O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

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quinta-feira, 16 de março de 2017

30 dias de canções: Bosco e Blanc vs. racismo e censura

30 dias de canções

Dia 24: Uma canção cujos compositores ainda deveriam trabalhar juntos

"O mestre-sala dos mares", de João Bosco e Aldir Blanc. Vi, neste mês, o próprio João Bosco a cantando com surpreendente divisões, acompanhado apenas com o seu próprio e inimitável violão: https://www.youtube.com/watch?v=l_sdVAgyiLk.
Esta dupla foi lançada por Elis Regina. Ele contou na apresentação que vi que ele foi beneficiado por Milton Nascimento. A gaúcha Elis havia lançado o conterrâneo de Bosco e estava curiosa por conhecer outros compositores mineiros. [Nota: Milton nasceu no Rio de Janeiro, mas foi criado em Minas]
Julio Maria, na biografia de Elis Nada será como antes, conta que ele foi apresentar suas canções. Ela escolheu "Bala com bala" e a incluiu no show "É Elis", entusiasmada: "Outro mineiro, meu Deus, que sorte a minha". Depois, lhe diria: "Nunca mais deixe de compor suas coisas estranhas".
A impressionante capacidade de observação do cotidiano por Aldir Blanc gerou clássicos como "De frente pro crime". Sua antena para o momento político deixou a genial "O bêbado e a equilibrista", o hino do movimento pela anistia.
Bosco e Blanc se separaram e fizeram diversas canções importantes com outros parceiros. Pensem no poema de relacionamento na canção "Catavento e Girassol", de Aldir Blanc e Guinga, aqui com o Guinga ao violão e Leila Pinheiro cantando: https://www.youtube.com/watch?v=_ShiqGQp8hQ.
De Bosco, posso lembrar a canção "Sinhá", crônica do escravismo feita com Chico Buarque: https://www.youtube.com/watch?v=3w3615iDte4.
Eles deveriam voltar a compor em parceria? Realmente não sei, embora os tenha escolhido para este dia do desafio. Certamente um reencontro se daria em bases muito diferentes, pois eles mudaram, os tempos também. Uma eventual nova canção provavelmente seria muito criativa, dado que eles continuam senhores de suas possibilidades, e frustraria os nostálgicos que esperariam o mesmo dos anos 1970. O mesmo, hoje, seria menos, e creio que eles fariam o outro; só o outro justificaria uma volta.
Nos anos 1970, enquanto estiveram juntos, entre as novidades que eram e traziam, combinadas e multiplicadas um pelo outro, estava "O mestre-sala dos mares", que tratava de um fato histórico incômodo para a ditadura militar, racista, que dominava o país. Cito, do relatório da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva", o capítulo "Perseguição à população e ao movimento negros":
Um dos casos célebres foi o do samba “O Mestre Sala dos mares”, de João Bosco e Aldir Blanc, que cantava o líder negro da Revolta da Chibata, João Cândido. O samba foi gravado por Elis Regina em 1974, com a letra alterada por força da censura. 
O marinheiro João Cândido liderou essa revolta contra os castigos corporais, típicos dos que se usavam contra os escravos (como a chibata), que a Marinha adotava contra os marinheiros. A revolta ocorreu em novembro de 1910. A Marinha desrespeitou a anistia votada pelo Congresso Nacional, assassinou vários dos rebelados. João Cândido morreu no ostracismo, expulso das Forças Armadas. 
Ele ficou conhecido como “Almirante Negro” pelo povo. João Bosco e Aldir Blanc, no entanto, foram impedidos de chamá-lo assim pela censura – tornou-se um “navegante negro” – e a referência à tortura contra os negros foi silenciada: o verso, originalmente “rubras cascatas jorravam das costas dos negros”, teve que ser alterado para “rubras cascatas jorravam das costas dos santos”. Lembra Aldir Blanc que ele e Bosco foram acusados pelos censores de fazer “apologia ao negro”. 
O trecho "Rubras cascatas/ Jorravam das costas dos negros/ Pelas pontas das chibatas" foi suavizado: "Rubras cascatas/ Jorravam das costas dos santos/ Entre cantos e chibatas". Outro dos trechos mudados: "que a exemplo do marinheiro gritava não" tornou-se "que a exemplo do feiticeiro gritava então". A revolta virou um feitiço alegre.
A mudança de "Almirante negro" para "Navegante negro" também era crucial. Não sei, aliás, quantos negros foram Almirantes no Brasil. Com a legitimidade de ter tido seu título concedido pelo povo, provavelmente só João Cândido, que ainda teve essa legitimidade redobrada pelo fato de a concessão ter sido dada por uma revolta em prol da dignidade humana.
O princípio da dignidade era sistematicamente violado pela Marinha. A partir de 1964, com as Forças Armadas tomando o poder, essa violação tornou-se método de governo. Para as artes, isso significou, em muitos casos, a censura, como a desta canção, que teve a sorte de ser liberada depois de sofrer as modificações.
Não entendo por que João Bosco, este patrimônio musical do país, que só com seu formidável violão e seu desconcertante método vocal (ele já não é mais nenhum jovenzinho, mas no fim da apresentação que eu vi, pediram "Papel machê", parceria dele com Capinan, e ele a cantou com todos os agudos no lugar), não percebo por que este impressionante músico permanece apresentando a letra aprovada pela censura. Ele gosta mais assim? Não sei a razão.
Em 1981, Elis Regina, longe da censura brasileira, cantou no México a letra original, em homenagem à "figura de um bravo marinheiro", em vez do "feiticeiro" imposto pela censura: https://youtu.be/2HPCf-35xOQ?t=19m50s.
Vejam como, em gesto, a cantora saúda as "pedras pisadas do cais", o "monumento" deixado para o Almirante Negro. 
Pisadas, não podiam queixar-se. Até virarem canção.

