O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Ditadura e golpe, Dmitri Hvorostovsky, Ogum, Angélica Freitas, Alberto Pimenta e outros na retrospectiva de 2024 à luz dos leitores

Sempre faço uma retrospectiva anual neste blogue: o exercício de memória do passado recente permite compreender melhor o presente. De alguns tempos para cá, sempre espero que os doze meses terminem, que é o que faz sentido, ao contrário do que estipula a temporalidade jornalística. Imaginem que no jornalismo cultural há até veículos que pedem que se escolha em outubro as melhores produções do ano!

Ademais, em certo sentido, nunca sabemos quando um ano realmente termina. Alguns ferem a cronologia e demoram mais para terminar, o que deve ser a razão pela qual o governo Lula não mencionou no primeiro de abril passado os sessenta anos do golpe de 1964.

Sempre mudo o critério da retrospectiva. Em 2017, quando ainda fazia essas coisas no último dia do ano, resolvi escolher  textos interessantes dos blogues que seguia. Entre eles, dois caíram.

Os blogues perderam audiência para as redes de fotos e as de vídeos que duram alguns segundos. No entanto, de 2023 para cá, vejo pessoas que afirmam desejar ler textos na internet, e não ver esses flashes que não convidam exatamente à reflexão. Notei também que blogues novos foram criados, o que é um movimento interessante.

Eu mantive este porque ele serve como um grande rascunhão de textos. Resolvi, então adotar o procedimento que muitos seguem: simplesmente listar as doze entradas mais lidas no blogue durante 2024, a começar da que teve mais visualizações. Eu não tinha a ideia de quais eram, surpreendi-me porque algumas são antigas, chegando a 2010. Imagino, portanto, que o interessante desta lista seja indicar temas que alguns leitores em português na internet acharam sensíveis.

Não que O palco e o mundo tenha sido muito lido: ele teve 45 mil e oitocentas visualizações no ano, o que não é muito para um blogue; ademais, pelo menos metade desse público deve ter chegado aqui por acaso e não por causa dos textos. No entanto, mesmo reduzindo a, talvez, dez por cento das visualizações, trata-se certamente de mais gente do que leu meus livros no mesmo período.

Curiosamente, os dois primeiros textos têm relação com música. Sou tenor e canto na Associação Coral de São Paulo, porém não tenho formação alguma nessa área, em que sou apenas um amador anônimo, apesar de participar de produções profissionais. Imagino que o assunto dos textos tenha sido o que chamou a atenção das pessoas ao ponto de lerem até mesmo algo que escrevi.



Dmitri Hvorostovsky (1962-2017), o cantor do mundo, a voz da Rússia e da Itália (22 de novembro de 2017). O texto conta minha experiência, apesar de limitada, com o célebre cantor russo, que morreu depois de uma batalha contra o câncer quando ainda estava senhor de sua voz e a carreira continuava a se desenvolver nos grandes palcos do mundo.

Tive a sorte de vê-lo duas vezes. Reproduzi no texto o programa de seu concerto no Rio de Janeiro (vazio de público, para a vergonha dos cariocas), falei de algumas gravações e lembrei da última vez que o vi, no ano em que descobriu a doença.

Escrevi um texto bem simples; o fato de ele ser lido mostra como Hvorostovsky continua a ser ouvido e amado graças às gravações e à memória que deixou no público. Imagino que continue criando memórias, pois leio nos comentários sobre as pessoas que o descobriram depois que morreu. De certa forma, um grande artista não morre.


30 dias de canções: O céu, o mar, a umbanda (31 de janeiro de 2017). Ousei, no início de 2017, produzir trechos para essa série, que outros blogues adotaram. Modifiquei algumas entradas, que não faziam sentido para mim, porém mantive a estrutura dos trinta dias. Comecei dia 28 de janeiro e só consegui encerrá-la no 25 de março, pois não consegui (nem imaginei que o faria) escrever um texto por dia. Em 2024, no entanto, publiquei aqui menos de trinta textos em um ano!

