O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

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domingo, 20 de abril de 2014

La Plata Spoon River: Poesia para os mortos que o governo tentou calar

Organizada pelo poeta e jurista Julián Axat, a coletânea La Plata Spoon River compõe-se de poemas originalmente escritos para este projeto: representar poeticamente cada um dos mortos na inundação que ocorreu em 2013 na cidade argentina de La Plata.
O título, claro, se inspira no livro do poeta estadunidense Edgar Lee Masters, Spoon River Anthology, de que há uma bela antologia publicada em português pela Relógio d'Água, traduzida pelo poeta português José Miguel Silva. O livro é composto de epitáfios, na própria voz dos mortos, que constroem a vida de uma cidade imaginária nos EUA.
Em 2013, houve uma grande inundação em La Plata. Vários morreram. Um juiz e um defensor judicial (o próprio Axat) decidiram investigar o real número de mortos, curiosamente subestimado pelo governo local...
Contra esse esforço pela verdade e pelas famílias dos mortos, o governo reagiu e tentou até mesmo o impedimento de Axat. Sendo ele quem é, jurista, poeta e editor, e genial nos três campos, decidiu reagir também no plano poético. E criou este livro, para que convidou vários autores, não só da Argentina, com a tarefa de escrever sobre as vítimas do alagamento, que o governo de La Plata, incapaz de prevenir o desastre, tentou silenciar.
Leiam esta entrevista em que Julián Axat explica a origem do livro e sua concepção de poesia política:
La inquietud primero fue meramente judicial y activista. Yo abrí la causa. Interpuse la acción ante la justicia, un habeas data para que se averigüe quienes eran las personas que estaban desaparecidas, fallecidas o en ese momento se desconocía su paradero. Paralelo a la causa judicial, siguiendo mis inquietudes artísticas-literarias, se me ocurrió un proyecto distinto. Yo trabajé casi medio mes con la causa y después el poder político me sacó. Impedido de seguir con la cuestión judicial avancé con la pesquisa literaria. Había pensado en armar un antología como Masters, escribiendo las voces de las víctimas que iba encontrando. En mi propia investigación judicial, al día 5 de abril cuando se dio la nómina, ya había encontrado que existían diez casos que no estaban incluidos. Le hice saber al poder ejecutivo que estaban omitiendo personas. Como respuesta me dicen que dejara de buscar debajo de la alfombra .

Nestes vídeos, podemos ver o lançamento do livro, e a grande multidão que prestigiou o evento: http://coleccionlosdetectivessalvajes.blogspot.com.br/2014/04/cuando-un-libro-de-poemas-es-mas-que-un.html
Na apresentação, Axat explica como a obra foi concebida e realizada, e afirma, sobre a poesia hoje, que "tiendo a creer que gran parte de la poesía que se escribe en este momento ha perdido su potencia disruptiva, por ausencia de una verdadera propuesta o relato interpelativo que la contenga."
A maioria dos autores é argentina, mas há exceções. A vítima que me coube nesse livro foi uma senhora, Dora Romero, que se afogou enquanto seu cão sobreviveu: ele conseguiu subir na mobília e salvar-se, ela não.
Eis o original. Não tentei escrever em primeira pessoa; quis elaborar um texto curto. O poema foi traduzido para o espanhol para a coletânea pelo poeta argentino Anibal Cristobo, que já havia traduzido para essa língua meu livro Cálcio.

Dora Romero

Um cão, uma mulher
e as águas. Só um deles
gritaria as marés,
terra calada. Cão,
mulher e águas. Um deles
seria o mais profundo
fugindo à superfície
da vida autorizada.
Águas e cão, mulher
sob os móveis a ver
toda a casa um rio
que o negro mordia.
Ouvir quem mergulhou
e fala do naufrágio
onde o poder navega.
Ouvir quem naufragou
quando a cidade e as ondas
latiram confundidas.
Ouvir quem se calou
submerso e na justiça
conheceu o deserto.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Antologia de viagem: Argentina III

Em 2012, estive na Argentina, o que é sempre uma oportunidade para atualizar-se com sua literatura. A viagem me inspirou duas pequeníssimas séries de poemas traduzidos:

Argentina I: http://opalcoeomundo.blogspot.com.ar/2012/07/antologia-de-viagem-argentina.html
Argentina II: http://opalcoeomundo.blogspot.com.ar/2012/07/antologia-de-viagem-argentina-ii.html

Tento agora mais uma, apesar de meus modestos talentos para a tradução, uma vez que o meio editorial brasileiro não tem sido muito generoso com a poesia argentina contemporânea - já não o é com a brasileira!
Começo, naturalmente, com Julián Axat, pois uma das razões da viagem foi o lançamento do seu mais novo livro (http://opalcoeomundo.blogspot.com.ar/2013/05/edicao-argentina-de-calcio-e-lancamento.html).
As histórias de musulmán o biopoética dizem respeito a menores vítimas de violência; escolhi, porém, um poema que, apesar de aparentemente não tratar do assunto (a referência explícita é a Paul Celan), dele nasce, o que é revelado na segunda parte do livro, "Passagens em espelho", em que, benjaminiamente, Axat expõe sua fábrica poética, trazendo, "torcidos", recortados, os materiais textuais de que compôs os poemas da primeira parte, "Mal sobre ruínas do bem".
Incluí os poucos livros que consegui ler na rápida viagem. O eu lírico que deambula no livro de Emiliano Cruz Luna; a poesia explicitamente spinoziana de Liliana Lukin em La Ética demostrada según el orden poético; a poesia de viagem de Carlos Aprea; e um longo e audaz poema em que se cruzam sexo e história, Nova Iorque e genocídio armênio, o impressionante Káukasos de Ana Arzoumanian; deste, traduzi apenas um fragmento.



Julián Axat (La Plata, 1976), musulmán o biopoética (La Plata, Libros de la talita dorada, 2013).

Mal sobre ruínas do bem
31. A poesia é / a boca


Ninguém /
testemunha /
pela Testemunha / ou

Ninguém
é poeta Testemunha

Ninguém testemunha?

Ninguém
testemunha
pela Testemunha

O poeta não?
O poeta Ninguém?
Paul Celan Ninguém?

