O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

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sábado, 22 de fevereiro de 2020

Uma ópera que se tornou livro: "A Judia", de Halévy, e "Em busca do tempo perdido", de Proust (30 dias de ópera: Dia 24)

É muito comum livros virarem ópera; trata-se do caso de várias das mais populares, como La Traviata, La Bohème, Carmen, que vieram todas da ficção francesa: Alexandre Dumas Filho, Henry Murger, Prosper Mérimée. Em geral, a adaptação para o palco exige corte de cenas e outras adaptações.
Mesmo quando o libreto da ópera inspira-se em obra para o teatro falado, ou quando o próprio texto da peça é musicado; por exemplo, a peça Salomé, de Oscar Wilde, que exerceu tamanha impressão sobre Richard Strauss que ele simplesmente encomendou a tradução para o alemão, teve de ser parcialmente cortada porque cantar um texto leva mais tempo do que simplesmente o ler ou pronunciar; além disso, há as seções puramente instrumentais: especificamente nesta ópera, a famosa Dança dos Sete Véus.
O enredo pode mudar bastante, por sinal, nessa transição do livro para a música no palco. As diferenças entre as duas Carmens, a de Mérimée e a da ópera, são notáveis; não só o caráter da cigana muda, como o livro tem personagens que a ópera não tem e vice-versa. Para o público, no entanto, as duas obras comunicam-se de alguma forma, mantendo suas identidades próprias.
O caminho inverso, a ópera tornar-se livro, que foi o que achei interessante para estes trinta dias, também ocorre: Kierkegaard escreveu sobre Don Giovanni (ainda não li); Bernard Shaw, sobre O Anel do Nibelungo (é divertido). A metalinguagem pode se desdobrar: em Doutor Fausto de Thomas Mann, pouco antes da visita do Demônio, Adrian Leverkühn "lia o ensaio sobre o Don Giovanni de Mozart"; logo depois, sente um"golpe de frio cortante" e a visita esperada chega.
Resolvi, porém, escolher um outro exemplo da ficção francesa, À la recherche du temps perdu (Em busca do tempo perdido), a genial e monumental obra de Proust.
A Recherche tem, entre suas múltiplas facetas, a de rechercher, investigar, pesquisar: diversos trechos são ensaísticos, entre eles aqueles que tratam de música. Há personagens músicos, como o violinista Morel. Proust chega a tornar uma peça musical em personagem: a Sonata do compositor (ficcional) Vinteuil.
Há diversas menções à ópera, alguns personagens frequentam a Ópera de Paris. Sobressai, para mim, a personagem Rachel, que é apelidada segundo uma ária da ópera La Juive (A Judia), do compositor  Fromental Halévy (que era judeu) e do libretista Eugène Scribe, que estreou em 1835. A história se passa no século XV.
Eléazar, judeu, teve seus filhos queimados na fogueira da caridade cristã por ordem do Conde Brogni. Ele foge da Itália e, no caminho para a Suíça, resgata um bebê em uma casa incendiada e a cria: trata-se da judia do título, Rachel. Na verdade, ela é filha biológica de... Brogni, cuja família sofreu esse atentado, e que, mais tarde, é nomeado cardeal. É claro que um príncipe, Léopold, se apaixona por ela e finge ser um estudante judeu para conquistá-la; ele é amado pela princesa Eudoxia. Casamentos entre judeus e cristãos são proibidos. O disfarce de Léopold é descoberto por Rachel, ela o denuncia na corte, todos são presos, Eudoxia suplica para que ela, a judia, assuma toda a culpa para salvar o príncipe, ela acaba por consentir, mostrando-se superior a uma cristã. Brogni exige que Eléazar se converta ao cristianismo para salvar-se. Ele recusa e confidencia que sua filha não morreu no incêndio criminoso, e que sabe quem é o judeu que a salvou, mas morrerá sem revelá-lo. Sozinho, então, ele canta a famosa ária "Rachel, quand du Seigneur": se ele confessar a verdade, que Rachel não é sua filha, ele a salvará; mas deverá fazê-lo: "eu dediquei minha vida inteira à tua felicidade, e sou eu, eu, eu, que te entrego ao carrasco".
No palco, podemos vê-la com o veterano tenor Neil Schicoff: https://www.youtube.com/watch?v=nrr0WJnL-GQ
Em concerto, com Roberto Alagna em sua primeira juventude: https://www.youtube.com/watch?v=8Zc03muelO8.
Eu ouvi essa ária pela primeira vez na voz de Enrico Caruso em um velho CD da RCA; embora "Una furtiva lagrima" e "Vesti la giubba" estivessem no mesmo disco, achei essa interpretação a mais forte daquele imenso tenor. Décadas depois (em 2018, creio), li a biografia escrita pela viúva, Dorothy Caruso. Ela conta que esta era a gravação de ária preferida pelo próprio cantor, e do último papel que ele aprendeu: https://www.youtube.com/watch?v=WTrtdJKlmOk
Eléazar ouve os cristãos gritando "morte aos judeus" e resolve não revelar o segredo. Ambos vão para a execução. Rachel apavora-se; Eléazar afirma-lhe que ela poderá salvar-se se converter ao cristianismo. Ela se recusa. Brogni pergunta a ele se sua filha perdida está viva; o judeu responde que sim. Ele quer saber onde, Eléazar mostra Rachel na fogueira: "Là voilà".
O Trovador, de Verdi, de 1853, traz outra dessas histórias em que a identidade do parente perdido do algoz é revelada no momento preciso em que ele é executado. Na história do Trovador, também temos racismo (contra os ciganos), fogueiras e um triângulo amoroso.
Na Recherche de Proust. Rachel aparece como uma jovem prostituta judia que é oferecida ao narrador, Marcel. Ele rejeita a oferta da cafetina, não sem apelidá-la de "Rachel quand du Seigneur", o ponto alto da famosa ópera. A cafetina não entende a alusão, mas acha uma graça a alusão blasfema.
La Juive é uma obra no estilo "Grand Opéra", típico do século XIX francês, com longa duração (cinco atos), balé e cenas espetaculares. A longa duração em Proust, no entanto, parece evocar mais Richard Wagner, com as frases longas de ambos, bem como o tratamento dos motivos, que são transformados ao longo da obra. Dito isso, apesar das várias referências ao compositor alemão, aquela ópera francesa recebe alusões mais significativas para o desenvolvimento da história.
