O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

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sexta-feira, 7 de março de 2014

Leopoldo María Panero, o ninho do nada

Morreu ontem um dos maiores poetas contemporâneos, Leopoldo María Panero (1948-2014). Um de meus preferidos de todos os tempos, de uma forma que nunca me permitiu escrever nada sobre ele. Não conseguirei fazê-lo agora, mas darei o testemunho da minha mudez de leitor.
Não falarei de sua vida, atribulada e conhecida. Todos sabem que seu pai (Leopoldo Panero) aderiu ao regime, mas ele mesmo se tornou antifranquista e foi preso por isso e por consumo de tóxicos. Diagnosticado como esquizofrênico, passou mais da metade da vida internado em instituições psiquiátricas. Sua biografia, que inclui a bissexualidade, convidaria a lê-lo como "poeta maldito". Sua poesia, que afronta os valores convencionais, autoriza essa leitura.
Gosto da obra de seu pai e da de seu irmão Juan Luis Panero (ambos já mortos; o tio, Juan, nunca o li), mas ele sempre foi meu preferido na família pela carga de delírio que sua poesia conseguia conter, alargando as fronteiras da inteligibilidade, ou simplesmente desfazendo-a, e nesse desfazimento encontrando seu sentido.
Nisso, pode-se encontrar algum paralelo com Artaud (que ele conhecia bem e citava), além da questão biográfica de ambos terem sido pacientes psiquiátricos. Mas, de resto, são muito diferentes, os temas são dissemelhantes. Não vou mencionar as notas no Estado de S.Paulo e na Folha de S.Paulo, que não dão nem de longe a ideia da grandeza do poeta. É melhor ler a matéria que Luís Miguel Queirós fez para o português O Público.
Portugal também está muito melhor do que nós em termos de tradução de sua poesia. Confirmo agora no sistema de Biblioteca Nacional que não temos nenhum de seus vários livros, tampouco uma antologia a ele dedicada (se eu estiver errado, por favor corrijam nos comentários - ver nota).


De Gólem (Barcelona: Ediciones Igitur, 2008)

Vitória pálida do papel em ruínas
What then? sang Plato's ghost, what then?*
urinar sobre a ruína
vestir-se com pano para ir ao mercado
urinando uma vez mais
sobre o pescado
onde a têmpora grita como um veado
cagando na sombra
e gritando para o Nada
e gritando para o Nada na sombra
e errando pela página
como por um bosque
como pelo bosque cálido do Nada
e o morno da morte
em que um tigre caça pássaros sobre o vazio
com um revólver.

* William Butler Yeats



De Esphera (Buenos Aires: el ángel caído, 2008)

Imitando um homem

Oh, a bunda da voz
Electroshock que destrói meus dentes
Dentadura do silêncio na flor do nada
Homem que está feito do puro nada
Espuma que cai da minha boca
Semelhante a um homem
De mãos trementes e de turvo olhar.



De Mi lengua mata (Madrid: Arena Libros, 2008)

III

Perdido para sempre no ar da maldição
Na porta que range na casa abandonada
Movida somente pelo desabitado do grito
Pelo desabitado da alma que não povoa ninguém
Vendida ao inferno do poema, ao inferno do grito
Oh lágrima do poema e tremor do Universo
Porque o mundo é só uma sombra no ácido do grito
Oh tu, LSD, espírito do grito.



De Reflexión (Madrid: Ediciones Casus-Belli, 2010)

XLII

Rei da ruína sou
Nome oculto do desastre
Esperança na privada
Moscas voando em torno do papel
"moscas, moscas sobre o plátano nas ruas"
Lowell disse
Amparando-se no catolicismo da ruína
Piscando o olho para o desastre
Que assoma sem lábios sobre o papel
E morde.


É curioso como as citações aparecem; são mais conversações do que o que se faz normalmente como intertexto.
Escolhi poemas de livros recentes, onde são comuns as repetições, os paralelismos, as anáforas, que contrastam com um pensamento que não é linear e parece que vai se extraviar a cada momento. Tal sensação perturbadora fazia com que este poeta pudesse dizer, sem pose, sem afetação alguma:

Estou acostumado a falar do nada
E falar e falar do nada
Como o pássaro de seu ninho.

É um trecho de Esphera. Agora, que ele não está mais entre nós, talvez sejamos quem esteja, de fato, no nada, mas calados, sufocados no próprio ninho. Afinal, como lemos em Mi lengua mata: "Viver é um trabalho mal pago".