A Testemunha é Ninguém
mas / é Testemunha

O poeta testemunha / logo
é Ninguém


Passagens em espelho (Bitácora)
31. a poesia é / a boca

... Você não sabe / você quer me defender / mas você não vive onde vivo / você come bem / se veste bem / você não é perseguido pela polícia o tempo inteiro / seus irmãos não são assassinados / você quer me defender / mas primeiro teria que saber as coisas que vivo / o que é viver da forma como meus filhos vivem numa fossa / e estão / expostos à morte / no dia-a-dia...

(Palavras pronunciadas por Romina, mãe do menor A.D, dirigidas a uma Assessora de Menores de La Plata, durante uma audiência judicial realizada em 8/10/2012)

... E sabe por quê? / Porque não têm outra saída / se o menor não faz nada / o agarram do mesmo jeito / e se está metido em algo / também... / então, é melhor estar, não?...

(Palavras pronunciadas por uma mãe tentando justificar seu filho durante uma audiência judicial. Registro em campo próprio. Realizada em 14/5/2010)




Emiliano Cruz Luna (San Justo, 1976), Desocupez (Buenos Aires: Ediciones del Dock, 2010).

Lenda do abismo nas colinas Mossman


Logo aconteceu, distanciando-se o navio não se distinguia;
mas ele ali sustentou seu obscuro humor humano.

A disgressão do rumo não é possível em um mundo sem pegadas,
a pátria não me espera, já ninguém tem
minhas lembranças, meu nome
pesa menos do que o ar sobre o céu.

Devo andar em outubro ou em sua luz falsa
a baía tende a fraturar-se
a comida já não faz falta
tenho frio
o vento é parte de meus ossos
trazendo-me a melodia da última palpitação
do voo último do pássaro do Adormecido.

Pássaro e voo nas mãos detenho, ergo uma pena
branca de uma de suas asas até minha boca e daí
a pena cai para meu peito esquerdo, muda de cor;
tornando-se pele cola-se em minhas costelas que já são parte do solo.




Liliana Lukin (Buenos Aires, 1951), La Ética demostrada según el orden poético (Buenos Aires: Ediciones La Cebra, 2011).


XXI


Às vezes sonho como estratégia
contra a devastação.

Neste senho vou veloz
como se cavalgasse
fugindo de outra mordida.
Tudo em redor se trata
de morder sobre o aberto
e tornar mais profundo
o dano para ver sua tristeza.

No meu cavalgar difícil
é a ação de fugir e
difícil a ação de ser mordido,
enquanto trato de erguer no ar
crianças, que no sonho ainda estão
inteiras e difícil a ação de crianças
que vão subindo na minha garupa:

centenas de crianças escamoteadas
às mandíbulas que povoam o mundo.

Ao despertar, tocarei a cama,
não como se buscasse o amado,
senão como quem volta
de um sonho de grandeza
e é surpreendido pela luz,
sabendo que, outra vez,
perdeu uma batalha.




Carlos Aprea (La Plata), Pueblos fugaces (City Bell: Libros de la talita dorada, 2012).


Guandacol


Na rota a Jachal,
perseguindo a derradeira luz do dia,
somos um navio em plena cordilheira,
cento e vinte colisões contínuas
mareiam como um mar.
Transtornados, famintos,
avistamos a respiração de uma baleia,
gaivotas negras como condores,
outros navios de carga nos perseguem
e um sal amargo
nos resseca a boca.
Alguém nos grita pelo caminho
que não bebamos a água do próximo rio,
que está morta,
que a mataram os da mina.




Ana Arzoumanian (Buenos Aires, 1962), Káukasos (Buenos Aires: Activo puente, 2011).


..................
Eu uma negra que está
aqui
agora,
porque não esteve
na Anatólia
nesse momento.
Aqui como um barco
que te busca na orla
dos portos
do mar
que não se enche,
para que me vejas
enquanto afundo.
A corda
com que enforcaram
as meninas
nas plantações.
Eu, uma negra
consumida
por chicotadas.
Todas as manhãs
do mundo
eu
um povo vencido
assisto
ao nascimento
de uma nação.
Woodrow Wilson e sua dislexia
escrevendo
a história do povo americano.
A dislexia de Wilson
invadindo o México,
com sua incapacidade
para ler
ou escrever
outorga a autonomia
aos povos do império otomano.
Deformações.
Eu estou aqui
porque não estive
ali
nesse momento.
Uma negra
que não dorme nunca
toda inteira.
......................




terça-feira, 28 de maio de 2013

Edição argentina de Cálcio e lançamento de Musulmán o biopoética, de Julián Axat



Lançarei na Argentina, nesta quarta-feira, 29 de maio, às 18:30h, no Salón Auditorio Islas Malvinas (La Plata, calle 19 esq. 50) a tradução para o espanhol de Cálcio, livro de poesia que saiu originalmente pela editora Averno, de Lisboa, a convite de Manuel de Freitas. Agora, ele integra a coleção Los detectives salvajes (da editora Libros de la talita dorada), que congrega obras de autores que foram vítimas do terror de Estado, bem como escritores que abordem temas afins: http://librosdelatalitadorada.blogspot.com.br/2013/04/padua-fernandes-calcio.html
O poeta Aníbal Cristobo, argentino que viveu algum tempo no Brasil, tem bastante experiência com a poesia em português (por sinal, estreou em livro no Brasil, com Teste da Iguana) e hoje está na Espanha, fez a tradução. A capa continua a aproveitar a arte de Cláudio Mubarac.
Os poemas do livro tratam de tais assuntos: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/11/novo-livro-calcio.html. Recentemente, Leonardo D'Ávila escreveu resenha sobre a edição portuguesa para o Sopro: http://culturaebarbarie.org/sopro/resenhas/calcio.html#.UaQ2MpwQNOY
Julián Axat, o editor da coleção, lançará na mesma ocasião o seu próprio Musulmán o biopoética. O título já revela o Agamben que está presente nesta poesia, dedicada aos menores pobres na Argentina, cuja situação, Axat o sabe desde sua experiência como defensor judicial em La Plata, não pode ser descrita apenas como "em conflito com a lei" (como usualmente se diz no direito). E, em analogia aos escrachos, escreveu: "Se não há justiça/ há poesia": http://librosdelatalitadorada.blogspot.com.br/2013/04/julian-axat-musulman-o-biopoetica.html
Creio que os dois livros têm em comum não questões formais (as soluções que encontramos, cada um em sua língua, são diferentes), e sim temas de biopolítica. É uma honra para mim aparecer com Axat, um dos melhores poetas de sua geração em língua espanhola nos dois lados do Atlântico.



