O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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sexta-feira, 30 de setembro de 2022

13 discos vermelhos em busca de companhia



Comecei a participar dos #13DiscosVermelhos no twitter, mas interrompi quando começou o último debate dos candidatos à presidência da república. Nele, Jair Bolsonaro, embora reforçado por um auxiliar contrário à lei de cotas e favorável a fechar hospitais, e pelo auxiliar aparentemente vestido para festa junina, pareceu mais fraco do que nunca e fugiu do confronto com Lula.
Assisti ao pobre espetáculo, que acabou de madrugada. Cheguei a escrever, antes disso, que tinha escolhido a Floresta do Amazonas, odiada pelos bolsonaristas (refiro-me ao objeto da inspiração, claro, mas é possível que a música também não seja apreciada), para ficar em cima da pilha de discos por motivos óbvios. A permanência da floresta (embora alguns sustentem que se trata de um bioma já irremediavelmente condenado) é uma das questões que será decidida dia 2 de outubro, uma vez que o governo do candidato à reeleição foi e continua a ser, por motivos que me escapam, uma época alvissareira para o crime ambiental.
Começo, porém, da base: o disco dedicado a Alberto Ginastera, lá embaixo, foi escolhido não só por causa do gênio deste compositor (só escolhi música boa para a pilha, claro; por sinal, o time musical que apoia Lula é muito superior ao grupo que faz arminha), mas também porque foi censurado por uma das ditaduras militares da Argentina por causa da ópera Bomarzo. O disco que tenho da ópera não é vermelho, mas como o compositor vetou a execução de toda sua obra nessa época em reação à censura, achei que poderia começar deste da Orquestra de Lancy-Genève regida por Roberto Sawicki, que ainda toca o violino solo. Ditadura, censura, essas palavras me evocaram algo do presente brasileiro.
Por causa da Argentina, lembrei de Maria Callas, que odiou Buenos Aires quando lá cantou (1949) porque, segundo contou em carta ao marido, a cidade estava cheia de fascistas. De fato, ela não voltou mais àquele país de cujo clima ela também não gostou. O disco (selo Divina) com o que restou gravado da presença da artista na Argentina não é vermelho, por isso peguei este com gravações ao vivo no México, da mesma fase da carreira, com uma voz realmente incomparável. Fica bem na pilha porque é Callas e porque, de fato, não se deve gostar do fascismo.
Como não devemos gostar desses peculiares regimes políticos europeus do século XX, resolvi incluir compositores proibidos pelos nazistas, e um deles morto em campo de concentração (Schulhoff), por marxismo e/ou modernismo e/ou em razão do antissemitismo. Entram Kurt Weill e Ernst Toch (que se exilaram) e o Berg, que morreu de doença antes de ter toda sua obra banida. Em Lulu, por sinal, a ópera que escolhi para a pilha (completada por Friedrich Cerha décadas depois, pois Alban Berg morreu antes de terminar a orquestração do último ato), a crise do capitalismo e a quebra da bolsa de Nova Iorque estão bem no centro da história. Esta gravação, regida por Jeffrey Tate, parece-me muito bem cantada, a começar por Patricia Wise no difícil papel-título, passando por Peter Straka que logra atender à tessitura do Alwa, pela encarnação que Brigitte Fassbaender nos oferece com a lésbica Condessa Geschwitz e pelo veterano Hans Hotter como Schigolch. O disco da Ebony Band,regida por Werner Herbers, inclui o "oratório-jazz" de Schulhoff, "H.M.S. Royal Oak", com texto de Otto Rombach, que conta um episódio real: uma revolta de marinheiros por causa das más condições de trabalho e da proibição de ouvir jazz, um ritmo negro (que também seria proibido pelos nazistas). A revolta vence. Os fãs do atual ocupante da presidência também têm problemas com a negritude. A revolta vencerá.
O disco das trovadoras (trobairitz), na voz de Montserrat Figueras e o grupo Hespèrion XX (quando acabou o milênio passado, Jordi Savall atualizou o nome para Hespèrion XXI), entrou para lembrar das mulheres autoras, contra a misoginia que continua no poder: Condesa de Provenza Garsenda e grande Condesa de Dia. Quase toda essa música foi perdida, mas alguns poemas ficaram e foram cantados com melodia de outros músicos. Parece-me que os fãs do atual ocupante da presidência, fiéis ao ídolo, incomodam-se com esses assuntos e o protagonismo feminino.
Escolhi este disco do grupo da Quixabeira de Lagoa da Camisa, além da vibrante cultura dos trabalhadores rurais, por causa do canto no verso "Essa terra é minha" em "Eu não sou daqui". Por algum motivo, podemos desconfiar que os partidários do atual ocupante da presidência não gostam muito desses trabalhadores, e a escassa simpatia diminui ainda mais quando veem que eles se organizam. No entanto, por alguma razão, esses partidários não veem problemas nas reivindicações de terra se feitas por grileiros.
Taiguara, que era comunista, entrou por causa da censura que sofreu (creio que foi o compositor brasileiro mais censurado da época) e o obrigou a deixar o país. Este era o único disco com lombada vermelha dele que tenho e cobre as músicas anteriores a seus embates mais sérios com a censura, a época em que era conhecido principalmente como cantor romântico. Já está lá, porém, a emblemática "Hoje"
Esta apresentação ao vivo de Elis Regina em 1977 foi lançada originalmente pela gravadora Velas, anos depois da morte da grande cantora. Lembro que eu o ouvi pela primeira vez em um supermercado (esse tipo de estabelecimento vendia discos no século passado) e fiquei paralisado pela voz em "Travessia", de Milton Nascimento. O disco começa e termina com canções contra a ditadura: "Como nossos pais", de Belchior, e "Cartomante", de Ivan Lins (que era o dono da Velas, aliás) e Vitor Martins. Esta, na intepretação de Elis, foi muito relembrada neste fim de mandato de J. Bolsonaro: "Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros, cai o rei de paus, cai, não fica nada!"
O show "Direitos humanos no Banquete dos Mendigos" reuniu grandes nomes no MAM, Rio de Janeiro, em 1973. Tratava-se da comemoração dos 25 anos da Declaração Universal em um tempo, no Brasil, hostil à dignidade humana. Neste terceiro disco, o único vermelho, temos Milton Nascimento, Jards Macalé, Pedro dos Santos, Dominguinhos e Gal Costa. O poeta Ivan Junqueira fez uma leitura no fim dos artigos desta Declaração das Nações Unidas, texto não amado pelos partidários do atual ocupante da presidência. Tampouco esta organização internacional costuma despertar elogios dessas pessoas.
Da GaL, que foi fotografada fazendo o L várias vezes em 2022 e sempre foi de esquerda, escolhi ainda o "Estratosférica ao vivo", disco duplo recente que combina repertório novo e canções mais antigas, como esta pérola da época da ditadura, "Como 2 e 2", de Caetano Veloso (um ex-cirista que agora faz o L). Estes baianos não são nada apreciados pelos bolsominions, que ficaram muito irritados quando Gal alegremente dançou enquanto seu público demonstrava espontaneamente afetos em relação a J. Bolsonaro.
Em "Munduê", Diogo Nogueira (que honra em vários sentidos o nome do pai, o grande João Nogueira, e também faz o L) acentuou as raízes negras de sua música com os jongueiros do Quilombo de São José da Serra. Bolsonaristas também não gostam desse tipo de repertório (mesmo no belo timbre deste cantor) e até mostram-se capazes de votar em políticos que pesam gente em arrobas.
Esta gravação de "Floresta do Amazonas" foi o último disco gravado de Bidu Sayão, que estava aposentada, mas aceitou retornar aos estúdios a pedido do compositor, Villa-Lobos, que morreria pouco depois e fez nesse momento sua última gravação. É claro que os bolsonaristas não gostam desse tema, e provavelmente também não desta música. Há até gente da música clássica que votou 17 em 2018, mas foi por muita falta, além de consciência política, de consciência de classe.
A maioria do que selecionei foi música vocal. Deixo, então, para comentar por último um item puramente instrumental destes músicos brasileiros. O flautista Francisco Luz e o violonista Fabrício Ribeiro gravaram este disco de música de câmara, "Na solidão em busca de companhia", com música de Villa-Lobos, Radamés Gnattali, Edino Krieger e outros. Escolhi-o por causa da faixa título, de Harry Crowl (um de meus compositores favoritos de hoje), que remete a um poema de Auden. Sei que muita gente não gosta dos poemas de inspiração religiosa desse autor, mas creio que é possível apreciar a simplicidade deste exemplo lírico, e este verso, presente em dois tercetos, é essencialmente antibolsonarista: "Men of their neighbours become sensible".