Em Swann, lemos que o avô de Marcel implicava com os amigos judeus do neto cantando sem as palavras outra passagem da ópera, a prece "O Dieu de nos pères", bem como passagens de Sanson et Dalila de Saint-Saëns.
A ironia vai se transformando. Rachel torna-se atriz e namorada do nobre Robert Saint-Loup. A Duquesa de Guermantes, no terceiro volume da Recherche, afirma que ela não era uma atriz de primeira linha, e não via por que Saint-Loup se apaixonou. Simultaneamente, a discussão sobre o caso Dreyfus (o militar judeu falsamente acusado, em conspiração criminosa das forças armadas francesas, de traição), que revela o antissemitismo das elites francesas; nesse momento, o capitão injustamente condenado estava exilado na Ilha do Diabo, onde muitos condenados morriam por conta das precárias condições da detenção; não contente com a pena, o príncipe de Guermantes era da opinião de que todos os judeus devem ser deportados para Jerusalém! Mais adiante, descobrimos que ele deixou queimar uma ala de seu castelo para não pedir ajuda ao castelo vizinho, que era dos Rothschild!
O século XV ainda vivia na França... A duquesa de Guermantes comenta que mulheres andavam com sombrinhas com a inscrição "morte aos judeus" por causa do caso Dreyfus. Trata-se de outro paralelo com a ópera, na qual os cristãos gritam mais de uma vez exigindo o extermínio dos judeus.
Nesta interessante montagem de Arnaud Bernard para o Teatro de São Petersburgo, transportou-se a ação para o século XX e, já na abertura, judeus são espancados enquanto rezam: https://www.youtube.com/watch?v=wARdsIzwHzY. A atualização da ópera não fere em nada o espírito da obra; Stálin, por exemplo, notou que os problemas nela tratados eram atuais e a censurou...
Em O caminho de Guermantes, os antissemitas reclamam dos socialistas, dos estrangeiros e dos... judeus, claro, que eram pela inocência de Dreyfus. O jovem Saint-Loup, namorado de Rachel, que tinha que se esconder da família para encontrá-la e cumulá-la de presentes caríssimos, estava na contramão da família também nesse caso.
Em Sodoma e Gomorra, o quarto volume da Recherche, temos as interessantes comparações entre judeus e homossexuais na sua situação precária no mundo: estes tinham prazer em lembrar que Sócrates era um deles, assim como aqueles afirmavam o mesmo a respeito de Jesus. Proust pertencia às duas categorias e a Recherche corresponde a uma formidável denúncia dos preconceitos e da hipocrisia da sociedade francesa.
A Rachel de Proust, além de judia, amava mulheres. No livro, eu diria que o escritor vinga a personagem da ópera. Ela não casa com Saint-Loup; no entanto, ela contrai matrimônio com a filha do Swann, Gilberte (a fortuna da jovem aumentou com o dinheiro do padrasto, Forcheville, e a tornou muito atraente para os nobres arruinados), com a "cocota" Odette. A ligação de Swann com Odette fez com que as portas da alta sociedade lhe fossem fechadas. Depois de sua morte, contudo, sua filha se tornou uma Guermantes pelo casamento (em Albertina desaparecida) e Odette, no último volume (O tempo reencontrado) parece ter rejuvenescido em meio à decadência de seus contemporâneos.
Voltemos a Rachel. Em Albertina desaparecida, Marcel, o narrador, reflete sobre o casamento de Saint-Loup, embora ele seja homossexual como o tio, e na ligação com Rachel: "Ele quis dizer que ela era era Gomorra assim como ele era de Sodoma". Gilberte, aparentemente sem saber dos vários relacionamentos que o marido tem com homens, chega a imitar a aparência de Rachel para tentar agradá-lo.
A personagem de Proust, prostituta e depois atriz "de segunda linha", judia, lésbica, era assim tão pária quanto a da ópera, que tece o azar de se envolver com um cristão disfarçado. No romance, "Rachel quand du Seigneur" encontra um fim triunfante: O tempo reencontrado culmina em uma recepção na casa da nova princesa de Guermantes, que não é senão a Verdurin, que se casou com o príncipe, enquanto o duque tem ninguém menos do que a ex-proscrita Odette como amante (relacionando-se, contudo, também com homens mais jovens, atraídos por seu dinheiro). À decadência da nobreza corresponde a ascensão dos burgueses e até da antiga cocota. Mas também à da ex-prostituta: Rachel tornou-se uma atriz célebre; Marcel diz que ela está velha e feia e que ela tenta em vão seduzi-lo com olhares, mas sua apresentação no salão da princesa esvazia completamente a recepção simultânea de Berma, a atriz que já era célebre quando a outra começava esse caminho, e sempre a desprezou.
Durante a apresentação, o narrador comenta com acidez o estilo da atriz, que tampouco agrada à viúva de seu antigo namorado, Gilberte. Rachel se tornara, entretanto, em amiga da refinada duquesa de Guermantes. Gilberte, diante da declamação de uma fábula de La Fontaine, afirma que "Um quarto é da invenção da intérprete, um quarto vem da loucura, um quarto não faz sentido, o resto é de La Fontaine". Esse julgamento severo é compartilhado por Marcel, que julga Berma muito superior.
A filha e o genro de Berma, que a exploram economicamente, chegam inesperadamente e suplicam para entrar na apresentação de Rachel, mas ela já havia acabado. Depois de humilhá-los exigindo uma justificativa por escrito, ela consente em recebê-los para parecer magnânima. Revelando depois o incidente a Berma para humilhá-la, Rachel desfere na antiga e doente atriz um golpe fatal.
Outra vitória de Rachel: a duquesa, Oriane, julga que Marcel saiu de sua vida reclusa, depois de tantos anos, e apareceu naquela noite (a última antes de o livro dissolver-se no "Tempo") para ver a atriz!
Ao menos no plano metalinguístico, há verdade na afirmação, se entendermos que o romance tem como um de seus efeitos fazer justiça a Rachel, e não só a do livro ou a da ópera, mas aos párias que ela incorpora.


