O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

30 dias de canção: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável

30 dias de canções
Dia 9: Uma canção sobre a felicidade

"Menina, amanhã de manhã", de Tom Zé e Antônio Perna Fróes. Estava em dúvida sobre qual escolher, e Fabio Weintraub me sugeriu esta canção, e logo vi que não poderia ser outra.
Aqui, pode-se ouvir com Tom Zé em 1972: https://www.youtube.com/watch?v=gXJ1gPhcaRw.  A cantora Monica Salmaso, de geração bem posterior à dele, gravou-a em 2004: https://www.youtube.com/watch?v=qDkI7irMO9s.
Nesta gravação ao vivo, também de 1972, ele canta uma letra um pouco diferente: https://www.youtube.com/watch?v=XWaYFx5NjTY.
Nesta gravação, do "Estudando o samba", disco que muitos anos depois encantaria David Byrne (e levaria à redescoberta deste grande músico brasileiro; vejam a história no documentário "Tom Zé - Astronauta Libertado"), ouve-se bem o ostinatohttps://www.youtube.com/watch?v=2Dcu2XWTT18
Desconcertantemente, a música pede para tomar cuidado com a felicidade; "Menina, ela mete medo/ menina, ela fecha a roda/ Menina, não tem saída/ De cima, de banda ou de lado". O clima é de jogo infantil, mas perigoso. Afinal, ela vai "desabar sobre os homens"; poderá matá-los? Salmaso enfatiza o sorriso e o lúdico; Tom Zé, a ameaça.
Nesta apresentação ao vivo, em 2010, ele elogia a cantora e brinca um pouco ao falar dela (que só cantaria a "beleza") e explica a origem da canção: "A ditadura fazia campanha dizendo que o Brasil era um país felicíssimo, ame-o ou deixe-o."
Em 1972, já dizia: "somos um povo infeliz bombardeado pela felicidade".
Ele comenta a influência da poesia concreta na segunda parte da música, que se compõe de jogos verbais; rimas e aliterações conduzem para simples sílabas até chegarmos a vogais, mas não o "u" (cada uma das estrofes só comporta quatro elementos), uma corrida para o inarticulado, e não uma decomposição da palavra felicidade (seria uma operação óbvia, ademais), que não tem o "o".
Ou para uma exclamação pura, a que faremos se um dia encontrarmos essa menina, a felicidade, tão jovem e tão perigosa? No final do número, o performer Tom Zé cai no chão gozando com o "a".
Creio que a segunda parte deriva das origens do compositor. No volume que o poeta Heyk Pimenta organizou sobre Tom Zé para a coleção "Encontros" da Azougue Editorial, o compositor, diversas vezes, ressalta sua origem interiorana, em uma comunidade em que prevalecia a cultura oral, em que a própria conveniência da alfabetização das crianças era objeto de debate.
Este natural de Irará que se tornou aluno de Koellreutter e passou pelo Tropicalismo com uma independência única, descreveu mais uma vez o choque da alfabetização e, depois, do saber acadêmico para alguém que vinha da cultura oral. Cito, do livro, entrevista dada a Christopher Dunn, "O elo perdido do tropicalismo":
Quando eu cheguei em Salvador, eu era um menino da roça e quando as pessoas me perguntavam, desde criança: "Vai chover?" eu suspendia a manga da minha camisa, procurava um lugar que estivesse ventando, procurava o vento e, a depender do calor do vento, da direção, da intensidade, eu dava uma opinião. Mas quando eu fui fazer em Salvador, na minha escola, as pessoas começaram a sorrir, como se eu fosse um ser estranho e maluco. Então eu fiquei com vergonha de ter essa sabedoria. Então eu tive, para conviver com os meus companheiros de escola, que me deseducar para poder me civilizar.
Na segunda parte de "Menina, amanhã de manhã", essa experiência de desalfabetização talvez seja uma das formas de resgate de um saber rico exatamente por não ser articulável. Em 1997, em outra das entrevistas recolhidas por Heyk Pimenta, Tom Zé disse a Pablo Pires do seu "gosto de fazer discursos não acabados, sugestões de pensamento que a pessoa pode se divertir com elas. [...] E acaba sendo uma coisa que, não tendo língua, não precisa traduzir. Me dá a oportunidade de chegar em lugares e de o público de qualquer país cantar." Versos que recolhem fonemas.
O livro recolhe a entrevista que ele deu à revista Caros Amigos em 1999. Ele diz que achava que "Menina, amanhã de manhã" seria um sucesso comercial... Mais interessante, porém, é o que ele diz da cultura oral:
Um povo que lê, um povo alfabetizado, que sabe escrever, não tem medo de perder sua cultura. Escreve livros, bota nas bibliotecas e vai ver novela. Não se preocupa com nada, está tudo ali escrito. O sertanejo é diferente. É esse tipo de analfabeto que eu sou e que Os sertões me mostrou que era o que eu devia continuar a ser. O sertanejo tem que falar cultura, dançar cultura, cantar cultura, fazer pensamento dos conhecimentos esotéricos na paisagem das caatingas num constante esforço para não perder a cultura que ele ama, mas não tem como registrar.
O caráter único de Tom Zé decorre de, apesar de ele ter ido à universidade, ele não renegou suas origens, fundadas em uma ética muito diversa do saber acadêmico e, com isso, criou um idioma único, que combina um saber verbal muito engenhoso com o inarticulável.
A citação trata de um aspecto da cultura oral que levou Mário de Andrade a elogiar a canção popular nas crônicas para a Revista do Brasil (Sejamos todos musicais: as crônicas na 3a. fase da Revista do Brasil. São Paulo: Alameda, 2013): o sertanejo a cria para não esquecer as histórias de sua vida e, por isso, a canção é sempre necessária.
Poder-se-ia dizer que se trata bem do contrário da produção massificada da indústria musical que, além de gerar canções marcadas pela obsolescência, isto é, feitas para serem esquecidas pela próxima moda, também precisa, para o sucesso comercial, canibalizar as tradições e calá-las.
Tom Zé ousou não seguir essa indústria; pagou o preço disso, mas também colheu os frutos felizes da ousadia necessária.