Clicando sobre as imagens, as contracapas poderão ser lidas; Axat escreveu a de meu livro; Guido L. Croxatto, a de Musulmán.
Participará do lançamento o jornalista Horacio Cecchi, do Página 12.


quinta-feira, 28 de março de 2013

Hamlet Molotov, ou Julián Axat, poesia e história

Esta tradução foi escrita para a VII Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR, cuja chamada pode ser lida no blogue da jornalista Niara de Oliveira: http://pimentacomlimao.wordpress.com/2013/03/24/vii-blogagem-coletiva-desarquivandobr/ Dela já estão a participar a jurista Maria Carolina Bissoto (http://entrepasadoyelfuturo.blogspot.com.br/2013/03/45-anos-da-morte-do-estudante-edson.html) e  a jornalista Suzana Dornelles (http://desarquivandobr.wordpress.com/2013/03/24/nao-passara/).
Gosto muito da poesia argentina e da forma como autores contemporâneos tratam as questões da história e da política.
Um dos principais nomes da poesia argentina de hoje é Julián Axat, que é um dos poetas que tenho estudado mais regularmente. Depois de lê-lo, traduzi-lo e resenhá-lo, acabamos nos tornando amigos. Em seu livro de 2012, Neo (Buenos Aires: El Suri Porfiado), ele avança ainda mais no diálogo entre poesia e história.
O amplo espectro do peronismo cobre da direita à esquerda. A parte IX alude à volta de Perón em 1973 e ao episódio do massacre de Ezeiza; no palco onde discursaria o ex-exilado estavam homens armados de Osinde, da direita do peronismo, que atiraram nos grupos de esquerda, em um conhecido e não apurado episódio de massacre da história argentina. Antonio Cafiero, social-democrata, perdeu a disputa pelo controle do peronismo para Menem (ver este artigo da professora Marcela Ferrari: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-33522012000200005&script=sci_arttext&tlng=pt).
Há outras alusões. Kafka, o caudilho Facundo Quiroga, Ginsberg, Shakespeare, o genocida Videla, o Pai - encarnando a figura do desaparecido pelo terror de Estado - e outros nomes circulam neste caleidoscópio, cujo centro é a ditadura militar argentina.
Vejam como o crânio que Hamlet, o vingador de seu pai, segura, torna-se em um coquetel molotov na parte VI. Não conheço nada de equivalente a essa combinação de militância e memória na poesia brasileira, a essa imaginação literária da justiça.





Antologia 2020

a Juan Diuzeide


1

Montar uma bicicleta coxal / sair a passeio / levar
as medulas pelo DNA
extraído da irmã que busca poeta / não Tinajero
/ Evas / muitas Evas /
apropriadas / re-tratadas ou próximas a sê-lo
guidão em suas vértebras do dizer


2

Armar uma biblioteca sobre o golpe de 76 / fazê-la
arder ao agregar
a versão “40 anos depois, as causas do golpe
foram...”


3

Procurar o filho idiota de Videla / convidá-lo a
participar de Hijos com coletes.


4

Pre mortem: encontrar radiografia de fêmur 1973: chumbo de 22 intacto no fêmur esquerdo / Ezeiza / disparada enquanto / do palco Osinde lê Uivo de Ginsberg / alguém (ainda não sabemos) / lhe faz manicure.


5

Posmo-rtem: Caminhante de sombras / resto abatido entre tiras e ladrões exige devolução de seu olho azul / para buraco teia aranha em calota perfurada / “O tempo dos ossos é o tempo do vazio ou das pistas” (Franz Kafka. Diários).


6

Depois de vinte anos encontram o crânio de seu pai / só o crânio / por fim era seu / o apoiou sobre a mesa de luz para quando se desvelasse / diante do espelho falou o monólogo do Príncipe da Dinamarca / usou-o como cinzeiro / envolve-o em papel de jornal da época e até lhe desenhou um sorriso / em 2001 encheu-o de benzina e pano úmido lançou-o molotov em um tira / nele escreveu versos de Maiakóvski na frente onde mais tarde escondeu uma tiara com gravata nomenclatura / hoje limpo de novo na mesa de luz


7

Sonho com o ataúde do ex-presidente / Regresso à praça nessa tarde de outubro / volto à mesma fila / na sala, se abre o caixão / saem vários John Malkovich interpelando-me / queres ser a mim ou a nós? /A resposta vem da fila no fundo, onde outros Malkovich gritam: Acabou-se Hamlet, agora Hécuba!  


8

É necessário submergir nas profundidades e salvar o pai para converter-se em um menino real?


9

Antologia peronista 2020 / sonho que o General me encarrega de fazer a lista que vai trazê-lo de volta da Espanha / passo a colocar companheiros nas filas dos assentos do avião / poetas de uma futura antologia neo-urondiana / então o General exige paridade e não esqueça os neo-cafieristas / que esses têm que estar de qualquer jeito na comitiva de regresso / desperto quando recordo que meu pai estará esperando a chegada do avião / vão atirar nele do Palco / e ali está Osinde vociferando Howl / e um neocafierista que faz as mãos com uma lixa / enquanto / pensa em um poema para minha antologia 2020.    


10

Armar o arquivo das organizações revolucionárias / o museu mais completo da guerrilha armada / de todas as guilhotinas em que a palavra fraternidade tenha sido cortada / como margarita ou porco / arremessada sua cabeça de coágulo com pétalas de sujeira & sangue / um Facundo bárbaro e civilizado / operação saciedade ou a impossibilidade de sua leitura / para novas gerações adivinhas-tesouras / as que visitem o museu.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Antologia de viagem: Argentina II


Esta nota é uma continuação da anterior. Como antes, escolhi apenas um poema de cada livro, e não se trata de uma seleção dos melhores da poesia argentina de hoje (o que seria pretensioso), mas apenas dos autores que li nesta viagem, que logo acabará.
Jorge Boccanera e Mariel Manrique voltam a aparecer, pois comprei duas obras de cada um.



Jorge Boccanera (Bahía Blanca, 1952), de Sordomuda (3a. ed., Buenos Aires: Ediciones del Dock, 1998).