Na série, escolhi música de Guiraut de Borneilh a Tiganá Santana, passando por Beth Amin e Schumann. Também selecionei um ponto de Ogum que me foi ensinado por minha madrasta (por sinal, ela morreu há pouco mais de um mês; talvez tivesse gostado de saber disto).

"Se o céu é lindo" foi o tema do despretensioso texto que, sete anos depois, continua sendo lido, não sei por que razão. Talvez isso aconteça por causa da continuidade dos ataques racistas de terroristas cristãos às religiões afro-brasileiras, bem como dos chamados narcocrentes: lembro aqui do famigerado Complexo de Israel, no Rio de Janeiro, região em que os traficantes evangélicos expulsaram os terreiros, o que é outro dos crimes (além da venda de drogas) que são cometidos sistematicamente naquele Estado, tendo em vista a inoperância das forças de segurança e do Judiciário.


Desarquivando o Brasil CCVI: Jair Bolsonaro, Carlos Alberto Brilhante Ustra e outros militares (25 de novembro de 2024). Trata-se do mais lido entre os textos que escrevi neste ano, provavelmente por causa da urgência do tema: a descoberta do plano militar de assassinato de pelo menos Lula, Alckmin, Alexandre de Morais em 2022. 

Nele, lembrei dos trechos de meu livro mais novo, Ilícito absoluto: a família Almeida Teles, o coronel C. A. Brilhante Ustra e a tortura, sobre a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.

Quis contrastar o texto com a  aparente leveza ou até leviandade de certos meios de comunicação no tratamento do assunto, que diz respeito diretamente à continuidade da democracia no Brasil. O mais curioso foi ver bolsonaristas reagindo assumindo tudo ou quase tudo do que foi investigado pela Polícia Federal e alegando, mesmo assim, perseguição política: a impunidade é seu lar e, por isso, estranham quando algo diferente ameaça surgir no horizonte. 


Angélica Freitas e o tamanho da insurgência (10 de outubro de 2012). Aqui, além de reproduzir um texto que publiquei em 2007 sobre a estreia em livro da autor, Rilke Shake, em um extinto jornal impresso de crítica literária, o K., escrevi minhas impressões sobre Um útero é do tamanho de um punho, que comprei e li antes do lançamento em São Paulo. 

Publiquei-o em 2012 justamente para fazer propaganda da poeta, que (devo dizer aqui, por causa da maledicência desse meio) não é minha amiga pessoal. Simplesmente entendi que o livro era importante. Destaquei nele o caráter de contestação à ordem patriarcal, bem como a insurgência do feminino. Cheguei na época a discutir com uma professora de literatura que afirmou que ele não era poético porque "um útero é realmente do tamanho de um punho". Ai.

Creio que ainda é a melhor obra de Angélica Freitas. Poucos anos depois, vi uma jovem com veleidades críticas escrever que nunca viu os homens destacaram essas mesmas qualidades desse livro. É triste que os jovens tantas vezes usem na internet sua própria ignorância (nunca viram nem leram nem ouviram...) como argumento de autoridade. A poeta é muito maior do que isso.


Desarquivando o Brasil CXCVII: "O intento golpista e, portanto, criminoso": minutas de golpes e atos institucionais (21 de fevereiro de 2024). Escrevi este sobre as minutas de golpe encontradas pela Polícia Federal com Anderson Torres. Resolvi elaborar um paralelo, do tipo que costumo fazer neste blogue na série Desarquivando o Brasil, com os antigos atos institucionais da ditadura militar.

O golpe, felizmente mal sucedido, era retrô também nesse aspecto. Ademais, sua base teórica era péssima (foi um caso de inteligência militar como deux mots qui hurlent de se trouver ensemble), precário até mesmo para os juristas que o inspiraram, conforme destaquei.


Desarquivando o Brasil CCIII: Onde está o relatório da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva" (16 de setembro de 2024). Eu estava há muito tempo para escrever esse texto. O que finalmente me moveu foi ter lido um livro cheio de equívocos que venceu a primeira edição do Jabuti Acadêmico; entre os erros, estavam afirmações sobre o relatório mencionado. 