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Desarquivando o Brasil CLXVI: Aldir Blanc, a censura e a revolta

Aldir Blanc, aos 73 anos, deixou-nos neste dia, mais uma vítima do coronavírus (segundo Jair Bolsonaro, uma "gripezinha"). Seu gênio para a poesia da canção não se esgotou, muito pelo contrário, na celebrada parceria com João Bosco. Apenas para dar o exemplo de um dos momentos mais fulgurantes dessa obra está em "Catavento e girassol", uma de suas músicas com Guinga, que retrata a cidade partida do Rio de Janeiro em uma canção de amor problemático (cito "Meu catavento tem dentro/ O vento escancarado do Arpoador/ Teu girassol tem de fora/ O escondido do Engenho de Dentro da flor").
O importante disco da grande voz da cantora e atriz Adriana Capparelli, "Pequeno circo íntimo", concede-nos um panorama largo dessas parcerias da grandeza poética de Blanc: https://tratore.com.br/um_cd.php?id=21481. Além de João Bosco e Guinga, temos parceiras com outros grandes músicos: Cristóvão Bastos, Moacyr Luz, Ivan Lins e Roberto Menescal e Silvio da Silva Jr.
No entanto, quero lembrar o Aldir Blanc daquela parceria lançada por Elis Regina por conta deste tópico de justiça de transição, pois a parceria nasceu e produziu a maior parte de seus frutos durante a ditadura militar. Um dos frutos da parceria foi o hino informal da anistia, gravado pela primeira vez no disco "Elis, essa mulher", de 1979, a canção "O bêbado e a equilibrista". Como hoje mesmo já ouvi jornalista errando o título da música, seja por machismo estrutural, seja por falta de interpretação de texto, e já tive uma discussão sobre isso no trabalho, lembro que é A equilibrista; na música, quem dança na corda bamba de sombrinha é a esperança, não o bêbado.
Cantei-a algumas vezes no CoralUSP no arranjo de Damiano Cozzella. O público sempre gostava. Na época, foi liberada para a censura; copio nesta nota documentos que estão no Arquivo Nacional, no Fundo Divisão de Censura das Diversões Públicas:


"Liberada para gravação e divulgação pública". Outro samba, anterior, teve mais problemas. A Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva". No capítulo "Perseguição à população e ao movimento negros", do tomo I, parte II, "Grupos Sociais e Movimentos Perseguidos ou Atingidos Pela Ditadura" do Relatório, a censura à canção "O Mestre-sala dos mares" é mencionada como exemplo do racismo da doutrina de segurança nacional:
Um dos casos célebres foi o do samba “O Mestre Sala dos mares”, de João Bosco e Aldir Blanc, que cantava o líder negro da Revolta da Chibata, João Cândido. O samba foi gravado por Elis Regina em 1974, com a letra alterada por força da censura.
O marinheiro João Cândido liderou essa revolta contra os castigos corporais, típicos dos que se usavam contra os escravos (como a chibata), que a Marinha adotava contra os marinheiros. A revolta ocorreu em novembro de 1910. A Marinha desrespeitou a anistia votada pelo Congresso Nacional, assassinou vários dos rebelados. João Cândido morreu no ostracismo, expulso das Forças Armadas.
Ele ficou conhecido como “Almirante Negro” pelo povo. João Bosco e Aldir Blanc, no entanto, foram impedidos de chamá-lo assim pela censura – tornou-se um “navegante negro” – e a referência à tortura contra os negros foi silenciada: o verso, originalmente “rubras cascatas jorravam das costas dos negros”, teve que ser alterado para “rubras cascatas jorravam das costas dos santos”. Lembra Aldir Blanc que ele e Bosco foram acusados pelos censores de fazer “apologia ao negro”. 
A ditadura militar era, claro, um regime racista, o que é comum entre regimes genocidas, como este o foi. Cito mais um trecho do Relatório:
A doutrina de segurança nacional era intrinsecamente racista [...] O racismo dessa doutrina manifestava-se, entre outros fatores, na negação oficial do racismo e nas práticas discriminatórias do regime contra a população negra, que não se davam apenas no campo da segurança pública: havia a censura, que também seguia a ideologia do branqueamento e da invisibilização do racismo. 
Fora do Brasil, no México, Elis Regina cantou a letra não censurada, com "marinheiro" , "Almirante Negro", "fragatas" e a tortura aos negros: https://www.youtube.com/watch?v=0rlMoZMZWaA. Trata-se de um registro de 1981 feito pela televisão mexicana. Na primeira versão do samba, que tinha como título "O dragão do mar", foram passagens que incomodaram os censores.


O veto apontou conteúdo esdrúxulo e mensagem negativa, por causa do tema dos castigos de chibata na Marinha, as "lutas inglórias", "o trabalhador do cais e sua negritude sofrida", bem como a própria Revolta histórica dos marinheiros contra seus superiores:



A letra teve de ser alterada e suavizada; "gritava não" decaiu em "gritava então". Se a palavra "chibatas" acabou permanecendo, as referências aos negros foram cortadas, salvo em "o navegante negro", embora aqui também esteja a mão do racismo da censura: deveria ser o "Almirante", e não o "navegante".
João Bosco ainda canta a letra modificada pela chibata. Elis, contudo, sempre foi a voz da revolta (entre outras canções no México, ela interpreta "Conversando no bar/ Saudades dos aviões da Panair", de Milton Nascimento e Fernando Brant, outra crítica à ditadura daquela época).
No livro de Luiz Fernando Vianna, Aldir Blanc: Resposta ao tempo - Vida e letras (Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013), temos essa passagem do compositor sobre suas filhas mortas e outras perdas:
Tive duas mortes fundamentais muito cedo, as gêmeas. Isso me ancora a uma espécie de respeito pelo passado. Depois, começa a morrer tudo em volta. Meu caderno de telefones é um cemitério: uma cruz atrás da outra. Estou pressionado por essa evidência [...]
De fato, ele partiu numa época de pandemia e de outras crises no Brasil e no mundo, em que parece "morrer tudo em volta".