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Annita Costa Malufe e Angélica Freitas: Ana C. e a poesia contemporânea brasileira

Neste último sábado, na estranhíssima Biblioteca São Paulo, projetada de forma que não haja silêncio para leitura (fazem parte de sua programação ruidosos eventos de música), consegui ouvir dois dos mais interessantes poetas contemporâneos brasileiros na série apresentada pela jornalista Mona Dorf, "Autores e ideias": http://autoreseideias.wordpress.com/2013/05/07/sabado-11-e-dia-de-falar-sobre-a-poesia-contemporanea/
Angélica Freitas e Annita Costa Malufe leram poemas e responderam a perguntas da conhecida jornalista, do público e do professor Ivan Marques (que também fez um trabalho marcante no jornalismo literário no programa Entrelinhas da TV Cultura), que expôs uma panorama da poesia brasileira do século XX e comentou poemas das autoras.
Um dos vídeos exibidos trazia parte do trabalho de Annita Costa Malufe com seu esposo, o compositor Silvio Ferraz. Este é um exemplo: https://www.youtube.com/watch?v=ewsHPnuYRlo
Já escrevi como Ferraz é um compositor altamente inspirado pela literatura (http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2011/11/desenhar-um-lugar-tropico-das.html). Com sua música, temos a exacerbação do inarticulado no texto poético dessa autora. Muito apropriadamente, além da deformação sofrida por sua voz pelos meios eletrônicos, ela sussurra algumas passagens de seu poema, com momentos de ininteligibilidade.
Penso que a aspiração à música, tão presente nos três livros de poesia da autora, Fundos para dias de chuva, Como se caísse devagar e Quando não estou por perto, encontra nessa parceria uma deriva interessante, pois sua poética tem origem, creio, na imagem de "jazz do coração" que Ana Cristina Cesar emprega no poema "Este livro", de A teus pés. Annita Costa Malufe estudou essa poeta, devemos lembrar, no mestrado e no doutorado, e sua dissertação foi publicada: Territórios dispersos: A poética de Ana Cristina Cesar (São Paulo: AnnaBlume; Fapesp, 2006). Creio que o que ela vê nesta poeta é o que deseja para sua própria poesia:
Não busquemos o que está oculto nas palavras, no sentido de um significado fixo, escondido entre as linhas, codificado. O poeta não busca colocar símbolos no papel, como sinais nas placas de trânsito: uma coisa substituindo a outra, uma coisa remetendo a outra especificamente determinada. Não é mais de um senso comum de que se fala, mas antes, de um senso múltiplo a ser construído, sentido sempre por se fazer e que não é único e nem unificável, mas sempre uma multiplicidade. [p. 107]