A Comissão "Rubens Paiva", criada pelo Legislativo estadual por iniciativa de Adriano Diogo, foi interessante já pelo fato de ela ter surgido antes da Nacional e, com isso, ter despertado a fundação das outras: estaduais, municipais, sindicais, universitárias, a Camponesa etc. 

Era uma pena que a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo não estivesse tratando bem do relatório, que jamais foi impresso e só existe on-line. Não sei se o meu texto teve alguma influência nisto, mas algumas semanas depois, não tive mais problema para acessá-lo.


Alberto Pimenta e o Discurso sobre o filho-da-puta de volta, em tempos muito apropriados, ao Brasil (16 de dezembro de 2020). O maior poeta vivo da língua portuguesa, Alberto Pimenta, é uma das principais razões por que as pessoas vêm parar neste blogue. Quatro anos depois, o texto de 2020 sobre a publicação na Serrote do célebre Discurso, que é seu livro mais traduzido, foi o mais lido dos vários que já escrevi sobre ele.

Evidentemente, além da genialidade de Pimenta, o assunto de que ele trata é sempre atual, o que deve ter chamado a atenção de quem leu o meu texto.


Subterrâneo do anjo e aniversário do Walter Benjamin (15 de julho de 2024). Este foi uma surpresa porque é um poema meu, ainda não recolhido em livro, publicado em um periódico de poesia, Ouriço, que o pediu. Eu o li com Fabio Weintraub no lançamento paulista da revista. Achei que a reação foi meio gélida, com exceção de Matheus Guménin, que foi a pessoa que estava lá e disse que gostou do poema. Acho que o problema foi tê-lo escrito com um tema (poesia e história), que foi alterado depois, o que me deixou meio fora do lugar naquele contexto. No blogue, porém, algumas pessoas talvez o tenham lido porque nele viro Walter Benjamin de pernas para o ar, o que não é tão comum.


Desarquivando o Brasil LXVII: Polícia e direito de manifestação (23 de agosto de 2013). Aqui tratei de alguma falas minhas no ano difícil de 2013, com destaque para a que fiz em uma iniciativa de esquerda de que morreu logo depois. Luka França também lá estava para tratar do caso Carandiru.

O vídeo caiu, mas os textos que apontei estão aqui: https://web.archive.org/web/20130811025608/http://vandaleando.laboratorio.us/. Como sempre, fiz o exercício de comparar o presente e o passado, dessa vez desde os anos 1950. 

Por que esse texto continua a ser lido, mais do que outros bem mais recentes? Imagino que a persistência do problema, com os casos diários de arbitrariedade policial, seja a razão.


Impressões europeias: a sombra do continente (21 de setembro de 2010). Trata-se de 355 caracteres (com espaços) e uma foto, que eu tirei, de xenofobia e racismo no Aeroporto de Madri. Zapatero e Sarkozy ainda estavam no poder.


Ele cala: a poesia de Nuno Ramos (20 de setembro de 2010). É o mais antigo dos textos, publicado na véspera do anterior. Trata-se de um dos artigos que escrevi sobre a obra literária de Nuno Ramos; este saiu na extinta revista Rodapé, que não foi publicada na internet.


Desarquivando o Brasil CCIV: Ciclo no SESC-SP de pesquisas acadêmicas e jornalísticas sobre a ditadura (16 de setembro de 2024). Eu não iria ficar, como o governo federal (já que habito em São Paulo, digo o mesmo do estadual e do municipal), calado sobre os sessenta anos do golpe de 1964. Uma das ocasiões em que falei em público sobre a triste efeméride foi nesse ciclo do Centro de Pesquisa e Formação do SESC-SP, para o qual fui chamado em razão de meu livro de 2023,  Ilícito absoluto: a família Almeida Teles, o coronel C. A. Brilhante Ustra e a tortura.