Galeria de coisas inúteis


Tudo o que não é útero
é intempérie.
(escutado de um vizinho de Bahía Blanca)

Como nasce o poema?
Pense em uma palmeira crescendo dentro de um anão.
(escutando um espectador)
Não é o cachorro que primeiro sente o cheiro de medo no homem.
É a mulher.
(escutado de um paroquiano do bar Paraíso)
Construímos um refúgio antiaéreo
e a bomba estava dentro do nosso.
(escutado de um rock and roll)




Mariel Manrique (Buenos Aires, 1968), de Descartes en Holanda (Buenos Aires: Paradiso, 2010).


A tumba inquieta


II

Meu crânio foi separado de meu corpo.
Bendita dualidade.
Roubou-se, extraviou-se, leiloou-se.
Vendeu-se, comprou-se e revendeu-se
durante séculos.
Como um automóvel,
como um conjunto de móveis,
como uma ação na bolsa.
Manuseado.
Submetido aos gênios do comércio,
às sucessivas assinaturas carimbadas
pela avareza de seus proprietários.
"É meu, meu, meu",
terão dito, urinando
e contabilizando mentalmente
a extensão de seus fluxos
monetários.
Até que o demônio conserve sua cabeça.
É a única coisa que não lhe podem tirar.




Nicolás Prividera (Buenos Aires, 1970), de restos de restos (City Bell: De La Talita Dorada, 2012).

A poesia segundo Auschwitz

Se foi possível a poesia
antes de Auschwitz

Por que não Auschwitz
depois da poesia?

Se foi possível a poesia
em Auschwitz

Por que não Auschwitz
depois da poesia?

Se foi possível a poesia
depois de Auschwitz
Por que não Auschwitz
depois da poesia?


Rosa María Pargas (Gualeguaychú, 1949, desaparecida em 1977), de Hubiera querido (City Bell: De la Talita Dorada, 2011)


Já não te confundes
ao dizer os verbos.
Já não mais tuas mãos,
já não mais teus beijos.
Foi como uma prova
que não logrou,
terminou o ensaio.
Já não mais açúcar
para o teu cavalo.


Santiago Sylvester (Salta, 1942), de La palabra y (Buenos Aires: Ediciones del Dock, 2010)

0000000000000000000000000000000000(a precisão)

Segundo o teólogo James Ussher (de quem
não sei mais nada)
o mundo foi criado no domingo 23 de outubro do ano 4004 a.C.
à noite.
0000000Esta precisão
assegura o fato principal: o restante foi desordem até hoje, inclusive Darwin.
Entretanto, a partir desse teólogo (em crise, como
todo teólogo) é possível acrescentar outro dado: na quinta-feira passada,
00024 de julho do ano 2008 da era cristã,
o mundo terminou surpreendentemente às quatro horas da tarde: uma hora
000bela
para dar algo como terminado.
Desde então vivemos em expectativa
sem saber que estamos em um mundo ausente de que, apesar de seus méritos,
ninguém voltou a sentir falta.



sexta-feira, 20 de julho de 2012

Antologia de viagem: Argentina

Em viagens, há os livros que levamos e também aqueles que descobrimos. E os livros também podem nos abrir caminhos.
Como estou em Buenos Aires desde segunda-feira, pude encontrar autores cujos livros não estão disponíveis no Brasil. Aqui, nestes esboços de tradução, uma brevíssima  amostra.


Jorge Boccanera (Bahía Blanca, 1952), do livro Palma Real (Buenos Aires: Ediciones Continente, 2009).


XXX

A prova de que deus existe
é a selva
feita a mão.

A prova de que a mão existe
é a selva.

A prova de que a selva existe
é a ausência de deus.



Emiliano Bustos (Buenos Aires, 1972), do livro gotas de crítica común (City Bell: De la Talita Dorada, 2011).



Montoneros

Quanta distância: do exército Libertador
à igreja. Do exército Libertador
ao exército Libertador. À igreja. Tinha que
ver a pátria de forma flutuante, sobre
os cadáveres e toda a semeadura marcante
de 55. Todos os pais, que odiavam Perón,
fizeram-nos mais peronistas do que qualquer dado
fático. Os anos de restrição e silêncio foram
os anos de mistério infinito, de doutrina. Como
um grande ator submergido nas poderosíssimas
águas da distância, os líder lhes foi desenhando
uma autoestrada moral verdadeiramente de gelo:
a juventude maravilhosa. Talvez grandes colégios
e universidades e famílias quebrassem seus cofrinhos
derramando o melhor, mas é impossível que tantas
ovelhas negras saíssem de um só rebanho. Há ovelhas
negras em toda parte, porém baixam das colinas
com diferentes estilos e dialetos. O exército
Libertador esperou-as abaixo e subiram juntos;
em todas as revoluções em todas as épocas.
Mas talvez isso fosse simplesmente uma rebelião
de pais contra filhos. Isso e muito mais. Porque
o movimento tinha desenhado tantos círculos que
em pistas diversas dançavam as classes como planetas
beneficamente instalados na consciência agrária
das coisas justas. A juventude maravilhosa.
Entre o 55 e o 70 o molde do peronismo
futuro, presente passado. Que peronismo?
Em qual dos peronismos foram
amadurecendo esses quadros? Por ordem de ninguém
embora tacitamente combinados se reuniram ao grande
exército Libertador, e acreditaram, secretamente, na
igreja, nos militares e em seu líder, furiosamente
obsequiado. A juventude maravilhosa. Morreram
pobres todos os que morreram, os que caíram
caíram, mas intrigam ainda as traições
de dentro e de fora formando uma coluna
que ainda não foi expulsa da Praça.



Alejandro Crotto (Buenos Aires, 1978), do livro Abejas (1a. reimpr., Buenos Aires: Bajo la Luna, 2012).


Carregada


Inteiramente grávida avança na primeira luz do dia.

De repente para
e tensa agarra-se com as mãos, olha o céu,
bufa várias vezes.

Forte, carregada,
retoma decidida seu caminho
e no qual passa sua iminente queda.