quinta-feira, 16 de março de 2017

30 dias de canções: Bosco e Blanc vs. racismo e censura

30 dias de canções

Dia 24: Uma canção cujos compositores ainda deveriam trabalhar juntos

"O mestre-sala dos mares", de João Bosco e Aldir Blanc. Vi, neste mês, o próprio João Bosco a cantando com surpreendente divisões, acompanhado apenas com o seu próprio e inimitável violão: https://www.youtube.com/watch?v=l_sdVAgyiLk.
Esta dupla foi lançada por Elis Regina. Ele contou na apresentação que vi que ele foi beneficiado por Milton Nascimento. A gaúcha Elis havia lançado o conterrâneo de Bosco e estava curiosa por conhecer outros compositores mineiros. [Nota: Milton nasceu no Rio de Janeiro, mas foi criado em Minas]
Julio Maria, na biografia de Elis Nada será como antes, conta que ele foi apresentar suas canções. Ela escolheu "Bala com bala" e a incluiu no show "É Elis", entusiasmada: "Outro mineiro, meu Deus, que sorte a minha". Depois, lhe diria: "Nunca mais deixe de compor suas coisas estranhas".
A impressionante capacidade de observação do cotidiano por Aldir Blanc gerou clássicos como "De frente pro crime". Sua antena para o momento político deixou a genial "O bêbado e a equilibrista", o hino do movimento pela anistia.
Bosco e Blanc se separaram e fizeram diversas canções importantes com outros parceiros. Pensem no poema de relacionamento na canção "Catavento e Girassol", de Aldir Blanc e Guinga, aqui com o Guinga ao violão e Leila Pinheiro cantando: https://www.youtube.com/watch?v=_ShiqGQp8hQ.
De Bosco, posso lembrar a canção "Sinhá", crônica do escravismo feita com Chico Buarque: https://www.youtube.com/watch?v=3w3615iDte4.
Eles deveriam voltar a compor em parceria? Realmente não sei, embora os tenha escolhido para este dia do desafio. Certamente um reencontro se daria em bases muito diferentes, pois eles mudaram, os tempos também. Uma eventual nova canção provavelmente seria muito criativa, dado que eles continuam senhores de suas possibilidades, e frustraria os nostálgicos que esperariam o mesmo dos anos 1970. O mesmo, hoje, seria menos, e creio que eles fariam o outro; só o outro justificaria uma volta.
Nos anos 1970, enquanto estiveram juntos, entre as novidades que eram e traziam, combinadas e multiplicadas um pelo outro, estava "O mestre-sala dos mares", que tratava de um fato histórico incômodo para a ditadura militar, racista, que dominava o país. Cito, do relatório da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva", o capítulo "Perseguição à população e ao movimento negros":
Um dos casos célebres foi o do samba “O Mestre Sala dos mares”, de João Bosco e Aldir Blanc, que cantava o líder negro da Revolta da Chibata, João Cândido. O samba foi gravado por Elis Regina em 1974, com a letra alterada por força da censura. 
O marinheiro João Cândido liderou essa revolta contra os castigos corporais, típicos dos que se usavam contra os escravos (como a chibata), que a Marinha adotava contra os marinheiros. A revolta ocorreu em novembro de 1910. A Marinha desrespeitou a anistia votada pelo Congresso Nacional, assassinou vários dos rebelados. João Cândido morreu no ostracismo, expulso das Forças Armadas. 
Ele ficou conhecido como “Almirante Negro” pelo povo. João Bosco e Aldir Blanc, no entanto, foram impedidos de chamá-lo assim pela censura – tornou-se um “navegante negro” – e a referência à tortura contra os negros foi silenciada: o verso, originalmente “rubras cascatas jorravam das costas dos negros”, teve que ser alterado para “rubras cascatas jorravam das costas dos santos”. Lembra Aldir Blanc que ele e Bosco foram acusados pelos censores de fazer “apologia ao negro”. 
O trecho "Rubras cascatas/ Jorravam das costas dos negros/ Pelas pontas das chibatas" foi suavizado: "Rubras cascatas/ Jorravam das costas dos santos/ Entre cantos e chibatas". Outro dos trechos mudados: "que a exemplo do marinheiro gritava não" tornou-se "que a exemplo do feiticeiro gritava então". A revolta virou um feitiço alegre.
A mudança de "Almirante negro" para "Navegante negro" também era crucial. Não sei, aliás, quantos negros foram Almirantes no Brasil. Com a legitimidade de ter tido seu título concedido pelo povo, provavelmente só João Cândido, que ainda teve essa legitimidade redobrada pelo fato de a concessão ter sido dada por uma revolta em prol da dignidade humana.
O princípio da dignidade era sistematicamente violado pela Marinha. A partir de 1964, com as Forças Armadas tomando o poder, essa violação tornou-se método de governo. Para as artes, isso significou, em muitos casos, a censura, como a desta canção, que teve a sorte de ser liberada depois de sofrer as modificações.
Não entendo por que João Bosco, este patrimônio musical do país, que só com seu formidável violão e seu desconcertante método vocal (ele já não é mais nenhum jovenzinho, mas no fim da apresentação que eu vi, pediram "Papel machê", parceria dele com Capinan, e ele a cantou com todos os agudos no lugar), não percebo por que este impressionante músico permanece apresentando a letra aprovada pela censura. Ele gosta mais assim? Não sei a razão.
Em 1981, Elis Regina, longe da censura brasileira, cantou no México a letra original, em homenagem à "figura de um bravo marinheiro", em vez do "feiticeiro" imposto pela censura: https://youtu.be/2HPCf-35xOQ?t=19m50s.
Vejam como, em gesto, a cantora saúda as "pedras pisadas do cais", o "monumento" deixado para o Almirante Negro. 
Pisadas, não podiam queixar-se. Até virarem canção.

P.S.: Depois que escrevi isto, lembrei do verbete de Sérgio Alcides sobre Aldir Blanc no livro "Folha Explica" Música popular brasileira hoje, de 2001. Ele destaca a grande qualidade poética de Blanc e dois fatores presentes nesta canção: a memória e o não oficialismo: "as histórias de Blanc nos ajudam a criar uma memória coletiva brasileira e livre. E o melhor: sem a menor sombra de oficialismo nacional."


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável
Dia 10: Manuel Falla e a dor da natureza
Dia 11: De "People" ao povo e Cauby Peixoto
Dia 13: Baudelaire, Duparc e volúpia
Dia 14: Bornelh, o amor e a alba
Dia 15: Rodgers e Hart e o desejo de arte
Dia 16: Piazzolla, Trejo e o irrecuperável
Dia 17: Janequin, ir à cidade que grita
Dia 18: Amin, Garfunkel e outros pássaros
Dia 19: Wolf e Mörike imaginando a ilha
Dia 20: A loucura, Schumann e Andersen
Dia 21: Tiganá Santana e a memória negra
Dia 22: A boca seca da revolução: Miguel Poveda e Narcís Comadira
Dia 23: Encontrar o dia novo, Villa-Lobos e Ferreira Gullar

