ao menos na de Avó Dores treina-se para se acostumar à morte, que, parece, tanbém constitui a casa aberta pela porta em que "Georgia O'Keeffe entrou e não saiu." ("A porta de Georgia O'Keeffe").

Ressalto esse tema porque me parece estar no centro da obra, anunciado já no título, que somente compreendi no meio do livro, ao ler "Se calhar tenho café no coração". Esse poema conta uma experiência de quase morte depois de injeções de adrenalina:


Ligaram-no, eu vi, mas não chegou a ser preciso
usar o desfibrilhador para a reanimação
porque o meu coração sem fios
era, afinal, capaz de suportar um milhão de barris de café.

Esse tema ecoa em vários poemas, como, além dos que já mencionei, "Avó Isabel" e seu inquietante final: "E não era de polícias que eu tinha medo". 

Os poemas sobre pandemia buscam tratar da questão em sentido mais coletivo, o que é mais raro nesta poética. O melhor, parece-me, "Os mascarados anos 20", assim termina:


E acabámos, acabámos aos milhões.
 
Os que sobreviveram acabaram, foda-se,
a tomar sol em comprimidos.

Também neste livro de 2024 de Filipa Leal (Fósforo e metais, por exemplo, abria-se com uma epígrafe de Adélia Prado) aparecem referências ao Brasil: do rapaz anônimo que trabalha no mercado a Chico Buarque, Drummond, Leminski. No final de tudo, surge uma homenagem a Clarice Lispector com a repetição do procedimento de listar diversos títulos, que a escritora brasileira usou em A hora da estrela, o último livro que ela conseguiu lançar - e é marcado pela morte também nesse sentido biográfico.

Nesse procedimento, pois, também temos uma alusão à morte em Adrenalina? Em primeiro plano, ele faz diretamente alusão em Adrenalina à passagem do tempo. Por isso, quero citar um poema que parece ecoar Cecília Meireles. O célebre "Retrato", do livro Viagem, começa com "Eu não tinha este rosto de hoje" e conclui-se com este quarteto:


Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Em "Os espelhos", de Adrenalina, não sem humor, a perspectiva é invertida:



Quando, muito raramente, de xis em xis anos,
olho para um espelho, reparo que
os espelhos
são coisas que mudam muito com o tempo.


Destaco também o poema seguinte, "Os dias sem surpresa", que cita nominalmente Drummond, porém termina como Manuel Bandeira à espera da "indesejada das gentes":


Aos 40 anos, tudo que desejo sao estes dias
sem surpresa: chegar ao céu, sentar-me,
efectuar o pagamento no acto da entrega.

A autora entrega como último poema "Recado para Paulo Leminski", em que avisa, lamentando não poder ter-se dedicado totalmente à poesia, seu sonho de infância: "Crescer é ser interrompido." Curiosa forma de terminar um livro de poesia, lembrar do princípio da realidade!

A morte é uma interrupção e a poeta sutilmente não menciona esse substantivo aqui, tampouco no belo poema de nascimento "Quarto 332", muitas páginas antes. Embora o livro ainda tente prolongar-se na miríade de títulos no fim e, dessa forma, eles funcionem como lápides (ao contrário do que fez Clarice Lispector), pode-se indagar do que realmente foi terminado.

A trajetória de Leminski foi interrompida cedo (e outros de sua geração, Ana Cristina Cesar e Cacaso, viveram ainda menos do que ele). No entanto, postumamente, sua obra cresceu muito perante o público; ademais, chegou até a este livro do outro lado do Atlântico. 

Mandar um recado para o poeta morto atesta essa vida dos poemas, que é a de gerar novos discursos, novos desejos, fios entre autores (o médico no poema da adrenalina errou ao dizer que ela não os tinha no coração) e novos golpes na arte marcial (Leminski, o judoca) que é a poesia; eles exigem muito do coração e, evidentemente, da adrenalina.

No Brasil, infelizmente Filipa Leal ainda só tem publicado A cidade líquida, iniciativa da editora Moinhos em 2022. 

sábado, 2 de dezembro de 2023

"Consanguíneo": um réquiem escrito por Eduardo Quina

Eduardo Quina publicou durante a última pandemia Consanguíneo (Porto: Officium Lectionis, 2021). Quando o li, eu estava ensaiando o Requiem de Mozart no Coro da Cidade de São Paulo. Achei que se tratava de um encontro significativo, porque se trata de poesia sobre morte, mais especificamente da mãe. 