30 dias de ópera: um desafio político
Primeiro dia: A ópera de hoje (La Bohème de Puccini)
Dia 2: Uma montagem inesperada assistida (Tannhäuser, de Wagner, segundo Werner Herzog)
Dia 3: Uma estreia assistida (Erwartung, de Schönberg)
Dia 4: A primeira ópera assistida (Aida, de Verdi)
Dia 5: O primeiro disco de ópera (La Traviata, de Verdi, com Callas)
Dia 6: Uma despedida presenciada (Leonie Rysanek na Elektra, de Richard Strauss e Hugo von Hofmannsthal)
Dia 7: Uma vaia dada (restos de Don Giovanni, de Mozart)
Dia 8: Um aplauso dado (Davi e Jônatas, de Charpentier, O Anão, de Zemlinsky)
Dia 9: Uma ária favorita ("Casta diva", da Norma, de Bellini)
Dia 10: Uma abertura favorita (de Tristão e Isolda, de Wagner)
Dia 11: Um balé favorito (de Castor et Pollux, de Rameau)
Dia 12: Um recitativo favorito (de O retorno de Ulisses à pátria, de Monteverdi)
Dia 13: Uma risada favorita  (de Platée, de Rameau)
Dia 14: Um coro favorito ("Danças Polovitsianas" de Príncipe Igor, de Borodin)
Dia 15: Um silêncio favorito (Moisés e Arão, de Schönberg)
Dia 16: Ópera e natureza (Lohengrin de Sciarrino)
Dia 17: Ópera e desastre (Idomeneo, de Mozart; Peter Grimes, de Britten)
Dia 18: Ópera e assassinato (Tosca, de Puccini)
Dia 19: Ópera e orgasmo (A coroação de Popeia, de Monteverdi e Busenello)
Dia 20: Ópera e gênero (La Calisto, de Cavalli)
Dia 21: Ópera e negacionismo (O Guarani, de Carlos Gomes)
Dia 22: Ópera e coragem (Der Kaiser von Atlantis, de Viktor Ullmann e Peter Kien)
Dia 23: Uma ópera que se tornou poema (Orfeu, de Monteverdi e Striggio, e Murilo Mendes)
Dia 24: Uma ópera que se tornou livro
Dia 25: Uma ópera que se tornou filme
Dia 26: Uma ópera que se tornou música
Dia 27: Uma ópera que se tornou ópera
Dia 28: Uma ópera que se tornou protesto
Dia 29: Uma ópera que se tornou revolução
Dia 30: Uma ópera de amanhã