P.S.: Depois que escrevi isto, lembrei do verbete de Sérgio Alcides sobre Aldir Blanc no livro "Folha Explica" Música popular brasileira hoje, de 2001. Ele destaca a grande qualidade poética de Blanc e dois fatores presentes nesta canção: a memória e o não oficialismo: "as histórias de Blanc nos ajudam a criar uma memória coletiva brasileira e livre. E o melhor: sem a menor sombra de oficialismo nacional."


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável
Dia 10: Manuel Falla e a dor da natureza
Dia 11: De "People" ao povo e Cauby Peixoto
Dia 13: Baudelaire, Duparc e volúpia
Dia 14: Bornelh, o amor e a alba
Dia 15: Rodgers e Hart e o desejo de arte
Dia 16: Piazzolla, Trejo e o irrecuperável
Dia 17: Janequin, ir à cidade que grita
Dia 18: Amin, Garfunkel e outros pássaros
Dia 19: Wolf e Mörike imaginando a ilha
Dia 20: A loucura, Schumann e Andersen
Dia 21: Tiganá Santana e a memória negra
Dia 22: A boca seca da revolução: Miguel Poveda e Narcís Comadira
Dia 23: Encontrar o dia novo, Villa-Lobos e Ferreira Gullar

sábado, 18 de julho de 2015

Sobre poesia, já

 O poeta, professor e jurista Tarso de Melo organizou uma enquete em seu blogue com o título "Sobre poesia, ainda". Ela começou no fim de março, com as resposta de Dirceu Villa.
Tarso escreveu "para uns 50 poetas, mais ou menos, uma mesma enquete, com a qual pretendo apenas dar a ler, neste blog, o que andam pensando (sobre poesia, mas a gente sabe que nunca é sobre poesia)  algumas das mais interessantes cabeças que estão espalhadas por aí". Generosamente, incluiu-me nessa lista.
Ele também me havia pedido um artigo acadêmico que demorei bastante a terminar, enquanto descobria que o problema bem renderia um livro e que o texto seria apenas exploratório. Decidi que iria terminar o artigo para depois responder à enquete, que não tinha prazo nem editora esperando.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Antologia em torno de Donizete Galvão, "Outras ruminações"