Os poemas são curtos e em versos livres: em geral, cada divisão do livro soa como um poema só, dividido em pequenas unidades, uma em cada página. Na primeira parte do livro, "Morrer ou enlouquecer", um Miserere, lemos a referência entre a relação entre mães e filhos:


da terra nascem inócuas flores:
não sobrevivem ao sangue puro das mães (p. 21)


selam as veias com sangue
para silenciar a dor dos filhos: (p. 25)


minha mãe estava em mim
como uma constelação paciente
que sangrava a minha dor: (p. 27)

O ponto alto destas referências é provavelmente este: embora mortas, as mães continuam a alimentar os filhos:

pedem perdão dentro das suas sepulturas:
no interior do seu ventre há ainda alimento:
é o corpo em decomposição (p. 32)

Neste caso, trata-se da fonte da poesia. Estamos, pois, em terreno dos mitos que ligam o poeta à morte, como o de Orfeu. Quina, por isso, não soa nada falso quando assume esta linguagem mais próxima do simbolismo:


[agora guardo em mim seres imóveis
em forma de espectros:
depois solto-os à feição de aves
para que espalhem inocentemente a morte
ou
um deus em forma de suicídio] (p. 34)

Em linguagens mais prosaicas, passagens como essa não teriam lugar. Não é o caso da poesia de Quina, permeada de figuras de linguagem.

A segunda parte do livro é intitulada a partir de Leopoldo Maria Panero ("O jogo da cabra cega ou 'essa beleza demente da infância' [Vestigia Dei]"), o que nos faz esperar que a linguagem seja arremessada para as fronteiras da razão. Algo disso acontece, de fato, mas a grande marca da seção é a violência dos temas, especialmente na ligação entre infância e Igreja:


num charco de flores
o verme
apodrece numa pequena
concentração
de luz

[a criança estilhaça-se impotente
contra os vitrais da igreja] (p. 41)


[ninguém fala a tua
língua puta
ó deus] (p. 45)

 Marca-se o anticlericalismo desta seção:


[é domingo:
                    deus descansa de todas as mortes]


A parte seguinte, "Natureza morta", continua o anticlericalismo da anterior e acusa o "usurário das promessas de deus". 
O livro traz uma nova divisão chamada "Maligno", destaca com as epígrafes da conhecidíssima frase de Adorno sobre poesia e Auschwitz e o artista português Rui Chafes: "A beleza é impossível sem as marcas da morte". De fato, há uma diferença: predomina a visão de "estamos mortos e ainda respiramos" e a escritura de uma "biografia insuportável da perda" desde a infância. A maternidade volta a aparecer, porém não na figura de uma pessoa, mas como fonte do aniquilamento: "um útero guarda ainda a aflição / de um corpo."
Em "Ausência (regresso a Orpheu)"; o mito é nominado no próprio título da seção. Esta parte me parece menos bem realizada: esta invocação explícita aos deuses é menos poderosa do que as outras partes faziam e o discurso poético perde intensidade. Uma passagem como "[afinal, o que pode a poesia?]" tanto enuncia o problema quanto é parte dele.
Em "Labirinto", concentra-se o discurso no símbolo da flor (que aparece por todo o livro, às vezes metonimicamente com as referências a pétalas). 

no corpo que sangra
subsiste uma flor
por entre os dedos lâminados
de impotência:
pétala a pétala
compões o rosário
do sofrimento:
    é o crime pelo fogo roubado. (p. 160)

Novamente, a referência ao mito no verso final (Prometeu) vem explicar a imagem, o que não é a melhor coisa a se fazer em poesia.
Esta seção tem subdivisões; depois do "Pórtico", chegam "Sombras", que citam o próprio poeta em epígrafe, suas "sombras mortas entre os dedos". Aqui, o complexo materno proporciona a força de passagens como esta:

depois, há um espaço em ti que pode ser um lugar:
e escondes-me no teu útero para
que te possas ausentar. (p. 174)

Estes versos parecem anunciar a poética do livro:

escrevemos na rudeza das mãos
a anatomia imprópria das sombras. (p. 185)