Em que sentido esta poesia poderia aludir ao que ouvimos no jazz? A pergunta impõe-se também quando lembramos que ele não é o idioma musical que Silvio Ferraz emprega nas parcerias com a poeta. Creio que uma resposta plausível estaria na estrutura dos poemas, que tantas vezes parecem com um improviso sobre certas palavras. Vejam, por exemplo, o início deste poema da parte VII de Quando não estou por perto (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012):
só aquela cidade poderia me curar os passos
de um gato no escuro o gato preto só aquela
cidade o cheiro da boca do metrô eu estaria então
doente de uma espera sem nome um objeto
não identificado só aquela cidade o cheiro a
espera por um esquecimento buscar loucamente um [p. 150]

O fluxo poderia continuar indefinidamente, e o poema continuaria sendo uma "espera sem nome" pelo objeto que ele não agarrará, como outros poemas dessa autora que se interrompem em pleno fôlego. Quem procura objetos formais fechados não apreciará esta poesia, que nos convida a conhecer a voz do poeta no meio do processo do poema, que começou antes do primeiro verso e terminará adiante, quando não estivermos por perto.
Não se trata de qualquer jazz, portanto; talvez o que estes grandes músicos agrupados em torno de Miles Davis fizeram com Les feuilles mortes (a clássica canção de Kosma e Prevert) seja algo comparável: https://www.youtube.com/watch?v=SX4i9CieZYk. Os ouvintes que procuram o tema da música ficam perplexos...
Uma poética muito diferente é a de Angélica Freitas, sobre quem já escrevi (http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/10/angelica-freitas-e-o-tamanho-da.html) que também, no sábado, falou do impacto que lhe trouxe a leitura de Ana Cristina Cesar, ainda na adolescência. Espantou-se com o fato de que poderia se escrever "assim".
Imagino, porém, que a Ana Cristina presente na obra de Angélica Freitas não é a de Annita Costa Malufe. Para esta, A teus pés; para aquela, Cenas de abril, com seus poemas de caráter eticamente mais desafiador e de conteúdo menos deslizante. Lembremos, por exemplo, do início da primeira parte de "Arpejos", que foi publicado na célebre antologia que Heloísa Buarque de Holanda fez nos anos 1970: "Acordei com coceira no hímen. No bidê com espelhinho examinei o local. Não surpreendi indícios de moléstia."
A recusa ao sublime, ainda esperado na poesia pelo leitor médio, e a forma como o feminino aparece nesse livro de Ana Cristina Cesar ainda podem incomodar. A poesia de Angélica Freitas, em vários aspectos tão diferente dessa outra autora, gera incômodos semelhantes em leitores eticamente e/ou poeticamente conservadores, isto é, aqueles que desejam um papel de gênero tradicional para o feminino, bem como os que adotam uma visão tradicionalista do gênero poético.
Ivan Marques comparou um poema do primeiro livro de Angélica Freitas, Rilke Shake (São Paulo: Cosac Naify, 2007), com seu modelo: "O grande desastre aéreo de ontem", de Jorge de Lima. Angélica já contou a histórias várias vezes e voltou a fazê-lo para aquela plateia do sábado: em uma oficina de poesia, Carlito Azevedo propôs como exercício escrever um poema a partir da visão de um dos personagens desse poema de Jorge de Lima. Ela escolheu o violinista. Escrito o poema, "o que passou pela cabeça do violinista em que a morte acentuou a palidez ao despenhar-se com sua cabeleira negra & seu stradivárius no grande desastre aéreo de ontem", que ela, inicialmente, não queria apresentar, Carlito Azevedo percebeu que estava diante de um grande talento e deu-lhe o incentivo e a oportunidade de publicar o livro de estreia.
Bartók, Rita Lee, Stravinsky, notas musicais e outras coisas passam pela mente do músico (pela enumeração, sabemos que certamente não era a grande Ginette Neveu - http://www.youtube.com/watch?v=ThHPPOoSAwQ, morta em um acidente do mesmo tipo, quem inspirou a poeta) antes da morte, anunciada com humor: "que o chão é lindo & já vem vindo/ one/ two/ three".
No sábado, ouvimos o desabafo de Angélica Freitas de que não seria cobrada da mesma forma se escrevesse contos: "Por que em um poema não pode entrar Rita Lee?"
Compreendo perfeitamente a autora. Há fiscais da alfândega que querem determinar o que pode entrar no território poético. Trata-se de burocratas que querem passar por poetas ou críticos.
Com esse tipo de reação, entende-se que professores de literatura (digamos) que já escreveram coisas inteligentes possam falar que o próprio título do segundo livro de Angélica Freitas, “Um útero é do tamanho de um punho”, não é poesia, pois um útero é mesmo desse tamanho!
Contudo, precisamente esta é a força de Angélica Freitas: da mera constatação biológica, retirar, pela simples transformação do contexto (em um texto médico e em um livro de poesia, a frase não possui o mesmo sentido, óbvio), em imagem de um feminino pronto para o combate, nem que seja apenas para um murro no nariz desses burocratas.
Veja-se também a força de Ana Cristina Cesar, que informa tantas poéticas diferentes de hoje, como as de Annita Costa Malufe e Angélica Freitas que, devo ressaltar, não imitam esta autora, possuem voz própria. Elas tampouco esgotam o rol de poetas influenciados, que inclui autores homens.
Veja-se como Ana C., ela mesma, é vária, não se limitando à imagem redutora que Luciana di Leone descreveu e criticou como "o mito que proliferou na academia e na crítica, o sujeito inapreensível mascarado nos diferentes eus do texto, a significação aberta, a voz em permanente devir e a autora - genial - que consegue deslizar de qualquer definição." (Ana C.: As tramas da consagração. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008, p. 92).