sábado, 28 de janeiro de 2017

30 dias de canções: Um retrato à beira da razão, de Tom e Chico

30 dias de canções
Dia 1: Uma canção com uma cor no título

Até mais de uma cor: duas. "Retrato em branco e preto", de Tom Jobim e Chico Buarque. Ou nenhuma, de certa forma: se o retrato é em branco e preto, não é colorido.
Antes de a parceria com Chico Buarque existir, Tom Jobim havia composto e gravado um tema instrumental a que deu o título "Zingaro"; está no disco "A certain Mr. Jobim", de 1967. O arranjo é de Claus Ogerman.
Jobim, em 1968, acabou oferecendo o tema para o jovem Chico Buarque letrá-lo, no que se tornou a primeira canção da parceria, uma das mais notáveis da música brasileira. Ademais, trata-se de uma das melhores canções da dupla. 
Helena Jobim, no livro sobre seu irmão, Antonio Carlos Jobim: Um Homem Iluminado, escreveu que Jobim telefonou para Chico Buarque ir a sua casa e tocou-lhe diversas vezes "Zingaro"; a música foi gravada em fita para Chico Buarque criar os versos sozinho, o que fez em "poucos dias". Ele a gravou naquele mesmo ano, em arranjo do maestro Gaya.
Vejam a partitura, em arranjo de Paulo Jobim, no portal do Instituto Antonio Carlos Jobim.
Com a entrada de Chico Buarque, o título e o clima da música mudaram completamente: a nova música agora trata de um amor que não deu certo, mas a que se está aprisionado. Esse amor "que eu nego tanto" e que "volta a sempre a enfeitiçar/ Com seus mesmos tristes velhos fatos,/ que num álbum de retratos, eu teimo em colecionar". 
O desacerto psíquico é dado pela sintaxe; a certa altura, um vocativo interrompe uma enumeração que descreve o seu estado : "Novos dias tristes, noites claras/ Versos, cartas, minha cara,/ Ainda volto a lhe escrever". O que exatamente ocorreu? Um dos elementos geniais da letra é jamais contar o que foram os "tristes velhos fatos", não precisar fazê-lo: "Eu trago o peito tão marcado/ De lembranças do passado/ E você sabe a razão". Trata-se quase do funcionamento dos mecanismos do trauma.
O intérprete desta canção deve ficar muito atento: as frases musicais sobem e descem de forma quase tão sutil quanto "O último desejo" de Noel Rosa.
O título aparece apenas no penúltimo verso. Por que em branco e preto, se todos falam "em preto e branco"? Isso teria incomodado Tom Jobim, segundo li no texto de José Ruy Gandra para a reedição do disco Chico Buarque de Hollanda - Volume 3, em que o compositor a gravou. Chico Buarque teria respondido com isto: "Vou colecionar mais um tamanco/ Outro retrato em preto e branco".
É certo que retrato em "branco e preto" apresenta uma singularidade que o cotidiano "em preto e branco" não tem, chamando a atenção para o título e sugerindo, creio, a desolação. Cotidiano, de fato: a foto em branco e preto, nos anos 1960 no Brasil, era muito mais comum que a foto colorida.
A história, no entanto, chama a atenção para outra questão: o foco da letra talvez fosse a palavra soneto e, por isso, o compositor não quisesse dispensar a palavra da rima - preto - que teria que ficar no final.
A imagem da coleção de sonetos também é invulgar. A letra não adota essa forma poética. Se o soneto era tão necessário a Chico Buarque, talvez fosse por influência ou alusão a outro parceiro de Tom Jobim, mais velho e mais célebre, e com cuja sombra o jovem compositor teria que se defrontar: o poeta e conhecido sonetista Vinicius de Moraes (por sinal, Tom Jobim já havia musicado o "Soneto da separação").
Como os compositores interpretaram a canção? Chico Buarque gravou a música com um canto macio, sem tensões. No histórico disco de 1974, Elis e Tom, a abertura dramática do arranjo de César Camargo Mariano, com cordas e o piano de Jobim, faz o canto de Elis Regina parecer ainda mais desconcertante: a dinâmica vocal nunca vai para o forte (o que é surpreendente tratando-se desta cantora, mas não neste disco), a maior parte do tempo a voz é mantida em baixo volume. No entanto, a emissão marcada de certas notas impede qualquer sensação de serenidade, ao contrário do que ocorre com Chico Buarque. Essas duas particularidades da interpretação de Elis Regina deixam a impressão de uma dor muito interiorizada, um lamento que não pode ser dito em voz alta. Quando ela se cala e o piano e as cordas fecham a música, o drama volta ser explícito e o clima lembra o de Chausson na "Chanson perpétuelle". Por sinal, Tom Jobim, pelo que li, ouvia muito a música francesa dessa época.
Evidentemente, os intérpretes não precisam, neste estilo, se prender à intenção dos compositores. Uma interpretação completamente diferente dessas duas é a de Ney Matogrosso e Raphael Rabello em "À flor da pele", disco de 1990. Eu vi ambos ao vivo interpretando essa canção exatamente como o fizeram no disco: contrastes de dinâmica (tanto no violão quanto na voz), notas em marcato, num discurso exacerbado (que, é claro, chocará os que preferem a interpretação suave, com os graves falados e os agudos omitidos ou enrouquecidos, de João Gilberto) que leva, no 24o. compasso da partitura segundo Paulo Jobim, a um salto para o agudo em uma frase que deveria descer, culminando em um belo agudo em falsete na palavra "razão". 
Razão; justamente o que a canção não diz (isto é, o motivo do fracasso daquele amor), e que o eu lírico, ali, parece estar à beira de perder.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Desarquivando o Brasil XCVI: Notas sobre o 20 de Novembro e o racismo na ditadura

A ditadura militar tardou em revogar a lei de estrangeiros racista editada por Getúlio Vargas no fim do Estado Novo. Tratava-se do decreto-lei n. 7967, de 27 de agosto de 1945, que priorizava os europeus na política migratória (o Brasil tinha política de cotas para brancos, o que é convenientemente esquecido pelos que combatem os movimentos étnicos). No entanto, a ditadura acabou por fazê-lo com a lei n. 6815, de 19 de agosto de 1980.
Bem antes disso, ela havia ratificado a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, da ONU, celebrada em 1966. Ela foi promulgada, no Brasil, pelo Decreto nº 65.810, de 8 de dezembro de 1969, já no governo Médici.
Tratava-se de uma exceção na política isolacionista em relação ao direito internacional dos direitos humanos. Os militares tiveram o cuidado de deixar o Brasil de fora do Pacto de São José da Costa Rica, dos Pactos de 1966 da ONU, entre outros tratados dessa matéria.
No entanto, a exceção era bem explicável: o Estado brasileiro ratificou a Convenção sem fazer a declaração facultativa que permitisse ao Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial, criado pelo tratado, receber denúncias individuais ou de grupos de vítimas, que alegassem a violação dos direitos previstos. Essa competência do Comitê, prevista no artigo 14, só foi reconhecida pelo Brasil em 2002, e foi objeto de promulgação com o Decreto Federal no 4.738, de 12 de junho de 2003. Enfim, apenas no governo Lula essa possibilidade de reclamação internacional foi aberta - para uma Convenção promulgada nos tempos de Médici...
Ademais, a adesão do Brasil reforçaria o discurso da "democracia racial" no país. E, como o mecanismo ficou internacionalmente ineficaz no tocante ao Comitê, a Convenção não poderia ser perigosa à ditadura brasileira.