Na última subdivisão, "Sem saída", em que a epígrafe novamente revisita poemas anteriores seus, insiste-se no simbolismo com referências religiosas e/ou antirreligiosas: "a minha memória/ são as cicatrizes de deus."
Depois da "Cegueira", um "Epitáfio". São dois poemas, porém o último devora o anterior, que tem passagens explicativas a contrastar com as melhores passagens de Consanguíneo. O final é interessante: o gesto lembra o de Cecília Meireles na parte 7 de Elegia, outro poema fúnebre, que a poeta dedicou à avó Jacintha Garcia Benevides e publicou no fim de Mar absoluto. Nos dois casos, o poeta morre também. Cecília, porém, continua o poema.
O livro de Quina é longo, mas suas partes fortes compensam de longe as que caem na tentação de explicar ou reiterar o verso. 
Um réquiem, naturalmente, é uma missa e, por essa razão, pressupõe uma relação forte com o sagrado, seja para consagrá-lo, seja para lutar com ele, em revolta contra a morte. O poema final revela a fé de que deriva a força desta poesia -- ela só pode acreditar na dor:

dentro de ti a dor. a dor torta. situada.
como uma extensão de deus. (p. 207)

domingo, 18 de março de 2018

Marielle Franco e a memória das execuções em Cecília Meireles e Ricardo Aleixo

Notei que a execução da vereadora do Município do Rio de Janeiro, Marielle Franco, do Psol, no dia 14 de março de 2018, suscitou para vários a lembrança desta poeta que é sempre necessária, Cecília Meireles. Vi diversas pessoas que lembraram de passagens do Romanceiro da Inconfidência sobre execuções políticas (enquanto a direita mais raivosa fingia serenidade ao pretender que o assassinato da militante e membro do Legislativo nada tinha de político).
Muitos lembravam destes versos:
Toda vez que um justo grita,
um carrasco o vem calar.
Quem não presta fica vivo:
quem é bom mandam matar.
Vi alguns citando-os no twitter, porém o mesmo ocorreu no facebook. Esses que homenageavam Marielle Franco entre os justos assassinados escolhiam um trecho do "Romance V ou Da Destruição de Ouro Podre", do Romanceiro da Inconfidência, de 1953. Embora no centro do livro esteja a execução política de Tiradentes, neste poema, além da destruição pelo fogo do arraial de Ouro Podre ordenada por Dom Pedro de Almeida, temos a execução, com esquartejamento, de Felipe dos Santos. Trata-se de episódio anterior à Inconfidência, que a autora, com seu senso histórico, escolheu contar no início do livro.
Cecília Meireles escrevia, em geral, a partir do prisma da memória, e muito do que fez tinha como efeito honrar os mortos: os seus e os de todos, como os Inconfidentes e Gandhi. Dessa forma, ela se aproximava da matéria social na poesia.
Muitos vezes a memória escapa, e recusa-se a entregar uma imagem definida. A musicista Cecília Meireles chegou a criar quase canções sem palavras usando apenas, paradoxalmente, palavras, empregando ritmos e formas audivelmente encantatórias que mais sugerem do que revelam, e nisso encontram sua maior eloquência. Um poema que me toca desde a infância é "Ária", do Retrato natural, livro de 1949. Ela tece vários motivos a partir de "Na noite profunda" e "Na profunda noite".
Quem nos vai recordar
na noite profunda?
Pensamento tão gasto,
amor sem milagre
na profunda noite.
Os amigos se extinguem.
Nessa noite de solidão imensa, ela finalmente pede: "Na noite profunda,/ deixa para sempre,/ deixa agonizar/ solitário meu rosto,/ na noite profunda,/ na profunda noite/ que a memória levar."
A memória se vai com seu rosto, sua identidade, nessa noite profunda em que os amigos foram perdidos; como a memória é uma construção coletiva, a extinção dos amigos equivale à agonia do rosto, que será levado. O ritmo destes versos, de cinco e de seis sílabas, e a rima deixada para o fim (o significativo duo agonizar/levar) fazem-nos de fato pensar em música (o título é muito apropriado), que termina de forma quieta.
Para tratar de uma chacina cuja memória querem apagar, Ricardo Aleixo, curiosamente encontrou uma forma bem parecida no poema "Na noite calunga do bairro Cabula" de Impossível como nunca ter tido um rosto (Belo Horizonte, 2015). Perguntei ao poeta, que me disse que não conhecia o poema de Cecília. O ouvido dele chegou a um resultado semelhante ao dela, o que é significativo.