Dia nove de dezembro, a partir das 19:00h, na Casa das Rosas (Avenida Paulista, n. 37, São Paulo-SP), será lançada uma antologia coletiva centrada na obra do poeta mineiro recentemente falecido, Outras ruminações: 75 poetas e a poesia de Donizete Galvão. A organização é de Reynaldo Damazio, Ruy Proença e Tarso de Melo.
Para cada um dos poemas escolhidos de Donizete Galvão, alguns autores escreveram poemas em resposta ou em diálogo. São 15 os do homenageado (e mais um, como uma espécie de epígrafe), mais os dos autores que com ele conversam.
A coletânea inclui muitos amigos do poeta, mas não se resume a eles, embora Donizete muitos possuísse. Não se pode reduzir esta obra à amizade: ela interessa sobretudo aos que não o conheceram, e que terão de Donizete Galvão agora a poesia, sem a intermediação da figura do poeta. Ele não está mais aqui para falar de poesia, mas a obra sobreviverá a sua ausência pessoal.

Ela sobreviverá, ao contrário de tantos autores que, em vida, foram mais conhecidos do que Donizete o foi, mas apenas por causa dos esforços de marketing pessoal e autopromoção, das redes de prestígio e sabotagem que manejaram quando vivos, e que se esvaziaram depois de mortos, levando-os ao esquecimento.
O livro não é, pois, uma ação entre amigos. Ademais, os leitores de poesia contemporânea brasileira poderão constatar que, em geral, a poesia de Donizete é, no mínimo, melhor do que a dos outros participantes da antologia.
Não escreverei uma resenha, pois fui incluído; escrevi um poema curto, mas sem a concisão que Donizete atingiu a partir da visão de uma pomba morta no chão da cidade em "Deformação".
Mas quero destacar um poema, entre tantos interessantes, e também referido a "Deformação": Sérgio Alcides parte não da imagem da pomba (que bebe "água preta" no poema de Donizete Galvão), porém das cores, cinza, preto, até chegar ao branco. A pincelada final é dada pelas pálpebras - eu imagino um último olhar, apenas, ou o desfalecimento do pintor, dando de cara no que pintou, e é uma parede... Aqui, não temos a paleta de artista plástico, mas o pincel de pintor de parede.
Não se trata de uma estetização da morte, e sim de concepção bem cotidiana ("como um pacote selado/ e endereçado ao nocaute"), com um fim sem saída. Sérgio Alcides, sem trair sua própria poética, consegue dialogar  de forma original com o universo de Donizete.
O livro não inclui a lista de poemas escolhidos por obra do autor. Ei-la: 
Azul navalha (São Paulo: T. A. Queiroz Editor, 1988): Irmão inventado, Diante de uma fotografia de Auden.
As faces do rio (São Paulo: Água Viva, 1991): International Klein Blue, O poço.
Do silêncio da pedra (São Paulo: Arte Pau-Brasil, 1996): Recomendações.
A carne e o tempo (São Paulo: Nankin Editorial, 1997): Dessincronia, Roedor.
Ruminações (São Paulo: Nankin Editorial, 1999): Ruminações, Escoiceados.
Mundo mudo (São Paulo: Nankin Editorial, 2003): Mão de pilão, O hóspede, Deformação.
O homem inacabado (São Paulo: Portal/Dobra, 2010): O cortador de bambus, Vida minúscula, Atravessar as coisas, A preparação do próximo dia. 
O último volume foi o preferido pelos organizadores. O único livro publicado de que nenhum poema aparece na antologia é o breve Pelo corpo, que escreveu com Ronald Polito e foi publicado em 2002 (Santo André: Cacto/Alpharrabio).

P.S.: O poema que escrevi:

Urbanismo e voo



Para alguns poetas, o albatroz,
e vivo,
embora no chão e a pontapés;

para outros, algo menor
e ainda mais nítido:

penas e bico
vão, despertados
pela chuva.

Arrastado pelo esgoto,
o bico do pombo continua a cantar a cidade,

ou começa a fazê-lo
agora, que a descobre
pela garganta.