Mariel Manrique (Buenos Aires, 1968), do livro Cómo nadar estilo mariposa (Buenos Aires: Paradiso, 2011)


O salto

XL

"... segundo o perito médico forense que intervém na causa, os trabalhos de identificação avançam lentamente, dado o tempo de transcorrido entre a data provável do óbito (devido à asfixia por imersão) e a descoberta do corpo entre as pedras da costa, assim como o ataque do corpo pelas distintas espécies de peixes que costumam estar na mencionada zona marítima ... fontes confiáveis indicam que corresponderia a uma mulher de meia-idade e estatura mediana ... encontraram-se restos de uma calça jeans e uma camisa brança aderidos à estrutura óssea ... assim como grossas mechas de cabelo escuro ... e um anel de prata com as iniciais apagadas ..."

nado nua.
tenho a cabeça raspada e uma comprida cauda animal.
não sou essa mulher de que falam.   


Gabriel Reches (Buenos Aires, 1968), do livro es el fin del mundo, tía Berta (Buenos Aires: Bajo la Luna, 2012).



Chegamos até aqui e foi demais

devemos agradecer pela emoção
de molhar a palha do ninho

não chores, tia Berta
no incêndio do campo o fogo é nosso

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Imagens da Devastação em "Literatura e Autoritarismo"

Na revista Literatura e Autoritarismo, acabei de publicar o artigo "Biopoder e biopoética na poesia de Julián Axat: 'yluminarya' e o genocídio na Argentina". Eu havia anunciado nesta nota o trabalho, que está disponível nesta ligação. Nada tenho a acrescentar ao que escrevi naquele momento, exceto a bela notícia de que Julián Axat terminou um livro novo de poesia. Alguns dos poemas novos podem ser lidos no blogue de poesia do autor.
A revista lançou o dossiê Imagens da Devastação, organizado pelos professores Eduardo Sterzi, Ana Maria Domingues de Oliveira e Marcus Brasileiro. O tema que escolhi foi o do genocídio na Argentina. Como há diversas devastações, os outros autores escolheram assuntos bem diversos, como as imagens de guerra no espaço urbano, tema do texto de Fabio Weintraub, que analisa a poesia de Ronald Polito.
Na apresentação, lemos que "Razões não faltam para que o nosso tempo seja visto como um tempo de devastação"; uma delas, lembram os organizadores, é a destruição da Amazônia, que se converte em soja, pasto e na obscuridade programada das usinas hidrelétricas.

Eis o sumário do Dossiê, que conta com uma tradução feita por Idelber Avelar, além dos artigos abaixo indicados:

SUMÁRIO

ENTRE VIVOS E MORTOS: IMAGEM E MEMÓRIA
Kelvin Falcão Klein

FRAGMENTOS DE LUZ, MEMÓRIAS DA DESTRUIÇÃO
Gustavo Silveira Ribeiro

A POÉTICA DA DEVASTAÇÃO DE YAN LIANKE
Carlos Eduardo Bione

BIOPODER E BIOPOÉTICA NA POESIA DE JULIÁN AXAT: YLUMINARYA E O GENOCÍDIO NA ARGENTINA
Pádua Fernandes

INVENTARIANDO DECEPÇÕES: A DEVASTAÇÃO DA GUERRA EM TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA
Tatiana Sena

A MANAUS DEVASTADA EM DOIS IRMÃOS DE MILTON HATOUM
Katrym Aline Bordinhão dos Santos

MEU PRIMEIRO BUNKER: IMAGINÁRIO BÉLICO EM TERMINAL, DE RONALD POLITO
Fabio Weintraub

O FURACÃO KATRINA: NOVA ORLEANS PERDIDA NA ENCHENTE
Greil Marcus
Werner Sollors
(Tradução de Idelber Avelar)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Desarquivando o Brasil XXXIII: A poesia de Julián Axat e o genocídio na Argentina

Eduardo Sterzi me pediu, e escrevi o artigo "Biopoder e biopoética na poesia de Julián Axat: yluminarya e o genocídio na Argentina" para a revista Literatura e autoritarismo, da Universidade Federal de Santa Maria. Ao lado, vê-se o poeta argentino antes de conferência que deu em São Paulo.
Não vou publicar o trabalho neste blogue, pois estará em breve plenamente acessível no endereço eletrônico da revista (adendo: já está: http://w3.ufsm.br/literaturaeautoritarismo/revista/dossie08/sumario.php). Eis o resumo:

O artigo trata da poesia de Julián Axat e das suas imagens do genocídio que ocorreu durante a ditadura militar argentina na poesia de Julián Axat. Este poeta, profundamente influenciado por Roberto Bolaño, cria uma “biopoética” para se opor ao biopoder do terror apoiado pelo Estado. Destaca-se o livro “Ylumynarya”, que expande os limites políticos da representação poética do terror, comparando-o com a escultura de Alberto Heredia, que também empregou o silêncio dos vestígios do corpo para denunciar a violência na Argentina.


E parte da introdução:

Quais são os limites políticos da representação em arte? A indagação, se tem como objeto os limites dados por um órgão censor, dependerá em parte das normas jurídicas, em parte do arbítrio das autoridades que exercem a função de polícia do pensamento. Se o objeto são os limites dados pela própria forma artística, a resposta dependerá do tipo de arte que se pretende fazer.
Na arte de entretenimento, esses limites podem ser bem estreitos. Alguns autores consideraram, por exemplo, “ensurdecedor” o silêncio da chamada cultura popular nos Estados Unidos diante dos ataques de 11 de setembro de 2011. Esse tabu pode ser notado em outros regimes de circulação de imagens, como o da propaganda eleitoral. Mesmo na campanha política espetacularizada de Bush, em 2004, as imagens das torres do World Trade Center foram retiradas depois de apenas algumas horas (Retort, 2008, p. 141).
Aquelas imagens são da devastação e, por isso, desafiam, com o caráter extremo de seu objeto, a representação. A cultura de entretenimento, que geralmente acolhe mal a negatividade (seria em vão esperar que Beckett seriamente inspire, por exemplo, um blockbuster hollywoodiano), pode dificilmente abordar certos temas sem afastar o seu público.[...]
Neste breve artigo, entre várias representações possíveis, tratar-se-á apenas da poesia de Julián Axat, poeta e editor argentino que nasceu em 1976, ano do último golpe militar em seu país. A ditadura que durou até 1983 e provocou a morte e o desaparecimento de dezenas de milhares, incluindo os pais de Axat.