Nota: Li em outro lugar que Heitor Ferraz Mello lembrou que, certa vez, a antiga revista Inimigo Rumor circulou tendo como encarte Conversações deste Panero. Fui verificar, é o número 15 da revista: http://editora.cosacnaify.com.br/Loja/PaginaLivro/10730/Inimigo-Rumor-15---revista-de-poesia.aspx

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Poesia política: Cernuda, Brossa e Francisco Alba

Escrevi recentemente, para o Amálgama, algo como uma resenha sobre publicações no Brasil de dois grandes poetas ibéricos do século XX, de gerações e línguas diferentes (Luis Cernuda e Joan Brossa). Resolvi, porém, uni-los no mesmo texto, pois um dos tradutores, o poeta e historiador Ronald Polito, é o mesmo, e os dois poetas se opuseram ao fascismo espanhol.
As duas importantes antologias, Como eu, como todos (de Cernuda, tradução de Polito e Domènech Ponsatí) e Escutem este silêncio (do catalão Brossa, traduzido por Polito com apresentação do tradutor e de Victor da Rosa) foram publicadas pelo Lumme Editor.
A resenha é "Antifascismo e silêncio em Cernuda e Brossa": http://www.amalgama.blog.br/07/2013/antifascismo-e-silencio-em-cernuda-e-brossa/ No caso de Cernuda, trata-se da primeira antologia no Brasil, o que era uma grande lacuna para a bibliografia dos grandes poetas estrangeiros do século XX. Um pequeno trecho do que escrevi:
O nada, aspiração dessa poesia, o prêmio que ela tem a oferecer: “Mas liberdade a sós/ Ganhaste, e te parece// Vitória desolada,/ Figuração da morte” (“O prisioneiro”, p. 83). Neste trecho de “A um poeta futuro” (p. 73), Cernuda aposta na fecundidade política dessa aspiração:
Porque apresento neste distanciamento humano
Quão meus haverão de ser os homens vindouros,
Como esta solidão será povoada um dia.
Embora sem mim, de camaradas puros a tua imagem.
Se renuncio à vida é para achá-la logo
Conforme meu desejo, em tua memória.
Esta antologia serve para cumprir tal aposta na posteridade: que o isolamento do poeta pudesse encontrar uma comunidade, embora póstuma. 
A respeito de Brossa, o poeta catalão, um dos meus autores preferidos, fiz este comentário sobre a poesia visual:
Brossa pede-nos silêncio em “Relâmpago”: “Xiu! É melhor a imagem/ que o comentário.” (p. 27). Esse apelo aos sentidos possuía um significado político. Era necessário ver mais do que o sugerido pelo poder. Em “Fotografia” (p. 49), temos duas visões da letra f, extremamente significativa nesse período: Franco e fascismo são duas das possibilidades de decodificação. A letra, na visão frontal, é larga e imponente. Ao lado, temos o f em perfil: uma simples linha vertical, insignificante.
Gosto muito da poesia de Espanha e suas nacionalidades, de que deveria me ocupar mais. Traduzi José Ángel Cilleruelo, mas ainda não consegui escrever nada sobre Leopoldo María Panero. Um dos poetas contemporâneos de que mais gosto é Francisco Alba (Barcelona, 1967; escreve aqui: http://selvadevariaopinion.blogspot.com.es/). Seu último livro, Masa crítica (Madrid: Vaso Roto, 2013), assim como o anterior, El contrario (Madrid: PreTextos, 2008), lança um olhar desencantado e irônico sobre a história. Nesta "Elegía", a referência é a Guerra Civil (traduções minhas):
Fizemos uma guerra fratricida
e temos que reconhecer que nos matamos
com bastante eficácia.
O diabo devastava as colheitas
- quantas calamidades! -
cantando coros trágicos
mancando por sendas pedregosas
polidas pelos cascos das bestas. [p. 24]

Predomina, no entanto, o que se chama de história recente, principalmente a crise europeia, em que a Espanha está mergulhada até a medula. A "Balada de los ahorcados" situa a quebra da Grécia na história da Europa por meio do uso de citações em outras línguas, o que inclui o "Liebestod" da ópera Tristão e Isolda, de Wagner e, obviamente, a "Balada dos enforcados" de Villon. Este é um trecho próximo do final:
Dançamos o sirtaki em uma praia
com o Egeu sujo de petróleo.

Foi em Naxos que ouvimos a notícia.

Estávamos já mortos navegávamos
à deriva por um mar de chumbo
muito ao leste da zona euro

                              Je regrette l'Europe aux anciens parapets! [p. 37]

A citação do verso de "O barco ébrio", de Rimbaud ("Da Europa eu desejava os velhos parapeitos!", na tradução de Ivo Barroso), deixa tudo mais irônico. Esses parapeitos, que já foram gregos, não estão mais disponíveis para a Grécia.
No final do poema de Rimbaud, que possui uma forte dimensão política, não se pode mais nadar diante do orgulho das bandeiras e das chamas, sob os olhos horríveis dos pontões, navios onde eram presos os condenados à deportação. Em Alba, porém, os condenados são os que navegam, já estão mortos e foram dar no oriente.
E termino aqui, antes que esta nota se pareça com uma resenha, e não com uma simples expressão de admiração diante destes poetas nascidos em Espanha e sua sensibilidade política.