Preocupada com a imagem internacional do governo, a ditadura militar sempre buscou negar as acusações de genocídio dos índios e de racismo. Apontei, em nota deste blogue sobre a edição de 1980 do Tribunal Bertrand Russell, documentos do Serviço Nacional de Informações negacionistas do racismo.
Denúncias de racismo, dessa forma, despertavam a atenção do Ministério do Exército, como se pode ver neste documento confidencial de 1972.
No caso, um estudante negro de direito impedido, em 1972, de entrar em clube social em Santos, o Caiçara Clube, tentou mover a justiça. O Ministério Público acabou pedindo a absolvição, considerando que não havia sido provado que foi o racismo o que vedou a entrada do estudante.
Um incidente de "discriminação racial", como classificaram as autoridades do Exército, sem relação com o que os incautos poderiam achar que era a segurança nacional, e, aparentemente, de dimensão apenas local, despertava atenção das autoridades militares. Isso ocorreu mais de uma vez, o que mostra como a questão era sensível para o regime.

Nesta outra nota, venho apenas lembrar que o vinte de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares, era uma antiga reivindicação dos movimentos dos negros. Vejam, ao lado, este relatório sobre a manifestação desse dia em 1979, que contou com até 600 pessoas, e terminou com o lema "20 DE NOVEMBRO DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA".
Vejam também a presença dos grupos de homossexuais com as reivindicações dos negros. Tratava-se de reivindicações que incomodavam a ditadura, mas também parte da esquerda. Lembro agora de João Silvério Trevisan criticando a "esquerda ortodoxa", que se mostrava refratária aos homossexuais, negros e feministas: "Se, para essa esquerda, a sexualidade e o racismo eram temas incomodamente discutidos fora dos parâmetros da luta de classes (ou 'luta maior', em sua gíria), o aborto podia criar desagradáveis atritos com a Igreja Católica progressista" (Devassos no paraíso: A homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade, 3a ed., Rio de Janeiro: Record, 2000, p. 338).
Theodosina Ribeiro, que estava presente na manifestação, foi a primeira mulher negra a ser vereadora em São Paulo (em 1974) e a primeira a se tornar deputada estadual por SP.

A violência policial apresenta estatisticamente uma preferência pela pele negra. Já escrevi, em outra nota deste blogue, como a tortura e a execução de um homem negro, Robson Silveira da Luz, em maio de 1978, serviu para alavancar o Movimento Negro Unificado, e foi assunto da seção de São Paulo do Comitê Brasileiro pela Anistia.
No "Relatório confidencial" do DOPS/SP que reproduzo, vê-se a preocupação com a eventual criação de um partido socialista no Brasil (os militantes acabariam presos em 1978 pela Operação Lótus) e, no âmbito desse partido, com os militantes negros.
O delegado Luiz Alberto Abdalla acabou sendo condenado, porém jamais foi preso. Nesse documento, vemos a posição oficial de que o racismo era uma bandeira inventada pelos comunistas como estratégia de guerra psicológica adversa. A frase atribuída ao delegado, "Negro tem que ir pro pau", na denúncia pelo Folhetim em 14 de maio de 1978, recebe essa interpretação, bem como a obra de Clóvis Moura e a de Florestan Fernandes. Sobre os socialistas, lemos isto:
Dentro desta Frente, há um movimento denominado "AFRO LATINO AMÉRICA" de cunho nítidamente [sic] revanchista que procura incutir o racismo no negro contra os "dominadores brancos", e distorcer a miséria, este grave problema social - que aflige a todos indistintamente, principalmente a população da periféria [sic], como sendo privativa do negro.
[...]
Assim sendo, a toda ocorrência policial envolvendo elemento de origem negra, é de se esperar uma repercussão acima da expectativa para ser reivindicada a aplicação da Lei Afonso Arinos.
A Lei Afonso Arinos era a legislação antirracismo da época, de pouca efetividade, por sinal. Não por falta de ocorrência do preconceito, é claro, mas pela forte disposição das autoridades em negar a discriminação racial.
Caso de racismo em Salvador, desta vez, gerou este parecer não assinado de 1971, do Centro de Informações do Exército (CIE). Outro caso comum na história do racismo no Brasil: a proibição de entrar no "elevador social", essa forma tão degradante de divisão racial do espaço na arquitetura brasileira.
Vejam que o síndico alegou que se tratava de "questão interna" do prédio, como se violações de direitos humanos fossem mera anotação a ser apagada em ata de reunião condominial.
O Ministério do Exército viu melhor, percebeu que não era simples "questão interna", mas de forma torta: não se incomodou com a violação de direitos humanos (afinal, a ditadura militar, ela mesma, fundamentava-se na prática de crimes contra a humanidade, como tortura, desaparecimento e genocídio). O que chamou a atenção foi a possibilidade de a imagem do governo ser arranhada pelo episódio.

Depois, o parecerista trata de pessoas famosas. Vejam a referência aos artistas que estariam "explorando"  a questão por oportunismo (algo bem ridículo de se dizer de um artista negro como Tony Tornado), e que alguns o fariam por viverem "na subversão e no terrorismo".
Janete Clair, "comunista fichada", era culpada de abordar o assunto na telenovela "O homem que deve morrer".
Não vi essa obra. Vejo que os personagens principais eram todos brancos, e nisso a novela não se distanciava do racismo estrutural da tevê brasileira. Ruth de Souza, embora estivesse presente, nem aparece na galeria de personagens que a Globo fez para essa novela no seu sítio de "Memória". Na abertura, ouvia-se "Deus criou vidas. Não criou raças." O vilão, nazista, recebia o coração de um jovem negro.
Alguns podem achar surpreendente, tendo em vista a decadência jornalística que se seguiu, mas não estava errado considerar a Abril, nessa época, uma editora com "tendências esquerdistas".
Uma canção de Marcos e Paulo Sergio Valle, "Black is Beautiful", é mencionada; na letra, após a menção aos "brancos horríveis" na "Rua do Ouvidor", celebra-se a miscigenação com um "deus negro do Congo ou daqui".
Elis Regina, "que registra antecedentes de agitação subversiva no meio artístico", lembrou o parecerista do Exército, gravou-a no disco "Ela", de 1971, que confirmou o flerte com o rock começado em "Em pleno verão", do ano anterior, e o fim do purismo nacionalista, gravando ao mesmo tempo "Estrada do sol", de Tom Jobim e Dolores Duran e "Golden slumbers", de Lennon e McCartney. Pode-se vê-la apresentando a canção dos irmãos Valle em especial da tevê alemã.

Não sei se essa música foge muito do estereótipo do homem e da mulher negros como objetos de cobiça sensual, mas ela era provocativa para as autoridades. De qualquer forma, como, historicamente, a miscigenação no Brasil deu-se por meio do estupro das mulheres índias e negras por brancos, é interessante, em termos de gênero, ouvir o inverso. A gravação do compositor, além de ser muito inferior vocalmente à de Elis (como era de se esperar), é também desinteressante por esta razão: qual é a surpresa em ouvir que ele quer "uma dama de cor"? Se ao menos ele tivesse cantado a mesma letra que Elis interpretou...
Outro caso relatado no parecer foi o da cantadora Carmen Silvia no programa de Silvio Santos, da tentativa de alugar apartamento no bairro de Higienópolis, em São Paulo.
Vejam que a preocupação oficial não era de atacar o racismo, mas de simplesmente de impedir que denúncias como essas viessem à tona, por meio do controle dos meios de comunicação social.
Eis os limites da esfera pública em uma ditadura.
Quando se fala em racismo na ditadura militar, são recordados casos famosos como o da censura a "O mestre-sala dos mares", de João Bosco e Aldir Blanc, e à telenovela "A escrava Isaura". É necessário lembrar das milhares de vitimas anônimas do racismo, que poderiam, no entanto, despertar a atenção vigilante do aparato de repressão da ditadura, se suas denúncias chegassem à esfera pública.
A data do 20 de novembro é uma oportunidade de pensar em conjunto a questão. Deveria ser feriado nacional.