O vento não logrou carregar as penas,
a lama é tudo o que elas terão
do voo.

Um mapa, todo o tesouro,
o que chutes e pisadas
formam com os restos do corpo

domingo, 10 de outubro de 2010

Poesia e política: entrevista com Sérgio Alcides

Penso que continuam oportunas as considerações sobre poesia e política feitas nesta entrevista, Pele e civilidade, por Sérgio Alcides, o poeta, tradutor e crítico, hoje professor da UFMG.
Nos idos de 2005, ano da publicação desta conversa na revista Jandira, ele era autor principalmente de Nada a ver com a lua (7Letras, 1996), O ar das cidades – Poemas, 1996-2000 (Nankin, 2000) e Estes penhascos: Cláudio Manuel da Costa e a paisagem das Minas (Hucitec, 2003), e tradutor, com o poeta, editor e historiador Ronald Polito, de Julio Torri (Almanaque das Horas, São Paulo: Fundação Memorial da América Latina, 2000) e Joan Brossa (Poemas civis, Rio de Janeiro: 7Letras, 1998).
Não me lembro quem teve a ideia de me pedir a entrevista. Creio que foi o editor, Ricardo Rizzo. Como a revista Jandira não está mais disponível, republico-a aqui.


PELE E CIVILIDADE
Entrevista com Sérgio Alcides por Pádua Fernandes, publicada na revista Jandira (Juiz de Fora, n. 2, out. 2005, p. 10-15)




Pádua Fernandes:
Sérgio, de "Nada a ver com a lua", gosto do poema para o Profeta Gentileza, que fala do tempo incivil. Onde está esse tempo?

Sérgio Alcides:
Há muitos tempos aí, meu querido Pádua. O tempo da incivilidade sempre existiu e sempre existirá, eu acho. Mas o nosso tempo exagera... O Gentileza é também para mim um tempo suspenso, o da memória. Porque eu o via sempre, quando criança, pichando com giz seu livro de ensinamentos nas pilastras dos viadutos do Rio. É uma recordação associada às férias, porque a família viajava de carro e, no caminho, víamos o Gentileza com sua túnica, sua barba branca, sua placa ambulante. Ele era um pouco homem-placa. O poeta é também homem-placa.
E a minha poesia, quando está mais solar do que soturna, também tem aquela pretensão do Gentileza, de espalhar uma boa ideia sobre o encontro, as pessoas, a civilidade.

Pádua Fernandes:
Perguntei do poema do Profeta porque "O ar das cidades" também reflete experiências de tempo incivil, não? Esse tempo incivil também não é marcado pela abstinência da esfera pública, que é um dos alvos da sátira de "Valsa de uma cidade"?

Sérgio Alcides:
Bem, acho que você foi direto ao ponto que mais importa para mim. Não suporto a ideia de que a poesia seja um gabinete privado de afetos ou experimentos, sem maior consequência, nem para a linguagem, nem para a sociedade. Não sou do partido dos bibelôs de inanição sonora de que falava Mallarmé. Ao bibelô, prefiro o libelo. E a inanição (como sugere o trocadilho) parece onanição, mas sem proveito. Acho que a poesia é uma ação dirigida aos semelhantes. Não me refiro aos outros poetas. Como você sabe, uma coisa que me preocupa muito é que a poesia se torne um assunto de poetas. Refiro-me aos meus semelhantes num sentido bem menos paroquial...
Então "O ar das cidades" tem, sim, esse aspecto que você nota em "Nada a ver com a Lua". Para mim, até pela minha história pessoal (ou "estória"?), pelo fato de ter nascido numa cidade grande do Terceiro Mundo, e seguir vivendo em outra, ainda maior, a vida nas cidades é um dos principais valores. "O ar das cidades liberta", já diziam os medievais, e tem que libertar. Isso é uma imposição do nosso destino. Se ele nos sufoca, temos que fazer por onde o sufoco se tornar libertação. E isso só pode ser feito numa esfera pública. E não há um bem mais público do que a linguagem. Daí a oportunidade, a responsabilidade, a eficácia da poesia.