Morri quantas vezes
na noite mais longa?
Na noite imóvel, a
mais longa e espessa,
morri quantas vezes
na noite calunga?
Além das variações em torno da noite, o número de sílabas dos versos é parecido. Diferentemente de "Ária", a memória aqui nomeia um acontecimento específico: "morri quantas vezes// na noite terrível,/ na noite calunga// do bairro Cabula?"
Trata-se da chacina que vitimou 12 pessoas em 2015 naquele bairro de Salvador, e que recebeu este comentário do governador Rui Costa, do PT, nesta absurda comparação: "É como um artilheiro em frente ao gol que tenta decidir, em alguns segundos, como é que ele vai botar a bola dentro do gol, pra fazer o gol". A justiça baiana absolveu em tempo recorde os policiais militares acusados, em julho daquele mesmo ano. O Ministério Público Federal pediu a federalização do caso, alegando que a justiça baiana não apresenta condições de julgá-lo, mas até hoje o STJ não decidiu.
As vítimas eram negras, e a identidade étnica parece-me ser posta por Aleixo desde a qualificação "calunga" dada à noite. Por essa razão, o poema tenta fazer uma virada de esperança, revertendo o significado da cor da noite: "[...] e meu nome/ é aquele que não morre// sem fazer da noite/ não mais a silente// parceira da morte/ mas a mãe que pare// filhos cor da noite/ e zela por eles", o que é muito bom, e exemplifica o esforço militante de ressignificação da imagens ligadas ao preto. O livro parte da premissa de que é "impossível" "nunca ter tido um rosto", e a face negra, sua identidade, não será dissolvida, em gesto oposto ao do fim do poema de Cecília Meireles, onde vemos um eu em dissolução; ele afirma que "Sou muitos", "[...] sou tantos// que um dia eu faço/ a vida viver.
No final, há uma rima entre "ser" e "viver", o que poderia evocar de novo "Ária"; no entanto, ele se diferencia também por abandonar as variações em torno da noite.
Creio que esse gesto que aponta para insurgência, fundada na identidade negra, deveria mesmo abandonar aquele motivo inicial. Contudo, sempre achei esse final menos convincente, por não apresentar a complexidade do drama anterior, ou não resolvê-la formalmente.
No entanto... No último evento de que Marielle Franco participou, na Casa das Pretas, ela fez questão de lembrar do caráter coletivo de sua luta e do mandato ("é a gente que está morrendo, é nosso povo que está morrendo, e então a gente tem que lidar para avançar"), e por isso evocou mulheres negras como Angela Davis, Lélia Gonzalez, e aquelas que a precederam na Câmara: dez anos antes dela, Jurema Batista e, dez anos antes dessa antiga vereadora, Benedita da Silva.
Comentou, nesse ponto: "a gente não pode esperar mais dez anos, ou achar que estarei ali dez anos". Infelizmente, tinha razão não porque seria eleita para outros cargos, mas porque morreria naquela mesma noite.
Sua morte multiplicou a força daquela ação pautada pelo coletivo, e ela tornou-se tantos, como no poema de Aleixo: seu assassinato gerou mais impacto na internet do que o impeachment: "3,573 milhões de tuítes" que, "Nas 42 horas seguintes, mobilizaram 400 mil usuários do Twitter em 54 países e 34 idiomas. Mas os três nós que amarraram essa rede global têm muito em comum: são mulheres, cariocas, periféricas e negras." (leiam a matéria "Marielle bate impeachment no twitter", de José Roberto de Toledo e Kellen Moraes para a Piauí). Além da própria Marielle, as duas mulheres cujos tweets ficaram no centro da repercussão foram a jovem Milena Martins e a cantora Elza Soares.
Enquanto essas vozes de mulheres negras repercutiam mundialmente (note-se que talvez o melhor perfil da vereadora negra, bissexual e periférica tenha sido o de Fernanda Odilla para a BBC, enquanto certo jornal do Rio minimizava sem sucesso a morte), o que fazia a direita? Calava-se fugindo de seus deveres públicos, ou calava-se porque sua opinião é conhecida demais, tentava calar via Itamaraty a repercussão mundial do crime, e também perdia a gramática e a lógica, ou partia para a mais abjeta difamação, tentando assassinar a memória de Marielle.
Nem uma vaga lembrança da poesia poderia passar por essa gente.