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

30 dias de leituras: Beckett e o jogo após o fim do mundo

30 livros em um mês
Dia 13: Um livro após o fim do mundo.

Fiquei em dúvida - Dias felizes ou Fim de partida? Minhas lembranças de uma grande encenação argentina, com Pompeyo Audivert, Max Berliner, Pochi Ducasse e Lorenzo Quinteros, com direção de Audivert e Quinteros, que vi em 2009, decidiram pela segunda peça.
Não hesitei, contudo, em relação a este autor, Beckett.
Em Fim de partida, até ocorre uma morte - a de Nell, a mãe de Hamm - mas ela não tem nada de "dramática", pois não altera o curso dos não-acontecimentos. A impressão que sempre tive da peça foi a de que todos, no palco, são póstumos, e o mundo também - tal é a força do texto de Beckett.
No palco, há duas duplas. Uma delas, Hamm e Clov (nomes que sugerem diversas alusões, até mesmo a Hamlet) - este, o serviçal. Os pais de Hamm estão dentro de latões, separados. "O fim está no começo e no entanto continua-se.", exclama Hamm, talvez ecoando o início do segundo dos Quatro Quartetos de Eliot, "East Coker": "In my beginning is my end."
O curioso é que o poema de Eliot, embora tenha um espírito muito diverso, tem alguns versos que poderiam, para mim, estar na peça de Beckett: "The houses are all gone under the sea."; "We must be still and still moving/[...]/ Through the dark cold and the empty desolation,".
Em Fim de partida, o próprio mundo acabou - a comunidade entre os homens se desfez, e também o mundo físico: Hamm, em certo momento, pergunta a Clov se ainda é dia; a resposta vem numa formulação negativa, típica de Beckett: "Não é noite". A pergunta é repetida, Clov diz simplesmente "É". No entanto, não há luz. Hamm indaga se o que ele mesmo sente no rosto é um raio de sol - e Clov nega. Hamm ordena que ele abra a janela, porque deseja ouvir o mar - e nada se ouve: "É porque não há mais navegadores.", afirma. Também não há mais caixões, e é em vão que Hamm pede um para Clov.
Clov chega a ver, do alto da escada e com uma luneta, uma criança imóvel do lado de fora. Ele não sai para matá-la porque também isso não vale a pena - se ela realmente existir, irá até lá, ou morrerá.
Beckett, apesar de tudo, é engraçado - mas de um humor tristíssimo. Clov define assim "ontem': "Quer dizer a merda do dia que veio antes desta merda de dia." Em certo momento, Hamm inverte Smile de Chaplin e diz que choramos por nada, para não rir, e acabamos ficando tristes de verdade...
O texto é magnífico, porém mais impressionantes são os gestos e o que as frases carregam de inarticulado. Tanto as frases quanto os gestos são improfícuos e, por isso mesmo, são realizados - o que me parece algo oposto ao reino dos fins kantiano; temos nessa peça um reino, talvez (Hamm tem muito de tirano), mas sem finalidade alguma.
Diz Hamm, no monólogo final: "Momentos nulos, nulos desde sempre, mas que são a conta, fazem a conta e fecham a história." A partida acabou, mas continua; não há mais apostas nem vitória, mas os lances permanecem, sem sentido senão o da própria repetição.
Li o livro na grande tradução de Fábio de Souza Andrade, publicada pela Cosac & Naify. Na apresentação, ele aproxima a peça de Malone morre: "Em Malone, também confinado ao leito à espera do fim, encontramos um parente próximo de Hamm. Esteta e escritor mal realizado, ele acompanha sua progressão rumo ao silêncio [...]" - a progressão rumo ao silêncio; grande forma de qualificar a obra de Beckett.
Para terminar, uma frase da correspondência de Beckett, uma carta de 1938 que se aplica a este leitor depois de reencontrar esta peça: "It has gone pretty well, though it still hurts me to breathe."