Pádua Fernandes:
Ao mesmo tempo, "O ar das cidades" começa num espaço íntimo. Qual é a relação do armário com as ruas?

Sérgio Alcides:
Não sei explicar tudo... Não acredito num planejamento rígido da poesia. Mas posso arriscar aqui alguma ideia.
Penso em duas figuras muito parecidas e contemporâneas: Álvaro de Campos e Walter Benjamin. O primeiro com certeza existiu, não acha? Já o segundo talvez seja um heterônimo (ou pelo menos um personagem, um complemento) de Thomas Mann. No Álvaro de Campos, urbanidade e intimidade estão ligadas da maneira mais visceral. Até de um modo muito ressentido, amargo. No Benjamin se dá uma coisa muito semelhante. Uma parte da sua crítica do mundo burguês está no livro sobre a "Infância em Berlim", onde, como em outros livros dele, o “apartamento” é uma condição necessária da cidade, e sequer existe em Benjamin uma percepção da cidade independente da invenção subjetiva de um observador, que a ela pertence tanto quanto lhe é, contraditoriamente, alheio. Em ambos, Álvaro e Benjamin, a "liga" entre a urbe e o espaço interior é o presente da memória. E o funcionamento da memória individual é o tema que alinhava toda a “suíte” de poemas na abertura de “O ar das cidades”. É necessário invadir o passado, tomar posse do que nos pertence mais profundamente – e para mim nenhuma definição de “cidade” pode deixar de lado uma coisa fundamental: que uma cidade é um lugar impregnado de memórias, as mais diferentes, em harmonia e em conflito.

Pádua Fernandes:
Desconfio que o Drummond de seu ensaio “Melancolia ‘gauche’ na vida” publicado pela Unimarco em “Drummond Revisitado”, com organização de Reynaldo Damazio, seja também um heterônimo seu, pela forma como você alia a melancolia com a ironia. Se Drummond não é heterônimo seu, pode-se dizer que você também é um dos nomes dessa linhagem? Isto é, a linhagem da ironia? Pois uma das críticas que você faz a Raul de Leoni é justamente a da ironia anunciada e apaziguada presente na poesia desse ilustre membro da elite fluminense. Que, exemplo perfeito de poeta, segundo os modelos esperados, não teria aberto a boca na sua passagem pela Assembléia Legislativa (mas isso teria mudado tanto assim?).

Sérgio Alcides:
É, o Raul de Leoni era um poeta interessante... Mas equivocado. E, de fato, como casual político, não se comportou de maneira diferente do que se espera de qualquer mauricinho da elite fluminense desde sempre. Mas isso é um detalhe biográfico, só. O problema é quando a poesia dele, coerentemente, estabelece a "distração" como um valor, o que permite que ele, de repente, se lance ao elogio da decadência e, um instante depois, ao do racismo eugenista. Ele tem belíssimos poemas, como aquele das estrelas reticentes, no céu. Foi quase um mestre da ironia. Quase: porque um mestre da ironia não nos previne o tempo todo de que está sendo irônico. Ele simplesmente o é, e por isso nos envolve, nos seduz. Além disso, há outro problema. Há ironias e ironias. Há uma diferença entre a ironia corrosiva, que é uma seiva da linguagem, instilada junto com as palavras, com as cenas, as montagens, e a ironia exterior, que é uma espécie de verniz, usado para fins de proteção. Não é à toa que Luiz Costa Lima procurou entender na poesia de Drummond um princípio de corrosão. E o demarcou como o melhor da poesia dele.
Acho que a ironia sempre confessada de Raul de Leoni, sem deixar de ser, às vezes, muito bela, está mais para verniz do que para seiva. Ela não tem o poder de corroer. Ao contrário, ela visa à proteção no meio social carioca onde ser irônico, ser leitor de Nietzsche e Anatole France, de repente virou moda.
Agora, a primeira pergunta: é bem provável que o Drummond do meu ensaio seja um heterônimo meu. Isso acontece com todos os críticos limitados...
Num certo sentido, qualquer leitura tem muito de apropriação, e a "autoria" é sempre negociada com o leitor. Então, deve existir, sim, um Drummond que seja "meu" e de mais ninguém.
Mas a melancolia e a ironia sempre caminharam juntas. Como dizia o mexicano Julio Torri: "A ironia é a cor complementar da melancolia". Ou vice-versa: estou citando de memória - o que não deixa de ser, também, irônico.
E, se pensarmos como os antigos, que entendiam a melancolia como um tipo de "humor" nocivo, a "bile negra", talvez possamos concluir que entre um ácido e outro só existe uma diferença de grau (ou de octanagem).
O interessante é que, em Drummond, a ironia impede que a melancolia se torne um valor em si. O que salva o poeta de se confundir com toda a mística dos melancólicos, com sua pretensão de superioridade, de serem seres especiais, quando na maioria das vezes são apenas - saltando de Hipócrates para Freud - uns pobres neuróticos como todos nós. Há uma ironia que é seiva e outra que é somente verniz.