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Um aplauso dado: Em "Davi e Jônatas", de Charpentier, em "O Anão", de Zemlinsky (30 dias de ópera: Dia 8)

Como previ a vaia, tinha que criar um dia específico para o aplauso. Adoro aplaudir, aliás.
No entanto, nem todos vão ao teatro para isso. Lembro de uma vez, em que ganhei ingresso para ver a Renée Fleming (esta cantora) em São Paulo; na longa fila de autógrafos, uma senhora com a sua filha, que viajavam pelo mundo para ver apresentações de ópera, mostrava sua decepção com o fato de que o soprano tinha cantado bem, relativizou o sucesso pelo fato de a maior parte do repertório ter sido canções de câmara, com poucos agudos.
O "fiscal de decadência vocal" é um dos personagens abjectos presentes no público de ópera. Outro é o "inimigo" de certo artista, que vai às apresentações como "militante da vaia".
Era comum que o público de ópera aplaudisse, com as mãos ou, quando há muito entusiasmo, com os pés. Como, atualmente, muitos que vão assistir óperas começaram a aplaudir música em apresentações de música popular, há também assobios de satisfação, o que é uma revolução: no protocolo de ópera, o assobio significava o mesmo que vaia; vejam como o público do Scala de Milão se divide após uma alucinante interpretação da Cena de Sonambulismo de Lady Macbeth por Maria Callas: os imbecis são os que assobiam.
Hoje, se os artistas ouvirem assobios, sempre podem pensar, aliviados, que se trata de um aplauso de alguém que segue os protocolos das apresentações de música popular.