P.S.: Contou Mariana Gomes Caetano que, no mesmo dia do crime, a vereadora havia proposto um projeto de lei instituindo a Medalha Edson Luís, estudante assassinado pela ditadura no Rio de Janeiro em março de 1968 (outra execução), cinquenta anos antes da morte de Marielle Franco. Espero que o partido leve o projeto adiante, e crie uma homenagem para ela também.

domingo, 16 de outubro de 2011

30 dias de leituras: Música, Cecília e Augusto

30 livros em um mês

Dia 28: Um livro que você cita de cor.

São tantos, que é difícil escolher. Alguns deles (Rimbaud e Pessoa) já apareceram nestes trinta dias de leituras, que viraram quase quarenta (não consegui manter o ritmo de uma nota por dia).
Como são muitos, creio que é legítimo escolher os primeiros na minha experiência de leitura. Eu lia Cecília Meireles na edição da Obra poética de 1958, pela José Aguilar, que meus pais tinham em casa, e Augusto dos Anjos, em uma edição do Eu e outras poesias um pouco menor do que as atuais. Hoje, temos a edição da Ática com os comentários de Sérgio Alcides.
A edição da José Aguilar era linda, muito diferente da que lançou a Nova Aguilar. Em 2001, foi publicada pela Nova Fronteira, com organização de Antonio Carlos Secchin, a primeira edição realmente completa da poesia, com os dois primeiros livros da autora, mas hoje também está esgotada.
O livro de 1958 incluía os desenhos de Cecília - que hoje estão publicados em Batuque, samba e macumba pela Martins.
Essa edição não tinha, evidentemente, os últimos poemas e o vasto material inédito que ela deixou ao morrer - tão nova - em 1964. Consegui, depois (faz tempo), achar em sebo esses poemas (inclusive o livro Solombra) nas edições organizadas por Darcy Damasceno.
Dela, porém, não saberia destacar um livro: desde Viagem, ela muda muito pouco. Romanceiro da Inconfidência é diferente pela matéria, mas a poética, nós a reconhecemos prontamente. Mar absoluto e outros poemas talvez seja o mais diverso nesse aspecto. Já Solombra se destaca pela adoção de uma mesma forma para todos poemas. E Vaga música? Retrato natural? Canções?
Entre os inéditos, há coisas desiguais, que ela provavelmente não teria publicado. Mas neles encontramos versos como "Mas eu amo o eterno e o efêmero e queria fazer o efêmero eterno."; "Ah! do que se disse nada mais se diga!/ Vai-se a tua Amada - vai-se a tua Amiga!"// Ah! do que era tanto, não resta mais nada.../ Mas houve essa Amiga! mas houve essa Amada!"; "Mas essa estrela,/ Rua da Estrela,/ com que o teu nome/ me deslumbrara,/ essa eu não via./ Talvez chegava/ pela alta noite?/ De madrugada?"; "Vão saindo da tua cabeça as campinas sangrentas./ Como a cauda dos cometas, vão para longe/ as perspectivas de corpos caídos e mãos abertas."
Tantos desses poemas tematizam a morte. Ela justificava essa temática com sua experiência pessoal. Creio até que foi a morte dos chamados inconfidentes o que a motivou para escrever o Romanceiro, livro em que os fantasmas literalmente falam.
O som predominante na obra acaba sendo o da elegia. A música na poesia de Cecília - ela, entre outros mil talentos, também era musicista - é tão forte que somos tomados por seu ritmo, que atinge diretamente a sensibilidade, antes mesmo de podermos apreender-lhe o sentido. E assim, sem notar, aprendemos de cor seus poemas.
O ritmo é explicitamente sentido nesta poesia ("Tem sangue eterno a asa ritmada"). Um exemplo disso é "Ária", de Retrato natural, um prodígio técnico com forte carga emocional: "Quem nos vai recordar/ na noite profunda?/ Pensamento tão gasto,/ amor sem milagre/ na profunda noite./ Os amigos se extinguem."
E nem citei os poemas que sei de cor...
Música de caráter bem diverso é a de Augusto dos Anjos. É curioso notar que os dois poetas são sucesso de público - e foi a fidelidade dos leitores que salvou a poesia de Augusto do esquecimento, já que nem mesmo os modernistas, em um primeiro momento, deram-lhe atenção. Talvez a musicalidade de ambos, que atinge o coração antes mesmo do entendimento, tenha criado essa empatia.