Pádua Fernandes:
Falamos de ironia: Torri, que você traduziu com Ronald Polito, memoravelmente reclamou que os fuzilamentos não recebiam grandes cuidados do governo! Você pensa que o governo e os poetas brasileiros cometem o mesmo erro?

Sérgio Alcides:
Pode ser. O Torri foi redescoberto pelo Ronald (e acho que nem no México ele é suficientemente conhecido). Este sim foi um mestre absoluto da ironia, e um dos primeiros estrangeiros a entenderem Machado de Assis. No texto a que você se refere, ele fala do descaso oficial pelo espetáculo dos fuzilamentos, cada vez mais descuidado. No fundo, era uma denúncia do quão corriqueiros eles tinham se tornado.
Acho que governos e poetas hoje talvez se preocupem demais com esse lado espetacular da política/poesia. Não no melhor sentido, da "publicidade", da criação de um teatro que reforce e reconfigure as relações no espaço público, sem se evadir do seu caráter necessariamente espetacular. Mas o espetáculo que vemos está mais ligado ao sentido hoje corriqueiro da palavra "publicidade", que na verdade apenas esconde uma privacidade muito vã e mesquinha, achatada e bidimensional, totalmente voltada para as aspirações mais pífias do ser humano, quando não simplesmente cínicas. Por parte dos governos, há uma confiança exagerada na propaganda, como se a mera retórica já consumasse os fatos, por si só. Por parte dos poetas, há um empenho muito análogo em ornamentar a poesia com uma parafernália de efeitos especiais, aliterações, torneios paronomásticos, trocadilhos, cortes, tipologias aberrantes, como se isso pudesse esconder a total falta do que dizer... É um tipo de espetacularização do poema, que no fundo dispensa a poesia, e a humilha.. Como nessas exposições muito bregas, tipo Brazil Connects, em que importantíssimas obras de arte se tornam pretextos para a fantasia de um cenógrafo regiamente remunerado. Lembro-me da minha irritação diante de uma peça de Brancusi, que tinha sido posta sobre um pedestal giratório, que, num ambiente escurecido, entrava e saía de um feixe de luz. Como apreciador de obras de arte, não posso dizer que jamais tenha visto aquela escultura, de fato.
Mas, atenção, não digo que a dimensão do espetáculo, da perícia formal, do fabbro, deva ser em princípio excluída. O problema não é tão preto-e-branco. Assim como não me parece que um governo, numa sociedade de massas, possa dispensar a propaganda. Da mesma forma, sempre haverá uma retórica fundamental para a política, outra para a poesia. E para o direito (como você sabe muito melhor do que eu). A retórica, o espetáculo, todo esse gestual, implicam também uma poética própria, e são condições da liberdade e da justiça.
O que digo é que retórica e espetáculo, todo o seu artesanato, são uma parte do métier. Que deixa de existir se for reduzido a esses aspectos. Tem que haver uma poesia para além da performance E tem que haver uma política para além da propaganda. Se não, estamos sendo logrados.