Também no livro não me calei sobre a problemática da ditadura, por sinal. Para quem ainda não o leu, aqui está a introdução: https://www.editorapatua.com.br/ilicito-absoluto-a-familia-almeida-teles-o-coronel-c-a-brilhante-ustra-e-a-tortura-ensaios-de-padua-fernandes/p


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Dmitri Hvorostovsky (1962-2017), o cantor do mundo, a voz da Rússia e da Itália

Morreu hoje, dia 22 de novembro de 2017, o barítono russo, siberiano, Dmitri Hovrostovsky (1962-2017), que lutava desde junho de 2015 contra um câncer no cérebro. Sua voz era tão impactante que lembro bem da primeira vez que o ouvi: era um disco da RCA de trechos de ópera que uma tia me havia dado, com árias eu já conhecia, como "Caro nome" (na voz de Anna Moffo), mas uma que eu ignorava completamente: a ária do Príncipe Yeletsky, da ópera A Dama de Espadas, uma das que Tchaikóvski escreveu a partir de Púshkin.
Trata-se de uma das mais bonitas declarações de amor que o compositor russo escreveu, delicada e apaixonada. Para fazer justiça a essa música, é necessário um grande controle do legato e um fôlego sem falha. O barítono tinha tudo isso e um excepcional veludo no timbre que não se desfazia mesmo quando o cantor usava mais força. A última frase do personagem para sua amada (Lisa, que preferiria o tenor...), ele a cantava em um fôlego só, com um belo crescendo.
Era Hvorostovsky, ainda bem jovem, e a faixa vinha da gravação da ópera completa, regida por Seiji Ozawa. O papel lhe serviu de estreia no Metropolitan Opera House em 1995. Antes disso, ele cantou a ária na competição de canto que o tornou conhecido de um dia para o outro, "Singer of the World", em Cardiff, 1989. Por sorte, o vídeo está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=ywb492BL4iM (para vê-lo em 2003, com o timbre mais escuro e o mesmo legato, sugiro esta apresentação, também ao vivo: https://www.youtube.com/watch?v=W8zKkvGB7Rw).
Naquela competição que o revelou, ele enfrentou, entre outros candidatos, o baixo barítono galês Bryn Terfel, que também fez (continua a fazer) uma grande carreira. Li uma entrevista de Terfel, que perdeu o primeiro lugar para Hvorostovsky, em que comentou ter notado que o russo o venceria depois de ouvi-lo em "Ombra mai fu", da ópera Serse, de Händel; era uma escolha estranha para uma competição de canto (esta peça é batida demais, toca até em igrejas, e não é das mais exigentes vocalmente), mas perfeita se o cantor tem um legato como este: https://www.youtube.com/watch?v=PoAhxAlW6QY
Nessas apresentações do jovem barítono, além do timbre lindíssimo e do seguro apoio (que lhe permitia realizar todas as expressivas nuances de crescendo e decrescendo), note-se a abertura para o agudo; ele chegou, durante os estudos de canto, a julgar que era tenor, mas isso não durou muito. Era uma voz bem diferente de Terfel, que foi para papéis mais graves e canta muito do repertório germânico. Hvorostovsky concentrou-se nos papéis de barítono lírico do repertório russo, em que ele nunca teve realmente rival, na ópera italiana do século XIX e na canção russa.