O melhor do texto, evidentemente, é a poesia de Axat. A segunda parte do livro ylumynarya é um longo poema, com inspiração em Bolaño, sobre os mortos da última ditadura na Argentina.
A atividade do autor como poeta e editor pode ser acompanhada no blogue Los detectives salvajes; como jurista especialmente preocupado com os direitos dos menores (trata-se de sua área de atuação como Defensor judicial em La Plata), pode-se ler el niño rizoma.
Como o tema da violência dos regimes autoritários não é tão abordado assim na poesia brasileira dos autores mais jovens (uma exceção recente é de Ricardo Domeneck, outra é do próprio Eduardo Sterzi), deixo estes poucos trechos do poema dentro da série Desarquivando o Brasil.


Gui Rosey

"Gui Rosey nasceu em Paris em 27 de agosto de 1896. Colaborou com os Surrealistas desde 1932. Foi visto pela última vez em Marsella em 1941, entre os surrealistas refugiados que esperavam deixar a França. Desde então não se teve mais notícias dele."




Penso em Gui Rosey
e evoco os nossos que também foram tragados pela terra
ou a terra que sobre eles jogaram/
sem saber se estavam mortos
aos contratados para achar seu túmulo
penso em Bolaño que também buscou Gui Rosey
e nós o imitamos para buscar os túmulos dos nossos
Marselha sempre a mesma
imigra ou emigra a formiga argonauta que leve seu nome
o dado preciso para dar com cadáver/corpo velocino
cometa capturado para sempre/nas goelas de uma ostra
traficantes de diamantes acendem flores
Rimbaud também desaparece em Marselha/com a garganta seca/apodrecida
a muralha de seu rosto/o poeta surrealista de 1941
o poeta de 2008 que o busca
porta assimétrica abrindo dimensões opostas
quantos vieram atrás do mistério
quantos se perderam/e nada...
somente um nome nos anais da poesia
nem uma pista na cidade que o leve
ao lugar da demolição/ da perda


[...]

O que faz um Filho?
filma seu rostro ou o pinta
bate uma foto e a coloca junto com a de seus pais
fica com a insignificância de um poema

formas de regressar ao instante
que reluz de perigo

eu conheço
um filho que/
encontrou um poema
de seu pai e
o fumou em
uma noite
de angústia

[...]


(o dia dos mortos ou a sociedade dos poetas
desaparecidos)

a noite de cada... no ano
os mortos (são mortos?) conspiram em ossários
rangem ossos ao armar-se e desarmar-se
a noite de cada... no ano
formas breves
no instante em que dura a junção
fartos da mão
monstro vertebrado de puro cálcio
avança sem arregimentar
caveiras com olho vazio na frente
canto ou lamento fuzilado do ultratúmulo
julgam-se
celebram-se
lembram-se
e entregam-se à muralha da noite
que nunca os esquece
que sempre os faz aparecer
em emissários disfarçados
filamentos que viajam para mim de manhã
para serem poema

...
onde está minha cotidiana herança de luz?



Quem há de serenar então minhas cem estátuas
que da luz se desprendem e enlouquecem?

[...]



Acho que é um dos grandes momentos da poesia latino-americana. Espero lançar em breve uma antologia em português da poesia de Julián Axat.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Memória e poesia: Los detectives salvajes e Rosa de María Pargas

A coleção Los detectives salvajes, coordenada por Julián Axat, acaba de lançar mais um título. Dentro de sua missão de recuperar a literatura das vítimas do terror de Estado na Argentina, ou de publicar autores contemporâneos vinculados a essa temática, resgata-se Rosa María Pargas, que foi sequestrada em 1977 e jamais reapareceu. O lançamento será em 15 de julho, em Buenos Aires.
A coleção tem seu nome inspirado, obviamente, em Bolaño. Mas não quero lembrar do livro de que o título foi retirado, e sim de 2666. Na página 262 da tradução brasileira (feita por Eduardo Brandão), lemos uma observação sobre o caráter social da memória. Comparam-se os milhares de mortos da Comuna de Paris com o caso de um amolador de facas que assassinou suas próprias esposa e mãe. A segunda notícia foi transmitida por vários jornais da Europa e também em Nova Iorque. Os mortos da Comuna não despertaram nem de longe essa compaixão porque "não pertenciam à sociedade", assim como os negros transportados no tráfico de escravos. Sua dor não saiu nos periódicos.
Poderia a literatura transformar esse quadro? Bolaño tentou fazê-lo, certamente. Lembro que, a partir da Comuna, Rimbaud escreveu um poema profético sobre aquela sociedade que se julgava civilizada ao dizimar seus trabalhadores. A poesia tem esse poder de desfazer consensos.
Creio que a coleção de Axat quer, de certa forma, realizar uma redefinição da sociedade argentina por meio do resgate das vozes suprimidas.
Vejam-no falar recentemente sobre a coleção e sobre poesia em dois vídeos no YouTube.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Poesia argentina, resenhas do Hamlet, princípios e rupturas


Eu escrevi neste blogue uma nota de leitura sobre a antologia Si Hamlet duda le daremos morte: Antología de poesía selvaje (City Bell: De la talita dorada, 2010). Ela inclui poetas argentinos que nasceram dos anos 1960 em diante.
Hoje enviaram-me uma resenha publicada na Argentina, que, como as outras que li, não dá a ver. César Vallejo nela é citado, mas não os poemas da antologia, como se não fosse isso que interessasse.
Esse procedimento é estranho, mas não incomum. Para muitos jornalistas, de fato, certamente os poemas não são o que lhes interessa, e sim a lista dos mais vendidos, a propaganda febril e incessante dos suportes eletrônicos de leitura, os hábitos sexuais de poetas, suicídios de escritores, disputas na academia de letras etc. A literatura passa ao largo desse noticiário.
As outras resenhas que li também ignoraram os poemas e se concentraram na apresentação e no prefácio, isto é, apenas nas declarações de princípios e rupturas (no caso, principalmente a briga com o neoobjetivismo). Elas pouco importarão, no entanto, se a poesia não for boa.
Eu acho que a poesia é boa, por isso escrevi esta resenha para o Amálgama, tentando dar a ver como esses novos autores estão a escrever.
Dar a ver, donner à voir: expressão que João Cabral de Melo Neto tomou de título de livro de Éluard (sobre pintura) para expressar o que pretendia com sua poesia.
Acho que o "dar a ver" também deveria ser uma função da crítica. Sei que não consegui fazê-lo bem, pois não pude analisar detidamente cada poeta, ou alguns deles. Apenas tratei o livro como o recorte de uma geração e tentei mostrar o que significa esse recorte, e verificar nele a marca de Bolaño, poeta e prosador que marcou também os argentinos, como neste poema de Lorena Fernández Soto, que não citei na resenha, mas o faço agora, fechando esta nota, por me parecer um bom retrato desse grupo de poetas:

por donde pasábamos
con los pájaros americanos
explotando en plazas urbanas
como esos recortes que decía Bolaño
de miles de muchos dedos flotando en el aire (p. 109)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O assassinato de Hamlet e a poesia contemporânea argentina