Pádua Fernandes:
Joan Brossa, outro dos autores que você traduziu (também com Ronald Polito), parece-me ter deixado certas marcas na sua poesia. "Poema dos sete erros" é mais explícito a respeito, mas há certas, digamos, fanopeias que aparecem com muito mais vigor nesse livro do que no primeiro. Como no poema do Oiti, em que você, numa imagem comovente, torna-se na raiz da árvore a ferir a calçada. Percebe outros pontos de contato com Brossa?

Sérgio Alcides:
Deve haver outros pontos de contato, sim. Espero que sim. Mas, no caso que você cita, trata-se mais de uma afinidade real do que uma marca deixada por ele. Esse poema sobre os oitizeiros do Rio teve mil redações, mas o início foi sempre o mesmo, escrito – eu acho – em 1989. Só conheci a poesia de Brossa anos depois. Foi uma das minhas maiores emoções como leitor de poesia. A descoberta aconteceu num dia memorável, na Casa de España, no Rio. Estava perdido entre as estantes da biblioteca, muito mal-organizada e simplesmente não-catalogada, naquela época. Eu queria ver o que tinha lá. Encontrei uma edição bilíngue de "Poemas civis", lombada preta, preta e larga, atraente para o olhar. Puxei. Abri o livro ao acaso: "Plou, puc" - e fui conquistado imediatamente. Na página par, a tradução castelhana me esclarecia: "Chove, posso etc." Isso aconteceu há mais de dez anos. Eu nunca tinha ouvido falar em Brossa (provavelmente tinha lido e me esquecido do poema de Cabral em homenagem a ele). Separei o livro para levá-lo emprestado. Instantes depois, encontrei uma revista de poesia, "La rosa cúbica", em número especial de homenagem ao poeta. Essas coincidências... Havia uma longa entrevista com ele, além de fotos mostrando a pessoa encantadora que ele era. Na entrevista ele falava também da sua amizade com Cabral, da importância que o Cabral teve para ele e para a sua geração, numa período sombrio da história da Catalunha. Naquela época, eu tinha acabado de conhecer o Ronald (publicamos poemas no mesmo número da extinta revista "Ímã"). Eu estava em Ouro Preto, uma cidade à qual sou (ou fui) muito ligado. Conheci o Ronald na inesquecível livraria Spix & Martius, numa linda noite, em que também fiquei conhecendo as donas da casa, as simpaticíssimas e louquíssimas Flávia e Viviane. Uns dias depois, em Mariana, mostrei o livro de Brossa ao Ronald. Começamos a traduzir logo. Acabamos aprendendo o catalão só para isso. É uma língua linda, e não foi muito difícil. Cinco anos depois, o livro ficou pronto. Pena que o Brossa morreu bem no dia em que enviamos para ele seu exemplar.
A poesia do Brossa me marcou muito, por várias razões. Inclusive porque é um poeta poderosamente experimental, que tem um sentido da forma, da matéria da poesia, muito particular. Seu experimentalismo se liga mais à irreverência das vanguardas do início do século XX do que ao construtivismo, que predominou nas vanguardas brasileiras mais recentes. Ele é ao mesmo tempo encantador e desmistificador. Isso é parte da sua magia, do seu lado circense e tão alegre. E, é claro, Brossa nos leva de volta para o tema da civilidade, da preocupação com o espaço público, as pessoas, a reunião, as ideias, a liberdade. É um poeta republicano. Eu também quero ser, sempre. Mesmo quando trato de assuntos que estão grudados na pele.

Pádua Fernandes:
Civilidade e pele - essa dupla fez com que você se interessasse por Cláudio Manuel da Costa? No seu livro sobre o poeta, "Estes penhascos", resultado de seu mestrado em História na PUC do Rio de Janeiro, é notável como você esclarece a articulação dos assuntos líricos com o Brasil da época – que é mais do que uma simples ambiência.