sábado, 10 de setembro de 2011

30 dias de leituras: Proust e o inarticulado

30 livros em um mês
Dia 04: Um livro que faz você chorar.

Tempos atrás, decidi ler Em busca do tempo perdido (À la recherche du temps perdu), de Marcel Proust. Tinha já uns 25, 26 anos. Sabia da edição publicada pela Globo, traduzida por nomes como Mário Quintana e Carlos Drummond de Andrade, mas era cara. Vi em uma promoção um dos “episódios”, O caminho de Guermantes, na tradução de Fernando Py, e o comprei.
Logo descobri, porém, que não é possível lê-lo sem conhecer os livros anteriores, No caminho de Swann e À sombra das moças em flor (na tradução de Quintana, raparigas e não moças). Na verdade, Em busca do tempo perdido é um romance só, gigantesco – com um sentido de tempo que lembra o Wagner maduro. Da última ópera desse compositor, Parsifal, já se disse algo parecido com isto: passam-se dez minutos na plateia, apenas dois no palco. As longas descrições dos acontecimentos nos salões, em Proust, obedecem a uma lógica parecida.
Após descobrir que não é possível ler Em busca do tempo perdido a partir do meio, tão forte é a unidade da obra, comprei os primeiros livros e, enfim, todos os outros (Sodoma e Gomorra, A prisioneira, Albertina desaparecida - A fugitiva na tradução de Py - e O tempo recuperado). Gostei tanto (foi um prazer prolongado: demorei mais de dois meses para ler tudo), que no ano seguinte reli a Recherche, já em francês, na ótima mediateca da Maison de France no Rio de Janeiro.
Várias passagens do livro gravaram-se na memória – a que mais me emocionou, e voltou a fazê-lo hoje, quando a reli por causa dessa nota, foi a da doença e da morte da avó de Marcel – o personagem narrador do livro. A primeira parte de O caminho de Guermantes termina com uma revelação literariamente magistral da gravidade da doença da avó. Lemos o diálogo dos dois – e ela mantém sua conversação repleta de citações e alusões literárias, com a Madame de Sévigné em destaque.
O problema, contudo, era outro: “J’eus peur qu’elle ne remarquât la façon dont elle prononçait ces mots.”, ele teve medo de que ela notasse a forma como ela pronunciava essas palavras. Na última frase, lemos que ela teve um derrame e havia percebido que não adiantava escondê-lo. A doença não se revelava nas palavras – ela ainda era senhora do seu discurso – mas na dificuldade de articulação que corroía lentamente a expressão.
Nenhuma das várias mortes na Recherche é tão marcante quanto à da avó, creio, nem mesmo a de Albertine, que se dá de forma repentina (não contarei como) e longe de Marcel. No primeiro capítulo da segunda parte de O caminho de Guermantes, são descritos o declínio e a morte da avó, previstos por um médico que, bem mais adiante, é descrito impiedosamente pelo narrador: ele somente quis saber se a avó já havia morrido há muito tempo para certificar-se da exatidão científica de seu diagnóstico...
Ela tentou suicidar-se depois de perder a possibilidade de articular as palavras. Quando percebeu que já ninguém mais compreendia o que ela dizia, deixou de falar, “domada por sua própria impotência”. Ela foi surpreendida tentando abrir a janela, e a filha, mãe do narrador, em uma “luta quase brutal”, impediu que a doente se matasse.