P.S.: Todos os documentos foram encontrados no Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP).

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Desarquivando o Brasil XXXV: Emicida, racismo e polícia

"Tevê cancerígena aplaude prédio em cemitério indígena./ Auschwitz ou gueto? Índio ou preto? / Mesmo jeito, extermínio [..]", versos de Emicida em Dedo na ferida.O rapper foi preso neste treze de maio por desacato, leio no twitter, por causa dessa música, em Belo Horizonte.  Ele participava do festival Palco Hip Hop, na mesma região, Barreiro, onde a Ocupação Eliana Silva havia sido removida pela polícia.

Ocupações como a de Pinheirinho são lembradas por Emicida na letra.


Ele foi liberado no mesmo dia, mais tarde. A economista Renata Lins sintetizou o caso nesta mensagem que o empresário do artista retuitou, como se vê abaixo, depois de ser retransmitida por Eduardo Sterzi: "13 de maio de 2012. Um negro é preso em BH por cantar uma música".



A Folha de S.Paulo hesitou em relação ao título da matéria,  e acabou decidindo dizer que o rapper foi obsceno. Deve-se lembrar que Rita Lee, em sua última apresentação ao vivo, em Aracaju, também foi detida por desacato à Polícia Militar. O caso ocorreu em 28 de janeiro deste ano, 2012. O vídeo parece-me mostrar que a compositora e cantora estava correta. Ela exclamou: "Eu sou do tempo da ditadura. Vocês pensam que eu tenho medo? Porra!"
No blogue de Emicida, lemos que a Polícia Militar apresentou uma versão dos acontecimentos bem contrastante com o que foi gravado no espetáculo - o boletim de ocorrência refere-se a frase que o rapper não teria declarado - o que talvez se explique por meio das sérias deficiências policiais no Brasil, presentes também no campo da compreensão mínima do que é o fenômeno artístico.
O jurista e professor Gabriel Divan, que conhece muitíssimo mais direito penal e hip hop do que eu, explica o que até eu consigo perceber, que não ocorreu o crime de desacato. Ademais, como ele escreveu, a questão é muito mais profunda: "A questão é MENOS o ‘enquadramento’ jurídico dos funkeiros e MAIS o questionamento sobre a real necessidade (e a real legitimidade democrática) de seguir sendo aplicado um tipo penal que criminaliza algo assim."
O problema é político e reduzi-lo à mera tipificação é leviano, como Gabriel Divan bem explica aludindo ao "imenso grupo de juristas que rapidamente aguardam as discussões exclusivamente penais do caso como quem espera a garçonete trazer o primeiro e gelado chope da tarde".
O problema é político e diz respeito a uma cultura autoritária. A letra de Emicida, em uma menção explícita à ditadura militar, faz ouvir "Ainda vivemos como nossos pais, Elis. / Quanto vale uma vida humana, me diz". Foi bonito ver que Maria Rita, a cantora que é também filha de Elis, logo se solidarizou com o rapper.
Como nossos pais é uma canção de Belchior que Elis Regina interpretou no espetáculo e disco Falso Brilhante, e acho que é uma das grandes manifestações de incoformismo na música brasileira dos anos 1970, tão mais forte pelo desencanto que ela carrega: "Ainda somos os mesmos e vivemos/ como nossos pais". A indignação da cantora em "É você que ama o passado e que não vê/ que o novo sempre vem" supera a interpretação do próprio compositor.
Nada na história permanece sem mudar: "plus ça change..." Ver as continuidades na história implica identificar o que se altera, como o racismo hoje e na ditadura militar.
O caso de Robson Silveira da Luz, homem negro morto pela tortura policial em maio de 1978, foi denunciado no ato público de criação da seccional de São Paulo da Comissão Brasileira de Anistia (CBA-SP), que ocorreu na Câmara dos Vereadores em 12 de maio de 1978 - quase no dia da Abolição.
Acusado de roubar frutas, ele foi preso, torturado e morto no distrito de Guaianazes. O delegado Alberto Abdalla acabou sendo condenado (note-se que a notícia erra a data do assassinato) pela morte, porém jamais foi preso.
O DOPS de São Paulo gravou as falas do acontecimento e as transcreveu.  Um pouco depois, o Movimento Negro Unificado (MNU) se constituiria, em 18 de junho de 1978 e, em 7 de julho do mesmo ano, realizou ato em frente ao Teatro Municipal de São Paulo em protesto por aquele assassinato, do de Newton Lourenço, operário assassinado pela política na Lapa, bem como pelo preconceito sofrido por meninos negros no Clube de Regatas Tietê.
O assassinato foi um dos estopins para essa intensificação dos movimentos. Leio em "Ações educativas do movimento social negro no Brasil", de Otto Vinicius Agra Figueiredo, que na Bahia "um grupo de professores militantes do MNU em suas discussões acerca da baixa auto-estima do negro fundou em 1981 o Grupo de Educação Robson Silveira da Luz do MNU."
Por que também os movimentos negros eram vigiados pela política política? Cito o livro Lélia Gonzalez (São Paulo: Selo Negro, 2010) de Alex Ratts e Flavia Rios:

Em tempos de ditadura, qualquer denúncia de racismo era recebida como tentativa de criar sentimentos antinacionais. Falar de racismo significava dar vida àquilo que "não existia" na sociedade brasileira. [...] Para os generais que comandavam a nação, nada disso fazia parte da nossa realidade. [p. 87]

A lógica da negação do racismo serve obviamente para mantê-lo: não se combaterá o que se julga não existir. Essa lógica, completamente compreensível (mas nunca justificável) em um Estado ditatorial, que é incompatível com a autonomia popular, é repetida, hoje, na democracia brasileira, por setores comprometidos com esse tipo de opressão.
Vejam um curioso caso no recentíssimo (de 17 de maio de 2012) programa da Al Jazeera em inglês sobre cotas raciais no Brasil, em que Demétrio Magnoli apanhou de Idelber Avelar e Athayde Motta (diretor do Fundo Baobá), por meio destas ligações: http://stream.aljazeera.com/story/brazils-racial-quotas-0022211 ou http://www.youtube.com/watch?v=js26QHH5hNM
A postura de Magnoli obriga-o a criar um mundo paralelo e a negar esta outra dimensão terrestre, mais mundana e banal, em que vivo. Ou, talvez, o fato de ser um homem branco de sua classe social faz com que viva, de fato, em um mundo apartado, o que corrobora a impressão de que Magnoli está completamente errado, e que o racismo segrega. Algo disso me evoca Sérgio Buarque de Holanda, ao tratar, em Raízes do Brasil, do secreto horror à realidade nacional.
A partir dos 32 minutos do vídeo, Magnoli afirma que os movimentos negros são tão poderosos no Brasil que fizeram o STF violar a Constituição... Idelber Avelar logo replica com o voto do Ministro Lewandovski: trata-se, em vez disso, de cumprimento da Constituição. Antes, a partir dos 20 minutos, ele desfez o erro magnoliano de que o direito brasileiro não era racista. A partir dos 6 minutos, o geógrafo havia explicado que nem a sociedade brasileira nem o seu direito dividiram a sociedade em raças...
Athayde Motta, como Avelar, trouxe de volta a realidade brasileira, e desmontou a falácia de que mestiços não seriam discriminados (especialmente a partir dos 15 minutos); a partir dos 27 minutos, voltou a insistir que as raças são categorias sociais, desfazendo (como também Idelber Avelar) a falácia biologizante de que, se não há biologicamente raças, logo não haveria socialmente racismo... E ele, como homem negro, lembrou que, embora estudante de doutorado, sofria discriminação.
Intelectualmente, uma postura como essa às vezes só consegue ser mantida a custo de inconsistências generalizadas e citações inventadas, como bem mostrou Ana Maria Gonçalves em um texto antológico.