Sérgio Alcides:
Sim, o Cláudio Manuel tinha um lado forte de civilizador. Isso para ele era uma questão existencial. Isso para ele era uma questão existencial – inclusive porque ele sabia que era algo também indispensável à própria poesia, à sua existência. Não por acaso ele se espelhou no Ovídio desterrado.
Ele foi um dos maiores poetas do século XVIII, tenho certeza disso. Nunca recebeu – e nada indica que receberá um dia – o merecido reconhecimento. Em Portugal, por exemplo, ninguém sabe de quem se trata. E pouca gente soube, no tempo dele. Em Lisboa e no Porto, encontrei vários códices setecentistas de poesia em que alguns de seus melhores sonetos aparecem ou anônimos ou atribuídos a outros poetas, menos que medíocres, porém frequentadores das rodas e das antologias do Reino. E, se em Portugal ele foi e é desprezado, imagine no resto do mundo... Pior para o século XVIII, que foi chatíssimo em poesia. Pelo menos até os primeiros sinais da reviravolta romântica.

Pádua Fernandes:
Você tem a formação universitária de jornalista e em pós-graduação seguiu o caminho da História. Qual foi a importância de sua experiência jornalística?

Sérgio Alcides:
Minha formação, na verdade, é em Comunicação – jornalismo era a ênfase escolhida no curso. Não acho possível alguém ser formado em jornalismo, que não é uma disciplina universitária, é uma prática, uma profissão. Foi um curso importante para mim, me abriu muito a cabeça, porque um curso de Comunicação tem uma grande abertura (seu fraco é não saber aprofundar-se em nada). Fiz um semestre de Filosofia, depois, porque eu tinha me interessado por Filosofia da Linguagem, e pretendia continuar estudando. Mas não deu, tive que ir trabalhar. Trabalhei como jornalista por cinco anos quase - e larguei essa profissão há dez. Não tinha a menor vocação. Hoje, é muito difícil ser escritor e jornalista, ainda mais se você tem um perfil de estudioso. Há poucas exceções na minha geração, quer dizer, de jornalistas que conseguem ser também escritores e/ou estudiosos. Deve haver outros, mas pessoalmente só conheço três: Cristiane Costa, Paulo Roberto Pires e Luiz Fernando Vianna. Então, aquele foi um período sofrido para mim, até que consegui voltar para a universidade; não para a Filosofia, como eu queria antes, mas para a História, seguindo os passos de uma amiga que teve uma trajetória parecida com a minha. Apesar de tudo, não posso deixar de reconhecer que a passagem pelo jornalismo – e a minha foi na grande imprensa, como redator-tradutor de notícias internacionais do Globo – deixou marcas que hoje valorizo muito. O jornalismo, que abandonei para sempre, me deu uma percepção muito aguçada do espaço público, da necessidade de trazer as experiências humanas à tona, de buscar o outro, considerar sempre a transcendência social ou política das nossas ideias, dos nossos atos. Por isso acho que nunca chegarei a ser um "acadêmico", apesar de estar ligado à universidade e ser professor. Me incomoda muito o lado clerical dos "scholars", e me encaixo bem naquele modelo criticado por Julien Benda num livro chamado "La trahison des clercs". É uma pretensão muito mesquinha, a meu ver, a de ser um "clerc", um clérigo da alienação disciplinar, espécie de sacerdote da corporação das sinecuras. E a palavra em francês é perfeita, até na sonoridade: "clerc" - soando como triste onomatopeia.
Acho que acontece na universidade uma distorção parecida com a que vivemos na poesia: um voltar-se para dentro, toda uma atividade intramuros, muito ressentida em face da sociedade, e alienada dos espaços de fato públicos. E eu, que comecei a vida adulta no mundo das notícias (que tem outras alienações, mas está em plena praça pública), hoje transito entre esses dois mosteiros mutuamente ignorantes. Em ambos, tento fazer minha parte, que é – na proporção possível, na escala que alcanço – abrir alguma brecha, produzir algum incômodo, chamar a atenção dos outros, recusar-me a falar apenas para "o pessoal", "o clube", "a turma".