No entanto, ainda restaria um som: já necessitando de balões de oxigênio, a senhora inconsciente emitia, acompanhado em surdina por um murmúrio incessante, “um longo canto feliz que enchia o quarto, rápido e musical”. Ele tinha uma origem puramente mecânica, o narrador o sabia. Mas era um canto, que se fez ouvir até sua morte – “um nouveau chant s’embranchait à la phrase interrompue”, parecendo vir de uma fonte inesgotável.
O momento da morte não é nada sereno, no entanto, e é descrito com uma dramaticidade (em um tempo bastante rápido, para Proust: um parágrafo curto) que me comoveu novamente hoje, ao relê-lo.
A avó é lembrada em alguns momentos no restante da obra – e o narrador se arrepende de não tê-la tratado melhor em certos momentos (como da foto que tiram juntos). Ela permanece incessantemente nas alusões da mãe do narrador.
Albertina desaparecida tem um trecho revelador, em que Marcel afirma que sua esperança era de esquecer sua amada, Albertine, o que ele sabia que aconteceria, como ele já tinha esquecido Gilberte (que, mais adiante, ascenderá socialmente e casará com Robert Saint-Loup, amigo do narrador), a Madame de Guermantes (por quem teve uma paixonite de jovem) e sua avó. Nesse mesmo livro, escreve que o mal (a dor) não tem lições a receber da memória: o mal que ele causou à sua avó, o que Albertine lhe causou eram um último laço, assim como um homem que esqueceu as belas noites passadas nos bosques ao luar, mas sente ainda o reumatismo que essas noites lhe causaram.
O livro é escrito contra essa lei do esquecimento – essa busca do tempo perdido é um esforço; no famoso último parágrafo de O tempo recuperado, lemos que não parecia que Marcel “teria ainda a força de manter por muito tempo ligado a mim esse passado que já descia tão longe”. O livro é fruto dessa força.
Volto à avó. A sutileza do discurso de Proust chega aos píncaros no preciosismo da fala dela, com suas mil alusões e referências, superando as personagens nobres mais esnobes. É significativo que seja esse o personagem que vá perder a capacidade de articular as palavras. Creio que isso já prenuncia o fim da alta sociedade descrita por Proust, que será precipitado pela I Guerra Mundial – em O tempo recuperado, vê-se que uma nova elite toma o palco.
Se em sua morte é lícito ver o prenúncio do eclipse daquela sociedade que descendia do Antigo Regime, penso ainda que podemos ver, na sua agonia, uma poética: o canto sem palavras que vinha da agonizante, uma longa frase aparentemente inesgotável, que por vezes se interrompia e era retomada em outra tonalidade, não poderia ser equiparada, mais do que à música de Vinteuil (personagem de Proust, sua arte é um dos eixos de todo o livro) ou à de Wagner, à própria música da frase de Proust? Essa longa frase – acompanhada de um murmúrio incessante – não seria a própria estrutura desta obra grandiosa que, devido a essa mesma estrutura, traz em si a comovente queixa surda de tudo que não foi descrito e foi deixado sem voz, inarticulado, no tempo?



P.S. No blogue de Niara de Oliveira, pode-se ver quem está participando destes 30 dias de leituras.