Vejamos, porém, as transcrições do DOPS. Foi lida (o relatório não diz por quem), no ato de criação da CBA-SP,  uma carta aberta escrita pela família de Robson Silveira da Luz.
O documento, que pode ser visto ao lado, foi consultado no Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Eis a transcrição policial, com seus enganos:

[...] as circunstancias que levaram a morte de Robson não estão isoladas de todas as outras formas de abuso do poder, e repressão que paira sobre todos nós, se existe o esquadrão da morte, se existe Abdalas agindo por conta propria, é porque isso até certo ponto é permitido, sentimos na propria carne a necessidade de que sejam respeitadas as minimas garantias individuais como no caso o direito a vida, pois não achamos correto que a troco de bananas, ou por falta de arroz, feijão, carne ou qualquer alimento alguem venha a perder a vida em qualquer dependencia publica, pedimos a solidariedade de todos aqueles que não aceitam o abuso do poder, a repressão a falta de garantias individuais, a discriminação racial no sentido de que a justiça que nos ultimos anos tem andado de muleta, nesse pais, seja feita afim de que se possa acabar com o arbitrio ainda hoje existente. S.Paulo maio de 1978- 90 anos de Abolição, a familia de Robson Silveira da Luz.
Não por mera coincidência, a prisão de Emicida e sua música também são objeto da reportagem da Al Jazeera. Eles atestam a permanência do racismo e da violência policial, que eram um problema em 1978 também para o movimento de anistia.
A curiosa imagem que a família usou na carta, a justiça com muletas, se não pode mais ser usada em relação ao Supremo Tribunal Federal no tema das cotas, permanece em relação à anistia e à justiça de transição.




quarta-feira, 4 de abril de 2012

Desarquivando o Brasil XXXI: mais do Cordão da Mentira

Na nota que escrevi às pressas para participar da blogagem coletiva, "Desarquivando o Brasil XXX: Comissão da Inverdade, Cordão da Mentira e os juristas", incluí um panfleto de 1979, apreendido pela polícia em São Paulo, da campanha pela Anistia.
No ano passado, usei esse panfleto numa atividade na disciplina Filosofia jurídica. O poeta, cientista político, diplomata e especialista em Milton Nascimento (entre outros talentos) Ricardo Rizzo, meu amigo, perguntou por que não lembrei de que o título vinha de canção de Milton e Ronaldo Bastos, "Menino", escrita em resposta ao assassinato do estudante Édson Luís pela polícia no Rio de Janeiro em 1968. "Quem cala sobre o teu corpo consente na tua morte", na voz do compositor.
Eu sempre tinha de lembrar da canção com os alunos, que em geral não tinham conhecimento nem interesse por música brasileira e não identificavam a referência, que continuava atual na época.
Nesse ano de 1979, Elis Regina interpetava a canção no espetáculo Saudades do Brasil, com arranjo de Cesar Camargo Mariano. Ela chegou a combiná-la com uma canção de Fátima Guedes, "Onze fitas". http://www.blogger.com/img/blank.gif
Elis lançou tanto Milton quanto Fátima Guedes. Aqui, se pode ouvir a compositora. A combinação que a poderosa cantora fez foi lançada em disco e pode ser ouvida nesta ligação, com a intuição da cantora em ver o liame entre os dois assassinatos, entre as duas violências.
Talvez algo de correlato estivesse presente no Cordão da Mentira; ou na carta que as Mães de Maio brasileiras escreveram para as Mães da Praça de Maio argentinas.



Ainda na concentração da passeata, podem-se ver duas formas de representação dos desaparecidos da ditadura: o cartaz com diversos rostos de desaparecidos, que pode ser visto também na nota anterior que fiz sobre o Cordão da Mentira, e as lindas efígies coloridas, que permitiam a visão dos dois lados. Os que sofreram a mesma violência na democracia estavam igualmente representados.
Os desaparecidos e mortos da ditadura foram homenageados também nas placas que foram afixadas em locais estratégicos. Mostrei algumas na nota anterior.



Ativistas dos direitos indígenas estavam presentes na manifestação - ao lado, camiseta com mensagem contra o genocídio dos índios Guaranis, em marcha judiciosa e executiva no Mato Grosso do Sul. Participaram do Cordão também os membros das bicicletadas, que por vezes caem vítimas do desastre urbanístico e administrativo que São Paulo continua a ser.



Escritores na passeata: Fabio Weintraub, em foto tirada ainda na concentração do evento, em frente ao Cemitério da Consolação. Logo abaixo, Julián Fuks na Rua Fortunato, com a camiseta azul dos 33 anos das Mães da Praça de Maio.





Na Rua Maria Antônia, vemos novamente a comissão de frente da passeata, composta pelas Mães de Maio. Desta vez deste ângulo, para se ver a mensagem da camiseta: "Um mundo melhor é possível: Quando o Estado não mais discriminar, não excluir o pobre e negros. Exigimos dignidade, igualdade, justiça e liberdade!".
A mensagem pressupõe outro valor: a diversidade, que se manifestou na passeata.

Ainda na mesma rua, de verde, Raphael Tsavkko, the angry Brazilian, jornalista que escreveu no seu blogue sobre o Cordão, incluindo fotos bem melhores do que as minhas e vídeos. Pode-se vê-lo com uma camiseta de apoio aos bascos.




Presente na manifestação, estavam setores da Academia. Os estudantes de Psicologia apareceram, sem divã, para afirmar que nem Freud entende a impunidade dos torturadores. De fato, o fundamento teórico deve ser outro, precisa ser buscado no lugar onde se encontram certas derivas de uma criminologia que se pretende crítica com a extrema direita menos disfarçada. Na foto seguinte, não conheço os outros, mas, no centro, com a camiseta branca inscrita com "Juicio y castigo", estava o mestre em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo Renan Quinalha, orientando de Deisy Ventura. Sua dissertação tinha como tema a justiça de transição.


Caminhando para o Minhocão, ainda passando pelo Largo de Santa Cecília. Apesar da faixa da Companhia de Teatro Kiwi sobre a impossibilidade da felicidade, creio que ela foi desmentida, pois a manifestação tinha um sentido de júbilo.



Em frente ao Teatro do Folias d'Arte, foi realizada nova pausa. Soltaram-se balões vermelhos, imagem simples de júbilo.