Na primeira categoria, destaca-se Eugen Oneguin, outra ópera que Tchaikóvsky escreveu a partir de Púshkin. O papel título foi escrito para barítono, e ele o cantou desde jovem. Só neste século, apesar da idade do personagem (ele termina a peça com apenas 26 anos), Hvorostovsky disse sentir-se ter chegado à idade ideal para interpretá-lo. Aqui, pode-se vê-lo na ária do fim do primeiro ato, no Metropolitan Opera House, em Nova Iorque, cena em que o personagem desdenha da declaração de amor feita pela jovem Tatiana, interpretada por Renée Fleming, com regência de Valery Gergiev: https://www.youtube.com/watch?v=qa_13xMhjkg
Oneguin mata, em duelo, seu melhor amigo, um poeta, por questões de honra (ele o provoca dançando com a amada do poeta em um baile), viaja para longe, retorna anos depois e descobre Tatiana casada com um nobre bem mais velho. Decide que está apaixonado por ela, marca um encontro. Ela confessa que ainda o ama, mas o rechaça neste dueto final: https://www.youtube.com/watch?v=i8mJsowhByo
Em disco, ele a gravou a ópera completa na regência de Bychkov; antes disso, escolheu os dois solos para seu primeiro disco solo, de 1990, gravado pela extinta Philips, regido por Gergiev. Para seu primeiro solo, escolheu apenas árias de óperas de Tchaikóvsky e Verdi. A gravação apontava os caminhos que o barítono seguiria, e ele aprofundou as interpretações dessas árias, quando a elas retornou. Compare-se a ária da Iolanta com a gravação completa, regida por, mais um vez, Gergiev; ou a da morte de Rodrigo com o que ele fez na gravação de Don Carlo regida por Bernard Haitink, que se destaca, em termos vocais, somente pelo barítono e pelo grande meio soprano Olga Borodina, russa como Hvorostovsky, e uma de suas companheiras de palco e de geração. Com ela, além de óperas completas, gravou "Olga & Dmitri", com repertório italiano (Rossini e Donizetti), francês (Saint-Saëns) e russo (Rimsky-Korsakov).
Em relação à segunda categoria, a ópera italiana, ele se dedicou ao bel canto nos anos 1990: Rossini, Bellini, Donizetti. Nesse momento, alguns o comparavam aos grandes barítonos italianos da "época de ouro" (início do século XX). "Bel Canto Arias" (que também recebeu o título ridículo de "Songs of love and desire"), regido por Ion Marin, testemunha a agilidade vocal e o agudo fácil (a famosíssima ária do Barbeiro de Sevilha), o legato (ária de I Puritani) e o investimento dramático de que o barítono já era capaz (na cena da ópera Lucia di Lammermoor).
Aos poucos ele foi deixando esses papéis do bel canto porque, segundo suas palavras, precisava de "mais ação", e foi direcionando sua carreira para Verdi. Giorgio Germont, personagem de La Traviata, foi um dos papéis que lhe permitiu fazer essa transição; ele o gravou com Zubin Mehta, fazendo este papel de pai para um tenor que tinha quase o dobro de sua idade, o impressionante Alfredo Kraus, e com um soprano também de outra geração, Kiri Te Kanawa (registro a diferença etária porque alguns críticos julgaram-na um problema dessa gravação; não sou da mesma opinião).
Na terceira categoria, ele gravou na primeira fase da carreira, que a Philips registrou, tanto a canção clássica russa quanto a tradicional e a popular. "Olhos negros", evidentemente, no disco homônimo, o "Kalinka", com coro, que é uma maravilha, mas também canções de Rachmaninov, Tchaikóvsky, de Sviridov (que ainda estava vivo, e escreveria para Hvorostovsky e o pianista Mikhail Arkadiev "Petersburgo, um poema vocal"). Ele gravou pela primeira vez "Canções e Danças da Morte", de Mussorgsky, nessa época, porém sua gravação posterior é bem mais interessante.