Em julho deste ano, comprei a antologia 200 Años de Poesía Argentina, que ainda não acabei de ler. Em outubro, recebi outra, muito diversa em seu escopo, Si Hamlet duda le daremos morte: Antología de poesía selvaje (City Bell: De la talita dorada, 2010). Esta se volta apenas para o contemporâneos que nasceram a partir do fim dos anos 1960, geração que não está presente no outro livro.
Essa geração merece uma antologia? Não tenho dúvida que sim, ao lê-la. As antologias de jovens muitas vezes cumprem a função de manifesto, de intervenção, como foi, no Brasil, a 26 poetas hoje (mas não sua repetição dos anos 90, pela mesma antologista, que teve o gosto de farsa, apesar do mérito de alguns dos nomes escolhidos).
A introdução/panfleto dos organizadores, Julián Axat e Juan Aiub (que não foram oficialmente incluídos na antologia), insiste na “Potencia descanonizada del decir.” e na morte do pai subjugador político-poético-canônico-editorial. Porém, se Hamlet não deve duvidar, é para poder vingar o seu pai. Para esses autores que eram crianças na última ditadura militar argentina, trata-se de vingar a morte do pai pela repressão, o que leva tantos à poesia política. No prefácio, Emiliano Bustos (filho do poeta Miguel Ángel Bustos, um desaparecido pela ditadura), ele mesmo incluído entre os poetas do livro, bem escreve que “Para muchos de estos poetas la política, por ejemplo, ya no es un paisaje.”
Provavelmente a política nunca foi paisagem para muitos deles. Julio Greco, por exemplo, publica neste livro um panfletário “guerra”, mas também este, intitulado simplesmente “historia”: “el amasijo la duda la policía la carne la pasta el auto la democracia la guerra hacen de éste un hombre muerto y el pozo que habita es oscuro profundo el pozo suave que lo alimenta día a día com su piel húmeda de barro [...]” (p. 95). O poeta e pintor Leandro D. Barret escreve uma “Gelmaniana”: “no sabés/ cómo vende/ el permitido prohibido prohibir” (p. 102); Ramón D. Tarruella: “Un día hubo un ESTADO,/ un Estado tan grande,/ que ese mismo Estado/ financió las obras completas de Nietszche.” [sic] (p. 150); em Rodrigo Zubiría lê-se:“Caminando río abajo, recorre mi flauta fantasma de la nueva poesía latinoamericana pensada como la última ratio de los bien-pensantes.” (p. 233).
Temos poesia social na fina ironia de Alejandra Szir, uma crítica ao viés europeizante da sociedade argentina: “Nosotros que construimos Suecia/ usamos madera/ quizás de bosques./ […] veíamos Bergman desde los cinco años.” (p. 24). A ironia de Eliana Drajer: “Escuchar 17 veces a Vivaldi/ y abrir sigilosamente el gas.” (p. 45).
Os problemas de escrever poesia hoje na América Latina não são ignorados pelos autores. Lemos em Enrique Schmukler “El tormento de ser/ “escritor latinoamericano joven”/ tormento de ser uma repetida/ antología rogada por/ los chicos que se largaron a escribir/ en los noventa;” (p. 59); em Inés Aprea “y si la poesía no era/ otra cosa/ que el gesto adolescente/ de abandonarlo todo/ como Rimbaud/ como Bolaño/ lanzarse a los caminos” (p. 76); em Emiliano Bustos: “Los perros publicadores, mitad veraniegos, mitad 'yo leo en público como los cadáveres leen en privado'; publicaron tanto.” (p. 181)
O livro oferece também a densidade psicológica de Dafne Pidemunt: “El consuelo de escribir. Mi madre se emborracha. Una y otra vez la asesino. Muerta, resucitada, continúa suicidándose.” (p. 35); a desconstrução de gêneros de María Eugenia López: “Mi affair con Jessica Rabbit me enseñó a desear una muerte perfecta. Algún accidente de auto precipitado por la Mulholland Drive y dando de fauces en Sunset Boulevard, mi cara hacia atrás, como quien acaba de tener un orgasmo [...]” (p. 119).
Trata-se de uma geração que pode lembrar que “por lo demás poesía siempre amó con sus esfínteres” (Demetrio Iramain, p. 212).
Alguns poemas são panfletários, outros excessivamente decalcados de outros poetas (especialmente os de língua inglesa), e outros simplesmente não são poemas. No entanto, a antologia arde bravamente:

arder es comprender la ceniza

arde el río
y la casa del río

(Emmanuel Taub, “VI. incendio. p. 230)