É difícil que o som de bater palmas seja irônico, por isso este som ainda é mais seguro.
Já aplaudi tanto e tão ruidosamente que fiquei paralisado diante deste tópico. Ainda mais porque deveria escolher um só! Resolvi relativizar: um só, no entanto em mais de uma categoria. Estou pensando em aplausos para os intérpretes, não para os compositores, que estão envolvidos nos outros tópicos do desafio.
Sempre quis aplaudir este grande regente do barroco, William Christie, um redescobridor especialmente na área do barroco francês; ele reensinou a reger Rameau, entre outros autores, e acabou se naturalizando francês (nasceu nos Estados Unidos) em 1995.
Seu grupo, Les Arts Florissants, foi criado em 1979 e nomeado a partir de uma obra de Marc-Antoine Charpentier, um dos compositores de que ele é especialista.
Eu o vi em São Paulo, em 15 de outubro de 2014, em um concerto com uma versão de bolso do grupo Les Arts Florissants. Antes disso, em janeiro de 2013, tive a sorte de ir a Paris e aproveitei para ver uma produção de Davi e Jônatas (David et Jonathas), obra de Charpentier que estreou em 1688, a partir da conhecida história da Torá.


Nesta encenação de Andreas Homoki, tomou-se como pressuposto a natureza homossexual da relação entre os protagonistas, "prova da infinita riqueza dos textos bíblicos". Já a Associação dos Juristas Islâmicos, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e os neoapóstolos de um deus armamentista e cultivador do ódio apostam na pobreza hermenêutica daqueles textos e na inanição da democracia.
O espetáculo foi produzido originalmente em 2012. Pascal Charboanneau (Davi) e Ana Quintans (Jônatas) retomaram os papéis que já tinham encarnado com a regência de Christie: https://www.youtube.com/watch?v=0Y0_6gt5U_k
Em discos de 1988, o maestro já havia gravado essa obra com um elenco quase todo diferente. Neles, já estava a Pitonisa do contratenor Dominique Visse, que era outro artista que eu desejava aplaudir. No prólogo da ópera (deslocado, na produção que vi, para o meio da obra) Saul quer saber o futuro e procura a Pitonisa, que evoca as potências infernais: "Ombre, c'est moi qui vous appelle" ("Sombra, sou eu que vos chamo"). Ele começa a chamá-la com ternura, é muito curioso. A voz aguda de contratenor, registro de Visse, responde à voz grave, de baixo, de Jean-François Gardeil.
O contratenor (e regente) fundou o conjunto Ensemble Clément Janequin, que gravou muitas canções polifônicas da Renascença francesa, e mesmo repertório do século XXI. Também interpretou ópera, participou daquele disco engraçados dos três contratenores (ele, Andreas Scholl e Pascal Bertin satirizando os "três tenores"). Recentemente, vi no cinema em São Paulo outro personagem feminino seu, a Arnalta de A coroação de Poppea, de Monteverdi, em que sua enorme verve humorística manifestou-se novamente. Arnalta é serva de Poppea; ele cantou muitas vezes a Nutrice, a serva de Otávia. Ele trocou de patroa... Provavelmente porque Arnalta é geralmente cantada por tenores (contraltos não costumam ter sucesso nesse papel).
Dominique Visse nasceu em 1955. Faz algum tempo que leio em certos periódicos de música críticas severas a seus discos, mas sem que mencionem seu nome, do tipo: "um contratenor que já teve seu momento de glória"... No entanto, a insolência de seu timbre e sua desenvoltura cênica continuavam a evocar as sombras infernais na obra de Charpentier. Aplaudi de pé.
Escolhi esta produção porque reunia artistas que há décadas eu queria aplaudir, e que já não são jovens. Talvez eu não tivesse, ou não tenha mais, outra oportunidade para lhes agradecer pela música que já interpretaram, e pelo fato de continuarem exercendo seu chamado à música.
Pensei, porém, que deveria também aplaudir uma instituição, um teatro, por continuar, apesar das dificuldades, a fazer ópera e a realizar uma programação interessante.
Como tenho morado em São Paulo, escolhi o Teatro São Pedro, onde já vi obras muito montadas, como O elixir do amor, de Donizetti, mas também estreias brasileiras de óperas como O Barbeiro de Sevilha de Paisiello, obra anterior à homônima de Rossini, até estreias mundiais de música contemporânea brasileira (acabei de ver O peru de Natal de Leonardo Martinelli e Jorge Coli).
Ou até esta ópera pouco montada no Brasil, O Anão (Der Zwerg), de Zemlinsky, em agosto de 2016.