Na regravação, ele já não estaria na Philips; a gravadora, que usava estratégias para explorar a beleza física dele, especialmente para o mercado dos Estados Unidos, queria que ele gravasse mais crossover, isto é, mais música popular, e não do repertório russo. Neste século, ele foi para a Delos, o que significou uma série de projetos mais pessoais, mas também elencos menos estelares (no entanto, certo vídeo em que ele canta música brega sem camisa é de 2009).
O barítono gravou a ária e outras de Verdi, inclusive os solos de Rigoletto no "Verdi Arias", de 2002, regido por Mario Bernardi. Ele ainda estava vivo quando saiu a gravação da ópera completa, realizada em 2016: https://twitter.com/Hvorostovsky/status/929017529774886912.
No dia 17 último, divulguei uma crítica publicada no Washington Post, que fazia notar que ele tinha cancelado todas suas apresentações públicas e seu prognóstico ainda era incerto. No primeiro semestre deste ano, ele ainda foi capaz de dar concertos (algumas imagens estão no twitter dele); e ainda pôde fazer uma aparição surpresa na apresentação de gala do Metropolitan com "Cortiggiani". O câncer, porém, lhe havia tirado o equilíbrio, e ele não se sentia mais seguro para andar no palco (é possível notar isso quando ele sai do palco no Met); em um dessas últimas apresentações, um dos braços está numa tipoia, pois ele havia caído em casa.
Nessa fase, seu maestro mais constante nos estúdios foi Constantine Orbelian, que o dirigiu em sua última gravação de ópera, que saiu há poucos dias, o Rigoletto, de Verdi. Hvorostovsky gravou esse difícil papel, para o qual esperou anos, em 2016, quando já sabia estar doente.
Dessa ópera, eu o vi cantar a ária "Cortiggiani, vil razza dannata" ao vivo. Ele se apresentou algumas vezes em Buenos Aires, mas acho que a única vez que se cantou no Brasil foi em um recital em 8 de setembro de 1997 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Ele já tinha gravado vários discos e era uma estrela em ascensão. Anunciou-se que faria um programa de canções russas com o pianista Mikhail Arkadiev, com quem já tinha feito algumas gravações.
No entanto, o programa apresentado foi bem diferente: era praticamente todo composto de árias (a maioria, de óperas), como se vê ao lado. Em um longo arco temporal, ele foi do barroco ao verismo, passando pelo classicismo e pelo romantismo. O programa escreve incorretamente o nome de Bellini, de quem ele cantava uma ária de I Puritani. Como faltam outras informações, lembro que as árias de Händel sem indicação de origem vieram da Brockes Passion e de Orlando; o Gounod pertence ao Faust, a de Leoncavallo, a I Pagliacci, e as de Verdi, a Un ballo in maschera e Don Carlo.