A de Augusto dos Anjos é mais violenta do que a de Cecília, mas tão característica que o leitor pode entender o sentido do poema sem compreender todas as palavras - o que é notável, pois ele usava muito léxico científico, e palavras não normalmente associadas à poesia, ainda mais no início do século XX, tempos de principado parnasiano no Brasil. Imaginem a coragem de começar um soneto desta forma: "Eu, filho, do carbono e do amoníaco."; escrever um decassílabo somente com duas palavras, e estas: "Profundissimamente hipocondríaco" (versos do soneto "Psicologia de um Vencido", que sei de cor).
Cientificismo? Não é tão simples, pois a astrologia e os misticismos entram nesse caldeirão poético e lexicográfico, além de filosofia - especialmente Schopenhauer. Augusto dos Anjos sempre me soou como um desbravador que tentava incorporar novos continentes à poesia: "Sofro, desde a epigênesis da infância,/ A influência má dos signos do Zodíaco!"
Um desses continentes é a pobreza. Essa poesia tão pessimista em tantos momentos nasce de uma experiência brasileira: "Sol brasileiro! Queima-me os destroços!", lemos na última estrofe do poema longo "Gemidos de arte". No quadro universalista de dor pintado pelo poeta, temos "É o dinheiro coberto de azinhavre/ Que o escravo ganha, trabalhando aos brancos!"
A consciência e a autocrítica no tocante à dominação de classe aparece em poemas muito anteriores a Drummond rever a oligarquia mineira. O soneto "Ricordanza della mia Gioventù" compara o furto de moedas do patrão com o "furto" (para o Código Penal burguês, não se poderia caracterizar assim...) do leite que a ama-de-leite poderia ter destinado à própria filha, mas tem de ser dividido com o filho do patrão...
Nesse poema, está ausente o léxico científico; não é necessário. Porém, para traçar o quadro geral de "Os doentes", Augusto dos Anjos convoca todos os seus recursos para ultrapassá-los: "Tentava compreender com as conceptivas/ Funções do encéfalo as substâncias vivas/ Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam...// E via em mim, coberto de desgraças,/ O resultado de bilhões de raças/ Que há muitos anos desapareceram!"
Ele de forma alguma está interessado em simplesmente repetir ensinamentos científicos e filosóficos, e sim submete esses recursos a uma síntese pessoal (não por acaso o livro chama-se, atrevidamente, Eu) e poética - a poesia tem uma dignidade nesta obra impressionante, de traçar uma imagem não só do humano, mas como do universo - em vários momentos, ele rompe com o antropocentrismo e tenta fazer a matéria e outros animais falarem, numa espantosa solidariedade com todos os seres.
Não é de estranhar que poetas com ambição artística mais restrita e literatura mais palatável e cordial tenham rejeitado essa obra. Lembro de Mário Quintana, afirmando que Augusto dos Anjos era Baudelaire em último estado de decomposição...
Na IV seção de "Os doentes" temos o extermínio dos indígenas, assunto sempre atual, ainda mais com o governo de Dilma Rousseff e a possibilidade de genocídio com a eventual construção de Belo Monte:

A civilização entrou na taba
Em que ele estava. O gênio de Colombo
Manchou de opróbrios a alma do mazombo,
Cuspiu na cova do morubixaba!

E o índio, por fim, adstrito à étnica escória,
Recebeu, tendo o horror no rosto impresso,
Esse achincalhamento do progresso
Que o anulava na crítica da História!

[...]

A hereditariedade dessa pecha
Seguiria seus filhos. Dora em diante
Seu povo tombaria agonizante
Na luta da espingarda contra a flecha!

[...]

Em vez da prisca tribo e indiana tropa
A gente deste século, espantada,
Vê somente a caveira abandonada
De uma raça esmagada pela Europa!

Uma crítica contundente ao progresso. Ele também é um poeta da morte, de vários tipos de morte, inclusive o genocídio e seus sons tonitruantes, que a história brasileira já conhece - de cor.