Ademais, se trata de local onde se podem ouvir as vozes atuais e futuras do Brasil. Nomes consagrados, como Eliane Coelho, Paulo Szot, Gabriella Pace, Fernando Portari e outros, certamente, mas também as vozes novas (a Academia de Ópera Theatro São Pedro tem como fim formar novos intérpretes; vejam o vídeo da produção), que preponderaram nesta produção, protagonizada pelo tenor Mar Oliveira, que cantou o tempo todo de joelhos para compor o Anão.


Entre essas vozes, estava, em um pequeno papel, uma Rainha da Noite, Jéssica Leão. Ela interpretou o papel em agosto de 2019 na produção d'A Flauta Mágica da Associação Coral da Cidade de São Paulo com o maestro Luciano Camargo e o diretor Rodolfo Vázquez. Eu estava no Coro; testemunhei que toda noite ela cantava com segurança aquelas notas, inclusive os cinco fás superagudos.
Se bem me lembro, não ouvi a regência de André dos Santos, mas a do jovem maestro, da Academia de Ópera, Edson Piza. A orquestra estava muito bem. Pode-se ouvir a gravação de O Anão do São Pedro no canal de Jorge Coli: https://www.youtube.com/watch?v=XjJyKvFuf1c
A ópera de Zemlinsky, esta obra-prima de pouco mais de uma hora que estreou em 1922, foi elaborada a partir do conto “O Aniversário da Infanta”, de Oscar Wilde. Trata-se da conhecida história do Anão dado de presente à Infanta da Espanha, por quem ele se apaixona, sem saber que é julgado grotesco por ela e pela corte. Quando se vê pela primeira vez no espelho, leva um choque, razão pela qual morrerá.
O programa da ópera apontava a identificação do compositor (pessoalmente feio) com o personagem. No entanto, poderia se pensar, talvez, que a ópera no Brasil se identifica com esse anão, de certa forma; embora seja bela, ela é tratada como um anão grotesco pelas autoridades.
Esse desprezo pela ópera, que se estende a outras áreas da cultura, também afeta o Teatro. Com o ataque do governador Alckmin à Orquestra do Teatro em 2017, a falta de continuidade administrativa e os cortes de verbas (em 2016, por exemplo, O Trovador, obra tão popular de Verdi, teve de ser cancelado), não é realmente possível ter temporadas e assinaturas.
Aplausos a quem resiste à barbárie e continua fazendo arte nesta época em que o Estado não só deixa de apoiar os artistas (na música, no cinema, na literatura, no teatro etc.), mas os combate abertamente e instiga o ódio contra eles. Um governo que ataca Fernanda Montenegro, só por isso, merece ser derrubado.


30 dias de ópera: um desafio político
Primeiro dia: A ópera de hoje (La Bohème de Puccini)
Dia 2: Uma montagem inesperada assistida (Tannhäuser, de Wagner, segundo Werner Herzog)
Dia 3: Uma estreia assistida (Erwartung, de Schönberg)
Dia 4: A primeira ópera assistida (Aida, de Verdi)
Dia 5: O primeiro disco de ópera (La Traviata, de Verdi, com Callas)
Dia 6: Uma despedida presenciada (Leonie Rysanek na Elektra, de Richard Strauss e Hugo von Hofmannsthal)
Dia 7: Uma vaia dada (restos de Don Giovanni, de Mozart)
Dia 8: Um aplauso dado
Dia 9: Uma ária favorita
Dia 10: Uma abertura favorita
Dia 11: Um balé favorito
Dia 12: Um recitativo favorito
Dia 13: Uma risada favorita
Dia 14: Um coro favorito
Dia 15: Um silêncio favorito
Dia 16: Ópera e natureza
Dia 17: Ópera e desastre
Dia 18: Ópera e assassinato
Dia 19: Ópera e orgasmo
Dia 20: Ópera e gênero
Dia 21: Ópera e negacionismo
Dia 22: Ópera e coragem
Dia 23: Uma ópera que se tornou poema
Dia 24: Uma ópera que se tornou livro
Dia 25: Uma ópera que se tornou filme
Dia 26: Uma ópera que se tornou música
Dia 27: Uma ópera que se tornou ópera
Dia 28: Uma ópera que se tornou protesto
Dia 29: Uma ópera que se tornou revolução
Dia 30: Uma ópera de amanhã