O teatro estava praticamente vazio. Comprei ingresso para a galeria, mas o pessoal do Teatro pediu para que o público presente descesse à plateia, onde não havia praticamente ninguém. Assisti a tudo bem perto, talvez na quarta fila, não lembro mais.
A primeira parte do programa, exceto Mozart, e a foto usada provinham do disco que gravou com Neville Marriner e a Academy of St Martin in the Fields, "Arie Antiche". Ele não era um cantor do barroco e ouve-se, em algumas faixas, certa incongruência entre a interpretação do cantor, praticamente romântica, e o acompanhamento sóbrio de Marriner.
No disco como no palco, sua capacidade de sustentar frases longas causava admiração, assim como espantava sua maneira de respirar, que era bem audível. Tenho uma queda pela ária "O del mio dolce ardor"; o original é cantado geralmente por mezzos, mas não desdenho ouvi-la com um barítono como este, e a facilidade da subida ao agudo em "le più liete speranze" impressionou. Na famosa ária do Orfeo de Gluck, a interpretação tão emocional e com vibrato de Hvorostovsky talvez pudesse ser chamada de antiquada, mas era sincera e vocalmente esplêndida.
Das árias de Mozart, lembro da facilidade com que cantou a conclusão do "Vedrò mentr'io sospiro", que pode pegar o cantor no contrapé. Na segunda parte do programa, ele estava completamente em seu elemento; quase pulei para trás com o sol agudo que ele, seguindo certa tradição, emitiu perto do fim do Prólogo da ópera Os Palhaços.
Nunca tinha ouvido uma voz tão impressionante. O final do programa confirmou que aquele canto estava sempre ligado a um propósito dramático, especialmente na ária da morte de Rodrigo em Don Carlo. O marquês leva um tiro, em execução extrajudicial determinada pelo rei e exigida pelo grande inquisidor, durante visita ao príncipe, encarcerado por ordem real. Pouco tempo depois do concerto, ele gravaria a ópera completa sob a regência de Haitink.
Neste século, ele manteve seu repertório principalmente em duas línguas, a italiana e a russa. Gravou canções napolitanas para a Delos, explorou os papéis mais pesados de Verdi e chegou até a Rigoletto, com uma voz que era essencialmente lírica. No campo russo, fez de tudo: ópera, canção clássica e popular, música religiosa (ele já tinha gravado para a Philips o belo "Credo"); em 2004, foi o primeiro cantor lírico a fazer um concerto na Praça Vermelha de Moscou, com músicas russas da II Guerra Mundial, que ele gravou para a Delos ("Wait for me"). Era um herói nacional. Lamento não saber russo e não poder ler as matérias de seu país. Este obituário da CBC News pareceu-me bom, mas a seção do The New York Times inclui vídeos de suas apresentações, tanto em ópera quanto em recital.
Eu o vi uma segunda vez ao vivo, em 2015, pouco tempo antes de ele descobrir ou revelar para o público que estava doente. Era a ópera Un ballo in maschera, de Verdi, no Metropolitan Opera House, com a regência do grande James Levine. Nenhum dos papéis principais era cantado por um italiano, e não se sentia falta disso. O tenor polonês Piotr Beczala estava audivelmente doente e seria substituído na matinê transmitida pelo rádio pelo tenor brasileiro Ricardo Tamura); o elenco incluía as americanas Sondra Radvanosky, Dolora Zajick (desafiando poderosamente os anos, ela é sexagenária) e Heidi Stober.
Hvorostovsky, o russo, estava muito bem, e na ária "Eri tu", ele realizava o contraste entre o início, em que ele está dominado pelo desejo de vingança, e a nostalgia de "dolcezze perdute", até a exclamação "non siede che l'odio/ E la morte nel vedovo cor!". Sua vitoriosa carreira confirmou o predomínio dos cantores eslavos no campo da ópera italiana; ele e Borodina, claro, mas também cantores que vieram depois, como Beczala, Anna Netrebko e Ildar Abdrazakov.
Não é comum cantores encontrarem êxito artístico ao mesmo tempo na ópera e na canção, tendo em vista as diferentes exigências vocais e de temperamento (a canção, em geral, exige muito mais intimismo), mas Hvorostovsky foi um desses exemplos, tanto em razão da técnica respiratória quando da excelente articulação: mesmo que não se conheça o idioma do texto que ele canta, as palavras são perfeitamente distinguíveis, algo não muito comum entre os cantores líricos, e tão necessário para a canção. Neste campo, os discos de Tchaikóvsky (algumas das canções do cd duplo de 2009 "Tchaikovsky Romances" podem ser vistas neste vídeo), Rachamaninov ("Rachmaninov Romances", gravado em 2011, incluiu esta peça) e de canções a partir de poemas de Púshkin, de 2010, gravados com o pianista Ivari Ilja para a Delos são preciosos.
Em 2011, gravou com o excelente Ivari Ilja um disco que recebeu em inglês o título"In this moonlit night" com canções de Tchaikóvsky, Taneyev e o ciclo "Canções e Danças de Morte" de Mussorgsky. Desta vez, não na versão orquestral, mas apenas com o piano, seguindo o original do compositor.
Os poemas foram escritos por Arseny Arkadyevich Golenischchev-Kutuzov. A famosa canção final descreve um campo de batalha: finda a luta, a Morte, o "Marechal de campo" (título da canção) aparece para declarar-se vitoriosa, decretar que os soldados agora estão reconciliados e contar suas tropas, formadas por todos os corpos: pede para que se levantem, mas depois ela irá enterrá-los: "Ano após ano passará/ E até a memória de vocês se extinguirá".
Trata-se de versos que Hvorostovsky cantou com toda eloquência necessária para encarnar o poderoso personagem, mas que nunca se dirigiriam a este cantor, nem mesmo hoje.