Na nota anterior, incluí foto de Lino Bocchini, jornalista da Falha de S.Paulo, censurado judicialmente pelo jornal quase homônimo. Ele escreveu também sobre o Cordão da Mentira. Agora, insiro outra foto. Na árvore em frente ao prédio da Folha de S.Paulo, vejam, que foi amarrada uma placa em homenagem às vítimas do urbanismo higienista de São Paulo. Essas placas foram ignoradas na modesta cobertura da passeata feito pelo Estado de S.Paulo, e na modestíssima pela Folha, e tal silêncio ecoa o silêncio dessas vítimas.

Na última foto,http://www.blogger.com/img/blank.gif vê-se o pouso final da passeata. É possível ver a Universidade Livre de Música, enquanto músicos sobre o caminhão de som reclamavam que se ensinasse música popular. Não fazia sentido a queixa (que tinha um fundo de intolerância, repetido em outra fala, contra a música "clássica", e desafinava a ideia de diversidade), pois lá também se ensina esse tipo de música. Ela não silencia: "Quem grita vive contigo".

P.S.: Contei, em outra nota, que o professor Ítalo Moriconi falou do manifestante no Rio de Janeiro que teve o braço quebrado pela polícia na recente manifestação contra a comemoração do golpe militar. Eis aqui a história dele.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A cidade bloqueada: a paralisação da política e Adoniran segundo Salmaso

Como deve ser o canto da cidade bloqueada? Evidentemente, há diversas possibilidades formais para expressar tal bloqueio, e é evidente que São Paulo é um exemplo dessa cidade.
Mesmo que se restrinja o bloqueio à simples questão da circulação, não se poderá deixar de ver as raízes políticas do problema. Veja-se como o governo estadual persiste na ilegalidade no tocante às obras do metrô, metrô que serve de objeto para investigações da justiça suíça, por conta de alegada corrupção da Alstom. Essa questão, no Brasil, chegou ao Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.
O bloqueio da cidade é o bloqueio da política, em um Estado que não tem encontrado ou apostado em alternativas novas, mesmo depois do fracasso monumental do governo em maio 2006, quando o crime organizado paralisou parte do Estado. Essa paralisação foi seguida de várias mortes cometidas por agentes de segurança, ainda sem explicação.
A circulação é multifatorial, como, de resto, são todos os fatos sociais. A política de segurança, obviamente, a influencia, e apenas a aposta de São Paulo no fracasso pode explicar que o governador de então tenha voltado a esse cargo.
A Clínica Internacional de Direitos Humanos da Universidade de Harvard e a ONG Justiça Global, lançaram há pouco o importante São Paulo sob achaque, que investiga como desavenças entre o crime organizado fora do Estado e o crime mais ou menos organizado dentro dos aparelhos estatais de segurança teriam dado origem à paralisação de São Paulo naquele mês. Os pesquisadores apontam que a situação de impunidade e de corrupção hoje são as mesmas, senão piores, das vésperas daquele acontecimento: "Agentes públicos, e toda a sociedade paulista, continuam vulneráveis a novos ataques." [p. 3]
Também por causa dos cinco anos desse acontecimento, publicou-se (ainda não o li) Do luto à luta: Mães de maio, também lançado recentemente, que trata justamente da resposta policial àquela paralisação, com a morte de 493 pessoas. Uma das líderes do movimento das Mães de Maio, Débora Maria, enfatizou, no lançamento, que o Estado não apenas deixou os crimes impunes, mas elogiou a polícia. As mudanças que combateriam essa situação estão oficialmente bloqueadas.
Como se poderia cantar o bloqueio da cidade? Adoniran Barbosa não chegou vivo aos dias de hoje, mas suas canções, sim. Os Demônios da Garoa davam um tom esfuziante para o que ele compôs: Saudosa maloca é um exemplo. Quando Elis Regina a gravou, intepretou genialmente a gravidade da situação: trata-se de uma reivindicação de posse, em que uma família é expulsa de sua maloca e resigna-se em nome de Deus e do Código Civil. Eis o gênio dessa cantora.
Lembro de uma entrevista que ela deu ao Vox Populi, com perguntas do público, que estava fora do estúdio. Uma jovem reclama da intepretação dela, que seria "arrastada". Elis sorri e simplesmente responde que gostava assim. Quem aparece depois? Adoniran, que elogia a forma como ela cantava essa mesma canção: "Você não pode calcular como eu gostei. Eu e todos meus amigos." A cantora comenta: morar naquelas condições já era um desrespeito, ser enxotado em 24 horas é mais ainda. E ela, inteligentemente, acusa como as pessoas confundiam o personagem de Adoniran (engraçado) com a obra musical dele.
Pois bem; "Trem das onze" é outro clássico do Adoniran. Já virou até propaganda inofensiva de brinquedo. Ela tem um fundo edipiano, do filho que não pode ficar com o seu amor pois tem que voltar para a mãe? Depende da interpretação.
Mas há outro bloqueio aí: ele mora no Jaçanã (na canção, "em Jaçanã", pois Adoniran não conhecia nem o lugar nem como a ele as pessoas se referiam) e, se perder a condução, não tem como voltar para casa.
Fabio Weintraub sempre me falou de estudo de José Miguel Wisnik sobre a canção paulista, publicado em Sem receita: ensaios e canções, em que essa canção é analisada como um exemplo - já que Adoniran referiu-se a um lugar que desconhecia, o que seria impensável em Noel Rosa - de "o quanto a experiência da cidade, aqui, impõe-se de saída como construção ficcional de um todo que escapa."
Mas a leitura de Wisnik parece-me excessivamente otimista, por assim dizer: não se trata apenas de a cidade ultrapassar o indivíduo, o que se sabe desde os tempos da pólis. Trata-se de uma cidade que divide, em vez de unir.
Quase três décadas depois da morte de Elis Regina, com o agravamento das condições de moradia nas grande metrópoles, Mônica Salmaso, outra intérprete comprometida com a música brasileira, volta a Adoniran para extrair esse canto do bloqueio.
"Alma lírica brasileira", disco de três mentes musicais, ela, Nelson Ayres e Teco Cardoso, é fechado com este canto: Trem das onze é interpretado de forma lenta, arrastada, e a sonoridade do sax barítono contribui para o quadro noturno, soturno, quase um pequeno réquiem para cidade que deixou de ser (em um verso, a cantora lembra que ela e Teco Cardoso, seu marido, têm um filho único - e precisam voltar...)
Conseguirá se chegar até a casa? Em que condições? A casa precisa ser olhada: a insegurança (outro fator de bloqueio da cidade), mais do que o Édipo, preside esta interpretação.
O disco todo é muito bom, mas esse desfecho é genial e, ademais, inesperado no trabalho de uma cantora que não é associada normalmente à política. Mas ela é uma cidadã, evidentemente, e essa condição significa participar da política.

P.S.: Alguém me disse que reduzi a tese de Wisnik, mas na verdade nem apresentei a ideia dele de que São Paulo só seria abarcável pelo imaginário, daí a diferença entre Adoniran e Noel. Mas repito que o ensaio de Wisnik preocupa-se com o esforço de integrar, e não com os bloqueios - de classe, de circulação etc. - o que gera uma leitura parcial da canção, que inicia justamente dizendo: "Não posso ficar nem mais um minuto com você". Essa impossibilidade é gerada pelas condições concretas da cidade, que não eram o problema de Wisnik - e sim de Adoniran.