domingo, 31 de outubro de 2010

Néstor Kirchner e duas mortes entre a memória e o terror


Eu estava em Florianópolis quando ocorreu a morte de duas pessoas que viveram em trincheiras opostas do direito à memória e à verdade: Romeu Tuma, antigo delegado-chefe do DOPS/SP, polícia política do Estado de São Paulo, e Néstor Kirchner, ex-presidente da Argentina, que dirigia, quando morreu, a Unasur.
Estava no Seminário Direito e Ditadura, muito bem organizado pelo PET de Direito da UFSC, onde tirei a foto acima (http://opalcoeomundo.blogspot.com/2010/10/evento-seminario-direito-e-ditadura-na.html).
No dia 27 de outubro de 2010, eu iria proferir uma palestra sobre direito e segurança nacional, a partir da análise de documentos do DEOPS/SP. Ao ser informado do acontecimento, incorporei à apresentação mais um documento, em que certo banco agradecia ao então delegado pela ação na repressão à greve, comunicando o comparecimento dos trabalhadores e sua jornada de trabalho. A questão social continuava sendo, como se dizia na República Velha, uma questão de polícia.
Ao lado, vê-se outro momento do cotidiano da repressão política no Brasil: receber correspondência da Anistia Internacional dirigida a presos políticos do Presídio Tiradentes. A fonte do documento é o Arquivo Público do Estado de São Paulo - APESP.
No dia 28, morreu Néstor Kirchner. Deve-se lembrar que ele impulsionou fortemente as políticas de memória (ao contrário de Menem, que as sabotou). Durante o seu governo as leis de anistia argentina foram revogadas, e ele propiciou as condições políticas para tanto, o que o distingue tremendamente do atual presidente brasileiro.
Para homenageá-lo, li no sarau do evento da UFSC, no mesmo dia, um poema de Julián Axat (sobre quem escrevi aqui: http://opalcoeomundo.blogspot.com/2010/07/o-poeta-e-jurista-julian-axat-nasceu-em.html), que imagina um pacto entre dois poetas assassinados pelo terror de Estado na Argentina, Francisco Urondo (1930-1976) e Miguel Ángel Bustos (1933-1976). O poema foi publicado em médium (poética belli) (Buenos Aires: Paradiso, 2006). Eis a minha tradução, que sairá, espero, em uma futura antologia:


pacto entre F. Urondo e M. A. Bustos (Pacto maior)



encontraram-se
e o pacto foi
que dessa noite
nesse impossível lugar
surgisse
o destino final da poesia

então
convocaram
os poetas caídos
os assassinados
os que ficaram cantando sozinhos
os que em alguma vez empunharam a palavra justa

todos se fizeram presentes
a brindar com suas armas-taças

para que nada seja em vão
para que o oco que separa

a nós deles
eles de nós

não possa ingressar
de novo nas palavras


O próprio Julián Axat, por sinal, homenageou Néstor Kirchner com um poema de Joaquín Areta, outro autor, assassinado pelo terror de Estado, que Axat vem recuperando na coleção Detectives Salvajes: http://coleccionlosdetectivessalvajes.blogspot.com/2010/10/lds-recuerdan-al-ex-presidente.html
Na postagem, pode-se verificar que o próprio Kirchner lê o poema no vídeo indicado.
Acabo de ver que Flávia Cera, uma das conferencistas do Seminário (com um ousado trabalho sobre as políticas do corpo e a Tropicália), escreveu também a respeito, referindo-se aos recentes julgamentos dos acusados de crimes contra a humanidade na Argentina: http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2010/10/para-que-nao-se-esqueca-para-q.html.
Para que não se esqueça, é preciso travar a batalha pelo significado do que passou. Para tanto, a pesquisa histórica é fundamental, mas não basta: parte desse significado é jurídico, por isso os juristas e políticos que advogam a impunidade fazem um desserviço para a questão.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Julián Axat e a pele viva da voz


O poeta e jurista Julián Axat nasceu em 1976, ano do último golpe militar na Argentina. Quando tinha sete meses de idade, seus pais foram sequestrados por agentes da repressão e nunca foram encontrados. Esse fato marca sua literatura e sua ação política: além de escrever e editar literatura relativa ao terror de Estado, ele integra a organização HIJOS, que reúne os descendentes dos desaparecidos políticos.
Desde 2008, trabalha como Defensor Público em La Plata, onde se ocupa do direito da infância e da adolescência. Na condição de editor, coordena um projeto de recuperação de documentos literários chamada Los detectives salvajes da editora de la Talita Dorada, de City Bell. Nela, foram publicados autores desaparecidos como Carlos Aiub (Versos aparecidos, 2007) e Joaquín Areta (siempre tu palabra cerca, 2010), o assassinado pela Triple A (o equivalente argentino do Comando de Caça aos Comunistas) Jorge Money (En la exacta mitad de tu ombligo, 2009). Também poetas contemporâneos foram incluídos, entre eles o próprio Axat e seu último livro, ylumynaria (2008).
Tirei esta foto enquanto Axat falava em São Paulo sobre essa experiência no Seminário Internacional Exílio e Migrações Forçadas: América Latina e Europa, em mesa com as professoras e historiadoras Priscila Ferreira Perazzo e Maria Luiza Tucci Carneiro (organizadora do evento, que ocorreu em abril de 2010 na ECA/USP).
Descobri a poesia de Axat em viagem à Argentina, vasculhando as estantes de poesia das livrarias. No número 22 de K Jornal de Crítica, publiquei resenha sobre os dois últimos livros desse autor ylumynarya e médium (Poética belli). Além desses, Axat lançou Los albañiles (La Plata, 1994), Peso formidable (Buenos Aires: Zama, 2003) e servarios (Buenos Aires: Zama, 2005).
Com a resenha, saiu a minha tradução deste poema de médium:


diário de viagem v.


às vezes
me meto no cemitério
e mergulho nos ossários

desesperado
navego
nado o nada

me afogo
me afogo entre fêmures e mandíbulas

armo puzzles impossíveis
dentes com metacarpos
omoplatas com espinhas

e assim passo a noite
escondido
cansado
de tanta originalidade
para armar elos perdidos

porém antes de converter-me
na fracassada “equipe-de-mim-mesmo-legista”

deixo os ossos de lado
e escrevo um poema

que me devolve
a pele viva de sua voz


Aqui pode-se ler o blogue da coleção Los detectives salvajes:
http://www.coleccionlosdetectivessalvajes.blogspot.com/

A resenha que escrevi ainda pode ser lida na Weblivros, no número 22 do K:
http://www.weblivros.com.br/k-jornal-de-cr-tica/index.php

Realizei com o poeta a entrevista Julián Axat: Poesia e desaparição, editada por Fabio Weintraub, que pode ser vista no YouTube. Ele trata da memória, desaparecimento e poesia, testesmunho, luto e impunidade. Trata-se de uma literatura que dialoga com a justiça de transição, portanto, mas também com a biopolítica, pois o direito à memória e à verdade é configurado como a recuperação e a reconstrução dos corpos desfigurados pelo terror do Estado. Apresentei um trabalho sobre isto na UFSC, e logo que estiver disponível, deixo aqui a ligação. Por enquanto, fica apenas mais esta, a da entrevista:



http://www.youtube.com/watch?v=_suAfSOzr3U